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quarta-feira, 8 de junho de 2016 Críticas, Filmes | 10:15

Sequência de “Truque de Mestre” repete fórmulas e usa reviravoltas para ganhar o público

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Uma das maiores surpresas de 2013 nos cinemas, “Truque de Mestre” era uma produção charmosa que estreitava a relação entre cinema e ilusionismo ao acompanhar quatro mágicos que faziam grandes números de ilusionismo com a proposta de desmascarar um empresário corrupto. Irregular, o filme flertava com a condescendência do público.  A boa bilheteria garantiu a sequência que chega agora aos cinemas. Sem Louis Leterrier na direção, assume John M. Chu com a consultoria do ilusionista David Copperfield, também creditado como coprodutor.

Copperfield, que já havia prestado consultoria para “O Grande Truque”, de Christopher Nolan, e “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese, chega com a responsabilidade de dinamizar e tornar mais verossímeis os números mágicos apresentados no longa-metragem. Não é, porém, o que acontece. “Truque de Mestre: O Segundo Ato” se incumbe de surpreender o público que curtiu o primeiro filme, mas repete passo a passo as fórmulas aplicadas no original. Cai, portanto, em contradição.

Assim como no primeiro filme, a escalada de surpresas no clímax afasta qualquer comprometimento com a lógica em nome do choque da verdade que sempre esteve em frente aos olhos, dos personagens e da audiência, e ninguém foi capaz de perceber. Trata-se de um recurso irritante para aqueles que apreciam um bom desenvolvimento narrativo. Para quem busca apenas surpreender-se na sala escura, “Truque de Mestre: O Segundo Ato”, talvez se prove até mesmo mais eficiente do que o original.

A ideia é levar tudo ao limite. Woody Harrelson, sob muitos aspectos o melhor do primeiro filme, surge aqui duplicado. Seu irmão gêmeo está a serviço do bilionário inglês que quer que a trupe comandada por Dylan (Mark Ruffalo) roube um cartão que lhe dará acesso a todo e qualquer computador no planeta. O cartão está em Macau, na China, e o bilionário em questão é interpretado por Daniel Radcliffe, o Harry Potter em pessoa, aqui mais zeloso da ciência do que da mágica, mas afeito a truques. Radcliffe é subaproveitado pelo filme, que se beneficia mais de seu nome no cartaz do que de seu bom timing cômico em cena.

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Como Isla Fisher não retornou para a sequência, Lizzy Caplan surge como a principal personagem feminina e ela aproveita bem a chance. De todo o elenco, que ainda conta com o retorno de Morgan Freeman, é a única que parece não estar no piloto automático.

“Truque de Mestre: O Segundo Ato” é um caso típico de como Hollywood não sabe lidar com seus sucessos. Um filme imperfeito, mas charmoso e relativamente original que fez algum barulho em 2013, agora ganha uma desnecessária sequência que deve fracassar e comprometer a memória que o público tem do original.

 

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quarta-feira, 25 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 20:26

Circunstâncias da vingança e discussão sobre identidade movem excelente “Memórias Secretas”

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De quando em quando surgem aqueles filmes que, além de surpreender, arrebatam a audiência. “Memórias Secretas”, novo filme do egípcio naturalizado canadense Atom Egoyan, é um desses filmes.

Para além do plot original e criativo, em que um nonagenário vingador e desmemoriado tenta acertar as contas com o passado, o filme se organiza como um thriller de estupenda eficiência revelando camadas a cada nova cena. O filme de Egoyan sobeja, ainda, no quesito humanidade. O que se vê na tela atinge o espectador em cheio provocando conflitos e reavaliações à medida que o protagonista vivido por Christopher Plummer se aprofunda em sua caça.

A caça em questão é pelo nazista responsável pela morte de seus familiares em Auschwitz. Plummer dá a seu Zev Guttman um misto de fragilidade e obstinação que cativam o público de imediato. A ideia de fugir do asilo em que está internado e perseguir América adentro este nazista que imigrou para os EUA disfarçado de judeu parte de seu amigo e colega de asilo Max Zucker (Martin Landau). Eles compartilham do passado trágico e têm este nazista em comum.

