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segunda-feira, 4 de julho de 2016 Críticas, Filmes | 20:16

Transformações da China e suas reminiscências permeiam o solar “As Montanhas se Separam”

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Foto: divulgação

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O cinema de Zhang-Ke Jia é tradicionalmente constituído por elipses, sutilezas e abstrações que costumam embalar uma produção visualmente robusta e narrativamente cheia de camadas. Com “As Montanhas se Separam” (China, 2015) não é diferente.

Depois de fazer uma crítica ferrenha à sociedade e cultura chinesa, bifurcada entre os sistemas capitalista e comunista, em “Um Toque de Pecado”, Jia volta a tratar do choque entre a China moderna e a China tradicional, mas a partir de um prisma completamente novo, oxigenado e criativo.

O filme se passa em três momentos. Em 1999, 2014 e 2025 (neste segmento, ambientado na Austrália, o filme passa a ser falado majoritariamente em inglês, feito até então inédito na carreira do cineasta).

Sua mulher e atriz-fetiche, Zhao Tao, interpreta Tao, a mulher dividida na juventude entre dois amores: Jinsheng (Zhang Yi) e Lianzi (Jing Dong Liang). O primeiro, empreendedor e entusiasta da cultura ocidental, surge como um grande empresário. O segundo, um modesto empregado numa mina de carvão, de quem Tao parece apreciar mais a companhia.

Esse primeiro ato é todo construído de maneira arquetípica e, não à toa, Tao é uma metáfora pronta da China dividida entre seus valores tradicionais e o capitalismo selvagem.  Quando Jinsheng compra a mina de carvão em que Lianzi trabalha, a batalha pelo “controle” do coração de Tao se acirra e ela é forçada a fazer uma escolha.

Há belas cenas que individualmente acrescem vigor narrativo ao todo, como quando Lianzi vislumbra um felino enjaulado.  No terceiro ato, focado em Dollar (Dong Zijang), filho de Tao e Jinsheng,  e passado na Austrália, percebemos no foro íntimo do personagem o seu flagelo e consternação e, novamente, flagramos uma China em crise de identidade. O personagem sequer se lembra de como falar chinês.

Dollar busca desesperadamente se reconectar com seu passado (e o passado de seu país) e sua mãe. No futuro imaginado por Jia, há aulas para se conhecer mais sobre a cultura chinesa e o estranhamento das circunstâncias dos personagens, todos desconfortáveis com o estado das coisas e com suas atuações para tal, salta aos olhos do espectador com poesia incontida. “Acho que precisamos sofrer para saber que amamos”, diz uma personagem em determinado momento. A frase, e o contexto em que ela é proferida, deixam claro que apesar da atenção à crítica político-social, e de sua eloquência, “As Montanhas se Separam” jamais perde de vista o componente humano. São características que, combinadas, elevam o novo filme de Zhang-Ke Jia ao patamar de obra de arte.

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quinta-feira, 23 de junho de 2016 Críticas, Filmes | 16:57

Honesto e apaixonante, “Como Eu Era Antes de Você” é elogio do amor possível e de suas possibilidades

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O amor como janela para a vida: personagens verdadeiros e contraditórios (Fotos: Divulgação)

O amor como janela para a vida: personagens verdadeiros e contraditórios
(Fotos: Divulgação)

É uma verdade um tanto dolorosa essa de que uma relação amorosa está inexoravelmente fadada ao fim, mas que ela contribuirá decisivamente para o ser humano que você se tornar depois dela. “Como Eu Era Antes de Você” (EUA 2016), já em seu título, entrega seu deslocamento em relação a um típico romance hollywoodiano. Adaptado do best-seller homônimo de Jojo Moyers pela própria autora e dirigido com sensibilidade por Thea Sharrock, o filme tem o mérito incomum de desenvolver um romance a partir do interesse que nutre pela verdade de seus personagens. A atenção a essa logística narrativa faz toda a diferença. E o vínculo romântico entre Lou (Emilia Clarke, mais radiante e cativante do que nunca) e Will (Sam Clafin) jamais surge como o destino da narrativa, e sim como sua jornada.

