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Arquivo da Categoria Críticas

sexta-feira, 15 de agosto de 2014 Críticas, Filmes | 18:53

“The Rover” é a crônica da desesperança anunciada

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O cinema australiano não tem tradição, mas oferta ao mundo um cineasta que se arrisca a instituí-la com ousadia, criatividade e robustez. Depois de impressionar com sua estreia, no intenso, violento e surpreendente “Reino animal”, David Michôd realiza um filme ainda mais complexo, desorientador e criativo. “The rover”, que no Brasil ganhou o péssimo subtítulo “A caçada” é um filme de ritmo espinhoso, mas intelectualmente compensador.

É também um estrato do cinema pensante. Vale-se do universo da ficção científica, da cenografia e cânones do western e do ritmo de filme de arte para ensejar um drama que busca um tipo muito particular de reflexão. A estrutura narrativa é apenas uma das ousadias de Michôd. A desconcertante cena final, que aventa “o sentido absurdo da vida” quando a condução da narrativa encorajava o espectador a abandonar a busca por qualquer sentido mais encorpado na trama, é a cereja do bolo de um filme que merece ser descoberto e apreciado.

foto: divulgação

foto: divulgação

Estamos em um futuro pós-apocalíptico, mas ele nada se distingue do presente. O colapso econômico tenta a civilização a ruir e é no deserto australiano que Michôd encena sua crônica da desesperança. “Há dez anos segui minha mulher e vi um homem enfiando os dedos nela. Matei os dois e nada aconteceu comigo”, brada o protagonista vivido com a retidão dramática necessária por Guy Pearce. “Ninguém veio atrás de mim. Esse é o tipo de coisa que não pode passar impune”, explica ele, em dado momento do filme, a um homem que é apenas uma sombra do que outrora foi um oficial da lei.

Quando esse forte diálogo se estabelece, “The Rover” já elabora seu clímax, que não é em termos rítmicos nada distinto do que se viu até ali. A câmera pouco intrusiva de Michôd e sua narrativa contemplativa acompanham um homem (Pearce) que tem seu carro roubado por três homens. Ele parte no encalço deles, eventualmente cruza com o irmão abandonado de um deles, papel de Robert Pattinson, e acaba criando uma inesperada parceria.

Sutilmente Michôd vai dando cor a esse futuro borrado e é na divergência entre os personagens de Pearce e Pattinson, que a grandeza da obra se articula. Enquanto um parece resignado, mas persegue seu objetivo (recuperar o carro) com gana incompatível com suas circunstâncias, o outro anseia por vínculo emocional em uma época em que a humanidade parece ter renunciado a ele de maneira definitiva.

“The Rover” causa impacto. Potencializado por sua engenharia narrativa, o filme nos cerceia as convicções com astúcia e dissabor. Uma abordagem que dá esperança ao cinema australiano que Michôd com toda a certeza irá influenciar.

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quarta-feira, 6 de agosto de 2014 Críticas, Filmes | 20:38

Michael Bay manda mensagem subliminar no quarto “Transformers”

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Michael Bay não queria fazer um quarto “Transformers”. Ele mesmo deu reiteradas declarações enquanto rodava o terceiro filme de que aquele seria sua despedida deste universo que, justiça seja feita, ele é responsável por 50% do sucesso. Os outros 50% podem ser creditados aos efeitos especiais, atores, Hasbro (produtora de brinquedos que criou os transformers) e ao marketing maciço e onipresente custeado pelo estúdio Paramount.

Um cachê de U$ 30 milhões e a perspectiva de dirigir um “projeto menor” (o ótimo “Sem dor, sem ganho”, lançado em 2013) e a produção do remake de “As tartarugas ninja” (2014), que será lançado ainda neste ano, convenceram Bay a voltar atrás. “Transformers: a era da extinção” é uma espécie de reboot da série. É como se tudo começasse novamente, agora com Mark Wahlberg à frente da franquia.

