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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016 Críticas, Filmes | 12:42

Filmado de maneira artesanal, “O Regresso” promove comunhão entre corpo e natureza

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Foto: divulgação

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Depois de mesmerizar público, crítica e indústria com uma ácida leitura do jogo hollywoodiano em “Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância”, também um triunfo estético, Alejandro González Iñárritu muda radicalmente de ritmo e dinâmica, mas mantém-se fiel à essência de sua filmografia com “O Regresso”; uma obra com argumento pueril – o desejo de vingança -, mas executada com a agudeza de estilo que precede o cineasta mexicano.

Com 12 indicações ao Oscar, incluindo filme, direção, ator e fotografia, “O Regresso” é, à primeira vista, um western. Mas o cinema de Iñarritu, desde o rompimento da parceria com Guillermo Arriaga, tem problematizado os limites do gênero cinematográfico.

Se “Birdman” começava como uma comédia de tintas surrealistas, passava por um drama existencial soturno e terminava com ares de fábula cartunesca, “O Regresso”, apesar de subscrever-se logo aos códigos do western, é também um filme de contemplação, que busca a sensorialidade a todo o momento. É tanto um filme sobre a vida, como é sobre a morte e o manancial de instintos que transitam entre uma e outra.

Ainda que seja ousado tecnicamente, “O Regresso” não ostenta a mesma engenhosidade de “Birdman”. Não representa o sobressalto estético do filme protagonizado por Michael Keaton, mas é capaz de seduzir parte do público – e afastar outra – com seu adorno artesanal. É um filme lindamente filmado. Dos movimentos de câmera inusitados à fotografia em luz natural de Emmanuel Lubezki.

Leonardo DiCaprio, que dá vida ao protagonista Hugh Grass – um homem meio índio, meio homem branco que parece pagar o preço por essa ousadia biológica -, atua conforme o absorto e solene marejar fílmico de Iñárritu demanda.  O ator sujeita seu corpo a provações desagradáveis de forma a abalizar a dramaticidade do registro. A comunhão entre corpo e natureza, entre espírito e obstinação, é algo que DiCaprio é muito bem sucedido em tangenciar. Trata-se de uma atuação escorada, sim, na fisicalidade, mas ciosa, também, daquilo que pode apenas sugerir para o público. Um trabalho que exige um grande ator e encontra em DiCaprio um homem digno para tal.

Tom Hardy, por seu turno, empresta a habitual competência à confecção de um homem mais inteligente do que aparenta e em melhor comunicação com seus instintos do que nos damos conta. John FitzGerald tem uma compreensão mais dilatada do mundo em que vive. É a interpretação que faz dele, no entanto, que alimenta a grande dicotomia do filme – e da humanidade.

Neste contexto, e dimensionado pelo trabalho desses dois grandes atores, “O Regresso” se viabiliza como um conto romântico – não na acepção amorosa do termo – sobre a prevalência dos instintos a qualquer força que ouse contê-los.

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sábado, 23 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 16:48

“Joy: O Nome do Sucesso” se perde na ambição desmedida de seu diretor

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“Joy: O Nome do Sucesso”, novo longa-metragem de David O. Russell, é um filme mais ambicioso do que aparenta ser e muito mais remendado do que o desejável. A impressão soberana é de que trata-se de um projeto que Russell burila a todo o momento para potencializar as chances de Jennifer Lawrence brilhar.

Misto de cinebiografia e sátira ao melodrama, “Joy: O Nome do Sucesso” recria com algum estardalhaço a história de Joy Mangano, uma mulher de classe média com uma família complicada e exigente que deu seu jeito de vencer na vida como uma empreendedora de sucesso. É compreensível o apelo da personagem para Lawrence, uma atriz cada vez mais ímpar na seara hollywoodiana com o que já conquistou em seus 25 anos de vida.

Logo de cara, Russell sublinha o extraordinário naquela mulher. Ela abriga o ex-marido no porão de sua casa. Trata-se de uma pessoa diferenciada, argumenta Russell com um dos poucos recortes sutis em um filme que vai aumentando de volume a cada novo conflito que emerge no caminho de sua protagonista.

