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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:32

“Beasts of No Nation” flagra horror em sua forma mais pura

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Foto: divulgação

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A opção por não batizar o país africano em que se passa “Beasts of No Nation” (EUA 2015) pode parecer fruto de uma hesitação por parte da realização, mas é, na verdade, um dos muitos acertos desse filme de alto impacto, potência e beleza.

Cary Fukunaga, que além da direção brilhante, assina o roteiro deste que é o primeiro filme distribuído pelo Netflix, observa com olhar desapaixonado a virulência com que se prolifera a violência nos recônditos africanos em constante guerra civil.

A trajetória do menino Agu (o soberbo Abraham Attah), vítima de mais uma entre as incontáveis tragédias familiares que acontecem diariamente em países imersos em conflitos militares e aliciado por um grupo paramilitar, é narrada de maneira crua, concreta e apavorante. Fukunaga, porém, recorre à abstração de Agu para pintar com mais propriedade esse aterrador quadro em que “a única maneira de parar de lutar é morrer”, como teoriza o jovem de alma velha que tanto nos impressiona em “Beasts of No Nation”.

A figura do comandante, que se fia como pai e predador dos muitos órfãos que alicia pelos vastos campos africanos em que combate, é tangenciada por Idris Elba com o horror, afetação e carisma que o registro de Fukunaga demanda.

É, portanto, nas entrelinhas desse conto tão macabro quanto honesto, que o verdadeiro horror se revela. Ninguém se importa com o que acontece nesses países inominados da África. Nessas republiquetas de aluguel que municiam rebeldes e fabricam pequenos demônios. O joguete político é apenas uma manifestação da exploração constante de uma inocência perdida para sempre.

“Beasts of No Nation” se politiza, portanto, ao não politizar. Ao não esfregar na cara a complacência do Ocidente e de seus fóruns estabelecidos (ONU, para citar o exemplo mais óbvio) para com o quadro pérfido que se testemunha em uma África mais selvagem do que aquela mostrada em documentários do Animal Planet, o filme escancara o abandono que a região e seus habitantes enfrentam. O comandante, também ele, é fruto de suas circunstâncias.

Trata-se de um grande filme. “Beasts of No Nation” não é, de maneira alguma, algo remotamente identificável como entretenimento. É um grito surdo na arte que se propõe problematizante de nossa contemporaneidade. E filmado com todo o rigor que um artista seguro de suas convicções pode oferecer. Do ponto de vista intelectual ao plástico, “Beasts of No Nation” é lindo de se ver. Ao realçar o horror com essa beleza oca, plasmada, ruidosa, Fukunaga faz mais do que um filme importante. Faz um testamento de que a arte alcança até mesmo onde recusamos posar nossos olhos.

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Críticas, Filmes | 14:14

Virtuosismo e amor à primeira vista garantem frenesi de protagonista de “Victoria”

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Foto: divulgação

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O cineasta alemão Sebastian Schipper, que já pôde ser visto como ator em bons filmes germânicos como “Triangulo amoroso” (2010) e “Corra Lola Corra” (1998), tentou três vezes e conseguiu fazer “Victoria”, premiado no último festival de Berlim, em um único plano sequência de 134 minutos.

Do criativo e frenético “Corra Lola Corra”, Schipper empresta o senso de urgência do registro. Mas para por aí. Se a originalidade irradiava do filme de Tom Tykwer, “Victoria” se sustenta basicamente em seu virtuosismo. E em Laia Costa, dona de uma presença poderosa.

A Victoria (Costa) do título é uma espanhola residente em Berlim a tempo suficiente para já ter um emprego, mas ainda se sentir descobrindo a cidade. Ao sair de uma balada em um belo dia, cruza com um grupo de jovens brincalhões e o interesse de um deles, Sonne (Frederik Lau) por ela parece recíproco. Talvez por isso seja possível acreditar na indulgência com que Victoria vai tratando aquele fim de madrugada. Mais do que a ingenuidade da moça ao perceber que aqueles sujeitos podem não ser tão bonzinhos assim, a faísca da paixão – que floresce em madrugadas nas grandes metrópoles – justifica a permanência de Victoria na companhia do grupo de rapazes depois deles terem tentado roubar um carro e furtado uma loja de conveniência.