O elenco em pose de videoclipe em cena de "A era da extinção": filme mais divertido do que precisava ser... (Foto: divulgação)

O elenco em pose de videoclipe em cena de “A era da extinção”: filme mais divertido do que precisava ser…
(Foto: divulgação)

Optimus Prime é novamente cativado por um humano, dessa vez o pai de família e mal fadado engenheiro eletrônico vivido por Wahlberg, e os decepticons estão novamente às voltas com um plano mirabolante, pelo menos na lógica do filme, para exterminar a humanidade.

“A era da extinção”, no entanto, padece do mesmo mal dos filmes anteriores. É extremamente longo. É filme demais para história de menos. Os efeitos especiais, no entanto, nunca estiveram melhores na série. Do detalhamento dos transformers, às cenas de luta (muito mais compreensíveis), passando até pelo momento “Star Wars” que o filme apresenta nos céus de Chicago.

Os acertos da série são replicados com destreza pelo diretor. O humor está preservado, assim como a trilha sonora pop e aquela porção de takes publicitários de Bay que tão bem caracterizam a série. Por falar em publicidade, pelas horas tantas do filme uma das atrações é perceber o merchandising em cada cena da produção. Seja quando a ação se passa nos EUA ou na China. Bay, de forma irreverente, leva o clímax da ação dos EUA para a China em um pulo.

“Transformers” não precisa fazer grande sentido e o diretor sabia disso. Mas o mais genial é que ele brinca com essa sanha por novos filmes da série ao colocar como principal mote da trama, cientistas tentando achar mais ‘transfórmio’ – um material à base de metal que possibilitaria que criássemos nossos próprios transformers. É sobre isso que o filme se resolve. E é um sarro que Bay tira com todo esse esforço da Paramount, pontuado no próprio empenho em mantê-lo no controle da franquia, em conservar a série viva no cinema.

O diretor não só brinca com o próprio status, como faz o filme mais divertido da série. Agora é que eles não deixam Bay ir embora mesmo…

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terça-feira, 5 de agosto de 2014 Críticas, Filmes | 21:13

“Guardiões da galáxia” é o 7×1 da Marvel no cinemão americano

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Foto: divulgação

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A Marvel conseguiu de novo. Depois de fazer de um personagem semidesconhecido o grande abre alas de sua reinvenção no cinema (“Homem de ferro” em 2008), a empresa – hoje à vontade como estúdio de cinema – volta a emplacar um azarão no rol dos grandes sucessos de bilheteria. “Guardiões da Galáxia” estreou fazendo barulho e amealhando comparações entusiasmadas com “Star Wars”. Há muitas referências à saga criada por George Lucas, mas não são elas que validam as comparações e sim a qualidade notável do filme e o leque de possibilidades que ele abre para a Marvel.

Na trama, o terráqueo Peter Quill (Chris Pratt) é um saqueador (uma espécie de pirata espacial) que tenta levar o orb (uma esfera poderosíssima) para o corretor, que lhe pagaria uma boa quantia para tal. Acontece que a esfera é alvo de muitas facções intergalácticas e Quill acaba preso junto com um grupo de renegados formado por Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Groot (dublado por Vin Diesel) e Rocket (dublado por um indecifrável Bradley Cooper). E é aí que a aventura começa!

O grande barato de “Guardiões da galáxia” é sua engenharia de produção. Não se trata de um filmaço, mas de um filme que dificilmente desagradará alguém; e que agradará muita gente como atestam as bilheterias e as convulsões nas redes sociais. Para chegar a esse feliz denominador comum, a Marvel apostou na combinação de humor e ação que tão bem serviu ao primeiro “Homem de ferro” e confiou ao satírico James Gunn (responsável pelo roteiro de “Madrugada dos mortos” e pela direção de “Seres rastejantes”) o controle, ainda que parcial, da empreitada.

Gunn acerta a mão no ritmo, afinal de contas, ele sabe que a experiência de se assistir “Guardiões da galáxia” vale mais do que o filme em si. E é com isso em mente que ele entrega um filme que não se leva a sério, mas que leva o 3D muito a sério. Os efeitos especiais arrasadores ajudam a temperar essa produção com espírito assumidamente B em um dos pontos altos da temporada pipoca do cinema. Da concepção visual de Rocket à piada interna e sempre eficiente com o monotemático Groot, “Guardiões da galáxia” vai se revelando um celeiro de gags como uma improvável e engraçadíssima sobre esperma!

