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domingo, 23 de julho de 2017 Críticas, Filmes | 16:34

Com a fórmula Marvel, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” é o filme que o personagem precisava

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“Homem-Aranha: De Volta ao Lar” comprova a acertada decisão da Sony de recorrer à Marvel para recolocar o personagem que é seu maior trunfo nas bilheterias nos trilhos

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A relação entre a pré-adolescência e a maturidade é um elemento poderoso em “A Viatura”,  primeiro e único filme de John Watts como diretor antes de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” e essa característica não só é importante para a compreensão do sexto filme estrelado pelo herói aracnídeo, o primeiro com curadoria da Marvel Studios, como ajuda a entender a razão da bem sucedida escolha de Watts para a empreitada.

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“Homem- Aranha: De Volta ao Lar” é, para todos os efeitos, um reboot, mas não é mais um. Aqui temos o Aranha raiz, para usar uma expressão da moda. Peter Parker, maravilhosamente abordado por um confiante e cativante Tom Holland, é um menino franzino e nerd do ensino médio com dificuldades para chegar na garota que gosta e que calha de ter sido picado por uma aranha radioativa, ou geneticamente modificada, a gosto do freguês, e desenvolvido superpoderes.

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Mas não se engane, apesar de ser uma coprodução entre Sony e Marvel, este é um filme com o DNA da Marvel. Toda a mecânica e dinâmica do filme obedecem aos cânones das produções de Kevin Feige (o homem forte do Marvel Studios) e Tony Stark não só está presente no filme, como é a grande figura catalisadora da trama. Não obstante, piadinhas com os vingadores e um easter egg com o Capitão América ratificam a percepção de que este é um filme Marvel.

spider 2Não há problema nenhum nisso. “De Volta ao Lar” é esperto, fluente, tem ótimas cenas de ação e consegue ser tanto um filme de origem ( e você nem se dá conta disso), como um filme teen estrelado por um super-herói improvável.  Essa combinação resulta em sucesso em qualquer dicionário e aqui não é diferente. Como bônus, o Abutre de Michael Keaton, esse grande ator que vira e mexe, de um jeito ou de outro, está às voltas com o universo dos super-heróis no cinema, é o melhor vilão já rascunhado pela Marvel no cinema. Além do mais, sem fazer muito esforço, ele entrega uma atuação diferenciada no contexto dos filmes do gênero mais recentes.

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É impossível não reagir positivamente a “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, um filme muitíssimo bem engendrado pela fórmula Marvel com a expertise de Watts para elaborar conflitos geracionais – e repare como o filme se comunica e no mesmo compasso traduz a juventude de hoje. Mas não é memorável no sentido que o primeiro “Homem-Aranha” (2002) de Sam Raimi foi. Talvez não fosse mesmo o caso. “De Volta ao Lar” é o filme que todos precisavam. Inclusive o “Homem-Aranha”.

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domingo, 18 de junho de 2017 Sem categoria | 14:45

Desgovernado, “A Múmia” erra em tudo que pode e inicia mal o Dark Universe

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Filme que dá o pontapé inicial no universo compartilhado de monstros da Universal coloca Tom Cruise como o escolhido de uma múmia milenar para receber o Deus da Morte e, apesar do plot, é ruim

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Depois de tentar reerguer sua marca de monstros com “O Lobisomen” (2010), de Joe Johnston, e “Drácula: A História Nunca Contada” (2014), de Gary Shore, a Universal dá o pontapé inicial no que chama de Dark Universe, um universo compartilhado entre seus monstros – inspirado pelo bem sucedido modelo da Marvel – com “A Múmia” (2017). O filme de Alex Kurtzman (roteirista da nova trilogia “Star Trek” e de alguns filmes da série “Transformers”) e estrelado por Tom Cruise é uma salada muito mal azeitada.

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A aposta da Universal de contar com astros na confecção deste universo, à primeira vista, parece acertada. Mas no alcance de “A Múmia”, acaba se provando inadequada já que a produção se assevera como mais uma aventura de Tom Cruise – e uma anêmica e pouco convincente.

