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domingo, 20 de setembro de 2015 Filmes, Notícias | 20:19

Festival de Toronto realinha corrida pelo Oscar e destaca filme nordestino “Boi Neon”

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Foto: divulgação

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O drama “Room”, sobre uma mãe que cria seu filho em um cativeiro, venceu o principal prêmio do Festival Internacional de Cinema de Toronto, encerrado neste domingo. O prêmio da audiência consagrou o filme independente estrelado por Brie Larson (“Anjos da lei”) e dirigido por Lenny Abrahamson. O segundo lugar ficou com “Spotlight”, que tem Michael Keaton e Mark Ruffalo à frente de grande elenco em drama jornalístico sobre o acobertamento de escândalos sexuais pela igreja católica em Boston (EUA).

O prêmio da audiência em Toronto costuma gerar muito buzz para o filme agraciado na temporada de premiações que terá sua largada oficial dentro de pouco mais de dois meses. Nos últimos anos, filmes como “O jogo da imitação”, “O lado bom da vida”, “12 anos de escravidão” e “O discurso do rei” triunfaram em Toronto e garantiram nomeações ao Oscar, entre outras categorias, de melhor filme. A se ponderar para a temporada 2015/2016, no entanto,  o fato de que nenhum dos filmes que triunfaram em Toronto era tão indie. De qualquer modo, parece seguro apontar Larson e seu companheiro de cena, o ator mirim Jacob Tremblay – de apenas 8 anos, como nomes respeitáveis na corrida pelo Oscar.  Pelo Twitter,  Brie Larson  vibrou com a notícia da vitória do filme em Toronto. “Pulando de alegria e me debulhando em lágrimas na minha cozinha. Obrigado Toronto, obrigado time Room”. Confira o trailer de “Room” mais abaixo.

O consenso geral em Toronto, mais do que a ascensão de grandes filmes, foi a percepção de que este é um ano muito bom para atuações. Várias despontaram com força no festival. Entre os homens, Johnny Depp (“Aliança do crime”), Eddie Redmayne (“A garota dinamarquesa”) e Tom Hiddleston (“I saw the light”) parecem os que mais se beneficiaram. Entre as mulheres, Cate Blanchett vem com força dupla com “Truth”, outro drama com fundo jornalístico, e o já notório “Carol”, sobre uma avassaladora paixão homossexual.  Emily Blunt (“Sicario”) e Charlotte Rampling (“45 years”), Sandra Bullock (“Our brand is crisis”) também geraram forte buzz.

Na mostra plataforma, uma novidade da edição de 2015, o premiado foi o documentário canadense “Hurt”, mas o brasileiro “Boi neon”, que já havia causado sensação em Veneza , tendo inclusive sendo premiado, recebeu menção honrosa do júri composto pelos cineastas Claire Denis, Jia Zhang-Ke e Agnieszka Holland.

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sábado, 19 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 19:38

Quem canta os males espanta no delicado “Ricki and the flash”

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Filmes sobre conflitos familiares pipocam em Hollywood, mas “Ricki and The flash – de volta pra casa” (EUA 2015) tem um molho especial. Além de ser regado à melhor música dos anos 70 e 80, a produção reúne Meryl Streep, o diretor Jonathan Demme e a roteirista Diablo Cody. Como bônus, promove o reencontro da atriz com Kevin Kline, seu parceiro no atemporal e inesquecível “A escolha de Sofia” (1982) e o encontro da atriz com sua filha Mamie Gummer nas telas.

Meryl Streep vive a Ricki do título, que na verdade se chama Linda, uma mulher que abandonou marido e filhos para perseguir o sonho de ser uma rock star. Não deu certo. Quando o filme começa, com uma apresentação da banda Ricki and the flash, porém, a energia daquela sexagenária no palco nos faz crer outra coisa e passa por aí parte do êxito de “Ricki and the flash” enquanto experiência cinematográfica. De uma delicadeza tangível, o filme de Demme transborda energia e sensibilidade. Onde as palavras parecem não dar conta, uma cena de música surge para preencher todo o sentido possível.

