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Posts com a Tag Cinema nacional

terça-feira, 28 de abril de 2015 Críticas, Filmes | 17:55

“Casa Grande” pensa o Brasil a partir do derretimento da classe média

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Um menino ajeita o cabelo em frente ao espelho. Ele quer parecer bonito. Apaga a luz do banheiro e cerra as portas por onde passa. Sai de sua casa e bate na porta de uma casinha ainda no terreno. É recepcionado por Rita (Clarissa Pinheiro) que se põe a contar para ele uma experiência sexual. De quando teve sua bunda loucamente beijada por um motoqueiro.

Com essa cena aparentemente banal e sem qualquer propósito mais elaborado, “Casa grande”, brilhante filme de Fellipe Barbosa, se insinua com força para a audiência. Estamos diante de um filme que intenciona pensar o Brasil ao apontar a lupa para as dinâmicas estabelecidas em uma família de classe média alta carioca às voltas com sua decadência socioeconômica.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

O filme foca em Jean (o ótimo Thales Cavalcanti), um adolescente de 17 anos indeciso sobre o vestibular e decidido a conquistar uma mulher. Jean é filho de Hugo (Marcello Novaes, surpreendente), um banqueiro à espera de recolocação no mercado de trabalho que vê sua liquidez ruir, e Sônia (Susana Pires), habituada à tranquilidade de uma vida privilegiada que precisa repensar hábitos e desejos. A família é composta, ainda, por Natalie (Alice Melo), a filha caçula.

Embora o ponto de vista adotado seja o de Jean, Barbosa não limita o escopo de seu filme à desestruturação econômica desta família. Ao evocar o debate sobre cotas raciais nas universidades com seus personagens, Barbosa vai além da metaforização ao expor a profunda divisão entre classes sociais vigentes no Brasil. Este, porém, não é o único recurso utilizado pelo diretor/roteirista na obra. Ao flagrar as tensões sexuais entre patrões e empregados, o preconceito velado transferido silenciosamente de pai para filho e outros clichês típicos da classe média brasileira, Barbosa radiografa os vícios de um Brasil parado no tempo e banhado em conservadorismo. Mas Barbosa não emite julgamentos. Pelo contrário, provoca o público a fazê-los. Maliciosamente. Como na cena em que Jean, pela primeira vez usando transporte público sozinho para ir à escola, vê um rapaz negro e com aparência pobre sentar ao seu lado no banco. Sem emitir qualquer som, Barbosa convoca a plateia a posicionar-se a respeito do que vê na tela.

Em outra cena, Hugo surge falando para amigos de seu filho como “aprendeu a gostar de negras”. Mais adiante, a câmara de Barbosa flagra Hugo esgueirando-se para ouvir sua esposa tentar arrancar uma confissão que nunca vem de uma empregada em vias de ser demitida. Novamente, Barbosa não emite julgamentos, mas conta com o juízo da plateia para produzir valor à narrativa.

Mesmo analisada isoladamente, a trama central – o derretimento financeiro de uma família com os pais tentando privar os filhos dessa consciência – encanta com suas sutilezas sortidas, seus diálogos certeiros e sua arquitetura singela. Mas “Casa grande” funde tão categoricamente esse conflito de uma classe média pós-lulismo ao Brasil histórico que é impossível não ficar boquiaberto diante de toda a sua potência narrativa. Essa força dramatúrgica que envolve do breve erotismo à comédia juvenil, qualifica essa estreia de Fellipe Barbosa em longas-metragens como um dos melhores filmes do ano e uma das melhores produções brasileiras da década.

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sábado, 10 de janeiro de 2015 Filmes, Notícias | 18:49

Cinco filmes brasileiros são selecionados para o festival de Roterdã

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O festival de cinema de Roterdã, na Holanda, não é dos mais tradicionais do circuito europeu, mas vem ganhando visibilidade, entre outras razões, por apostar em cinematografias fora da curva. Como a brasileira, para os propósitos de festivais de cinema. A boa notícia é que para a edição de 2015 do evento, que acontece entre os dias 21 de janeiro e 1ºde fevereiro, cinco filmes brasileiros foram selecionados. Nenhum, entretanto, para a principal mostra competitiva do festival.