A primeira hora de “Victoria” é isso. Um legítimo ‘boy meets girl’ do cinema que se pretende mais naturalista. Depois o filme mostra sua faceta mais ambiciosa. Sonne e seus comparsas vão assaltar um banco naquela manhã – um serviço para um criminoso imponente que providenciou para que a passagem de um dos rapazes pela prisão não tivesse maiores repercussões. De um jeito pouco convincente, mas novamente viável dentro da estrutura de interesse sexual e emocional entre duas pessoas, Victoria se vê arrastada para dentro desse assalto.

Schipper se fia todo em sua estética. É um sobe e desce de escadas, entra e sai de carros e mudança de ambientes constantes. “Victoria” é a excelência da câmera por definição. Não à toa, o nome do operador de câmera (Sturla Brandth) é o primeiro a surgir quando sobem os créditos. Virtuosismo à parte, há muito pouco a atrair em “Victoria” e isso é um problema. O roteiro foi apenas um ponto de partida para a situação dramática que Schipper queria construir cinematograficamente – a tensão pré- assalto, o assalto propriamente dito, a euforia e a tragédia que se seguem, etc. Os atores tiveram liberdade para improvisar nos diálogos em uma experiência narrativa muito produtiva para quem participa do processo. Para quem assiste, nem tanto. “Victoria” é demasiadamente longo para o que tem a apresentar além de seu elaborado, bem urdido e impactante plano sequência.

Infelizmente a sensação é de que a ideia de fazer estatística cinematografia norteou o projeto. Mesmo com sua estética pulsante e ambiciosa, “Victoria” deixa a desejar no mais fundamental elemento de um filme: a capacidade de seduzir a memória de quem o assiste.

 

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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 12:32

Fetiches sexuais esquisitos movem divertido “A Pequena Morte”

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Paul e Maeve e o desejo dela de ser estuprada por ele entre a felicidade sexual deles (Foto: divulgação)

Paul e Maeve e o desejo dela de ser estuprada por ele entre a felicidade sexual deles
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Josh Lawson, ator mais reconhecido pela participação na série “House of Lies”, conseguiu uma proeza e tanto com seu filme de estreia, o australiano independente “A Pequena Morte” –  que estreia nesta quinta (24) no Rio de Janeiro e na próxima semana em São Paulo. Também roteirizado por Lawson, o filme mostra a rotina de cinco casais do subúrbio de Sidney e a maneira como eles lidam com fetiches sexuais ligeiramente incomuns.

Lawson faz um filme delicado e sensível sem deixar de ser pontualmente chocante. Um mérito e tanto em uma época que o cinema costuma ser tão óbvio e o público, tão anestesiado; principalmente quando o assunto é sexo.

O primeiro casal, formado por Paul (Lawson) e Maeve (Bojana Novakovic), tenta lidar de uma maneira desastrada com o fato de Maeve ter o desejo de ser estuprada por Paul.

Phil (Alan Dukes) e Maureen (Lisa McGune), nosso segundo casal, estão naquela fase do casamento em que um parece não suportar mais o outro. Fase agravada pelo desejo oculto de Phil, que se excita ao ver pessoas dormindo. Naturalmente, sua vida sexual com Maureen é inglória.

Evie (Kate Mulvany) e Dan (Damon Herriman), tentam – com a sugestão de um terapeuta sexual – superar uma crise de atração sexual fingindo serem outras pessoas. Mas Dan parece ir longe demais nessa fantasia.

O caso de Rowena (Katie Box) e Richard (Patrick Brammall) parece mais estranho. Em meio a frustradas tentativas de engravidar, ela descobre que se excita ao ver seu marido chorar. Ela, então, passa deliberadamente a instigar nele a tristeza, o que pode desestabilizar a relação.