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Ricki tem sua rotina – que ela tenta colorir com um ‘peguete’ da banda e um bartender gay que a idolatra como sua Madonna particular – interrompida com a ligação do ex-marido (Kline) a convocando para ajudar na recuperação de sua filha (Gummer), atravessando uma crise depressiva após ser abandonada pelo marido. Naturalmente esse reencontro, não só de Ricki com sua filha – e seus outros filhos, mas com seu passado e com sua vida pregressa irá promover choques e atritos. Ainda que o roteiro de Cody perpasse por esses choques com alguma pressa, não dá para dizer que o filme suprima a tensão dramática para facilitar a redenção familiar. A música, afinal, está ali para purgar todo esse carma.

Demme é um narrador fugaz e conta com uma atriz poderosa em cena. Streep já não entregava uma atuação tão condoída, tão envolvente desde “Álbum de família” (2013). Não era tão cativante desde “Simplesmente complicado” (2009).

O elenco de apoio não decepciona. Rick Springfield, um roqueiro decadente que abraçou atuar como um roqueiro decadente no cinema agrega ainda mais singeleza a “Ricki and the flash” como o inesperado ponto de equilíbrio de Ricki. Com pouco tempo em cena, Kevin Kline fundamenta bem seu personagem, um tipo que parece ter enrijecido ainda mais após Ricki ter partido de sua vida.

Ademais, como não poderia deixar de ser em um texto assinado por Diablo Cody, o filme resvala no feminismo, mas com doçura e generosidade. É uma cena bonita e que antecipa o momento mais apoteótico e emocional da fita ao som de “Drift away”, de Dobie Gray.

Com personagens iluminados e uma atmosfera inebriante, “Ricki and the Flash” se revela um dos filmes mais agradáveis e saborosos do ano. Não é pouca coisa.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:52

Filme de ator, “Nocaute” combina emoção e testosterona para cativar

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Filmes sobre esportes em geral, e boxe em particular, obedecem a certa estrutura narrativa que afasta alguns espectadores enquanto cativa outros. “Nocaute” (EUA, 2015) abraça este lugar-comum com todas suas forças e Jake Gyllenhaal.  É isso mesmo. “Nocaute” é um filme de ator. Antoine Fuqua dirige de maneira a ceder todo espaço do mundo para seu ator brilhar e Gyllenhaal não faz por menos. No filme, ele vive Billy Hope, um órfão que ascendeu do “sistema” para o topo da categoria dos meio-pesados no boxe. O roteiro de Kurt Sutter faz um bom desenho do personagem. Como todo menino pobre e abandonado, Hope tem problemas de raiva e controle (em qualquer esfera de sua vida) e é sua esposa Maureen (Rachel McAdams) quem lhe provê equilíbrio e norte. O mais interessante é que essa fissura pisológica se reflete no jeito de Hope lutar. Ele só consegue bater apanhando e só vence suas lutas depois de ser duramente golpeado pelos adversários. Ainda assim, mantém um cartel invicto.

Tudo muda de figura quando Maureen é vítima de uma tragédia adornada por esse emocional convulsionado de Hope, morre, e o lutador cai em desgraça.

Os três atos do filme são muito bem estabelecidos por Fuqua. Quando conhecemos Hope ele está no auge, pai de uma menina amorosa, marido de uma mulher atenciosa e devotada, milionário e admirado por multidões. Mas a “bolha Hope”, como Maureen se refere a este momento, estoura e e o segundo ato exibe toda a implosão do personagem e aí Gyllenhaal recebe carta branca de Fuqua para comandar o show. Depois de ter a guarda de sua filha retirada, de tentar se matar reiteradamente e atingir o fundo do poço, não resta nada para Hope além de começar a escalada para cima novamente. Surge então Forest Whitaker como o treinador do único cara que Hope sente que o venceu. Hope o procura para treiná-lo. Whitaker faz um tipo sábio que parece mais preocupado em treinar a mente do que o corpo do novo pupilo. Chega o terceiro ato e a esperada redenção. E embora saibamos exatamente o desenrolar que vai se suceder, é impossível resistir à emoção.

Um dos méritos de “Nocaute” é trabalhar os clichês de forma muito natural, sem deixar-se conduzir por eles. Nesse sentido, Gyllenhaal é vital. É o ator, com suas variações entre a contenção e a explosão, em uma atuação tão física como intuitiva, quem garante que os conflitos de seu personagem prevaleçam à obviedade da narrativa.

