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Arquivo da Categoria Filmes

sábado, 10 de janeiro de 2015 Filmes, Notícias | 18:49

Cinco filmes brasileiros são selecionados para o festival de Roterdã

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O festival de cinema de Roterdã, na Holanda, não é dos mais tradicionais do circuito europeu, mas vem ganhando visibilidade, entre outras razões, por apostar em cinematografias fora da curva. Como a brasileira, para os propósitos de festivais de cinema. A boa notícia é que para a edição de 2015 do evento, que acontece entre os dias 21 de janeiro e 1ºde fevereiro, cinco filmes brasileiros foram selecionados. Nenhum, entretanto, para a principal mostra competitiva do festival.

“O Touro”, de Larissa Figueiredo, “Ela Volta na Quinta”, de André Novais Oliveira, e “Prometo um Dia Deixar essa Cidade”, de Daniel Aragão integrarão a mostra Bright future, voltada para realizadores com até dois trabalhos. É o caso do pernambucano Daniel Aragão que já teve seu  segundo filme exibido em Brasília e na Mostra internacional de São Paulo. Sua estreia, “Boa sorte, meu amor” é das mais pungentes e assertivas crônicas do histórico conflito de classes no país.

Já na mostra Spectrum, destinada a projetos experimentais, estarão os longas “O Fim de uma Era”, de Bruno Safadi e Ricardo Pretti, e “Ventos de Agosto”, de Gabriel Mascaro, este último já exibido em circuito limitado aqui no Brasil.

Cena do filme "Ventos de agosto"  (Foto: divulgação)

Cena do filme “Ventos de agosto”
(Foto: divulgação)

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Atores, Filmes, Notícias | 18:07

Liam Neeson se rebela contra a máfia em “Run all night”; assista ao trailer

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Foto: divulgação

Foto: divulgação

Ed Harris e Liam Neeson estão sentados à mesa de um restaurante. Neeson pede pela vida de seu filho e Harris, muito contrariado da vida, diz que vai persegui-lo com tudo que tem e, depois disso, deixará o personagem de Neeson morrer.

Assim começa o movimentado trailer de “Run all night”, terceiro filme da parceria entre o ator irlandês – maior astro do cinema de ação da atualidade – e o diretor espanhol Jaume Collet-Serra, após “Desconhecido” (2011) e “Sem escalas” (2014). O filme tem estreia prometida para o dia 16 de abril no Brasil, um dia antes de chegar às telas dos EUA.

Na fita, Neeson se rebela contra o mafioso que o emprega, papel de Harris, para proteger seu filho (vivido pelo sueco Joel Kinnaman), transformado em alvo após testemunhar um assassinato. Como Liam Neeson é um cara durão, ele promete para o filho que resolve a parada em uma noite. Ele só precisaria que o filho tivesse a disposição de se esconder e à sua família, por uma noite.

Será um início de ano agitado para Liam Neeson. Além de “Run all night”, que ainda não tem título em português, o ator retorna à franquia “Busca implacável” já neste mês. O terceiro filme da série estreou neste fim de semana nos EUA e pinta por aqui no dia 22 de janeiro. “Será o último”, prometeu o ator.

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015 Filmes, Notícias | 20:14

Francês “Girlhood” investe na perspectiva feminina do amadurecimento

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foto: divulgação

foto: divulgação

Uma das sensações cinematográficas de 2014 foi “Boyhood: da infância à juventude”, de Richard Linklater. Filmada ao longo de 12 anos, a produção ainda deve colher frutos em 2015. Ano em que “Girlhood”, fita assinada por Céline Sciamma, diretora dos ótimos “Lírios d´água” (2007) e “Tomboy” (2011), será lançado.

Leia também: Tempo é parâmetro absoluto para epifanias de “Boyhood”

O filme de Sciamma não pretende a vanguarda como o de Linklater, mas segundo a crítica internacional que já teve contato com ele, exala o mesmo frescor. “É uma inebriante história de descoberta e formação de identidade”, assinalou o semanário The Hollywood Reporter. A fita acompanha a jornada de Marieme (Karidja Touré), que farta dos abusos familiares e da ditadura masculina na escola e no bairro, foge de casa. Ela entra para uma gangue, conhece meninas de espírito livre e estabelece uma relação complexa com um homem mais velho, entre outras tantas mudanças frenéticas na busca pela autoria da própria vida.

O filme será lançado em circuito limitado nos EUA no próximo dia 20 de janeiro e ainda não tem distribuição garantida no Brasil. O trailer, com legendas em inglês, pode ser conferido abaixo.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015 Críticas, Filmes | 17:35

Espaço cult: Costa-Gravas devassa lógica capitalista no intenso e cerebral “O capital”

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Costa-Gravas no set de "O Capital"

Costa-Gravas no set de “O Capital”

Historicamente alinhado ao pensamento de esquerda, o cineasta grego Costa-Gravas entrega com “O capital” (2012), seu mais recente filme, sua mais bem elaborada e contundente análise do capitalismo como sistema econômico e modelo de vida.

No filme, testemunhamos a saga de Marc Torneuil (Gad Elmaleh). Um literato da economia alçado à presidência de um prestigiado e poderoso banco europeu quando o presidente da instituição, que habitualmente o ouvia, adoece e precisa se afastar do comando. A partir do momento do apontamento de Torneuil para o cargo, “O capital” já denota sua intenção de demolir fachadas e investir contra os clichês de um sistema com a coragem que, por exemplo, falta às produções americanas.

