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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015 Filmes, Listas | 16:58

Retrospectiva 2015: Os vinte melhores filmes do ano

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Foi um ano intenso. Não só no cinema. Mas talvez o cinema seja o melhor fórum para uma análise dessa natureza. A pluralidade dos filmes selecionados pelo Cineclube para compor esse ranking do que de melhor surgiu no Brasil (cinema, VOD, home vídeo, etc) entre janeiro e dezembro de 2015, garante a satisfação de quem gosta de cinema em toda a sua plenitude.

Uma boa passagem de ano para todos os leitores e nos vemos em 2016!

20 – Força Maior”, de Ruben Östlund  (Suécia, 2014)

Um olhar frio, distante e irreversível sobre a dinâmica familiar burguesa contemporânea em um filme sem medo de inconveniências.

19 – “A Visita”, de M. Night Shyamalan (EUA, 2015)

Shyamalan redescobre a simplicidade narrativa em um filme que tem sustos, sim, mas tem muito mais coração

18 – “Um Amor a cada Esquina”, de Peter Bogdanovich (EUA, 2014)

O maior trunfo do cinema é a imaginação nesta comédia deliciosa que homenageia Hollywood com inteligência e delicadeza

Foxcatcher: o que não é mostrado move o poderoso filme de Bennett Miller

Foxcatcher: o que não é mostrado move o poderoso filme de Bennett Miller

17 – “A Pequena Morte”, de Josh Lawson (Austrália, 2014)

A ideia de normalidade é afastada em um filme que a partir de inusitados fetiches sexuais fala da nossa necessidade de conexão

16 – “Love 3D”, de Gaspar Noé (FRA, 2015)

A sexualização do amor, intangível como só ela, é tateada com fatalismo romântico pelo polêmico Gaspar Noé em um filme que fala à alma de um jeito muito particular

15 – “Divertida Mente”, de Pete Docter (EUA, 2015)

Você se sente exposto, representado e compreendido pelo filme que melhor combina emoção e diversão na temporada

14 – “Foxcatcher – um Crime que Chocou o Mundo”, de Bennett Miller (EUA, 2014)

O patriotismo distorcido de uma América competitiva dá o tom desse filme de muitas camadas e grandes atuações

13 – “O Jogo da Imitação”, de Morten Tyldum (EUA/INGL 2014)

O academicismo de Tyldum realça a boa história de Alan Turing, mas é Benedict Cumberbatch quem faz do filme algo a mais

12 – “À Beira-Mar”, de Angelina Jolie (EUA, 2015)

O inverno do amor é flagrado em toda a sua dor e agonia em um filme que se constrói nos detalhes de uma relação amorosa implodida

À Beira Mar: Quando o amor só exite pelo ódio, o que fazer?

À Beira Mar: Quando o amor só exite pelo ódio, o que fazer?

11 – “Que Horas ela Volta?”, de Anna Muylaert (Brasil, 2015)

Dando nome aos bois dessa coisa de ser mãe é padecer no paraíso e, no ínterim, revelando a dicotomia do Brasil de duas gerações diferentes

10 – “Ponte dos Espiões”, de Steven Spielberg (EUA, 2015)

Thriller de espionagem de alta voltagem rima com filme edificante? Spielberg faz crer que sim

9 – “Mapa para as Estrelas”, de David Cronenberg (EUA/FRA,2014)

Hollywood, esse lugar de gente doida, esquisita e esculhambada por David Cronenberg

8 – “Casa Grande”, de Fellipe Barbosa (Brasil, 2015)

O derretimento da classe média no pós-Lula ganha o cinema com um filme articulado, reflexivo e com muito a dizer

7 – “A Gangue”, de Miroslav Slaboshpitsky (UCR, 2014)

Nosso fôlego se esvai com um dos filmes mais duros e violentos dos últimos anos. O fato de não haver som e todos os diálogos serem na linguagem de sinais torna tudo mais impactante

6 – “Kingsman: Serviço Secreto”, de Matthew Vaughn (EUA 2015)

Nenhum filme foi tão eficiente em simplesmente entreter como este aqui. De quebra, cinismo em alta, cenas de ação estilosas e o melhor vilão do ano

Kingsman: Porque o cinema também é diversão pura e simples

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5 – “Corrente do Mal”, de David Robert Mitchell (EUA, 2015)

O terror mais original em anos no cinema conta uma história de amor que vai ganhando gravidade e sentido e torna a resolução ainda mais assustadora

4 – “Beasts of No Nation”, de Cary Fukunaga (EUA, 2015)

O horror irrefreável de uma África esquecida que força suas crianças a se demonizarem para subsistir é um dos filmes paradoxalmente mais lindos do ano. E mais cruéis também!

3- “Whiplash – Em Busca da Perfeição”, de Demien Chazelle (EUA, 2014)

A música e a obsessão compõem um soneto perfeito neste filme pulsante, cheio de energia e que se recusa a deixar o espectador a sós com seus pensamentos

2- “Mad Max: Estrada da Fúria”, de George Miller (EUA, 2015)

A ópera do caos em toda a sua fúria, cor e excelência. Nenhum outro filme cravou-se no imaginário popular quanto esse petardo de estilo de Miller. O cinema de ação se despede outro de 2015

1 – “Birdman – ou a Inesperada Virtude da Ignorância”, de Alejandro González Iñárritu (EUA 2014)

Um pequeno conto sobre vaidade, insegurança e outras coisitas mais com Hollywood como pano de fundo. Imperdível.

Birdman: Porque a eletricidade do registro faz a inteligência da história crescer de tamanho

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015 Filmes, Listas | 17:37

Retrospectiva 2015: Os dez melhores personagens do ano

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Foi um ano de muita vaidade e alguma idealização. Pelo menos, é isto o que a listas dos melhores personagens do ano no cinema indica. O Cineclube fez um apanhado dos personagens mais cativantes, fascinantes, inusitados e curiosos que pintaram em nossas telas em 2015 e separou os dez que melhor se posicionaram neste crivo a seguir.