Por isso “Nocaute” é um filme melhor do que talvez fosse se protagonizado pelo rapper Eminem, como estava inicialmente previsto.

Se Fuqua não filma as lutas de boxe com a inventividade que David O. Russell consagrou em “O vencedor” (2010), agrega à testosterona muito coração.  No fim das contas, é assim que se ganha lutas no cinema.

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quarta-feira, 16 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 19:36

Politicamente incorreto, “Férias frustradas” é rara refilmagem que faz par ao original

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Um dos clássicos da comédia oitentista, “Férias frustradas”, é o novo alvo da onda de remakes e reboots que assola a Hollywood atual. Mas a fita dos diretores debutantes John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein (roteiristas de produções como “Quero matar meu chefe” e “O incrível mágico Burt Wonderstone”) não é uma refilmagem convencional. O filme é um misto de sequência e adaptação do filme protagonizado pelo impagável Chevy Chase. Aqui Ed Helms é Rusty Griswold que na esperança de reanimar o convívio familiar decide fazer a viagem ao Wally World, a mesma pretendida por seu pai no filme original.

Como é possível antecipar, tudo sai errado para Rusty e sua família composta pela esposa Debbie (a sempre ótima Christina Applegate) e pelos filhos James (Skyler Gisondo, hilário) e Kevin (Steele Stebins).

Skyler Gisondo, um inesperado roubador de cenas, ao lado de Ed Helms (Foto: divulgação)

Skyler Gisondo, um inesperado roubador de cenas, ao lado de Ed Helms
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Além da acertada escalação do elenco, o filme têm como bônus participações especiais inspiradas como as de Charlie Day, como um guia turístico bipolar, do próprio Chevy Chase, Regina Hall, Norman Reedus (o Daryl de “The walking dead), Ron Livingston, Leslie Mann e especialmente Chris Hemsworth, o Thor em pessoa, como um republicano altamente sexualizado casado com a irmã de Rusty.

A grande sacada da realização, no entanto, foi deixar o politicamente correto de fora, o que reforça o potencial cômico do filme e lhe acresce certo frescor em uma seara em que a comédia americana parece tão pudica. O que funciona melhor, e até certo ponto surpreende, é a dinâmica de bullying entre os filhos de Rusty. São as cenas de rivalidade entre os dois irmãos, bem originais e incorretas, que proporcionam as melhores gargalhadas que a comédia americana ofertou em 2015 nos cinemas. Sem se levar a sério, mas reverente à fórmula de filme familiar, “Férias frustradas” (EUA, 2015) consegue corresponder ao legado do filme original e adentrar à galeria das boas (e bem-vindas) refilmagens.

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terça-feira, 15 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 19:04

Gaspar Noé tenta capturar complexidade do amor por meio do sexo em “Love”

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Love - 2

Gaspar Noé é um polemista insaciável. Mas talentoso. Para o bem e para o mal, “Love” (França, 2015) é um reflexo de seu autor. O filme que está sendo vendido como “o mais polêmico do ano”, afasta qualquer polêmica se tirarmos a nudez e o sexo explícito da equação.

A proposta de Noé é fazer um filme sobre o amor a partir da perspectiva sexual. Mostrar o sexo, portanto, passa a ser uma necessidade narrativa. Necessidade muito bem justificada pelo cineasta conforme suas ideias ganham corpo no transcorrer da obra.

Murphy (Karl Glusman) está insatisfeito com sua vida. Entre seus grandes arrependimentos está como deixou as coisas com Electra (Aomi Muyock). Murphy vive com Omi (Klara Kristin), a quem conheceu e engravidou enquanto ainda estava com Electra. Na manhã de ano novo, época em que estamos todos propensos a reavaliações de nossas vidas, Murphy recebe um telefonema da mãe de Electra, preocupada com a filha a quem não consegue contatar há dois meses. A ligação mexe com Murphy que mergulha em certa catatonia e põe-se a rememorar a relação com Electra.

