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sexta-feira, 21 de novembro de 2014 Análises, Filmes | 06:00

“Closer”, a obra-prima de Mike Nichols, completa dez anos

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Foto: divulgação/Columbia Pictures

Foto: divulgação/Columbia Pictures

O cinema perdeu mais um de seus filhos pródigos para esse 2014 caprichoso e cioso de talentos da sétima arte. Mike Nichols partiu, mas deixou um legado majestoso por meio de seus filmes reflexivos do homem comum e suas fragilidades. Um desses filmes é “Closer – perto demais” que completa dez anos de seu lançamento no próximo dia 10 de dezembro.

À época de seu lançamento, no Brasil seria lançado no dia 21 de janeiro de 2005, o filme virou uma coqueluche cinéfila. As relações amorosas jamais haviam sido tão cruel e desapaixonadamente abordadas e expostas no cinema.

Superficialmente, “Closer” versa sobre a volatilidade das relações amorosas. Um olhar mais atento, no entanto, percebe que o real objetivo do filme é refletir sobre a dinâmica rocambolesca dos relacionamentos amorosos e os papeis do ego, superego e id, esses conceitos psicológicos tão abstratos do nosso cotidiano, na sorte de nossas relações amorosas.

“Closer” é brutal em sua expressividade de como o ser humano é um ser ‘complexizante’ e não há matéria-prima mais receptiva a uma análise dessa natureza do que o amor. Esse sentimento tão indevassável quanto poderoso.

A acuidade do registro reserva atemporalidade para “Closer”, filme daqueles que cresce de tamanho a cada vez que se volta a ele. Os diálogos secos, a moral em suspensão, a tensão constante e a coragem transbordada não indicam um filme de fácil empatia. Mas se “Closer” optasse por este caminho perderia a longevidade de vista. Foram poucos prêmios que souberam lidar com “Closer”, cuja origem é teatral, à época de seu lançamento. O Oscar indicou apenas as performances de Clive Owen e Natalie Portman, como coadjuvantes. O Globo de Ouro fez mais e distinguiu o filme, o roteiro e Nichols, mas como no Oscar, não houve vitórias.

Algumas associações de críticos premiaram o elenco, composto ainda por Jude Law e Julia Roberts. Elenco digno de prêmios, diga-se. Exímio diretor de atores, Nichols aqui arranca a melhor atuação da carreira de Julia Roberts e consegue que seu quarteto atinja o mais elevado tom em toda e qualquer cena.

“Closer” é uma experiência demolidora. Um filme que dá prazer de ver ao cinéfilo, agonia ao enamorado, e desencantamento ao ser humano. Em dez anos, nenhum outro filme conseguiu reunir essas sensações durante duas horas e reproduzi-las toda vez que se volte a ele. Tal unicidade engrandece essa que é a última joia de uma cinematografia irretocável como a que Mike Nichols lega aos apreciadores do bom cinema.

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quinta-feira, 24 de abril de 2014 Análises | 19:20

Reflexão sobre o uso da nudez no cinema

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Kate Winslet posa para Leonardo DiCaprio em cena de "Titanic" (Foto: divulgação)

Kate Winslet posa para Leonardo DiCaprio em cena de “Titanic” (Foto: divulgação)

No filme “Era uma vez eu, Verônica”, de Marcelo Gomes, há a investigação de uma personagem em crise existencial. Hermilia Guedes se entrega à personagem que experimenta sexualmente como forma de se validar social e emocionalmente. Expor-se pela arte não é exatamente uma novidade para a atriz, nem para o cinema pernambucano que com produções tão díspares como “Tatuagem” (2013), “Baixio das bestas” (2007), entre outros, cristaliza a nudez como ferramenta narrativa valiosa.

Essa apropriação do corpo do ator pode ser vista em filmes recentes como “Azul é a cor mais quente” (2013), “Shame” (2011) e “Ninfomaníaca” (2013). Em todas as produções, a nudez total se justifica pela escrutinação da rotina, pela exposição absoluta do íntimo dos personagens (radicalizada pela exibição física), e pelo fato de que os conflitos intrínsecos à narrativa se alimentam dessa exposição e oxigenam a percepção do espectador.

Abdellatif Kechiche filma a nudez de suas protagonistas em “Azul é a cor mais quente”, filme que causou comoção por exibir sexo homossexual sem concessões, com o vigor com que filma suas protagonistas comendo, brigando, amando. A passionalidade do registro é justamente o maior encantamento do filme.