Por fim, há Monica (Erin James) e Sam (TJ Power). Ela, uma tradutora para deficientes auditivos de um serviço de vídeo conferência que está ficando surda, ele, um rapaz que liga em uma noite solicitando que ela ligue para uma linha telefônica de sexo.

O que mais cativa em “A Pequena Morte”, uma expressão que vem do francês, um eufemismo para orgasmo, é a maneira sutil com que Lawson relaciona as histórias e as angústias externadas pelas tramas. Não necessariamente na bifurcação, também ela criativa, dos personagens, mas na forma como os dramas desses personagens se impõem. Phil, por exemplo, para se satisfazer acaba estuprando sua mulher, algo que Paul hesita em fazer mesmo sabendo que dará prazer a namorada. Dan se sente tão pouco à vontade consigo mesmo que deseja desaparecer nos breves personagens sexuais que inventa e mantém o ciclo de afastamento de Evie.

Fetiches sexuais incomuns dão a tônica de "A Pequena Morte" (Foto: divulgação)

Fetiches sexuais incomuns dão a tônica de “A Pequena Morte”
(Foto: divulgação)

Surdo, Sam se excita em ouvir sacanagens. Existe toda uma poesia em “A Pequena Morte”, cujo personagem Steve (Kim Gyngell), um criminoso sexual condenado que acaba de se mudar para a vizinhança, se encarrega de tornar mais aguda, disforme e cativante.

Em última análise, a ideia de normalidade, em matéria de sexo, é afastada pelo inteligentíssimo roteiro de Lawson. A natureza episódica da produção reforça o descontrole que pauta nossas vidas quando não conseguimos realizar nossos desejos ou os desejos daqueles que amamos.

O que “A Pequena Morte” demonstra, com afeto, mas também de maneira colérica, é que a satisfação sexual, mesmo a consciência do que a provoca, exige coragem, esforço e desprendimento.

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Filmes, Notícias | 11:33

“Que Horas ela Volta?” é atração deste Natal da Rede Telecine

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Foto: divulgação

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O filme que foi o escolhido pelo Brasil para tentar uma vaga no Oscar, e infelizmente não conseguiu vaga, estreia nesta sexta-feira (25) no Telecine Premium. “Que Horas ela Volta?” será exibido às 22h. O grande destaque recai sobre a curta janela entre o lançamento nos cinemas, em agosto, e o lançamento na TV por assinatura.

Protagonizado por Regina Casé e dirigido por Anna Muylaert, o filme traz à tona a delicada relação entre domésticas e empregadores no Brasil. O abismo entre ricos e pobres é pano de fundo da história da pernambucana Val (Regina Casé), que deixa a filha no Nordeste para tentar ganhar a vida em São Paulo trabalhando numa casa de família. Anos depois, sua filha, Jéssica (Camila Márdila), chega à capital paulista para prestar vestibular. Mas o comportamento libertário da jovem estremece as relações entre Val e seus patrões.

A partir do dia 26 o filme fica disponível no Telecine Play e pode ser visto a qualquer hora, em múltiplas plataformas.

Confira a crítica do Cineclube: “Que Horas ela Volta?” congrega muitos brasis e filmes em narrativa sutil e cheia de belezas

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015 Filmes, Listas | 16:29

Retrospectiva 2015: Os filmes nacionais do ano

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Desnecessário dizer que o cinema nacional está cada vez mais plural, diverso e próspero. De uns anos para cá, porém, essa máxima tem se imposto na medida em que se esmiúça o que foi lançado ao longo do ano.