“O Touro”, de Larissa Figueiredo, “Ela Volta na Quinta”, de André Novais Oliveira, e “Prometo um Dia Deixar essa Cidade”, de Daniel Aragão integrarão a mostra Bright future, voltada para realizadores com até dois trabalhos. É o caso do pernambucano Daniel Aragão que já teve seu  segundo filme exibido em Brasília e na Mostra internacional de São Paulo. Sua estreia, “Boa sorte, meu amor” é das mais pungentes e assertivas crônicas do histórico conflito de classes no país.

Já na mostra Spectrum, destinada a projetos experimentais, estarão os longas “O Fim de uma Era”, de Bruno Safadi e Ricardo Pretti, e “Ventos de Agosto”, de Gabriel Mascaro, este último já exibido em circuito limitado aqui no Brasil.

Cena do filme "Ventos de agosto"  (Foto: divulgação)

Cena do filme “Ventos de agosto”
(Foto: divulgação)

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014 Análises | 05:00

Retrospectiva 2014 – Cinema nacional cresce e aparece

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Se não foi um ano de grandes arroubos de bilheterias e de produções celebradas em festivais de cinema e círculo de críticos, o ano de 2014 mostrou que o cinema brasileiro – a despeito das constantes e desfavoráveis comparações com o cinema argentino – amadureceu mais nos âmbitos estético, narrativo e temático.

Leia também: Brasil tem circuito exibidor de cinema desequilibrado, mas regular é a solução?

Como imaginado, as maiores arrecadações do ano são comédias, mas o Brasil ofertou a seu público um grande número de produções autorais e filmes de gênero. Foram 96 lançamentos – contabilizadas as estreias de “A noite da virada”, “O segredos dos diamantes” e “Os cara de pau em o misterioso roubo do anel”, em 2014. Menos do que o recorde de 120 alcançado em 2013, mas um número de fôlego invejável. Os dados são da Ancine e do portal Filme B.

Mais invejável do que o número de produções lançadas é a qualidade da variedade apresentada. Filmes como “Quando eu era vivo”, “Latitudes”, “jogo de xadrez”, “Entre nós”, “Confia em mim”, “O lobo atrás da porta”, “Hoje eu quero voltar sozinho”, “Praia do futuro”, “Causa e efeito”, “O homem das multidões”, “Uma dose violenta de qualquer coisa” e “O mercado de notícias” consolidaram uma produção cinematográfica diversa, provocante e cuja evolução estética e narrativa pode ser percebida com facilidade.

Fernanda Machado e Mateus Solano em cena de "Confia em mim": suspense  aliado à gastronomia em filme incomum na cena nacional

Fernanda Machado e Mateus Solano em cena de “Confia em mim”: suspense aliado à gastronomia em filme incomum na cena nacional

Bruno Gagliasso em cena de "Isolados": o Brasil apostou no cinema de gênero em 2014

Bruno Gagliasso em cena de “Isolados”: o Brasil apostou no cinema de gênero em 2014

O cinema de gênero foi inegavelmente o destaque do ano. No Brasil, filmes como “Quando eu era vivo”, “Confia em mim”, “Isolados” e “O lobo atrás da porta” ainda são raridade, mas a qualidade desses filmes sugere que o cenário deve mudar em breve.

Coproduções como “Rio, eu te-amo”, “A oeste do fim do mundo” e “Trash – a esperança vem do lixo” indicam um país que está se abrindo para parcerias que podem e devem levar o cinema brasileiro para horizontes ainda inexplorados. Além de incrementar a maneira como se produz cinema por aqui.