Ela, uma moça simplória do subúrbio inglês, dona de um senso fashion exótico, ingênua e genuinamente bem intencionada, por força das circunstâncias, acaba indo trabalhar como cuidadora dele. Um jovem promissor do mercado financeiro que teve sua vida transformada abrupta e definitivamente por um acidente que o deixou tetraplégico. Will é compreensivelmente amargo. Ele apenas “existe”, em suas próprias palavras. O filme salpica minúcias aqui e ali que tornam a inicialmente difícil convivência entre Will e Lou muito mais convidativa para o olhar do espectador.

“Amei ver o romance se desenvolver”, diz diretora sobre o que a atraiu em “Como Eu Era Antes de Você”

Ele, por exemplo, fez um arranjo com seus pais de ficar mais seis meses com eles e, depois disso, tirar sua vida na Suíça (país em que a eutanásia é legalizada). A chegada de Lou, espera a mãe de Will – vivida com a habitual energia por Janet McTeer – pode fazer com que ele mude de ideia.

ME BEFORE YOU“Como Eu Era Antes de Você”, naturalmente, convida às lágrimas. Mas não há subterfúgios narrativos para tal. O filme é de uma honestidade tremenda; até mesmo em flagrar os preconceitos, contradições e defeitos de seus personagens. Há muito romantismo no desfecho, plenamente concebível e, justamente por isso, mais poderoso ainda.

Clafin é uma grata surpresa na pele de Will. O verniz que dá à amargura do personagem não se impõe ao brilho dos olhos que brilham mais intensos conforme seu personagem se deixa contagiar pela graciosidade de Lou. Clarke, por seu turno, é uma atriz exuberante e que reveste sua Lou de pequenas belezas que a tornam irresistível também aos olhos do público.

“Como Eu Era Antes de Você” é um dos melhores filmes de 2016 porque é um romance que funde tristeza à felicidade sem idealizar o amor, mas elogia-o no limite do possível e, ao fazê-lo, se firma como um alicerce romântico dos mais perenes, cativantes e significativos. É um filme para se amar para sempre.

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sábado, 18 de junho de 2016 Críticas, Filmes | 18:41

“Casamento de Verdade” foca em romance lésbico para falar de amor com ternura e honestidade

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Katherine Heigl e Linda Emond em cena do filme: sintonia entre as atrizes é um dos trunfos do filme

Katherine Heigl e Linda Emond em cena do filme: sintonia entre as atrizes é um dos trunfos do filme

Acostumada a conceber personagens femininas fortes nos filmes em que atuou como roteirista, como nos casos de “Deixe-me viver” (2002) e “O Custo da Coragem” (2003), Mary Agnes Donoghue apresenta sua personagem mais bem lapidada em “Casamento de Verdade”, filme que marca seu retorno à direção após um hiato de 24 anos.

Jenny (Katherine Heigl), que vive uma relação amorosa com Kitty (Alexis Bledel) há cinco anos, resolve revelar a seus pais que é lésbica para poder se casar com Kitty. A revelação desestabiliza o convívio familiar; em especial a relação de Jenny com sua mãe, vivida com energia e devoção por Linda Emond, e com seu pai, interpretado com a presteza habitual por Tom Wilkinson.

O grande trunfo do filme é balizar esse estremecimento nas relações entre Jenny e seus pais para fazer tanto um elogio do amor, no âmbito familiar, mas também romântico, como para elaborar uma dramédia envolvente com conflitos genuínos e bem azeitados.

Jenny é a heroína do filme e não está imune a falhas. Essa honestidade intelectual da narrativa coloca “Casamento de Verdade” em um patamar diferenciado tanto na análise de produções que abordam temas LGBT como na esfera das comédias românticas.

