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Posts com a Tag Cinema nacional

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 18:46

“Boi Neon” flagra Nordeste moderno e aborda empoderamento feminino e limites de gênero

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Gabriel Mascaro é dos realizadores mais interessantes a emergir no cinema contemporâneo. Prova disso, é a aclamação que seu terceiro longa-metragem, “Boi Neon”, amealhou festivais mundo afora. Com destaque para os prêmios em Veneza, Toronto e Rio de Janeiro.

“Boi Neon” é um filme de inescapável força dramática, ainda que não se escore nos recursos mais tradicionais da dramaturgia para tanto. Mascaro problematiza o corpo e o gênero com a sutileza de um artesão.

Iremar (Juliano Cazarré) é um vaqueiro de curral que viaja pelo Nordeste junto com uma pequena trupe. Ele prepara os bois para as tradicionais vaquejadas (em que sobre cavalos, os vaqueiros precisam alinhar e conduzir os bois para os locais demarcados). Iremar, no entanto, gosta mesmo é de desenhar roupas. Ele sonha em ser estilista de moda. No Nordeste contemplado por Mascaro, Iremar pode até ser excêntrico, mas não é uma ave rara. Galega (Maeve Jinkings), que pertence à mesma trupe, é uma mulher “bronca” na definição de Iremar. Caminhoneira rude no tratamento com as pessoas, ela cede à arte do strip-tease à noite e a roupa que tira é desenhada por Iremar. Há, ainda, Júnior (Vinicius de Oliveira), um rapaz que substitui (Carlos Pessoa) no grupo. A vaidade de Júnior o coloca em frontal deslocamento com a aparência dos homens que vemos por ali.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Esses recortes expõe a verdade que Mascaro quer relativizar com seu filme. Os limites de gênero, impostos lá atrás, estão se dilatando não apenas nas grandes metrópoles. Mas o filme, que mostra este Nordeste redentor, de gente que aspira mais, mas está muito bem com sua rotina, tem mais a revelar com seu minimalismo narrativo e seu desprendimento visual.

O corpo é uma das matérias-primas de “Boi Neon”. Tanto os corpos humanos como os dos animais. Iremar, por exemplo, abriga uma feminilidade no gestual e na relação com Cacá (Alyne Santana), filha de Galega, que não expulsa de seu corpo a masculinidade característica de um homem com seu ofício. Essa contradição do corpo é uma das maiores belezas, na provocação perene que estabelece, de “Boi Neon”.

A imagem é soberana em “Boi Neon”, mas muito das inflexões do filme não estão nelas, mas partem do que elas propõem. Um exemplo disso é o empoderamento feminino. O sexo em “Boi Neon”, tratado com a parcimônia dos amantes experimentados, parece adornado para dimensionar como os clichês do comportamento social já soam deslocados em um Nordeste muito mais moderno do que o pregado a torto e a direito.

Há uma cena de sexo, envolvendo uma mulher grávida, em que o clamor do desejo é correspondido com ternura e delicadeza, mas também muito tesão. É uma cena de sexo quase explícita, em termos gráficos, mas extremamente reveladora de um mundo em transformação. Não à toa, é uma das cenas mais longas do filme.

“Boi Neon” é um cinema de propostas sólidas, de uma reflexão manente e de narrativa delicada. É um filme que precipita seu contexto com inventividade e inquietação. Para quem gosta de cinema, não dá para pedir mais do que isso.

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016 Diretores, Filmes | 14:39

Eu queria resgatar o tempo do sexo no cinema, diz diretor do aclamado “Boi Neon”

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Na próxima quinta-feira (14), estreia no Brasil o filme “Boi Neon”, o mais novo elixir oriundo do cinema pernambucano. Assinado por Gabriel Mascaro, que antes já havia causado sensação com “Doméstica” (2012) e “Ventos de Agosto” (2014), o filme mostra um Nordeste radicalmente diferente da leitura tradicional que se tem da região. Mas não é só.

“Boi Neon” é um filme que pensa o corpo como nenhum outro ousou fazer no cinema recente. Mascaro, com muita sutileza, tateia a questão de gênero, e seus limites cada vez mais dilatados, com imaginação e riqueza visual.

