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sábado, 27 de fevereiro de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 18:33

Que produção, afinal, ganha o Oscar de melhor filme em 2016?

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Oscar

Foto: Montagem/reprodução

O fim do mistério está próximo. Neste domingo (28) será realizada a 88ª edição do Oscar, maior prêmio do cinema e tudo o que precisava ser dito a respeito da competição em 2016 já foi dito. São oito os concorrentes a melhor filme do ano e a disputa chega ao grand finale muito mais aberta do que costuma chegar nesta etapa.

A grande pergunta é qual filme, afinal, será consagrado o melhor na noite do dia 28. Estão na disputa “Brooklin”, “A Grande Aposta”, “Ponte dos Espiões”, “Mad Max: Estrada da Fúria”, “O Regresso”, “Perdido em Marte”, “O Quarto de Jack” e “Spotlight – Segredos Revelados”.

Não pairam dúvidas de que “O Regresso”, “A Grande Aposta” e “Spotlight – Segredos Revelados”, que dividiram a atenção dos sindicatos, protagonizam a disputa. É a primeira vez em mais de 20 anos que três filmes chegam ao dia do Oscar com chances muito parelhas de triunfo. A quarta força na disputa seria “Mad Max: Estrada da Fúria”.

Sucesso de crítica, o blockbuster tem a seu favor, ainda, a excelência técnica reconhecida por oito indicações. São dez no total. Esta é a melhor chance que a academia tem de premiar um representante do cinemão. O último com este perfil vitorioso foi “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” em 2004.

Mesmo assim, um cenário com o triunfo de “Mad Max” é dos mais remotos. “O Regresso”, que começou a criar hype com o triunfo no Globo de Ouro, chega com o suporte do sindicato dos diretores (DGA, na sigla em inglês), o mais eficaz em converter candidatos a melhor filme em vencedores. O fez com “Argo” e “Os Infiltrados” em anos que geravam tanta desconfiança e expectativa como em 2016.

Mas é preciso olhar com cuidado para esse pretenso favoritismo de “O Regresso”. O filme venceu o Bafta, mas a academia inglesa havia optado por “Boyhood” em 2015. Assim como o Globo de Ouro não premiara “Birdman” e cedera a “O Regresso” neste ano. O Oscar acertou onde, digamos, essas outras premiações foram omissas. O filme também não constou dos indicados a melhor elenco no prêmio do sindicato dos atores. É preciso ir a 1996 para encontrar o único vencedor do Oscar de melhor filme que não estivera na lista do SAG, “Coração Valente”.

Leia também: Como a vitória de Iñárritu no DGA afeta a corrida pelo Oscar? 

São estatísticas bastante consolidadas essas que “O Regresso” precisa superar. Mesmo assim, sua vitória é bem palpável. A força do hype em cima de Leonardo DiCaprio, bem como a admiração da academia por Iñárritu são elementos potencialmente sedutores.

É “Spotlight – Segredos Revelados” a maior ameaça ao filme que lidera a corrida ao Oscar com 12 indicações. Muito mais fácil de reunir consenso em torno de si, o filme conta com a provação do sindicato dos atores – vale lembrar que o maior colegiado da academia é composto por atores – e isso pode ser decisivo em um ano tão apertado.

“A Grande Aposta”, que prevaleceu no sindicato dos produtores, pode vencer. O tema sério e importante e a maneira descontraída como é abordado são valiosos atrativos do filme. Forte nas categorias de montagem e roteiro adaptado, onde é o virtual vencedor, pode ganhar os votos de eleitores afeitos à coerência na hora de elencar suas escolhas.

Leia mais: Polêmica em torno de racismo no Oscar pode segmentar ainda mais indústria do cinema 

“A Grande Aposta” é, também, o melhor filme no conjunto dos predicados que constituem o cinema na disputa. Com uma academia cada vez mais atenta à qualidade, isso pode preponderar.

