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Arquivo da Categoria Críticas

quinta-feira, 19 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 17:03

“Amores Urbanos” rejeita ideias prontas e faz elogio do amor possível

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Foto: divulgação

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Julia (Maria Laura Nogueira) acorda ao lado do namorado e descobre que ele é namorado de outra mulher que está fazendo um escândalo na garagem do prédio pela cena que acabou de presenciar no apartamento. O rapaz se vira para Júlia e diz “Por favor, vai embora daqui”. Essa cena fracamente desorientadora abre “Amores Urbanos”, primeiro filme de Vera Egito.

A produção aborda com um improvável misto de afeto e inquietação as desventuras amorosas de três amigos na faixa dos 30 anos que moram em São Paulo. Ao lançar luz sobre as conturbadas relações de Júlia, que se descobre grávida desse sujeito que a enganara durante tanto tempo, Diego (Thiago Pethit), que resiste às pressões do namorado Luan para que morem juntos, e Mica (Renata Gaspar), incomodada com o fato da namorada (Ana Cañas) resistir a assumir o namoro com ela para os amigos, Egito tece uma pequena e saborosa crônica sobre a crise dos 30 anos. Algo tão comum, mas nem por isso banal, na atualidade.

A contemporaneidade dos conflitos norteia o registro. Não apenas no foro do amor, mas também em outros aspectos. “Eu tô na merda, o Di tá na merda e você sempre dizendo que tá tudo ótimo”, observa Mica a uma Júlia ainda desorientada lá pela metade da fita. Mais do que retratar esses amores que se metamorfoseiam fugazmente, Egito oferece a seus personagens os sabores e dissabores da maturidade. Nesse escopo, seu filme é abrilhantado pelas atuações naturalistas de um elenco sem vícios e com muito tesão pela história contada.

Sem julgar seus personagens, mas permitindo que eles se julguem destemidamente, “Amores Urbanos” se ajusta àquele cinema que se pretende reflexivo do tempo e do espaço. A urbanidade, discretamente contemplada por força orçamentária, ganha vivacidade nos diálogos e nos desencontros dos personagens.

Cuidadosa, Egito evita os clichês na resolução dos conflitos aventados, mas recepciona as convenções contemporâneas que fazem sentido às verdades que seus personagens defendem ao longo do filme. Corajoso e espirituoso, “Amores Urbanos” é um filme que faz sentido principalmente para quem rejeita ideias prontas.

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quarta-feira, 18 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 19:05

Apesar da grandiloquência, “X-Men: Apocalipse” funciona melhor nos detalhes

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Há uma piada com “Star Wars” em um determinado momento de “X-Men: Apocalipse” (EUA, 2016) que merece atenção. Ali, ao brincar com a percepção a respeito da trilogia original, Bryan Singer e o roteirista Simon Kinberg emulam muitas coisas sobre a franquia mutante. A primeira noção é indesviável. Os X-Men são hoje um patrimônio cultural de tanto relevo quanto Luke Skywalker, Darth Vader e os demais cânones da saga criada por George Lucas. Mais: Singer dá uma provocada em Brett Ratner, diretor de “X-Men: O Confronto Final”, que substituiu Singer no desfecho da primeira trilogia. Há, no entanto, a possível leitura de que a piada funciona como uma disfarçada autocrítica ao filme que se assiste.

“X-Men: Apocalipse” não é um filme ruim. Funciona maravilhosamente bem como entretenimento. É fluido, tem personagens carismáticos e boas cenas – e Mercúrio (vivido com aquela malandragem afetuosa por Evan Peters) responde por praticamente todas elas -, mas carece de maior substância narrativa.  O novo filme padece do mesmo problema que enfraquece o impacto de “Dias de um Futuro Esquecido” (2014). Singer recicla dilemas e conflitos que Matthew Vaugh esgotara com brilhantismo em “X-Men: Primeira Classe” (2011) que resiste como o melhor filme da franquia mutante.

