Publicidade

Arquivo da Categoria Filmes

quarta-feira, 8 de julho de 2015 Análises, Bastidores, Filmes | 21:04

A TV assume o protagonismo do cinema, mas é possível reverter a tendência

Compartilhe: Twitter

Que a TV está roubando o espaço do cinema, se o leitor não sabe, certamente já ouviu dizer.

Mas o premiado dramaturgo e roteirista inglês David Hare, responsável pelas adaptações de “As horas” e “O leitor”, ambas dirigidas pelo também britânico Stephen Daldry, pôs pimenta na discussão ao alterar a perspectiva do debate.

O dramaturgo e roteirista David Hare (Foto: divulgação)

O dramaturgo e roteirista David Hare
(Foto: divulgação)

Hare, um dos destaques da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada no último final de semana no Rio de Janeiro, disse em entrevista coletiva que Hollywood “ainda resiste a dar protagonismo para os roteiristas” e que, em sua avaliação, o sucesso cada vez mais inebriante da televisão reside no fato de que a TV “deu espaço para os escritores”. Hare observou, também, que os autores “estão tomando o poder” nas telas, mas afirmou que o teatro jamais conseguirá a “velocidade narrativa” de produções como “Mad Men” e “House of Cards”, que conquistam milhões de espectadores.

O dramaturgo, que ostenta o título de “sir”, elegeu a TV atual como uma expressão de arte muito mais estimulante até mesmo do que a literatura e louvou a iniciativa da Flip de abrir espaço para o debate de outras artes, como teatro, cinema e, agora, TV.

Hare propõe uma subversão no olhar dispensado ao cinema e à TV atuais. E se o sucesso da TV estivesse diretamente relacionado à crise criativa dos estúdios? E se todo o modelo vigente, calcado na teoria do autor ¹ fosse responsável por essa letargia a assolar Hollywood?

“Os diretores de Hollywood não aceitam que os escritores estejam no comando”, observou.  No início de 2008, a indústria do audiovisual americana paralisou por completo quando uma greve de roteiristas sem precedentes tomou forma. As negociações se apressaram para garantir a realização da cerimônia do Oscar daquele ano. A greve, de alguma maneira, culminou com a novíssima e elogiada safra de séries da TV americana. A figura do showrunner, um roteirista que detém o controle criativo sobre uma série de TV ganhou propulsão e nomes como Vince Gilligan (“Breaking bad”) e Beau Willimon (“House of cards”) gozam de prestígio outrora somente dispensados a artesãos da sétima arte como Martin Scorsese e Stanley Kubrick.

Essa recém-estabelecida equivalência entre TV e cinema tem levado muita gente do cinema a buscar uma reinvenção na TV. De nomes como Ryan Phillippe (“Secrets and lies”) e M. Night Shyamalan (“Waynard pines”) a Dustin Hoffman, que não conseguiu emplacar o drama “Luck”, que misturava esporte e máfia, na HBO. Hoffman, aliás, declarou recentemente em entrevista ao jornal britânico The independent que “a TV vive sua melhor fase enquanto que o cinema é o pior em 50 anos. Hoje em dia tudo se resume ao fato de seu filme fazer dinheiro ou não”.

Dustin Hoffman: "É o pior cinema em 50 anos" (Foto: divulgação)

Dustin Hoffman: “É o pior cinema em 50 anos”
(Foto: divulgação)

Cena de "Homem-Formiga", que estreia na próxima semana e fecha a chamada fase 2 da Marvel no cinema: A concepção narrativa das HQs levada para a tela grande

Cena de “Homem-Formiga”, que estreia na próxima semana e fecha a chamada fase 2 da Marvel no cinema: A concepção narrativa das HQs levada para a tela grande

 

Não há nada de errado ou superado na teoria do autor.  O dito cinema de arte muito se beneficia dela, mas ao olhar o sucesso da Marvel com o seu universo coeso e interligado é fácil identificar no produtor Kevin Feige uma espécie de showrunner e aceitar com maior naturalidade a proposição de Hare. Resta saber se Hollywood está disposta a ouvir.

¹ teoria cunhada em plena ascensão da Nouvelle Vague que preconiza um cinema de estilo, estética  e tema reconhecíveis em um diretor, mesmo este subordinado ao esquema de estúdio.  Para esta teoria, encampada também pela crítica de cinema, um filme carrega a assinatura do diretor, ainda que seja um trabalho coletivo.

