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domingo, 20 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 10:39

“Indignação” é adaptação fiel da corajosa e intransigente obra de Philip Roth

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Um dos mais aclamados, controvertidos e complexos autores americanos, Philip Roth não é fácil de ser adaptado. Ainda assim, é tão concorrido que em 2016 são lançados dois filmes baseados em romances de sua autoria. “Pastoral Americana” marca a estreia do ator Ewan McGregor como diretor e este “Indignação” é o ponto de partida como cineasta do produtor e roteirista James Schamus. Colaborador habitual de Ang Lee, Schamus se serviu de uma das últimas obras de Roth antes da aposentadoria. “Indignação” é um complexo estudo do ferrolho que era a sociedade americana dos anos 50 que vetava toda e qualquer oxigenação aos costumes sociais. Claro, isso temperado com a habitual acidez do registro de Roth com a inflexão à religião – com especial atenção à situação dos judeus no pós- guerra – e à masculinidade.

Cena do filme "indignação"

Cena do filme “indignação”

“Indignação”, o filme, é mais sensível do que o livro de Roth, mas não menos demolidor. Essa sofisticação, se é que podemos qualificar de tal modo, se deve ao refinamento de Schamus, responsável pelos textos de filmes tão incomuns como “Banquete de Casamento” (1993), “Tempestade de Gelo” (1997) e “Desejo e Perigo” (2007); mas também à entrega do ator Logan Lerman, aprofundando-se no registro da verve experimentada em “As Vantagens de ser Invisível”, mas exercitando outras tonalidades.

Estamos em 1951. Marcus (Lerman), devido às boas notas, consegue uma bolsa para cursar uma faculdade em Ohio. A novidade vem em boa hora. A guerra na Coreia ceifa vidas de jovens, muitos de seu círculo social, e a oportunidade evita seu alistamento. O ciclo de mudanças interfere no convívio familiar e afeta a relação do introspectivo Marcus com seu pai. Na faculdade, Marcus resiste às típicas interações – como ingressar em uma fraternidade -, mas o que mais lhe irrita é a obrigação de comparecer semanalmente à capela da instituição. Judeu de nascença, Marcus se declara ateu e francamente contrariado com as imposições da agenda religiosa na instituição. A cena em que debate a respeito com o reitor interpretado por Tracy Letts já é um dos grandes momentos do cinema em 2016.

Em meio a tudo isso, ele se deixa fascinar por Olivia Hutton, vivida pela fascinante Sarah Gadon. A menina parece ter um passado difícil e seu jeito de ser desafia convenções que Marcus ainda não parece compreender inteiramente.

“Indignação” não é um filme de elevadas notas dramáticas, mas a simplicidade aparente dos conflitos propostos revela uma América de contradições enrolada em muitos e enraizados preconceitos. Schamus se escora em Roth para radiografar com certo pessimismo o estado das coisas. Não à toa, em um determinado momento uma personagem cita a famosa frase de Benjamin Franklin: “Democracia são dois lobos e uma ovelha decidindo o que  comer no almoço”.

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sábado, 12 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 16:50

“Snowden” assume ponto de vista do protagonista e vende a terrível verdade de nosso tempo

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Cena do filme "Snowden: Herói ou Traidor"

Cena do filme “Snowden: Herói ou Traidor”

É um tanto desorientador que “Snowden: Herói ou Traidor” chegue aos cinemas brasileiros na esteira da vitória surpreendente de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Afinal, o agora presidente eleito ostenta uma retórica que vai de encontro a tudo aquilo que o filme de Oliver Stone defende enquanto obra artística. Essa inesperada oposição dá uma nova perspectiva à audiência e transforma a experiência de se assistir “Snowden” em algo muito mais exasperador.

O filme, originalmente previsto para 2015, se ocupa da trajetória de Edward Snowden nos serviços de inteligência dos Estados Unidos. Mas não só. Stone, com o préstimo do coroteirista Kieran Fitzgerald, elabora um perfil quase jornalístico do ex-agente da CIA e da NSA. Uma característica herdada muito provavelmente dos livros de não ficção que amparam o roteiro.