O que agrava as circunstâncias desfavoráveis a “X-Men: Apocalipse” é o vilão tacanho e com motivações abobalhadas. Pouco depois de lançados filmes como “Deadpool”, em que se propõe um olhar satírico aos filmes de super-heróis, ou “Capitão América: Guerra Civil”, em que o gênero se apropria de uma discussão política para promover um espetáculo visual, o novo “X-Men” surge datado com uma proposta que não parece mais salutar para uma audiência cada vez mais exigente com produções baseadas em HQs.

Leia mais: “X-Men – Dias de um Futuro Esquecido” objetiva equacionar universo mutante no cinema

Leia mais: Novo “X-Men” consagra Magneto como protagonista e Mística como heroína

Bryan Singer orienta os atores no set de "X-Men: Apocalipse" (Foto: divulgação)

Bryan Singer orienta os atores no set de “X-Men: Apocalipse”
(Foto: divulgação)

Apocalipse (Oscar Isaac) que destruir o mundo e os “falsos deuses” que dele se ocupam para construir um novo e reinar absoluto. Cabe aos X-Men impedirem esse plano maléfico. No meio tempo, os personagens precisam se aceitar. Erick Lehnsherr (Michael Fassbender) tenta submergir na simplicidade de um operário, mas a tragédia lhe persegue e todas as dores do passado lhe colocam no centro dos planos de Apocalipse. Por seu turno, Xavier (James McAvoy) parece mais ajustado aos planos que desenvolveu para sua escola de jovens superdotados, mas o destino lhe traz novamente Moira MacTaggert (Rose Byrne) e com ela inquietações que ele julgara relegadas ao passado.

Como essas breves sinopses sugerem, em seus elementos periféricos, “X-Men: Apocalipse” funciona tremendamente melhor do que no desenvolvimento de sua trama central. O que ratifica a percepção que os realizadores da série conseguem estipular um bom filme de equipe de super-heróis, algo ainda mais vívido em um cinema pós- “Os Vingadores”, mas que falham temerariamente em absorver aquilo que a franquia mutante tem de melhor a oferecer: o paralelismo com praticamente tudo de ruim que acometeu a humanidade. Do nazismo ao racismo, passando pela manipulação política, o manancial é farto. Conceitos tão bem alinhados por Matthew Vaughn em “X-Men: Primeira Classe” e que arranhados nos filmes subsequentes só empalidecem a franquia no contexto histórico.

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quarta-feira, 4 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 17:37

Com sátira a Hollywood, “Ave, César!” é deleite narrativo para iniciados nos Coen

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A Hollywood da era de ouro é ridicularizada com afeto no novo filme dos irmãos Coen (Fotos: divulgação)

A Hollywood da era de ouro é ridicularizada com afeto no novo filme dos irmãos Coen
(Fotos: divulgação)

Há uma cena em “Ave, César!” em que um assistente de produção do épico cujas filmagens o novo filme dos irmãos Coen se ocupa, questiona um homem pregado na cruz: ‘você é figurante ou consta do elenco principal’? O homem devolve: ‘ eu acho que sou principal’. Essa é apenas uma das elaboradas e bem sacadas piadas do saboroso filme dos Coen que, além do grande elenco, oferta ao público uma saborosa sátira da Hollywood da era de ouro.

Se piscar, perde a piada.

“Ave, César!”, porém, não é um filme de piadas fáceis. Embora tenha sua cota de grande momentos que independem de maior contextualização histórica, o filme se fia no conhecimento do público de certos meandros da Hollywood clássica. Esse “conhecimento de causa” torna o filme muito mais vigoroso e divertido.