Ao olhar em retrospecto para 2015 é possível perceber que o maior avanço que o audiovisual brasileiro deu foi em matéria de cinema de gênero. Mas não foi só isso. O Brasil discutiu o pós-Lula em filmes complementares e, em certo sentido, antagônicos (“Que Horas ela Volta? e “Casa Grande”), olhou com carinho para os anos 80, fez filme de arte provocador e filme de arte reflexivo. Lançou terror satírico, adaptação engenhosa de Shakespeare e um documentário reverente a um mestre da linguagem cinematográfica. E Irandhir Santos reinou! Se 2015 é o ano que não acabou, o cinema brasileiro só tem a agradecer.

Foto: montagem/reprodução

Foto: montagem/reprodução

“Que horas ela volta?”

A maternidade como questão social em um Brasil em mutação

“Casa Grande”

O pós-Lula escancara o derretimento da classe média brasileira

“A história da Eternidade”

O Nordeste lúdico e ardente ganha cor, tom e alma

“Califórnia”

Os jovens dos anos 80 mandam um alô para os jovens de hoje

“Permanência”

O passado em transe com o futuro

Foto: Montagem/reprodução

Foto: Montagem/reprodução

“Amor, plástico e Barulho”

Porque os sonhos devem ser perseguidos plenamente

“Últimas Conversas”

A informalidade de um adeus formal a Coutinho

“Obra”

O futuro ensimesmado com o passado

“A Floresta que se Move”

Shakespeare faz mais sentido em português

“Condado Macabro”

Horror gore com sotaque brasileiro

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Críticas, Filmes | 10:29

“Macbeth: Ambição e Guerra” é adaptação protocolar de Shakespeare

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Foto: divulgação

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Adaptar Shakespeare, por mais trivial que pareça, em face das inúmeras adaptações que pipocam por aí, não é para todo mundo. O australiano Justin Kurzel, com apenas um longa-metragem no currículo, se julgou apto para o desafio. Não que “Macbeth: Ambição e Guerra” seja um filme ruim. Não é. É apenas protocolar no tratamento que dá a uma das mais complexas, apaixonantes e pulsantes peças do bardo inglês.

Levar Shakespeare ao cinema apenas pela transitoriedade do gesto, pelo hype em si, é uma bobagem. Sua versão de “Macbeth” tem bons predicados. O visual exuberante talvez seja o maior deles. Michael Fassbender como o general tentado por sua ganância que cai em desgraça é outra. Há, ainda, Marion Cotillard desfilando todo o seu talento como Lady MacBeth, mas a atriz é subaproveitada pelo roteiro que adensa o primeiro ato da peça e corre com o terceiro – justamente o mais impactante de todos.

A trajetória de Macbeth está toda lá, mas quem quer que já conheça a peça pode se encontrar flertando com o desinteresse. Kurzel não tinha um desafio qualquer. Afinal, “Macbeth” já havia sido abordado no cinema por figuras como Roman Polanski e Orson Welles. Ao optar por uma visceralidade consternada, reforçando a gravidade do texto, Kurzel finge estar levando Shakespeare a outro patamar. Mas é só fingimento. Afinal, a qualidade, o peso, o pessimismo, o fatalismo vem todo do original. Há algumas soluções visuais que ameaçam resgatar o filme dessa previsibilidade tão maçante quanto presunçosa, mas elas se circunscrevem como um interesse periférico. Jamais reclamam o domínio sob o filme.

Talvez o desafio fosse grande demais para um segundo filme. Talvez a sombra dos trabalhos de Polanski e Welles tenham levado Kurzel a adotar uma literalidade desnecessária. Shakespeare funciona melhor no cinema quando problematizado. Transcrição por transcrição, há expedientes melhores do que o cinema para tanto.

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015 Filmes, Listas | 17:37

Retrospectiva 2015: Os dez melhores personagens do ano

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Foi um ano de muita vaidade e alguma idealização. Pelo menos, é isto o que a listas dos melhores personagens do ano no cinema indica. O Cineclube fez um apanhado dos personagens mais cativantes, fascinantes, inusitados e curiosos que pintaram em nossas telas em 2015 e separou os dez que melhor se posicionaram neste crivo a seguir.