A primeira cena do filme exibe uma novela e é uma cena mais importante do que se julga a princípio. Ali Russell começa a explicitar um de seus interesses com o filme, satirizar o sonho americano – tema corrente em seus filmes como atestam “O Vencedor” (2010) e “Trapaça” (2013) – com certo grau de sofisticação. Joy e sua família disfuncional – a avó sonhadora (Diane Ladd), o ex-marido (Edgar Ramírez), um cantor frustrado, a mãe (Vírgina Madsen) que fia sua vida às tramas de novelas, o pai (Robert De Niro), emocionalmente desajeitado e a meia-irmã (Eliabeth Rhöm), com quem trava uma ruidosa rivalidade pela atenção do pai – são apresentados com carregados tons melodramáticos.

Cena de "Joy": a personagem é boa, mas merecia um filme melhor (Foto: Divulgação)

Cena de “Joy”: a personagem é boa, mas merecia um filme melhor
(Foto: Divulgação)

A ideia é ridicularizar a gênese desse sonho americano, que a gente costuma tomar contato pela televisão. É justamente a TV, a estrela do segundo ato do filme, quando surge o guru comercial vivido por Bradley Cooper.  Russell tenta, novamente, dimensionar o sonho americano, mas acaba desviando o foco de sua protagonista e, neste inesperado ínterim, arrefecendo a força de seu filme.

Depois Joy e sua combalida jornada rumo ao topo dos negócios voltam ao eixo central da narrativa, mas a audiência já assiste tudo meio que anestesiada. Se Russell é bem sucedido ao mostrar o impacto negativo de familiares não necessariamente mal intencionados na vida de Joy – algo que já fez melhor em “O Vencedor” -, falha em esculpir a parte econômica da trama. Tudo parece distante demais para um espectador que parece forçado a intuir para onde o filme está indo. O roteiro inegavelmente é o calcanhar de Aquiles do filme. Se Russell mantém-se afiado como diretor de atores – e o elenco em geral está muito bem – suas pretensões descarrilaram no roteiro e o resultado é um filme muito abaixo do nível de sua filmografia recente.

O desejo de oferecer um palco para Jennifer Lawrence e a compreensível grandiloquência com que enxerga o próprio cinema depois de tão veementemente agraciado pelo Oscar prejudicaram Russell. “Joy” é um filme plenamente seu, em todos os poros, e há muito tempo que isso não era uma constatação tão decepcionante.

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 13:03

“Mad Max do sertão”, “Reza a Lenda” é triunfo do neófito cinema de gênero do País

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Foto: Divulgação

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O cinema nacional se mostra cada vez mais à vontade na confecção do chamado cinema de gênero. Uma produção como “Reza a Lenda” (Brasil, 2016) é a mais cristalina constatação desta nova e bem-vinda fase de nosso cinema. O filme de Homero Olivetto agrega ação e ficção científica de uma maneira tão desamarrada que faz crer que filme de ação é algo trivial no Brasil.

Com ecos de Sergio Leone e influências diretas de “Mad Max”, “Reza a Lenda” é um filme que se distingue mais por sua originalidade e detenção aos predicados do gênero do que por ser um grande filme propriamente dito. Isso, dentro do contexto da produção nacional.  Apesar de não dispor de um orçamento hollywoodiano, o filme de Homero é divertido e objetivo na conjugação dos signos do western.

A ideia de um Nordeste maltratado pela seca e refém de uma religiosidade opressiva é boa demais e a leitura pop que Homero faz dessa realidade denota uma inteligência criativa e um senso de estética que averbam a evolução do cinema brasileiro enquanto modelo de negócio.

Cauã Reymond é Ara, o líder de um bando de motoqueiros que segue as orientações religiosas de Pai Nosso – um sujeito que se mostra um guia espiritual para órfãos em uma terra árida e inóspita.

Tal como Mad Max, Ara é um herói silencioso, pacato e assombrado por dúvidas, hesitações e arrependimentos. Reymond é hábil na construção artesanal do personagem. Com gestos, olhares, expressões e uma postura nervosa, o ator dá a seu Ara a inquietação existencial necessária para que sua trajetória não desapareça em face do inusitado hype que “Reza a Lenda” se configura para uma desacostumada audiência.