Ser fã do cinema dos Coen, obviamente, gera empatia imediata. Ainda que diferentemente de filmes como “Fargo” (1996) e “Queime Depois de Ler” (2008), o humor dos cineastas está menos a serviço de uma postura cínica diante do mundo e mais no espírito lisonjeiro ao cinema americano de outra época. Algo tangenciado no protagonista Ed Mannix, vivido confortavelmente por Josh Brolin como se atuasse com um alfinete no dedão do pé. Mannix é o chefe do estúdio Capitol Pictures e, naturalmente, tem sua cota diária de pepinos para resolver. Do astro de faroestes monossilábico que não consegue atuar para o diretor refinado à estrela que aparece grávida e necessitada de um marido para que um escândalo seja evitado, Mannix costura acordos e resoluções a torto e a direito. Durante a produção do épico “Ave, César”, no entanto, essa sua estressada rotina piora. Para começar, o astro do filme, Baird Whitlock (George Clooney), é sequestrado por um grupo de tendências comunistas denominado O Futuro. Mannix ainda é assediado por uma empresa de aviação civil que o quer na gestão cotidiana do negócio. Ele resiste. Como o cigarro, o cinema é um vício para o católico e certinho Mannix.

São muitos os grandes momentos que os Coen oferecem em “Ave, César!”, mas o todo parece deslocado. Talvez seja o sentimento de piada interna, talvez seja o ritmo de esquetes que rapidamente toma conta do filme, fato é que “Ave, César!” parece funcionar melhor nas partes do que no todo; o que não afasta a percepção de que se trata de um belo filme.

Filme é cheio de minúcias e o personagem Hobie Doyle é uma das mais bem engendradas

Filme é cheio de minúcias e o personagem Hobie Doyle é uma das mais bem engendradas

Os Coen riem com gosto dessa fogueira de vaidades que é Hollywood. Continuam vendo astros de cinema burros – os personagens de Clooney e Tatum são um achado e vale a penar atentar à oposição entre eles e o decalque de John Wayne vivido por Alden Ehrenreich, ator mais inteligente do que nos damos conta – sujeitos oportunistas a rodo e pequenas idiossincrasias que vão agradar cinéfilos de toda a sorte.

“Ave, César!” é, enfim, um filme que ridiculariza a musculatura de Hollywood só para louvar seu status quo.

 

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quinta-feira, 28 de abril de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 17:17

Ao despir seus personagens de simpatia, “A Frente Fria que a Chuva Traz” rejeita o óbvio no cinema

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Desde o lançamento de “Cidade de Deus”, as favelas ficaram pop no cinema brasileiro. A ideia de discutir a fetichização das favelas passou a ser uma espécie de fetiche do cinema nacional. Filmes como “Cidade dos Homens” (2007) e “Era uma Vez” (2008) são emblemáticos dessas circunstâncias. “A Frente Fria que a Chuva Traz”, baseado em peça homônima de Mário Bertolotto, é mais urgente na abordagem que faz desse deslocamento urbano e social e econômico na construção de sua mise-en-scène.

O filme, que marca o retorno de Neville d´Almeida à direção depois de um hiato de quase 18 anos, dá verniz a esse conceito de fetiche ao expor a natureza hedonista de jovens abastados que se apropriam do espaço da favela por pura diversão. Sutilmente, com o préstimo do afiado texto de Bertoloto, Neville agrega a solidão e receios de outra ordem à equação.

Em cena, há mais do que o desejo do rico de abusar do pobre e do pobre de absorver o rico. Há mais do que a banalização do sexo nos arremedos do jogo social. Não á toa, logo em um dos primeiros diálogos, um personagem admite ter se cagado enquanto desacordado após um porre daqueles. Neville entrega de cara a sua audiência um fato que logo ganhará forma nas pirocas e cús pronunciados a rodo: estamos diante de um cinema transgressivo. Transgredir, para Neville d´Almeida, é recusar a perplexidade. É rejeitar o marasmo que vassala os personagens em cena e que começa a incomodar Amsterdã, magnificamente interpretada por Bruna Linzmeyer. Pobre e viciada, ela se infiltra entre os ricos que curtem a favela como um clube particular e por eles é tratada com a curiosidade e atenção dispensada a um pet.

É o olhar desencantado, mas também cínico, de Amsterdã para todo aquele universo de porcelana que movimenta os melhores momentos de “A Frente Fria que a Chuva Traz”.