O cineasta pernambucano Gabriel Mascaro na pré-estreia do filme em São Paulo (Foto: divulgação/Imovision)

O cineasta pernambucano Gabriel Mascaro na pré-estreia do filme em São Paulo
(Foto: divulgação/Imovision)

Premiado em Veneza e Toronto e grande vencedor do último festival do Rio, “Boi Neon” é, sob muitos aspectos, representante de um cinema brasileiro mais oxigenado e que pode, e deve, ajudar a transformar o olhar estrangeiro sobre o nosso cinema. Não à toa, o filme fez uma longa carreira em festivais internacionais antes do lançamento comercial no País.

A coluna bateu um papo com o cineasta no dia em que ele apresentou o filme para convidados na capital paulista. Mascaro se mostrou orgulhoso do resultado.  Nada mais justo, já que o filme é maravilhoso, e entusiasmado com as possibilidades para seu rebento daqui para a frente. “Quero que o filme seja descoberto e que chegue ao interior. Quero muito ver quais serão seus efeitos por lá”.

Leia também: Longa brasileiro “Boi Neon” busca contradição do corpo e causa boa impressão em Veneza

Cineclube: Você diria que “Boi Neon” é seu filme mais ousado? Por quê?

Gabriel Mascaro: Eu não saberia dizer. Porque não faria “Boi Neon” se não tivesse feito os outros filmes. É uma experiência muito única. Essa troca com os atores, com a equipe. Certo, posso dizer, é que foi um processo muito rico.

Cineclube: Qual é a sensação de estrear um filme no Brasil depois de uma carreira tão bem sucedida em festivais mundo afora?

GM: Alegria imensa. Ter essa possibilidade de mostrar para as pessoas que o filme é reconhecido. A sensação é de ter fechado esse ciclo.

Cineclube: O corpo e a questão de gênero são muito prementes no filme. Como foi trabalhar isso visualmente e de que maneira você concebeu essa característica do filme para os propósitos narrativos?

GM: O corpo é uma coisa muito forte no filme. É sobre transformação. Ele acumula. Onde os homens estão reapropriando essa ideia do masculino. Tem uma série de novas possibilidades de vivência que estão acontecendo lá (no Nordeste) e que para mim era importante trazer para o filme. O sexo, a urina do Iremar (o filme se demora na exposição desses ritos). O cinema não tem tempo para mostrar um ato sexual do começo ao fim e eu queria resgatar isso.

Cineclube: A quebra de paradigmas parece um norte do filme. Vivemos em um mundo que a relativização é bem-vinda? Seria esse o ponto de encontro da sua filmografia? Eu estou viajando ou é por aí mesmo?

GM: Acho que você coloca uma coisa muito pertinente. Personagens diferentes. Estranhos. Que são exceções. O filme cria ambiguidade e o filme te aproxima desses personagens que a gente acha diferente e escancara a possibilidade de convergência. A ambiguidade está lá apenas para afastar a ideia de normalidade. Viajei mais do que você (risos).

A gente imagina que a cultura do Nordeste é aquele lugar que as pessoas querem ir embora pela dificuldade e tal, nesse filme ninguém quer ir embora. Querem modificar a vida, mas permanecer ali. São personagens que resistem de certa forma. Ousam sonhar sonhos diferentes.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015 Filmes, Listas | 16:29

Retrospectiva 2015: Os filmes nacionais do ano

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Desnecessário dizer que o cinema nacional está cada vez mais plural, diverso e próspero. De uns anos para cá, porém, essa máxima tem se imposto na medida em que se esmiúça o que foi lançado ao longo do ano.

Ao olhar em retrospecto para 2015 é possível perceber que o maior avanço que o audiovisual brasileiro deu foi em matéria de cinema de gênero. Mas não foi só isso. O Brasil discutiu o pós-Lula em filmes complementares e, em certo sentido, antagônicos (“Que Horas ela Volta? e “Casa Grande”), olhou com carinho para os anos 80, fez filme de arte provocador e filme de arte reflexivo. Lançou terror satírico, adaptação engenhosa de Shakespeare e um documentário reverente a um mestre da linguagem cinematográfica. E Irandhir Santos reinou! Se 2015 é o ano que não acabou, o cinema brasileiro só tem a agradecer.