Os documentários nacionais brilharam em 2014 e merecem um destaque à parte. Filmes como “Cuba libre”, “Sem pena”, “Ilegal”, “Esse viver ninguém me tira”, “Brincante”, entre tantos outros oxigenam um gênero que começa a ser mais apreciado pelo brasileiro.

Há, porém, que se reiterar o alerta sobre alguns vícios. Ainda que bem-sucedida comercialmente, uma produção como “Alemão”, que já tem sequência garantida, repisa convenções de um tipo de cinema que o Brasil precisa desaprender a fazer. As comédias histriônicas continuam ocupando a preferência do público e já começam a desgastar a relação de diretores com produtores, distribuidores e, por que não, com o próprio público como atesta essa ótima matéria da repórter Luísa Pécora.

Se contarmos a partir do ano de 1994, considerado o marco inicial da retomada do cinema brasileiro, nosso cinema chega aos 20 anos com os vícios, conflitos e virtudes da idade. Ao futuro, a promessa de estabilidade e reconhecimento.

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sábado, 6 de dezembro de 2014 Análises, Bastidores, Notícias | 17:08

O que esperar do filme “Porta dos fundos”?

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PortaUm dos grandes cases de sucesso da internet brasileira, a trupe responsável pelo “Porta dos fundos” já havia sinalizado lá atrás a intenção de ir para o cinema. Os primeiros contatos com a sétima arte foram proveitosos. Membros do grupo estrelaram filmes de sucesso como “O concurso” e “Vai que dá certo”.  Agora é hora de avançar à próxima etapa. “Porta dos Fundos – o filme” começa a ser gravado em março de 2015 e tem lançamento previsto para o segundo semestre. “Vai ser o ‘Game of Thrones’ brasileiro. Talvez com um anão”, afirmou Antonio Tabet, um dos integrantes do grupo, na Comic Com Experience realizada neste fim de semana em São Paulo.

Orçada em R$ 3 milhões, a fita será dirigida por Ian SBF, o mesmo responsável pela direção dos esquetes do grupo para o YouTube.

Muita gente achou a estreia do “Porta dos Fundos” na TV – um programa semanal de meia hora é exibido no canal FOX – frustrante. Isso porque o programa só oferta esquetes exibidos previamente na internet. Em 2015, o grupo deve preparar material inédito para a TV. O filme, porém, romperá com a estrutura de esquetes, pelo menos é o que garantiu o produtor Bruno Weiner. A fita terá uma história contínua. Mas o que esperar efetivamente de um filme do “Porta dos Fundos”? Há fôlego para ir além dos esquetes? “Porta dos Fundos” reforçará paradigmas das comédias brasileiras ou estabelecerá novos?

O “Porta dos Fundos” sempre se notabilizou por seu aspecto colaborativo, pela criatividade insinuante e pela total liberdade na confecção de seu humor – o que até valeu certa cota de polêmicas.

É uma boa bagagem para se levar ao cinema. Não atrapalha o fato de todos os integrantes do grupo terem experiência multimidiáticas e se prepararem para lançar um filme em um ponto de suas carreiras em que maturidade certamente não é uma palavra estranha.

No entanto, é preciso ter em mente que o grupo não deve romper com seu viés satírico do establishment brasileiro. E o cinema brasileiro atual é vacilante em matéria de boas sátiras. Sejam elas políticas ou culturais. É natural pressupor que a produção se ressinta disso e a iniciativa de rodar um longa-metragem prescindindo dos esquetes que fizeram a fama do grupo demanda uma ideia – e um roteiro – muito bons. O que, em tese, limita o espaço para o improviso. Será do difícil equilíbrio entre o respeito às bases da trupe e a natural vontade de ousar, que o filme “Porta dos Fundos” pode se inserir como um divisor de águas da comédia de cinema brasileira. O sucesso é certo e independe da qualidade. Antonio Tabet, Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Ian SBF, João Vicente de Castro e os demais participantes não vão ao cinema, afinal, apenas para replicar o sucesso que já ostentam. É esta constatação que faz toda a diferença e permite o otimismo com o filme e com o que ele pode representar para o cinema brasileiro.