A ideia do diretor grego, também responsável pelo roteiro (prática comum em seus filmes), não é tecer uma grita contra o capitalismo e o neoliberalismo, mas examinar com precisão cirúrgica, e blindado por um humor em seu estado de maior perversão, os entraves de um sistema que deu certo, mas segue produzindo ruídos alarmantes pelo mundo. Muito porque estimula um jogo desleal e que gera ressentimento em todos aqueles que não dispõem do tabuleiro.

Torneuil sabe que sua indicação para a presidência do banco é um embuste somente tolerado enquanto grupos de olho no poder, e no apoio da força acionária majoritária, se movimentam nos bastidores. É preciso agir rápido e com proeminência. Ele rapidamente se liga a um grupo de investidores americanos que secretamente age para tomar o controle do banco, nem que para isso seja necessário precipitar medidas que derrubem seu valor de mercado. Torneuil vai se revelando um hábil estrategista e guiando-se pela filosofia maoista repele sindicatos, doma seus diretores executivos, enrola os americanos e se fortalece como um player significativo na economia europeia.

Em paralelo, Costa-Gravas lança um olhar para a derrocada moral deste homem que sempre se viu seduzido pelo poder, mas nunca o havia exercido de fato. Os bônus pornográficos, o flagelo do casamento e o jogo de interesses estipulado por todos que dele se aproximam, são sombras desse novo Torneuil, concebido pelas engrenagens do capitalismo.

O Capital

Executivos e acionistas discutem os bônus que serão pagos no ano: o gosto pelo jogo financeiro
(Fotos: divulgação)

É um pouco do meio e um pouco do homem, advoga Costa-Gravas com seu filme. Não é uma conclusão inédita, tampouco explosiva, mas fruto de uma construção dramática vistosa. Na cena final, Torneuil vira-se para a câmera, sob aplausos de executivos radiantes após um breve discurso em que promete “roubar dos pobres para dar aos ricos”, e diz que “são todos crianças se divertindo e que vão se divertir até que tudo exploda”. O brilhantismo do sistema, antecipou Costa-Gravas em uma cena exibida alguns minutos antes, está em reinventar-se para continuar o mesmo.

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terça-feira, 6 de janeiro de 2015 Críticas, Filmes | 17:41

Crise de identidade move o país e a protagonista de “Ida”

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Com técnica exuberante, "Ida" impressiona pelo vigor narrativo e pela dimensão que dá ao dilema de sua protagonista (Foto: divulgação)

Com técnica exuberante, “Ida” impressiona pelo vigor narrativo e pela dimensão que dá ao dilema de sua protagonista
(Foto: divulgação)

Com pouco mais de 80 minutos de duração, “Ida” consegue uma proeza digna de nota. Ir fundo na investigação de uma Polônia agonizante, nos idos dos anos 60, que ainda sentia o impacto do nazismo e via o comunismo se estabelecer como regime.  Dirigido com sobriedade e pulso firme por Pawel Pawlikowski, filmado em belíssimo preto e branco e no formato quadrado (1.33), “Ida” conjuga excelência técnica com vigor narrativo.

Às vésperas de prestar seus votos para se tornar freira, noviça Anna (Agata Trzebuchowska) é despachada por sua madre superiora para conhecer a única familiar que tem viva. A tia Wanda (Agata Kulesza). A ideia é que Anna reúna mais contexto sobre si antes de tomar uma decisão tão importante como a que tem pela frente.

O contato com Wanda começa trêmulo e problemático, como era de se imaginar. Wanda oferta a Anna um elemento desestabilizador. Ela, na verdade, se chama Ida e é judia. Seus pais morreram pouco depois dela ter nascido.

Ida é silenciosa e contemplativa e essa aparente paz esconde uma crise de identidade e fé que se materializa na viagem que decide fazer com sua tia para descobrir o lugar em que seus pais foram enterrados. Se a viagem traz respostas, ainda que terríveis para Ida, retira de Wanda a máscara que ela se habituou a usar. É no contraponto entre os efeitos da viagem em Ida e Wanda que “Ida”, o filme, se permite extrair poesia do sofrimento, do horror, do instável.

Por fim, Pawlikowski impõe um dilema a sua protagonista. Ciente de suas origens, ela precisa decidir se segue essa vocação, agora problematizada, de ser freira, ou atende aos anseios de sua tia, que fugia às convenções dispensadas às mulheres na época, e viveria plenamente uma vida que fora privada de seus pais.

A decisão de “Ida” ressignifica o filme como um todo. Afere-lhe um sentido incômodo, expansivo e que provoca na audiência uma reflexão deslocada, emudecida e totalmente imprevista.

“Ida”, dessa maneira, se configura como uma revisão histórica de um país que mergulhou na escuridão e foi um dos protagonistas de uma das eras mais perturbadoras da humanidade no mesmo compasso em que ilumina uma personagem fascinante em seu silêncio constantemente desafiador.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 Críticas, Filmes | 15:42

Ridley Scott coloca Moisés entre Deus e a esquizofrenia em “Êxodo: Deuses e reis”

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Não se engane. “Êxodo: Deuses e reis” não é um filme religioso no sentido clássico do termo, mas um filme político. Diferentemente do que Darren Aronofsky fez com “Noé”, Ridley Scott não reinterpreta a passagem bíblica do personagem, mas lhe afere uma conotação política exacerbada. Daí incorre ilações sobre o período retratado por “Êxodo” e paralelos com o longevo e controverso conflito entre Israel e Palestina.

