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Arquivo da Categoria Críticas

segunda-feira, 26 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 23:25

“Godzilla” explora signos de potência e vulnerabilidade

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Não é apenas a disposição de se apropriar de eventos trágicos reais, como a bomba atômica sobre Hiroshima, ou o mais recente tsunami, para legitimar seu desenvolvimento narrativo que distingue a mais recente versão de “Godzilla” tanto de seus antecessores, como da média do blockbusters da temporada. O que difere fundamentalmente a fita de Gareth Edwards, inspirado e seguro à frente de sua primeira produção de grande orçamento, é sua habilidade de problematizar a vulnerabilidade humana no mesmo compasso em que destaca a potência e força maiores que a vida de Godzilla, finalmente retratado como a indomável força da natureza, ainda que em sua concepção fantástica, que é.

O prólogo de “Godzilla” é bem climático. Por um lado, mostra um pesquisador (Ken Watanabe) no encalço da mística criatura. Por outro, mostra o engenheiro Joe Brody (Bryan Cranston) perdendo a esposa (Juliette Binoche) em uma usina nuclear em Tóquio em uma catástrofe sísmica que por 15 anos ele questionaria.

No presente, somos apresentados a Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson), o filho crescido de Joe e verdadeiro protagonista do filme. Ele se ressente do pai ausente, dedicado a provar uma teoria conspiratória que ocultaria as reais razões do terremoto que matou sua esposa. A partir desse mote, “Godzilla” vai construindo uma trama que independe dos anseios de vermos o rei dos monstros em ação. Há um drama familiar genuíno, mais bem estruturado do que de hábito em produções desse tamanho, e que oxigena a trama além do óbvio.

Godzilla: uma força devastadora e sempre impressionante (Foto: divulgação)

Godzilla: uma força devastadora e sempre impressionante (Foto: divulgação)

Há quem se queixe da demora de Godzilla em aparecer. Essa demora, se é que podemos qualificar o tempo que Edwards leva para mostrar sua principal atração de “demora”, é muito bem administrada narrativamente. “Godzilla” é um filme de clima, em que a ansiedade da plateia é muito bem alimentada pelo cineasta. Spielberg é uma referência muito forte neste sentido. Tanto “Tubarão” (1975) como “E.T” (1982) surgem como inspirações nada ocultas de Edwards. Passa por aí opção de frisar “Godzilla” como um herói incompreendido e também por observar o monstro a partir dos personagens em cena, excluindo-se o delirante e acachapante clímax da fita.

Essa atenção às miudezas, aliada a expressão inequívoca do gigantismo do Godzilla e das ameaças que ele enfrenta no planeta, confere à produção esse teor reflexivo que é vocalizado pelo personagem de Ken Watanabe de quando em quando.

Ken Watanabe dá relevância dramática a seu personagem, embora ele esteja ali só para explicar ( Foto: divulgação)

Ken Watanabe dá relevância dramática a seu personagem, embora ele esteja ali só para explicar ( Foto: divulgação)

Isso posto, “Godzilla” é, também, muito divertido. É diversão daquele tipo que buscamos no cinema. Deslumbramento e tensão entremeados por momentos de humor. Algo que o cinema americano faz tão bem, mas vem rareando no traquejo da fórmula. “Godzilla” é, em todos os sentidos, uma bem-vinda sessão de nostalgia.

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quinta-feira, 22 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:11

Obrigatório, “O passado” trata da complexidade das relações amorosas

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O passado é uma presença inescapável em “O passado” (2013), novo e potente filme do premiado Asghar Farhadi (“A separação”).  Como no filme iraniano vencedor do Oscar de melhor produção estrangeira em 2012, o cineasta está interessado em debater não só as escolhas, mas suas consequências na rotina conjugal de um casal. O casal em questão está desfeito. “O passado” começa com Marie (Bérénice Bejo) à espera de Ahmad (Ali Mosaffa) no aeroporto. Depois de quatro anos, ele retorna à França para oficializar o divórcio, a pedido dela. Ele a abandonara, sem grandes justificativas, para retornar ao Irã. Logo sabemos que Marie está em uma nova relação, com Samir (Tahar Rahim), cuja esposa está em coma no hospital, e deseja se casar com ele.