10 – Richmond Valentine (Samuel L. Jackson) em “Kingsman: Serviço Secreto”

Foto: divulgação

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O megalomaníaco vilão de língua presa defendido com gosto por Samuel L. Jackson é um dos maiores baratos do ano. Ele tem pavor de sangue e não suporta cenas de violência, mas quer extinguir a humanidade em favor de um deturpado conceito ambientalista. O melhor vilão de Bond do ano não veio de um filme de James Bond.

9 – Frank (Michael Fassbender) em “Frank”

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Um rockstar que não tira para nada sua cabeça de dentro de uma gigantesca cabeça artificial. O Frank que Michael Fassbender tonaliza com muita sutileza é mais uma construção de John (Domhnall Gleeson), um sujeito que sempre sonhou fazer parte de uma banda de rock, do que o Frank de verdade. A peculiaridade desse vocalista incomum acentua o niilismo do registro. Trata-se de um filme sobre a magia de se produzir música e todas as idiossincrasias que vem com ela.

8- Abe (Joaquin Phoenix) em “Homem Irracional”

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Joaquin Phoenix dá vida a esse professor de filosofia desencantado com a existência. Barrigudo, taciturno, alcoólatra e sucesso entre as mulheres com seu pessimismo crônico. Tudo muda de figura quando ele decide matar alguém e recobra o gosto pela vida. Phoenix, com sua gravidade obtusa, calça o personagem sem afetação e com muita propriedade.

7 – Philip Friedman (Jason Schwartzman) em “Cala a boca Philip!”

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Sob muitos aspectos, o protagonista dessa perola indie Americana é uma derivação de Abe, mas o personagem do sempre hiperbólico Jason Schwartzman é movido pelo egoísmo e não pelo desencanto. Ele não aceita que o mundo não gire a seu redor e esse egocentrismo é posto à prova à medida que a pressão por um novo livro (ele é escritor) se estabelece. Cheio de tiques e resistente a intimidades, Philip é um dos personagens mais estranhos, originais e verossímeis do ano.

6 – Shasta Fay (Katerine Waterson) em “Vício Inerente”

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Larry nunca mais foi o mesmo depois que Shasta o deixou. O detetive deu um tempo na sua brisa para atender um pedido da ex: encontra o atual namorado dela. Katherine Waterson não tem muito tempo em cena, mas faz maravilhas com o que tem. Ela faz com que Shasta seja um mistério incandescente muito mais atraente do que saber o que de fato aconteceu com o rico namorado da personagem.

5 – Isabella Patterson (Imogen Poots) em “Uma Amor a Cada Esquina”

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Trata-se de outra personagem construída. A Isabella, estrela de cinema, que está dando uma entrevista logo na abertura de “Um Amor a Cada Esquina”, delicioso novo filme de Peter Bogdanovich, não é a mesma que vamos descobrindo cena após cena. A brincadeira aqui é com a ideia de Hollywood como um todo, mas também sobre como nossos sonhos podem nos transformar em pessoas melhores. Ela é um oásis em meio a tanto narcisismo na lista.

4 – Havana Sagrand (Julianne Moore) em “Mapa para as Estrelas”

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Totalmente diferente de Isabella, Havana Sagrand é a vaidade em sua mais irresoluta forma. A atriz, incomodada com seu envelhecimento, decide dar um boom na carreira ao viver um célebre papel imortalizado por sua mãe no cinema. Mas há pouco interesse dos realizadores em contar com ela na refilmagem. Na fogueira de vaidades que queima nesse valoroso petardo de David Cronenberg, Havana é das coisas mais geniais, brutais e constrangedoras que existe.

3 – Riggan Thomson (Michael Keaton) em “Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância”

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Já que a masturbação interpretativa foi grande em 2015, nada mais justo do que o personagem mais falho, apaixonante e contraditório do ano pintasse por aqui. O Riggan construído por Michael Keaton a sua imagem e semelhança é um sujeito inseguro e que não sabe ao certo distinguir ambição de ganância. É um sujeito com medo de ver até onde vai o seu talento, mas com coragem o suficiente para tentar descobrir.