Não só. Scott evita o espetáculo religioso, mas não o espetáculo visual, e se esmera na ciência, no limite do factível, para explicar desde as sete pragas que assolaram o Egito até à abertura do Mar vermelho. Nessa opção não está a negativa de Deus, mas o privilégio da fé, do que trata, afinal, a bíblia de maneira geral, e a passagem abordada em “Êxodo”, em particular. Ao situar o Moisés vivido com a habitual intensidade por Christian Bale entre a esquizofrenia e Deus, Scott favorece a interpretação de quem toma contato com seu filme. E acusa logo na cena inicial, em que uma profeta fala do desfecho de uma batalha para o faraó, que seu filme privilegiará a interpretação em detrimento da assertividade religiosa.

Essa é uma das indiscutíveis riquezas do filme. Sua recusa em assumir-se como uma fantasia hollywoodiana e se resolver como um registro histórico com DNA de trama política. Nesse contexto, Moisés pode ser percebido tanto como um terrorista que se rebela contra o império após seu exílio, como o tão aguardado guia para a libertação dos hebreus.

Um Moisés adornado pela ambiguidade do roteiro escrito pelo ateu Steven Zaillian (Foto: divulgação)

Um Moisés adornado pela ambiguidade do roteiro escrito pelo ateu Steven Zaillian
(Foto: divulgação)

Em muito por isso, Scott dedica considerável atenção ao período em que Moisés se encontra entre os egípcios. A fundamentação de suas motivações, políticas e emocionais, importam tanto para Scott como a suntuosidade dos grandes cenários apresentados em “Êxodo”.

Outro acerto é a caracterização de Deus como uma criança, aos olhos sempre questionadores de Moisés. Para quem tem a mínima afinidade com a bíblia, não se trata de uma ousadia, já que é notório na escritura sagrada que o Todo-Poderoso pode assumir a feição de uma criança. A opção reforça a qualidade da pesquisa de Scott e acusa sua sensibilidade na abordagem da história de Moisés para o público do século XXI.

Não se trata de um filme que tem como objetivo pregar para convertidos, mas de colocar presente e passado em discussão. Não à toa, já rumando para Canaã, Moisés expõe uma angústia a Josué (Aaron Paul): “Estamos unidos porque temos a fuga em comum. Mas como será quando todos se assentarem?” O Moisés de Ridley Scott externa a preocupação que hoje é um dos eixos centrais do conflito entre israelenses e palestinos. Os rótulos de terrorista e império foram recodificados.

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014 Análises, Filmes, Listas | 11:43

Retrospectiva 2014 – Os vinte melhores filmes do ano

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Para encerrar 2014 aqui no Cineclube, nada mais justo do que relembrar e honrar as melhores produções do ano. Não foi um grande ano para o cinema. O que não quer dizer que não tenhamos tido ótimos filmes lançados no país. Eram elegíveis para essa lista todas as produções lançadas comercialmente no Brasil entre 1º de janeiro e 25 de dezembro. Além, é claro, de filmes lançados diretamente em DVD´s ou na televisão, outrora vista como mídia menos interessante.

Há, natural e compreensivelmente, uma presença preponderante de produções norte-americanas na lista. Mas há espaço para Brasil, Polônia, Argentina, Grécia, Romênia e outras cinematografias que deram o que falar em 2014. Muita coisa boa ficou de fora. A subjetividade de toda lista surge aqui combinada com a objetividade que todo crítico de cinema deve perseguir. O que não extingue o caráter pessoal  da análise, dada a natureza da atividade crítica em si.

Inside Llewyn Davis - versão

Direção: Joel e Ethan Coen

Lançamento original: 2013

País: EUA

Os Coen revisitam território familiar ao retratar a jornada (majoritariamente enfadonha) de Llewyn Davis, um aspirante a cantor na cena nova-iorquina que via emergir o folk (gênero musical que consagrou Bob Dylan)com toda a sua força. Davis é um dos muitos expelidos do sonho americano que frequentam a filmografia dos Coen, mas o filme é um tour de force por se esmerar em um fiapo de história e ofertar grandes insights sobre a existência.

Clube de Compras Dallas 11

Direção: Jean-Marc Vallée

Lançamento original: 2013

País: EUA

Esqueça, se for possível, as fantásticas e oscarizadas atuações de Matthew McConaughey e Jared Leto. Esse misto de filme-denúncia com história de sobrevivência tem um coração do tamanho de um elefante. Com um roteiro acima da média e atores em estado de graça, Vallée fez um doloroso e importante filme sobre o surgimento atroz da Aids na América e a maneira desumana com que a indústria farmacêutica abordou a questão.

O passado - versão final 11

Direção: Asghar Farhadi

Lançamento original: 2013

Países: França/Irã

Não era fácil superar “A separação”, poderoso filme vencedor de vários prêmios que colocou Asghar Farhadi no mapa da cinefilia. Se não o faz, Farhadi falha com louvor. “O passado” expande o olhar investigativo do diretor sobre as reminiscências de nossas relações amorosas. Existe ética no amor? O sobressalto do amor é capaz de sobrepujar diferenças culturais? O debate ensejado por essa riquíssima obra não se esgota ao fim da sessão.

O homem duplicado  - versão final 1

Direção:  Denis Villeneuve

Lançamento original: 2013

País: Canadá

Essa adaptação certeira de José Saramago versa sobre a singularidade do indivíduo à sombra da sociedade. A formulação e reconhecimento da identidade, portanto, forma a matéria prima do filme de Villeneuve. Um professor à beira da depressão descobre um sósia e resolve segui-lo para saber mais sobre a curiosa situação. O despojamento estético da obra, a gravidade da inflexão proposta e o rigor da mise-em-scène tornam “O homem duplicado” um dos filmes mais inteligentes e desafiadores do ano.