Egoyan filma tudo com a devida reverência ao roteiro de Benjamin August que vai iluminando aos poucos a verdade sobre a saga de Zev e agregando brilhantismo a cada nova revelação.

Leia também: “Ideia deste filme é completamente original”, diz diretor de “Memórias Secretas”

Leia mais: “O filme é uma análise de como lidamos com trauma”, diz Atom Egoyan

Subterrânea à trama principal, Egoyan aloja uma interessantíssima discussão sobre identidade e a ulceração desta pela fuga da memória.

Egoyan, que apresentava uma irregularidade inquietante na fase americana de sua filmografia, ostenta aqui seu melhor filme em duas décadas. Desde o elogiado e premiadíssimo “O Doce Amanhã” seu cinema não surgia tão vigoroso e oxigenado.

“Memórias Secretas” é daqueles filmes que se impregnam no espectador após a sessão. Em uma época de grande volatilidade e superficialidade no cinema americano, um filme capaz de provocar este impacto, mais do que assistido, merece ser celebrado.

 

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segunda-feira, 23 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 20:05

“Angry Birds” é adaptação digna e eficiente do game de sucesso

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O desafio era enorme. Como adaptar de maneira minimamente satisfatória o game de sucesso “Angry Birds” para o cinema? Não havia história para ser adaptada e o que o roteirista John Vitti, com uma generosa lista de préstimos às animações fez foi criar em cima da boa ideia do game. Se as características dos personagens foram preservadas e acrescidas de robusto carisma, um mérito que precisa ser compartilhado com o time de dubladores – especialmente na versão nacional, há gargalos no desenvolvimento da narrativa que não passam despercebidos.

Na trama, Red (dublado no original por Jason Sudeikis e na versão nacional por Marcelo Adnet) é um pássaro um tanto esquentadinho que como pena para seu temperamento fora das conformidades da Ilha dos Pássaros tem que frequentar o grupo de terapia de Matilda (Maya Rudolph/ Dani Calabresa). É lá que ele conhece Chuck (Josh Gad/ Fábio Porchat) e Bomba (Danny McBride/Mauro Ramos), com quem acaba criando inesperados vínculos de amizade.

O trio será o responsável por tentar resgatar os ovos roubados pelos porcos verdes.

É justamente na introdução dos personagens, especialmente de Red, que “Angry Birds” ostenta maior brilho. São nas gags que falam aos adultos que o filme se permite imaginativo, mas é justamente na irreverência que se segue que fisga a criançada. E é assim, com um olho no peixe e outro no gato, que “Angry Birds – O Filme” ganha a audiência. Com suas imperfeições narrativas e sua exuberância técnica, a animação da Sony se consagra como um programa para lá de recomendável para toda a família.

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sexta-feira, 20 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 23:38

Sem abrir mão da escatologia, “Vizinhos 2” abraça diversidade para divertir

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Todo mundo conhece aquela máxima de que não se mexe em time que está ganhando. Há quem discorde. Certamente não é o caso dos realizadores de “Vizinhos 2” (2016). A continuação do inesperado e acachapante sucesso do verão americano de 2014 traz de volta todos os elementos que funcionaram no primeiro filme. Da direção de Nicholas Stoller à reimaginação de gags e cenas que funcionaram maravilhosamente bem.

Leia também: “Vizinhos” celebra o prazer pelo besteirol americano

Mac (Seth Rogen) e Kelly (Rose Byrne) estão grávidos novamente. Não é só. Eles acabam de comprar uma nova casa e, depois de vencido o período calção de 30 dias (carência em que os compradores podem desfazer o negócio), vão se despedir da vizinhança de tantas memórias. Acontece que uma fraternidade muda-se para a casa ao lado e coloca o casal em alerta máximo. Dessa vez, a fraternidade é de meninas e Chloë Grace Moretz faz a presidente do grupo.