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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014 Críticas, Filmes | 16:26

Deborah Secco mesmeriza no bem azeitado “Boa sorte”

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É uma questão que parece superada, mas a cada novo trabalho – especialmente no cinema -mais imperativo se torna destacar quão boa atriz é Deborah Secco. “Boa sorte”, que marca a estreia de Carolina Jabor na direção de longas-metragens, é mais um passo na fórmula – até aqui infalível – de Secco de entregar-se de corpo e alma a suas personagens. A exemplo do que já ocorrera em “Bruna Surfistinha”, a atriz surge como produtora executiva em “Boa sorte” – uma forma de legitimar uma participação mais ativa no processo de feitura do filme.

O fato de ter perdido 11kg para viver a soropositivo Judite é um atestado dessa dedicação incandescente de uma atriz ciosa por testar e estabelecer novos limites em sua carreira. Mas não resume o trabalho de Secco no sensível e bem-vindo filme da filha de Arnaldo Jabor, aqui revelando uma assinatura pessoal vistosa em adaptação do conto “Fanta com frontal” de Jorge Furtado.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Secco adentra uma personagem desesperançosa, acometida de uma doença incurável e com um organismo que não mais aceita tratamentos paliativos e confinada em uma clínica para dependentes químicos, com gana e paixão sobrepostas à curiosidade que deve nortear todo bom intérprete.

Judite vê sua rotina transformar-se com a chegada de João, vivido pelo não menos acintoso em matéria de talento João Pedro Zappa, um adolescente que vai parar na clínica como decorrência da total incapacidade de seus pais em lidar com as manifestações típicas da adolescência. João e Judite, excluídos que são e se sentem, vão tateando um ao outro como quem busca um contato qualquer, um amor para acolher-se. E é nesse tom, de abstração da concretude de suas circunstâncias, que Jabor constrói seu filme. De pequenas digressões como quando Judite divaga sobre dinheiro e loucura até a invisibilidade dos protagonistas que vai ganhando literalidade à medida que o filme avança, “Boa sorte” vai pincelando um amor irrealizável. De um menino que perdeu a virgindade com uma mulher que descobriu a yoga tarde demais – como a própria Judite pontua em certo momento – e espera apenas sua partida desta vida.

A desestabilização, todavia, não é uma prerrogativa apenas dos amores realizáveis e “Boa sorte” é feliz ao apontar como a mudança de perspectiva afeta Judite e afeta também a responsabilidade que ela invariavelmente sente em relação ao ingênuo João, como demonstram as carinhosas pinturas de seu diário.

“Boa sorte” é, portanto, um filme muito bem azeitado na combinação das propostas da direção – estética e narrativamente ousadas para um primeiro filme – e da altivez de uma atriz segura de sua arte e disposta a aprimorá-la sempre que possível.

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014 Críticas, Filmes | 16:57

Resistir à solidão é a odisseia do protagonista de “Os amigos”

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“Os amigos” é um tipo raro de filme não só na cinematografia brasileira, como na produção de cinema contemporânea. Na superfície, é um elogio da amizade, tão negligenciada pelo cinema mais interessado no temperamental amor, sentimento mais rarefeito e poético.

A amizade, ainda que seja algo tão difícil de conquistar como um amor longevo, é relegada a comédias ligeiras sem receber o merecido carinho. Lina Chamie se propõe a corrigir essa injustiça com “Os amigos”. Centrado na figura de Téo (Marco Ricca), o filme enquadra a amizade como um oásis na inexorável jornada rumo à solidão que a sociedade moderna impõe aos seus. Não à toa, a cidade – uma São Paulo de muitos lances e caos – interfere reiterada e decisivamente na rotina dos personagens. Sejam eles fixos na trama ou apenas passageiros. Flagramos Téo em uma incipiente crise existencial, deflagrada pela morte de um amigo de infância, Juliano (Otávio Martins), com o qual pouco tinha contato naqueles dias. Observamos essa crise, em suas articulações interna e externa, por um dia e Chamie habilmente estabelece uma métrica que abrilhanta o raciocínio intradiegético da fita ao mostrar crianças em uma encenação da “Odisseia”, de Homero.