Uma trilha sonora afiada, a reverência aos anos 80 e um protagonista em estado de graça (Chris Pratt, acredite, fará por merecer a alcunha de “senhor das estrelas” em muito breve) ajudam a consolidar o filme como a grande sensação da temporada.

Para recuperar as metáforas futebolísticas, a Marvel vinha ganhando, mas “Guardiões da galáxia”, no tom, no timing, na estampa e na experiência cinematográfica que propõe, é o 7 x 1 que precisava para mostrar quem manda no futebol de Hollywood atualmente.

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quarta-feira, 30 de julho de 2014 Críticas, Filmes | 21:25

“O amor é um crime perfeito” alia inteligência e sensualidade a serviço da história

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O cinema francês é reconhecido tanto pela inteligência como pela sensualidade e “O amor é um crime perfeito”, novo filme de Jean-Marie Larrieu e Arnaud Larrieu potencializa esses elementos com sofisticação, audácia e incrível esmero.

Eles já haviam obtido resultado semelhante em “Pintar ou fazer amor” (2004), comédia dramática que opunha desejo e moralismo sob uma perspectiva sedutora e instigante. Em “O amor é um crime perfeito”, adaptado do romance “Incendies” de Phillipe Djian, a proposta é mais ambiciosa. Combinar o ritmo de thriller policial ao contexto de um drama familiar. Tudo entremeado por uma pulsão sexual inebriante.

Mathieu Amalric faz um professor de literatura que costuma levar suas alunas para a cama. Quando uma dessas alunas some ele vai sendo enredado aos poucos em uma teia de conspirações à medida que visto como suspeito, ainda que discretamente, passa a se envolver com a madrasta da menina desaparecida. Não obstante, ele ainda tem um relacionamento complexo, e marcado por forte tensão sexual, com sua irmã, que ocupa um cargo de superioridade na universidade em que ele dá aula.

O desejo é a força motriz em "O amor é um crime perfeito" (Foto: divulgação)

O desejo é a força motriz em “O amor é um crime perfeito” (Foto: divulgação)

Com cadência, os irmãos Larrieu vão revelando uma trama absolutamente distinta daquela que intuímos a princípio. Se essa opção revela apurado exercício de estilo, exibe também uma aprofundada capacidade de articulação estética e narrativa. A sensualidade que impregna a fita jamais desvia a atenção do espectador da trama central. Pelo contrário, reforça-a maliciosamente. Outro aspecto interessante da direção dos Larrieu é que a verdade que emerge no final do filme, embora já pudesse ser pressentida por um ou outro observador mais perspicaz, nunca é esmiuçada em seus detalhes sórdidos e o público precisa preencher as lacunas com certa imaginação. Esse delicioso exercício de coautoria redefine “O amor é um crime perfeito” como um filme de muito mais capilaridade do que sua narrativa, falsamente convencional, sugere.

Neste sentido, a atuação de Mathieu Amalric ganha importância. Seu personagem vai sendo revestido de complexidade à medida que “O amor é um crime perfeito” vai se revelando um filme distinto do que tínhamos em mente. Essa exacerbação da linguagem cinematográfica finalmente se cristaliza com a grande sacada da obra: amar é o pecado definitivo dos vaidosos.

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quarta-feira, 23 de julho de 2014 Críticas, Filmes | 22:26

“Planeta dos macacos: o confronto” é interessante jogo de espelhos

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Fotos: divulgação

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César é, para todos os efeitos, um personagem pós-moderno. Primeiro porque é o que melhor se beneficia da ferramenta hoje bastante comum da captura de performance. Tecnologia que permite combinar os gestos e expressões do ator à criação digital que será vista na tela grande. Daí surgiu o que chamamos no meio de “performance digital”. E Andy Serkis, o homem que já foi Gollum e King Kong, reina nesta arte. A segunda razão para César ser a expressão do personagem pós-moderno é porque congrega em si toda a complexidade de ser humano, mas é um macaco; um símio que trafega entre o que há de mais primitivo em nós e o que há de mais evoluído. Por ser esse espelho tão fascinante quanto aterrador, César cativa.