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O primeiro equívoco talvez seja o foco em Nick Morton (Cruise), um mercenário contratado do exército americano que tenta saquear tesouros no Iraque entre uma missão e outra, e não na múmia que ascende o interesse do público no bom prólogo que explica seu passado como uma princesa egípcia deliberadamente excluída da História. O segundo equívoco, e este muito mais grave, é o conflituoso desenvolvimento narrativo. Kurtzman não é nenhum Guillermo Del Toro ou M. Night Shyamalan e, portanto, não tem propriedade o suficiente para tecer uma trama que alie humor, terror e senso de aventura.

Tom Cruise em cena de "A Múmia": Não missão impossível, mas é como se fosse...

Tom Cruise em cena de “A Múmia”: Não missão impossível, mas é como se fosse…

“A Múmia” afasta qualquer resquício de horror, ainda que não admita isso, em favor de uma aventura que mira em “Indiana Jones” e acerta em “Pluto Nash”. É caótico na apresentação dos fatos – tudo em nome de easter eggs para o futuro do já trôpego universo de monstros -, tem cenas de ação pouco empolgantes, a despeito dos bons efeitos especiais e piadas que beiram o constrangimento – como a que Tom Cruise faz no fraco clímax do filme.

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Esse talvez seja o pior filme estrelado pelo astro, que parece cada vez mais fissurado em emplacar franquias, nos últimos 30 anos. É um dado nada desprezível. Ainda que não seja uma refilmagem oficial do filme de 1999 estrelado por Brendan Fraser, este “A Múmia”, que guarda, sim, similaridades com o filme de Stephen Sommers, se apequena na comparação. Em meio a bagunça criativa que o viabilizou, “A Múmia” se fia como um mau presságio para o Dark Universe.

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sexta-feira, 9 de junho de 2017 Críticas, Filmes | 19:50

Vaca em crise existencial é trunfo do hermético “Animal Político”

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“Animal Político” já recebeu prêmios em muitos festivais e é a melhor estreia das salas de cinema do Brasil neste final de semana

animal político

Existem filmes que investem na sutileza ao fazer um comentário político ou social. Não é o caso de “Animal Político”, estreia da vez da Sessão Vitrine Petrobras, que estreia em diversas capitais brasileiras. Dirigido por Tião e rodado entre 2010 e 2013 em Pernambuco e na Paraíba, o filme tem como protagonista uma vaca em crise existencial. A opção é legítima, corajosa e desestabilizadora, pois propõe um distanciamento do olhar do espectador para as banalidades de seu cotidiano. Do ponto de vista discursivo é um triunfo, narrativo nem tanto. Há certas barrigas que apenas um olhar lúdico pode contemporizar.

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A vida do protagonista é confortável. Infância feliz, quase nenhuma doença – um par de cáries aqui e ali – família participativa, um bom emprego, mas a sensação de vazio se agiganta. Não é uma trama estranha ao universo de quem se interessa por dramaturgia. Seja ela no cinema, na televisão, na literatura, etc. O que difere “Animal Político” é justamente a ousadia de colocar uma vaca como senhora de uma reflexão capaz de encontrar eco em todos os espectadores.

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animal 11É uma diferença fundamental e que responde pelo que o filme tem de melhor a apresentar – e de mais ingênuo também. É preciso embarcar na viagem proposta pela obra – e o verniz filosófico é potente e bem calibrado. A narração do ator Rodrigo Bolzar para os pensamentos de Cerveja, o nome real da vaca protagonista, nada mais é do que um ensaio de reverberações filosóficas clamorosas.

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A outra presença no filme, humana, mas menos civilizada, que expande a sensorialidade proposta pelo projeto. Há também uma necessária referência a “2001: Uma Odisseia no Espaço”, filme que de certa maneira é precursor de todo o embate existencial encampado aqui. Aspecto interessante a se observar no longa é justamente quando a vaca parece desumanizar-se. Há tanto um componente anárquico – e a piada com o manual da ABNT é simplesmente antológica – como uma ode ao naturalismo do primeiro ato do filme. Valorizando essencialmente a busca pelo sentido da vida, “Animal Político” expõe a citação clássica de Buda em mais um dos grandes pequenos achados que estruturam a narrativa: “A vida não é uma pergunta a ser respondida, mas um mistério a ser vivido”.