Ela tem duas filhas de um primeiro casamento frustrado. A mais velha (Pauline Burlet) rejeita a nova relação e demonstra isso com todas as suas forças. Samir tem um menino. Que sofre de um jeito bastante explosivo os reflexos dessa fase de mudanças, com a mãe em coma, o pai em uma nova relação, etc.

Ahmad, meio que inadvertidamente, entra no olho desse furacão. “O passado”, como se pode observar, não é um filme que almeja discutir uma história de amor, mas sim nossa capacidade de complexar nossas relações amorosas; e os efeitos colaterais dessa inclinação.

O que mais impressiona no cinema de Farhadi é sua capacidade de evoluir a narrativa com o aprofundamento constante dos conflitos centrais. Assim como o era “A separação”, “O passado” é um filme cujas camadas vão se revelando pacientemente à medida que mais da trama se toma conhecimento.

Esse rigor narrativo, tão bem engendrado por atores atuando com segurança, por um texto bem azeitado, e por escolhas de direção assertivas, torna “O passado” um filme de muitos níveis.

Filme explora muito bem o que não é dito, mas pressentido pela audiência (Foto: divulgação)

Filme explora muito bem o que não é dito, mas pressentido pela audiência (Foto: divulgação)

Por um lado, há a análise sugestiva dessa mulher que tenta a todo custo ser feliz em uma relação amorosa, que apresenta sinais de bipolaridade, e que negligencia as filhas. Por outro, há o iraniano que retorna à França depois de ter abandonado essa mulher. Sabemos que ele partiu por estar em profunda depressão, mas mais não sabemos. Ficamos apenas com conjecturas. Sua serenidade, no entanto, convida o espectador a assumir seu ponto de vista.

Há, ainda, Samir. Homem rústico, bem intencionado, e que sutilmente estabelece uma guerra silenciosa com Ahmad. Conforme o filme avança, a consciência alcança Samir. Aí entra em cena outro grande acerto de Farhadi. Aos poucos ele vai incutindo um debate inóspito. Existe uma ética a ser preservada em uma história de amor? É correto abandonar, sem qualquer aviso prévio, alguém com quem você divide uma vida e uma família? É correto se relacionar com alguém, cuja esposa se encontra em coma? Como se entregar a um novo amor, se há outro moribundo no hospital?

Farhadi aborda a culpa sob diferentes facetas e utiliza desde a inocência da infância até aspectos políticos como a imigração para aferir cor a esse recorte.

Por tudo isso “O passado” se fia como uma das obras cinematográficas mais extraordinárias a aportar nos cinemas brasileiros em 2014.

Uma menção especial, principalmente ao talento de Farhadi na direção de atores, é o menino Elyes Aguis, que interpreta Fouad, filho de Samir. Em seu primeiro filme, Aguis assume o personagem mais complexo da trama e com mais margem de erro, afinal não é fácil exteriorizar uma crise emocional interna, ainda mais em uma criança. Aguis abisma com talento, mesura e emoção. Ele é a demonstração mais eloquente de que “O passado” é um filme obrigatório.

Farhadi, à direita, orienta Bejo e Rahim no set de "O passado"  ( Foto: divulgação)

Farhadi, à direita, orienta Bejo e Rahim no set de “O passado”
( Foto: divulgação)

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quarta-feira, 21 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:38

“Amante a domicílio” é manifestação do ego de John Turturro

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Foto: divulgação

Foto: divulgação

Sabe quando você se sente mal e meio que por impulso e meio que por hábito resolve fazer compras no shopping ou ceder às investidas daquele grude do trabalho só para massagear o ego? John Turturro, ator e pretenso diretor, fez um filme movido por esse mesmo impulso.