Foto: montagem/reprodução

Foto: montagem/reprodução

“Que horas ela volta?”

A maternidade como questão social em um Brasil em mutação

“Casa Grande”

O pós-Lula escancara o derretimento da classe média brasileira

“A história da Eternidade”

O Nordeste lúdico e ardente ganha cor, tom e alma

“Califórnia”

Os jovens dos anos 80 mandam um alô para os jovens de hoje

“Permanência”

O passado em transe com o futuro

Foto: Montagem/reprodução

Foto: Montagem/reprodução

“Amor, plástico e Barulho”

Porque os sonhos devem ser perseguidos plenamente

“Últimas Conversas”

A informalidade de um adeus formal a Coutinho

“Obra”

O futuro ensimesmado com o passado

“A Floresta que se Move”

Shakespeare faz mais sentido em português

“Condado Macabro”

Horror gore com sotaque brasileiro

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:01

Documentário “Osvaldão” ilumina figura mítica da guerrilha do Araguaia

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Foto: divulgação

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Falar de personagens amplamente conhecidos pela história pode não ser exatamente fácil, mas certamente é mais realizável. “Osvaldão”, documentário que visa iluminar vida e trajetória de Osvaldo Orlando da Costa, o comandante negro da guerrilha do Araguaia e mais um das muitas vítimas da ditadura brasileira, é, portanto, um filme que precisa ser saudado por sua coragem e desprendimento.

O filme, rodado de maneira independente recorreu ao financiamento coletivo na internet para que o lançamento fosse viabilizado em sete cidades brasileiras neste final de semana. Incluindo São Paulo e Rio de Janeiro.

Não há nada no filme assinado pelos diretores Ana Petta (“Repare Bem”), André Michiles (“Através”), Fabio Bardella (“Através”) e Vandré Fernandes (“Camponeses do Araguaia”), que integram o coletivo cinematográfico Gameleira, além do interesse de entender essa figura tão incomum. Osvaldão é, de fato, um personagem mais rico do que um preconceito sugere. Ao deflagrar o passado de Osvaldo, os diretores apresentam um contundente vaticínio contra as mazelas da ditadura, muitas delas ainda enterradas pela má vontade do Estado em assumir o inglório passado.

Não se trata de um filme com um discurso em evolução, no entanto. Há um ponto de vista muito claro ali, mas os realizadores são sábios em não deixar que essa perspectiva se imponha sobre o personagem investigado. Essa generosidade resguarda o filme de críticas oriundas de um posicionamento diverso daquele verificado nas entrelinhas da produção.

Pugilista talentoso, devoto familiar e benquisto pelos amigos, o Osvaldo que surge em “Osvaldão” é muito simpático. Talvez esteja aí o grande problema do filme. O personagem não é problematizado em momento algum. Não deixa de se residir aí, também, um preconceito por parte da realização. Difícil crer que com a variedade de documentos e depoimentos que o filme dispôs, nada tenha se encontrado para instaurar um conflito sequer na pessoa de Osvaldo.

De toda forma, o filme equilibra a reconstituição do cenário político que levou à guerrilha no Araguaia, com a memória de um homem afetuoso, querido e muitíssimo bem lapidado para a atividade política, com uma experiência internacional nada desprezível.

Goste-se ou não de “Osvaldão”, e há mais razões para gostar do que desgostar, é o tipo de cinema que dá gosto de ver no Brasil. Do tipo que milita tanto pela compreensão de um contexto, como por um cinema oxigenado e fora das convenções de mercado.

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 13:56

“Califórnia” trata de sonhos e descobertas da adolescência

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Foto: divulgação

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Quem nunca arranhou os versos da famosa canção de Lulu Santos? “Garota, eu vou pra Califórnia/Viver a vida sobre as ondas/Vou ser artista de cinema/O meu destino é ser star”. “Califórnia” (Brasil 2015), primeiro longa-metragem ficcional de Marina Person, leva para o cinema a brisa redentora ofertada pela música de Lulu. Uma obra não tem nada a ver com a outra, ainda que Marina tenha a perspicácia de incluir a música de Lulu em um momento chave de seu filme.