“Love” então estabelece uma narrativa não linear, totalmente influenciada pela perspectiva masculina, heteronormativa e fatalista de Murphy. Noé incumbe-se de desalinhar uma história de amor repleta de clichês como em todo filme hollywoodiano, mas esses clichês são abordados com um realismo desencantado em que o sexo surge como expressão dos sentimentos dos personagens. Trata-se de um uso do sexo como ferramenta narrativa inédito no cinema.  A explicitude dos atos sexuais, muito bem filmadas por Noé, não é propositalmente erotizada. Aliás, em momento algum Noé busca o erotismo gráfico, aquele pretendido por closes de genitais e captura de gemidos histéricos em filmes pornográficos. Os corpos aqui são filmados em sua beleza trivial e trivialmente apresentados à audiência.

O que não impede que o sexo seja filmado e ambientado de maneiras diferentes ao longo da produção, reforçando a expressividade narrativa pretendida pela realização. Quando Electra e Murphy levam a vizinha menor de idade Omi para a cama. É quando Noé se permite mais erotizar uma cena de sexo. É, também, a cena mais demorada de sexo do filme. Da música à câmera ciosa dos corpos que se contorcem em tesão incontido, Noé registra aquele momento de comunhão de um casal em plena realização de uma fantasia em comum. É a partir deste momento que a memória de Murphy passa a projetar mais linearmente a desestruturação de sua relação com Electra.

Há cenas exageradamente planejadas em "Love", mas impulsos toleráveis de um realizador habituado a causar certo desconforto (Fotos: divulgação)

Há cenas exageradamente planejadas em “Love”, mas são impulsos toleráveis de um realizador habituado a causar certo desconforto
(Fotos: divulgação)

Apesar da retidão temática, Noé cede a seus impulsos de vaidade. Se autoreferencia no filme em dois personagens e “explica” a razão de ser de “Love” em diálogos soltos. Em um dado momento, Murphy, que estuda cinema, diz que fará um filme regado a “sangue, esperma e lágrimas” porque “esta é a essência da vida”. Em outro momento, o mesmo Murphy, assumindo-se como alter ego do cineasta, diz que deseja fazer um filme sobre a sexualidade sentimental.

Fruto de vaidade ou insegurança, “Love” não carecia dessas elaborações interdiegéticas para se validar. A experiência estética proposta por Noé transmuta completamente o sentido do filme. Não mostrasse o sexo entre os personagens, “Love” não adentraria a derme da audiência com sua inquietação, com seu fatalismo. Talvez fosse possível psicologizar Murphy, mais reprimido sexualmente do que Electra e menos ponderado também, mas não se atingiria a verve do que “Love” pretende ser. Um olhar dolorosamente romantizado sobre como é amar. Atentando à complexidade do sentimento em todas as suas sabotagens, fases, desejos, convenções, ilações e experimentações.

Polêmico por ofertar sexo explícito e, decepcionante para alguns por não apresentar nada de novo, “Love” é um triunfo da estética a serviço de um norte narrativo. Noé fez sua versão de “Romeu e Julieta” com muito mais sapiência do que a nudez constante em seu filme permite aos apressados enxergar. É um filme que vai crescer com o tempo e, como grandes amores, adquirir novo significado.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2015 Filmes, Notícias | 20:52

Filme de Stephen Frears sobre doping de Lance Armstrong ganha trailer

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Stephen Frears é daqueles cineastas que gostam de botar o dedo na ferida. Não exatamente para polemizar, mas para refletir sobre nossa condição humana. Destacam-se nessa corrente em sua filmografia “Philomena” (2013), que observa como a igreja católica separava mães de seus filhos sob o pretexto de ajudar o próximo, “A rainha” (2006), que remonta a tragédia íntima e no coração da monarquia inglesa com a morte da princesa Diana, e “Coisas belas e sujas” (2002), sobre a questão da imigração na Europa. “The program”, seu novo filme em premiere no festival internacional de cinema de Toronto, narra um dos episódios mais marcantes da crônica esportiva recente. O caso de doping do ciclista Lance Armstrong.

A história escrita por John Hodge (“Trainspotting – Sem Limites”) a partir do livro Seven Deadly Sins: My Pursuit Of Lance Armstrong, de David Walsh, mostra a trajetória de um jornalista imbuído de provar que o atleta usou substâncias proibidas para melhorar seu desempenho e conquistar sete títulos consecutivos na competição Tour de France. O filme, porém, a julgar pelo trailer, confronta as perspectivas do jornalista com as do próprio Armstrong. “The program” promete ser um dos filmes mais quentes de uma promissora temporada de premiações.