A hipersexualização, no filme, é mais um sintoma desse atrito entre classes antagônicas e conflitantes, do que um veículo de expressão da fase da vida desses jovens. Nesse contexto em particular, a opção por não mostrar cenas de sexo em um filme quase todo ele sexualizado, resulta na transgressão maior de Neville: acuar o público em seu próprio desejo desalojado.

O impacto do filme reside majoritariamente aí. No apontamento de quão deslocadas estão as expectativas. As nossas e a de todos os personagens em cena. O prenúncio da frente fria, afinal, desestabiliza tudo e todos.

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quarta-feira, 27 de abril de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 15:28

Superlativo e humano, “Capitão América: Guerra Civil” é o filme que a Marvel estava devendo

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Vamos tirar o elefante da sala. “Capitão América: Guerra Civil” é o filme que os fãs de HQs merecem e que os fãs do universo cinematográfico da Marvel esperavam. O que não quer dizer que seja o melhor filme da Marvel ou mesmo a melhor produção estrelada por super-heróis. Tanto continuação de “Capitão América: Soldado Invernal”, como sequência natural de “Vingadores: A Era de Ultron”, “Guerra Civil” só funciona plenamente para quem estiver inteirado do universo cinematográfico da Marvel, afastando a ideia de experiência plenamente satisfatória que um filme deve despertar individualmente. Isso não é um problema, apenas uma contextualização para início de conversa.

“Guerra Civil” é superlativo. Se permite ser o auge deste universo em constantes evolução e expansão que é o da Marvel e seu maior trunfo é justamente o equilíbrio com que tudo acontece e é apresentado ao espectador. O acirramento político que opõe Steve Rogers (Chris Evans) e Tony Stark (Robert Downey Jr.) não se sobrepõe às angústias que mobilizam esses personagens. Os conflitos emocionais ganham surpreendente relevo em personagens com menos destaque em cena, como T´Challa (Chadwick Boseman), o Pantera Negra, que debuta aqui antes mesmo de ganhar seu filme solo, prometido para 2018.

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Joe e Anthony Russo não são competentes apenas na arquitetura visual de “Guerra Civil”, e o filme é deslumbrante das coreografias de lutas às cenas de ação mais “super”, mas na sensibilidade com que fazem deste filme cheio de arestas e personagens algo coeso e vívido. “Guerra Civil” nunca deixa de ser um filme do Capitão América, mas é, também, um produto Marvel com DNA daqueles crossovers que fan boys tanto se amarram. Todos os personagens têm momentos para chamar de seu e com atores calibrados como Robert Downey Jr.,Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Don Cheadle e Scarlett Johansson, o filme ganha nesses momentos de respiro, insuspeita humanidade.

Os Russo conseguiram nivelar, ainda, o humor típico das produções Marvel – que aqui ganha força e propulsão com a boa participação do Homem-Aranha (Tom Holland já parece veterano na pele de Peter Parker) – com o indefectível aspecto sombrio que move essa sequência.

O tom político e a discussão sobre vigilantismo talvez não alcancem o ponto dramático necessário, ou mesmo o possível, mas a primeira hora de “Guerra Civil” é das coisas mais empolgantes surgidas nas adaptações de HQ desde “O Cavaleiro das Trevas” (2008). Ali se enraíza uma discussão complexa e profunda que excede os limites do cinema de gênero. Mas o tratamento é apenas como ponto de partida para algo maior, no caso, a fase 3 da Marvel no cinema. Novamente, não há nenhum problema nisso. Trata-se de uma opção narrativa em um cenário macro, como é o universo da Marvel. Opções estas que, aliadas às restrições que a Marvel tem no cinema em relação aos personagens de seu catálogo, também respondem pelas diferenças entre a guerra civil do cinema e a da saga nas HQs.

Aqui o ponto que opõe Rogers e Stark é se os vingadores devem ou não responder a ONU. Há, sim, garantias individuais em jogo, mas não no escopo da série das HQs, em que o governo cobrava que todos os super-heróis revelassem suas identidades. De qualquer forma, o estupor político é suficientemente inflamatório para gerar grandes repercussões entre amigos que compartilham de ideais bastante similares.