Para não dizer que não há qualquer vestígio de mudança em relação ao original, a sequência recepciona um discurso pró-diversidade. Além de um plot feminista, no contexto de que a fraternidade comandada por Moretz objetiva romper com o sexismo explícito das fraternidades masculinas, há um personagem do primeiro filme que sai do armário com gosto. Apesar da escatologia, “Vizinhos 2” se esforça para ser um filme fofo e família. Se o primeiro filme já tinha adornos familiares, este segundo assume essa faceta com mais disposição. O que não quer dizer tirar o pé da lama. Espere absorventes usados jogados pela janela. Um strip-tease regado a óleo de cozinha, crianças brincando com dildos, entre outras “ousadias”.

Zac Efron volta como o tapado Teddy Sanders e seu timing cômico nunca esteve melhor. O personagem responde pelos momentos genuinamente mais engraçados do filme e, ainda naquela pegada feminista, a objetificação do ator atinge escala hiperbólica.

Não é o caso de dizer que “Vizinhos 2” é algo a mais do que um bom besteirol americano. Mas trata-se de uma comédia honesta, algo cada vez mais raro, e realmente divertida se assistida no devido espírito.

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quinta-feira, 19 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 17:03

“Amores Urbanos” rejeita ideias prontas e faz elogio do amor possível

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Julia (Maria Laura Nogueira) acorda ao lado do namorado e descobre que ele é namorado de outra mulher que está fazendo um escândalo na garagem do prédio pela cena que acabou de presenciar no apartamento. O rapaz se vira para Júlia e diz “Por favor, vai embora daqui”. Essa cena fracamente desorientadora abre “Amores Urbanos”, primeiro filme de Vera Egito.

A produção aborda com um improvável misto de afeto e inquietação as desventuras amorosas de três amigos na faixa dos 30 anos que moram em São Paulo. Ao lançar luz sobre as conturbadas relações de Júlia, que se descobre grávida desse sujeito que a enganara durante tanto tempo, Diego (Thiago Pethit), que resiste às pressões do namorado Luan para que morem juntos, e Mica (Renata Gaspar), incomodada com o fato da namorada (Ana Cañas) resistir a assumir o namoro com ela para os amigos, Egito tece uma pequena e saborosa crônica sobre a crise dos 30 anos. Algo tão comum, mas nem por isso banal, na atualidade.

A contemporaneidade dos conflitos norteia o registro. Não apenas no foro do amor, mas também em outros aspectos. “Eu tô na merda, o Di tá na merda e você sempre dizendo que tá tudo ótimo”, observa Mica a uma Júlia ainda desorientada lá pela metade da fita. Mais do que retratar esses amores que se metamorfoseiam fugazmente, Egito oferece a seus personagens os sabores e dissabores da maturidade. Nesse escopo, seu filme é abrilhantado pelas atuações naturalistas de um elenco sem vícios e com muito tesão pela história contada.

Sem julgar seus personagens, mas permitindo que eles se julguem destemidamente, “Amores Urbanos” se ajusta àquele cinema que se pretende reflexivo do tempo e do espaço. A urbanidade, discretamente contemplada por força orçamentária, ganha vivacidade nos diálogos e nos desencontros dos personagens.

Cuidadosa, Egito evita os clichês na resolução dos conflitos aventados, mas recepciona as convenções contemporâneas que fazem sentido às verdades que seus personagens defendem ao longo do filme. Corajoso e espirituoso, “Amores Urbanos” é um filme que faz sentido principalmente para quem rejeita ideias prontas.

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quarta-feira, 18 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 19:05

Apesar da grandiloquência, “X-Men: Apocalipse” funciona melhor nos detalhes

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Há uma piada com “Star Wars” em um determinado momento de “X-Men: Apocalipse” (EUA, 2016) que merece atenção. Ali, ao brincar com a percepção a respeito da trilogia original, Bryan Singer e o roteirista Simon Kinberg emulam muitas coisas sobre a franquia mutante. A primeira noção é indesviável. Os X-Men são hoje um patrimônio cultural de tanto relevo quanto Luke Skywalker, Darth Vader e os demais cânones da saga criada por George Lucas. Mais: Singer dá uma provocada em Brett Ratner, diretor de “X-Men: O Confronto Final”, que substituiu Singer no desfecho da primeira trilogia. Há, no entanto, a possível leitura de que a piada funciona como uma disfarçada autocrítica ao filme que se assiste.