10 – Richmond Valentine (Samuel L. Jackson) em “Kingsman: Serviço Secreto”

Foto: divulgação

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O megalomaníaco vilão de língua presa defendido com gosto por Samuel L. Jackson é um dos maiores baratos do ano. Ele tem pavor de sangue e não suporta cenas de violência, mas quer extinguir a humanidade em favor de um deturpado conceito ambientalista. O melhor vilão de Bond do ano não veio de um filme de James Bond.

9 – Frank (Michael Fassbender) em “Frank”

Foto: divulgação

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Um rockstar que não tira para nada sua cabeça de dentro de uma gigantesca cabeça artificial. O Frank que Michael Fassbender tonaliza com muita sutileza é mais uma construção de John (Domhnall Gleeson), um sujeito que sempre sonhou fazer parte de uma banda de rock, do que o Frank de verdade. A peculiaridade desse vocalista incomum acentua o niilismo do registro. Trata-se de um filme sobre a magia de se produzir música e todas as idiossincrasias que vem com ela.

8- Abe (Joaquin Phoenix) em “Homem Irracional”

Foto: Divulgação

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Joaquin Phoenix dá vida a esse professor de filosofia desencantado com a existência. Barrigudo, taciturno, alcoólatra e sucesso entre as mulheres com seu pessimismo crônico. Tudo muda de figura quando ele decide matar alguém e recobra o gosto pela vida. Phoenix, com sua gravidade obtusa, calça o personagem sem afetação e com muita propriedade.

7 – Philip Friedman (Jason Schwartzman) em “Cala a boca Philip!”

Foto: divulgação

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Sob muitos aspectos, o protagonista dessa perola indie Americana é uma derivação de Abe, mas o personagem do sempre hiperbólico Jason Schwartzman é movido pelo egoísmo e não pelo desencanto. Ele não aceita que o mundo não gire a seu redor e esse egocentrismo é posto à prova à medida que a pressão por um novo livro (ele é escritor) se estabelece. Cheio de tiques e resistente a intimidades, Philip é um dos personagens mais estranhos, originais e verossímeis do ano.

6 – Shasta Fay (Katerine Waterson) em “Vício Inerente”

Foto: divulgação

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Larry nunca mais foi o mesmo depois que Shasta o deixou. O detetive deu um tempo na sua brisa para atender um pedido da ex: encontra o atual namorado dela. Katherine Waterson não tem muito tempo em cena, mas faz maravilhas com o que tem. Ela faz com que Shasta seja um mistério incandescente muito mais atraente do que saber o que de fato aconteceu com o rico namorado da personagem.

5 – Isabella Patterson (Imogen Poots) em “Uma Amor a Cada Esquina”

Foto: divulgação

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Trata-se de outra personagem construída. A Isabella, estrela de cinema, que está dando uma entrevista logo na abertura de “Um Amor a Cada Esquina”, delicioso novo filme de Peter Bogdanovich, não é a mesma que vamos descobrindo cena após cena. A brincadeira aqui é com a ideia de Hollywood como um todo, mas também sobre como nossos sonhos podem nos transformar em pessoas melhores. Ela é um oásis em meio a tanto narcisismo na lista.

4 – Havana Sagrand (Julianne Moore) em “Mapa para as Estrelas”

Foto: divulgação

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Totalmente diferente de Isabella, Havana Sagrand é a vaidade em sua mais irresoluta forma. A atriz, incomodada com seu envelhecimento, decide dar um boom na carreira ao viver um célebre papel imortalizado por sua mãe no cinema. Mas há pouco interesse dos realizadores em contar com ela na refilmagem. Na fogueira de vaidades que queima nesse valoroso petardo de David Cronenberg, Havana é das coisas mais geniais, brutais e constrangedoras que existe.

3 – Riggan Thomson (Michael Keaton) em “Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância”

Foto: divulgação

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Já que a masturbação interpretativa foi grande em 2015, nada mais justo do que o personagem mais falho, apaixonante e contraditório do ano pintasse por aqui. O Riggan construído por Michael Keaton a sua imagem e semelhança é um sujeito inseguro e que não sabe ao certo distinguir ambição de ganância. É um sujeito com medo de ver até onde vai o seu talento, mas com coragem o suficiente para tentar descobrir.

2 – Terence Fletcher (J.K Simmons) em “Whiplash – Em Busca da Perfeição”

Foto: divulgação

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O professor que se recusa a formar músicos medíocres foi, sem dúvida, um dos personagens mais chocantes do ano. Divertido em seu sadismo incontido, Fletcher e seus métodos para lá de incomuns dividem opiniões. É louvável sua disposição de romper com as convenções de uma sociedade complacente, mas o custo pode ser alto demais. Simmons, oscarizado por seu desempenho, dá ao personagem a necessária complexidade.

1 – Furiosa (Charlize Theron) em “Mad Max: Estrada da Fúria”

Foto: divulgação

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O filme se chama Mad Max, mas quem se importa? O mais explosivo, sensacional e impactante filme do ano é todo dela. Imperator Furiosa. O nome já a tira do lugar comum e Charlize Theron a vive com o misto de gana e excentricidade necessários para cravar a personagem no coração da cultura pop. Nada mais justo do que o topo do ranking do Cineclube.

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quarta-feira, 25 de março de 2015 Análises, Filmes | 19:36

Devassando Hollywood: um paralelo entre “Birdman” e “Mapas para as estrelas”

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Dois filmes recentes de cineastas com profunda veia autoral tratam de cinema. Em suas generalidades e minúcias, “Birdman” e “Mapas para as estrelas” compartilham de muitas ideias e antagonizam em tantas outras.