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sábado, 3 de junho de 2017 Críticas, Filmes | 09:00

“Mulher-Maravilha” é acerto da Warner em Hollywood, no cinema e na vida

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Com o sucesso de crítica consolidado, o céu é o limite para “Mulher-Maravilha”, o filme que por razões externas à tela grande, coloca a Warner um passo a frente da Marvel na briga de foice entre as gigantes de Hollywood

Gal Gadot é a Mulher-Maravilha

Gal Gadot é a Mulher-Maravilha

É a maior aprovação crítica de um filme de super-herói desde “Batman – O Cavaleiro das trevas” (2008), o paradigma definitivo para o gênero que virou o carro-chefe de Hollywood. “Mulher- Maravilha” detinha até sexta-feira (2) o índice de 93% de aprovação no Rotten Tomatoes, agregador de críticas na internet. O filme de Nolan ostenta 94%. É um senhor dividendo em um contexto bem adverso.

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É sabido que a Warner vem tentando reiteradamente repetir o sucesso da Marvel. Obsessão tamanha que afetou a qualidade de “Esquadrão Suicida” (2016), que apesar de ter arrecadado mais de US$ 700 milhões, foi percebido como um fiasco. “Mulher-Maravilha”, que era um filme já pressionado por ser o primeiro desse filão protagonizado por uma heroína e com uma diretora no comando, recebeu ainda mais pressão. Esse filme tinha que dar certo.

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Patty Jenkins tinha apenas um filme independente no currículo, “Monster – Desejo Assassino”, que rendeu o Oscar de atriz a Charlize Theron. E lá se vão 13 anos. Jenkins não foi a primeira escolha para o projeto. A Warner escalou Michelle MacLaren, que havia dirigido alguns episódios de “Breaking Bad”, para a empreitada. Mas diferenças criativas com o estúdio provocaram sua saída. Jenkins, que já estava no radar dos estúdios – esteve para dirigir “Thor – O Mundo Sombrio” – assumiu o projeto, o orçamento de US$ 150 milhões e a responsabilidade de corresponder às expectativas de uma agenda feminista que vinha a tiracolo.

Patty Jenkins no set de Mulher-Maravilha

Patty Jenkins no set de Mulher-Maravilha

Para todos os efeitos, “Mulher-Maravilha” é um filme que opera dentro da margem de segurança. Do estúdio – e este é um filme de estúdio – , da referida agenda feminista – há ótimas piadas para agradar a militância – e à audiência convencional do gênero – os clichês estão todos lá, dos vilões às cenas de ação, passando pelo romance. Mas Patty Jenkins tem muitos méritos. O cuidado com as arestas da narrativa é o principal deles. O que parecia fora do tom e do eixo nas produções assinadas por Zack Snyder (“O Homem de Aço” e “Batman vs Superman”) surge como aspecto positivo aqui. Outro acerto foi a dimensão do humor na fita. Jenkins resiste à tentação de emular a Marvel e consegue fazer um filme que não é pautado pelo humor, mas que ainda assim é bem humorado.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

“Mulher-Maravilha” não é um candidato natural ao clube do bilhão, cada vez mais inflado, mas diferentemente das últimas produções do universo DC no cinema, deve ser percebido como um sucesso. A marca de US$ 600 milhões globalmente é tangível e qualquer coisa além será a confirmação de um sucesso irrepreensível. Fato corroborado, claro, pela boa vontade dispensada ao filme. Não fosse bom, “Mulher-Maravilha” poderia representar um retrocesso nessa pauta que hoje move Hollywood – a da igualdade de oportunidades e remuneração entre os gêneros.

Não é um filme para 93% de aprovação no Rotten Tomatoes, mas é compreensível o entusiasmo com ele. Além do excelente trabalho de Jenkins, a outra grande responsável pelo sucesso do filme é a atriz Gal Gadot. Ela é a Mulher-Maravilha que eles e elas pediram a Deus. Um filme que chega (bem) perto de agradar gregos e troianos merece o confete.