Ida - versão final 1

Direção: Pawel Pawlikowski

Lançamento original: 2014

País: Polônia

Filmado em um preto e branco hipnotizante, essa história singela de uma freira que descobre ser filha de judeus perseguidos e mortos durante o regime nazista, estabelece um painel histórico sobre a Polônia que agonizou durante boa parte do século XX. “Ida” é daqueles filmes obrigatórios não só para quem gosta de cinema, mas para que percebe na sétima arte uma válvula contínua de reflexão e história.

 Instinto materno - versão final

Direção: Calin Peter Netzer

Lançamento original: 2013

País: Romênia

Equacionar um conflito geracional e familiar a um conflito de classes em uma Europa em decadência exige um diretor de pulsos fortes. Netzer alinhava essa trama na qual uma mãe se ressente do afastamento nada sutil de seu filho, mas que não hesita em mover mundos e fundos quando ele enfrenta a possibilidade de ir para a cadeia por homicídio culposo. A fita romena é um poderoso estudo as contradições humanas e um retrato desolador do poder desestabilizador do dinheiro.

Ninfomaníaca - versão final 11

Direção:  Lars Von Trier

Lançamento original: 2013/2014

Países: Dinamarca/Alemanha/França/Inglaterra

São dois volumes, mas trata-se, na verdade, de apenas um filme e assim “Ninfomaníaca” surge em nossa lista. O filme de sexo explícito de Lars Von Trier é, em sua essência, um estudo libertino e imaginativo sobre nossas angústias existências, refletidas como bem lembraria Freud, no sexo. O cineasta dinamarquês perpassa diferentes fetiches e obsessões, começa trabalhando com arquétipos e por fim dá voz a sua heroína, Joe, parra arrematar o mais deserotizado filme a abordar o sexo que o cinema já viu. Von Trier, a despeito de muitos desapontamentos, não queria distrair a audiência tão interessada em suas digressões.

 Sob a pele - versão final

Direção: Jonathan Glazer

Lançamento original: 2013

País: Inglaterra

O filme é hermético? Sim. É uma experiência estética intrigante? Também. É bom? Demais! “Sob a pele” é o que se convém classificar como filme difícil. Mas a obra de Jonathan Glazer é das mais brilhantes de 2014 no que propõe sobre o homem – como espécie –  e o meio. Scarlett Johansson faz uma alienígena que atrai homens com sua aparência para matá-los, mas aos poucos vai se afeiçoando pelo que nos caracteriza humanos. Filme de muitas camadas, permite interpretações a contento. É para ser descoberto, apreciado e redescoberto.

 Praia do futuro (versão)

Direção: Karim Aïnouz

Lançamento original: 2014

Países: Brasil/Alemanha

Um filme sobre impulsividade. Sobre assumir os próprios desejos. Sobre renúncia. Sobre tesão. Sobre ser homem. E sobre amar outro homem. “Praia do futuro”, novíssima obra-prima em só menor de Karim Aïnouz, opõe a cosmopolita Berlim à ensolarada Fortaleza como versões conflitantes do protagonista Nonato, defendido com a habitual entrega por Wagner Moura. Um filme que dá orgulho de dizer que é brasileiro.

 Nebraska -  versão final

Direção: Alexander Payne

Lançamento original: 2013

País: EUA

Um road movie banal no recorte que faz do extraordinário. Ou seria o contrário? Alexander Payne borra a noção de extraordinário e banal ao contar a história de um homem que já dá os primeiros sinais de senilidade em uma viagem para resgatar um prêmio que não existe. No meio do caminho, as pazes com o passado e com seu filho. Um filme belíssimo que resiste ao tempo e cresce de tamanho à medida que nos afastamos dele. Uma das grandes joias do ano nos cinemas brasileiros.

 Era uma vez em NY - versão final 11

Direção: James Gray

Lançamento original: 2014

País: EUA

Vamos começar falando pelo plano que fecha o filme. É a coisa mais fascinante e narrativamente eloquente feita por um diretor em muitos anos. O fecho de “Era uma vez em Nova York” potencializa essa história de tragédia e amor em uma Nova York mais parasita do que receptiva aos estrangeiros que buscam o sonho americano. Polonesa chega aos EUA e se vê obrigada a se prostituir para conseguir liberar sua irmã tuberculosa que ficou detida ao desembarcar nos EUA. Os arremedos do destino podem ser cruelmente poéticos é o que sugere esse poderoso filme de James Gray.

 Relatos selvagens - versão final 11

Direção: Damián Szifron

Lançamento original: 2014

País: Argentina

Nenhum filme combinou as tarefas de entreter e ensejar reflexão com tamanha astúcia e eficácia como este exemplar argentino, a maior bilheteria da história do cinema hermano.

Em seis inspirados episódios, Szifron tece comentários fortes e espirituosos sobre nossa sociedade – tudo a partir do pouco civilizado desejo de vingança. Humor, violência, tensão e drama se fundem a um todo que faz todo o sentido.

 Mesmo se nada der certo - versão final 11

Direção: John Carney

Lançamento original: 2014

País: EUA

Pense no filme mais saboroso do ano. Se você não pensou em “Mesmo se nada der certo” quer dizer que você não viu o filme mais saboroso do ano. John Carney reedita, com mais inspiração e uma bela dose de Keira Knightley, Mark Ruffalo e Adam Levine, a fórmula que já havia aplicado em “Apenas uma vez”, faz uma crítica bem sacada dos rumos da indústria musical e conta uma história agridoce sobre corações partidos, amor à música e Nova Iorque. Não tem como não amar!

