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terça-feira, 16 de junho de 2015 Análises, Filmes | 20:19

Filme mais romântico da década de 90, “As pontes de Madison” completa 20 anos

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Foto: divulgação

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Clint Eastwood talvez já não seja reconhecido hoje como o caubói durão de outrora. Aos 85 anos, a alcunha de cineasta prestigiado talvez seja a mais notória. Esse prestígio emana de uma filmografia plural, complexa e cheia de energia e inquietação. Parte essencial dessa filmografia, “As pontes de Madison”, que completa 20 anos de lançamento neste junho de 2015, não costuma ser listado por críticos e cinéfilos como um dos pontos altos da carreira de Clint. Talvez por se tratar de um romance, talvez por remeter a uma fase em que Clint ainda era visto como um ator que também dirigia e não como um cineasta/ator. Fato é que “As pontes de Madison” não só é fundamental para construir intimidade com o cinema de Clint – recheado de conflitos existenciais angustiantes, como é, também, uma das histórias de amor mais belas e doloridas já adornadas pelo cinema.

Adaptado da obra homônima de Robert James Waller e roteirizado para o cinema por Richard LaGravenese – que no futuro dirigiria o açucarado “P.S . Eu te-amo” – “As pontes de Madison” apresenta a história de amor entre Francesca Johnson (Meryl Streep, indicada ao Oscar pelo papel), dona de casa que leva vida ordinária no campo, e Robert Kincaid (Clint Eastwood, em grande momento como ator), fotógrafo na região por uns dias para fotografar as pontes que dão nome ao filme e figuram como atração turística do local.

madiPerdido, ele chega à casa de Francesca – que passa alguns dias sozinha sem a companhia dos filhos e do marido que partiram em uma viagem – em busca de informações.  Ela tenta, mas não consegue explicar ao fotógrafo como acessar as tais pontes. Resolve mostrar ela mesma. O dia na companhia um do outro se revela muito mais agradável do que ambos poderiam imaginar. No dia seguinte, Robert e Francesca se aproximam ainda mais e ela decide viver aqueles dias em uma intensidade que jamais imaginara possível em sua vida há 48 horas.

O idílio tem data para acabar? Robert ofertara a Francesca uma verdade que ela sempre negara. A de que ela era uma mulher fascinante, desabrochada e cujo desejo de viver estava confinado naquela vida pacata e cômoda. Robert queria que ela partisse com ele. Francesca gostava da ideia, mas e sua família? O cinema, então, impõe a Meryl Streep um dilema, ainda que menos desolador, tão angustiante quanto o de “A escolha de Sofia”. Francesca precisa decidir se vive essa história de amor em toda a plenitude que intui possível ou se se resigna no seio familiar e atende às responsabilidades uma vez assumidas há tanto tempo.

A narrativa de “As pontes de Madison” transborda sentimento. Seja na perspectiva dos filhos e na disposição destes de entender a escolha da mãe – e com esse exercício reavaliar as próprias escolhas amorosas – seja no afeto sincero e abrupto entre Robert e Francesca. A maneira como Clint Eastwood filma torna possível o tangenciamento do dissabor do amor idealizado.  Francesca e Robert seriam felizes juntos fora daquele contexto? A rotina os alcançaria? O amor só sobrevive se não for vivido em seu todo? São perguntas legítimas que nos acompanham.

“As pontes de Madison”, em um olhar histórico, pode ser observado como o filme que representa a virada de Clint. Aqui estão as primeiras pistas do cineasta observador da natureza humana e de suas contradições, assim como do autor sensível que traz interesses caros ao seu cinema para gravitar os temas centrais de seus filmes. É um Clint diferente do vencedor do Oscar por “Os imperdoáveis” (1992). Mais complexo e menos assertivo.

O amor em escalas, conotações e contextos diferentes voltaria a ser abordado por Clint em filmes como “Menina de ouro”, “A troca” e “Além da vida”. O amor romântico, no entanto, em toda a sua potência, só fora trabalhado por ele aqui.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 16:43

Eastwood flagra América combalida por meio de herói duvidoso em “Sniper americano”

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De vez em quando surge um filme cujo rótulo “incompreendido” precisa ser empregado. Há muito tempo, no entanto, não surgia um filme capaz de provocar debate tão acirrado e dominar a agenda cultural de um país, no caso os EUA, como “Sniper americano” (EUA, 2014).

O filme de Clint Eastwood foi majoritariamente percebido como uma peça de propaganda militar, um filme urdido sob  benção de uma América autoindulgente e conservadora. Há, também, quem enxergue um grave deslocamento de causa e efeito. Percebe raízes antibelicistas na narrativa desenvolvida por Eastwood, mas julga que essa narrativa coadunada com a trajetória de Chris Kyle, considerado o atirador de elite mais letal da história dos EUA, é contraproducente. Portanto, um erro de estratégia.