Autor: Tags: , , , ,

quarta-feira, 1 de julho de 2015 Críticas, Filmes | 17:51

Premiado filme sueco expõe banalidade da vida por meio de experiência tediosa

Compartilhe: Twitter

Antes de ser um cineasta, Roy Anderson é um pensador arguto. Um questionador da condição humana. Seu cinema, portanto, se resolve em uma constante investigação filosófica da humanidade. “Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência” (Suécia, 2014) é o desfecho de uma trilogia informal composta ainda por “Canções do segundo andar” (2000) e “Vocês, os vivos” (2007) que tem como objetivo refletir sobre o que é ser um humano.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, “Um pombo…” começa ofertando três encontros com a morte, ressaltando a banalidade de todos eles. Depois, Anderson enfileira uma série de esquetes  sem qualquer relação entre si, que por vezes forçam o riso proveniente do incômodo. Há apenas uma dupla de “vendedores do entretenimento” que experimentam repetidamente o fracasso.  A função deles na narrativa, aparentemente desconectada, é justamente enfatizar essa ideia de repetição. Da rotina que nos conduz a nenhuma satisfação efetiva. Assertiva.

Anderson alterna cenas de absoluto surrealismo, como quando um rei do século XIX, Gustavo IV Adolfo,  adentra um bar dos dias atuais, com outras rifadas de cenas cotidianas, como a de uma mãe mimando seu recém-nascido.

Um casal enamorado na praia, um homem com dificuldades de encontrar quem procura, um cigarro pós-sexo compartilhado por um casal à janela, uma professora de flamenco rejeitada pelo aluno e por aí vai. Anderson emoldura a banalidade da existência, dos arranjos sociais, dos sistemas econômicos com cenas a esmo. Todas filmadas em um único enquadramento, com câmera estática à média distância. Os personagens parecem ‘zumbificados’. Seja pela postura, pela maquiagem de um ou outro, mas fundamentalmente pelos figurinos e cenários com preponderância de cores mortas.

A técnica de Anderson pode ser bem intencionada, mas seu filme cansa. Ele não apresenta nenhuma tese realmente nova e confia ao espectador a missão de prospectar o sentido oculto nas cenas que põe na tela. Feito isso, o espectador pode até apreciar a reflexão ensejada, mas tudo seria muito mais produtivo se a reflexão fosse projetada por um filme que agradasse. E esse é o melhor cenário. O mais provável é que pouco depois de 30 minutos de filme, “Um pombo…” se torne desinteressante para o espectador. Trata-se de um filme inteligente, bem intencionado e cheio de rigor filosófico. Mas essencialmente trata-se de um filme ruim. Cansativo. Tedioso. O conflito é externo a ele; e, a bem da verdade, Andeson não excede o senso comum de quem se interessa por reflexões sobre a vida e o meio.  No final das contas, o inferno está cheio de boas intenções.

Autor: Tags: , ,

terça-feira, 30 de junho de 2015 Filmes, Notícias | 22:34

“Creed”, filme derivado de “Rocky”, tem primeiro trailer divulgado

Compartilhe: Twitter
Foto: divulgação

Foto: divulgação

“Um grande lutador disse certa vez que não importa o quanto você bate, mas sim o quanto aguenta apanhar e continuar. O quanto pode suportar e seguir em frente. É assim que se ganha”. A cena fecha esse empolgante primeiro trailer de “Creed”, filme que traz novamente Sylvester Stallone como Rocky Balboa. Aqui o envelhecido garanhão italiano aceita o desafio de treinar o filho de Apollo Creed, o grande rival de Rocky nos primeiros filmes da série. O filme, dirigido por Ryan Coogler (“Fruitvalle Station”) promete reeditar o status quo da franquia e a presença de Rocky Balboa afere mais charme à jornada. O filme, que reúne os estúdios Warner, MGM e New Line, também teve sua sinopse divulgada. A estreia no Brasil está programada para 7 de janeiro de 2016.

Sinopse: 

Adonis Johnson (Michael B. Jordan) nunca conheceu o pai, Apollo Creed, que faleceu antes de seu nascimento. Ainda assim, a luta está em seu sangue e ele decide entrar no mundo das competições profissionais de boxe. Após muito insistir, Adonis consegue convencer Rocky Balboa (Sylvester Stallone) a ser seu treinador e, enquanto um luta pela glória, o outro luta pela vida.