Em “Amante a domicílio” (2013), Turturro vive Fioravante, um ítalo-americano que trabalha dois dias por semana em uma floricultura. Um amigo de longa data, um judeu vivido por Woody Allen, tenta convencê-lo a atender sua médica (Sharon Stone) que anda desejosa de pular a cerca, mas pagando por isso.   Fioravante, naturalmente, a princípio recusa a ideia de se prostituir. “Sou um homem feio” se resigna. Ao que o personagem de Allen devolve, “mas você tem o mesmo sexy appeal de Mick Jagger”, notório feio de sucesso junto ao mulherio.

Estabelece-se dessa maneira o elemento que desencadeia a ação do filme. Fioravante topa se prostituir e rapidamente se torna uma figura concorrida no séquito de clientes do cafetão informal bancado por Allen.

Fioravante se define como um homem simples, sem grandes predicados, mas fala italiano, francês e espanhol em variados momentos do filme, demonstra conhecimentos literários e históricos, e ainda tem jeito com a mulherada. É Turturro falhando na missão de afastar seu filme da mera masturbação egóica.

Conforme avança a trama, surgem pequena nuanças como um painel, mal configurado, da cultura judaica e um comentário sobre como a solidão amarga a existência, mas são apenas ruídos em um filme que parece moldado para atender demandas, sejam elas quais forem, de seu realizador.

É lógico que todo esse raciocínio se arrefece com a curiosidade de ver Allen atuando em um filme que não é seu, algo raríssimo, e ainda por cima fazendo um cafetão. Outro hype certeiro é juntar Sharon Stone e Sofia Vergara, mulheres maduras reconhecidas pela sensualidade, como ricas entediadas a procura de aventuras sexuais.

“Amante a domicílio” não chega a ser decepcionante, desde que dele não se espere um filme de Woody Allen, uma armadilha previsível, mas sim um entretenimento rasteiro com ar de sofisticado.

Sharon Stone e Sofia Vergara em cena do filme: a serviço de um hype que nunca se sustenta

Sharon Stone e Sofia Vergara em cena do filme: a serviço de um hype que nunca se sustenta

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segunda-feira, 19 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 23:13

“Praia do futuro” é um filme de grande sensibilidade e muitas belezas

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O diretor Karim Aïnouz e os protagonistas de seu filme (Foto: divulgação)

O diretor Karim Aïnouz e os protagonistas de seu filme (Foto: divulgação)

Karim Aïnouz constrói das filmografias mais prodigiosas, complexas e enriquecidas temática, estética e narrativamente de nosso cinema. Seu mais recente filme, ambicioso na forma, no tema e na maneira como se apresenta ao público, ganhou holofotes por ter feito parte da competição oficial do festival de Berlim em fevereiro último. Mas “Praia do futuro” não é um filme de fácil apreciação. Aïnouz se recusa a estabelecer uma narrativa tradicional e enxuga o que considera excesso em seu filme. Esse cinema de silêncios e ritmo lento são características essenciais de sua obra, assim como a investigação de personagens às voltas com escolhas decisivas em suas vidas.

Nesse sentido, “Praia do futuro” se aproxima do trabalho anterior do cineasta, “O abismo prateado”.  Primeiro porque trata de abandono; segundo porque é originalmente inspirado em uma música. Se no filme estrelado por Alessandra Negrini, inspirada pela canção “Olhos nos olhos” de Chico Buarque, o ponto de vista era do abandonado, na nova produção, inspirada pela canção “Heroes”, de David Bowie, a perspectiva é a de quem abandona.

Estabelece-se, assim, uma relação interessante entre os filmes. Relação esta adensada por algumas opções narrativas de Aïnouz, como o “descarrego” espiritual em uma boate, a importância do mar no desenlace do conflito principal, entre outras.