2 – Terence Fletcher (J.K Simmons) em “Whiplash – Em Busca da Perfeição”

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O professor que se recusa a formar músicos medíocres foi, sem dúvida, um dos personagens mais chocantes do ano. Divertido em seu sadismo incontido, Fletcher e seus métodos para lá de incomuns dividem opiniões. É louvável sua disposição de romper com as convenções de uma sociedade complacente, mas o custo pode ser alto demais. Simmons, oscarizado por seu desempenho, dá ao personagem a necessária complexidade.

1 – Furiosa (Charlize Theron) em “Mad Max: Estrada da Fúria”

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O filme se chama Mad Max, mas quem se importa? O mais explosivo, sensacional e impactante filme do ano é todo dela. Imperator Furiosa. O nome já a tira do lugar comum e Charlize Theron a vive com o misto de gana e excentricidade necessários para cravar a personagem no coração da cultura pop. Nada mais justo do que o topo do ranking do Cineclube.

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015 Bastidores, Filmes | 13:52

“13 Horas” é o filme mais sério de Michael Bay

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John Krasinski em cena do filme "13 Horas"

John Krasinski em cena do filme “13 Horas”

Michael Bay, de vez em quando, resolve dar um tempo de Michael Bay. Entre um “Transformers” e outro ele faz um filme menor. Um filme menor, mas vale ter em mente, que um filme menor nos padrões do diretor.

Depois do bem sacado e divertidíssimo “Sem dor, sem ganho” (2013), Bay apresenta “13 horas: Os Soldados Secretos de Benghazi”, filme baseado no livro de não ficção “13 hours: the inside account of what really happened in Benghazi”, de Mitchell Zuckoff, que conta bastidores do ataque terrorista a uma base diplomática americana na Líbia em 2012.

iG ON: Michael Bay filma ação americana clandestina na Líbia em “13 Horas”

O filme recria as 13 horas de tensão que capturam tanto o atentado quanto a reação das forças americanas a ele.

A coluna assistiu a cerca de 25 minutos da produção que estreia no dia 18 de fevereiro de 2016.

Mesmo quando se impõe à discrição, Bay é chamativo e no caso de “13 Horas” isso não é algo desfavorável. As cenas assistidas pelo Cineclube são caprichadas na combinação tensão e patriotismo.

O cuidado de Bay em ser fidedigno aos protocolos militares, algo que já pôde ser presenciado na série “The Last Ship”, da qual é produtor executivo, salta aos olhos. Algo que foi confirmado em featurette exibido aos jornalistas com depoimentos de alguns sobreviventes da ação militar na Líbia.

Com barbudos John Krasinski e James Bagde Dale à frente do elenco, “13 Horas” promete ser tão explosivo quanto qualquer filme de ação de Bay, mas com o acréscimo de iluminar um episódio que ainda hoje é amplamente questionado por autoridades políticas e opinião pública americanas.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 14:02

Romance de estranhamento, “Garota Sombria Caminha pela Noite” é filme de vampiro que faltava

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Um conto moral ou uma abordagem iraniana do vampirismo no cinema? “Garota Sombria Caminha pela Noite”, coprodução entre EUA e Irã, falado em persa e rodado em um preto e branco hipnotizante, agrega um pouco das duas definições, mas vai muito além delas.

Estamos em Bad City, uma cidade de cafetões, traficantes, prostitutas e crianças que flertam com a delinquência. Além dos drogados e desesperançosos. É neste cenário inóspito que uma vampira solitária escolhe suas vítimas na noite escura que convida os tipos mais depravados.

Dirigido por Ana Lily Amirpour, inglesa de ascendência iraniana, o filme passou por festivais como Londres, São Francisco e Sundance e integrou algumas listas de melhores produções de 2014 de críticos e publicações de prestígio. O entusiasmo não é injustificado.

