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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017 Críticas, Filmes | 13:01

Entre falhas e acertos, “A 13ª Emenda” acena para América mais humanizada

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Documentário, já em cartaz na Netflix, concorre ao Oscar 2017 na categoria e se destaca pelo ponto de vista forte e substancial que a cineasta Ava DuVernay emprega na narrativa

A cineasta Ava DuVernay e o político republicano Newt Gingrich pouco antes de uma das entrevistas do documentário

A cineasta Ava DuVernay e o político republicano Newt Gingrich pouco antes de uma das entrevistas do documentário

“Entender o que é ser um negro nos Estados Unidos é algo que branco algum jamais poderá fazer”, diz o ex-congressista e ex-pré-candidato à presidência dos Estados Unidos pelo partido Republicano Newt Gingrich a certo ponto de “A 13ª Emenda”, fulminante documentário da cineasta Ava DuVernay (“Selma: Uma Luta pela Igualdade”), indicado ao Oscar 2017 de melhor documentário. Este é um momento chave do filme, que parece ungido da missão de convencer o espectador de que a constatação de Gingrich procede.

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O ponto partida de “A 13ª Emenda” é original, relevante e um convite à reflexão. DuVernay se vira para um problema crônico dos Estados Unidos desde a emancipação dos direitos civis na década de 60, quando a população negra após muito sofrimento conseguiu assegurar acesso a alguns direitos básicos: a elevação constante da população carcerária. Desnecessário dizer que neste boom, que ainda hoje está em alta, há preponderância de minorias como negros e latinos.

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O grande mérito do filme não é propor uma reflexão, mas se materializar como um alerta. DuVernay tem uma verdade a defender. A de que a elite branca precisou reagir a 13ª emenda na constituição americana que pôs fim definitivo à escravidão. Era preciso encontrar uma nova maneira de sustentar a economia sulista, toda ela dependente da mão de obra escrava. Esse raciocínio foi evoluindo – e a maneira como o doc trabalha o impacto do filme “O Nascimento de uma Nação” no imaginário cultural da época é um achado – até que o preconceito racial, mais velado à maneira que mais se enraizava, virou uma commodity política que tanto democratas como republicanos exploraram ao longo dos anos.

Cena de A 13ª Emenda (Fotos: divulgação)

Cena de A 13ª Emenda
(Fotos: divulgação)

DuVernay obviamente dá voz a especialistas simpáticos à visão de mundo e do problema que o documentário defende. Mais do que especialistas, grande parte dos entrevistados são ativistas. Não há nenhum problema nisso. No entanto, a fragilidade do filme reside no pouco espaço dado às divergências. Quando um ponto de vista adverso surge, há um tom de ridicularização intermitente. DuVernay peca, ainda, por alterar a sistemática de seu documentário quando Barack Obama assume a Casa Branca. Ela muda os parâmetros até então empregados e prefere atacar a indústria do lobby a submeter Obama ao mesmo escrutínio imposto a Clinton, Bush, Reagan, Nixon e os demais.

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Esse subterfúgio enfraquece o discurso que o filme defende, mas não mina seus méritos. “A 13ª Emenda” é aquele tipo de filme necessário. Que precisa passar nas escolas e que deve estimular todo um debate sobre ele. Entre seus acertos e erros como cinema, salva-se a nobre intenção de contribuir para uma América mais humana.

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 01:05

Direção potente reforça discurso politizado de “Selma”

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Existem filmes que são impulsionados por sua importância histórica, é o caso de “Selma” (EUA, 2014) que reverbera um dos mais importantes episódios da cruzada de Martin Luther King Jr. pela igualdade e liberdade civis na década de 60.

Dirigido por Ava DuVernay com mão de ferro, “Selma” é um filme que está sendo contestado por suas imprecisões históricas, elas existem e não são poucas, mas uma forma mais amistosa de se olhar para o filme é reconhecer nele um ponto de vista muito forte.  O drama recria a tentativa de King liderar uma marcha entre as cidades de Selma e Montgomery, no estado sulista do Alabama – um dos mais segregacionistas da América de então. O filme acompanha esses bastidores, a resistência do governador George Wallace (Tim Roth) e a leniência do presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson). É justamente esse retrato vilanizador de Johnson que tem sido bastante questionado. As costuras políticas eram naturalmente delicadas e Johnson precisava vencer muita resistência política para atender aos anseios dos negros. O anseio em relevo em “Selma” era o do direito ao voto, na prática sufocado por tabeliães larápios e racistas. King defendia uma legislação federal que derrubasse todas as restrições para que eleitores negros se registrassem. Johnson, na leitura do filme, hesitava em atender essa demanda que no entendimento de King bastaria uma canetada.

Um King humanizado, mas ainda extremamente cativante, surge em "Selma" (Foto: divulgação)

Um King humanizado, mas ainda extremamente cativante, surge em “Selma”
(Foto: divulgação)

Não se deve exigir de “Selma” pureza histórica, mas sim fidelidade aos fatos. Nesse aspecto, o filme é feliz. Não há distorções ou ilações, apenas a expressão contundente e vigorosa de um ponto de vista, discorde-se dele ou não. DuVernay fez um filme sobre um ícone americano, hoje louvado e incensado em todo o país, mas que nem sempre foi visto desta maneira. Seu filme começa com King aceitando o prêmio Nobel da Paz. A cineasta propõe com este recorte o seguinte raciocínio: Está aqui um homem que não deseja lutar contra o sistema, mas que tenta fazer com que este sistema seja mais justo, democrático e humano. É um raciocínio irresistível. Difícil de resistir também é o olhar que ela lança sobre King, interpretado soberba e emocionantemente por David Oyelowo. Um líder humano, falho, cheio de medos e abraçado a sua fé em Deus e no homem, o King que surge em “Selma” está longe do mito que muitos reverenciam, ainda que seja talhado para admiração. Nesse sentido, o filme desvia tanto King quanto Johnson do veredito histórico que receberam e essa constatação revela que as críticas ao filme por sua obtusidade histórica nada mais são do que  má vontade para com uma obra com um discurso tão forte e clamoroso por justiça social, algo que tanto nos Estados Unidos como no Brasil, ainda parece circunscrito ao sonho que King ousou sonhar.

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