Trata-se de um filme sóbrio, o que em matéria de Oliver Stone já é um trunfo. O que não quer dizer que haja um esforço em prol de isenção. E nem deveria. Aqui assume-se o ponto de vista de Edward Snowden, mas há vícios de linguagem e narrativa que poderiam ser evitados. A opção por dar voz ao próprio Snowden no desfecho do filme, além de desnecessária, compromete a própria construção dramática da produção. Mais: Há um momento em particular que a justificativa de Snowden é pobre. Depois de ter deixado a CIA, ele alega ter retornado a trabalhar em uma agência de inteligência americana, no caso a NSA (Agência de Segurança Nacional), porque imaginava que as coisas melhorariam e tinha fé em Obama. Trata-se de uma visão ingênua para quem já testemunhara o que testemunhara. Daí, apesar da breguice, o subtítulo nacional que brinca com as noções de heroísmo e traição.  É algo que, talvez, Oliver Stone não tenha se dado conta e ao colocar Snowden em seu filme acaba por sublinhar.

De todo modo, há aspectos muito interessantes em “Snowden”. O primeiro deles, sem dúvida nenhuma, é vislumbrar a crescente do dilema moral em que o personagem se flagra. Algo que a performance minimalista de Joseph Gordon-Levitt aborda muito bem. O ator abraça o desconforto irascível de quem se vê forçado a mudar sua visão de mundo e do País que ama e hesitar sobre o que fazer a respeito. Snowden é um patriota e por sê-lo, tanto sua atitude como as acusações que pairam sobre ele ganham mais relevo e isso é algo que Oliver Stone tem plena consciência e explora bastante ao longo das 2h15min de projeção.

O romance com Lindsay (Shailene Woodley) vive às margens da vida de agente de Snowden

O romance com Lindsay (Shailene Woodley) vive às margens da vida de agente de Snowden

Outro aspecto interessante é observar o hibridismo entre posicionamento político e paranoia nos tempos atuais. Nesse sentido, “Snowden” se aproxima de um filme de terror ao emaranhar as percepções do público e fazer com que temamos uma câmera de celular tanto quanto dormir de luz apagada depois de um filme de terror.

Ao fazer mais um filme contra o sistema, outros foram o duo “Wall Sreet”, “Nixon”, “JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar”, “Nascido em 4 de Julho” e “Platoon”, Oliver Stone demonstra mais compostura discursiva e permanece ostensivo na gramática cinematográfica. “Snowden” é cinemão, com seus prós e contras, no melhor sentido do termo.

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quinta-feira, 10 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 21:00

Marvel arrisca pouco, mas acerta em cheio mais uma vez com “Dr.Estranho”

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Benedict Cumberbatch em cena de "Dr. Estranho" (Foto: divulgação)

Benedict Cumberbatch em cena de “Dr. Estranho”
(Foto: divulgação)

Quando a Marvel anunciou que lançaria um filme do Dr. Estranho, um personagem da quara ou quinta escala da editora de HQs e que Scott Derrickson (“O Exorcismo de Emily Rose”) seria o responsável pela direção, duas certezas sobressaltaram. A primeira era de que o agora estúdio integrante do conglomerado gigante da Disney havia alcançado um patamar de segurança que permitia a introdução de personagens bem menores (quando tudo começou no cinema o próprio Homem de Ferro era de segunda linha). A segunda certeza é de que a Marvel, em plena terceira fase do seu universo cinematográfico, estava preparada para fazer diferente.

Com “Dr. Estranho” nos cinemas e registrando bilheteria estrondosa, outras duas certezas emergem.  A Marvel não está preparada para fazer cinema de autor e não está nem um pouco preocupada com essa demanda que gravita a cinefilia. Estrelado por Benedict Cumberbatch, o homem que além de ser Sherlock Holmes, já figura na cena geek como integrante dos universos de Star Trek, Tolkien e agora debuta na Marvel, “Dr. Estranho” é o filme mais diferente já produzido pelo estúdio, mas ainda assim plenamente reconhecível e permeado da indefectível – e até o momento infalível – fórmula Marvel.

Quem prestar atenção vai perceber duas estruturas narrativas se bifurcando em “Dr. Estranho”. Uma, mas dramática e densa, que abraça questões profundas e conflituosas como a morte e a metafísica. Outra, mais boêmia e simplista que por vezes faz com que Stephen Strange (Cumberbatch) soe como Tony Stark (Robert Downey Jr.).