De qualquer forma, “O Regresso” é um campeão de bilheteria com pompa de filme de arte, com um astro reforçando seu poder de apelo e um espetáculo para ser apreciado em tela grande. Uma combinação que sob qualquer ângulo combina com Oscar. Esta é uma narrativa hollywoodiana, afinal.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016 Críticas, Filmes | 14:12

Versão com zumbis de “Orgulho e Preconceito” é elogio do empoderamento feminino

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Foto: divulgação

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A ideia de juntar zumbis e Jane Austen é tão boa que “Orgulho e Preconceito e Zumbis”, a despeito de alguns problemas na produção, viu a luz do dia. O filme de Burr Steers, ator que se aventurou na direção de séries televisivas e agora estreia na direção de cinema, no entanto, é mais uma sátira aos costumes aristocratas da Inglaterra da era vitoriana do que uma paródia gore da febre zumbi na cultura pop.

As irmãs Bennett aqui não são jovens indefesas à espera de um bom homem para casar. São guerreiras treinadas nas artes marciais chinesas, altamente independentes para a época e que não descartam um casamento por amor. “Minhas filhas não foram criadas para trocar as espadas pela cozinha”, diz em um dado momento o Sr. Bennett (Charles Dance) diante do assédio de sua esposa para que as meninas compareçam a um baile para que aumentem suas chances de serem desposadas.

Os zumbis estão ali mais como uma alegoria de uma Inglaterra decadente do que qualquer outra coisa. É da relação fraturada e cheia de resiliências entre Elizabeth Bennett (Lily James) e o Sr. Darcy (Sam Riley) que o filme se alimenta primordialmente, evitando perder de vista a referência à obra original de Jane Austen.

Leia também: Cinderela vira exterminadora de zumbis em nova versão de “Orgulho e Preconceito”

Nesse contexto, “Orgulho e Preconceito e Zumbis” se mostra uma divertida metáfora desse momento de erupção feminista que vive o mundo. Há diversas cenas, que dão viço ao humor negro que recheia o filme, que atestam esta condição.

Está, no entanto, na protagonista que recusa os ditames sociais da época e mata zumbis com uma habilidade incrível, a força dessa insuspeita brincadeira com zumbis que acaba achando um jeito divertido de falar sério.

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016 Críticas, Filmes | 16:49

História de amor e imigração garantem eficiente melodrama de “Brooklin”

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Com roteiro do cultuado Nick Hornby e três indicações ao Oscar (filme, roteiro adaptado e atriz), “Brooklin” pertence àquela linhagem de melodramas de grife. Produção britânica bem azeitada, dirigida com competência, com elenco afiado e uma trama romântica adornando um contexto histórico, no caso o fluxo imigratório da Irlanda para a Nova York dos anos 50.

Saoirse Ronan dá vida a Ellis, uma jovem irlandesa que a irmã consegue providenciar para ir para os EUA. A ideia é que Ellis tenha uma vida que na Irlanda não seria possível.

O filme se desdobra por todas as etapas previsíveis. A viagem problemática e cheia de enjoos pelo Atlântico, a dificuldade de se adequar ao novo ambiente e a descoberta do amor. Para então, com Ellis bem aventurada com sua vida no Brooklin, estabelecer um grande dilema para sua protagonista.

O grande mérito do filme é que ele percorre todo esse arco com muita elegância e reverberação dramática. O roteiro de Hornby é tão eloquente e bem estruturado que é impossível não se cativar pela história. A direção de John Crowley é segura e conscienciosa e Saoirse Ronan é um espetáculo de contenção e ternura em cena. Ela pega o espectador pela mão e não o deixa mais partir.

Não há nada fora do lugar em “Brooklin” e o filme ainda tem pequenos grandes momentos como quando na pensão em que reside, surpreendida pela declaração de amor do rapaz que está namorando, Ellis questiona uma moça mais velha, que já fora casada, se ela gostaria de casar de novo. A resposta da moça, tão sábia quanto graciosa, antecipa o conflito final da personagem e cristaliza um dos grandes dilemas da humanidade. O fascínio que todos nós temos pelo “e se”. Entre certezas e hesitações, “Brooklin” se arranja como um belíssimo filme.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016 Críticas, Filmes | 14:15

Grande mérito de “O Quarto de Jack” é extrair encantamento de situação trágica

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Foto: Divulgação

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Vencedor do Festival de Toronto, “O Quarto de Jack” (2015) é um feito cinematográfico e tanto. Superficialmente, é um drama sobre uma jovem sequestrada que teve seu filho em cativeiro e recorre à ilusão para tornar a rotina do menino menos opressiva. No âmago, porém, é um exercício cinematográfico requintado e uma ode ao espírito humano.