O grande vencedor do Oscar 2015, ainda que tonificado pelo humor negro, é menos ácido que o filme de David Cronenberg. Alejandro González Iñárritu faz uma crítica dura ao establishment hollywoodiano, mas construtiva, digamos assim. É possível, seja o espectador um ator ou não, se identificar com o conflito vivido por Riggan Thomson (Michael Keaton). Um astro de uma franquia de ação em busca de relevância artística na Broadway. “Birdman” não caçoa da fragilidade de Thomson, tampouco o poupa. Iñárritu sublinha a frivolidade do personagem, seu ego irrefreável em cenas como quando ele conta sobre o quase desastre de avião que sofreu ou nas conversas com a ex-mulher em que vislumbramos o terror da convivência com um ser humano incapaz de enxergar limites para suas vontades.

Crítica: Do que falamos quando falamos de “Birdman”?

Em “Mapas para as estrelas”, qualquer identificação com Havana Segrand (Julianne Moore) é mais difícil. A atriz deseja expurgar o fantasma da mãe, com quem tinha uma difícil relação, ao assumir o papel que a consagrou em um remake de um filme premiado. Havana é intratável, arrogante e cheia de inseguranças. É como Thomson talvez fosse enquanto estrelava a franquia Birdman. Mas Havana está em decadência e sabe disso. Daí Cronenberg submetê-la a um escrutínio que não existem em “Birdman”. A chance de redenção é vista no horizonte, mas trata-se de uma miragem. Hollywood te come vivo, sugere o cineasta com seu final surrealista.

Crítica: Cronenberg ridiculariza Hollywood com sátira delirante em “Mapas para as estrelas” 

 

Diálogos existencialistas em "Birdman" revelam o lado sombrio de Thomson (Foto: divulgação)

Diálogos existencialistas em “Birdman” revelam o lado sombrio de Thomson
(Foto: divulgação)

A rejeição é um fantasma que assombra Havana, a materialização de um estilo de vida em Hollywood (Foto: divulgação)

A rejeição é um fantasma que assombra Havana, a materialização de um estilo de vida em Hollywood
(Foto: divulgação)

“Você é uma celebridade”

Em um dado momento de “Birdman”, a crítica teatral megera se vira para Thomson e diz que ele não é um ator, mas uma celebridade. A cena pretende discutir mais o ofício da crítica e a tumultuada e simbiótica relação desta com a indústria cultural do que as diferenças entre um ator e uma celebridade. Já David Cronenberg mergulha mais livremente nessa melindragem conceitual. O astro teen Benjie (Evan Bird), assim como a filha de Thomsom, é egresso de uma clínica de reabilitação e nos remete a Macaulay Culkin. É uma celebridade antes de ser um ator e compreende todos os tiques e obsessões dessa figura alçada ao Olimpo antes mesmo de ter maturidade para entender o que, de fato, é este Olimpo..

“Mapas para as estrelas” é histérico onde “Birdman” se permite ser lírico. O filme de Iñarritu, embora experimental, crítico e incrivelmente original na forma, é muito mais palatável do que o petardo cheio de ironia e malícia de Cronenberg. Por isso, um foi ao Oscar e outro ficou soterrado sob incompreensão e esquecimento.

Se “Birdman” alinhava um comentário sobre o real significado de arte e sua umbilical relação com a fama, com o status, “Mapas para as estrelas” escancara a perversidade incontida nesse status. É uma leitura mais sombria, anárquica e desesperançada do cinema, da arte e da humanidade. Em contrapartida, “Birdman” é duro, mas não pessimista. O Oscar a “Birdman” é o sinal verde para uma discussão de relação. Um hipotético cenário de Oscar para “Mapas para as estrelas” iria além da autocrítica.  Seria dar um tiro na própria consciência!

Fora do arranjo: Cronenberg grafa os absurdos de Hollywood em  um filme que aos poucos se transforma em puro terror

Fora do arranjo: Cronenberg grafa os absurdos de Hollywood em um filme que aos poucos se transforma em puro terror
(Foto: divulgação)

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terça-feira, 3 de março de 2015 Curiosidades, Filmes | 22:43

Vídeo reforça tese de que “Birdman” é uma cópia de “Cisne negro”. Será mesmo?

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Montagem sobre reprodução

Montagem sobre reprodução

O crítico Inácio Araújo foi o primeiro a aventar a semelhança entre “Birdman” e “Cisne negro”. O Cineclube, bem antes da estreia de “Birdman”, já havia notado forte parentesco entre o grande vencedor do Oscar 2015 e outro filme do cineasta Darren Aronofsky. O filme em questão, “O lutador” (2008), predecessor de “Cisne negro”, a exemplo de “Birdman” para Iñarritu, devolveu ao cineasta americano o prestígio junto à crítica e reconfigurou seu cinema.

A comparação entre “Birdman” e “Cisne negro”, no entanto, ganhou musculatura e até mesmo um vídeo imbuído do objetivo de ressaltar as semelhanças entre os filmes. Similaridades estas, que na ótica de Miguel Branco (responsável pela edição do vídeo), se bifurcam tanto na narrativa como na estética. Ele advoga que até mesmo alguns símbolos usados por Aronofsky no filme ambientado na mundo do balé são replicados por Iñárritu em “Birdman”.

É preciso reconhecer que na elaboração visual os filmes são mesmo compatíveis, mas os desfechos de um e outro, como preconizado pela coluna, remetem a “O lutador”.  Além, é claro, do mote de um renegado em busca de relevância e da metalinguagem fluída entre personagem e protagonista, verificada tanto em Michael Keaton  (“Birdman”) como em Mickey Rourke (“O lutador”).

Assista ao vídeo abaixo e tire suas próprias conclusões:

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015 Análises, Críticas | 03:25

Em cerimônia de desabafos e estranhezas, Oscar consagra metalinguístico “Birdman”

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Em uma cerimônia com sérios problemas de ritmo, um host inseguro e pouco engraçado, mas com discursos emocionantes e um inesperado e acintoso tom político, a 87ª edição do Oscar reiterou algumas convicções que se enunciaram ao longo da temporada e consagrou “Birdman ou a inesperada virtude da ignorância” como a melhor produção de 2014. O filme de Alejandro González Iñárritu, que já era o favorito consumado, venceu os Oscars de filme, direção, roteiro original e fotografia. “Boyhood – da infância à juventude” acabou triunfando apenas na categoria de atriz coadjuvante com Patricia Arquette.