“Planeta dos macacos: o confronto” (2014) é um filme que dá conta desse enredamento ambicioso. Essa nova jornada dos macacos pelo cinema, iniciada com “Planeta dos macacos: a origem” (2011) busca conciliar entretenimento com reflexão e alcança com sucesso essa rara simetria no cinema americano.

No novo filme, dirigido por Matt Reeves (“Deixe-me entrar”), o vírus produzido em laboratório abordado no filme anterior dizimou grande parte da humanidade. Os que vivem precisam se reorganizar socialmente, mas esbarram no surgimento de uma sociedade paralela erigida pelos macacos liderados por César, que foi o primeiro a apresentar os sinais de evolução.

O que mais impressiona em “O confronto” não é o tempo que Reeves dedica à estrutura de comunicação dos símios, nem mesmo o vigor de seus ritos sociais, mas a maneira como símios e humanos se aproximam nas vicissitudes e nas virtudes.

É esse o grande mérito deste blockbuster que se apresenta como um dos melhores dessa safra de 2014. A capacidade de vincular com fundamento a veia corruptora do homem ao ideal de evolução, de organização social e fazê-lo destacando uma sociedade pós-raça humana que se julga imune às vis tentações que assolam o homo sapiens. Essa ideia muito bem fecundada no romance original escrito por Pierre Boulle, e lançado em 1963, ganha dimensão mais trágica e ruidosa nas mãos de Reeves.

Dos planos insidiosos sobre César, o líder sábio e pressionado, à agonia humana em face de descobertas sempre desestabilizadoras, Reeves filma com a densidade de uma tragédia grega cujo iminente desfecho nos rebaixa enquanto sociedade.

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terça-feira, 22 de julho de 2014 Críticas, Filmes | 20:19

“O Teorema zero” tenta iluminar busca atemporal pelo sentido da vida

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Qual o propósito da existência? É esse o mote nada banal e compreensivelmente ambicioso de Terry Gilliam em seu retorno ao universo da ficção científica. Entre “Os 12 macacos” (1995) e “O teorema zero” (2013) passaram-se quase 20 anos. Se o primeiro filme flertava com a ação sem abdicar de seu viés soturno, o novo trabalho de Gilliam abandona todo e qualquer subterfúgio para focar única e exclusivamente no objetivo da narrativa.

No filme, Qohen Leth (Christoph Waltz) é um excêntrico hacker com tendências antissociais que se fundem muitíssimo bem a um mundo em que a tecnologia preconiza a impessoalidade. Mas essa visão pessimista de nosso futuro não compõe o eixo central da fita, mas sim o que esse descontentamento fluído enseja. Qohen está à espera de uma ligação do criador para descobrir seu propósito nesta vida. Por isso, pressiona seu supervisor (David Thewlis) para poder trabalhar em casa. O gerente, figura que beira o mitológico na composição cênica de Gilliam e que é interpretado com afetação calculada por Matt Damon, acaba por lhe propor um desafio: ele poderá trabalhar em casa, desde que seja na solução do teorema zero. Um problema matemático que, se resolvido, revelará a razão da existência humana. Mas resolver o tal problema não só consome o tempo e a sanidade de Qohen, como se prova um exercício de fé. Está aí, no exercício da fé, o questionamento definitivo alinhado por Gilliam em seu filme.

o teorema

O ator Christoph Waltz em cena do filme

 

Fotos: divulgação

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Nesse futuro colorido, berrante e de constante observação, a religião assumiu-se como um player no mercado de capitais e a disputa pela alma de um indivíduo não é mais importante do que a possibilidade de torná-lo parte de um sistema. A estranheza de Qohen sempre se referir a si mesmo na primeira pessoa do plural passa por aí e culmina na devastadora cena final em que o gerente faz uma revelação a Qohen, que a despeito de intuída por um ou outro espectador, preserva sua força.