O filme tem o ótimo Ben Foster na pele de Lance Armstrong e um elenco de apoio poderoso com figuras como Dustin Hoffman, Lee PaceChris O’Dowd e Guillaume Canet. Ainda não há previsão de estreia confirmada para a fita no Brasil, mas é razoável supor que chegue aos nossos cinemas nos primeiros meses de 2016.

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Críticas, Filmes | 17:34

Guy Ritchie repete suas fórmulas no divertido e charmoso “O agente da U.N.C.L.E”

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Guy Ritchie não é um dos cineastas britânicos mais importantes da história, mas certamente é um dos mais reconhecíveis. Algo substancialmente prodigioso no cinema moderno em que uma assinatura raramente se insere no cinema mainstream. Em sua nova incursão hollywoodiana, Ritchie atualiza um clássico sessentista da TV para o cinema, projeto que naturalmente guarda sua cota de similaridades com “Sherlock Holmes”, personagem que o cineasta também atualizou no cinema.

Atualizar não necessariamente corresponde a trazer para os dias atuais. “O agente da U.N.C.L.E” se passa na mesma década de 60 em que União Soviética e EUA estão apartados pela guerra fria. A atualização aqui preconiza um visual caprichado, figurinos robustos, direção de arte imaginativa, trilha sonora esperta e o humor inglês em sua melhor forma para ianque ver. Essa combinação é marca registrada de Ritchie e continua a funcionar perfeitamente na tela grande.

Henry Cavill é Napoleon Solo, um meliante que descobriu sua vocação na espionagem a serviço dos EUA. Ele é incumbido pela CIA de juntar forças a Illya Kuriakin (Armie Hammer), um tenaz operativo da KGB, para recuperar um cientista que colaborou com os nazistas e que está sob poder de uma organização secreta de afinidade fascista. As circunstâncias promovem a inesperada união e favorecem um humor que se alterna entre o sofisticado e o físico.

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Ritchie investe no charme sem descuidar do requinte das cenas de ação, todas bem coreografadas e ritmadas, mas não consegue evitar que seu filme caia em certa previsibilidade. A personagem de Alicia Vikander, por exemplo, é muito mais transparente para o público experimentado em filmes de espionagem do que prevê o roteiro de Ritchie – também assinado Jeff Kleeman. Para efeito de comparação, o mais recente “Missão impossível” tem uma personagem feminina com os mesmos moldes, mas muito melhor desenvolvida. Ainda assim, Vikander e Elizabeth Debicki, que faz a vilã, respondem pelos melhores momentos do filme. Além de sobejarem estilo e elegância na tela.

Se não é especialmente notável, “O agente da U.N.C.L.E” se revela como um dos filmes mais divertidos e charmosos da temporada. De vez em quando é bom topar com um filme desses e Guy Ritchie é aposta certeira nesta área.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2015 Análises, Filmes | 21:22

“Que horas ela volta?” é escolha estratégica do Brasil para chegar ao Oscar

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Não se espantem se virem Regina Casé seguindo os passos de Fernanda Montenegro e sendo indicada ao Oscar de melhor atriz no dia 14 de janeiro de 2016. A apresentadora e atriz, afinal, é a alma de “Que horas ela volta?”, filme brasileiro destacado pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil no Oscar. O anúncio, feito nesta quinta-feira (10), indubitavelmente reforça as chances de Casé, uma vez que o filme já recebe atenção da mídia especializada americana e deve receber um boom promocional nos próximos meses.

Crítica: “Que horas ela volta?” congrega muitos Brasis e filmes em narrativa sutil e cheia de belezas 

A obra de Anna Muylaert é, sob muitos aspectos, o filme mais bem preparado do Brasil a concorrer a uma vaga entre as produções finalistas na categoria de filme estrangeiro em muitos anos. Cheio de sutilezas, não é mais um registro cultural do que um olhar tenro à maternidade. O roteiro é um triunfo da lapidação. Em entrevista à rádio BandNews FM nesta quinta, Muylaert destacou a burilamento pelo qual o texto passou. “Esse projeto tem 27 anos. A primeira versão dele trazia apenas a visão da empregada. Até seis meses antes, a Jéssica não vinha estudar na faculdade, mas trabalhar como cabeleireira e depois se tornava babá. Acabei mudando com os laboratórios que eu fiz”, revelou.

