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domingo, 26 de novembro de 2017 Análises, Filmes | 13:19

As chances de “Corra!” na temporada de prêmios e a polêmica no Globo de Ouro

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Lançado no começo do ano, em fevereiro nos EUA e em maio no Brasil, o thriller “Corra!” promete chegar com força na temporada de premiações e como um bom termômetro disso já se encontra no epicentro de uma das polêmicas da temporada. Além de como o tema assédio sexual pautará a Oscar season, a classificação do filme de Jordan Peele para concorrer entre as comédias no Globo de Ouro gerou polêmica e grande repercussão negativa.

Cena de "Corra!", protagonista de uma das primeiras polêmicas da temporada de premiações em 2018

Cena de “Corra!”, protagonista de uma das primeiras polêmicas da temporada de premiações em 2018

Para começo de conversa, “Corra!” não é uma comédia, mas é uma sátira social aguda que trabalha de maneira inteligente com o humor. Peele, que é comediante, protestou. “O que o filme trata não é engraçado”. O filme mostra um fim de semana de um casal inter-racial na casa dos pais da namorada (branca) e como o racismo pode ser submerso e subversivo. A primeira vez que a produção chamou a atenção foi no festival de Sundance em janeiro e desde então foi uma saraivada de elogios.

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A Universal Pictures, que comprou os direitos da fita e a distribuiu globalmente, inscreveu o filme para concorrer entre as comédias. Simplesmente porque as chances de nomeação – e vitória – são maiores nesse eixo, já que o Globo de Ouro divide as principais categorias entre dramas e comédias. “Eu acho que foi apenas inscrito”, comentou Peele tentando minimizar o papel do estúdio que apoiou seu filme na “lambança”. De fato, a palavra final é da Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (HFPA, na sigla em inglês), mas a organização é conhecida por seu alto grau de flexibilidade, ou por abrir as pernas no português mais chulo, em nome das boas relações com os poderosos de Hollywood.

A submissão de “Corra!” às comédias não é nem mesmo a maior bobagem que a HFPA já fez nesse sentido. Alguém lembra de “O Turista”? Pois é… A inclusão de “Corra!” entre as comédias talvez incomode mais porque o filme discute com incrível sagacidade um tema importante e sempre incendiário que é o racismo, mas o raciocínio mercadológico da Universal não está errado. A indicação ao Globo de Ouro, ainda que em uma categoria contestável,  pode vitaminar as chances do filme que precisa estar no radar dos votantes do Oscar – algo que mais do que qualquer outra premiação, apenas a HFPA pode fazer.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Chances reais

Apesar de “Corra!” não ser um grande filme, sua inteligência e originalidade o precedem. Isso, aliado ao fator de não ser essencialmente um “filme de Oscar”, ter sido um hit nas bilheterias (mais de US$ 250 milhões arrecadados mundialmente) e o debate importante que encampa devem lhe colocar na rota de uma indicação a melhor filme. Na verdade, apenas o roteiro merecia lembrança. No Spirit Awards, bom termômetro para o Oscar, figurou em mais categorias do que o esperado. Além de filme e roteiro, foi lembrado em montagem, direção e ator.  A aparente patetada no Globo de ouro pode ser a chave para consolidar um dos contenders mais inusitados dos últimos anos no Oscar.

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quinta-feira, 25 de maio de 2017 Críticas, Filmes | 13:44

Sátira das tensões raciais, “Corra!” une comédia ao terror com excelência

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Filme não reinventa a roda, mas consegue preencher clichês de um significado incomum em produções do gênero. Com “Corra!”, Jordan Peele se fia como um artista a se observar no cinema

Cena de "Corra!", filme já em cartaz no Brasil

Cena de “Corra!”, filme já em cartaz no Brasil

A primeira cena de “Corra!”, em que vemos um jovem negro acuado ser sequestrado demonstra que o filme de estreia do ator e roteirista Jordan Peele vai abordar frontalmente as tensões raciais. É justamente a maneira surpreendente e sedutora com que o faz que torna esse hit do cinema independente, que chegou com pompa às salas brasileiras, algo tão atraente e inteligente.

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Chris, a revelação Daniel Kaluuya, está se preparando para passar o fim de semana na casa dos pais da namorada, a doce, compreensiva e aparentemente defensora das minorias Rose (Allison Williams, de “Girls”). Ansioso e apreensivo, ele joga a pergunta: “Seus pais sabem que eu sou negro?”. Ela acha fofo, faz graça e tenta tirar o peso dos ombros do boy. “Corra!”, que se define como uma comédia de horror, gênero incomum, mas que quando dá o ar de sua graça costuma arrebatar, é melhor quando trata o racismo pelo viés da sátira e acredite: a sátira aqui é potente!

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Chegando à casa dos pais de Rose, Cris estranha de antemão a postura dos empregados negros da casa. Mas o pai de Rose (melhor papel de Bradley Whitford em anos), um neurocirurgião cujo pai perdeu a classificatória olímpica para Jesse Owens – aquele que humilhou Hitler em Berlim – se apressa em dizer que votaria em Obama para um terceiro mandato. O segundo ato do filme é todo ele dedicado a desmascarar nossos impulsos racistas velados e é um deleite a maneira como Peele os esquematiza.

A mãe de Rose, vivida pela sempre competente Catherine Keener, é uma psiquiatra que se orgulha da capacidade de hipnotizar as pessoas. Aos poucos, Peele vai nos ensejando que aquele clima de estranheza na verdade é um clima de muita hostilidade disfarçada e, sensitivo, Chris começa a reagir a isso.

Uma reunião informal: "Corra!" trata das tensões raciais que fingimos não existir

Uma reunião informal: “Corra!” trata das tensões raciais que fingimos não existir

Não é exatamente surpreendente a curva que o filme toma em seu terceiro ato, uma referência óbvia aos mais experimentados no gênero é “O Albergue” (2005), o terror gore de Eli Roth, mas o viés satírico da trama e a talentosa arquitetura narrativa de Peele fazem de “Corra!” um bicho de outra natureza.

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Produzido pela mesma Blumhouse que reabilitou a carreira de M.Night Shyamalan e entregou alguns dos filmes mais interessantes do gênero, “Corra!” ganha pontos por incorporar um discurso necessário, sem soar militante. É cinema de entretenimento, mas com vigor e reverberação.  A maneira como trata da fetichização do corpo negro é um assombro.  É um filme tão bem resolvido com seu tema, que extrai os momentos de maior terror e opressão de cenas aparentemente banais.

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