A religião é capaz de prover sentido à vida humana, terrestre, racional, profissional? Ou seria o amor capaz de legitimar angústias insuspeitas e insondáveis? Gilliam confronta essas percepções em um filme estranho, sensorial, delirante na mise-en-scène e que vai se revelando por meio de metáforas potentes. Sejam elas visuais ou saídas da boca de personagens.

Christoph Waltz surge em cena intangível e irreproduzível. Diferentemente de tudo que já fez no cinema, o ator se entrega ao ridículo e ao nonsense despudoradamente. Alterando o tom do registro a cada nova cena, Waltz aposta em uma composição rigorosamente fiel ao espírito transgressor do filme. Inadjetivável, no sentido mais livre possível, sua atuação não exatamente agrada, mas impressiona.

“O teorema zero” não é um filme de apreciação imediata. É daqueles que exige engajamento; reflexão. Gilliam confia ao público parte de sua angústia, mas não lhe reserva o direito de pincelar suas próprias respostas. Ao fim da projeção, elas estão todas lá; só nos resta montar o quebra-cabeça.

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sábado, 12 de julho de 2014 Críticas, Filmes | 19:59

Espaço Cult: “Cópia fiel” é cinema de questionamento

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Cópia

A primeira reação à “Cópia fiel” (FRA/Itália/Irã 2010) é de estranheza. Confusão até. A matéria prima deste filme do elogiado cineasta iraniano Abbas Kiarostami é a arte e uma das discussões mais longevas e interessantes que a gravita: Acerca do valor de uma cópia, da autenticidade do original e do quão significante é o olhar na aferição de uma obra de arte. Mas o diretor iraniano é audacioso e faz do filme que discute a arte, a própria discussão. O fórum metalinguístico de Kiarostami começa explanativo e toma contornos herméticos, ainda que a narrativa seja leve e fluída. Uma conquista notável.

Em “Cópia fiel”, o escritor inglês James Miller (William Shimell) está na região da Toscana, na Itália, para palestrar sobre seu mais recente livro (que dá nome ao filme), em que promove um debate sobre arte e cópia. Miller parece convicto de que uma cópia bem feita tem tanto valor quanto o original. Ao mesmo tempo em que relativiza o valor da arte, a cópia a afirma, defende o inglês. Ele é desafiado, em um passeio aparentemente sem rumo, pela francesa dona de uma loja de antiguidades vivida por Juliette Binoche. Elle, a personagem da atriz, é flagrada dividida entre a adoração e o repúdio às ideias de Miller.

Em um primeiro momento, Kiarostami desenvolve seu filme como uma palestra propriamente dita. Ele lança suas ideias e as defende por meio de exemplos que os personagens tricotam em uma conversa cerceada por tensão e sobressaltos. De repente, após uma conversa travada entre Elle e a dona de uma cantina italiana, “Cópia fiel” se transforma em outro filme. Uma comédia romântica madura que guarda muitas semelhanças com o duo de Richard Linkaleter Antes do amanhecer/Antes do pôr do sol. Se essa condição é proposital ou não, provoca o diretor iraniano, cabe ao olhar do espectador.

O trânsito de ideias em “Cópia fiel” é tão vasto e complexo que ao seu final não se pode afirmar se o jogo de cena dos personagens se sucedeu por curiosidade intelectual, flerte incidental ou se o jogo de cena que existia (sem nos darmos conta) deu vazão à crua realidade, ainda que temperada pelo lirismo europeu que Kiarostami filma como o turista que é.