Em “Praia do futuro”, Wagner Moura vive Donato. Um salva-vidas que trabalha na praia cearense que dá nome ao filme e que se envolve com uma das vítimas que resgata. Ele pula na água para salvar dois turistas alemães que se afogavam. Consegue salvar um, mas perde o outro. É seu primeiro fracasso e ele o sente bastante. Se ele perdeu, Conrad (o excelente Clemens Schick) perdeu também. No caso deste, o amigo e companheiro de viagem. Donato e Conrad se envolvem. O sexo é um amparo oportuno. Mas é, também, um chamado que Donato custa a interpretar, mas que Aïnouz traduz em imagens fortíssimas como quando ele se “desconecta” dos outros bombeiros em um dia de treinamento.

Essa confiança no poder da imagem, mas também na capacidade do espectador em decifrá-la, permeia “Praia do futuro”.

Findado o primeiro ato do filme, poeticamente denominado “O abraço do afogado”, flagramos Donato em Berlim. Passou-se algum tempo quando o segundo ato, ou capítulo, chamado “Um herói partido no meio” se desenrola. Donato está feliz, mais efeminado, mais à vontade com seus sentimentos. E aí entra a importância da sexualidade do personagem. Não há um motivo claro para a partida de Donato, mas sua homossexualidade e a possibilidade de vivê-la plenamente em Berlim ganham força na organização narrativa proposta por Aïnouz.

Donato sente falta da praia. Sente falta da família. Donato se questiona se deve assumir aquela vida idílica, de amor, paixão e tesão.  Quando anuncia um retorno jamais concretizado ao Brasil, ouve de Conrad o termo “covarde”. A covardia se refere à negação de seu verdadeiro eu, não ao fato de deixar Berlim para voltar ao Brasil.

Wagner Moura encarna personagem vivo, trêmulo, cheio de hesitações e desejos (Foto: divulgação)

Wagner Moura encarna personagem vivo, trêmulo, cheio de hesitações e desejos (Foto: divulgação)

O capítulo demonstra o apuro de Aïnouz. A fotografia de Ali Olay Gözkaya revela Berlim como uma cidade fria, em contraste com o calor de Fortaleza. Aïnouz abre o capítulo com Conrad e Donato dançando e a dança, alegre, desajeitada, logo evolui para um sexo cheio de tesão e entrega.

Aïnouz confia nas imagens e na expressividade de seus atores, por isso a exigência do elenco, e não se trata apenas de falar idioma estrangeiro ou fazer cenas homossexuais, é tamanha. Olhares, posturas e gestos precisam se comunicar de uma maneira que o cinema nacional não costuma demandar.

O terceiro capítulo, “O fantasma que fala alemão”, é um espetáculo do minimalismo. Entra em cena Ayrton (Jesuíta Barbosa), o irmão abandonado por Donato. Ele viajou a Berlim para saber se o irmão estava vivo. Teve o cuidado de aprender alemão para o caso do irmão “ter esquecido o português”.

Mais uma vez, Aïnouz aposta nas imagens. O reencontro dos irmãos é dessas coisas que transbordam emoção genuína. Algo que o cinema menos e menos é capaz de prover.

Sem julgamentos, sem bandeiras, “Praia do futuro” versa sobre humanidades. Dor, coragem, medo e desejo se bifurcam em uma saga errante em busca de reinvenção, de propriedade.

A grande sacada do filme é exteriorizar todo um conflito interno a Donato nas disparidades entre as cidades, na sua busca pelo mar na Alemanha e na sua hesitação em acolher o irmão que lhe traz o passado.

Um filme de tanta sensibilidade precisa de um ator capaz de atuar em diferentes tons. Wagner Moura, em mais um desempenho digno de nota, confere a Donato a mais bela das contradições. A de quem enxerga a felicidade, mas não sabe exatamente como agarrá-la.

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sexta-feira, 16 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 23:46

“Sob a pele” é agonia erótica

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Foto (Divulgação)

Foto (Divulgação)

O terceiro filme de Jonathan Glazer é uma obra difícil. E ser difícil é um de seus muitos méritos. O ruído estético de um cineasta de forte apuro visual e interesses pouco comerciais já podiam ser notados em “Sexy beast” (2000), um drama de máfia de singularidade invejável, e “Reencarnação” (2004), uma perturbadora leitura de traumas e luto. “Sob a pele” (2013), sob muitos aspectos, é um avanço na opção de problematizar uma narrativa. Glazer se inebria na forma e exaure no conteúdo.