Já em “Shame”, a exposição é artesanal. Steve McQueen, que este ano disputou o Oscar com “12 anos de escravidão”, tem formação nas artes plásticas e utiliza o corpo como elemento primário de seu discurso. Nesse contexto, a verdade em “Shame” só se anuncia pela exposição. É uma opção estética corajosa, principalmente, se considerarmos que há mais tolerância à nudez feminina do que à masculina. Prova disso é que Michael Fassbender recebeu muitos prêmios por sua excelente atuação como um homem viciado em sexo, como a Copa Volpi de melhor ator no festival de Veneza de 2011, mas ficou de fora do Oscar. Já Kate Winslet, atriz que assume sua nudez com desenvoltura em filmes diversos como “Titanic” (1997), “Fogo sagrado (1999) e “O leitor” (2008), foi laureada por este último com o prêmio da Academia.

Michael Fassbender em "Shame": atuação corajosa (Foto: divulgação)

Michael Fassbender em “Shame”: atuação corajosa (Foto: divulgação)

Em “Ninfomaníaca”, o sempre provocador Lars Von Trier, mecaniza o sexo e a nudez, nesse sentido, os corpos nus obedecem a essa visão deserotizada pretendida pelo cineasta.

Justificando a nudez

Em “Titanic” (1997), por exemplo, a nudez de Kate Winslet era necessária? Existe uma sedução em curso quando sua Rose posa para o Jack de Leonardo DiCaprio. Exibir seu corpo é partilhar com o expectador o erotismo que visita os personagens. James Cameron conduz a situação com muita elegância e apresenta uma cena de sexo à altura do engajamento romântico pretendido; e pudica na medida em que o tamanho do filme permite.

O pôster original de "Sob a pele", ficção científica em que Scarlett Johansson aparece totalmente nua. O último trailer do filme causou comoção nas redes sociais

O pôster original de “Sob a pele”, ficção científica em que Scarlett Johansson aparece totalmente nua. O último trailer do filme causou comoção nas redes sociais

Em filmes de terror a nudez é um paliativo para os hormônios exaltados.  Faz parte da rotina do gênero, um dos primeiros a romper os embargos formais e informais do cinema americano quanto ao tema. Na verdade, o gênero é moralista e os desavergonhados costumam ser punidos.

Esse moralismo, que vem primeiro do público, confina a nudez, pelo menos em sua plenitude, ao cinema dito de arte. O que não implica dizer que a nudez não seja escravizada por interesses comerciais. O próprio marketing de certos filmes explora isso. O ator Pedro Cardoso, mais conhecido por seu trabalho como Agostinho em “A grande família”, provocou grande comoção na mídia especializada em 2008 ao ler o “manifesto contra a nudez”, em que criticava o fato de diretores de cinema banalizarem o uso da nudez e exigirem que atrizes se despissem em cenas que, na avaliação dele, dispensariam tal ato. Toda a classe artística reverberou o episódio, mas não houve grandes desdobramentos práticos.

Tanto no Brasil como no mundo, o cinema continua palco para a nudez publicitária, aquela que não tem outro fundamento que não o embotamento do produto. A nudez como chamariz de público, no entanto, está longe de ser o único subterfúgio manipulado por estúdios e diretores de cinema, mas a consternação que provoca é reveladora da moral dúbia com que nos relacionamos com o tema.

O uso ou não da nudez em um filme é uma decisão do diretor e a nudez deve estar justificada no contexto da fita. Um bastidor de “Closer- perto demais” (2004), grande filme sobre o fluxo e complexidade das relações amorosas, atesta essa perspectiva. Há uma cena em que a personagem de Natalie Portman faz um strip-tease para o personagem de Clive Owen em uma boate. Mike Nichols, o diretor, filmou a nudez de Natalie Portman com direito a um demorado close no sexo da atriz. Na pós- produção, conversando com ela, decidiu que o close não era necessário na cena; que esta cumpria seu propósito sem essa exposição por parte da atriz. A própria Natalie Portman viria a se expor nua mais adiante em filmes como “Cisne negro” (2011) e no curta-metragem “Hotel Chevalier” (2007).

Para favorecer o contraponto, há no filme “Em transe” (2013), de Danny Boyle, o nu frontal da atriz Rosario Dawson. No filme, que versa sobre hipnose e crime no mundo das artes, a justificativa para a exposição do sexo da atriz reside no fato desta ser elemento chave para o acionamento da memória de um dos personagens. Há, portanto, uma valiosa função narrativa nessa nudez. Reforçada, é claro, por uma convicção estética que então é compartilhada com o público.

Natalie Portman e Clive Owen em uma das cenas mais matadoras de "Closer": a nudez da atriz desviaria a atenção dos diálogos recheados de dor e ironia (Foto: divulgação)

Natalie Portman e Clive Owen em uma das cenas mais matadoras de “Closer”: a nudez da atriz desviaria a atenção dos diálogos recheados de dor e ironia (Foto: divulgação)

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