Humberto Martins faz o vilão com gosto. Seu Tenório é um homem fiel ao preceito de matar ou morrer. Preferencialmente de matar. Quando seu destino cruza com o bando de Ara, a caçada torna-se um dos grandes sabores da fita.

Há, ainda, um conflito romântico envolvendo as personagens de Sophie Charlotte, namorada de Ara, e Luisa Arraes, uma moça da cidade grande que pode, por vias tortas, significar o fim da seca na caatinga nordestina.

Diversão, violência, sensualidade e clichês nunca rimaram tão bem em uma produção de ação brasileira que poderia ser ambientada em qualquer outra parte do mundo; mas que tem justamente em sua brasilidade, os aspectos que a fazem tão peculiarmente boa.

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 14:11

“Steve Jobs” não paga o risco da dobradinha Boyle e Sorkin no cinema

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Cena do filme "Steve Jobs":  Filme é bom, mas se vende como algo muito melhor

Cena do filme “Steve Jobs”: Filme é bom, mas se vende como algo muito melhor

A junção de Danny Boyle e Aaron Sorkin inspirava desconfiança para com “Steve Jobs”, a biografia de pedigree que a Sony queria produzir sobre o visionário co-fundador da Apple e que acabou sob o jugo da Universal.  O risco era que o hipertireoidismo visual do diretor de “Quem Quer Ser um Milionário?” (2008), combinado com o histrionismo textual de Sorkin prejudicasse a estrutura dramática do filme.

Do jeito que veio ao mundo, “Steve Jobs” é um bom filme. Impregnado pela científica disposição de problematizar Steve Jobs. De iluminar o homem que colhia inimizades e detratores no mesmo compasso em que influenciava o mundo e acumulava bilhões de dólares.

Nesse contexto, “Steve Jobs” se apresenta com certa obviedade para quem já está minimamente familiarizado com a figura de Jobs. Até o mediano filme “Jobs” (2013), de Joshua Michael Stern é mais didático e elucidativo de quem foi Jobs e dos ideais que o nortearam.

Com o documentário “Steve Jobs: the Man in The Machine” (2015), de Alex Gibney, o filme de Boyle guarda poucas semelhanças. No documentário a investigação de quem, de fato, é Jobs é muito mais perene, profunda e ressonante. Em “Steve Jobs” tudo parece uma questão de estilo. O filme parece demasiadamente preocupado com a maneira com que vai se vender para o público – emprestando uma característica de Jobs muito bem sublinhada ao longo do filme.

Michael Fassbender, por seu turno, empresta todo o seu carisma a um homem que parece refém de seu gênio. É esse o recorte que Fassbender dá a ele. É, sim, uma leitura condescendente do personagem. Afinal de contas, rótulos como “um homem a frente de seu tempo” e “gênio incompreendido” costumam ser atribuídos a Jobs. De qualquer modo, Fassbender o encarna com uma energia bruta e brutal. É impossível desviar de seu magnetismo.

O restante do elenco, com nomes como Jeff Daniels, Kate Winslet e Seth Rogen, também está muito bem alinhado. Coeso e uniforme. Mas é a parte técnica de “Steve Jobs” que salta aos olhos. Boyle aposta na forma e confia ao texto de Sorkin, que brinda o espectador com ótimos diálogos e um punhado nada desprezível de grandes cenas, a força dramática de seu filme.

Trata-se de uma escolha que limita o impacto de “Steve Jobs” enquanto cinema. Tem-se um produto muito bem embalado, com forte apelo pop, mas de pouca relevância narrativa ou dramática. Não é o pior dos mundos, mas passa longe de se configurar como um dos melhores.

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 18:46

“Boi Neon” flagra Nordeste moderno e aborda empoderamento feminino e limites de gênero

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Gabriel Mascaro é dos realizadores mais interessantes a emergir no cinema contemporâneo. Prova disso, é a aclamação que seu terceiro longa-metragem, “Boi Neon”, amealhou festivais mundo afora. Com destaque para os prêmios em Veneza, Toronto e Rio de Janeiro.

“Boi Neon” é um filme de inescapável força dramática, ainda que não se escore nos recursos mais tradicionais da dramaturgia para tanto. Mascaro problematiza o corpo e o gênero com a sutileza de um artesão.

