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sexta-feira, 4 de setembro de 2015 Filmes, Notícias | 21:49

Longa brasileiro “Boi Neon” busca contradição do corpo e causa boa impressão em Veneza

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Foto: divulgação

Foto: divulgação

Um filme sobre um vaqueiro que desenha vestidos e sonha em ser estilista e sobre uma caminhoneira que faz striptease à noite tomou o festival de Veneza de assalto logo no início dos trabalhos.  A obra do jovem cineasta Gabriel Mascaro, dos impactantes “Domésticas” (2012) e “Ventos de agosto” (2014) faz parte da programação da mostra paralela Horizontes.

“O meu longa tenta revisar a compreensão política e simbólica das relações humanas no Nordeste, explorando tramas e cores que testemunham as contradições da sociedade e dilatando as noções de identidade e gênero que afrontam os personagens em uma escala diferente de valores e aspirações”, observou o cineasta na coletiva do filme no lido.

“A exploração fascinante do corpo e de normas de gênero se impõem ao desenvolvimento narrativo”, anotou a crítica do The Hollywood Reporter que cravou Mascaro como um “talento a se observar”. Já a Variety observa que o “filme exala harmonia” e sublinha a forte conotação sexual de um filme “mais interessado em um aprofundado subtexto político do que em qualquer desenvolvimento narrativo convencional”. “O filme chama atenção para velhas tradições que estão sendo abandonadas, assim como certas ideias de masculinidade”, anotou a crítica do Guardian.

“Boi Neon” mostra o mundo de Iremar (Juliano Cazarré), um homem encarregado de cuidar dos touros da vaquejada, mas que sonha em ser estilista feminino; de Galega (Maeve Jinkings), motorista de caminhão que transporta os animais de uma arena à outra e que de noite faz striptease; de Cacá (Alyne Santana), a filha pré-adolescente de Galega; e de Zé (Carlos Pessoa), colega de trabalho de Iremar.

As relações entre os personagens não são nunca muito bem explicadas pelo diretor, que os apresenta como uma metáfora de uma sociedade em processo de mudanças constantes que não se solidificam. Essa ambiguidade é bem mostrada por Mascaro, que descreve o dia a dia desses microcosmos como um etimólogo examina a vida de uma colmeia ou de um formigueiro.

Graças aos seus inúmeros trabalhos como artista plástico, o pernambucano retrata o mundo das vaquejadas como se fosse uma obra de arte em constante movimento. “Um dos meus propósitos ao realizar este filme é eliminar o lugar comum de que o Nordeste brasileiro está povoado apenas de gente inculta e violenta e transformá-lo em um ambiente sacro, exótico e misterioso”, declarou Mascaro.

*Com informações da Agência Ansa

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quinta-feira, 24 de abril de 2014 Análises | 19:20

Reflexão sobre o uso da nudez no cinema

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Kate Winslet posa para Leonardo DiCaprio em cena de "Titanic" (Foto: divulgação)

Kate Winslet posa para Leonardo DiCaprio em cena de “Titanic” (Foto: divulgação)

No filme “Era uma vez eu, Verônica”, de Marcelo Gomes, há a investigação de uma personagem em crise existencial. Hermilia Guedes se entrega à personagem que experimenta sexualmente como forma de se validar social e emocionalmente. Expor-se pela arte não é exatamente uma novidade para a atriz, nem para o cinema pernambucano que com produções tão díspares como “Tatuagem” (2013), “Baixio das bestas” (2007), entre outros, cristaliza a nudez como ferramenta narrativa valiosa.

Essa apropriação do corpo do ator pode ser vista em filmes recentes como “Azul é a cor mais quente” (2013), “Shame” (2011) e “Ninfomaníaca” (2013). Em todas as produções, a nudez total se justifica pela escrutinação da rotina, pela exposição absoluta do íntimo dos personagens (radicalizada pela exibição física), e pelo fato de que os conflitos intrínsecos à narrativa se alimentam dessa exposição e oxigenam a percepção do espectador.

Abdellatif Kechiche filma a nudez de suas protagonistas em “Azul é a cor mais quente”, filme que causou comoção por exibir sexo homossexual sem concessões, com o vigor com que filma suas protagonistas comendo, brigando, amando. A passionalidade do registro é justamente o maior encantamento do filme.