Autor: Tags: , , , ,

segunda-feira, 29 de junho de 2015 Filmes, Notícias | 21:43

“Love”, comentado filme de Gaspar Noé, ganha trailer para maiores

Compartilhe: Twitter

Love 2O diretor franco-argentino Gaspar Noé levou ao último festival de Cannes seu mais recente filme, “Love”, e se viu no epicentro de uma saraivada de críticas desfavoráveis. Noé já havia sido objeto de polêmica no mesmo festival em 2002 ao exibir “Irreversível”, com uma demorada cena de estupro. “Love”, rodado em 3D, é repleto de cenas de sexo explícito (“algumas muito reais e outras apenas bravamente encenadas”, nas palavras do diretor) e conta a história de um estudante de cinema que se envolve em um triangulo amoroso. Murphy (Karl Glusman) se apaixona por Electra, mas estraga tudo ao engravidar a vizinha. A história não é linear e agrega diversos fetiches, como swing, suruba, ménage, sexo com travesti, entre outras coisas.

A distribuição do filme no Brasil é da Imovision que programa o lançamento para o começo de 2016.

Em Cannes, o cineasta disse que seu filme é sobre estar apaixonado do ponto de vista do sexo e que não havia como filmar isso sem mostrar genitálias. Aos que reclamam do viés egocêntrico e gratuito da obra – Noé é tido como um cineasta mais vaidoso do que a média – o coprodutor do filme, o brasileiro Rodrigo Teixeira, da RT Features, disse em tom defensivo que investiu no artista. “Posso dizer que meu filme pornográfico está em Cannes e não no YouPorn”.

Autor: Tags: , ,

sexta-feira, 26 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 18:27

“Lugares escuros” ameniza conteúdo sombrio do livro e se resolve como suspense bacanão

Compartilhe: Twitter

Quando os créditos sobem após a exibição de “Lugares escuros” (FRA, EUA 2015) uma certeza invade o espectador com força devastadora. David Fincher é mesmo um cineasta para lá de diferenciado. Não, este não é um filme de David Fincher, mas do francês Gilles Paquet-Brenner. O elo perdido aqui é Gillian Flynn, escritora cujas obras originaram este “Lugares escuros” e “Garota exemplar”, último filme de Fincher roteirizado pela própria Flynn.

Leia também: No cinema, “Garota exemplar” ganha mais relevo com a assinatura de David Fincher 

Ambos os livros mergulham fundo na sociedade do espetáculo, mas enquanto Fincher  subverte linearidades e expectativas para fazer um filme muito mais robusto e complexo do que uma mera adaptação literária preconiza, Brenner – que também assina a adaptação – se contenta em dar forma a um suspense bacanão e climático, mas sem muitas camadas. Não há demérito nenhum nessa escolha. A comparação é apenas laudatória. “Lugares escuros” é um suspense bem azeitado e se beneficia tanto dos personagens interessantes – uma imposição umbilical de Flynn como da atmosfera europeia que Brenner naturalmente impregna em seu registro.  É indesviável, porém, a constatação de que “Lugares escuros” poderia ser outro filme. Mais taxativo das circunstâncias dramáticas que aventa e menos pudico com personagens tão sombrios.

foto: divulgação

foto: divulgação

Libby Day (Charlize Theron) é uma mulher traumatizada pelo assassinato de toda a sua família quando ela ainda era criança. Libby passou 28 anos de sua vida acreditando que seu irmão mais velho era o responsável pelo crime. Procurada por um grupo aficionado por crimes midiáticos e sem dinheiro, Libby aceita revirar seu passado. Mesmo convencida da culpa do irmão, ela se imbui na busca por novos fatos e suspeitos para o caso. Em um primeiro momento, “Lugares escuros” se ocupa dessa jornada da protagonista.  Em outra constante, Brenner esmiúça o passado de Ben – irmão de Libby – o que permite ao espectador confrontar o que é sabido de antemão, o que se vê no tempo presente com o que vai se descobrindo sobre o passado por meio desses ostensivos flashbacks. Tem-se aí uma construção interessante, que foge à unidimensionalidade com que Brenner move a trama.