“Califórnia” é sobre adolescência e, antes disso, sobre ser adolescente nos anos 80. É um filme cativante nas referências culturais que carrega e musicado na maneira como se comunica com o espectador – especialmente se ele tiver sido adolescente nos anos 80.

Estela (Clara Gallo) quer ir para a Califórnia, onde mora o tio que tem um contato mais direto com uma cena cultural que fascina Estela. O surgimento da MTV, David Bowie, o cinema americano, etc. Daí se justifica a Califórnia do título, na materialização desse sonho dourado que o estado mais rico dos EUA representa para muita gente.

Estela também está apaixonada. Mas todas as dúvidas que circundam uma adolescente apaixonada a atormentam. Essa transitoriedade da adolescência – repleta de questionamentos e momentos de afirmação – constitui um interesse primal de Marina Person. Por meio de alguns recursos visuais, que a princípio podem parecer mera intervenção estilística, Person estipula essas camadas que a personagem vai ganhando – ou se livrando.

Cinéfila da mais fina estirpe, Marina Person pode parecer não querer correr riscos nessa sua estreia na ficção, mas apresenta um cinema jovial, sem ser condescendente, e cheio de personalidade, sem ser discursivo. É, nesse contexto, uma estreia tão sólida quanto entusiasmante.

Há, ainda, a música. Person sabiamente se utiliza da música para refinar o estofo dramático de seu filme e buscar uma conexão sensorial com o público. É pela música que Estela se conecta aos personagens que mais lhe influenciam. O tio Carlos (Caio Blat) e JM (Caio Horowicz), um menino que chega na escola envolto em boatos e preconceitos e vai seduzindo Estela de uma maneira totalmente insuspeita.  É no desenho da relação de Estela e JM que Person melhor coloca seu talento como cineasta.

Um embalo de inocência, desejo, afinidades e carência une os dois e é tangenciado com sensibilidade e ternura pela cineasta. É um recorte que torna “Califórnia” mais universal, menos previsível. Não se trata de uma história de amor com começo, meio e fim. Trata-se de uma busca de outra ordem e que, de alguma forma, tem tudo a ver com o acertado título do filme.

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015 Filmes, Notícias | 12:59

Melhores curtas brasileiros de 2015 ganham retrospectiva na Vila Madalena (SP)

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Para celebrar o que de melhor foi exibido em 2015 em matéria de curtas-metragens brasileiros, o crítico de cinema e curador do festival Cine Vitrine Independente, Christian Petermann, e a produtora Mega Cultural armam exibição gratuita de seis filmes no Epicentro Cultural (Vila Madalena). O evento acontece no dia 11 de dezembro, a partir das 19h. A noite será embalada por uma seleção especial de trilhas sonoras de clássicos do cinema, e um bar estará à disposição com bebidas e comidinhas.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

“Esses curtas apontam para uma diversidade estética e narrativa que muito caracteriza o audiovisual brasileiro”, opina Petermann que já escreveu para Folha de São Paulo e revista SET.

Os filmes que compõe o evento são os seguintes:

“Até a China”, de Marcelo Marão. XIX Festival Cine-PE (Prêmios: Melhor Roteiro, Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Filme pelo Júri Oficial). 23º Festival Internacional de Animação Anima Mundi (Prêmios: Melhor Filme Brasileiro RJ + SP e Prêmio BNDES).

“Corço”, de Rafael Vascon. Premiado no III Recifest – Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, prêmio ABD/Apeci . Realização em parceria com a AIC (Academia Internacional de Cinema).

“Cordilheira de Amora II”, de Jamille Fortunato. Prêmios do Júri Popular e na categoria Documentário na Mostra Audiovisual de Dourados em 2015; Melhor Documentário em Curta e Prêmio ABD-SP no É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários em 2015.

“Tarântula”, de Aly Muritiba e Marja Calafange. Prêmio – Melhor Roteiro, Melhor Ficção e Melhor som no 13º Curta Santos; Melhor Direção de Arte no 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e no 22º Festival de Vitória; 25º Curta Cinema, Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro – Prêmio Especial do Júri; exibição nos festivais de Veneza e Biarritz.