Marco Ricca e Dira Paes em cena do filme (Foto: divulgação)

Marco Ricca e Dira Paes em cena do filme
(Foto: divulgação)

Esse emparelhamento proposto pela encenação da peça grega com a odisseia de Téo por aquele dia, surpreendentemente longo e de muitos compromissos, por sua crise existencial – fustigada a todo momento pela amiga Majú (Dira Paes), e por sua própria amizade com Juliano, revisitada na memória em alguns de seus momentos-chave, subscreve “Os amigos” como um filme de sensorialidade rara no cinema brasileiro. O que não é pouco, tampouco é tudo. “Os amigos” também se prova uma ação entre amigos, já que Ricca volta a trabalhar com sua diretora de “A via Láctea” (2006). O filme conta com participações especiais de gente como Alice Braga, Caio Blat, Rodrigo Lombardi e Sandra Corveloni. Finalmente, o espírito abrasador do filme é seu diamante mais precioso. Sem grandes elucubrações sobre a vida, ainda que se permita divagar sobre a malemolência dos super-heróis em tempos que eles parecem dominantes, “Os amigos” brinda nossa fortaleza contra o assédio da solidão. Ela mesma, a amizade.

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014 Atores | 18:41

Marco Ricca, homem de cinema

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O ator na pré-estreia de "Os amigos" (Foto: AgNews)

O ator na pré-estreia de “Os amigos”
(Foto: AgNews)

Em recente entrevista concedida à repórter Luísa Pécora para o portal iG, o ator Marco Ricca –  que está em cartaz nos cinemas com o ótimo “Os amigos” e com o menos feliz “Trinta” – defendeu uma política mais agressiva para garantir ao cinema nacional mais autoral espaço e tempo no acirrado circuito exibidor do país.

Esse posicionamento forte e bem definido não causa nenhum estranhamento a quem acompanha a carreira de Ricca, que completou 52 anos agora no fim de novembro, no cinema.

Em “Os amigos”, o ator vive Théo. Um homem em crise existencial. Circunstância esta, deflagrada pela morte de um amigo de infância ao qual invariavelmente havia se afastado.

Não é um personagem trivial; e triviais não são os filmes que Ricca elege para trabalhar.

Em 2009, estreou na direção com “Cabeça a prêmio”. Um filme que mesclava cânones do western com um poderoso drama familiar ambientado no Mato Grosso do Sul.

Aos poucos, Ricca foi migrando de filmes com mais apelo popular como “Cristina quer casar” (2003), “O coronel e o lobisomem” e “O casamento de Romeu e Julieta” (2005) para obras como “Crime delicado” (2005), “A via Láctea” (2007) e “Verônica” (2008).

A transição pode ser lida como um contraponto ao Marco Ricca da televisão. Um ato de resistência a essa percepção de que o cinema brasileiro é uma extensão da Globo e até mesmo como um manifesto em prol de um cinema mais criativo, imaginativo e livre.

As parcerias com Beto Brant, com quem rodou além de “Crime delicado” o intenso e surpreendente “O invasor” (2001), e com Lina Chamie, sua diretora em “Os amigos” e “A via Láctea” sinalizam esse desejo de empreender cinema como um projeto de transformação pessoal, profissional, mas também cultural no âmbito social.

Seu próximo filme, “O fim e os meios”, assinado por Murilo Salles, estreita essa noção ao misturar o drama pessoal de um publicitário imerso em um casamento em frangalhos que é contratado para tratar da imagem de um senador em busca da reeleição. Ricca não faz o protagonista, mas empresta sua autoridade de homem de cinema para ajudar um filme a ir mais longe.