Iremar (Juliano Cazarré) é um vaqueiro de curral que viaja pelo Nordeste junto com uma pequena trupe. Ele prepara os bois para as tradicionais vaquejadas (em que sobre cavalos, os vaqueiros precisam alinhar e conduzir os bois para os locais demarcados). Iremar, no entanto, gosta mesmo é de desenhar roupas. Ele sonha em ser estilista de moda. No Nordeste contemplado por Mascaro, Iremar pode até ser excêntrico, mas não é uma ave rara. Galega (Maeve Jinkings), que pertence à mesma trupe, é uma mulher “bronca” na definição de Iremar. Caminhoneira rude no tratamento com as pessoas, ela cede à arte do strip-tease à noite e a roupa que tira é desenhada por Iremar. Há, ainda, Júnior (Vinicius de Oliveira), um rapaz que substitui (Carlos Pessoa) no grupo. A vaidade de Júnior o coloca em frontal deslocamento com a aparência dos homens que vemos por ali.

Foto: divulgação

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Esses recortes expõe a verdade que Mascaro quer relativizar com seu filme. Os limites de gênero, impostos lá atrás, estão se dilatando não apenas nas grandes metrópoles. Mas o filme, que mostra este Nordeste redentor, de gente que aspira mais, mas está muito bem com sua rotina, tem mais a revelar com seu minimalismo narrativo e seu desprendimento visual.

O corpo é uma das matérias-primas de “Boi Neon”. Tanto os corpos humanos como os dos animais. Iremar, por exemplo, abriga uma feminilidade no gestual e na relação com Cacá (Alyne Santana), filha de Galega, que não expulsa de seu corpo a masculinidade característica de um homem com seu ofício. Essa contradição do corpo é uma das maiores belezas, na provocação perene que estabelece, de “Boi Neon”.

A imagem é soberana em “Boi Neon”, mas muito das inflexões do filme não estão nelas, mas partem do que elas propõem. Um exemplo disso é o empoderamento feminino. O sexo em “Boi Neon”, tratado com a parcimônia dos amantes experimentados, parece adornado para dimensionar como os clichês do comportamento social já soam deslocados em um Nordeste muito mais moderno do que o pregado a torto e a direito.

Há uma cena de sexo, envolvendo uma mulher grávida, em que o clamor do desejo é correspondido com ternura e delicadeza, mas também muito tesão. É uma cena de sexo quase explícita, em termos gráficos, mas extremamente reveladora de um mundo em transformação. Não à toa, é uma das cenas mais longas do filme.

“Boi Neon” é um cinema de propostas sólidas, de uma reflexão manente e de narrativa delicada. É um filme que precipita seu contexto com inventividade e inquietação. Para quem gosta de cinema, não dá para pedir mais do que isso.

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terça-feira, 12 de janeiro de 2016 Análises, Filmes | 17:03

“Os Oito Odiados” é um Tarantino inconformista

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Cena de "Os Oito Odiados":  um filme erguido pelo desejo de resistência

Cena de “Os Oito Odiados”: um filme erguido pelo desejo de resistência

Principal estreia deste fim de semana, “Os Oito Odiados” é, também, o oitavo filme do badalado cineasta Quentin Tarantino. Em novembro, o cineasta esteve em São Paulo para divulgar o filme e comentou sobre suas principais motivações para rodar “Os Oito Odiados”.

Vale lembrar que logo depois do vazamento do roteiro do filme, Tarantino ameaçara abandonar o projeto. Voltou atrás. “Era uma primeira versão”, disse sobre o texto vazado em uma roundtable da qual a coluna participou.

Tarantino disse, ainda, que seu desejo de contribuir para o gênero do western norteou a feitura do filme. “Dizem que com três filmes você já pode ser considerado um diretor de westerns. Me falta um”, observou o autor de “Django Livre” (2012).

“Os Oito Odiados” mostra um Tarantino mais dominante dos códigos do western, mas também um inconformista. Trata-se de um filme de resistência. Não há mocinhos em cena e o passado escravagista da América, o olho no furacão de “Django Livre”, é uma sombra poderosa na construção da mise-en-scène aqui.