Cena do filme "Dr. Estranho"

Cena do filme “Dr. Estranho”

A insistência da Marvel em prover um filme de estúdio não chega a prejudicar seu mais recente filme, mas as piadinhas em meio a momentos esculpidos pela tensão, como no primeiro confronto entre Strange e Kaecilius (Mads Mikkelsen, desperdiçado), despressurizam um filme que poderia ser muito mais eloquente e até mesmo memorável. A Marvel, no entanto, contenta-se com um entretenimento sagaz e satisfatório. Uma escolha legítima, mas tanto personagem como público mereciam mais.

Isso posto, “Dr. Estranho” é um deleite visual do início ao fim. Potencializado pelo 3D – e Scott Derrickson certamente fará James Cameron feliz pelo modo como afere valor narrativo à ferramenta – , o aspecto visual do filme encanta e torna todo o papo filosófico e a psicodelia inerente ao universo do personagem muito mais palatáveis ao espectador pouco familiarizado com tudo aquilo.

Escolha criticada, já que o personagem era oriental, Tilda Swinton convence (e ela sempre convence não é mesmo?) como a Anciã. É, no entanto, Benedict Cumberbatch o dono do show. O ator rapidamente nos convence de que nasceu para viver Stephen Strange. Um dom que o astro britânico ostenta como poucos atores de sua geração. Novamente pinçando a comparação com Downey Jr., desde que vimos Tony Stark na tela grande um ator não vestia tão bem um personagem no cinema.

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quinta-feira, 15 de setembro de 2016 Críticas, Filmes | 15:48

Mais relaxado, Woody Allen fala de amor e contradições da alta sociedade em “Café Society”

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Woody Allen está de volta aos cinemas com um filme menos dramático, mas não menos reflexivo das contradições humanas. “Café Society” marca primeira colaboração do diretor com a atriz Kristen Stewart

Kristen Stewart e Jesse Eisenberg em cena de "Café Society" (Foto: divulgação)

Kristen Stewart e Jesse Eisenberg em cena de “Café Society”
(Foto: divulgação)

Quem conhece minimamente o cinema de Woody Allen, sabe que o cineasta gosta de refletir sobre as contradições humanas. O calidoscópio do americano, que com “Café Society” lança seu segundo filme seguido rodado e ambientado nos EUA, costuma ser bastante plural. Aqui, porém, o octogenário diretor americano se permite um qzinho de Manoel Carlos – autor de novelas da Globo que costuma construir suas tramas no microcosmo do Leblon, bairro de classe alta do Rio de Janeiro.

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“Café Society” é um estudo algo espirituoso dos dilemas, ora esvaziados e ora apenas luxuriosos, dos grã-finos e abastados de Los Angeles e Nova York nos anos 30, auge da famigerada era de ouro do cinema americano. Tudo é urdido pelo cineasta com muita parcimônia e presença de espírito. Há, inclusive, uma rocambolesca história de amor a envolver e dimensionar os dramas da alta sociedade.

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A atriz Blake Lively em cena de "Café Society" (Foto: divulgação)

A atriz Blake Lively em cena de “Café Society”
(Foto: divulgação)

Bobby (Jesse Eisenberg) é um jovem aspirante a escritor, que resolve se mudar de Nova York para Los Angeles. Lá ele deseja ingressar na indústria cinematográfica com a ajuda de seu tio Phil (Steve Carell), um agente que conhece a elite da sétima arte. Relutante a princípio, ele acaba arranjando algo para o sobrinho e escala sua secretária Vonnie (Kristen Stewart) para apresentar a cidade e fazer companhia ao rapaz. Ele acaba se apaixonando por ela, mas ela anuncia já ser comprometida.

A partir dessa premissa, Allen estipula um contraponto interessante entre a fantasia lúdica de Los Angeles e a aspereza charmosa de Nova York – pautada especialmente pelo arco do irmão gangster de Bobby vivido pelo ótimo Corey Stoll, que já havia sido o Ernest Hemingway de “Meia-noite em Paris” -, e alinha um interessante comentário sobre nossos impulsos egoístas e as contradições que vêm a reboque. Esse segundo aspecto pode ser observado tanto na escolha da personagem de Kristen Stewart e como ela se transforma naquilo que costumava criticar, como na decisão da irmã de Bobby de pedir a seu irmão gangster para ter uma conversa com o vizinho incômodo.