No fim das contas, “Capitão América: Guerra Civil” é o filme que a Marvel estava devendo desde que ascendeu ao centro da cultura pop mundial. Pode não significar nada, mas em um momento que a Warner sai a campo com os personagens da DC, significa muita coisa.

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segunda-feira, 18 de abril de 2016 Críticas, Filmes | 16:18

“Rua Cloverfield 10” é sopro de originalidade no engessado conceito de franquias

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J.J Abrams ainda não tinha o repertório e o prestígio que ostenta hoje, mas já era uma grife quando produziu “Cloverfield” (2008), um filme de monstro que tinha como principal hype o registro found footage. Um grupo de amigos nova-iorquinos registrava o pânico que se estabelecia na cidade quando uma criatura imensa tomava e destruía Nova York. Dirigido por Matt Reeves, o barato “Cloverfield” gerou um baita buzz e muito dinheiro, mas nunca uma sequência.

Nesse mundo de vazamentos e novidades antecipadas na internet, todos se surpreenderam quando o primeiro trailer de “Rua Cloverfield 10” foi liberado há cerca de dois meses na internet. J.J Abrams viu no argumento de Josh Campbell e Matthew Stuecken, a chance de expandir o universo (que até então inexistia) de “Cloverfield”. O filme de 2016, dirigido por Dan Trachtenberg, portanto, não é uma continuação direta do filme de 2008, mas habita o mesmo universo. Essa é uma pista e tanto para quem já tem o referencial do filme original.

Isso posto, quanto menos se souber da trama do novo filme, melhor.

Mary Elizabeth Winstead é Michelle, uma jovem que se envolve em um acidente de carro e acorda acorrentada em um bunker. Um homem corpulento e receptivo à teorias conspiratórias lhe informa que a salvou e que houve um ataque, químico ou nuclear, e que eles não podem sair daquele bunker em hipótese alguma. Não há a quem recorrer.

Howard (o excelente John Goodman) é um tipo estranho, mas no geral aparenta estar bem intencionado. O mesmo pode se dizer de Emmett (John Gallagher Jr.), outro que habita o local. Michelle, por razões óbvias, duvida das boas intenções daquele que considera ser seu sequestrador, mas parece crer mais em Emmett.

Durante boa parte de sua metragem, “Rua Cloverfield 10” é um elaborado estudo sobre a paranoia. A de Howard é a mais clara. Ele sempre foi maníaco por segurança, o que eventualmente o afastou de sua família. Mas o roteiro, supervisionado por Damien Chazelle (“Whiplash: Em Busca da Perfeição”) é hábil em nivelar esse sentimento com os demais personagens em cena e, também, com o público. Será o fim do mundo mesmo? Howard é um psicopata?

“Rua Cloverfield 10”, neste contexto, é um filme muito mais ambicioso, estética e narrativamente, do que “Cloverfield”. Além de promover um feito para lá de ousado nesse cinema contemporâneo tão previsível que é introduzir o conceito de antologia nas cada vez mais imperiosas franquias cinematográficas. É um processo criativo cheio de potencialidades e que, se bem conduzido, pode render maravilhas. J.J Abrams foi desenvolvimentista o suficiente para perceber isso no caso de “Cloverfield”.  O roteiro de Campbell e Stuecken originalmente não tinha qualquer relação com a marca Cloverfield, mas Abrams comprou os direitos do texto e vislumbrou uma boa oportunidade de ousar. Escondeu o projeto até que ele ficasse pronto. “Rua Cloverfield 10” abusa de sua simplicidade e justamente por isso é tão eficiente enquanto suspense. O ato final pode ser frustrante se observado apenas no contexto episódico, restrito a experiência deste filme, mas se analisado no escopo maior, como deve ser, entusiasma pelo fascinante leque que Abrams agora empunha para recontar uma mesma história de maneiras tão diversas quanto cativantes.