É inegável que “Cópia fiel” é um filme de ideias. Que se pretende erudito, ainda que desenvolvido na simplicidade dos diálogos. Contudo, o grande “porém” do filme, é que, em seu âmago, ele não convence. James Miller escreveu o livro para se convencer de suas próprias ideias, admite o próprio em determinado momento. Tudo leva a crer que Kiarostami rodou este filme, seu primeiro no exílio na Europa, com o mesmo intuito. Mas “Cópia fiel” não cativa como cinema o tanto que cativa como ensaio. É uma pena. Apesar da boa química entre os atores, e Shimell em sua estréia é um achado, a fita se torna depositária do olhar do espectador. Essa volubilidade, até certo ponto pretendida, atesta a ideia do filme, mas o segmenta em apreciações genéricas como a força dos intérpretes, a beleza da Toscana ou a inteligência do roteiro de Kiarostami.

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quinta-feira, 3 de julho de 2014 Críticas, Filmes | 20:57

“O Homem duplicado” leva inflexão vigorosa de Saramago ao cinema

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O cineasta canadense Denis Villeneuve, aos poucos, constrói uma filmografia que, além de rica e pensativa, é das mais instigantes do cinema moderno. Depois de apresentar uma das maiores sensações do cinema em 2013, o misto de thriller e drama “Os suspeitos”, o diretor chega aos cinemas com “O homem duplicado” (2013), uma adaptação essencial da obra homônima do escritor português José Saramago.

“O homem duplicado” versa sobre identidade. Sobre a singularidade do indivíduo à sombra da sociedade e, também, sobre como a vaidade é um forte elemento transformador. Isso tudo em um filme que se resolve primordialmente como um tubo de ensaio. Seja em sua lógica visual, seja no ritmo fragmentado e desabrido da narrativa. Lacunas e elipses se erguem com a benção de Saramago em um filme que não tem medo de provocar perplexidade na plateia.

Jake Gyllenhaal vive Adam, um introspectivo professor de história, que se encontra à beira da depressão quando descobre, ocasionalmente em um filme qualquer, um homem que é idêntico a ele. Adam resolve ceder a essa curiosidade e passa a perseguir, ainda que atabalhoadamente, seu sósia. Anthony St. Claire (também vivido por Jake Gyllenhaal) é o oposto de Adam. Confiante, boa vida e mora em um apartamento ensolarado – um contraponto ao escuro apartamento de Adam. A estranheza de conhecer um homem igualzinho a ele logo dá espaço a uma curiosidade mórbida por parte do ator que não consegue romper o terceiro escalão da fama. Adam, por sua vez, passa a se sentir incomodado por entender estar perdendo a referência de sua identidade.

Um encontro que coloca os personagens em caminhos opostos: "O homem duplicado" nunca opta pela via mais fácil ao instigar constantemente a audiência  ( Foto: divulgação)

Um encontro que coloca os personagens em caminhos opostos: “O homem duplicado” nunca opta pela via mais fácil ao instigar constantemente a audiência ( Foto: divulgação)

A Toronto que recebe a ação é estranhamente fria e atemporal, em uma solução visual digna de nota do fotógrafo Nicolas Bolduc para dimensionar a letargia emocional que aflige o protagonista. Conforme a trama avança, as dúvidas, ensejadas por pistas nada óbvias por parte da realização, se proliferam e a certeza se afasta. A jornada proposta por Saramago e replicada aqui por Villeneuve com espantosa fidelidade não busca o sentido formal, mas a gravidade da inflexão. Nesse aspecto, “O homem duplicado” triunfa com a sobriedade do grande pensador em que se acolhe.

Um adendo à extraordinária composição de Jake Gyllenhaal precisa ser feito. O ator distingue seus personagens quando necessário e borra essas tintas de distinção quando preciso.

Gyllenhaal é um elemento tão importante na narrativa quanto os símbolos projetados por Villeneuve. Um destes é uma tarântula. A tarântula representa o lado sinistro, o aspecto obscuro de um ser humano. Reside na combinação da performance de Gyllenhaal e da compreensão dessa metáfora exposta na tela em dois momentos distintos, a força de “O homem duplicado” enquanto cinema.