Dirigido com imaginação e propriedade por Lenny Abrahamson, a partir da adaptação de Emma Donoghue da própria obra, “O Quarto de Jack” tem o mérito de mudar toda a sua estrutura narrativa após 40 minutos de filme e manter-se dramaticamente pulsante e francamente inquietante.

O primeiro ato do filme, ambientado todo dentro de um pequeno quarto, é um tour de force tanto de Brie Larson quanto de Jacob Tremblay. Eles tangenciam a desprovida rotina de mãe e filho com emoção e propriedade. Aqui Abrahsamson trabalha muito bem alguns fundamentos narrativos e, ainda que alguns expectadores possam lembrar de “A Vida é Bela”, o contexto é completamente diferente. Algo que os atos subsequentes deixam mais claro.

No segundo ato, “O Quarto de Jack” se reconfigura completamente. O registro cru, formal e tenso dá vez a um drama robusto, mais insidioso das pequenas fissuras verificadas nos personagens em cena. Trata-se de uma mudança estrutural profunda, administrada por Abrahamson e pelo roteiro de Donoghue com muito equilíbrio e perspicácia.

Mais adiante, o filme avança ainda mais nessa nova dialética e mantém o espectador intensamente conectado com a trama graças aos trabalhos irrepreensíveis de Larson e Tremblay.

O menino de nove anos merece uma menção à parte. Personificar Jack não era uma tarefa fácil. O personagem atravessa muitas fases e se depara com conflitos potencialmente dramáticos em momentos-chave do filme. Não é uma criança sendo uma criança em cena. É um ator, da mais fina estirpe, exercendo sua arte com dedicação e método.  Tremblay dá a Jack toda a fragilidade e inocência características de uma criança e muda as cores dessas características conforme o personagem vai evoluindo dramaticamente. É importante observar que todo filme se constrói a partir do ponto de vista de Jack, aumentando a responsabilidade de Trembay como ator.

Trata-se de um trabalho realmente invejável. Tremblay alcança notas, nuanças de seu personagem e afere força a momentos decisivos de “O Quarto de Jack” com a firmeza de um veterano. Larson, por seu turno, acolhe a complexidade dos conflitos de sua personagem com tremenda presença de espírito.

Ao extrair graça e encantamento de uma situação trágica, “O Quarto de Jack” capitaliza em cima da emoção, uma das grandes matérias-primas do cinema, mas também reafirma o espírito humano. Tão combalido pelo peso de todo o sensacionalismo da vida.

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016 Críticas, Filmes | 14:14

“Deadpool” presenteia público com humor sem concessões

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Você pode encarar “Deadpool” de duas maneiras diferentes. A primeira como um filme que utiliza o humor como um expediente para disfarçar sua pouca profundidade e a falta de uma verve autoral tão comum às mais recentes adaptações de HQs. A segunda, e mais correta, corresponde a um filme que rejeita qualquer concessão e tem no humor, sua principal ferramenta de crítica ao gênero do momento em Hollywood, o filme de super-herói.

“Deadpool” não é o grande filme do ano, mas dificilmente outro vai proporcionar tanta diversão na sala escura em 2016.

A honestidade do filme, que apresenta no cinema o Deadpool das HQs com todas as suas características – sendo a consciência de ser um produto de HQ, no caso, o personagem de um filme, a mais surreal e surpreendente delas – garante o respeito do espectador. Esse espectador pode até se surpreender com o nível das piadas, uma mais suja e sacana do que a outra; e isso é muito bom.  Primeiro porque não costumamos mais nos surpreender de fato no cinema e segundo porque “Deadpool” é um filme que foi concebido como deveria ser e, no final das contas, todo mundo vai perceber isso.

A ideia não é necessariamente descontruir os filmes de super-heróis, mas a estrutura do filme – que é também um filme de origem – acaba fazendo isso. Há piadas de toda sorte e nem mesmo a Fox, que custou a aprovar a produção do filme, é poupada.