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Tratam-se de pequenas elaborações, bem afeitas ao padrão woody-alleniano, que enriquecem um filme charmoso e repleto de pequenos grandes momentos. Kristen Stewart é filmada como uma reencarnação de Greta Garbo. É impressionante o vigor com que Allen retrata suas personagens femininas recentes. E Kristen Stewart, mais bela do que nunca, só não é absoluta porque lá pelas tantas surge Blake Lively, como outra Veronica a cruzar a vida de Bobby.

Sem o juízo moral delegado em “O Homem Irracional”, Woody Allen relaxa, fala de amor e, pela primeira vez filmando em digital, faz de “Café Society” um agradável exercício voyeurístico para todos aqueles que fantasiam com o passado e com a rotina de escândalos da alta sociedade.

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quinta-feira, 4 de agosto de 2016 Críticas, Filmes | 17:07

Susan Sarandon retoma o protagonismo perdido na bela surpresa “A Intrometida”

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Mãe, filha e o luto: um filme tão inteligente quanto divertido (Fotos: divulgação)

Mãe, filha e o luto: um filme tão inteligente quanto divertido
(Fotos: divulgação)

Lorene Scafaria, para todos os efeitos, segue os passos de grandes cineastas mulheres como Nora Ephron e Nancy Meyers, cujas filmografias se resolvem em torno de grandes personagens femininas em filmes muito sensíveis, inteligentes e agradáveis.

“A Intrometida” (EUA 2015), que devolve a Susan Sarandon o protagonismo que lhe falta desde “Bernard & Doris – O Mordomo e a Milionária”, uma produção da HBO de 2006, é um filme cheio de sutilezas sobre gente de verdade com problemas reais e palpáveis.

O filme é o segundo de Scafaria como diretora. O primeiro foi o excelente e surpreendente “Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo” (2012). Como naquele filme, este é movido pelas inseguranças dos personagens. Tudo retratado com muito afeto e atenção. Há certa melancolia no registro e Scafaria se mostra uma roteirista talentosa e uma diretora atenta aos pequenos detalhes. Seu filme é cheio de fragmentos que juntos tornam a experiência muito mais sensível.

Sarandon faz Marnie, uma mulher que não sabe exatamente como conviver com a ausência do marido falecido. O luto mal elaborado a aproxima da filha Lori (Rose Byrne) que, por seu turno, tenta se afastar da mãe por não saber exatamente lidar com ela sem o pai ali junto. A presença cada vez mais forçosa da mãe expõe fissuras no relacionamento das duas. A beleza de “A Intrometida” é que o espectador só se dá conta de que é um filme sobre como administrar o luto e recolocar sua vida nos trechos lá pela metade da projeção. Seria injusto, no entanto, reduzir o filme a isso. “A Intrometida” flagra duas mulheres que se descobrem vulneráveis em uma fase da vida em que não esperavam por isso. Marnie, em especial, se vê refém de sua carência afetiva e permite que sua insegurança se manifeste com mais propriedade. O que não quer dizer que esteja se abrindo para novas pessoas. A maneira como se refere à amiga de Lori, a quem ela se oferece para pagar pelo casamento, é uma ilustração clara disso.  A maneira como mãe e filha se agarram à memória de seus homens do passado e como essa condição afasta qualquer possibilidade de paz de espírito é uma sutileza do roteiro que merece aplausos.

Sensibilidade de "A Intrometida" está nos detalhes

Sensibilidade de “A Intrometida” está nos detalhes

O elenco é um espetáculo à parte. Byrne é uma das melhores atrizes da atualidade em que o grande público não presta atenção. Sua incrível capacidade de trafegar entre o humor mais histriônico e a nota dramática mais singela é puro arrebatamento. Não obstante, sua versatilidade impressiona. Ela faz terror (“Sobrenatural”), comédia rasgada (“Os Vizinhos”) e dramédias como essa sem deixar a peteca cair.