A honestidade do filme alcança, ainda, as peculiaridades de outros personagens. É natural o desconforto da mãe de Jenny ao saber de uma só vez que sua filha é lésbica, que deliberadamente escondeu isso dela a vida toda e que ela está na iminência de se casar com alguém que frequentava a rotina familiar como amiga de Jenny. Emond tangencia o conflito interno da personagem, dividida pelo fato de desassistir sua filha em um momento crucial de sua vida e o egoísmo indesviável de todo humano de voltar-se para si em momentos de crise, com muita garra e assertividade. Mas o roteiro de Donoghue tem outros acertos e sutilezas. Por meio da relação entre Jenny e seus irmãos, o equilibrado Michael (Matthew Metzger) e a competitiva Anne (Grace Gummer), o filme dá seu insight sobre como ser feliz consigo mesmo. Especial atenção merece a metáfora com a grama, que surge lá pela metade do filme. Aparentemente trivial, a resolução dessa metáfora, diretamente relacionada ao bem estar emocional de uma personagem, eleva o valor de “Casamento de Verdade” como cinema. Há clichês aqui e ali e eles são muito bem-vindos, mas há uma habilidade ímpar na manipulação deles e é justamente isso que faz o filme ser tão recomendável.

 

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segunda-feira, 13 de junho de 2016 Críticas, Filmes | 18:17

“O Valor de um Homem” funde poesia e política ao fazer da sutileza sua matéria-prima

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A primeira cena de “O Valor de um Homem” revela seu protagonista, Thierry discutindo com um funcionário de uma agência de empregos que orienta mal desempregados em busca de recolocação sugerindo estágios e cursos de reciclagem que são pouco efetivos em garantir uma recolocação. A cena, áspera e melancólica, antecipa o tom que Stéphane Brizé irá empregar ao longo da narrativa.

Denominado “A Lei do mercado” (La loi Du marche) no original em francês, o filme se debruça com uma propriedade invejável, e ainda assim com retidão impressionante, sobre as imperfeições do capitalismo. Brizé não se apressa em aferir contornos críticos ao sistema. Ele tangencia um filme político, sem politizar ou partidarizar o conflito de Thierry que, na fase madura da vida, se encontra desempregado e investido em uma busca desamparada e francamente inquietante por um novo trabalho.

Brizé cola a câmara em Vincent Lindon e faz com que o público compartilhe da agonia do personagem. Seja em uma desajeitada entrevista via skype, seja durante a negociação para a venda de um trailer ou mesmo quando discorda do grupo de colegas que, como ele, fora demitido de maneira injusta. Os vestígios do capitalismo, em sua imperfeição constante, estão por toda a parte em “O Valor de um Homem”. Filme construído todo ele em um punhado de grandes cenas, de sobejados valores poético e estético. Não há trilha sonora e apenas a face cada vez mais oprimida de Lindon impera. O ator, parceiro habitual de Brizé, nunca esteve melhor. O minimalismo de sua caracterização é triunfante.  Por meio de gestos, expressões e olhares, Lindon vai descortinando o personagem com a agudeza que apenas grandes intérpretes são capazes de fazer. Nesse escopo, é tanto autor do filme como Brizé que, além da direção, assina o roteiro em parceria com Olivier Gorce.

É o mal-estar incontido de Thierry transfigurado depois que arranja um emprego como segurança em um supermercado que afere altivez à produção. O homem humilhado e constipado pelas amarras do sistema agora serve como olhos desse sistema implacável. A sutileza com que Brisé e Lindon trabalham esse choque entre a letargia laboral do ofício de Thierry e sua resistência interior crescente ao mecanismo em que se vê engendrado é das coisas mais magníficas a se testemunhar no cinema em anos. Não se postula a catarse ou mesmo uma crítica feroz como em filmes não menos encantadores como “O  Lobo de Wall Street”, de Martin Scorsese, e “O Capital”, de Costa-Gravas, mas apenas introspecção nas contradições interiorizadas no indivíduos a partir de suas relações com um sistema político-econômico. Um filme austero em suas elucubrações e poético em suas conclusões. Um filme imperdível para quem gosta de repercutir o homem e o meio, principalmente no contexto da arte.