A cena pós-créditos, para quem ainda não tinha percebido a sátira ao filme de super-heróis, escancara toda a fórmula que, a bem da verdade, já está cansando.

Wade Wilson (Ryan Reynolds) é um mercenário que após ser diagnosticado com câncer acaba aceitando fazer parte de um projeto genético que ativa genes mutantes. As coisas, naturalmente, não terminam bem para ele que se vê afastado do grande amor de sua vida, Vanessa (a brasileira Morena Baccarin) e com efeitos colaterais que o deixam visualmente horripilante.

Wilson, no entanto, mantém-se abrigado no humor. Sua principal ferramenta para viver os dias. E “Deadpool” é um filme que faz uso inteligente do humor. Outro aspecto que chama atenção no filme é a maneira desimpedida com que a sexualidade do personagem é trabalhada. A pansexualidade (atração sexual que independe do gênero) de Wade Wilson é exposta com gosto e sem frescuras. Outro atestado da coragem do filme em não se submeter a eventuais resistências do público.

Sob muitos aspectos, “Deadpool” é um acerto da perseverança. Ryan Reynolds vivia ostracismo em Hollywood, mas nunca desistiu de fazer o filme que o personagem merecia. Hoje, com a bilheteria acachapante que a produção já contabiliza, o selo de aprovação da crítica e a confirmação da sequência, Reynolds riu por último. Calhou do filme que o personagem merecia ser o mesmo que o público queria.

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016 Críticas, Filmes | 12:42

Filmado de maneira artesanal, “O Regresso” promove comunhão entre corpo e natureza

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Depois de mesmerizar público, crítica e indústria com uma ácida leitura do jogo hollywoodiano em “Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância”, também um triunfo estético, Alejandro González Iñárritu muda radicalmente de ritmo e dinâmica, mas mantém-se fiel à essência de sua filmografia com “O Regresso”; uma obra com argumento pueril – o desejo de vingança -, mas executada com a agudeza de estilo que precede o cineasta mexicano.

Com 12 indicações ao Oscar, incluindo filme, direção, ator e fotografia, “O Regresso” é, à primeira vista, um western. Mas o cinema de Iñarritu, desde o rompimento da parceria com Guillermo Arriaga, tem problematizado os limites do gênero cinematográfico.

Se “Birdman” começava como uma comédia de tintas surrealistas, passava por um drama existencial soturno e terminava com ares de fábula cartunesca, “O Regresso”, apesar de subscrever-se logo aos códigos do western, é também um filme de contemplação, que busca a sensorialidade a todo o momento. É tanto um filme sobre a vida, como é sobre a morte e o manancial de instintos que transitam entre uma e outra.

Ainda que seja ousado tecnicamente, “O Regresso” não ostenta a mesma engenhosidade de “Birdman”. Não representa o sobressalto estético do filme protagonizado por Michael Keaton, mas é capaz de seduzir parte do público – e afastar outra – com seu adorno artesanal. É um filme lindamente filmado. Dos movimentos de câmera inusitados à fotografia em luz natural de Emmanuel Lubezki.

Leonardo DiCaprio, que dá vida ao protagonista Hugh Grass – um homem meio índio, meio homem branco que parece pagar o preço por essa ousadia biológica -, atua conforme o absorto e solene marejar fílmico de Iñárritu demanda.  O ator sujeita seu corpo a provações desagradáveis de forma a abalizar a dramaticidade do registro. A comunhão entre corpo e natureza, entre espírito e obstinação, é algo que DiCaprio é muito bem sucedido em tangenciar. Trata-se de uma atuação escorada, sim, na fisicalidade, mas ciosa, também, daquilo que pode apenas sugerir para o público. Um trabalho que exige um grande ator e encontra em DiCaprio um homem digno para tal.

Tom Hardy, por seu turno, empresta a habitual competência à confecção de um homem mais inteligente do que aparenta e em melhor comunicação com seus instintos do que nos damos conta. John FitzGerald tem uma compreensão mais dilatada do mundo em que vive. É a interpretação que faz dele, no entanto, que alimenta a grande dicotomia do filme – e da humanidade.