Scarlett Johansson faz uma alienígena que, ao que parece, alimenta alguma curiosidade pela humanidade. Vemo-la perambulando por ruas escocesas em uma van branca abordando e seduzindo homens para devorá-los. Não fica claro exatamente qual a razão desse ritual, mas ele é repetido massivamente. Existe um padrão. Ela parece interessada especialmente pelos tipos solitários.

A jornada da personagem, inominada, reverbera uma busca hermética pela humanidade, pelo que nos caracteriza como humanos. A alienígena objetiva nos punir ou compreender? Talvez um pouco dos dois. A sensorialidade impressa por Glazer sugere que mais do que uma resposta fechada, é o erotismo da pergunta que interessa. E erotismo, ainda que sombrio e agonizante, não falta a “Sob a pele”. A promessa furtiva de sexo com um símbolo sexual como Scarlett Johansson é algo que move tanto o interesse dos homens abordados, em sua maioria atores não profissionais, como da audiência.

A trilha sonora robusta, onipresente e grave de Mica Levi ajuda a aferir o clima de horror à saga dessa personagem e contribui, também, para a verve psicossexual do filme. É uma produção de ritmo lento, poucos diálogos e muitas imagens inusitadas. Glazer flerta com o surrealismo sem perder o realismo de vista. Abre o filme com homenagens a Stanley Kubrick e David Cronenberg, entregando que sua personagem não é deste planeta, e abusa de metáforas visuais que parecem saídas de clipes de rock (coisa que ele já fez para bandas como Radiohead e Blur).

Scarlett Johansson, por seu turno, merece louvores. Não tanto por sua atuação, de difícil apreciação em sua proposição obtusa, mas pela coragem de se entregar a um papel sem objetivos claros. A confiança no diretor, e não só pelas muitas cenas de nudez, inclusive frontal, precisa ser absoluta. Enfeiada, na medida do possível, estática, quase sorumbática, e ainda assim excitante, a atriz se oferece como uma tela em branco para a visão de Glazer.

“Sob a pele” dividiu a crítica quando exibido no festival de Veneza em 2013. Não é um filme desejoso de produzir sentido e isso incomoda bastante a muitos. Há uma cena em que a alienígena freia abruptamente, desliga e sai do carro. Ela adentra um forte nevoeiro, olha a esmo por alguns minutos e volta para o carro. Qual o significado desta cena aparentemente descolada do fluxo cronológico da narrativa? Estaria ela perdida? Estaríamos nós perdidos? Sabemos exatamente o que estamos fazendo aqui (na vida, no planeta)?

“Sob a pele” oferece, a quem estiver disposto a digressionar com o filme, uma leitura pessimista, por que não bizarra, do que é ser humano.

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quarta-feira, 14 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:36

Espaço Cult: “Só Deus perdoa”

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Ryan Gosling em cena do filme "Só Deus perdoa" (Foto: divulgação)

Ryan Gosling em cena do filme “Só Deus perdoa” (Foto: divulgação)

Nicolas Winding Refn não era exatamente um novato, mas um desconhecido quando impressionou o mundo com o estilizado e impactante “Drive” em 2011, mas o prêmio de melhor diretor conquistado em Cannes naquele ano e a forte acolhida da crítica lhe motivaram a ser ainda mais autoral no seu trabalho seguinte. Diferentemente de “Drive”, no entanto, “Só Deus perdoa” (2013) tinha a forte libido das expectativas a lhe preceder. E o resultado da combinação entre expectativas exacerbadas e veia autoral irrestrita não poderia ser mais desestabilizador.

Não é o caso de dizer que o filme é ruim. Ou bom, que o valha. “Só Deus perdoa” é um filme de clima, filme com uma proposta muito clara, ainda que complexa: subverter uma narrativa clássica do gênero da ação com arrojo estético tão prolixo que beira o delírio.