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terça-feira, 16 de setembro de 2014 Análises, Filmes | 06:00

Qual filme deve representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de melhor produção estrangeira?

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Nesta quinta-feira (18), o Ministério da Cultura irá revelar o filme escolhido para representar o Brasil na briga por uma indicação ao Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro. O anúncio será feito às 10 horas da manhã em uma solenidade na Cinemateca Brasileira em São Paulo.

Ao todo, 18 longas-metragens participam da seleção. O júri que irá decidir o vencedor é composto pelo diretor, produtor e roteirista Jeferson De, pelo jornalista Luis Erlanger, pela coordenadora-geral de Desenvolvimento Sustentável do Audiovisual da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, Sylvia Regina Bahiense Naves, pelo presidente do conselho da Televisão da América Latina, Orlando de Salles Senna, e pelo ministro do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores, George Torquato Firmeza.

Cena de "O lobo atrás da porta": thriller policial é o favorito a ficar com a vaga

Cena de “O lobo atrás da porta”: thriller policial é o favorito a ficar com a vaga

Os filmes inscritos são os seguintes:

 “A grande vitória”, de Stefano Capuzzi

“A oeste do fim do mundo”, de Paulo Nascimento

“Amazônia”, de Thierry Ragobert

“Dominguinhos”, de Eduardo Nazarian

“Entre nós”, de Paulo Morelli

“O exercício do caos”, de Frederico Machado”

“Getúlio”, de João Jardim

“Hoje eu quero voltar sozinho”, de Daniel Ribeiro

“Jogo de xadrez”, de Luis Antônio Pereira

“Minhocas”, de Paolo Conti e Arthur Nunes

“Não pare na pista: a melhor história de Paulo Coelho”, de Daniel Augusto

“O homem das multidões”, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes

“O lobo atrás da porta”, de Fernando Coimbra

“O menino e o mundo”, de Alê Abreu

“O menino no espelho”, de Guilherme Fiúza Zenha

“Praia do futuro”, de Karim Aïnouz

“Serra pelada”, de Heitor Dhalia

“Tatuagem”, de Hilton Lacerda

Cena de "Praia do futuro": filme ousado e complexo demais para o histórico das escolhas brasileiras. A opção por ele seria uma grata surpresa, mas com poucas chances de nomeação

Cena de “Praia do futuro”: filme ousado e complexo demais para o histórico das escolhas brasileiras. A opção por ele seria uma grata surpresa, mas com poucas chances de nomeação ao Oscar

A boa notícia é que a seleção de títulos é das mais diversificadas, ricas e qualificadas que o Ministério da Cultura dispõe em anos. A má notícia é que isso não necessariamente torna a tarefa mais fácil. Afinal, eleger o filme que irá tentar uma vaga no Oscar exige desprendimento, intuição e análise do contexto cinematográfico do momento no mundo e no Oscar. Qualidade não é, e não deve ser, o único parâmetro. Todos os anos o júri tenta equilibrar a equação de “o que os americanos vão apreciar” com “o cinema que nos dá orgulho”. Desde “Central do Brasil” no longínquo 1999, o tiro tem saído pela culatra.

Neste ano, “O lobo atrás da porta” desponta como virtual favorito. Trata-se de um thriller robusto, urbano e com aquele aspecto transnacional que recentemente o júri tem se apropriado na hora de escolher um filme que contenha certa brasilidade, mas não se resuma meramente a ela. Se optar pelo filme de Fernando Coimbra, se aproximará da escolha de 2014, “O som ao redor”; filme festejado pela crítica e experimentado em festivais fora do país. Pode ser o caminho, mas o histórico das escolhas brasileiras não sugere repetição. Há bons filmes como “Hoje eu quero voltar sozinho”, premiado no festival de Berlim”, e “O homem das multidões”, que adapta com liberdade um conto de Edgar Allan Poe, para falar da solidão. Qualquer um dos dois representaria uma escolha ousada, de afirmação do cinema autoral brasileiro como alternativa à produção de massa. Mas a produção autoral brasileira não é seguida tão de perto por membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood como eles o fazem com o cinema europeu, que geralmente privilegia em suas escolhas esse tipo de filme.