Neste contexto, e dimensionado pelo trabalho desses dois grandes atores, “O Regresso” se viabiliza como um conto romântico – não na acepção amorosa do termo – sobre a prevalência dos instintos a qualquer força que ouse contê-los.

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sábado, 23 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 16:48

“Joy: O Nome do Sucesso” se perde na ambição desmedida de seu diretor

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“Joy: O Nome do Sucesso”, novo longa-metragem de David O. Russell, é um filme mais ambicioso do que aparenta ser e muito mais remendado do que o desejável. A impressão soberana é de que trata-se de um projeto que Russell burila a todo o momento para potencializar as chances de Jennifer Lawrence brilhar.

Misto de cinebiografia e sátira ao melodrama, “Joy: O Nome do Sucesso” recria com algum estardalhaço a história de Joy Mangano, uma mulher de classe média com uma família complicada e exigente que deu seu jeito de vencer na vida como uma empreendedora de sucesso. É compreensível o apelo da personagem para Lawrence, uma atriz cada vez mais ímpar na seara hollywoodiana com o que já conquistou em seus 25 anos de vida.

Logo de cara, Russell sublinha o extraordinário naquela mulher. Ela abriga o ex-marido no porão de sua casa. Trata-se de uma pessoa diferenciada, argumenta Russell com um dos poucos recortes sutis em um filme que vai aumentando de volume a cada novo conflito que emerge no caminho de sua protagonista.

A primeira cena do filme exibe uma novela e é uma cena mais importante do que se julga a princípio. Ali Russell começa a explicitar um de seus interesses com o filme, satirizar o sonho americano – tema corrente em seus filmes como atestam “O Vencedor” (2010) e “Trapaça” (2013) – com certo grau de sofisticação. Joy e sua família disfuncional – a avó sonhadora (Diane Ladd), o ex-marido (Edgar Ramírez), um cantor frustrado, a mãe (Vírgina Madsen) que fia sua vida às tramas de novelas, o pai (Robert De Niro), emocionalmente desajeitado e a meia-irmã (Eliabeth Rhöm), com quem trava uma ruidosa rivalidade pela atenção do pai – são apresentados com carregados tons melodramáticos.

Cena de "Joy": a personagem é boa, mas merecia um filme melhor (Foto: Divulgação)

Cena de “Joy”: a personagem é boa, mas merecia um filme melhor
(Foto: Divulgação)

A ideia é ridicularizar a gênese desse sonho americano, que a gente costuma tomar contato pela televisão. É justamente a TV, a estrela do segundo ato do filme, quando surge o guru comercial vivido por Bradley Cooper.  Russell tenta, novamente, dimensionar o sonho americano, mas acaba desviando o foco de sua protagonista e, neste inesperado ínterim, arrefecendo a força de seu filme.

Depois Joy e sua combalida jornada rumo ao topo dos negócios voltam ao eixo central da narrativa, mas a audiência já assiste tudo meio que anestesiada. Se Russell é bem sucedido ao mostrar o impacto negativo de familiares não necessariamente mal intencionados na vida de Joy – algo que já fez melhor em “O Vencedor” -, falha em esculpir a parte econômica da trama. Tudo parece distante demais para um espectador que parece forçado a intuir para onde o filme está indo. O roteiro inegavelmente é o calcanhar de Aquiles do filme. Se Russell mantém-se afiado como diretor de atores – e o elenco em geral está muito bem – suas pretensões descarrilaram no roteiro e o resultado é um filme muito abaixo do nível de sua filmografia recente.

O desejo de oferecer um palco para Jennifer Lawrence e a compreensível grandiloquência com que enxerga o próprio cinema depois de tão veementemente agraciado pelo Oscar prejudicaram Russell. “Joy” é um filme plenamente seu, em todos os poros, e há muito tempo que isso não era uma constatação tão decepcionante.

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 13:03

“Mad Max do sertão”, “Reza a Lenda” é triunfo do neófito cinema de gênero do País

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O cinema nacional se mostra cada vez mais à vontade na confecção do chamado cinema de gênero. Uma produção como “Reza a Lenda” (Brasil, 2016) é a mais cristalina constatação desta nova e bem-vinda fase de nosso cinema. O filme de Homero Olivetto agrega ação e ficção científica de uma maneira tão desamarrada que faz crer que filme de ação é algo trivial no Brasil.