Susan Saranson apresenta aquela boa forma dramática que lhe é característica e como é bom vê-la novamente à frente de um filme com algo a dizer. J. K Simmons surge aqui como um galã maduro que entra no radar de uma Marnie sem convicção de que caminho seguir e o ator apresenta toda a qualidade que dele se espera – e quem o conhece de sua magnânima trajetória no circuito indie americano sabe que se espera muito dele.

Scafaria entrega um filme solar, doído, momentaneamente desconfortável – pois nos laça pela familiaridade – e tateia as verdades submergidas em nossa inteligência emocional com muita propriedade e generosidade. Um filme que diverte, encanta e faz um bem danado assistir.

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terça-feira, 2 de agosto de 2016 Críticas, Filmes | 16:47

“Esquadrão Suicida” é filme sem medo de ser pop

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Foto: divulgação

Foto: divulgação

E se o próximo Superman arrancar o telhado da Casa Branca e sequestrar o presidente dos EUA? Essa premissa, discutida em uma reunião com as principais autoridades da defesa dos EUA no primeiro ato de “Esquadrão Suicida”, é a base fundadora do filme de David Ayer que chega nesta quinta-feira (4) aos cinemas brasileiros e que o Cineclube já assistiu.

Amanda Waller, interpretada com fúria silenciosa por Viola Davis, propõe o seguinte ao governo dos EUA: pegar a escória entre a escória e colocá-los para ser uma linha de defesa dos EUA em face da crescente ameaça dos meta-humanos.

Leia também: Foi difícil retratar a sociopatia de minha personagem, diz Viola Davis sobre “Esquadrão Suicida”

Apesar da resistência inicial, a ideia é encampada e o “Esquadrão Suicida”, composto por Pistoleiro (Will Smith), Arlequina (Margot Robbie), El Diablo (Jay Hernadez), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Magia (Cara Delevingne) e Amarra (Adam Beach), ganha forma com os reforços do coronel Rick Flag (Joel Kinnaman) e Katana (Karen Fukuhara).

Depois de um primeiro ato desenhado para apresentar os personagens, “Esquadrão Suicida” apresenta uma escalada de ação, regada a piadinhas no melhor estilo “casa das ideias”. Há uma versão do diretor submergida em uma produção destinada para as massas. “Esquadrão Suicida” é um filme que mete o pé na porta querendo muito ser pop e o é com muita música, fan service (toda a participação do Coringa, extremamente dispensável, nada mais é do que um fan service sofisticado) e essa ideia boa demais que não é explorada a contento. Esses seres, de certa forma, especiais, mas profundamente marginalizados em “um mundo de monstros e homens que voam”, como tão bem define Amanda Waller em um dado momento.

Leia mais: Pressionado, “Esquadrão Suicida” detém o futuro da DC nos cinemas

A dicotomia entre bem e mal, desses personagens que se identificam como vilões, mas são compelidos a atuar, ainda que de forma violenta, para os bonzinhos, existe somente pelo hype. Algo que pode ser percebido na caracterização do Pistoleiro de Will Smith. Esse cara mau com o ponto fraco que é a filha dele ganha a mesma coloração de outros heróis vividos pelo ator como James West (“As Loucas Aventuras de James West”), agente Jay (“MIB – Homens de Preto”) e o capitão Steven Heller (“Independence Day”).  Não há uma reflexão legítima sobre as circunstâncias que esses personagens se encontram.  Talvez seja o El Diablo, o único da trupe com superpoderes de fato e que aos poucos renuncia a uma autoimposta abstinência deles, que com seu arco enseje algum tipo de luz nesse sentido.

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terça-feira, 26 de julho de 2016 Críticas, Filmes | 17:13

Filme para fãs, “Jason Bourne” abraça discussão sobre liberdade e vigilância na internet

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Damon e Vikander em cena do filme (Foto: divulgação)

Damon e Vikander em cena do filme
(Foto: divulgação)

Há de ponderar sobre a necessidade de dar sequência à franquia Bourne no cinema, mas Hollywood sendo Hollywood destitui esse exercício de qualquer sentido. Os filmes protagonizados por Matt Damon, em especial os dois primeiros, recodificaram o cinema de ação, trazendo-o para o século XXI.