 Miss violence - versão final2

Direção: Alexandro Avranas

Lançamento original: 2013

País: Grécia

Aborto, incesto e outros tipos de abuso familiar compõem o painel desse poderoso e chocante drama grego. Multipremiada, a fita de Avranas faz um retrato triste e pálido de uma Grécia caída em desgraça. As ruínas da civilização se refletem em uma família que tenta manter a aparência altiva, mas a câmera insiste em insinuar que há algo de muito errado submerso naquela rotina familiar que abraçou com estranha tranquilidade o suicídio de uma menina em seu aniversário de 11 anos. Nada nos prepara para as verdades que emergirão desse olhar intrusivo que dispensamos a essa família.

 Trapaça - versão final

Direção:  David O. Russell

Lançamento original: 2013

País: EUA

Não há personagens como nos filmes de David O. Russell. Em “Trapaça”, ambientando nos anos 70, eles buscam a reinvenção como combustível para uma vida plena. Cafona, exagerado, colorido, musicado e cheio de diálogos espertos,“Trapaça” é irresistível. É um filme verdadeiro com seus personagens e correto com a plateia. O entretenimento desta, ou qualquer mensagem, não se sobrepõem à jornada dos personagens. É bom cruzar com um filme destes de vez em quando. E que personagens!

Boyhood - versão final 11

Direção: Richard Linklater

Lançamento original: 2014

País: EUA

2014 talvez seja lembrado como o ano de “Boyhood” e, se vingar, será um bom rótulo cinéfilo para o ano. A produção de Richard Linklater é corajosa, esteticamente inovadora, narrativamente cativante, mas acima de tudo, é cinema bruto. De raiz. Acompanhamos a vida de um menino por doze anos. Simples assim. Mas são doze anos mesmo… Realidade e ficção se embaralham nesse misto de vanguarda e nostalgia que Linklater forjou. Ensimesmados, agradecemos!

 K

Direção: Dan Gilroy

Lançamento original: 2014

País: EUA

Qual a relação entre a deturpação do sonho americano e o sensacionalismo midiático? Talvez não haja nenhuma, mas talvez haja. “O abutre” certamente flerta com a possibilidade ao mostrar a súbita ascensão de um homem sem grandes ambições como cinegrafista de tragédias nas noites de Los Angeles. Um aterrorizante Jake Gyllenhaal dá o tom de um dos filmes mais subversivos e pungentes da temporada.

Ela - versão final

Direção: Spike Jonze

Lançamento original: 2013

País: EUA

Pode o grande romance do ano ser entre um homem e um sistema operacional? Pode sim! Mas “Ela” é muito mais do que isso. É um olhar tenro para nossa necessidade de conexão. Um vaticínio sobre esses tempos de solidão e uma deliciosa crônica sobre amar, não necessariamente sobre o amor – ainda que a relação seja intrínseca. “Ela” é cult, pop, inteligente, anacrônico, hi-tech , ficção científica e romance. Esse hibridismo bem adornado por Spike Jonze amarga e adoça como tudo que é realmente bom na vida.

 Garota exemplar - versão final

Direção: David Fincher

Lançamento original: 2014

País: EUA

Uma tenaz análise do casamento e de seus e efeitos sobre o individuo e sobre o casal ao longo dos anos no mesmo compasso que é uma crítica virulenta à sociedade do espetáculo. Tudo em ritmo de thriller. David Fincher, com sua elegância habitual, entrega outro filme maiúsculo com turns e subplots sempre impactantes e cativantes. Ben Affleck nunca esteve melhor e Rosamund Pike, mais assustadora. “Garota exemplar” é um filme salutar em todos os seus arranjos e dividendos.

 O lobo de Wall Sreet - versão final

Direção:  Martin Scorsese

Lançamento original: 2013

País: EUA

Uma obra-prima moderna. É um neoclássico. Adjetivos à parte, essa crônica da ganância insolvente alinhada por Martin Scorsese a partir de um caso real saído da Wall Street dos anos 90 é puro cinema de imersão. Da fotografia convidativa à alucinada atuação de Leonardo DiCaprio, “O lobo de Wall Street” transborda na tela com sua incorreção política, seus inúmeros “fuck” e o olhar potente de um cineasta no auge de sua forma.

Fotos: montagem sobre imagens de divulgação

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domingo, 28 de dezembro de 2014 Análises, Filmes | 16:12

Retrospectiva 2014 – Quais foram os principais temas do cinema no ano?

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Falou-se de amor, claro, em 2014. Mas o cinema recepcionou e abraçou outros temas tão complexos e multifacetados como o amor e outros que se fundem ou se distanciam dele.  Philippe Garrel, a quem coube o espólio da Nouvelle Vague, analisa o amor sob o prisma do ciúme, cuja escala e intensidade dividem opiniões no mesmo compasso em que o dito cujo se manifesta em “O ciúme”. Produções como o chileno “Gloria” abordam o amor sob uma perspectiva incomum. A do amor próprio. Cinquentona, a personagem título do filme, que estreou no Brasil em fevereiro, busca se amar mais, se respeitar mais e se ouvir mais do que se entregar aos homens com quem flerta de quando em quando.

Os brasileiros “Boa sorte” e “Latitudes”, este último um projeto estético tão interessante que merece menção posterior, abordam amores transversais. No primeiro, o encontro do jovem incompreendido que sente que não vive, com a moça cheia de arrependimentos próxima da morte, mas que sente tesão por viver. No segundo, o tempo e o espaço valsam com os sentimentos enquanto os protagonistas vivem uma história de amor não assumida em viagens por diversas cidades do mundo.