“Os Oito Odiados” é, sob muitos aspectos, uma crônica pessimista sobre a humanidade – e reparem no destino do único personagem não odiável em cena. É, também, um exercício de estilo dos mais referendados do roteirista Tarantino. Pouco modesto, o próprio entende ser seu melhor roteiro. De fato, é possível identificar nas bem elaboradas cenas de ‘Os Oito Odiados” as referências aos outros filmes do cineasta. É o triunfo da palavra. Nunca se falou tanto em um filme de Tarantino e os diálogos já são tidos como a especialidade da casa.

O mais teatral dos seus filmes, talvez escancare o desejo de Tarantino de se desapegar do cinema e enveredar-se pelas outras artes, como a literatura e o teatro. “Os Oito Odiados” funciona muito bem como cinema, mas talvez seu impacto como um romance, ou como uma montagem, fosse maior; mais perene. Essa inquietação, que se transfere do autor para o público que o acompanha como um mestre em sua arte, palpita em “Os Oito Odiados” como a carta de Abraham Lincoln o faz para com os personagens do filme.

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016 Diretores, Filmes | 14:39

Eu queria resgatar o tempo do sexo no cinema, diz diretor do aclamado “Boi Neon”

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Na próxima quinta-feira (14), estreia no Brasil o filme “Boi Neon”, o mais novo elixir oriundo do cinema pernambucano. Assinado por Gabriel Mascaro, que antes já havia causado sensação com “Doméstica” (2012) e “Ventos de Agosto” (2014), o filme mostra um Nordeste radicalmente diferente da leitura tradicional que se tem da região. Mas não é só.

“Boi Neon” é um filme que pensa o corpo como nenhum outro ousou fazer no cinema recente. Mascaro, com muita sutileza, tateia a questão de gênero, e seus limites cada vez mais dilatados, com imaginação e riqueza visual.

O cineasta pernambucano Gabriel Mascaro na pré-estreia do filme em São Paulo (Foto: divulgação/Imovision)

O cineasta pernambucano Gabriel Mascaro na pré-estreia do filme em São Paulo
(Foto: divulgação/Imovision)

Premiado em Veneza e Toronto e grande vencedor do último festival do Rio, “Boi Neon” é, sob muitos aspectos, representante de um cinema brasileiro mais oxigenado e que pode, e deve, ajudar a transformar o olhar estrangeiro sobre o nosso cinema. Não à toa, o filme fez uma longa carreira em festivais internacionais antes do lançamento comercial no País.

A coluna bateu um papo com o cineasta no dia em que ele apresentou o filme para convidados na capital paulista. Mascaro se mostrou orgulhoso do resultado.  Nada mais justo, já que o filme é maravilhoso, e entusiasmado com as possibilidades para seu rebento daqui para a frente. “Quero que o filme seja descoberto e que chegue ao interior. Quero muito ver quais serão seus efeitos por lá”.

Leia também: Longa brasileiro “Boi Neon” busca contradição do corpo e causa boa impressão em Veneza

Cineclube: Você diria que “Boi Neon” é seu filme mais ousado? Por quê?

Gabriel Mascaro: Eu não saberia dizer. Porque não faria “Boi Neon” se não tivesse feito os outros filmes. É uma experiência muito única. Essa troca com os atores, com a equipe. Certo, posso dizer, é que foi um processo muito rico.

Cineclube: Qual é a sensação de estrear um filme no Brasil depois de uma carreira tão bem sucedida em festivais mundo afora?

GM: Alegria imensa. Ter essa possibilidade de mostrar para as pessoas que o filme é reconhecido. A sensação é de ter fechado esse ciclo.

Cineclube: O corpo e a questão de gênero são muito prementes no filme. Como foi trabalhar isso visualmente e de que maneira você concebeu essa característica do filme para os propósitos narrativos?

GM: O corpo é uma coisa muito forte no filme. É sobre transformação. Ele acumula. Onde os homens estão reapropriando essa ideia do masculino. Tem uma série de novas possibilidades de vivência que estão acontecendo lá (no Nordeste) e que para mim era importante trazer para o filme. O sexo, a urina do Iremar (o filme se demora na exposição desses ritos). O cinema não tem tempo para mostrar um ato sexual do começo ao fim e eu queria resgatar isso.