“X-Men: Apocalipse” não é um filme ruim. Funciona maravilhosamente bem como entretenimento. É fluido, tem personagens carismáticos e boas cenas – e Mercúrio (vivido com aquela malandragem afetuosa por Evan Peters) responde por praticamente todas elas -, mas carece de maior substância narrativa.  O novo filme padece do mesmo problema que enfraquece o impacto de “Dias de um Futuro Esquecido” (2014). Singer recicla dilemas e conflitos que Matthew Vaugh esgotara com brilhantismo em “X-Men: Primeira Classe” (2011) que resiste como o melhor filme da franquia mutante.

O que agrava as circunstâncias desfavoráveis a “X-Men: Apocalipse” é o vilão tacanho e com motivações abobalhadas. Pouco depois de lançados filmes como “Deadpool”, em que se propõe um olhar satírico aos filmes de super-heróis, ou “Capitão América: Guerra Civil”, em que o gênero se apropria de uma discussão política para promover um espetáculo visual, o novo “X-Men” surge datado com uma proposta que não parece mais salutar para uma audiência cada vez mais exigente com produções baseadas em HQs.

Leia mais: “X-Men – Dias de um Futuro Esquecido” objetiva equacionar universo mutante no cinema

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Bryan Singer orienta os atores no set de "X-Men: Apocalipse" (Foto: divulgação)

Bryan Singer orienta os atores no set de “X-Men: Apocalipse”
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Apocalipse (Oscar Isaac) que destruir o mundo e os “falsos deuses” que dele se ocupam para construir um novo e reinar absoluto. Cabe aos X-Men impedirem esse plano maléfico. No meio tempo, os personagens precisam se aceitar. Erick Lehnsherr (Michael Fassbender) tenta submergir na simplicidade de um operário, mas a tragédia lhe persegue e todas as dores do passado lhe colocam no centro dos planos de Apocalipse. Por seu turno, Xavier (James McAvoy) parece mais ajustado aos planos que desenvolveu para sua escola de jovens superdotados, mas o destino lhe traz novamente Moira MacTaggert (Rose Byrne) e com ela inquietações que ele julgara relegadas ao passado.

Como essas breves sinopses sugerem, em seus elementos periféricos, “X-Men: Apocalipse” funciona tremendamente melhor do que no desenvolvimento de sua trama central. O que ratifica a percepção que os realizadores da série conseguem estipular um bom filme de equipe de super-heróis, algo ainda mais vívido em um cinema pós- “Os Vingadores”, mas que falham temerariamente em absorver aquilo que a franquia mutante tem de melhor a oferecer: o paralelismo com praticamente tudo de ruim que acometeu a humanidade. Do nazismo ao racismo, passando pela manipulação política, o manancial é farto. Conceitos tão bem alinhados por Matthew Vaughn em “X-Men: Primeira Classe” e que arranhados nos filmes subsequentes só empalidecem a franquia no contexto histórico.

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quarta-feira, 4 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 17:37

Com sátira a Hollywood, “Ave, César!” é deleite narrativo para iniciados nos Coen

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A Hollywood da era de ouro é ridicularizada com afeto no novo filme dos irmãos Coen (Fotos: divulgação)

A Hollywood da era de ouro é ridicularizada com afeto no novo filme dos irmãos Coen
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Há uma cena em “Ave, César!” em que um assistente de produção do épico cujas filmagens o novo filme dos irmãos Coen se ocupa, questiona um homem pregado na cruz: ‘você é figurante ou consta do elenco principal’? O homem devolve: ‘ eu acho que sou principal’. Essa é apenas uma das elaboradas e bem sacadas piadas do saboroso filme dos Coen que, além do grande elenco, oferta ao público uma saborosa sátira da Hollywood da era de ouro.

Se piscar, perde a piada.

“Ave, César!”, porém, não é um filme de piadas fáceis. Embora tenha sua cota de grande momentos que independem de maior contextualização histórica, o filme se fia no conhecimento do público de certos meandros da Hollywood clássica. Esse “conhecimento de causa” torna o filme muito mais vigoroso e divertido.