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domingo, 22 de junho de 2014 Críticas | 14:50

“Vizinhos” celebra o prazer pelo besteirol americano

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Zac Efron (à frente) e Dave Franco em cena do filme: referências e ironias se misturam em um filme insuspeitamente inteligente  (Foto : divulgação)

Zac Efron (à frente) e Dave Franco em cena do filme: referências e ironias se misturam em um filme
insuspeitamente inteligente (Foto : divulgação)

O besteirol americano é uma instituição. Assim como o são os filmes familiares. A união desses dois subgêneros tão caros à cinematografia americana não é algo essencialmente novo. A trilogia “Entrando numa fria” enveredou por esse caminho e o novo e surpreendente sucesso de bilheteria “Vizinhos” (2014) mantém a chama acesa.

Dirigido por Nicholas Stoller, cujos créditos prévios incluem “As loucuras de Dick e Jane” (2005), como roteirista, “Ressaca do amor” (2008) e “Cinco anos de noivado” (2012), como diretor, todos filmes que gravitam esse universo do besteirol evoluído, “Vizinhos” mostra um casal ainda às voltas com a nova rotina de serem pais. A cena inicial é uma gag fantástica. Mac (Seth Rogen) e Kelly (Rose Byrne) tentam fazer sexo, mas não conseguem atingir o necessário grau de intimidade com sua pequena filha por perto.

“Vizinhos”, afinal, trata-se de adaptação. Da necessidade de adaptar-se às inevitáveis mudanças da vida e para agravar o quadro, uma fraternidade, ou república estudantil para o público brasileiro, muda-se para a casa ao lado de Mac e Kelly. Eles preveem tempos difíceis e tentam administrar a situação de maneira amistosa, mas o plano não dá certo e acabam batendo de frente com Teddy (Zac Efron), presidente da fraternidade.

A partir deste momento, “Vizinhos” assume seu lado trash e abandona o prisma de comédia familiar ao apresentar cenas como a que um pênis vira arma secreta em uma inusitada rixa ou quando um homem se joga de uma considerável altura apenas para colocar um plano para lá de discutível em ação.

Essa transformação não implica em menos diversão. É claro, feita a ressalva de que esse humor regado a referências pop e com um pé na tosquice seja a sua praia. “Vizinhos” tem o mérito de rir não só de si mesmo, mas dos clichês que permeiam o besteirol. Nesse sentido é mais satírico do que as próprias produções que se vendem como sátiras e apenas um olhar treinado será capaz de perceber isso.

A batalha entre o casal suburbano que ocasionalmente fuma maconha e a fraternidade de pós-adolescentes levianos  é tão séria quanto idiota. Rende um filme mais sério do que poderia ser e mais bobo do que muitos tolerariam. Essa flexibilidade sugere o óbvio: assista se gostar de uma bobagenzinha de quando em quando. Não faz mal nenhum e pode até fazer algum bem.

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sábado, 7 de junho de 2014 Críticas, Filmes | 08:20

“X-men: Dias de um futuro esquecido” objetiva equacionar universo mutante no cinema

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Magneto, vivido por Michael Fassbender em sua versão jovem, mostra seu poder  (Fotos: divulgação)

Magneto, vivido por Michael Fassbender em sua versão jovem, mostra seu poder
(Fotos: divulgação)

Bryan Singer tinha uma missão. Realocar o universo mutante em face da nova mania de estúdios de cinema; ter um universo multifacetado e interligado entre si para chamar de seu. A culpa é da Marvel que provou com “Os vingadores”, e os filmes solo de cada um dos membros do supergrupo, que a ideia é rentabilíssima.

Se o primeiro “X-men”, lançado em 2000, carregava dúvidas sobre como seria a aceitação de fãs e público em geral aos uniformes de cinema, o sétimo filme com o gene X traz inquietações maiores. “Dias de um futuro esquecido” tinha a responsabilidade de superar a marca de U$ 500 milhões nas bilheterias internacionais, coisa que qualquer herói hoje em dia faz, e nenhum filme de mutantes havia feito. Este objetivo foi alcançado com louvor. Em pouco mais de dez dias, o filme já ultrapassou a marca de U$ 516 milhões e se consolidou como o filme mais lucrativo com o gene X. A outra grande responsabilidade do filme era aparar arestas. O universo mutante foi erguido sob improvisos no cinema e a Fox, ao que parece, começa a descobrir a galinha dos ovos de ouro que tem nas mãos. Mais do que a Sony, que detém os direitos de adaptação do Homem-Aranha, o estúdio pode conceber um universo tão, ou mais rico, do que o de Os vingadores. Personagens não faltam ao universo de X-men e “Dias de um futuro esquecido” é contumaz em ressaltar isso.