Cineclube: A quebra de paradigmas parece um norte do filme. Vivemos em um mundo que a relativização é bem-vinda? Seria esse o ponto de encontro da sua filmografia? Eu estou viajando ou é por aí mesmo?

GM: Acho que você coloca uma coisa muito pertinente. Personagens diferentes. Estranhos. Que são exceções. O filme cria ambiguidade e o filme te aproxima desses personagens que a gente acha diferente e escancara a possibilidade de convergência. A ambiguidade está lá apenas para afastar a ideia de normalidade. Viajei mais do que você (risos).

A gente imagina que a cultura do Nordeste é aquele lugar que as pessoas querem ir embora pela dificuldade e tal, nesse filme ninguém quer ir embora. Querem modificar a vida, mas permanecer ali. São personagens que resistem de certa forma. Ousam sonhar sonhos diferentes.

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015 Filmes, Listas | 16:58

Retrospectiva 2015: Os vinte melhores filmes do ano

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Foi um ano intenso. Não só no cinema. Mas talvez o cinema seja o melhor fórum para uma análise dessa natureza. A pluralidade dos filmes selecionados pelo Cineclube para compor esse ranking do que de melhor surgiu no Brasil (cinema, VOD, home vídeo, etc) entre janeiro e dezembro de 2015, garante a satisfação de quem gosta de cinema em toda a sua plenitude.

Uma boa passagem de ano para todos os leitores e nos vemos em 2016!

20 – Força Maior”, de Ruben Östlund  (Suécia, 2014)

Um olhar frio, distante e irreversível sobre a dinâmica familiar burguesa contemporânea em um filme sem medo de inconveniências.

19 – “A Visita”, de M. Night Shyamalan (EUA, 2015)

Shyamalan redescobre a simplicidade narrativa em um filme que tem sustos, sim, mas tem muito mais coração

18 – “Um Amor a cada Esquina”, de Peter Bogdanovich (EUA, 2014)

O maior trunfo do cinema é a imaginação nesta comédia deliciosa que homenageia Hollywood com inteligência e delicadeza

Foxcatcher: o que não é mostrado move o poderoso filme de Bennett Miller

Foxcatcher: o que não é mostrado move o poderoso filme de Bennett Miller

17 – “A Pequena Morte”, de Josh Lawson (Austrália, 2014)

A ideia de normalidade é afastada em um filme que a partir de inusitados fetiches sexuais fala da nossa necessidade de conexão

16 – “Love 3D”, de Gaspar Noé (FRA, 2015)

A sexualização do amor, intangível como só ela, é tateada com fatalismo romântico pelo polêmico Gaspar Noé em um filme que fala à alma de um jeito muito particular

15 – “Divertida Mente”, de Pete Docter (EUA, 2015)

Você se sente exposto, representado e compreendido pelo filme que melhor combina emoção e diversão na temporada

14 – “Foxcatcher – um Crime que Chocou o Mundo”, de Bennett Miller (EUA, 2014)

O patriotismo distorcido de uma América competitiva dá o tom desse filme de muitas camadas e grandes atuações

13 – “O Jogo da Imitação”, de Morten Tyldum (EUA/INGL 2014)

O academicismo de Tyldum realça a boa história de Alan Turing, mas é Benedict Cumberbatch quem faz do filme algo a mais

12 – “À Beira-Mar”, de Angelina Jolie (EUA, 2015)

O inverno do amor é flagrado em toda a sua dor e agonia em um filme que se constrói nos detalhes de uma relação amorosa implodida

À Beira Mar: Quando o amor só exite pelo ódio, o que fazer?

À Beira Mar: Quando o amor só exite pelo ódio, o que fazer?