Finalmente, “Será que?”, estrelado pelo Harry Potter que cada vez mais vira Daniel Radcliffe, o dilema que assola muitos homens e mulheres. Será que eu e ela ficamos só na amizade mesmo?

O preto e branco frio de "O ciúme": o amor vai ao divã no cinema em 2014

O preto e branco frio de “O ciúme”: o amor vai ao divã no cinema em 2014

Dilema este que parece superado em ‘Os amigos”, outra perola nacional de 2014, que faz um elogio da amizade. Os personagens de Marco Rica e Dira Paes parecem ter superado este dilema. Parecem. Em “Mesmo se nada der certo”, os protagonistas (Keira Knightley e Mark Ruffalo) também parecem interessados um no outro, mas na verdade têm o incrível interesse pela música (e o coração partido) em comum. Dessa afinidade surge um filme que enfatiza a necessidade de se apreciar a vida.

O amor ainda rimou com tecnologia em 2014, com o lançamento de “Ela”, fábula romântica moderna de Spike Jonze. Nossa necessidade de conexão é tão profunda que nos apaixonarmos por um sistema operacional não é uma realidade distante. Assim como não é o debate acerca de drones aventado por José Padilha no remake que fez de “Robocop”. A fusão de homem e máquina e o alvorecer da inteligência artificial também são o cerne de “Transcendence – a revolução”. O filme é ruim, mas a discussão é boa.

Houston, nós temos um problema

Por falar em filme ruim, este foi o ano de “Interestelar”. A produção de Christopher Nolan pode ser ruim, mas não deixa de ser interessante. Além do mais, levou para o cinema a física e colocou teoria da relatividade, buraco de minhoca e outras “doideiras” em discussões de quem nem sequer gosta de ouvir que dois corpos não ocupam o mesmo lugar. A grande sacada de “Interestelar”, talvez, seja a solução desenhada por Nolan subliminarmente. A felicidade deve ser perseguida, mas é uma impossibilidade vivê-la. Woody Allen, de uma maneira completamente diferente, aperta o mesmo nervo em “Magia ao luar”. Allen questiona se vale a pena renunciar ao ceticismo de toda uma vida e abraçar a fé no oculto como forma de conquistar certa paz espiritual. Terry Gilliam também rabisca a física para produzir o mesmo comentário em “O teorema zero”, em que Christoph Waltz enlouquece à espera de um telefonema que lhe revelaria a razão da existência. Já em “Nebraska”, um homem comum, que levou uma vida pacata com mais erros do que acertos, resolve fazer uma longa viagem para resgatar um prêmio que não existe. Essa opção pela ilusão é um comentário certeiro do cineasta Alexander Payne sobre a impossibilidade de se ser feliz e dos mecanismos que desenvolvemos para nos ludibriar. “Trapaça” complementa o ensejado por “Nebraska” ao mostrar personagens que tentam se reinventar enquanto querem mais. Mais vida. Mais amor. Mais sucesso. Mais dinheiro. Mais tudo.

A solidão da hiperconectividade é destaque em "Ela"

A solidão da hiperconectividade é destaque em “Ela”

Já “Refém da paixão”, mostra uma mulher depressiva que começa a se interessar pelo homem que a faz refém em sua casa. Melodrama romântico, o filme de Jason Reitman mostra como o amor ainda é a senha para que muitas pessoas se considerem felizes.

O mesmo Jason Reitman, em “Homens, mulheres e filhos” observou como a internet recodificou algumas angústias humanas. No filme, que de certa forma se comunica com “Ela”, a tecnologia é uma fuga, uma janela para a alma. Mas internamente ainda corroemos.

Relações corroídas entre pais, filhos e irmãos, aliás, também deram o que falar nos dramas mostrados em diferentes intensidades no canadense “Mommy”, no americano “O juiz” e no belo japonês “Pais e filhos”.

 

A intimidade devassada

“Garota exemplar”, seguramente um dos highlights do ano, é um filme com muitas camadas. É o mais brilhante e perturbador retrato sobre o casamento que o cinema viu em muito tempo. É, também, uma crítica espirituosa das traquinagens da mídia e da sociedade do espetáculo. Nesse departamento, outros ótimos filmes lançados em 2014 compõem um panorama ainda mais avassalador. São eles “O abutre”, “Tudo por um furo” e “O mercado de notícias”.

Mas quem aprecia “Garota exemplar” pelo ótimo insight que proporciona sobre o matrimônio merece assistir “O passado”, incursão pelo cinema francês do iraniano Asghar Farhadi.

Ben Affleck em "Garota exemplar": um casamento devassado

Ben Affleck em “Garota exemplar”: um casamento devassado

Os dois filmes investigam os efeitos da passagem do tempo sobre a intimidade conjugal e a passagem do tempo é o parâmetro absoluto de duas obras esteticamente inovadoras que ensolararam 2014. “Boyhood – da infância à juventude” e “Amantes eternos”. O primeiro, filmado ao longo de 12 anos, embaralha realidade e ficção em uma narrativa que transborda sentimento e familiaridade. Já o segundo, mostra o desencanto de dois milenares vampiros com os rumos da humanidade.

Desencanto parece ser a palavra de ordem que une três das produções mais fortes e marcantes do ano. Lá de janeiro, “O lobo de Wall Street”, com sua incorreção política e descaramento em nos falar verdades incômodas, encontra referência em “O abutre” e “Era uma vez em Nova York” no sentido dos três alinharem uma deturpação do sonho americano.