Chris Kyle em ação: polarização em torno do personagem serve aos propósitos de Eastwood (Foto: divulgação)

Chris Kyle em ação: polarização em torno do personagem serve aos propósitos de Eastwood
(Foto: divulgação)

Ambas as teorias falham miseravelmente. Clint Eastwood não faz uma defesa da guerra, tampouco se levanta contra ela, ele já foi mais enfático no quesito no díptico que dirigiu sobre a segunda guerra mundial (“A conquista da honra” e “Cartas de Iwo Jima”, ambos de 2006).  O cineasta também não objetiva repisar os efeitos da guerra em um homem, algo belamente registrado pelo cinema em filmes como “Amargo regresso” (1978) e “Guerra do terror” (2009), entre outros.

O que ele oferece é um estudo muito mais interior, robusto, complexo e sensível. Por isso mesmo foge à compreensão de muitos. Eastwood radiografa, por meio desse herói enviesado, uma nação em litígio consigo mesma. Imbuído de um patriotismo de cavidade, Chris Kyle (Bradley Cooper) parece se esforçar para manter consigo uma visão de que o mundo é preto no branco, refutando o cinza tão defendido na contemporaneidade –  e que outros personagens ao longo da narrativa parecem aceitar. Kyle virou Seal (membro da elite da marinha americana) por falta de propósito, mas a visão de mundo é fruto de uma educação embrutecida do pai, um típico caubói do Texas, articula Eastwood logo no começo da projeção.

Há algo por trás da obsessão de Chris Kyle pela guerra. O espectador pode especular se tratar da rivalidade silenciosa com o atirador de elite sírio que desafia seus números, o desejo de vingar o iraquiano disposto a colaborar com as tropas americanas que foi morto pelo açougueiro ou mesmo a vaidade de reforçar sua “lenda”, como é carinhosamente chamado pelos corredores da guerra.

Mas trata-se mais de uma visão de mundo rudimentar que se apresenta verborragicamente para a audiência em uma conversa entre Klye e sua esposa (Sienna Miller) logo após a leitura de uma carta deixada por um amigo morto em combate.

São nesses respiros dramáticos que Eastwood tece pequenos comentários sobre uma América remoída e fragmentada. Há uma outra cena em que Kyle encara uma televisão e ouvimos todo tipo de explosões e tiroteios para depois descobrirmos que a TV estava desligada.

Eastwood defende com momentos como esse que a guerra é algo que se retroalimenta. A cultura expressa por Kyle, que o filme sabiamente não defende, acusa ou redime, está viva na América e toda a reação ao filme é sintomática dessa condição.

Bradley Cooper, não menos que extraordinário, ajuda a dimensionar as angústias de seu personagem (Foto: divulgação)

Bradley Cooper, não menos que extraordinário, ajuda a dimensionar as angústias de seu personagem
(Foto: divulgação)

Temos outra cena em que Kyle ensina seu filho a caçar. Ele diz “É uma coisa e tanto interromper um coração”. O diálogo, como bem lembrou Luísa Pécora em sua excelente crítica sobre o filme, remete a uma fala de “Os imperdoáveis” em que o veterano vivido por Clint Eastwood diz que “é uma coisa e tanto tirar a vida de um homem”. A diferença é que Kyle não estava cansado dessa vida e desferiu a frase com o desejo e excitação de que seu filho logo soubesse o que é esse sentimento, enquanto que o desgostoso caubói vivido por Eastwood em “Os imperdoáveis” receava que seu aprendiz tivesse que cometer tal ato em breve.

A autorreferência, sutil como ela mesma, ajuda a entender a força de “Sniper americano” uma investigação doída, profunda e eloquente de um personagem que mimetiza uma visão de mundo, tida como decadente, mas ainda muito influente.

Passa por aí a pouca atenção dada à morte de Kyle, tão absurda e inglória que talvez merecesse um comentário mais febril. Eastwood não trata o fato como desimportante, mas evita aferir-lhe propriedade para que o norte de seu filme não seja deslocado. Não contava, é claro, que desentendessem seu filme de todo jeito.

Um último adendo deve ser feito à atuação de Bradley Cooper.  O ator reveste seu Kyle de camadas insuspeitas e sublinha com comedimento e astúcia dramática os recortes pretendidos por Eastwood. Seu Chris Kyle é um homem com uma visão unilateral do mundo. Aferrado a ela. Mas essa visão também tem seu preço. O ônus familiar e emocional, tão bem encampados no filme, o tornam mais familiar e permitem a confusão de muitos ao tomá-lo por um filme sobre “os efeitos da guerra em um homem”. Não que haja demérito aí e essa camada de “Sniper americano” é suficientemente satisfatória. Mas há muito além e Bradley Cooper é, para todos os efeitos, o fiador dessa desestabilizadora experiência que é “Sniper Americano”. Um Eastwood dos grandes, enfim!

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