Ser fã do cinema dos Coen, obviamente, gera empatia imediata. Ainda que diferentemente de filmes como “Fargo” (1996) e “Queime Depois de Ler” (2008), o humor dos cineastas está menos a serviço de uma postura cínica diante do mundo e mais no espírito lisonjeiro ao cinema americano de outra época. Algo tangenciado no protagonista Ed Mannix, vivido confortavelmente por Josh Brolin como se atuasse com um alfinete no dedão do pé. Mannix é o chefe do estúdio Capitol Pictures e, naturalmente, tem sua cota diária de pepinos para resolver. Do astro de faroestes monossilábico que não consegue atuar para o diretor refinado à estrela que aparece grávida e necessitada de um marido para que um escândalo seja evitado, Mannix costura acordos e resoluções a torto e a direito. Durante a produção do épico “Ave, César”, no entanto, essa sua estressada rotina piora. Para começar, o astro do filme, Baird Whitlock (George Clooney), é sequestrado por um grupo de tendências comunistas denominado O Futuro. Mannix ainda é assediado por uma empresa de aviação civil que o quer na gestão cotidiana do negócio. Ele resiste. Como o cigarro, o cinema é um vício para o católico e certinho Mannix.

São muitos os grandes momentos que os Coen oferecem em “Ave, César!”, mas o todo parece deslocado. Talvez seja o sentimento de piada interna, talvez seja o ritmo de esquetes que rapidamente toma conta do filme, fato é que “Ave, César!” parece funcionar melhor nas partes do que no todo; o que não afasta a percepção de que se trata de um belo filme.

Filme é cheio de minúcias e o personagem Hobie Doyle é uma das mais bem engendradas

Filme é cheio de minúcias e o personagem Hobie Doyle é uma das mais bem engendradas

Os Coen riem com gosto dessa fogueira de vaidades que é Hollywood. Continuam vendo astros de cinema burros – os personagens de Clooney e Tatum são um achado e vale a penar atentar à oposição entre eles e o decalque de John Wayne vivido por Alden Ehrenreich, ator mais inteligente do que nos damos conta – sujeitos oportunistas a rodo e pequenas idiossincrasias que vão agradar cinéfilos de toda a sorte.

“Ave, César!” é, enfim, um filme que ridiculariza a musculatura de Hollywood só para louvar seu status quo.

 

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quinta-feira, 28 de abril de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 17:17

Ao despir seus personagens de simpatia, “A Frente Fria que a Chuva Traz” rejeita o óbvio no cinema

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Desde o lançamento de “Cidade de Deus”, as favelas ficaram pop no cinema brasileiro. A ideia de discutir a fetichização das favelas passou a ser uma espécie de fetiche do cinema nacional. Filmes como “Cidade dos Homens” (2007) e “Era uma Vez” (2008) são emblemáticos dessas circunstâncias. “A Frente Fria que a Chuva Traz”, baseado em peça homônima de Mário Bertolotto, é mais urgente na abordagem que faz desse deslocamento urbano e social e econômico na construção de sua mise-en-scène.

O filme, que marca o retorno de Neville d´Almeida à direção depois de um hiato de quase 18 anos, dá verniz a esse conceito de fetiche ao expor a natureza hedonista de jovens abastados que se apropriam do espaço da favela por pura diversão. Sutilmente, com o préstimo do afiado texto de Bertoloto, Neville agrega a solidão e receios de outra ordem à equação.

Em cena, há mais do que o desejo do rico de abusar do pobre e do pobre de absorver o rico. Há mais do que a banalização do sexo nos arremedos do jogo social. Não á toa, logo em um dos primeiros diálogos, um personagem admite ter se cagado enquanto desacordado após um porre daqueles. Neville entrega de cara a sua audiência um fato que logo ganhará forma nas pirocas e cús pronunciados a rodo: estamos diante de um cinema transgressivo. Transgredir, para Neville d´Almeida, é recusar a perplexidade. É rejeitar o marasmo que vassala os personagens em cena e que começa a incomodar Amsterdã, magnificamente interpretada por Bruna Linzmeyer. Pobre e viciada, ela se infiltra entre os ricos que curtem a favela como um clube particular e por eles é tratada com a curiosidade e atenção dispensada a um pet.