Com ecos de Sergio Leone e influências diretas de “Mad Max”, “Reza a Lenda” é um filme que se distingue mais por sua originalidade e detenção aos predicados do gênero do que por ser um grande filme propriamente dito. Isso, dentro do contexto da produção nacional.  Apesar de não dispor de um orçamento hollywoodiano, o filme de Homero é divertido e objetivo na conjugação dos signos do western.

A ideia de um Nordeste maltratado pela seca e refém de uma religiosidade opressiva é boa demais e a leitura pop que Homero faz dessa realidade denota uma inteligência criativa e um senso de estética que averbam a evolução do cinema brasileiro enquanto modelo de negócio.

Cauã Reymond é Ara, o líder de um bando de motoqueiros que segue as orientações religiosas de Pai Nosso – um sujeito que se mostra um guia espiritual para órfãos em uma terra árida e inóspita.

Tal como Mad Max, Ara é um herói silencioso, pacato e assombrado por dúvidas, hesitações e arrependimentos. Reymond é hábil na construção artesanal do personagem. Com gestos, olhares, expressões e uma postura nervosa, o ator dá a seu Ara a inquietação existencial necessária para que sua trajetória não desapareça em face do inusitado hype que “Reza a Lenda” se configura para uma desacostumada audiência.

Humberto Martins faz o vilão com gosto. Seu Tenório é um homem fiel ao preceito de matar ou morrer. Preferencialmente de matar. Quando seu destino cruza com o bando de Ara, a caçada torna-se um dos grandes sabores da fita.

Há, ainda, um conflito romântico envolvendo as personagens de Sophie Charlotte, namorada de Ara, e Luisa Arraes, uma moça da cidade grande que pode, por vias tortas, significar o fim da seca na caatinga nordestina.

Diversão, violência, sensualidade e clichês nunca rimaram tão bem em uma produção de ação brasileira que poderia ser ambientada em qualquer outra parte do mundo; mas que tem justamente em sua brasilidade, os aspectos que a fazem tão peculiarmente boa.

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 14:11

“Steve Jobs” não paga o risco da dobradinha Boyle e Sorkin no cinema

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Cena do filme "Steve Jobs":  Filme é bom, mas se vende como algo muito melhor

Cena do filme “Steve Jobs”: Filme é bom, mas se vende como algo muito melhor

A junção de Danny Boyle e Aaron Sorkin inspirava desconfiança para com “Steve Jobs”, a biografia de pedigree que a Sony queria produzir sobre o visionário co-fundador da Apple e que acabou sob o jugo da Universal.  O risco era que o hipertireoidismo visual do diretor de “Quem Quer Ser um Milionário?” (2008), combinado com o histrionismo textual de Sorkin prejudicasse a estrutura dramática do filme.

Do jeito que veio ao mundo, “Steve Jobs” é um bom filme. Impregnado pela científica disposição de problematizar Steve Jobs. De iluminar o homem que colhia inimizades e detratores no mesmo compasso em que influenciava o mundo e acumulava bilhões de dólares.

Nesse contexto, “Steve Jobs” se apresenta com certa obviedade para quem já está minimamente familiarizado com a figura de Jobs. Até o mediano filme “Jobs” (2013), de Joshua Michael Stern é mais didático e elucidativo de quem foi Jobs e dos ideais que o nortearam.

Com o documentário “Steve Jobs: the Man in The Machine” (2015), de Alex Gibney, o filme de Boyle guarda poucas semelhanças. No documentário a investigação de quem, de fato, é Jobs é muito mais perene, profunda e ressonante. Em “Steve Jobs” tudo parece uma questão de estilo. O filme parece demasiadamente preocupado com a maneira com que vai se vender para o público – emprestando uma característica de Jobs muito bem sublinhada ao longo do filme.

Michael Fassbender, por seu turno, empresta todo o seu carisma a um homem que parece refém de seu gênio. É esse o recorte que Fassbender dá a ele. É, sim, uma leitura condescendente do personagem. Afinal de contas, rótulos como “um homem a frente de seu tempo” e “gênio incompreendido” costumam ser atribuídos a Jobs. De qualquer modo, Fassbender o encarna com uma energia bruta e brutal. É impossível desviar de seu magnetismo.