“Virgindade”, de Chico Lacerda. Premiado no III Recifest – Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, melhor filme da mostra competitiva pernambucana segundo o júri oficial. Realização do coletivo Surto & Deslumbramento.

Cine Vitrine Independente é um festival semestral com mostra competitiva de curtas e médias-metragens que está em processo de reformulação para retornar às atividades regulares em 2016. Para manter a tradição, este será um formato compacto do evento.

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sexta-feira, 2 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 20:57

“Mate-me por favor” aborda repressão sexual a partir do contato com a morte

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Cena do filme "Mate-me por favor"

Cena do filme “Mate-me por favor”

Um close demorado na face de uma mulher. Corta. Ela corre desesperada de alguém, tropeça e grita. Esse prelúdio, filmado com incomum estilização no cinema brasileiro recente anuncia um filme que evita as soluções fáceis. “Mate-me por favor”, estreia na direção de longas-metragens da carioca Anita Rocha da Silveira, é um poderoso comentário acerca das circunstâncias do desejo e de sua repressão. O filme tem como pano de fundo um caso de serial killer a desovar corpos de jovens bonitas em terrenos baldios da Barra da Tijuca, bairro nobre da Zona Oeste do Rio de Janeiro. O interesse da cineasta, no entanto, reside na maneira como o caso afeta Bia (Valentina Herszage) e suas amigas que travam aquele tipo de amizade inseparável tão comum à adolescência.

Bia se vê infligida por uma súbita curiosidade de experimentar com o seu corpo. Esse desejo encontra uma barreira no namoradinho que parece mais suscetível às influências religiosas do que Bia. Mesmo assim, ele cede a algumas das investidas de Bia (em um dos muitos recortes sobre o verniz hipócrita de nossa sociedade ofertados por Anita), que logo parte para experimentações mais extremas.

“Mate-me por favor” valoriza os contrapontos e, nesse sentido, a relação da jovem com suas amigas – todas pinceladas com propriedade pelo roteiro de Anita, ganha relevo para além dos dramas individuais. O irmão de Bia, João (Bernardo Marinho), imerso em uma relação que jamais excede o campo virtual, é outra sutileza da cineasta que propõe um olhar revisionista ao Rio de Janeiro.  Da Barra da Tijuca filmada de maneira quase abstrata ao uso contumaz do funk, como alegoria, mas também como expressão da cultura local, a cidade é um personagem tão ou mais hermético do que Bia em sua recém-implementada divagação existencial.

Sem obedecer à lógica de um só gênero, a cineasta se permitir flertar com a sátira aqui e ali, mas adorna seu filme de uma atmosfera de terror filtrada de clássicos de David Lynch como “Veludo azul” e “Twin peaks”.  Apesar da temática, “Mate-me por favor” não é um filme fatalista. A morte jamais surge como um desejo absoluto, mas como um traço de um desejo muito mais complexo, incandescente e ruidoso.

A cena final, daquelas de tirar o fôlego da plateia e ampliar o significado de todo um filme, é das coisas mais impactantes produzidas no cinema recente. Anita Rocha da Silveira é, indubitavelmente, um nome do cinema nacional para se acompanhar de muito perto.

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domingo, 27 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 17:20

Olhar estrangeiro faz elogio afetuoso da cultura sambista em “O samba”

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Foto/divulgação

Foto/divulgação

Entusiasta da música brasileira, o franco-suíço Georges Gachot volta a investigar a música brasileira em “O Samba”, em estreia neste fim de semana em cinemas selecionados nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Assim como fizera em “Maria Bethânia: música é perfume”, Gachot se permite deslumbrar-se pelo universo que retrata.

Mais do que um exercício de investigação, “O samba” é uma contemplação. Com a curadoria de Martinho da Vila, reconhecidamente um dos maiores sambistas que o país tem a oferecer, Gachot adentra a comunidade de Vila Isabel, bairro da zona norte carioca que abriga a escola do coração de Martinho, para filmar um pouco dessa paixão incandescente.