É o olhar desencantado, mas também cínico, de Amsterdã para todo aquele universo de porcelana que movimenta os melhores momentos de “A Frente Fria que a Chuva Traz”.

A hipersexualização, no filme, é mais um sintoma desse atrito entre classes antagônicas e conflitantes, do que um veículo de expressão da fase da vida desses jovens. Nesse contexto em particular, a opção por não mostrar cenas de sexo em um filme quase todo ele sexualizado, resulta na transgressão maior de Neville: acuar o público em seu próprio desejo desalojado.

O impacto do filme reside majoritariamente aí. No apontamento de quão deslocadas estão as expectativas. As nossas e a de todos os personagens em cena. O prenúncio da frente fria, afinal, desestabiliza tudo e todos.

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quarta-feira, 27 de abril de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 15:28

Superlativo e humano, “Capitão América: Guerra Civil” é o filme que a Marvel estava devendo

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Vamos tirar o elefante da sala. “Capitão América: Guerra Civil” é o filme que os fãs de HQs merecem e que os fãs do universo cinematográfico da Marvel esperavam. O que não quer dizer que seja o melhor filme da Marvel ou mesmo a melhor produção estrelada por super-heróis. Tanto continuação de “Capitão América: Soldado Invernal”, como sequência natural de “Vingadores: A Era de Ultron”, “Guerra Civil” só funciona plenamente para quem estiver inteirado do universo cinematográfico da Marvel, afastando a ideia de experiência plenamente satisfatória que um filme deve despertar individualmente. Isso não é um problema, apenas uma contextualização para início de conversa.

“Guerra Civil” é superlativo. Se permite ser o auge deste universo em constantes evolução e expansão que é o da Marvel e seu maior trunfo é justamente o equilíbrio com que tudo acontece e é apresentado ao espectador. O acirramento político que opõe Steve Rogers (Chris Evans) e Tony Stark (Robert Downey Jr.) não se sobrepõe às angústias que mobilizam esses personagens. Os conflitos emocionais ganham surpreendente relevo em personagens com menos destaque em cena, como T´Challa (Chadwick Boseman), o Pantera Negra, que debuta aqui antes mesmo de ganhar seu filme solo, prometido para 2018.

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Joe e Anthony Russo não são competentes apenas na arquitetura visual de “Guerra Civil”, e o filme é deslumbrante das coreografias de lutas às cenas de ação mais “super”, mas na sensibilidade com que fazem deste filme cheio de arestas e personagens algo coeso e vívido. “Guerra Civil” nunca deixa de ser um filme do Capitão América, mas é, também, um produto Marvel com DNA daqueles crossovers que fan boys tanto se amarram. Todos os personagens têm momentos para chamar de seu e com atores calibrados como Robert Downey Jr.,Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Don Cheadle e Scarlett Johansson, o filme ganha nesses momentos de respiro, insuspeita humanidade.

Os Russo conseguiram nivelar, ainda, o humor típico das produções Marvel – que aqui ganha força e propulsão com a boa participação do Homem-Aranha (Tom Holland já parece veterano na pele de Peter Parker) – com o indefectível aspecto sombrio que move essa sequência.

O tom político e a discussão sobre vigilantismo talvez não alcancem o ponto dramático necessário, ou mesmo o possível, mas a primeira hora de “Guerra Civil” é das coisas mais empolgantes surgidas nas adaptações de HQ desde “O Cavaleiro das Trevas” (2008). Ali se enraíza uma discussão complexa e profunda que excede os limites do cinema de gênero. Mas o tratamento é apenas como ponto de partida para algo maior, no caso, a fase 3 da Marvel no cinema. Novamente, não há nenhum problema nisso. Trata-se de uma opção narrativa em um cenário macro, como é o universo da Marvel. Opções estas que, aliadas às restrições que a Marvel tem no cinema em relação aos personagens de seu catálogo, também respondem pelas diferenças entre a guerra civil do cinema e a da saga nas HQs.