“O Grande Hotel Budapeste” prevaleceu nas categorias técnicas conquistando os Oscars de direção de arte, trilha sonora, maquiagem e figurino. “Whiplash” ficou com três Oscars (Montagem, mixagem de som e ator coadjuvante). Por um breve período, essas duas pequenas joias tão avessas a iconografia do Oscar dividiam a liderança em prêmios.

Foi uma noite estranha. A orquestra bem que tentou, mas não conseguiu intimidar o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, o polonês Pawel Pawlikowski por “Ida”, a interromper seu emocionado discurso de agradecimento. A famosa “musiquinha do Oscar” perdeu o respeito. Lady Gaga, por seu turno, mostrou uma voz poderosa em uma homenagem aos 50 anos de “A noviça rebelde”. Meryl Streep foi mais bem sucedida no teleprompter do In memoriam do que em “Caminhos da floresta”; a performance da canção “Glory” verteu lágrimas insuspeitas; Benedict Cumberbtach não fez nenhuma photobomb e Neil Patrick Harris foi um host bem menos feliz do que se poderia imaginar. Além, é claro dos discursos pró-minoria. Eles vieram de todos os lados. Patricia Arquette içou a bandeira do feminismo em seu discurso de agradecimento e deu a Meryl Streep a oportunidade de ter um meme para si. Graham Moore, vencedor do Oscar de roteiro adaptado por “O jogo da imitação” lembrou-se de quando quis se suicidar aos 15 anos por ser diferente e frisou que seu sucesso, seu momento, deve servir como exemplo e cunhou a hashtag “stay weird”. John Legend falou dos negros, Iñarritu dos mexicanos e essa é apenas a ponta do iceberg dos discursos de fundo político. E nem falamos ainda do vencedor de melhor documentário, “Citizenfour”.

Meryl vira meme...  (Foto: divulgação)

Meryl vira meme…
(Foto: reprodução/twitter)

Com tanta consternação, o cinema – principal elemento da noite e do bom número de abertura da cerimônia – parecia coadjuvar mais do que nunca na cerimônia. Apesar desta impressão, trata-se de uma das edições mais justas do Oscar nos últimos anos. Não houve nenhuma clamorosa injustiça e “Birdman”, que fez a academia agregar os prêmios de direção, filme e roteiro pela primeira vez desde 2011, era, de fato, o melhor entre os concorrentes a melhor filme. A última vez que o melhor foi eleito o melhor foi em 2008, quando os Coen triunfaram com “Onde os fracos não têm vez”.

A vitória de “Birdman”, como a coluna já aventava, reflete o status quo não só da indústria, mas da própria academia. Hollywood se sustenta com as franquias milionárias, mas se embevece com filmes relevantes como os que tenta reunir nesta noite de gala. A busca por relevância é, também, do Oscar coadunado cada vez mais com o cinema independente. “Birdman” é cinema de colhões, corajoso, como bem definiu Michael Keaton e sua vitória também deve ser celebrada neste contexto, não só pelo que ela diz sobre a academia e o momento de Hollywood.

Se a noite foi de Iñarritu, que ganhou pessoalmente três Oscars, o mesmo não se pode dizer de Richard Linklater e Wes Anderson que pessoalmente não ganharam nenhum dos troféus a que concorriam.

Vitória de "Birdman": filme de colhões  (Foto:AP)

Vitória de “Birdman”: filme de colhões
(Foto:AP)

A opção por Eddie Redmayne em detrimento de Michael Keaton reitera, não somente a força do sindicato dos atores, como a percepção de que enquanto colegiado, a academia ainda não está preparada para se desligar de certos cacoetes como o da “performance de Oscar”, padrão que também valeu o triunfo de Julianne Moore (“Para sempre Alice”) entre as atrizes.

Se a cerimônia dá bastante margem para discussão – certamente foi uma das mais decepcionantes em muitos anos, o resultado em si não pode ser muito contestado. Com poucas surpresas, a 87ª edição do Oscar cumpriu o que prometia e consagrou pelo terceiro ano em quatro, uma produção que fala sobre o show business (“O artista” em 2012 e “Argo” em 2013 foram as outras). Viva a terapia assistida!

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015 Análises | 18:17

O Oscar 2015 nas entrelinhas

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Que o cinema independente é cota majoritária na edição deste ano do Oscar é plenamente sabido. Mais arrazoado ainda, é o fato de que isto não é exatamente uma novidade, mas sim uma tendência. Essa inclinação do Oscar à introspecção rendeu detalhes curiosos na atual edição do maior prêmio da indústria cinematográfica.

iG On: “Birdman” e “O grande hotel Budapeste” lideram indicações ao Oscar 2015

Leia também: Briga pelo Oscar toma forma e restam poucas dúvidas

Há a predominância de histórias reais entre os concorrentes. Dos indicados a melhor filme, quatro não são baseados em fatos reais. Três destes, “Whiplash – em busca da perfeição”, “Birdman” e “Boyhood”, se bifurcam com a realidade em pontos interessantes. O primeiro é baseado nas experiências do diretor e roteirista Damien Chazelle com seu professor de música na adolescência. O segundo é um exercício de metalinguagem dos mais sofisticados sobre a carreira do ator Michael Keaton e do status quo hollywoodiano, enquanto que o terceiro é cinema de vanguarda em que as opções estéticas do cineasta Richard Linklater oferecem a evolução física dos atores como tempero de uma história sobre a passagem do tempo.

O ano de 2014 não foi um grande ano para o cinema americano. Mas as duas produções que chegam com mais chances de faturar o Oscar de melhor filme são inovadoras e essencialmente originais. Tanto “Birdman” como “Boyhood” não apresentam tramas efetivamente novas, mas impressionam pelas opções estéticas e pelo desprendimento com que desvelam suas narrativas. Prova disso é que praticamente ninguém aventa a possibilidade de triunfo de um dos dois candidatos ingleses na corrida (“A teoria de tudo” e “O jogo da imitação”), que fazem o tipo “padronizado para o Oscar”. Uma particularidade digna de celebração da edição de 2015.