“O Legado Bourne” (2012) foi uma tentativa relativamente bem-sucedida de expandir esse universo. “Jason Bourne” (2016) sela o retorno de Damon e do cineasta Paul Greengrass à franquia e desconsidera quase que por completo o filme estrelado por Jeremy Renner.

Para todos os efeitos, “Jason Bourne” é um capricho para os fãs, que passaram cerca de oito anos clamando pelo retorno de Damon à série. Está tudo lá. O jeitão frio e cerebral de Bourne, o chefão da CIA implacável (Tommy Lee Jones), o assassino de poucas palavras no encalço do herói (Vincent Cassel), as lutas cruas mano a mano, a perseguição de carro no clímax, a câmara agitada e a montagem nervosa. Paul Greengrass está em território conhecido e “Jason Bourne” é um grande aceno aos fãs da trilogia original.

Fosse só isso, já estaria muito bom. Mas o filme vai além. Alicia Vikander, na pele da chefe da divisão de crimes cibernéticos da CIA, cria uma personagem já marcante na série. Com agenda própria, ela é a grande protagonista do filme, apesar da saudade que o público tem de Bourne.

Não obstante, “Jason Bourne” busca sua contemporaneidade ao frisar uma das grandes questões do mundo moderno em que a criptografia polariza um debate entre governos e grandes empresas.  Ao encampar um debate de um mundo pós-Snowden, “Jason Bourne” traz mais uma vez à superfície o que a série tem de melhor: ser um thriller de seu tempo.

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sexta-feira, 22 de julho de 2016 Críticas, Filmes | 17:29

Comédia inspirada, “Florence: Quem é Essa Mulher?” une sátira e coração

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Stephen Frears é um cineasta especialmente interessado por personagens fora do lugar comum. Da rainha Elizabeth a Lance Armstrong, sua filmografia compreende obras que são verdadeiros estudos de personagens. Nesse contexto, “Florence: Quem é Essa Mulher?” é uma agradável surpresa.

Estrelado por Meryl Streep, o filme não é tão ambicioso quanto “A Rainha” (2006), ou excêntrico como “Sra. Henderson Apresenta” (2005), mas revestido de certo histrionismo busca revelar uma figura curiosa e surpreendentemente complexa.

Florence Foster Jenkins (Streep) é uma rica excêntrica que alimenta grande entusiasmo pela música. Durante a segunda grande guerra, virou uma espécie de patrocinadora e promotora da música em Nova York. Florence, no entanto, mantinha o desejo de ser uma cantora de ópera e se valeu de sua comodidade financeira para perseguir esse sonho.

O que torna a história peculiar é que Florence canta muito mal. Mas o que afere graciosidade e relevo dramático a “Florence: Quem é Essa Mulher?” são as minúcias do registro. Frears flagra uma Florence frágil, vulnerável e ingênua. Ela tem uma relação totalmente fora das convenções com St.Clair Bayfield (Hugh Grant), com quem é casada, e sofre os efeitos nefastos da sífilis desde os 18 anos. Florence é uma espécie de pária. Apesar de abastada e constante na alta sociedade nova-iorquina, ela só é lembrada por alguém que precisa de recursos e proventos. St.Clair, que mantém uma amante (Rebecca Ferguson) com o consentimento de Florence, é quem tenta proteger Florence dos abutres da alta sociedade. É ele, também, quem se esforça para que Florence emplaque uma carreira de cantora a despeito de sua total falta de talento.

A generosidade com que o filme trata seus personagens é realmente notável e o trabalho de Meryl Streep e Hugh Grant, especialmente deste último, ganham ainda mais importância nesse sentido.

Grant defende um personagem afetado e que tem tudo para despertar certa antipatia do público, mas o ator consegue grifar os bons predicados de St.Clair ressaltando que sua relação de lealdade com Florence é diferente, e muito mais rica, do que superficialmente somos capazes de acreditar.

“Florence: Quem é Essa Mulher?”, além de iluminar essa personagem tão incomum, tem o mérito de ser um pequeno culto à arte como celebração da vida e uma sátira inspirada à excentricidade de certas figuras da alta sociedade. Um Stephen Frears menor, mas não menos inspirado.