O restante do elenco, com nomes como Jeff Daniels, Kate Winslet e Seth Rogen, também está muito bem alinhado. Coeso e uniforme. Mas é a parte técnica de “Steve Jobs” que salta aos olhos. Boyle aposta na forma e confia ao texto de Sorkin, que brinda o espectador com ótimos diálogos e um punhado nada desprezível de grandes cenas, a força dramática de seu filme.

Trata-se de uma escolha que limita o impacto de “Steve Jobs” enquanto cinema. Tem-se um produto muito bem embalado, com forte apelo pop, mas de pouca relevância narrativa ou dramática. Não é o pior dos mundos, mas passa longe de se configurar como um dos melhores.

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 18:46

“Boi Neon” flagra Nordeste moderno e aborda empoderamento feminino e limites de gênero

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Gabriel Mascaro é dos realizadores mais interessantes a emergir no cinema contemporâneo. Prova disso, é a aclamação que seu terceiro longa-metragem, “Boi Neon”, amealhou festivais mundo afora. Com destaque para os prêmios em Veneza, Toronto e Rio de Janeiro.

“Boi Neon” é um filme de inescapável força dramática, ainda que não se escore nos recursos mais tradicionais da dramaturgia para tanto. Mascaro problematiza o corpo e o gênero com a sutileza de um artesão.

Iremar (Juliano Cazarré) é um vaqueiro de curral que viaja pelo Nordeste junto com uma pequena trupe. Ele prepara os bois para as tradicionais vaquejadas (em que sobre cavalos, os vaqueiros precisam alinhar e conduzir os bois para os locais demarcados). Iremar, no entanto, gosta mesmo é de desenhar roupas. Ele sonha em ser estilista de moda. No Nordeste contemplado por Mascaro, Iremar pode até ser excêntrico, mas não é uma ave rara. Galega (Maeve Jinkings), que pertence à mesma trupe, é uma mulher “bronca” na definição de Iremar. Caminhoneira rude no tratamento com as pessoas, ela cede à arte do strip-tease à noite e a roupa que tira é desenhada por Iremar. Há, ainda, Júnior (Vinicius de Oliveira), um rapaz que substitui (Carlos Pessoa) no grupo. A vaidade de Júnior o coloca em frontal deslocamento com a aparência dos homens que vemos por ali.

Foto: divulgação

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Esses recortes expõe a verdade que Mascaro quer relativizar com seu filme. Os limites de gênero, impostos lá atrás, estão se dilatando não apenas nas grandes metrópoles. Mas o filme, que mostra este Nordeste redentor, de gente que aspira mais, mas está muito bem com sua rotina, tem mais a revelar com seu minimalismo narrativo e seu desprendimento visual.

O corpo é uma das matérias-primas de “Boi Neon”. Tanto os corpos humanos como os dos animais. Iremar, por exemplo, abriga uma feminilidade no gestual e na relação com Cacá (Alyne Santana), filha de Galega, que não expulsa de seu corpo a masculinidade característica de um homem com seu ofício. Essa contradição do corpo é uma das maiores belezas, na provocação perene que estabelece, de “Boi Neon”.

A imagem é soberana em “Boi Neon”, mas muito das inflexões do filme não estão nelas, mas partem do que elas propõem. Um exemplo disso é o empoderamento feminino. O sexo em “Boi Neon”, tratado com a parcimônia dos amantes experimentados, parece adornado para dimensionar como os clichês do comportamento social já soam deslocados em um Nordeste muito mais moderno do que o pregado a torto e a direito.

Há uma cena de sexo, envolvendo uma mulher grávida, em que o clamor do desejo é correspondido com ternura e delicadeza, mas também muito tesão. É uma cena de sexo quase explícita, em termos gráficos, mas extremamente reveladora de um mundo em transformação. Não à toa, é uma das cenas mais longas do filme.

“Boi Neon” é um cinema de propostas sólidas, de uma reflexão manente e de narrativa delicada. É um filme que precipita seu contexto com inventividade e inquietação. Para quem gosta de cinema, não dá para pedir mais do que isso.

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