No filme, Ryan Gosling volta a viver um tipo silencioso. Ele é Julian, dono de uma academia de boxe na Tailândia que é, também, traficante de drogas. Depois que seu irmão é assassinado, Julian é incitado pela controladora mãe (papel de Kristin Scott Thomas) a vingá-lo. Acontece que seu irmão foi morto pelo pai da menina de 16 anos que ele havia estuprado e matado. E a sina vingativa da mãe de Julian esbarra em um policial pouco ortodoxo que costuma tomar a justiça em suas próprias mãos, papel de Vithaya Pansringarm.

A sinopse sugere um filme muito mais acelerado do que o que se tem. “Só Deus perdoa” conjuga violência, luzes frias e silêncios como se somente esses recursos viabilizassem a narrativa cinematográfica. A ideia de Refn não é fazer um filme de ação, mas pensar o gênero. Ele se apropria do mote mais manjado (policial faz justiça com as próprias mãos e enfrenta cartel de traficantes) e tira toda a velocidade da narrativa, preservando os personagens comuns, a cena de luta bem coreografada e a sede de vingança que movimenta a trama.

A montagem não busca revelar, mas esconder. A relação de Julian com sua mãe é erguida sobre elipses e o fantasma da sexualidade é uma presença marcante. Em filmes de ação, os personagens costumam alimentar uma tensão sexual improvável para tais circunstâncias, mas Refn recorre a Freud e estabelece uma lógica edipiana por trás das hesitações de Julian em assumir o papel que sua mãe dele espera.

Mas o melhor do filme de Refn, que para todos os efeitos é menos entusiasmante do que “Drive”, é mesmo Kristin Scott Thomas. Aos 54 anos, a atriz ainda consegue projetar-se como um vulcão de sexualidade e sempre que surge em cena eleva o interesse da audiência. Thomas captura a essência da dramaturgia de Refn em “Só Deus perdoa” e quanto mais se revela, mais esconde de sua personagem. Uma atuação que sobrevive à provável decepção que muitos terão com o filme.

Kristin Scott Thomas como a loira platinada mais selvagem que você poderia imaginar ( Foto: divulgação)

Kristin Scott Thomas como a loira platinada mais selvagem que você poderia imaginar ( Foto: divulgação)

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quarta-feira, 7 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:33

Crítica – “Divergente”

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Em um mundo em que a literatura juvenil é explorada quase que a toque de caixa pelo cinema e que duas ficções científicas com futuros distópicos ganham os cinemas contemporaneamente, é um prazer ver que “Divergente” (2014), baseado na obra homônima de Veronica Roth apresenta reflexões que fogem ao esquematismo do gênero. Não é o caso de comparar com “Jogos vorazes”, comparação automatizada pelas similaridades entre as sagas, mas de distinguir o discurso muito mais bem fundamentado e eloquente apresentado no filme dirigido por Neil Burger.

No futuro de “Divergente”, a sociedade cedeu ao totalitarismo e se organiza em cinco facções. Erudição, audácia, abnegação, franqueza e amizade. Na adolescência, todo cidadão é submetido a um teste que deve orientá-lo a escolher em qual facção irá viver. Existe até um slogan: “facção antes do sangue”. Essa objetividade aumenta a pressão, uma vez que submetido a uma fação, não há caminho de volta. Aqueles que não se encaixam em nenhum desses recortes são chamados de divergentes.

É uma premissa interessante muito bem explorada pela dramaturgia de Roth e potencializada pelas escolhas de Burger. Nossa sociedade adorar rotular. É algo inescapável a ao convívio. O gordo, a vagabunda, o gay, o chato e por aí vai. O que “Divergente” propõe enquanto reflexão é a força que insurge do íntimo de cada ser humano contra esse rótulo externo.

Nesse sentido, se comunica com a audiência com muito mais propriedade por não se restringir à alegoria política, como o faz seu “rival” “Jogos vorazes”.