Regina Casé no Oscar? Filme e atriz têm chances sérias de chegarem lá  (Foto: divulgação)

Regina Casé no Oscar? Filme e atriz têm chances sérias de chegarem lá
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Diferentemente de candidatos brasileiros de outros anos, “Que horas ela volta?”, reúne potencial comercial – é coproduzido pela Globo Filmes e estrelado pela popular Regina Casé, com pujança artística. Uma combinação que somente esteve presente em “Cidade de Deus” (2002). O candidato do ano passado, “Hoje eu quero voltar sozinho”, era muito bom e a exemplo do escolhido deste ano, experimentado em festivais internacionais. Com mais filmes brasileiros em festivais mundo afora, aclamação crítica nesses eventos pode ser um critério bem-vindo para substituir aquele intermitente e duvidoso jogo de adivinhação do que a academia gosta ou de que tendência seguir.

Competição

Muitos países já definiram seus representantes e tem candidatos que, assim como “Que horas ela volta?”, gozam de prestígio junto à crítica internacional. São os casos de “Son of Saul”, da Hungria, prêmio do júri em Cannes, “The assassin” (Taiwan), “Um pombo pousou no galho refletindo sobre a existência” (Suécia), “Xênia” (Grécia), “Goodnight Mommy” (Áustria), entre outros. Não há, porém, a presença de nenhum autor consagrado entre os concorrentes confirmados de momento. O que reforça as chances da produção brasileira repetir o feito de “Central do Brasil” (1998), “O que é isso companheiro?” (1997), “O quatrilho” (1994) e “O pagador de promessas” (1963) e ingressar no rol de filmes brasileiros indicados ao Oscar de melhor produção estrangeira.

Não é a primeira vez que Regina Casé estrela uma produção nacional que tenta chegar ao Oscar. “Eu, tu, eles”, de Andrucha Waddington, foi o selecionado do país em 2001. Dessa vez, porém, a atuação extraordinária de Casé, premiada no festival de Sundance, pode impulsionar o filme além da categoria de produções estrangeiras em uma época de internacionalização do colegiado que compõem a academia. Neste ano, vale lembrar, que embora a produção belga “Dois dias, uma noite” não tenha ficado entre os finalistas da categoria, a atriz Marion Cotillard foi lembrada entre as atrizes.

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quarta-feira, 9 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:45

“Que horas ela volta?” congrega muitos Brasis e filmes em narrativa sutil e cheia de belezas

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O Brasil do pós-Lula entrou na mira do cinema nacional em 2015. Se “Casa Grande” de Fellipe Barbosa abordava o derretimento da classe média e as tensões sociais inerentes a essa decorrência, Anna Muylaert (“É proibido fumar”) muda o foco da análise. A perspectiva sai da sala e se instala na cozinha. Em seu primeiro ato, “Que horas ela volta?” mostra a dinâmica da relação entre Val (Regina Casé) e seus patrões pelo ponto de vista da empregada/babá. No segundo ato, o filme evolui para esse pós-Lula em que fachadas e limites ruem em face do maior acesso à educação. Não obstante, o filme sofre outra transformação no terceiro ato – sem perder de vista todas essas ramificações – e se resolve como um tenro e absoluto estudo sobre a maternidade.

Leia também: “Casa Grande” pensa o Brasil a partir do derretimento da classe média 

“Que horas ela volta?”, porém, possui sutilezas poderosas que o dignificam para além da aprovação crítica. O próprio título do filme busca na relação de mães postiças com filhos que não são seus uma rima com a saudade de filhos afastados de suas mães verdadeiras.

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Val é uma pernambucana que já mora na casa dos patrões em São Paulo há tanto tempo que já faz parte da família. No contexto em que uma empregada doméstica pode fazer parte de uma família de classe média. Não que Carlão (Lourenço Mutarelli) e Barbara (Karine Telles) não gostem de Val e a tratem bem, mas Muylaert é muito hábil em tatear as pequenas fissuras diárias de uma relação construída por subtendidos, inferências, culpa e resignação.