Com um elenco de apoio em ótima forma, destaque para os jovens Tye Sheridan e Chloë Grace Moretz, “Lugares escuros” prende a atenção e agrada ao fã de um bom suspense. Mas o pior dos mundos para o filme de Brenner foi ter chegado depois de “Garota exemplar” no cinema. David Fincher soube capitalizar os temas trabalhados por Flynn de uma maneira que poucos parecem capaz de fazê-lo. E isso fica bem claro ao assistir “Lugares escuros”.

Autor: Tags: , , ,

terça-feira, 23 de junho de 2015 Análises, Atores, Filmes | 22:15

Temos um Homem-Aranha; e agora?

Compartilhe: Twitter
Foto: Joblo/reprodução

Foto: Joblo/reprodução

O inglês Tom Holland, de 19 anos, foi anunciado como o novo intérprete de Peter Parker/Homem-Aranha no novo reboot que o personagem irá receber, agora sob curadoria da Marvel. Jon Watts, do ainda inédito “Cop car”, foi confirmado como o diretor do filme, previsto para ser lançado em 28 de julho de 2017.

A dinâmica da escolha lembra muito a que se deu em 2011, quando o anglo-americano Andrew Garfield foi selecionado para ser o novo Peter Parker e o cineasta Marc Webb, então festejado no circuito indie com o sucesso de “500 dias com ela”. Tanto Webb como Watts, no momento de assumirem a direção de “Homem-Aranha”, vinham da aclamação no festival de Sundance. Um celeiro incomum para um filme super-herói.

iG On: Tom Holland interpretará o Homem-Aranha em nova franquia

Análise: Homem-Aranha na Marvel sela acordo inédito em Hollywood

Estamos falando aqui do sexto filme do personagem em 15 anos e do segundo reboot em cinco. Não é um repertório desejável e a Marvel já anunciou que o próximo filme vai mostrar um Peter Parker adolescente e enfrentando a opressiva rotina colegial. Sem, pelo menos no discurso de momento, recontar a origem do herói.

Rumores ventilados na imprensa americana dão conta de que o nome de Holland era uma preferência da Sony. A Marvel tinha em Asa Butterfield, de “A invenção de Hugo Cabret”, o seu favorito. Não que Holland não tenha impressionado Kevin Feige, o todo-poderoso produtor da Marvel Studios e que supervisionou pessoalmente o processo de casting do herói aracnídeo.  Segundo fontes ouvidas pelo The Hollywood Reporter, Feige gostou da interação entre Holland, Robert Downey Jr. e Chris Evans nos testes. Vale lembrar que a primeira aparição desse novíssimo Homem-Aranha no universo Marvel será em “Capitão América: Guerra civil”, a ser lançado no próximo ano.

Watts teria sido uma escolha toda de Feige, que costuma apostar em diretores novatos e pouco experimentados – uma forma de assegurar maior controle criativo sobre os filmes. Foram apostas bem sucedidas dele Jon Favreau, no primeiro “Homem de ferro”, e James Gunn, em “Guardiões da Galáxia”. O nome de Watts teve de ser aprovado pelo novo presidente da divisão de cinema Sony, Tom Rothman. Esse típico toma lá dá cá é comum em pré-produções de blockbusters dessa magnitude, mas a Sony sabe que precisa dar mais autonomia à Marvel para evitar que o novo filme seja tão decepcionante como os dois mais recentes.

O fato de estar inserido no universo Marvel deve ajudar na aceitação do novo aracnídeo, mas um filme solo bacana e bem azeitado é crucial para que o investimento – e a parceria entre Marvel e Sony – vinguem.

A produção do filme, no entanto, deve ser cercada de especulações, atritos e coro por concessões. Circunstâncias comuns a qualquer relação, mas potencialmente desestabilizadora em uma envolvida em interesses milionários e objetivos mais inflacionados ainda.