Cena do filme "Garota Sombria Caminha pela Noite"

Cena do filme “Garota Sombria Caminha pela Noite”

“Garota Sombria Caminha pela Noite” vale-se da estranheza e de um profundo sentimento de deslocamento –realçado pela estética apuradíssima que compreende desde a fotografia altamente estilizada até a trilha sonora mesmerizante – para falar de solidão e de como o amor pode surgir mesmo nas circunstâncias menos propícias.

Trata-se de um filme cujo sentido precisa ser construído em conjunto com sua audiência, mas Amirpour fornece todas as ferramentas possíveis para isso. Há, por exemplo, uma cena lindíssima em que nossos heróis se conectam ao som de uma canção chamada “Death”, da banda White Lies. A cena, de uma organicidade que foge a toda à franquia “Crepúsculo” para ficar em um exemplo pop, arregimenta todo o sentimento de deslocamento, inadequação e carência que une aqueles dois jovens.

O vampirismo no filme de Amirpour é menos uma condição parasitária e mais um movimento de resistência a ele. É, portanto, uma leitura poética de um mito tão largamente explorado e deturpado pelo cinema.  Pode-se dizer, sim, que se trata de uma abordagem iraniana do vampirismo, porque dificilmente se verá um recorte tão lúdico e inebriante do vampirismo no cinema contemporâneo. No entanto, não se trata de um filme efetivamente iraniano. Esse mistério se concatena com a aura do filme. Senhor de uma atmosfera tão encantadora quanto distante, “Garota Sombria Caminha pela Noite” é um dos filmes mais criativos, pulsantes e sensíveis a aportar em nossos cinemas em 2015.

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terça-feira, 15 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 13:15

“A Floresta que se Move” revigora peça mais complexa de Shakespeare

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Fazer uma adaptação brasileira de MacBeth, uma das peças shakespearianas mais adaptadas pelo cinema – grandes mestres como Orson Welles e Roman Polanski o fizeram – é, sob muitos aspectos, uma proposta para lá de ousada. Ambientá-la na atualidade é flertar perigosamente com o descarrilamento da ideia, mas o diretor Vinícius Coimbra (“A Hora e a Vez de Augusto Matraga”), com o préstimo da roteirista Manuela Dias, contorna essas problemáticas com um drama voraz e cheio de personalidades.

Cena de "A Floresta que se Move" (Foto: divulgação)

Cena de “A Floresta que se Move”
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“A Floresta que se move” (Brasil, 2015) é um filme que não esconde sua ascendência teatral e com essa opção reforça as tintas shakespearianas em uma elaboração dramática com cores contemporâneas. Gabriel Braga Nunes é Elias Amaro, que recebe de uma bordadeira tão logo desembarca da Alemanha, que hoje seria promovido à vice-presidente do banco e que logo seria presidente. A profecia, também ouvida pelo amigo César (Ângelo Antônio) detona a ambição de Elias, sentimento cultivado com afinco por sua esposa Clara (Ana Paula Arósio) e ele se vê desejoso de avançar contra a vida de seu chefe, quem é todo atenção para com ele, vivido por Nelson Xavier.

Confiando nos atores – e seu par de protagonistas não decepciona – Coimbra recorre ao realismo fantástico para expor a fissura emocional que acomete a casa e os personagens.

A narrativa evolui relacionando bem os paradigmas estabelecidos por Shakespeare e a realidade contemporânea, em que uma instituição financeira é o maior símbolo do poder capitalista.

Não se trata de um filme que tenta atualizar Shakespeare, um erro em que muitas obras cinematográficas incorrem, mas de uma tentativa de dialogar com a obra do bardo inglês por meio de um recorte inusitado e inventivo. É este o mérito fundamental do filme que apresenta muitos outros como a adequação ao texto clássico, a boa direção de arte e cenários e, especialmente, as atuações.

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