Aqui o ponto que opõe Rogers e Stark é se os vingadores devem ou não responder a ONU. Há, sim, garantias individuais em jogo, mas não no escopo da série das HQs, em que o governo cobrava que todos os super-heróis revelassem suas identidades. De qualquer forma, o estupor político é suficientemente inflamatório para gerar grandes repercussões entre amigos que compartilham de ideais bastante similares.

No fim das contas, “Capitão América: Guerra Civil” é o filme que a Marvel estava devendo desde que ascendeu ao centro da cultura pop mundial. Pode não significar nada, mas em um momento que a Warner sai a campo com os personagens da DC, significa muita coisa.

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segunda-feira, 18 de abril de 2016 Críticas, Filmes | 16:18

“Rua Cloverfield 10” é sopro de originalidade no engessado conceito de franquias

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J.J Abrams ainda não tinha o repertório e o prestígio que ostenta hoje, mas já era uma grife quando produziu “Cloverfield” (2008), um filme de monstro que tinha como principal hype o registro found footage. Um grupo de amigos nova-iorquinos registrava o pânico que se estabelecia na cidade quando uma criatura imensa tomava e destruía Nova York. Dirigido por Matt Reeves, o barato “Cloverfield” gerou um baita buzz e muito dinheiro, mas nunca uma sequência.

Nesse mundo de vazamentos e novidades antecipadas na internet, todos se surpreenderam quando o primeiro trailer de “Rua Cloverfield 10” foi liberado há cerca de dois meses na internet. J.J Abrams viu no argumento de Josh Campbell e Matthew Stuecken, a chance de expandir o universo (que até então inexistia) de “Cloverfield”. O filme de 2016, dirigido por Dan Trachtenberg, portanto, não é uma continuação direta do filme de 2008, mas habita o mesmo universo. Essa é uma pista e tanto para quem já tem o referencial do filme original.

Isso posto, quanto menos se souber da trama do novo filme, melhor.

Mary Elizabeth Winstead é Michelle, uma jovem que se envolve em um acidente de carro e acorda acorrentada em um bunker. Um homem corpulento e receptivo à teorias conspiratórias lhe informa que a salvou e que houve um ataque, químico ou nuclear, e que eles não podem sair daquele bunker em hipótese alguma. Não há a quem recorrer.

Howard (o excelente John Goodman) é um tipo estranho, mas no geral aparenta estar bem intencionado. O mesmo pode se dizer de Emmett (John Gallagher Jr.), outro que habita o local. Michelle, por razões óbvias, duvida das boas intenções daquele que considera ser seu sequestrador, mas parece crer mais em Emmett.

Durante boa parte de sua metragem, “Rua Cloverfield 10” é um elaborado estudo sobre a paranoia. A de Howard é a mais clara. Ele sempre foi maníaco por segurança, o que eventualmente o afastou de sua família. Mas o roteiro, supervisionado por Damien Chazelle (“Whiplash: Em Busca da Perfeição”) é hábil em nivelar esse sentimento com os demais personagens em cena e, também, com o público. Será o fim do mundo mesmo? Howard é um psicopata?

“Rua Cloverfield 10”, neste contexto, é um filme muito mais ambicioso, estética e narrativamente, do que “Cloverfield”. Além de promover um feito para lá de ousado nesse cinema contemporâneo tão previsível que é introduzir o conceito de antologia nas cada vez mais imperiosas franquias cinematográficas. É um processo criativo cheio de potencialidades e que, se bem conduzido, pode render maravilhas. J.J Abrams foi desenvolvimentista o suficiente para perceber isso no caso de “Cloverfield”.  O roteiro de Campbell e Stuecken originalmente não tinha qualquer relação com a marca Cloverfield, mas Abrams comprou os direitos do texto e vislumbrou uma boa oportunidade de ousar. Escondeu o projeto até que ele ficasse pronto. “Rua Cloverfield 10” abusa de sua simplicidade e justamente por isso é tão eficiente enquanto suspense. O ato final pode ser frustrante se observado apenas no contexto episódico, restrito a experiência deste filme, mas se analisado no escopo maior, como deve ser, entusiasma pelo fascinante leque que Abrams agora empunha para recontar uma mesma história de maneiras tão diversas quanto cativantes.

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