Autor: Tags: , , , , ,

Críticas, Filmes | 18:39

Cheio de simbolismos, “Divertida mente” é o mais novo gol de placa da Pixar

Compartilhe: Twitter

É consenso que a Pixar não entregava um filme digno do proeminente, embora enxuto, legado da companhia desde “Toy Story 3” (2010). “Divertida mente” (EUA 2015) chega para dirimir a empresa comandada por John Lasseter que vinha tendo sua originalidade questionada.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Em “Divertida mente”, acompanhamos Riley e sua família se adaptarem a nova vida em São Francisco após uma repentina mudança de Minnesota, onde a menina nasceu. Riley, uma criança de 11 anos, precisa se ajustar a essa nova realidade. O que inclui novas amizades, novos hábitos, entre outros. No entanto, o filme, escrito e dirigido por Peter Docter (“Up – altas aventuras”) não foca em Riley ou em sua família, mas sim nas emoções de Riley. Alegria, tristeza, raiva, nojinho e medo ocupam a sala de controle do cérebro da menina, onde se passa praticamente toda a ação de “Divertida mente”. O filme mostra como é o convívio dessas emoções e como este é decisivo para as interações de Riley com o mundo a seu redor.

Pedagógico sem ser didático, “Divertida mente” fala com carinho das emoções mais básicas do ser humano. Ora com humor, ora com singeleza, crianças e adultos são tocados por uma trama essencialmente simples, mas fecundada por muita criatividade e imaginação.

Devido a uma confusão na sala de controle, Alegria e tristeza são arremessadas para fora do local. Se aí está uma oportunidade para desbravarmos o restante do cérebro de Riley, estabelece-se, também, o conflito central do filme. Alegria e tristeza precisam achar um jeito de retornar à sala de controle para evitar uma completa descaracterização da personalidade de Riley. É a senha para que Docter trabalhe a importância de se respeitar as emoções, de dar espaço para que sejam cultivadas em seu tempo e ritmo. Mesmo aquelas que, à princípio, desejamos evitar, como é o caso da tristeza.

Seja pela fineza do humor, há espaço até para citações cinéfilas, pela agudeza do simbolismo para os adultos ou mesmo pela efetividade com que explicita a engenharia das emoções para os pequenos, “Divertida mente” é um gol de placa da Pixar. É um filme para se apaixonar. O encantamento pode variar de grau de espectador para espectador, mas é uma contingência deste que é um dos melhores filmes de 2015.

Autor: Tags: , ,

terça-feira, 16 de junho de 2015 Análises, Filmes | 20:19

Filme mais romântico da década de 90, “As pontes de Madison” completa 20 anos

Compartilhe: Twitter
Foto: divulgação

Foto: divulgação

Clint Eastwood talvez já não seja reconhecido hoje como o caubói durão de outrora. Aos 85 anos, a alcunha de cineasta prestigiado talvez seja a mais notória. Esse prestígio emana de uma filmografia plural, complexa e cheia de energia e inquietação. Parte essencial dessa filmografia, “As pontes de Madison”, que completa 20 anos de lançamento neste junho de 2015, não costuma ser listado por críticos e cinéfilos como um dos pontos altos da carreira de Clint. Talvez por se tratar de um romance, talvez por remeter a uma fase em que Clint ainda era visto como um ator que também dirigia e não como um cineasta/ator. Fato é que “As pontes de Madison” não só é fundamental para construir intimidade com o cinema de Clint – recheado de conflitos existenciais angustiantes, como é, também, uma das histórias de amor mais belas e doloridas já adornadas pelo cinema.

Adaptado da obra homônima de Robert James Waller e roteirizado para o cinema por Richard LaGravenese – que no futuro dirigiria o açucarado “P.S . Eu te-amo” – “As pontes de Madison” apresenta a história de amor entre Francesca Johnson (Meryl Streep, indicada ao Oscar pelo papel), dona de casa que leva vida ordinária no campo, e Robert Kincaid (Clint Eastwood, em grande momento como ator), fotógrafo na região por uns dias para fotografar as pontes que dão nome ao filme e figuram como atração turística do local.

madiPerdido, ele chega à casa de Francesca – que passa alguns dias sozinha sem a companhia dos filhos e do marido que partiram em uma viagem – em busca de informações.  Ela tenta, mas não consegue explicar ao fotógrafo como acessar as tais pontes. Resolve mostrar ela mesma. O dia na companhia um do outro se revela muito mais agradável do que ambos poderiam imaginar. No dia seguinte, Robert e Francesca se aproximam ainda mais e ela decide viver aqueles dias em uma intensidade que jamais imaginara possível em sua vida há 48 horas.