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quarta-feira, 8 de junho de 2016 Críticas, Filmes | 10:15

Sequência de “Truque de Mestre” repete fórmulas e usa reviravoltas para ganhar o público

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Uma das maiores surpresas de 2013 nos cinemas, “Truque de Mestre” era uma produção charmosa que estreitava a relação entre cinema e ilusionismo ao acompanhar quatro mágicos que faziam grandes números de ilusionismo com a proposta de desmascarar um empresário corrupto. Irregular, o filme flertava com a condescendência do público.  A boa bilheteria garantiu a sequência que chega agora aos cinemas. Sem Louis Leterrier na direção, assume John M. Chu com a consultoria do ilusionista David Copperfield, também creditado como coprodutor.

Copperfield, que já havia prestado consultoria para “O Grande Truque”, de Christopher Nolan, e “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese, chega com a responsabilidade de dinamizar e tornar mais verossímeis os números mágicos apresentados no longa-metragem. Não é, porém, o que acontece. “Truque de Mestre: O Segundo Ato” se incumbe de surpreender o público que curtiu o primeiro filme, mas repete passo a passo as fórmulas aplicadas no original. Cai, portanto, em contradição.

Assim como no primeiro filme, a escalada de surpresas no clímax afasta qualquer comprometimento com a lógica em nome do choque da verdade que sempre esteve em frente aos olhos, dos personagens e da audiência, e ninguém foi capaz de perceber. Trata-se de um recurso irritante para aqueles que apreciam um bom desenvolvimento narrativo. Para quem busca apenas surpreender-se na sala escura, “Truque de Mestre: O Segundo Ato”, talvez se prove até mesmo mais eficiente do que o original.

A ideia é levar tudo ao limite. Woody Harrelson, sob muitos aspectos o melhor do primeiro filme, surge aqui duplicado. Seu irmão gêmeo está a serviço do bilionário inglês que quer que a trupe comandada por Dylan (Mark Ruffalo) roube um cartão que lhe dará acesso a todo e qualquer computador no planeta. O cartão está em Macau, na China, e o bilionário em questão é interpretado por Daniel Radcliffe, o Harry Potter em pessoa, aqui mais zeloso da ciência do que da mágica, mas afeito a truques. Radcliffe é subaproveitado pelo filme, que se beneficia mais de seu nome no cartaz do que de seu bom timing cômico em cena.

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Como Isla Fisher não retornou para a sequência, Lizzy Caplan surge como a principal personagem feminina e ela aproveita bem a chance. De todo o elenco, que ainda conta com o retorno de Morgan Freeman, é a única que parece não estar no piloto automático.

“Truque de Mestre: O Segundo Ato” é um caso típico de como Hollywood não sabe lidar com seus sucessos. Um filme imperfeito, mas charmoso e relativamente original que fez algum barulho em 2013, agora ganha uma desnecessária sequência que deve fracassar e comprometer a memória que o público tem do original.

 

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quarta-feira, 25 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 20:26

Circunstâncias da vingança e discussão sobre identidade movem excelente “Memórias Secretas”

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De quando em quando surgem aqueles filmes que, além de surpreender, arrebatam a audiência. “Memórias Secretas”, novo filme do egípcio naturalizado canadense Atom Egoyan, é um desses filmes.

Para além do plot original e criativo, em que um nonagenário vingador e desmemoriado tenta acertar as contas com o passado, o filme se organiza como um thriller de estupenda eficiência revelando camadas a cada nova cena. O filme de Egoyan sobeja, ainda, no quesito humanidade. O que se vê na tela atinge o espectador em cheio provocando conflitos e reavaliações à medida que o protagonista vivido por Christopher Plummer se aprofunda em sua caça.