"O homem das multidões" seria uma aposta de risco do Brasil; filmes com esse perfil costumam emplacar no Oscar  quando submetido por países europeus

“O homem das multidões” seria uma aposta de risco do Brasil; filmes com esse perfil costumam
emplacar no Oscar quando submetido por países europeus

Cena da cinebiografia de Paulo Coelho: se for escolhido, filme caracteriza aposta conservadora

Cena da cinebiografia de Paulo Coelho: se for escolhido, filme caracteriza aposta conservadora

Nesse sentido, a biografia de um popular presidente brasileiro (“Getúlio”), um épico com ecos de Tarantino sobre a busca pela riqueza no norte do país (“Serra pelada”) e a biografia do escritor brasileiro mais famoso do mundo – e com muitas celebridades como fãs (“Não pare na pista: a melhor história de Paulo Coelho”) seriam escolhas mais seguras. Menos justas, porém.

É possível que nenhum desses filmes prevaleça e “Entre nós”, eficiente dramédia de Paulo Morelli surpreenda e fique com a vaga. De qualquer forma, o brasileiro tem que comemorar. Os 18 títulos na disputa são todos filmes que enobrecem o cinema nacional e o tornam mais plural, autêntico e, porque não, digno de Oscar.

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segunda-feira, 1 de setembro de 2014 Filmes | 22:27

Confira o trailer de “O candidato honesto”, filme que brinca com o estigma de ser político no Brasil

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E se existisse um político honesto? A retórica provoca gargalhadas em uns, resignação em outros e contrariedade em mais alguns. “O candidato honesto”, novo filme do diretor Roberto Santucci (dos sucessos de bilheteria “Até que a sorte nos separe” 1 e 2), tem como objetivo se comunicar com esses três grupos. No filme, estrelado por Leandro Hassum, um político cheio de galhofa passa a não conseguir contar uma mentira sequer após sua avó, na hora da morte, lhe jogar uma mandinga.

É a desculpa perfeita para o humor físico de Leandro Hassum e piadas cheias de referências à cena política nacional, como é possível identificar no trailer abaixo.  O filme estreia nos cinemas brasileiros no dia 2 de outubro, estrategicamente três dias antes das eleições.

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sexta-feira, 25 de julho de 2014 Análises, Curiosidades, Filmes | 06:00

Quando o cinema pensa o jornalismo

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Está programado para estrear nos cinemas no próximo dia 7 de agosto o documentário “O mercado de notícias”, de Jorge Furtado. O filme combina a encenação da peça homônima de 1625 do dramaturgo inglês Ben Jonson com depoimentos colhidos pelo diretor de 13 jornalistas de diferentes mídias da cena noticiosa nacional.

A intenção do cineasta é discutir a reverberação do jornalismo no cotidiano, o sentido e a prática da profissão, bem como seu futuro. O filme reflete casos recentes da política brasileira e pormenoriza a atuação da imprensa. A estrutura, ainda que convencional, busca a metaforização nesse diálogo que propõe com uma peça forjada no século XVII. As circunstâncias do jornalismo, no entanto, são passíveis de mudança? A essência se metamorfoseia com o tempo ou permanece imutável? São questionamentos que norteiam o interesse de Furtado com seu filme.