O idílio tem data para acabar? Robert ofertara a Francesca uma verdade que ela sempre negara. A de que ela era uma mulher fascinante, desabrochada e cujo desejo de viver estava confinado naquela vida pacata e cômoda. Robert queria que ela partisse com ele. Francesca gostava da ideia, mas e sua família? O cinema, então, impõe a Meryl Streep um dilema, ainda que menos desolador, tão angustiante quanto o de “A escolha de Sofia”. Francesca precisa decidir se vive essa história de amor em toda a plenitude que intui possível ou se se resigna no seio familiar e atende às responsabilidades uma vez assumidas há tanto tempo.

A narrativa de “As pontes de Madison” transborda sentimento. Seja na perspectiva dos filhos e na disposição destes de entender a escolha da mãe – e com esse exercício reavaliar as próprias escolhas amorosas – seja no afeto sincero e abrupto entre Robert e Francesca. A maneira como Clint Eastwood filma torna possível o tangenciamento do dissabor do amor idealizado.  Francesca e Robert seriam felizes juntos fora daquele contexto? A rotina os alcançaria? O amor só sobrevive se não for vivido em seu todo? São perguntas legítimas que nos acompanham.

“As pontes de Madison”, em um olhar histórico, pode ser observado como o filme que representa a virada de Clint. Aqui estão as primeiras pistas do cineasta observador da natureza humana e de suas contradições, assim como do autor sensível que traz interesses caros ao seu cinema para gravitar os temas centrais de seus filmes. É um Clint diferente do vencedor do Oscar por “Os imperdoáveis” (1992). Mais complexo e menos assertivo.

O amor em escalas, conotações e contextos diferentes voltaria a ser abordado por Clint em filmes como “Menina de ouro”, “A troca” e “Além da vida”. O amor romântico, no entanto, em toda a sua potência, só fora trabalhado por ele aqui.

Autor: Tags: , , , ,

domingo, 14 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 18:42

Espaço Cult – “Foxcatcher” é exemplar do cinema que valoriza o que não é dito e o que não é mostrado

Compartilhe: Twitter

Construído sobre elipses, “Foxcatcher”, que no Brasil ganhou o desnecessário subtítulo “Uma história que chocou o mundo”, é um filme cujas camadas não se revelam de pronto. O que pode parecer algo contraprodutivo a principio, se assegura como uma das forças desse belo e sensível drama, ainda que não catártico, assinado por Bennett Miller, dos ótimos “Capote” (2005) e “O homem que mudou o jogo” (2011).

O filme acompanha a relação entre o multimilionário John Du Pont (Steve Carell), herdeiro de um império ligado à indústria química, e os atletas olímpicos Mark (Channing Tatum) e Dave (Mark Ruffalo) Schultz. Du Pont convida os irmãos, ambos medalhistas olímpicos em Los Angeles em 1984 na luta grego-romana, para treinarem em Foxcatcher, propriedade da família com histórico de prover suporte ao esporte. Dave, a princípio, rejeita a oferta, mas Mark, ansioso por sair da sombra do irmão, aceita a generosidade inusitada do milionário. À medida que o relacionamento entre Mark e John se estreita, a plateia intui que algo de muito tenebroso acontecerá. Isso independe do fato da história em si já ser conhecida. Uma busca rápida no Google oferece detalhes e curiosidades do caso, mas Miller faz mais. Oferece uma investigação psicológica profunda desses três homens irmanados por um mesmo objetivo, mas que de alguma maneira colidem brutalmente. É esse “de alguma maneira” que Miller brilhantemente oxigena.

Na superfície, “Foxcatcher” pode ser lido como uma dura e ácida crônica à percepção de que o esporte eleva o patriotismo. Uma leitura por si só corajosa e inusitada em um filme americano. A obsessão pelo triunfo a despeito do espírito competitivo está enraizada tanto em Mark quanto em John, mas em graus distintos. Em outro nível, o filme de Miller observa uma combinação explosiva tomar forma. Egos inflados, ânsia por reconhecimento, carência afetiva, dinheiro e uma não assumida homossexualidade são sombras trabalhadas por Miller e pelo roteiro de Dan Futterman com audácia e engenho. Não há a formulação de respostas para a tragédia ocorrida em Foxcatcher, mas há apontamentos sutis que em termos de dramaturgia preenchem requisitos e expectativas.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

O que não é mostrado em “Foxcatcher” é mais importante do que o que alcança os olhos do público. Mark, por exemplo, começa a fita em abundante solidão. Ele tem o hábito de se bater, se punir, mas nem sempre entendemos a razão.  No final do filme, é interessante se indagar como ele foi parar praticando MMA. Por que o gosto de espancar homens? Essa opção surgiu depois da interação desestabilizadora com John? Miller deixa sugestões pelo caminho. A cena final de “Foxcatcher”, embora aparentemente descolada do que se viu antes, não está ali gratuitamente. Está ali para dar novo sentido ao todo.