A caça em questão é pelo nazista responsável pela morte de seus familiares em Auschwitz. Plummer dá a seu Zev Guttman um misto de fragilidade e obstinação que cativam o público de imediato. A ideia de fugir do asilo em que está internado e perseguir América adentro este nazista que imigrou para os EUA disfarçado de judeu parte de seu amigo e colega de asilo Max Zucker (Martin Landau). Eles compartilham do passado trágico e têm este nazista em comum.

Egoyan filma tudo com a devida reverência ao roteiro de Benjamin August que vai iluminando aos poucos a verdade sobre a saga de Zev e agregando brilhantismo a cada nova revelação.

Leia também: “Ideia deste filme é completamente original”, diz diretor de “Memórias Secretas”

Leia mais: “O filme é uma análise de como lidamos com trauma”, diz Atom Egoyan

Subterrânea à trama principal, Egoyan aloja uma interessantíssima discussão sobre identidade e a ulceração desta pela fuga da memória.

Egoyan, que apresentava uma irregularidade inquietante na fase americana de sua filmografia, ostenta aqui seu melhor filme em duas décadas. Desde o elogiado e premiadíssimo “O Doce Amanhã” seu cinema não surgia tão vigoroso e oxigenado.

“Memórias Secretas” é daqueles filmes que se impregnam no espectador após a sessão. Em uma época de grande volatilidade e superficialidade no cinema americano, um filme capaz de provocar este impacto, mais do que assistido, merece ser celebrado.

 

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segunda-feira, 23 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 20:05

“Angry Birds” é adaptação digna e eficiente do game de sucesso

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O desafio era enorme. Como adaptar de maneira minimamente satisfatória o game de sucesso “Angry Birds” para o cinema? Não havia história para ser adaptada e o que o roteirista John Vitti, com uma generosa lista de préstimos às animações fez foi criar em cima da boa ideia do game. Se as características dos personagens foram preservadas e acrescidas de robusto carisma, um mérito que precisa ser compartilhado com o time de dubladores – especialmente na versão nacional, há gargalos no desenvolvimento da narrativa que não passam despercebidos.

Na trama, Red (dublado no original por Jason Sudeikis e na versão nacional por Marcelo Adnet) é um pássaro um tanto esquentadinho que como pena para seu temperamento fora das conformidades da Ilha dos Pássaros tem que frequentar o grupo de terapia de Matilda (Maya Rudolph/ Dani Calabresa). É lá que ele conhece Chuck (Josh Gad/ Fábio Porchat) e Bomba (Danny McBride/Mauro Ramos), com quem acaba criando inesperados vínculos de amizade.

O trio será o responsável por tentar resgatar os ovos roubados pelos porcos verdes.

É justamente na introdução dos personagens, especialmente de Red, que “Angry Birds” ostenta maior brilho. São nas gags que falam aos adultos que o filme se permite imaginativo, mas é justamente na irreverência que se segue que fisga a criançada. E é assim, com um olho no peixe e outro no gato, que “Angry Birds – O Filme” ganha a audiência. Com suas imperfeições narrativas e sua exuberância técnica, a animação da Sony se consagra como um programa para lá de recomendável para toda a família.

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sexta-feira, 20 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 23:38

Sem abrir mão da escatologia, “Vizinhos 2” abraça diversidade para divertir

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Todo mundo conhece aquela máxima de que não se mexe em time que está ganhando. Há quem discorde. Certamente não é o caso dos realizadores de “Vizinhos 2” (2016). A continuação do inesperado e acachapante sucesso do verão americano de 2014 traz de volta todos os elementos que funcionaram no primeiro filme. Da direção de Nicholas Stoller à reimaginação de gags e cenas que funcionaram maravilhosamente bem.

