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segunda-feira, 13 de julho de 2015 Análises, Críticas, Filmes | 19:28

Um olhar sobre “Cassino” vinte anos depois

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Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Última das oito colaborações entre o cineasta Martin Scorsese e o ator Robert De Niro, essa elegante fita adaptada da obra de Nicholas Pileggi oferece um olhar sobre como a combinação de ganância desenfreada e a vertiginosa ascensão das drogas puseram fim à dinastia mafiosa nos EUA. Tema que, de alguma maneira, já havia sido trabalhado em “Os bons companheiros”, também em parceria com Pileggi, cinco anos antes.

Leia também: Revisitando os clássicos – “Os bons companheiros”

A diferença é que “Cassino”, que completa 20 anos de seu lançamento original em 2015 – no Brasil o filme seria lançado em março de 1996 – agrega a essa crônica da derrocada mafiosa um olhar sobre a evolução de Las Vegas, cidade erguida sob o tino empreendedor de mafiosos no meio do deserto e que não só se transformou na capital mundial dos jogos de azar como em símbolo do capitalismo do século XX.

Robert De Niro vive Sam “Ace” Rothstein, um sujeito com tato e sorte para todo tipo de aposta. Não demora para ser “apadrinhado” por mafiosos que, com o passar do tempo, lhe confiam a administração de um cassino em Las Vegas. Sam, um judeu casca grossa, estava ganhando dinheiro para fazer o que sempre gostava de fazer e que lhe dava problemas em sua cidade natal. Ao assumir a administração do cassino, Sam aumenta a margem de lucro dos chefes e tudo parecia caminhar para uma doce e longeva lua de mel. Parecia.

Joe Pesci, especialista, sob Scorsese, em personagens surtados, dá a Nicky, um gangster que cresceu junto com Sam, a perversão de um homem que desconhece qualquer limite. Ele se muda para Las Vegas a pretexto de cuidar da segurança de Sam, mas na verdade quer ver relaxadas as correntes em seu pescoço. Ele quer, na verdade, fazer de Vegas o seu quintal.

Sharon Stone em cena: faísca acesa

Sharon Stone em cena: faísca acesa

Sam conhece seu eleitorado e fareja os problemas se avizinhando. Mas isso não é tudo. Homem incapaz de se deixar seduzir pelo risco, Sam se apaixona por uma golpista – em uma dessas ironias tão bem aliciadas pelo cinema de Scorsese – com a forma e a beleza de Sharon Stone. Ginger é a “esposa troféu” que todo homem em ascendência deseja e Sam não se faz de rogado em demonstrar a Ginger o quanto a deseja.

O destempero à espreita é uma ameaça mais atroz do que o FBI e suas escutas e Scorsese, que além da direção assina o roteiro em parceria com Pileggi, rege essa ópera de desatino e violência com o rigor dos grandes maestros. “Cassino” escrutina essa Las Vegas charmosa e traiçoeira com o mesmo vigor com que despe seus protagonistas. Sam não aceita o fato de “ter perdido uma aposta” em não mudar a essência de uma golpista. Ginger, por sua vez, sucumbe às drogas e ao álcool porque ela não saberia fazer outra coisa agora que era o mimado pet de um tipão de Las Vegas e Nicky só queria mais e, de preferência, se divertindo o máximo possível.

Não é o melhor de Scorsese, mas é um filme que merecia mais atenção. Sharon Stone recebeu sua única indicação ao Oscar pelo papel de Ginger. No globo de Ouro, além de Stone, Scorsese recebeu uma indicação ao prêmio de direção. Talvez houvesse certa exaustão com os filmes de máfia e na comparação, “Cassino” era mesmo inferior a “Os bons companheiros”, tida então e agora como obra-prima do gênero e de Scorsese. Fato é que, 20 anos depois, “Cassino” envelheceu muito bem. É um olhar sofisticado da alquimia que a ganância produz.  Com os exageros de um universo que Scorsese domina tão bem, medidos por meio de muita luz, narração em off, boa música e alguma moral.

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