Um tema que se fez notar com desenvoltura rara em 2014 nos cinemas foi a masculinidade. À parte os brucutus de “Os mercenários 3”, o que é ser homem foi a matéria prima de filmes tão diversos como “A recompensa”, com o melhor monólogo sobre um pênis já feito no cinema, e “Tudo por justiça”, em que os códigos masculinos são revistos com interesse antropológico. Já no argentino “O que os homens falam”, a ideia é sublinhar essa tendência masculina de se mostrar mais vulnerável. Esse intento também se verifica em “Praia do futuro”, que erroneamente é percebido apenas como “um filme gay”. Não há uma personagem feminina no filme e o objetivo primário é debater a maneira como o homem, homossexual ou heterossexual, lida com o afeto.

O mundo essencialmente masculino de "O lobo de Wall Street", novo petardo de Martin Scorsese sobre o desvirtuamento do sonho americano

O mundo essencialmente masculino de “O lobo de Wall Street”, novo petardo de Martin Scorsese sobre o desvirtuamento do sonho americano

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sábado, 27 de dezembro de 2014 Filmes, Listas | 10:28

Retrospectiva 2014 – Os dez grandes personagens do ano no cinema

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10 – Lucy (Scarlett Johansson) no filme “Lucy”

personagens - Lucy

Uma jovem alienada que se transforma em mula (para transporte de drogas) e que vira uma heroína superpoderosa. Essa é Lucy, que vê a capacidade de uso do seu cérebro aumentar vertiginosamente após ingerir uma determinada substância no descolado e original filme de Luc Besson. Lucy é a principal porta-voz, nas bilheterias principalmente, de um movimento feminista que o cinema viu em 2014 com o sucesso de produções como “Malévola”, “Divergente” e “A culpa é das estrelas”.

9 – Woody Grant (Bruce Dern)  em “Nebraska”

personagens - woody

Você já se sentiu injustiçado pelo rumo que a sua vida tomou? É mais ou menos assim que Woody se sente, mas o personagem defendido com bravura por Bruce Dern rejeita assumir sua cota de responsabilidade na vida que agora se encontra no derradeiro ato. Passa por aí o desejo irrefreável de sacar um prêmio que não existe. Intragável de um jeito doce, Woody representa o fracasso que tentamos esconder embaixo do tapete.

8 –  Cornelia (Luminita Gheorghiu) em “Instinto materno”

personagens - Cornelia

Que mãe não faria tudo por seu filho? Nesse poderoso exemplar do cinema romeno, Cornelia personifica o paraíso e o inferno dessa constatação. Depois que seu filho se vê envolvido no atropelamento e morte de um menino pobre, Cornelia se engaja de corpo e alma para evitar que seu filho vá para a prisão. O desprendimento dessa mãe, que por vezes ultrapassa certos limites éticos, confere sentido à pergunta que todos veem como clichê.

7 – Gretta (Keira Knightley) em “Mesmo se nada der certo”

Personagens - Gretta

Depois de abandonada pelo namorado, enamorado com a fama conquistada como cantor, Gretta se vê só e triste pelas ruas de Nova York. Instigada por um produtor musical decadente que vê nela uma estrela adormecida, Gretta decide cantar as composições agridoces de um repertório muito pessoal. Iluminada pelo jeito dengoso de Keira Knightley, a personagem é a mais solar e vibrante da lista e, possivelmente, do cinema em 2014.

6 – Johanna Parry (Kristen Wiig) em “Amores inversos”

personagens - johanna

A apatia pode ser apenas aparente? Essa personagem melancólica e, ainda assim, extremamente cativante sugere que sim. Por trás de uma timidez e de uma ingenuidade acintosas, Johanna esconde uma fé no ser humano e um amor ao próximo que chocam por parecerem totalmente inadequados aos tempos em que vivemos. Aos poucos, ela vai mudando a vida daqueles com quem passa a conviver, especialmente o ex-presidiário traumatizado interpretado por Guy Pearce.

5 – Romina (Erica Rivas) em “Relatos selvagens”

personagens - Romina

Imagine descobrir no dia do seu casamento que aquele que agora é seu marido já estava te traindo e que ainda convidou o affair para a cerimônia? Esse horror se abate sobre Romina que reage como o turbilhão que se espera do sangue latino. Romina grita, dança, transa com o cozinheiro e faz muito, mas muito mais para exorcizar os fantasmas passados. Ah, se soltássemos mais vezes a Romina que existe em todos nós…

4 – Mason (Ellar Coltrane) em “Boyhood – da infância à juventude”

personagens  - Mason

Ver um personagem crescer no mesmo compasso que o ator que o interpreta foi uma experiência nova que 2014 proporcionou aos cinéfilos. Mason é um garoto como outro qualquer e podemos observar sua formação pelos olhos sempre carinhosos do cineasta Richard Linklater. Mas um garoto qualquer, como todos nós sabemos, vive momentos extraordinários.  Por mais comuns que eles sejam.

3 – Nick Dunne (Ben Affleck) em “Garota exemplar”

personagens  - Nick Dunne

A escolha óbvia seria listar Amy, a mulher de Nick que some no quinto aniversário de casamento deles. Mas se Amy vai se revelando fascinante com o tempo, Nick exala normalidade tremulante conforme o filme avança. No entanto seu aspecto banal é posto à prova à medida que a suspeita de que matou sua esposa vai se consolidando. Das escolhas que faz à representação de sua melhor versão, Nick é um enigma à altura de Amy. Ou vice-versa.