Leia também: “Vizinhos” celebra o prazer pelo besteirol americano

Mac (Seth Rogen) e Kelly (Rose Byrne) estão grávidos novamente. Não é só. Eles acabam de comprar uma nova casa e, depois de vencido o período calção de 30 dias (carência em que os compradores podem desfazer o negócio), vão se despedir da vizinhança de tantas memórias. Acontece que uma fraternidade muda-se para a casa ao lado e coloca o casal em alerta máximo. Dessa vez, a fraternidade é de meninas e Chloë Grace Moretz faz a presidente do grupo.

Para não dizer que não há qualquer vestígio de mudança em relação ao original, a sequência recepciona um discurso pró-diversidade. Além de um plot feminista, no contexto de que a fraternidade comandada por Moretz objetiva romper com o sexismo explícito das fraternidades masculinas, há um personagem do primeiro filme que sai do armário com gosto. Apesar da escatologia, “Vizinhos 2” se esforça para ser um filme fofo e família. Se o primeiro filme já tinha adornos familiares, este segundo assume essa faceta com mais disposição. O que não quer dizer tirar o pé da lama. Espere absorventes usados jogados pela janela. Um strip-tease regado a óleo de cozinha, crianças brincando com dildos, entre outras “ousadias”.

Zac Efron volta como o tapado Teddy Sanders e seu timing cômico nunca esteve melhor. O personagem responde pelos momentos genuinamente mais engraçados do filme e, ainda naquela pegada feminista, a objetificação do ator atinge escala hiperbólica.

Não é o caso de dizer que “Vizinhos 2” é algo a mais do que um bom besteirol americano. Mas trata-se de uma comédia honesta, algo cada vez mais raro, e realmente divertida se assistida no devido espírito.

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quinta-feira, 19 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 17:03

“Amores Urbanos” rejeita ideias prontas e faz elogio do amor possível

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Julia (Maria Laura Nogueira) acorda ao lado do namorado e descobre que ele é namorado de outra mulher que está fazendo um escândalo na garagem do prédio pela cena que acabou de presenciar no apartamento. O rapaz se vira para Júlia e diz “Por favor, vai embora daqui”. Essa cena fracamente desorientadora abre “Amores Urbanos”, primeiro filme de Vera Egito.

A produção aborda com um improvável misto de afeto e inquietação as desventuras amorosas de três amigos na faixa dos 30 anos que moram em São Paulo. Ao lançar luz sobre as conturbadas relações de Júlia, que se descobre grávida desse sujeito que a enganara durante tanto tempo, Diego (Thiago Pethit), que resiste às pressões do namorado Luan para que morem juntos, e Mica (Renata Gaspar), incomodada com o fato da namorada (Ana Cañas) resistir a assumir o namoro com ela para os amigos, Egito tece uma pequena e saborosa crônica sobre a crise dos 30 anos. Algo tão comum, mas nem por isso banal, na atualidade.

A contemporaneidade dos conflitos norteia o registro. Não apenas no foro do amor, mas também em outros aspectos. “Eu tô na merda, o Di tá na merda e você sempre dizendo que tá tudo ótimo”, observa Mica a uma Júlia ainda desorientada lá pela metade da fita. Mais do que retratar esses amores que se metamorfoseiam fugazmente, Egito oferece a seus personagens os sabores e dissabores da maturidade. Nesse escopo, seu filme é abrilhantado pelas atuações naturalistas de um elenco sem vícios e com muito tesão pela história contada.

Sem julgar seus personagens, mas permitindo que eles se julguem destemidamente, “Amores Urbanos” se ajusta àquele cinema que se pretende reflexivo do tempo e do espaço. A urbanidade, discretamente contemplada por força orçamentária, ganha vivacidade nos diálogos e nos desencontros dos personagens.