11 – “Que Horas ela Volta?”, de Anna Muylaert (Brasil, 2015)

Dando nome aos bois dessa coisa de ser mãe é padecer no paraíso e, no ínterim, revelando a dicotomia do Brasil de duas gerações diferentes

10 – “Ponte dos Espiões”, de Steven Spielberg (EUA, 2015)

Thriller de espionagem de alta voltagem rima com filme edificante? Spielberg faz crer que sim

9 – “Mapa para as Estrelas”, de David Cronenberg (EUA/FRA,2014)

Hollywood, esse lugar de gente doida, esquisita e esculhambada por David Cronenberg

8 – “Casa Grande”, de Fellipe Barbosa (Brasil, 2015)

O derretimento da classe média no pós-Lula ganha o cinema com um filme articulado, reflexivo e com muito a dizer

7 – “A Gangue”, de Miroslav Slaboshpitsky (UCR, 2014)

Nosso fôlego se esvai com um dos filmes mais duros e violentos dos últimos anos. O fato de não haver som e todos os diálogos serem na linguagem de sinais torna tudo mais impactante

6 – “Kingsman: Serviço Secreto”, de Matthew Vaughn (EUA 2015)

Nenhum filme foi tão eficiente em simplesmente entreter como este aqui. De quebra, cinismo em alta, cenas de ação estilosas e o melhor vilão do ano

Kingsman: Porque o cinema também é diversão pura e simples

Kingsman: Porque o cinema também é diversão pura e simples

5 – “Corrente do Mal”, de David Robert Mitchell (EUA, 2015)

O terror mais original em anos no cinema conta uma história de amor que vai ganhando gravidade e sentido e torna a resolução ainda mais assustadora

4 – “Beasts of No Nation”, de Cary Fukunaga (EUA, 2015)

O horror irrefreável de uma África esquecida que força suas crianças a se demonizarem para subsistir é um dos filmes paradoxalmente mais lindos do ano. E mais cruéis também!

3- “Whiplash – Em Busca da Perfeição”, de Demien Chazelle (EUA, 2014)

A música e a obsessão compõem um soneto perfeito neste filme pulsante, cheio de energia e que se recusa a deixar o espectador a sós com seus pensamentos

2- “Mad Max: Estrada da Fúria”, de George Miller (EUA, 2015)

A ópera do caos em toda a sua fúria, cor e excelência. Nenhum outro filme cravou-se no imaginário popular quanto esse petardo de estilo de Miller. O cinema de ação se despede outro de 2015

1 – “Birdman – ou a Inesperada Virtude da Ignorância”, de Alejandro González Iñárritu (EUA 2014)

Um pequeno conto sobre vaidade, insegurança e outras coisitas mais com Hollywood como pano de fundo. Imperdível.

Birdman: Porque a eletricidade do registro faz a inteligência da história crescer de tamanho

Birdman: Porque a eletricidade do registro faz a inteligência da história crescer de tamanho

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Críticas, Filmes | 14:38

“O Despertar da Força” incorpora padrão Disney a “Star Wars”

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Sob muitos aspectos “Star Wars: O Despertar da Força” (EUA 2015) é o filme que os fãs da saga criada por George Lucas merecem. É um entretenimento vistoso em sua capacidade de abraçar a nostalgia com beats de outros filmes da série, em especial de “Star Wars: Uma Nova Esperança” (1977), e de reorganizar os arranjos para a expansão da franquia, agora sob o jugo da Disney.

J.J Abrams é um diretor hábil em repaginar sucessos. Não à toa, revitalizou outra franquia sci-fi (“Star Trek”) e era bastante óbvio para quem quer que acompanhe sua carreira que seria exitoso em sua incursão pelo universo de “Star Wars”.

O grande mérito de “O Despertar da Força”, no entanto, está nos novos personagens. Tudo bem que Rey (Daisy Ridley) nada mais é do que a reengenharia de Luke Skywalker (Mark Hamill), mas a personagem tem fôlego e o fato de uma mulher ser a protagonista da nova trilogia estabelece um novo e bem-vindo paradigma para a série e para a ficção científica como um todo.  Passa por aí, também, as figuras de Finn (John Boyega) e Poe Dameron (Oscar Isaac), este último uma reimaginação de Han Solo (Harrison Ford), personagem da trilogia original com mais espaço no novo filme.

Finn é o mais oxigenado dos novos personagens, ainda que seja o vilão Kylo Ren – defendido com a habitual competência por Adam Driver – o mais cativante. O conflito do personagem entre a luz e a escuridão e seu confesso desejo pelo segundo invertem a expectativa natural em relação ao tema. Além do mais, ele precisa lidar com a sombra de Darth  Vader. Intra e extra-diegeticamente.