Birdman

Cena de “Birdman”: o triunfo da originalidade
(Foto: divulgação)

O destaque a Alejandro González Iñarritu, Bennett Miller, Richard Linklater e Wes Anderson, quatro dos cinco indicados ao prêmio de direção, representa um reconhecimento a uma geração autoral. Se Miller e Iñarritu, com poucos filmes no currículo, sempre rondaram o Oscar, Anderson e Linklater são esnobados históricos que chegaram com força na safra de 2015. Algo semelhante ocorre em outras categorias do Oscar. Julianne Moore, notavelmente, é um dos maiores expoentes não só de sua geração, como do cinema contemporâneo e ainda não tem um Oscar. É a maior baba da noite. Dificilmente o Oscar não será dela em 22 de fevereiro pelo papel de uma vítima de Alzheimer em “Para sempre Alice”. Trata-se de uma daquelas situações que a academia adora. Premiar alguém pelo conjunto da obra com um Oscar competitivo. Uma distorção que, embora compreensível, acarreta muitas críticas. Michael Keaton, outrora favorito na categoria de melhor ator, pode ser enquadrado na mesma categoria. Mas seu caso é um tanto diferente. Afinal, Keaton não detém o prestígio de Moore e o favoritismo hoje é do rival Eddie Redmayne por “A teoria de tudo”.

Leia também: Em lista amalucada, academia colhe esnobados históricos e surpreende 

Mas a grande incógnita neste momento é o tamanho com que “Sniper americano” sairá da noite do Oscar. Com uma bilheteria vultosa, de mais de U$ 300 milhões nos EUA, o filme provocou uma polarização que há muito não se via em torno de uma produção concorrente ao Oscar. A fita que aborda a vida do marine Chris Kyle, considerado o atirador de elite mais letal do exército americano, se viu no epicentro de um furioso debate sobre suas pretensões e responsabilidades ao levar às telas a vida de um homem como Kyle.

Leia também: O que o conflito entre apoiadores de “Selma” e “Sniper americano” diz sobre a Hollywood de hoje? 

Além de ser o maior sucesso entre os indicados do ano, e o maior sucesso de bilheteria desde 2011, quando concorreram ao Oscar de melhor filme os blockbusters “Toy story 3” e “A origem”, “Sniper americano” pode significar para o Oscar a efervescência cultural que muitos alegam estar perdida.  É tentador. Além do mais, a vitória de um filme popular, no sentido de ser sucesso de público, não faria mal à popularidade da academia.

Cena de "Sniper americano": A América em debate (Foto: divulgação)

Cena de “Sniper americano”: A América em debate
(Foto: divulgação)

“Birdman”, no qual a indústria tem a oportunidade de se reconhecer, é um filme mais atraente. “Boyhood”, mais encantador. De todo jeito, a consagração de “Sniper americano”, improvável, seria um contrassenso a esse movimento de abraçar o cinema independente. Ainda que o filme de Clint Eastwood siga a linha da introspecção tão valorizada nos candidatos do ano. “Boyhood” é o independente hardcore, feito com pouco dinheiro e muita garra ao longo de  12 anos. “Birdman” é o filme que melhor captura esse momento que vive a academia. O resultado de domingo, por mais arbitrário e circunstancial que possa parecer, pode ser o mais influente em anos.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 15:14

Do que falamos quando falamos de “Birdman”?

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Esta crítica poderia começar da maneira como se convencionou introduzir textos analíticos sobre “Birdman ou a inesperada virtude da ignorância”, esse petardo cinematográfico disparado pelo mexicano Alejandro González Iñarritu, mas as convenções parecem pequenas ante a magnitude do filme. Sobre o que, afinal, estamos falando quando falamos de “Birdman”? Sobre cinema? Sobre o conflito entre o id e o ego? Sobre a complexa relação entre arte e indústria? Sobre a tentativa desesperada de um ator em retornar aos dias de glória de outrora?

Leia também: Michael Keaton exorciza Michael Keaton com “Birdman”

Ao abrilhantar seu filme com um jogo de metáforas original, mesmerizante e insidioso, Iñarritu reúne todos esses temas em uma narrativa nervosa, pulsante, irônica e profundamente reveladora dos personagens, do estado de espírito de seu realizador e fundamentalmente do cinema em seu contexto macroestrutural, mas também em sua veia mais íntima.

Riggan Thomson (Michael Keaton) produz, dirige e estrela uma adaptação de Raymond Carver para a Broadway. A peça é a última tentativa do ator, que recusou estrelar a terceira sequência do filme de super-herói Birdman, de recuperar o prestígio de outrora e de obter um reconhecimento que só vem fora das franquias milionárias que dominam Hollywood e que, por conjectura, paira sobre o teatro.

O híper realismo da narrativa de "Birdman" se refugia em um espirituoso arremedo de metalinguagens

O hiperrealismo da narrativa de “Birdman” se refugia em um espirituoso arremedo de metalinguagens

O filme se desdobra pela semana que antecede a noite de abertura da peça. Riggan precisa administrar a vaidade de um ator querido da crítica que pode representar a salvação da peça (Edward Norton), dar atenção à filha recém-egressa da rehab (Emma Stone), da namorada ciosa de mais afeto (Andrea Riseborough), da atriz insegura (Naomi Watts), e de seu produtor à beira de um ataque de nervos com os gastos do espetáculo (Zach Galifianakis).

Iñarritu alterna momentos de mais sutileza com outros de gravidade absoluta na interposição de conflitos pessoais do protagonista com comentários sobre Hollywood, cinema, arte e o jogo das celebridades. Essa verve dá a “Birdman” uma eloquência estupenda e rara de se ver em qualquer manifestação artística.