Nessa segunda função, o filme é parcialmente bem sucedido. A trama, que bebe da fonte original e vai buscar em uma das mais festejadas sagas mutantes nos quadrinhos sua base de sustentação, coloca Xavier (Patrick Stweart) e Magneto (Ian McKellen) unidos para combater um mal maior: as sentinelas. Máquinas desenvolvidas para dizimar mutantes; tarefa que cumprem com sucesso nos idos de 2022. A solução aventada é mandar Wolverine de volta ao passado, mais precisamente sua consciência ao seu corpo de 1973, para impedir que eventos que aceleram o desenvolvimento do programa Sentinela aconteçam. É a desculpa perfeita não só para reunir em um mesmo filme os mutantes da trilogia original com os novatos na trupe, que surgiram no vintage “X-men: primeira classe” (2011), como para zerar o universo mutante e reiniciá-lo nos cinemas. Seria, a grosso modo, um reboot (termo usado para designar o reinício de uma série no cinema) que não desconsideraria de todo os eventos da trilogia original.

Bryan Singer entende como poucos os x-men. É inegável sua contribuição para a série e para a onda de adaptações de HQs no cinema como um todo, mas depois do que Matthew Vaughn fez em “Primeira classe”, quando aliou pegada pop e tonalidade vintage à complexidade política incomum em um filme de entretenimento, a tarefa de Singer ficou mais arriscada. Ele optou por redimensionar os conflitos que permeiam a série, preservando alguns dos acertos de Vaughn – ainda que sem reproduzir a mesma finesse – redefinindo o filme como uma ficção científica de vocação, com seu mote enclausurado na viagem temporal.

Singer explica a Ellen Page e Hugh Jackman como se comportar em uma viagem do tempo...

Singer explica a Ellen Page e Hugh Jackman como se comportar em uma cena de viagem do tempo…

Sob esse prisma, Singer fez um belo filme de entretenimento, valendo-se de atores que além da qualidade notória (Hugh Jackman, James McAvoy, Jennifer Lawrence e Ian Mckellen, para citar alguns) ficam muito confortáveis na condição de “entertainers” (essa palavra que carece urgentemente de uma tradução eficaz, mas que poderia ser traduzida como “alguém que diverte”). Mas seu filme não é tão coeso como o de Vaughn. Aliás, seu retorno a série mostra como Vaughn capturou mais eloquentemente a essência do universo mutante. Mas Singer faz o que pode. A discussão entre livre-arbítrio e destino, intolerância e até holocausto surgem sob novas cores em “Dias de um futuro esquecido”, mas o que mais agrada no filme são as jornadas diametralmente opostas de Xavier e Magneto. Algo que já havia encantado em “Primeira classe” e volta a resplandecer aqui. Enquanto Xavier se debate para descobrir como ter esperança novamente e se reencontrar com suas convicções morais e filosóficas, testemunhamos Magneto repetir suas escolhas, mesmo ciente de quão errado é o caminho que elas vão conduzi-lo.

Esse caráter reflexivo, quase iluminado na abordagem que faz da humanidade desses personagens, é o que torna “Dias de um futuro esquecido” um filme convidativo. Um fato que não seria possível sem a incursão pela ficção científica ou a disposição de dizer adeus a tudo aquilo que no universo mutante, em uma desnecessária cena final, fica no passado dos personagens.

O Xavier do passado encara o Xavier do futuro em um dos loops temporais de "Dias de um futuro esquecido": jornada para dentro de si mesmo

O Xavier do passado encara o Xavier do futuro em um dos loops temporais de “Dias de um futuro esquecido”:
jornada para dentro de si mesmo

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