Dos diferentes sons extraídos do pandeiro ao indefectível samba no pé e sorriso no rosto de crianças carentes, passando pela exaltação do talento de Martinho como letrista, “O Samba” perfila um punhado de emoções que, embora previsíveis, são referendadas pelo que tem de genuínas.

Em alguns momentos, porém, “O samba” não consegue se esquivar de um olhar exótico para esse traço da cultura brasileira. A principal fala de Ney Matogrosso, um dos poucos nomes de expressão a ter voz no filme fora Martinho – a outra é Leci Brandão – reforça uma convicção estrangeira sobre o papel do samba no país e para o brasileiro. Trata-se de um preconceito que Cachot usa um artista local para advogar em seu filme. É um dos momentos em que “O samba” é mais vulnerável enquanto discurso.

No mais, trata-se de um filme sem grandes aspirações outras que não oferecer uma leitura bastante interessada de um dos principais gêneros da música brasileira. “É cantar as coisas sem muito sofrimento”, observa Martinho em um dado momento. “O Samba” tem o mérito de ser um filme que busca essa sinergia tão cara a um bom samba.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2015 Análises, Filmes | 21:22

“Que horas ela volta?” é escolha estratégica do Brasil para chegar ao Oscar

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Não se espantem se virem Regina Casé seguindo os passos de Fernanda Montenegro e sendo indicada ao Oscar de melhor atriz no dia 14 de janeiro de 2016. A apresentadora e atriz, afinal, é a alma de “Que horas ela volta?”, filme brasileiro destacado pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil no Oscar. O anúncio, feito nesta quinta-feira (10), indubitavelmente reforça as chances de Casé, uma vez que o filme já recebe atenção da mídia especializada americana e deve receber um boom promocional nos próximos meses.

Crítica: “Que horas ela volta?” congrega muitos Brasis e filmes em narrativa sutil e cheia de belezas 

A obra de Anna Muylaert é, sob muitos aspectos, o filme mais bem preparado do Brasil a concorrer a uma vaga entre as produções finalistas na categoria de filme estrangeiro em muitos anos. Cheio de sutilezas, não é mais um registro cultural do que um olhar tenro à maternidade. O roteiro é um triunfo da lapidação. Em entrevista à rádio BandNews FM nesta quinta, Muylaert destacou a burilamento pelo qual o texto passou. “Esse projeto tem 27 anos. A primeira versão dele trazia apenas a visão da empregada. Até seis meses antes, a Jéssica não vinha estudar na faculdade, mas trabalhar como cabeleireira e depois se tornava babá. Acabei mudando com os laboratórios que eu fiz”, revelou.

Regina Casé no Oscar? Filme e atriz têm chances sérias de chegarem lá  (Foto: divulgação)

Regina Casé no Oscar? Filme e atriz têm chances sérias de chegarem lá
(Foto: divulgação)

Diferentemente de candidatos brasileiros de outros anos, “Que horas ela volta?”, reúne potencial comercial – é coproduzido pela Globo Filmes e estrelado pela popular Regina Casé, com pujança artística. Uma combinação que somente esteve presente em “Cidade de Deus” (2002). O candidato do ano passado, “Hoje eu quero voltar sozinho”, era muito bom e a exemplo do escolhido deste ano, experimentado em festivais internacionais. Com mais filmes brasileiros em festivais mundo afora, aclamação crítica nesses eventos pode ser um critério bem-vindo para substituir aquele intermitente e duvidoso jogo de adivinhação do que a academia gosta ou de que tendência seguir.

Competição

Muitos países já definiram seus representantes e tem candidatos que, assim como “Que horas ela volta?”, gozam de prestígio junto à crítica internacional. São os casos de “Son of Saul”, da Hungria, prêmio do júri em Cannes, “The assassin” (Taiwan), “Um pombo pousou no galho refletindo sobre a existência” (Suécia), “Xênia” (Grécia), “Goodnight Mommy” (Áustria), entre outros. Não há, porém, a presença de nenhum autor consagrado entre os concorrentes confirmados de momento. O que reforça as chances da produção brasileira repetir o feito de “Central do Brasil” (1998), “O que é isso companheiro?” (1997), “O quatrilho” (1994) e “O pagador de promessas” (1963) e ingressar no rol de filmes brasileiros indicados ao Oscar de melhor produção estrangeira.