Já em “Shame”, a exposição é artesanal. Steve McQueen, que este ano disputou o Oscar com “12 anos de escravidão”, tem formação nas artes plásticas e utiliza o corpo como elemento primário de seu discurso. Nesse contexto, a verdade em “Shame” só se anuncia pela exposição. É uma opção estética corajosa, principalmente, se considerarmos que há mais tolerância à nudez feminina do que à masculina. Prova disso é que Michael Fassbender recebeu muitos prêmios por sua excelente atuação como um homem viciado em sexo, como a Copa Volpi de melhor ator no festival de Veneza de 2011, mas ficou de fora do Oscar. Já Kate Winslet, atriz que assume sua nudez com desenvoltura em filmes diversos como “Titanic” (1997), “Fogo sagrado (1999) e “O leitor” (2008), foi laureada por este último com o prêmio da Academia.

Michael Fassbender em "Shame": atuação corajosa (Foto: divulgação)

Michael Fassbender em “Shame”: atuação corajosa (Foto: divulgação)

Em “Ninfomaníaca”, o sempre provocador Lars Von Trier, mecaniza o sexo e a nudez, nesse sentido, os corpos nus obedecem a essa visão deserotizada pretendida pelo cineasta.

Justificando a nudez

Em “Titanic” (1997), por exemplo, a nudez de Kate Winslet era necessária? Existe uma sedução em curso quando sua Rose posa para o Jack de Leonardo DiCaprio. Exibir seu corpo é partilhar com o expectador o erotismo que visita os personagens. James Cameron conduz a situação com muita elegância e apresenta uma cena de sexo à altura do engajamento romântico pretendido; e pudica na medida em que o tamanho do filme permite.

O pôster original de "Sob a pele", ficção científica em que Scarlett Johansson aparece totalmente nua. O último trailer do filme causou comoção nas redes sociais

O pôster original de “Sob a pele”, ficção científica em que Scarlett Johansson aparece totalmente nua. O último trailer do filme causou comoção nas redes sociais

Em filmes de terror a nudez é um paliativo para os hormônios exaltados.  Faz parte da rotina do gênero, um dos primeiros a romper os embargos formais e informais do cinema americano quanto ao tema. Na verdade, o gênero é moralista e os desavergonhados costumam ser punidos.

Esse moralismo, que vem primeiro do público, confina a nudez, pelo menos em sua plenitude, ao cinema dito de arte. O que não implica dizer que a nudez não seja escravizada por interesses comerciais. O próprio marketing de certos filmes explora isso. O ator Pedro Cardoso, mais conhecido por seu trabalho como Agostinho em “A grande família”, provocou grande comoção na mídia especializada em 2008 ao ler o “manifesto contra a nudez”, em que criticava o fato de diretores de cinema banalizarem o uso da nudez e exigirem que atrizes se despissem em cenas que, na avaliação dele, dispensariam tal ato. Toda a classe artística reverberou o episódio, mas não houve grandes desdobramentos práticos.

Tanto no Brasil como no mundo, o cinema continua palco para a nudez publicitária, aquela que não tem outro fundamento que não o embotamento do produto. A nudez como chamariz de público, no entanto, está longe de ser o único subterfúgio manipulado por estúdios e diretores de cinema, mas a consternação que provoca é reveladora da moral dúbia com que nos relacionamos com o tema.

O uso ou não da nudez em um filme é uma decisão do diretor e a nudez deve estar justificada no contexto da fita. Um bastidor de “Closer- perto demais” (2004), grande filme sobre o fluxo e complexidade das relações amorosas, atesta essa perspectiva. Há uma cena em que a personagem de Natalie Portman faz um strip-tease para o personagem de Clive Owen em uma boate. Mike Nichols, o diretor, filmou a nudez de Natalie Portman com direito a um demorado close no sexo da atriz. Na pós- produção, conversando com ela, decidiu que o close não era necessário na cena; que esta cumpria seu propósito sem essa exposição por parte da atriz. A própria Natalie Portman viria a se expor nua mais adiante em filmes como “Cisne negro” (2011) e no curta-metragem “Hotel Chevalier” (2007).

Para favorecer o contraponto, há no filme “Em transe” (2013), de Danny Boyle, o nu frontal da atriz Rosario Dawson. No filme, que versa sobre hipnose e crime no mundo das artes, a justificativa para a exposição do sexo da atriz reside no fato desta ser elemento chave para o acionamento da memória de um dos personagens. Há, portanto, uma valiosa função narrativa nessa nudez. Reforçada, é claro, por uma convicção estética que então é compartilhada com o público.

Natalie Portman e Clive Owen em uma das cenas mais matadoras de "Closer": a nudez da atriz desviaria a atenção dos diálogos recheados de dor e ironia (Foto: divulgação)

Natalie Portman e Clive Owen em uma das cenas mais matadoras de “Closer”: a nudez da atriz desviaria a atenção dos diálogos recheados de dor e ironia (Foto: divulgação)

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