A estética também impressiona no filme. Da trilha sonora pontuada por agudos de bateria à edição que reforça a percepção de que assistimos a um enorme plano sequência. Iñarritu escondeu os cortes em um trabalho cuja adjetivação se prova insuficiente para frisar o quão engenhosa a iniciativa é e o quão produtiva para os efeitos ambicionados pelo roteiro ela se mostra.

Mas a fotografia de Emmanuel Lubezki, a música de Antonio Sanchez e o trabalho de montagem de Douglas Crise e Stephen Mirrione não teriam repercussão se um elenco poderoso não ressaltasse a alma dessa obra corajosa e desafiadora do cineasta de “21 gramas” e “Biutiful”.

Leia também: Os novos rumos do cinema de Alejandro González Iñarrritu

Michael Keaton exorciza os próprios demônios como o ator que precisa ser amado, querido e admirado na mesma medida em que precisa de oxigênio. Ainda na espetacular metalinguagem proposta por Iñarritu, “Birdman” devolve a Keaton sua celebridade, acrescida de um prestígio (que a indicação ao Oscar de melhor ator ratifica) que nunca obteve.

Edward Norton volta à grande forma com um decalque de … Edward Norton.  Como o ator sucesso de crítica, mas cínico e genioso, ele tem a oportunidade não só de brilhar, mas de se defender em celuloide.  A oportunidade é, também, de auto-crítica. Coisa que Iñarritu faz a todo tempo. É “Birdman” arte ou apenas uma manifestação egóica da busca de seu realizador por relevância?

A agudeza do registro se relaciona com a intensidade dos personagens

A agudeza do registro se relaciona com a intensidade dos personagens

Galifianakis, Watts, Stone e Amy Ryan, como a ex-mulher de Riggan, ajudam a tecer esse impressionista painel de Iñarritu sobre fama, arte, cinema e a intangível noção de felicidade que os une.

“Birdman” é um testamento vigoroso da imperfeição e de como ela municia robustamente a arte como um todo.

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sábado, 31 de janeiro de 2015 Análises, Filmes | 20:00

Briga pelo Oscar toma forma e restam poucas dúvidas

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À medida que a corrida pelo Oscar vai afunilando, as dúvidas vão se dirimindo nas principais categorias. Se nas disputas de atuação elas já eram poucas, no momento se restringem à indagação de quem leva o Oscar de melhor ator: Michael Keaton, por “Birdman”, ou Eddie Redmayne, por “A teoria de tudo”? O primeiro, coleciona mais prêmios na temporada, e conta com o forte hype de ser “o retorno do ano”, algo que sempre pesa junto à Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Keaton vive um ator em busca de redenção e isso pode apelar ao voto sentimental de muitos acadêmicos. Por outro lado, Redmayne faz bem algo que é de grande estima dos votantes: interpreta um personagem real, polêmico e brilhante, com problemas físicos e de saúde. A receita do Oscar, brada o lugar comum. Pelo desempenho como Stephen Hawking, Redmayne ganhou, além do Globo de Ouro de melhor ator dramático, o SAG, maior termômetro para as categorias de atuação no Oscar. Keaton, que venceu o Globo de Ouro de ator cômico, também ganhou o Critic´s Choice de melhor ator. Ambos concorrem ao Bafta, em que Redmayne tem ligeira vantagem por ser britânico e interpretar um britânico. Os ingleses tendem a ser mais “bairristas” do que os americanos no que tange prêmios de cinema.

Michael Keaton em cena de "Birdman": momento mágico e de redenção que costuma vingar no Oscar

Michael Keaton em cena de “Birdman”: momento mágico e de redenção que costuma vingar no Oscar

Eddie Redmayne, a despeito da qualidade de sua atuação, defende uma performance que que costuma resultar em prêmios

Eddie Redmayne, a despeito da qualidade de sua atuação, defende uma performance que costuma resultar em prêmios

A balança pode, porém, se desequilibrar em favor de Keaton pela escalada rumo ao favoritismo absoluto usufruído por “Birdman” na categoria principal nas últimas semanas. O filme amealhou vitórias importantes no sindicato dos produtores e no sindicato dos atores. Somadas, as vitórias embalam uma candidatura que pode se beneficiar de falar da própria indústria do cinema em detrimento do “muito geek” “O grande hotel Budapeste”, do “vanguardista, mas banal” “Boyhood – da infância à juventude” e do “acadêmico” “O jogo da imitação”. Esses rótulos carregados de má vontade falham em alcançar “Birdman”, tragicomédia filmada com considerável inteligência , imaginação e senso de estética.

Leia também: Michael Keaton exorciza Michael Keaton com “Birdman”

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Levantamento feito pelo site Rotten Tomatoes mostra que “Boyhood” ainda ocupa a dianteira na temporada de prêmios. Foram 43 contra 39 outorgados a “Birdman”. O filme de Alejandro González Iñarritu se distingue, no entanto, por ter triunfado em premiações mais significativas e ressonantes.

Há, porém, um elemento que pesa contra toda essa força de “Birdman”. O filme inexplicavelmente se viu fora da disputa pelo Oscar de melhor montagem. No últimos anos, a categoria tem tido mais importância na construção de um vencedor do Oscar de melhor filme do que, por exemplo, a categoria de direção. Em 2013, “Argo” levou os troféus de roteiro adaptado e montagem, além do prêmio principal de melhor filme. Ben Affleck não foi sequer indicado como diretor. Mais: o último filme a vencer o Oscar de melhor filme sem ter indicação para montagem foi  “Gente como a gente”, de Robert Redford, em 1981. Desde que a categoria foi estabelecida, em 1934, apenas nove filmes venceram o Oscar principal sem terem sido nomeados à melhor edição.