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quarta-feira, 13 de abril de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 19:32

“Batman vs Superman” não supera o hype e deixa transparecer improvisos

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Depois de muita espera, “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” ganhou o mundo com as potencialidades e imperfeições de um projeto erguido de improviso e sob a batuta de um cineasta controverso como Zack Snyder. Controverso porque o diretor de “300” e “Watchmen” inegavelmente é um ás da linguagem visual, mas descuida reiteradamente da integridade narrativa de seus filmes. “Batman vs Superman”, naturalmente, carrega este mesmo estigma.

Orçado em pouco mais de US$ 250 milhões, a pressão por um sucesso no filme que se incumbe de deflagrar o universo DC no cinema é monstruosa. Principalmente depois de “O Homem de Aço” (2013), cuja falha em alcançar a vultosa marca de US$ 1 bilhão nas bilheterias desencadeou o projeto de reunir Batman e Superman no cinema, não ter correspondido plenamente às expectativas do estúdio, a Warner.

Algumas semanas depois da estreia, é seguro dizer que, em matéria de rendimento, “Batman vs Superman” já superou “O Homem de Aço”, mas o respaldo da crítica foi tão insatisfatório quanto.

O grande problema do filme não reside propriamente dito na grandiloquência com que Snyder filma esses Deuses gregos modernos que são Batman e Superman; ou mesmo na construção do conflito entre os dois personagens – de modo geral, bem ritmada e contextualizada. Mas na insistência de Snyder em ter a presença do mal no filme. O Lex Luthor de Jesse Eisenberg parece um decalque do Coringa clássico. Extremamente afetado, o personagem é bom, mas pouco lembra o arquirrival do Superman. Por outro lado, todo o terceiro ato surge equivocado. Desde o apressado e frágil entendimento entre os heróis até a espalhafatosa luta com o Apocalypse.

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Mesmo assim, há virtudes. Todo o arco envolvendo o Superman, imerso naquele conflito existencial que ditou toda a ação de “O Homem de Aço”, funciona muito melhor do que no filme em questão. A discussão sobre a divindade do Superman e se ele deveria ou não se submeter a algum tipo de fiscalização do governo merecia um filme à parte. Há muito potencial narrativo desperdiçado em um filme que só se vale dele para nivelar os anseios e angústias destes dois ícones em rota de colisão.

Já a aguardada estreia de Ben Affleck na pele de Bruce Wayne/Batman configura-se mesmo como a grande atração do filme. Ainda que o arco do personagem atravesse o filme com razoável dose de previsibilidade, Affleck dá a seu Bruce Wayne maduro, violento e desencantado a verve de um homem afundado em arrependimentos e com uma agressividade latente. Material que indubitavelmente será mais bem abordado no filme solo que Affleck comandará.

“Batman vs Superman: A Origem da Justiça” se reveste do ônus de costurar a gênese da Liga da Justiça, que ganhará dois filmes nos próximos anos. Essa dispersão também afeta a coesão narrativa da produção, ainda que a degustação da Mulher-Maravilha seja muitíssimo bem-vinda e ajude com o hype do filme.

De todo o jeito, este é um filme que carece de uma visão. De um discurso efetivo. “A Origem da Justiça” parece existir apenas pelo hype e é este o seu pecado definitivo.

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segunda-feira, 14 de março de 2016 Críticas, Filmes | 17:42

Com subtexto feminista, “A Bruxa” é um filme de terror que investe no incomum

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A estreia de Robert Eggers como diretor em “A Bruxa” (EUA, 2015) não poderia ser mais feliz. Seu filme descende diretamente de obras como “O bebê de Rosemary”, de Roman Polanski, e “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, em que a atmosfera do medo importa mais do que a estetização do horror. Não espere por sustos em “A Bruxa”, o terror engendrado pela esperta narrativa do filme, esmerada em contos de fadas macabros, é de outra ordem.