Trata-se de um trabalho de direção maiúsculo no que se depreende de controle e técnica, e sensível, no que se projeta de prolixidade e imaginação. Um adendo ao trabalho dos atores precisa ser feito. Steve Carell como John é um assombro. Sua presença é intimidadora. As pausas na fala em que encara seu interlocutor gelam a espinha. É uma construção de personagem minuciosa e que vai muito além da prótese no nariz que modifica completamente seu rosto. Como um homem cioso de escrever uma história de sucesso para si em seus próprios termos, mas com esqueletos no armário, Carell abraça o imponderável com força dramática invejável. Invejável também é a caracterização de Tatum. Na melhor performance de sua carreira, o ator adorna a ingenuidade e truculência de Mark, em um balé entre físico e emocional que só alguém com exato domínio de sua arte é capaz. Ruffalo, por seu turno, é o pendor da consciência, iminentemente tragado para o conflito velado entre John e seu irmão. O ator atua com a pulga atrás da orelha. É sua atuação o principal termômetro da plateia.

Essa trinca afinada é outra demonstração do gênio de Miller que com sua curta filmografia oferta ao público um cinema pensante, difuso e altamente recompensador.

Autor: Tags: , , , , , , ,

sábado, 13 de junho de 2015 Bastidores, Filmes | 17:04

O que indica o prejuízo da Disney com “Tomorrowland”?

Compartilhe: Twitter
Foto: divulgação

Foto: divulgação

Reportagem do The hollywood Reporter indica que a Disney se prepara para um prejuízo entre U$ 120 e U$ 140 milhões com o filme “Tomorrowland- um lugar onde nada é impossível”. Ao todo, o estúdio investiu no filme cerca de U$ 400 milhões – agregando na matemática custos de produção e a alavancagem do marketing.  A arrecadação internacional do filme, até o momento, está em U$ 170 milhões.

Neste momento a indústria reflete sobre o que pode ter dado errado com filme e a resposta mais consistente aponta falhas na promoção da fita. Adultos devem ter pensado que se tratava de um filme infantil e crianças não se sentiram atraídas pelo tom nostálgico da fita. Outro grande filme dessa temporada de blockbusters, “Mad Max – estrada da fúria”, também é pouco palatável do público habitual dos multiplexes nesta época do ano. A exemplo de “Tomorrowland”, “Estrada da fúria” não faz uma bilheteria vistosa nos EUA. Outro elemento a unir os dois filmes parece ser a total incapacidade do marketing dos estúdios em vendê-los. É como se, apesar dos milhões gastos na promoção, não soubessem em que fatia do público mirar. Muito menos como comunicar o que será lançado nos cinemas.

Por um lado, este cenário pode ser bem desolador. Não para a Disney que ainda reúne um belo plantel de lançamentos (“Homem-formiga” e “Divertida mente” – além de “Star Wars” no final do ano). Mas para o cinema mainstream em geral. Ideias originais escasseiam em Hollywood como água no deserto e quando elas surgem, seja na forma de filmar (“Mad max”), seja na aposta em um projeto totalmente novo (“Tomorrowland”), patinam na aceitação do público e levam pulgas para trás das orelhas dos engravatados que tomam as decisões no mundo do cinema.

A razão de tantos remakes, reboots e sequências inundarem Hollywood é justamente a de que ninguém sabe como filmes como “Tomorroland” vão repercutir junto ao público. Esse prejuízo ostensivo que a Disney amealha agora com o filme protagonizado por George Clooney, portanto, é mais água no chope de quem torce por mais criatividade e originalidade no cinema.

Autor: Tags: , , ,

  1. Primeira
  2. 10
  3. 20
  4. 28
  5. 29
  6. 30
  7. 31
  8. 32
  9. 40
  10. Última