2 – Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) em “O lobo de Wall Street”

personagens  - jordan

Como um implacável lobo das finanças, Belfort é o único personagem da lista que tem ascendência na realidade. Carismático, profano, competitivo e extremamente perspicaz, Belfort faz o crime parecer algo menor do que de fato é. Essa malemolência o distingue como um tipo singular em nossa sociedade, que nos desperta misto de desprezo e admiração, e o torna necessário a Wall Street como o oxigênio é para nossa sobrevivência.

1 – Lou Bloom (Jake Gyllenhaal) em “O abutre”

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Com um visual perturbador e uma atitude que, aos poucos, vai se revelando sociopata , Bloom é o personagem do ano pela urgência que nos aflige a investigá-lo dentro de nós mesmos e pelo horror que nos enseja quando finalmente o fazemos. Diferente de Belfort, que é real, Bloom é uma alegoria de nossa vergonha; e como tal é acachapante.

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014 Críticas, Filmes | 06:00

“O abutre” fustiga e examina odores da sociopatia pós-moderna

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Existem filmes que nascem de outros filmes e filmes que nascem da necessidade de expandir a reflexão ensejada por outros filmes. “O abutre”, primeiro filme dirigido por Dan Gilroy, cujos créditos como roteirista compreendem “O legado Bourne” e “Gigantes de aço”, é um desses casos.

A primeira vez que pousamos os olhos sobre Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) ele está por roubar uma grande quantidade de fio de cobre. Entre essa cena e a cena seguinte, em que ele tenta vender o material coletado, acontece algo que sugere que o personagem está disposto a cruzar limites moralmente estabelecidos na busca pela sobrevivência. Sem emprego e com tempo ocioso, Bloom acaba se interessando pela atividade de nightcrawler, que na falta de uma definição correspondente no Brasil, seria um cinegrafista freelancer que fica ouvindo a frequência da polícia à cata de ocorrências que possam interessar aos primeiros jornais da manhã. Bloom se diz alguém que aprende rápido e ao vê-lo em ação, o espectador não discorda. É um personagem com ecos do Travis Bickle de Robert De Niro em “Taxi Driver” e “O abutre” é um filme que ecoa outras grandes produções que se predispunham a discutir os limites do jornalismo como “O quarto poder” e “Rede de intrigas”. A fusão dessas suas forças cinematográficas resulta em um filme assustador no que radiografa de nossa sociedade.

Os fins justificam os meios ou os meios levam a um diferente fim? Louis Bloom é a dor de dente da sociedade em "O abutre"

Os fins justificam os meios ou os meios adotados levam a um diferente fim? Louis Bloom é a dor de dente da sociedade em “O abutre”

Bloom vai se destacando no ofício e conseguindo material cada vez mais “sangrento” como define a produtora de um jornal matutino (Rene Russo) com quem Bloom desenvolve uma estranha e complexa conexão. Os jornais locais, expõe Bloom após pesquisar a respeito, constroem sua audiência em cima do noticiário urbano, majoritariamente dedicado às ocorrências policiais. Se você pensou em “Cidade alerta” e congêneres acertou o nervo que Bloom fica obsessivo em pressionar.

Com o tempo, a moral passa a ser uma nuvem carregada sobre a cabeça de Bloom que parece não hesitar em interferir em cenas de acidentes ou manipular situações para conseguir ângulos melhores para vender. “Se você está me vendo, é porque está tendo o pior dia da sua vida”, diz em certo momento em um misto de autopromoção profissional e escárnio.

Girloy, que assina o surpreendente roteiro, não faz de Bloom um vilão. Mas um produto do seu meio. No entanto, o cineasta provoca uma inflexão. A obstinação de Bloom, seu faro para a amoralidade, para o grotesco, não indicam o contrário? O sucesso galopante do novato não indica ser ele capaz de fazer do meio um produto seu? Em dado momento, acuado por seu funcionário Rick (Riz Ahmed) Bloom faz uma admissão tenebrosa: “ e se não for o caso de eu não entender as relações humanas, mas simplesmente não gostar das pessoas?”.

Empatia, asco e necessidade de sobrevivência são os três pilares que sustentam a relação dos personagens de Russo e Gyllenhaal  (Fotos: divulgação)

Empatia, asco e necessidade de sobrevivência são os três pilares que sustentam a relação dos personagens de Russo e Gyllenhaal
(Fotos: divulgação)

Pincelado nas sombras e na marginalidade da sociedade, Bloom é a personificação da sociopatia pós-moderna. O patrocinador dessa anestesia emocional mitigada por uma sociedade que sensacionaliza e se deixa sensacionalizar. Gyllenhaal, por sua vez, é o fiador desse retrato perturbador. O ator perdeu onze quilos para o papel e deixou os ossos da face bem sobressaltados. Os olhos verdes frequentemente arregalados contribuem para a aparência incômoda do personagem, que realmente nas pequenas atitudes do dia a dia lembra um abutre, na acepção carniceira do termo. Além da fisicalidade da atuação, Gyllenhaal aposta em nuanças que tornam Bloom um enigma desestabilizador para a plateia. Uma performance que conjuga coragem e expertise em uma escala que aumenta a potência de “O abutre” enquanto cinema.

“O abutre” está menos interessado em discutir os padrões e limites da mídia, embora a discussão esteja ali, implícita na relação entre a produtora e o editor-chefe do jornal que parece não ter voz ativa, e mais na perversão do sonho americano (e o final do filme traz uma fala que agrega sentido estupendo a essa percepção) e na relação doentia que travamos com o próximo.

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