Os jornalistas depoentes não são menos notórios que o diretor de “O homem que copiava” (2003) e “Saneamento básico – o filme” (2007). Bob Fernandes, Cristiana Lôbo, Fernando Rodrigues, Geneton Moraes Neto, Janio de Freitas, José Roberto de Toledo, Leandro Fortes, Luis Nassif (colunista do iG), Mauricio Dias, Mino Carta, Paulo Moreira Leite, Raimundo Pereira e Renata Lo Prete formam esse painel plural e multifacetado tateado por Furtado.

Para o diretor, seu documentário “debate critérios jornalísticos e, também, configura uma defesa da atividade jornalística, do bom jornalismo, sem o qual não há democracia”.

O jornalista Fernando Rodrigues em cena de "O mercado de notícias"

O jornalista Fernando Rodrigues em cena de “O mercado de notícias”

Em "Rede de intrigas", o âncora de um telejornal promete se suicidar no ar quando de sua demissão e vira um sucesso de audiência

Em “Rede de intrigas”, o âncora de um telejornal promete se suicidar no ar quando de sua demissão e vira um sucesso de audiência à medida que perde as papas da língua

Em "O informante", Al Pacino vive um jornalista que tenta convencer uma potencial fonte, mas se vê imerso em um jogo escuso de interesses econômicos

Em “O informante”, Al Pacino vive um jornalista que tenta convencer uma potencial fonte a entregar podres da indústria tabagista, mas se vê imerso em um jogo escuso de interesses econômicos

A ideia central do filme, no entanto, não é nova. Há, por exemplo, um documentário americano recente que aborda com propriedade o mesmo tema. Trata-se de “Page one: inside The New York Times” (2011), disponível no catálogo da Netflix.  O filme de Andrew Rossi propõe um mergulho sem precedentes na redação e na história do jornal mais importante e mais influente do mundo. Jornalistas do veículo e também de concorrentes falam sobre o jornal, as mudanças estruturais impostas pelo tempo e, na esteira desta avaliação, pelas transformações inerentes ao próprio jornalismo.

A primazia dessa reflexão do jornalismo, contudo, não é do documentário. O cinema ficcional discute o jornalismo há um bom tempo. “A montanha dos sete abutres”, de Billy Wilder (1951) é item obrigatório nas faculdades de jornalismo por oferecer uma visão arguta de como o jornalismo pode pender para o sensacionalismo em um piscar de olhos. Desse quadro indesejável para a manipulação, basta outro piscar de olhos.

Ainda nessa linha de pensar o jornalismo em toda a sua complexidade, podem ser destacados filmes como “O informante” (1999), “Quase famosos” (2000), “Nos bastidores da notícia” (1987), “Todos os homens do presidente” (1976), “A primeira página” (1974), “Boa noite e boa sorte” (2005), “Frost/Nixon” (2008), “Rede de intrigas” (1976), “O jornal” (1994), “O preço de uma verdade” (2003), “O quarto poder” (1997), “Intrigas de Estado” (2009), entre tantas outras preciosas inflexões sobre o fazer jornalístico.

Em "O quarto poder", Dustin Hoffman vive experiente jornalista que manipula um homem desesperado para conseguir o furo de sua carreira

Em “O quarto poder”, Dustin Hoffman vive experiente jornalista que manipula um homem desesperado para conseguir o furo de sua carreira

"Quase famosos" mostra a experiência de um jovem jornalista acompanhando uma banda em turnê

“Quase famosos” mostra a experiência de um jovem jornalista acompanhando uma banda de rock em turnê

Um ex-presidente em busca de redenção midiática e um apresentador de tv contestado em um embate intelectual primoroso são a matéria prima de "Frost/Nixon"

Um ex-presidente em busca de redenção midiática e um apresentador de tv contestado em um embate intelectual primoroso são a matéria prima de “Frost/Nixon”

Com diferentes inclinações, tons e conclusões, esses filmes convidam a uma reflexão fundamentalmente importante em um momento em que o País se prepara mais uma vez para ir às urnas. Reflexão esta que deve ser encampada por quem produz e, principalmente, por quem consome notícia.

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