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quinta-feira, 25 de maio de 2017 Críticas, Filmes | 13:44

Sátira das tensões raciais, “Corra!” une comédia ao terror com excelência

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Filme não reinventa a roda, mas consegue preencher clichês de um significado incomum em produções do gênero. Com “Corra!”, Jordan Peele se fia como um artista a se observar no cinema

Cena de "Corra!", filme já em cartaz no Brasil

Cena de “Corra!”, filme já em cartaz no Brasil

A primeira cena de “Corra!”, em que vemos um jovem negro acuado ser sequestrado demonstra que o filme de estreia do ator e roteirista Jordan Peele vai abordar frontalmente as tensões raciais. É justamente a maneira surpreendente e sedutora com que o faz que torna esse hit do cinema independente, que chegou com pompa às salas brasileiras, algo tão atraente e inteligente.

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Chris, a revelação Daniel Kaluuya, está se preparando para passar o fim de semana na casa dos pais da namorada, a doce, compreensiva e aparentemente defensora das minorias Rose (Allison Williams, de “Girls”). Ansioso e apreensivo, ele joga a pergunta: “Seus pais sabem que eu sou negro?”. Ela acha fofo, faz graça e tenta tirar o peso dos ombros do boy. “Corra!”, que se define como uma comédia de horror, gênero incomum, mas que quando dá o ar de sua graça costuma arrebatar, é melhor quando trata o racismo pelo viés da sátira e acredite: a sátira aqui é potente!

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Chegando à casa dos pais de Rose, Cris estranha de antemão a postura dos empregados negros da casa. Mas o pai de Rose (melhor papel de Bradley Whitford em anos), um neurocirurgião cujo pai perdeu a classificatória olímpica para Jesse Owens – aquele que humilhou Hitler em Berlim – se apressa em dizer que votaria em Obama para um terceiro mandato. O segundo ato do filme é todo ele dedicado a desmascarar nossos impulsos racistas velados e é um deleite a maneira como Peele os esquematiza.

A mãe de Rose, vivida pela sempre competente Catherine Keener, é uma psiquiatra que se orgulha da capacidade de hipnotizar as pessoas. Aos poucos, Peele vai nos ensejando que aquele clima de estranheza na verdade é um clima de muita hostilidade disfarçada e, sensitivo, Chris começa a reagir a isso.

Uma reunião informal: "Corra!" trata das tensões raciais que fingimos não existir

Uma reunião informal: “Corra!” trata das tensões raciais que fingimos não existir

Não é exatamente surpreendente a curva que o filme toma em seu terceiro ato, uma referência óbvia aos mais experimentados no gênero é “O Albergue” (2005), o terror gore de Eli Roth, mas o viés satírico da trama e a talentosa arquitetura narrativa de Peele fazem de “Corra!” um bicho de outra natureza.

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Produzido pela mesma Blumhouse que reabilitou a carreira de M.Night Shyamalan e entregou alguns dos filmes mais interessantes do gênero, “Corra!” ganha pontos por incorporar um discurso necessário, sem soar militante. É cinema de entretenimento, mas com vigor e reverberação.  A maneira como trata da fetichização do corpo negro é um assombro.  É um filme tão bem resolvido com seu tema, que extrai os momentos de maior terror e opressão de cenas aparentemente banais.

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terça-feira, 16 de maio de 2017 Críticas, Filmes | 15:43

“Taego Ãwa” permite que índios narrem a própria tragédia

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Novo lançamento da Sessão Vitrine Petrobras, “Teago Ãwa”, não é um filme de entretenimento, mas uma tese apaixonada sobre um Brasil que se perdeu

Cena do filme "Taego Ãwa"

Cena do filme “Taego Ãwa”

É fato que “Taego Ãwa” será um filme pouco visto, mas é importante como brasileiro que falemos dele. Não só por ser o primeiro filme goiano a ser distribuído comercialmente no País em 20 anos, mas por dispensar um necessário olhar à causa indígena. Causa esta que reveste e preenche discursos políticos, geralmente inseridos no espectro mais à esquerdada sociedade, mas que muito raramente avança ao discurso. O filme faz parte do projeto Sessão Vitrine Petrobras e já está em cartaz nos cinemas a preços promocionais.