As relações entre os personagens obedecem toda a estruturação clássica da série, algo que pode ser creditado ao fato de Lawrence Kasdan, que assinou “O Império Contra-ataca” (1980) e “O Retorno de Jedi” (1983), ser o responsável pelo roteiro. Todo o DNA de “Star Wars” está lá. O filme funciona muitíssimo bem para quem é fã e funciona ainda melhor para quem toma contato com este universo pela primeira vez.

Neste primeiro momento, é factível dizer que “Star Wars” se beneficia desse padrão Disney, mas essa leitura tende a se diversificar com a chegada dos novos filmes e, também, com o olhar histórico sobre este filme.

O hype é imenso e com um bom filme nos cinemas é difícil opor-se de alguma forma a “O Despertar da Força”. Mas não estamos diante de um grande filme. Para além da boa vontade generalizada, há escolhas discutíveis – nas frentes narrativa e estética – e pequenas falhas concentradas no roteiro principalmente que não escapam a olhos mais atentos.

De qualquer forma, é um recomeço e tanto para uma franquia que ajudou a definir o conceito de cinema enquanto indústria. Em pleno vapor, a reengenharia de “Star Wars” foca no seguro e mesmo aquelas que parecem escolhas ousadas – e o filme tem sua porção delas – são movimentos bem calculados em uma margem para lá de segura. A Disney sabe o que está fazendo. Antes de ser um filme, “O Despertar da Força” é um grande produto.

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:32

“Beasts of No Nation” flagra horror em sua forma mais pura

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A opção por não batizar o país africano em que se passa “Beasts of No Nation” (EUA 2015) pode parecer fruto de uma hesitação por parte da realização, mas é, na verdade, um dos muitos acertos desse filme de alto impacto, potência e beleza.

Cary Fukunaga, que além da direção brilhante, assina o roteiro deste que é o primeiro filme distribuído pelo Netflix, observa com olhar desapaixonado a virulência com que se prolifera a violência nos recônditos africanos em constante guerra civil.

A trajetória do menino Agu (o soberbo Abraham Attah), vítima de mais uma entre as incontáveis tragédias familiares que acontecem diariamente em países imersos em conflitos militares e aliciado por um grupo paramilitar, é narrada de maneira crua, concreta e apavorante. Fukunaga, porém, recorre à abstração de Agu para pintar com mais propriedade esse aterrador quadro em que “a única maneira de parar de lutar é morrer”, como teoriza o jovem de alma velha que tanto nos impressiona em “Beasts of No Nation”.

A figura do comandante, que se fia como pai e predador dos muitos órfãos que alicia pelos vastos campos africanos em que combate, é tangenciada por Idris Elba com o horror, afetação e carisma que o registro de Fukunaga demanda.

É, portanto, nas entrelinhas desse conto tão macabro quanto honesto, que o verdadeiro horror se revela. Ninguém se importa com o que acontece nesses países inominados da África. Nessas republiquetas de aluguel que municiam rebeldes e fabricam pequenos demônios. O joguete político é apenas uma manifestação da exploração constante de uma inocência perdida para sempre.

“Beasts of No Nation” se politiza, portanto, ao não politizar. Ao não esfregar na cara a complacência do Ocidente e de seus fóruns estabelecidos (ONU, para citar o exemplo mais óbvio) para com o quadro pérfido que se testemunha em uma África mais selvagem do que aquela mostrada em documentários do Animal Planet, o filme escancara o abandono que a região e seus habitantes enfrentam. O comandante, também ele, é fruto de suas circunstâncias.

Trata-se de um grande filme. “Beasts of No Nation” não é, de maneira alguma, algo remotamente identificável como entretenimento. É um grito surdo na arte que se propõe problematizante de nossa contemporaneidade. E filmado com todo o rigor que um artista seguro de suas convicções pode oferecer. Do ponto de vista intelectual ao plástico, “Beasts of No Nation” é lindo de se ver. Ao realçar o horror com essa beleza oca, plasmada, ruidosa, Fukunaga faz mais do que um filme importante. Faz um testamento de que a arte alcança até mesmo onde recusamos posar nossos olhos.

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