Com uma heroína cativante e um plot bem amarrado, filme agrada e convence    (Foto: divulgação)

Com uma heroína cativante e um plot bem amarrado, filme agrada e convence (Foto: divulgação)

A luta da protagonista (Beatrice Prior), vivida com indesviável carisma e dedicação pela competente Shailene Woodley, é tanto contra o sistema, como contra o rótulo que lhe foi imposto pela sociedade. É, também, contra seus próprios limites.

Existe, é claro, a necessária subtrama do romance. Mas ela é administrada com a sutileza necessária para não se impor às prioridades narrativas. Outro acerto da condução de Burger. Além do mais, Theo James, que vive o indecifrável Four, é um talento nato. Transbordando carisma e com muito domínio de seu personagem, o ator gera boa química com Shailene Woodley e garante fôlego impensável para seu papel.

Já foi anunciado que a franquia terá quatro filmes, o terceiro livro será dividido em duas produções. Se não tem uma bilheteria irrepreensível, “Divergente” tem uma história pulsante, muito bem transposta para a tela grande e, principalmente, promissora, a seu favor.

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terça-feira, 6 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:11

Crítica – “O espetacular Homem- Aranha 2: a ameaça de Electro”

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“O espetacular Homem-Aranha 2: a ameaça de Electro” é um filme que tem a ambição de ser superlativo. Tem duração de duas horas e meia; tem um conjunto nada desprezível de três vilões; objetiva dar seguimento a linha cronológica envolvendo os pais de Peter Parker e, simultaneamente, ser cativante como filme individual.

Isso tudo em uma embalagem para lá de pop e calcada em ação acelerada entremeada por um romance que ganha mais atenção do que o habitual em filmes de super-heróis.

Neste segundo filme, Peter Parker já surge à vontade como o Aranha. A cidade de Nova Iorque, no entanto, parece questionar a viabilidade de um herói mascarado que gera muitos prejuízos à cidade. Mas essas reminiscências pouco interessam à realização, mais centrada em propor uma colisão dos conflitos do adolescente Peter Parker com os do herói ainda inseguro quanto a sua função social.

O problema é que essa colisão é muito mal executada. Marc Webb atendeu bem ao desejo do estúdio de rejuvenescer o personagem e se houve mudanças que desagradaram os fãs mais xiitas, elas se justificam na necessidade de se distinguir da trilogia rodada por Sam Raimi.

Mas a trilogia em questão é um fantasma que não pode ser apartado por mudanças pontuais aqui e ali. A evolução de Peter Parker foi melhor tateada por Raimi. Enquanto Webb desenrola uma teia conspiratória que só se mostra excessiva, seu Homem-Aranha perde em apelo dramático na comparação com o de Raimi. Ele parece revisitar os mesmos conflitos, mas com muito menos propriedade.

O romance entre Peter e Gwen é o grande destaque do filme (Foto: divulgação)

O romance entre Peter e Gwen é o grande destaque do filme (Foto: divulgação)

Tome-se como ponto fundamental os vilões desse filme. Electro, o vilão principal e que tem seu nome no título, perde a posição de antagonista para o Duende verde, catalisador de um evento chave que já vem das HQs e tem todo o seu arco dramático comprometido por motivações nunca bem adensadas narrativamente. Não ajuda o fato de Jamie Foxx ceder à caricatura em sua caracterização.

Outro aspecto é a linguagem adotada por Webb. Enquanto muitos correm atrás do realismo, na esteira dos feitos de Christopher Nolan na trilogia do Batman, Webb opta por mimetizar a linguagem visual das HQs. O que a princípio pode parecer uma vantagem, gera um estranhamento irreversível e que, em última análise, torna o filme perigosamente pueril.

A seu favor, “A ameaça de Electro” tem a química entre Andrew Garfield e Emma Stone, que são namorados na vida real, e o bom uso do humor, uma prerrogativa básica do Aranha, mas é muito pouco. Para um filme tão ambicioso, ter seus melhores momentos no adornamento de um romance teen chega a ser ofensivo.

“A ameaça de Electro”, no entanto, é um produto mais bem acabado do que seu antecessor. Mas sofre da mesma sina. É um filme esquecível.

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