Não é a primeira vez que Regina Casé estrela uma produção nacional que tenta chegar ao Oscar. “Eu, tu, eles”, de Andrucha Waddington, foi o selecionado do país em 2001. Dessa vez, porém, a atuação extraordinária de Casé, premiada no festival de Sundance, pode impulsionar o filme além da categoria de produções estrangeiras em uma época de internacionalização do colegiado que compõem a academia. Neste ano, vale lembrar, que embora a produção belga “Dois dias, uma noite” não tenha ficado entre os finalistas da categoria, a atriz Marion Cotillard foi lembrada entre as atrizes.

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quarta-feira, 9 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:45

“Que horas ela volta?” congrega muitos Brasis e filmes em narrativa sutil e cheia de belezas

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O Brasil do pós-Lula entrou na mira do cinema nacional em 2015. Se “Casa Grande” de Fellipe Barbosa abordava o derretimento da classe média e as tensões sociais inerentes a essa decorrência, Anna Muylaert (“É proibido fumar”) muda o foco da análise. A perspectiva sai da sala e se instala na cozinha. Em seu primeiro ato, “Que horas ela volta?” mostra a dinâmica da relação entre Val (Regina Casé) e seus patrões pelo ponto de vista da empregada/babá. No segundo ato, o filme evolui para esse pós-Lula em que fachadas e limites ruem em face do maior acesso à educação. Não obstante, o filme sofre outra transformação no terceiro ato – sem perder de vista todas essas ramificações – e se resolve como um tenro e absoluto estudo sobre a maternidade.

Leia também: “Casa Grande” pensa o Brasil a partir do derretimento da classe média 

“Que horas ela volta?”, porém, possui sutilezas poderosas que o dignificam para além da aprovação crítica. O próprio título do filme busca na relação de mães postiças com filhos que não são seus uma rima com a saudade de filhos afastados de suas mães verdadeiras.

Foto: divulgação

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Val é uma pernambucana que já mora na casa dos patrões em São Paulo há tanto tempo que já faz parte da família. No contexto em que uma empregada doméstica pode fazer parte de uma família de classe média. Não que Carlão (Lourenço Mutarelli) e Barbara (Karine Telles) não gostem de Val e a tratem bem, mas Muylaert é muito hábil em tatear as pequenas fissuras diárias de uma relação construída por subtendidos, inferências, culpa e resignação.

A chegada da filha de Val, Jéssica (a fantástica Camila Márdila), desestabiliza essa relação. Jéssica vai prestar vestibular para arquitetura e parece mais preparada para o desafio do que Fabinho (Michel Joelsas), o filho que não é de Val, mas ela criou. Esse é apenas um dos pontos de choque que a chegada da menina proporciona à rotina de Val e seus patrões. Jessica também mexe com os hormônios da casa. Se Barbara não engole o abuso da menina de se colocar como hóspede da família, Carlão e Fabinho parecem flertar com a menina como diligência de classe. É aí que as tensões sociais reclamam o protagonismo no filme de Muylaert, mas o primoroso roteiro reserva uma guinada tão inesperada quanto poética mais à frente.

Ao se ressignificar como um filme sobre a complexidade da maternidade, “Que horas ela volta?” adquire mais relevo como cinema sem perder a pujança enquanto radiografia social.

O desfecho do filme é das coisas mais belas e cativantes que o cinema ofertou em muito tempo.  Regina Casé, um colosso em cena, contribui definitivamente para a consagração artística que é este filme. Combinando minimalismo dramático com seu referendado timing cômico, seu rigor cênico surpreende não pela atriz que ocupa a memória de muitos, mas pela atriz soberba e cheia de recursos que ela revela em um registro ponderado entre a emoção e o cálculo. Um trabalho tão detalhado quanto o filme que defende.

Muitas vezes, a audiência se sente na urgência de apertar um plástico-bolha – como a personagem de Casé faz em dado momento do filme. Essa sensação é um mérito da direção inteligente de Muylaert e do desempenho acima do bem e do mal de Casé. Uma parceria que dá ao cinema brasileiro o seu momento mais eloquente em 2015.

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