"Birdman" é o favorito, mas   retrospecto histórico alerta que a disputa ainda não está definida

“Birdman” é o favorito, mas retrospecto histórico alerta que a disputa ainda não está definida

Mesmo com esse curioso contraponto histórico, “Birdman” tem pompa e pose de candidato campeão. A esta altura do campeonato é o candidato a ser batido. O marketing de “O jogo da imitação” que havia hesitado em levantar a bandeira gay já começa a sublinhar o fato, na expectativa de conseguir fazer o que “O segredo de Brokeback Mountain” não conseguiu.  Mas o biografia de Alan Turing não é um filme sobre um romance homossexual, como o era o filme dirigido por Ang Lee, e, nesse sentido, se aproxima mais de “Capote”, outro recorte biográfico sobre uma personalidade homossexual.  A mudança na campanha do filme é um atestado de que o padrão britânico, suficiente para fixar favoritos em outros anos, não valeu ao filme rivalidade com “Birdman”.

Sutilezas superam academicismo em “O jogo da imitação”

Entre os diretores, a briga parece se concentrar entre Richard Linklater e Alejandro González Inãrritu. Com vantagem para o primeiro. A tendência é que um ganhe em roteiro original e outro em direção. Julianne Moore (“Para sempre Alice”) é certeza mais que absoluta entre as atrizes, assim como apenas um desastre tira o Oscar de J.K Simmons pelo papel do professor tirano de “Whiplash”. Patricia Arquette pode ser o prêmio afetuoso a “Boyhood”, um filme que a temporada sugere ser mais querido pela crítica do que pela indústria.

Nos últimos anos, a academia tem optado pela pulverização de seus prêmios. O último filme a faturar uma penca de Oscars foi “Quem quer ser um milionário?” em 2009. Foram oito troféus. De lá para cá, o número de Oscars do filme vencedor foi diminuindo. “Guerra ao terror” ganhou seis em 2010; “O discurso do rei” faturou quatro em 2011; “O artista” ganhou cinco em 2012; “Argo” ganhou três em 2013; e “12 anos de escravidão” ficou com três em 2014, apesar de “Gravidade” ter ficado com sete Oscars na edição, o grande vencedor é costumeiramente o filme que leva o prêmio principal.

"Boyhood": A importância do filme de Linklater é inegável, mas a Academia não costuma perceber movimentos vanguardistas quando se depara com eles (Fotos: divulgação)

“Boyhood”: A importância do filme de Linklater é inegável, mas a Academia não costuma perceber movimentos vanguardistas quando se depara com eles
(Fotos: divulgação)

Como não houve um filme que apresente o avanço e esmero técnico observado em “Gravidade”, a tendência é de que haja a pulverização dos prêmios. Portanto, mesmo derrotados na disputa principal têm chances de sair esbanjando Oscars por aí.

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015 Atores, perfil | 16:05

Michael Keaton exorciza Michael Keaton com “Birdman”

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Michael Keaton em foto para a Esquire (Reprodução)

Michael Keaton em foto para a Esquire
(Reprodução)

Você ainda deve lembrar dele como o Batman, mas já se vão 23 anos desde que ele não veste o traje do homem-morcego. Aos 63 anos, Michael Keaton se funde ao personagem desenhado para ele por Alejandro González Iñarritu em “Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)” para redefinir sua persona em Hollywood. Desde meados da década de 90, o ator havia desaparecido dos holofotes. Depois de abandonar o papel de Batman, ele havia sido uma imposição de Tim Burton, que dirigiu os dois primeiros filmes, Keaton ensaiou uma guinada na carreira. Estrelou o drama choroso “Minha vida” (1993) ao lado da então estrela em ascensão Nicole Kidman e o drama jornalístico “O jornal” (1994), mas o ator simplesmente não atraia público. Ainda nos anos 90 ele foi coadjuvante para Tarantino em “Jackie Brown” (1997), tido  como o filme mais fraco do badalado cineasta, e foi o antagonista de Andy Garcia, fazendo um vilão canastrão, no bom thriller “Medidas desesperadas” (1998), também pouco visto nos cinemas. O timing parecia não favorecer Keaton que iniciou os anos 2000 estrelando produções para a TV como “Ao vivo de Bagdá” (2002) ou coadjuvando para estrelas teen como Katie Holmes em “A filha do presidente” (2004).

“Vozes do além” foi uma tentativa malfadada de surfar na onda do terror de verve sobrenatural, em voga naquele particular momento da década com o sucesso de produções como “O grito” e “O chamado”.

Mais de dez anos depois de Batman, Keaton só era lembrado pelo personagem e os papéis em Hollywood escasseavam. Mesmo pequenas participações em filmes como “Herbie, meu fusca turbinado” (2006), veículo para a então estrela Lindsay Lohan, e “Recém-formada” (2009), comédia que nem chegou a ser lançada comercialmente nos cinemas do Brasil e de outros países, exigiam negociações prolongadas e exaustivas. Keaton não tinha prestígio, não tinha poder de barganha e não tinha bons filmes que lhe precedessem. Não tinha, também, um padrinho forte. Tim Burton estava ocupado tentando tirar os próprios filmes do papel, algo que ficou relativamente mais fácil com o estrelato de Johnny Depp conquistado com “Piratas do Caribe: a maldição do Perola negra” (2003).

O ator em cena de "Batman: o retorno" (1992), seu último grande momento no cinema até a chegada de "Birdman" (Foto: divulgação)

O ator em cena de “Batman: o retorno” (1992), seu último grande momento no cinema até a chegada
de “Birdman”
(Foto: divulgação)

Keaton e Iñarritu conversam no set de "Birdman": o ator embarcou na metalinguagem proposta pelo cineasta mexicano  (Foto: divulgação)

Keaton e Iñarritu conversam no set de “Birdman”: o ator embarcou na metalinguagem proposta pelo cineasta mexicano
(Foto: divulgação)

Em 2014 tudo ia mudar. Alejandro González Iñarritu admitiu em entrevista à revista Empire que se Keaton não aceitasse o papel do protagonista de “Birdman” ele não faria o filme. Exageros à parte, o projeto parece mesmo pensado para Keaton. Ele interpreta Riggan, um ator que fez muito sucesso interpretando o super-herói Birdman no cinema, mas depois caiu no ostracismo. Ele agora tenta se reinventar e dar a volta por cima produzindo, dirigindo e estrelando uma adaptação de um conto de Raymond Carver para a Broadway. A metalinguagem pretendida por Iñarritu neste filme que versa sobre atores, ego e cinema ganha potência com Keaton como protagonista e todo mundo sabe disso. Parte do fascínio provocado pelo filme, que amealhou nove indicações para o Oscar, reside nessa intertextualidade entre Keaton e seu personagem. É como se fosse dada a Michael Keaton a oportunidade de exorcizar Michael Keaton e o Oscar, ao qual é favorito, pode ser decisivo neste processo.