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quinta-feira, 21 de julho de 2016 Críticas, Filmes | 19:09

Ryan Gosling e Russell Crowe mostram que são bons de comédia em “Dois Caras Legais”

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Ryan Gosling e Russell Crowe fazem dois detetives desastrados que tentam desbaratar um intrincado caso que envolve corrupção na indústria automobilística, pornografia, uma série de assassinatos e a ameaça à vida de uma adolescente (Margaret Qualley). “Dois Caras Legais” pertence àquela safra de comédias de ação que Hollywood tão bem produziu nos idos dos anos 80 e 90, cujo maior expoente é a série “Máquina Mortífera”.

Não é mera coincidência que o homem por trás de “Dois Caras Legais” seja o mesmo Shane Black que roteirizou toda a franquia. Cinismo e humor negro ditam a trama que apresenta um caso menos complexo do que aparenta, mas a maneira que ele vai sendo construído – com base nas deduções e descobertas do par de detetives acidentais – é que garante o encadeamento da ação.

Gosling dá vida a Holland March, viúvo e pai de uma menininha (Angourie Rice) que parece levar mais jeito para detetive do que ele. March tirou sua licença de detetive porque entendia que era um trabalho mais fácil do que muitos outros. Ou seja, é um cara que não apresenta lá muita obstinação. Crowe é Jackson Healy, um brucutu que se disponibiliza tanto para agiotagem como para “dar recados com seus punhos”.

Essa adolescente que parece despertar o interesse de gente barra pesada obriga a colaboração cheia de estranhamentos entre esses dois tipos.

“Dois Caras Legais”, tal qual “Beijos e Tiros” (2005), estreia de Black na direção, combina Los Angeles, crimes, uma pitada de cinema e muita comédia de erros. É um entretenimento redondo que se beneficia do excelente timing cômico de Gosling e Crowe. Para o tipo de cinema que Black vem praticando como roteirista e diretor, excetuando-se o terceiro “Homem de Ferro”, a afinidade dos protagonistas é parte essencial do sucesso da trama.

A inteligência do roteiro reside justamente em fornecer diálogos cortantes e espertos, bem como situações esdrúxulas o suficiente para que os atores brilhem e cativem o público.

Com um colorido vibrante e um desenvolvimento narrativo que sabe se fazer surpreendente, sem perder de vista o humor como elemento central, “Dois Caras Legais” é aquele tipo de filme que se assiste com um sorriso no rosto. É entretenimento com “e” maiúsculo.

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quarta-feira, 6 de julho de 2016 Críticas, Filmes | 18:46

“Janis: Little Girl Blue” revela conflituosa Janis Joplin por trás do ícone do rock

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Estreia nesta quinta-feira (9) nos cinemas paulistanos, o documentário “Janis: Little Girl Blue”. Com distribuição da Zeta Filmes, a produção chega Janischancelada por diversos festivais de cinema mundo afora como Veneza, Toronto e Londres. Além, é claro, do Festival do Rio, onde o filme foi uma das atrações em 2015.

A produção consumiu sete anos de Amy J. Berg, diretora e roteirista da produção. O filme aprofunda-se na breve carreira e na intimidade de Janis Joplin, por meio de imagens de arquivo – algumas das quais inéditas –, correspondências pessoais de Janis e entrevistas com ela e seus contemporâneos. Sua única passagem pelo Brasil também é mencionada no filme, que é acima de tudo repleto de trechos de performances ao vivo de suas canções mais icônicas, tanto em sua fase com a Big Brother & The Holding Company como de sua carreira solo.

“Janis: Little Girl Blue”, que empresta de uma das mais tristes canções de Janis seu título, evita conjecturas sobre o destino trágico da cantora, morta aos 27 anos vítima de uma overdose de heroína, mas expõe diversas interpretações a respeito do que poderia ter acontecido. Dessa forma, permite ao público construir sua própria narrativa – romântica ou cética – do que aconteceu com a primeira mulher a acontecer no rock.

Mas o crepúsculo de Janis Joplin, ainda que cinematograficamente cativante, não é o destaque do filme. Ele se ocupa de desnudar o ícone e revelar a mulher, cheia de inseguranças e dotada de um otimismo contrastante com seu mergulho cada vez mais definitivo no mundo das drogas.

“Janis: Little Girl Blue” é daqueles filmes que falam mais ao coração dos fãs, mas que tem muito a dizer a quem entrar no cinema por mero acaso.

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