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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017 Críticas, Filmes | 07:30

“Assim que Abro Meus Olhos” flagra gênese da primavera árabe

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Filme que foi escolhido o representante da Tunísia para disputar vaga no Oscar 2017 entre as produções estrangeiras, já está em cartaz nos cinemas de São Paulo

Cena do filme Assim que Abro meus Olhos, que já está em cartaz no Brasil

Cena do filme Assim que Abro meus Olhos, que já está em cartaz no Brasil

O cinema tunisiano não é tão acessível para o público brasileiro, justamente por isso quando um filme como “Assim que Abro Meus Olhos” estreia no Brasil, cortesia da distribuidora independente Supo Mungan, é preciso, com o perdão do trocadilho, abrir os olhos. Dirigido por Leyla Bouzid, a produção desperta a curiosidade pelo cinema daquele país com uma força dramática insuspeita.

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Farah, vivida pela incrível Baya Medhaffar, tem 18 anos e se beneficia do fato de ser filha de pais liberais. Esse liberalismo carece de contexto. Estamos na Túnis – capital tunisiana – de 2010, pré-primavera árabe, convém lembrar que a Tunísia precipitou todo o movimento revolucionário que hoje já parece adormecido. Farah gosta de vestir roupas descoladas e tem uma banda que entoa músicas de protesto. Além de estar amorosamente envolvida com o baixista Borhène (Montassar Ayari).  “Assim que Abro Meus Olhos”, portanto, flagra o momento em que a juventude tunisiana dava os primeiros tons da revolução que seria deflagrada logo adiante.

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Cena do filme Assim que Abro Meus Olhos

Cena do filme Assim que Abro Meus Olhos

A beleza do filme de Bouzid reside no fato de que é tanto um retrato desse momento de convulsão social, como um libelo feminista em uma sociedade que ainda tem o machismo fortemente enraizado. Farah é um espírito livre, que fascina os homens, mas é também uma moça ingênua. Essa dualidade é muito bem adensada pelo registro da cineasta que sabe que sua personagem não escaparia ao terror do estado das coisas, não importando sua coragem ou reminiscências familiares.

A relação de Farah com seus pais é outro ponto forte do filme. Não há maniqueísmo aqui. Apesar de progressistas, seus pais não agem com ela da maneira que ela gostaria que agisse. Um problema tão cotidiano na Tunísia, como na Alemanha ou no Brasil. Bouzid consegue convergir conflitos e dilemas essencialmente tunisianos, ou do Oriente Médio em um olhar mais genérico, e universais.

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A inquietude da juventude, condensada pela arte e pela tecnologia, ganha relevo no registro da cineasta que consegue capturar o zeitgeist com desprendimento e sem didatismo. Essa leveza narrativa, no entanto, não afasta a rigidez do universo que “Assim que Abro Meus Olhos” aborda. Essa destreza qualifica o filme como um dos destaques dos cinemas brasileiros neste começo de 2017.

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