A sugestão é a mãe de todos os horrores na trama que acompanha a rotina de uma família, composta pelo pai, mãe e mais cinco filhos que, exilados de uma pequena vila nos Estados Unidos colonizados pela Inglaterra, vão morar às margens dessa civilização em construção, em uma floresta.

O pai (Ralph Ineson) faz o tipo fervoroso, homem plenamente devotado a sua fé e “A Bruxa” deixa logo claro que esse extremismo detonou o banimento da família do convívio social. Tentando estabelecer uma fazenda às margens dessa vasta e imponente floresta, a família se flagra imersa em uma teia de inexplicáveis e cada vez mais aterrorizantes acontecimentos.

À primeira vista, trata-se de uma crescente e intrincada provação dessa fé até então inquestionável, mas conforme a trama avança percebe-se a sofisticação da narrativa de Eggers. Está ali uma valorosa vertente feminista, sobre como mulheres que não se encaixavam nos ditames sociais da época eram apressadamente rotuladas como bruxas – algo que acontece com a filha mais velha, a adorável Thomasin (Anya Taylor Joy). Há, também, a robustez de um drama familiar. Há o desejo inominável entre os irmãos, o ressentimento da mãe que vê marido e filho sequestrados pela juventude da filha mais velha e todo o subtexto religioso. Nesse aspecto, o viés de fábula do filme acaba por reforçar todas essas camadas, tornando “A Bruxa” uma experiência muito mais sintomática do que observacional. O medo é proveniente daquilo que se toma por verdade.

É um filme econômico em suas elaborações, não necessariamente no que tem a dizer. Justamente por isso, a cena final, que assume uma realidade que a narrativa até então mantinha no campo da possibilidade, adquire uma forte conotação.  Não havia alternativa para aquela personagem a não ser aquele caminho. Neste momento, “A Bruxa” se resolve tanto como filme de terror, expondo o real horror das circunstâncias da personagem, como veiculo feminista.

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sábado, 27 de fevereiro de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 18:33

Que produção, afinal, ganha o Oscar de melhor filme em 2016?

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Oscar

Foto: Montagem/reprodução

O fim do mistério está próximo. Neste domingo (28) será realizada a 88ª edição do Oscar, maior prêmio do cinema e tudo o que precisava ser dito a respeito da competição em 2016 já foi dito. São oito os concorrentes a melhor filme do ano e a disputa chega ao grand finale muito mais aberta do que costuma chegar nesta etapa.

A grande pergunta é qual filme, afinal, será consagrado o melhor na noite do dia 28. Estão na disputa “Brooklin”, “A Grande Aposta”, “Ponte dos Espiões”, “Mad Max: Estrada da Fúria”, “O Regresso”, “Perdido em Marte”, “O Quarto de Jack” e “Spotlight – Segredos Revelados”.

Não pairam dúvidas de que “O Regresso”, “A Grande Aposta” e “Spotlight – Segredos Revelados”, que dividiram a atenção dos sindicatos, protagonizam a disputa. É a primeira vez em mais de 20 anos que três filmes chegam ao dia do Oscar com chances muito parelhas de triunfo. A quarta força na disputa seria “Mad Max: Estrada da Fúria”.

Sucesso de crítica, o blockbuster tem a seu favor, ainda, a excelência técnica reconhecida por oito indicações. São dez no total. Esta é a melhor chance que a academia tem de premiar um representante do cinemão. O último com este perfil vitorioso foi “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” em 2004.

Mesmo assim, um cenário com o triunfo de “Mad Max” é dos mais remotos. “O Regresso”, que começou a criar hype com o triunfo no Globo de Ouro, chega com o suporte do sindicato dos diretores (DGA, na sigla em inglês), o mais eficaz em converter candidatos a melhor filme em vencedores. O fez com “Argo” e “Os Infiltrados” em anos que geravam tanta desconfiança e expectativa como em 2016.