Cuidadosa, Egito evita os clichês na resolução dos conflitos aventados, mas recepciona as convenções contemporâneas que fazem sentido às verdades que seus personagens defendem ao longo do filme. Corajoso e espirituoso, “Amores Urbanos” é um filme que faz sentido principalmente para quem rejeita ideias prontas.

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quarta-feira, 18 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 19:05

Apesar da grandiloquência, “X-Men: Apocalipse” funciona melhor nos detalhes

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Há uma piada com “Star Wars” em um determinado momento de “X-Men: Apocalipse” (EUA, 2016) que merece atenção. Ali, ao brincar com a percepção a respeito da trilogia original, Bryan Singer e o roteirista Simon Kinberg emulam muitas coisas sobre a franquia mutante. A primeira noção é indesviável. Os X-Men são hoje um patrimônio cultural de tanto relevo quanto Luke Skywalker, Darth Vader e os demais cânones da saga criada por George Lucas. Mais: Singer dá uma provocada em Brett Ratner, diretor de “X-Men: O Confronto Final”, que substituiu Singer no desfecho da primeira trilogia. Há, no entanto, a possível leitura de que a piada funciona como uma disfarçada autocrítica ao filme que se assiste.

“X-Men: Apocalipse” não é um filme ruim. Funciona maravilhosamente bem como entretenimento. É fluido, tem personagens carismáticos e boas cenas – e Mercúrio (vivido com aquela malandragem afetuosa por Evan Peters) responde por praticamente todas elas -, mas carece de maior substância narrativa.  O novo filme padece do mesmo problema que enfraquece o impacto de “Dias de um Futuro Esquecido” (2014). Singer recicla dilemas e conflitos que Matthew Vaugh esgotara com brilhantismo em “X-Men: Primeira Classe” (2011) que resiste como o melhor filme da franquia mutante.

O que agrava as circunstâncias desfavoráveis a “X-Men: Apocalipse” é o vilão tacanho e com motivações abobalhadas. Pouco depois de lançados filmes como “Deadpool”, em que se propõe um olhar satírico aos filmes de super-heróis, ou “Capitão América: Guerra Civil”, em que o gênero se apropria de uma discussão política para promover um espetáculo visual, o novo “X-Men” surge datado com uma proposta que não parece mais salutar para uma audiência cada vez mais exigente com produções baseadas em HQs.

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Bryan Singer orienta os atores no set de "X-Men: Apocalipse" (Foto: divulgação)

Bryan Singer orienta os atores no set de “X-Men: Apocalipse”
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Apocalipse (Oscar Isaac) que destruir o mundo e os “falsos deuses” que dele se ocupam para construir um novo e reinar absoluto. Cabe aos X-Men impedirem esse plano maléfico. No meio tempo, os personagens precisam se aceitar. Erick Lehnsherr (Michael Fassbender) tenta submergir na simplicidade de um operário, mas a tragédia lhe persegue e todas as dores do passado lhe colocam no centro dos planos de Apocalipse. Por seu turno, Xavier (James McAvoy) parece mais ajustado aos planos que desenvolveu para sua escola de jovens superdotados, mas o destino lhe traz novamente Moira MacTaggert (Rose Byrne) e com ela inquietações que ele julgara relegadas ao passado.

Como essas breves sinopses sugerem, em seus elementos periféricos, “X-Men: Apocalipse” funciona tremendamente melhor do que no desenvolvimento de sua trama central. O que ratifica a percepção que os realizadores da série conseguem estipular um bom filme de equipe de super-heróis, algo ainda mais vívido em um cinema pós- “Os Vingadores”, mas que falham temerariamente em absorver aquilo que a franquia mutante tem de melhor a oferecer: o paralelismo com praticamente tudo de ruim que acometeu a humanidade. Do nazismo ao racismo, passando pela manipulação política, o manancial é farto. Conceitos tão bem alinhados por Matthew Vaughn em “X-Men: Primeira Classe” e que arranhados nos filmes subsequentes só empalidecem a franquia no contexto histórico.

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