O ano começou com Keaton brilhando como uma sátira de Steve Jobs no “Robocop” de José Padilha. Não é exagero dizer que ele é a melhor coisa do filme. No dispensável “Need for speed – o filme”, ele injeta adrenalina como um aficionado em corridas que patrocina o evento clandestino que move a adaptação do game homônimo

Com Oscar ou sem Oscar, mas os prognósticos são os mais favoráveis possíveis, o Michael Keaton que emerge no raiar de 2015 é um ator pronto para viver plenamente sua melhor idade.

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015 Análises | 01:50

Globo de Ouro reverencia trabalho corajoso de Richard Linklater em cerimônia perigosamente monótona

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O cineasta Richard Linklater  (Foto: AP)

O cineasta Richard Linklater
(Foto: AP)

Ninguém esperava grandes surpresas, discursos maravilhosos ou barracos memoráveis. Mas a expectativa era por uma cerimônia mais empolgante. A associação de correspondentes estrangeiros de Hollywood (HFPA) premiou “Boyhood: da infância à juventude” e “O grande hotel Budapeste” como melhores produções do ano em uma cerimônia que foi o reflexo do ano pouco criativo que o cinema americano viveu. Não à toa, as duas produções vencedoras foram lançadas no primeiro semestre do ano – e exibidas no festival de cinema de Berlim (realizado em fevereiro). Quando algo assim acontece, é um sinal claro de fastio na produção de cinema que se pretende oscarizável.

Tina fey e Amy Poehler, que já tinham sido pouco inspiradas em 2014, (em 2013 elas foram muito bem), ofertaram piadas pobres e batidas durante quase toda a cerimônia. Desde a obrigatória, mas excessivamente alongada, piada sobre a Coreia do Norte, até a repetida brincadeira sobre Joaquin Phoenix não gostar de premiações. Acertaram, porém, em piadas ligeiras como as que envolveram George Clooney e sua esposa e o comediante acusado de estupro Bill Cosby.

Os grandes discursos da noite foram de Michael Keaton, premiado como melhor ator em comédia/musical por “Birdman”, e de Kevin Spacey e Jeffrey Tambor, vitoriosos por “House of Cards” e “Transparent”, nas categorias de TV. Além, é claro, de George Clooney, homenageado da noite com o prêmio Cecil B. DeMille. Clooney lembrou os atentados em Paris de forma correta e significativa, soube rir de si mesmo ao brincar com o fracasso de “Os caçadores de obras-primas” e fez uma bela homenagem a sua esposa, Amal.

 Confira o discurso de Michael Keaton

Os prêmios

“Boyhood” foi o grande vencedor da noite com três troféus: atriz coadjuvante para Patricia Arquette, direção para Richard Linklater e filme dramático. O filme que acompanha a vida de um menino e sua família pelo período de 12 anos viu seu maior rival na temporada perder o prêmio de melhor filme em comédia e musical para “O Grande hotel Budapeste”, de Wes Anderson – que na falta de uma zebra autêntica fica com a menção honrosa.  Mas “Birdman” não saiu de mãos vazias. Além da vitória de Michael Keaton, o filme de Alejandro González Iñarritu  recebeu o prêmio de melhor roteiro, fato que ressalta a forte polarização entre a obra e o filme de Linklater, que também concorria na categoria.

Leia também: Tempo é parâmetro absoluto para epifanias de “Boyhood”

"O Grande hotel Budapeste": a vitória do filme de Wes Anderson foi inesperada, mas não exatamente surpreendente (Foto: divulgação)

“O Grande hotel Budapeste”: a vitória do filme de Wes Anderson foi inesperada, mas não exatamente surpreendente
(Foto: divulgação)

O inglês “A teoria de tudo”, com o inesperado prêmio de melhor trilha sonora e a vitória de Eddie Redmayne entre os atores dramáticos também se destacou.

As categorias de animação e  filme estrangeiro não consagraram os favoritos, mas as vitórias de “Como treinar seu dragão 2” e do russo “Leviatã” não podem ser tomadas como surpreendentes.

As categorias de coadjuvantes, que já parecem definidas para o Oscar, viram o triunfo de Patricia Arquette e J.K Simmons, grande ator frequentemente despercebido que tem seu momento de glória em “Whiplash: em busca da perfeição”.

Atrizes

Amy Adams comprovou seu status de queridinha da HFPA ao vencer pelo segundo ano consecutivo na categoria de melhor atriz em comédia e musical. Depois de ganhar por “Trapaça” ano passado, ela repetiu a dose por “Grandes olhos”, de Tim Burton.

Entre as atrizes dramáticas, foi a vez de Julianne Moore prevalecer. Muitas vezes indicada, a atriz jamais tinha ganhado um Globo de Ouro. Assim como jamais ganhou um Oscar. Em 2015, será o ano de saldar essas dívidas para com essa grande atriz.

No geral, apesar da festa surpreendentemente chata, o Globo de ouro entregou o que prometia. Artistas à vontade, apesar do ar condicionado com problemas, e uma celebração honesta dos filmes e estrelas do ano.

Amy Adams e Julianne Moore nos bastidores do Globo de Ouro: o triunfo das ruivas (Foto: reprodução/instagram)

Amy Adams e Julianne Moore nos bastidores do Globo de Ouro: o triunfo das ruivas
(Foto: reprodução/instagram)

 

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