Mas é preciso olhar com cuidado para esse pretenso favoritismo de “O Regresso”. O filme venceu o Bafta, mas a academia inglesa havia optado por “Boyhood” em 2015. Assim como o Globo de Ouro não premiara “Birdman” e cedera a “O Regresso” neste ano. O Oscar acertou onde, digamos, essas outras premiações foram omissas. O filme também não constou dos indicados a melhor elenco no prêmio do sindicato dos atores. É preciso ir a 1996 para encontrar o único vencedor do Oscar de melhor filme que não estivera na lista do SAG, “Coração Valente”.

Leia também: Como a vitória de Iñárritu no DGA afeta a corrida pelo Oscar? 

São estatísticas bastante consolidadas essas que “O Regresso” precisa superar. Mesmo assim, sua vitória é bem palpável. A força do hype em cima de Leonardo DiCaprio, bem como a admiração da academia por Iñárritu são elementos potencialmente sedutores.

É “Spotlight – Segredos Revelados” a maior ameaça ao filme que lidera a corrida ao Oscar com 12 indicações. Muito mais fácil de reunir consenso em torno de si, o filme conta com a provação do sindicato dos atores – vale lembrar que o maior colegiado da academia é composto por atores – e isso pode ser decisivo em um ano tão apertado.

“A Grande Aposta”, que prevaleceu no sindicato dos produtores, pode vencer. O tema sério e importante e a maneira descontraída como é abordado são valiosos atrativos do filme. Forte nas categorias de montagem e roteiro adaptado, onde é o virtual vencedor, pode ganhar os votos de eleitores afeitos à coerência na hora de elencar suas escolhas.

Leia mais: Polêmica em torno de racismo no Oscar pode segmentar ainda mais indústria do cinema 

“A Grande Aposta” é, também, o melhor filme no conjunto dos predicados que constituem o cinema na disputa. Com uma academia cada vez mais atenta à qualidade, isso pode preponderar.

De qualquer forma, “O Regresso” é um campeão de bilheteria com pompa de filme de arte, com um astro reforçando seu poder de apelo e um espetáculo para ser apreciado em tela grande. Uma combinação que sob qualquer ângulo combina com Oscar. Esta é uma narrativa hollywoodiana, afinal.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016 Críticas, Filmes | 14:12

Versão com zumbis de “Orgulho e Preconceito” é elogio do empoderamento feminino

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A ideia de juntar zumbis e Jane Austen é tão boa que “Orgulho e Preconceito e Zumbis”, a despeito de alguns problemas na produção, viu a luz do dia. O filme de Burr Steers, ator que se aventurou na direção de séries televisivas e agora estreia na direção de cinema, no entanto, é mais uma sátira aos costumes aristocratas da Inglaterra da era vitoriana do que uma paródia gore da febre zumbi na cultura pop.

As irmãs Bennett aqui não são jovens indefesas à espera de um bom homem para casar. São guerreiras treinadas nas artes marciais chinesas, altamente independentes para a época e que não descartam um casamento por amor. “Minhas filhas não foram criadas para trocar as espadas pela cozinha”, diz em um dado momento o Sr. Bennett (Charles Dance) diante do assédio de sua esposa para que as meninas compareçam a um baile para que aumentem suas chances de serem desposadas.

Os zumbis estão ali mais como uma alegoria de uma Inglaterra decadente do que qualquer outra coisa. É da relação fraturada e cheia de resiliências entre Elizabeth Bennett (Lily James) e o Sr. Darcy (Sam Riley) que o filme se alimenta primordialmente, evitando perder de vista a referência à obra original de Jane Austen.

Leia também: Cinderela vira exterminadora de zumbis em nova versão de “Orgulho e Preconceito”

Nesse contexto, “Orgulho e Preconceito e Zumbis” se mostra uma divertida metáfora desse momento de erupção feminista que vive o mundo. Há diversas cenas, que dão viço ao humor negro que recheia o filme, que atestam esta condição.

Está, no entanto, na protagonista que recusa os ditames sociais da época e mata zumbis com uma habilidade incrível, a força dessa insuspeita brincadeira com zumbis que acaba achando um jeito divertido de falar sério.

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