A chegada da filha de Val, Jéssica (a fantástica Camila Márdila), desestabiliza essa relação. Jéssica vai prestar vestibular para arquitetura e parece mais preparada para o desafio do que Fabinho (Michel Joelsas), o filho que não é de Val, mas ela criou. Esse é apenas um dos pontos de choque que a chegada da menina proporciona à rotina de Val e seus patrões. Jessica também mexe com os hormônios da casa. Se Barbara não engole o abuso da menina de se colocar como hóspede da família, Carlão e Fabinho parecem flertar com a menina como diligência de classe. É aí que as tensões sociais reclamam o protagonismo no filme de Muylaert, mas o primoroso roteiro reserva uma guinada tão inesperada quanto poética mais à frente.

Ao se ressignificar como um filme sobre a complexidade da maternidade, “Que horas ela volta?” adquire mais relevo como cinema sem perder a pujança enquanto radiografia social.

O desfecho do filme é das coisas mais belas e cativantes que o cinema ofertou em muito tempo.  Regina Casé, um colosso em cena, contribui definitivamente para a consagração artística que é este filme. Combinando minimalismo dramático com seu referendado timing cômico, seu rigor cênico surpreende não pela atriz que ocupa a memória de muitos, mas pela atriz soberba e cheia de recursos que ela revela em um registro ponderado entre a emoção e o cálculo. Um trabalho tão detalhado quanto o filme que defende.

Muitas vezes, a audiência se sente na urgência de apertar um plástico-bolha – como a personagem de Casé faz em dado momento do filme. Essa sensação é um mérito da direção inteligente de Muylaert e do desempenho acima do bem e do mal de Casé. Uma parceria que dá ao cinema brasileiro o seu momento mais eloquente em 2015.

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sexta-feira, 4 de setembro de 2015 Filmes, Notícias | 21:49

Longa brasileiro “Boi Neon” busca contradição do corpo e causa boa impressão em Veneza

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Um filme sobre um vaqueiro que desenha vestidos e sonha em ser estilista e sobre uma caminhoneira que faz striptease à noite tomou o festival de Veneza de assalto logo no início dos trabalhos.  A obra do jovem cineasta Gabriel Mascaro, dos impactantes “Domésticas” (2012) e “Ventos de agosto” (2014) faz parte da programação da mostra paralela Horizontes.

“O meu longa tenta revisar a compreensão política e simbólica das relações humanas no Nordeste, explorando tramas e cores que testemunham as contradições da sociedade e dilatando as noções de identidade e gênero que afrontam os personagens em uma escala diferente de valores e aspirações”, observou o cineasta na coletiva do filme no lido.

“A exploração fascinante do corpo e de normas de gênero se impõem ao desenvolvimento narrativo”, anotou a crítica do The Hollywood Reporter que cravou Mascaro como um “talento a se observar”. Já a Variety observa que o “filme exala harmonia” e sublinha a forte conotação sexual de um filme “mais interessado em um aprofundado subtexto político do que em qualquer desenvolvimento narrativo convencional”. “O filme chama atenção para velhas tradições que estão sendo abandonadas, assim como certas ideias de masculinidade”, anotou a crítica do Guardian.

“Boi Neon” mostra o mundo de Iremar (Juliano Cazarré), um homem encarregado de cuidar dos touros da vaquejada, mas que sonha em ser estilista feminino; de Galega (Maeve Jinkings), motorista de caminhão que transporta os animais de uma arena à outra e que de noite faz striptease; de Cacá (Alyne Santana), a filha pré-adolescente de Galega; e de Zé (Carlos Pessoa), colega de trabalho de Iremar.

As relações entre os personagens não são nunca muito bem explicadas pelo diretor, que os apresenta como uma metáfora de uma sociedade em processo de mudanças constantes que não se solidificam. Essa ambiguidade é bem mostrada por Mascaro, que descreve o dia a dia desses microcosmos como um etimólogo examina a vida de uma colmeia ou de um formigueiro.

Graças aos seus inúmeros trabalhos como artista plástico, o pernambucano retrata o mundo das vaquejadas como se fosse uma obra de arte em constante movimento. “Um dos meus propósitos ao realizar este filme é eliminar o lugar comum de que o Nordeste brasileiro está povoado apenas de gente inculta e violenta e transformá-lo em um ambiente sacro, exótico e misterioso”, declarou Mascaro.

*Com informações da Agência Ansa

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