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Os irmãos cineastas Henrique e Marcela Borela investiram mais de 12 anos na feitura de “Taego Ãwa”. Foi através de cinco fitas VHS com registros dos índios Ãwa, mais conhecidos como Avá-Canoeiros do Araguaia, achadas numa faculdade, que Marcela e Henrique deram início ao projeto. A partir daí, encontraram outros materiais e foram em busca daquele povo, investigando a fundo a origem e a trajetória dos Ãwa até aqui, inclusive o passado de enfrentamento com os brancos, o histórico de reclusão, a luta por demarcação de território e pela restituição das terras.

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No longa-metragem, o grupo Avá-Canoeiro do Araguaia narra sua trajetória de desterro, cativeiro e luta pela reconquista de sua terra tradicional, também chamada Taego Ãwa – que leva o nome da primeira mulher de Tutawa, Taego, que é mãe de Kaukama – ela que por sua vez é mãe, avó e bisavó de todos os Avá-Canoeiro do Araguaia que nasceram após o contato de 1973. No contato, realizado pela FUNAI, os Ãwa foram retirados à força da Mata Azul e de pois foram enjaulados e expostos para visitação pública. Boa parte do grupo morreu de doenças alheias. Os remanescentes acabaram entregues aos Javaé – ocupantes de uma terra vizinha ao território Avá-Canoeiro. Tutawa, capturado ainda jovem pela frente da Fundação Nacional do Índio (Funai), morreu em 2015 sem ao menos ter o direito de ser enterrado no último refúgio de seu  povo antes do trágico contato: o Capão de Areia.

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Trata-se de um filme essencialmente contemplativo. Há poucos diálogos e muita observação. Aos poucos os índios, todos civilizados, vão ficando mais à vontade com a câmera. Há uma cena, em que se deixam filmar fazendo uma pintura corporal, que mostra o choque geracional. Tutawa diz: “eu não tenho vergonha de mostrar meu pênis como vocês”. É um momento simples, fortuito até, mas que revela toda a tragédia não só dos Ãwa, mas dos índios no Brasil.

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terça-feira, 25 de abril de 2017 Críticas, Filmes | 12:59

Sensível e bem-humorado, “O Novato” aborda bullying escolar com propriedade

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Filme francês já está em cartaz nos cinemas brasileiros e acerta em cheio com sua trama sobre amizade e os dissabores do convívio escolar

A turminha de losers de O Novato: filme cativante

A turminha de losers de O Novato: filme cativante

Em meio a todo o debate sobre bullying provocado pela série “13 Reasons Why”, um belo filme francês estreia nos cinemas brasileiros e passa praticamente despercebido – embora agregue muito valor ao debate ensejado pela série da Netflix. Trata-se de “O Novato”, que foi exibido no festival Varilux de 2016 e que estreia agora em circuito comercial distribuído pela Bonfilm.

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Em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Niterói, “O Novato” acompanha Benoît (Réphaël Ghrenassia), jovem recém-chegado em Paris, que se esforça para se enturmar no colégio. O longa de Rudi Rosenberg ilumina uma problemática contumaz no tecido social que é o bullying, mas não o faz de maneira protocolar. Há muita sutileza e sensibilidade na maneira com que Rosenberg aborda não só os conflitos de Benoît, mas também daqueles que gravitam seu universo.

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Ainda que apressado, o rótulo de “Glee francês” não é inacurado. O filme trabalha, e bem, o conceito de ser um loser e de se sentir um em um ambiente predominantemente hostil.

Cena de O Novato: desilusão amorosa

Cena de O Novato: desilusão amorosa

Benoît faz amizade com a sueca também recém-chegada Johanna (Johanna Lindstedt), mas logo a menina se atrai pela turma bagunceira de Charles (Eythan Chiche) e deixa o novato em segundo plano. Na intenção de ajudar o sobrinho a fazer novas amizades, o tio de Benoît tem a ideia de fazer uma festa para a classe inteira. O que o menino não esperava era que a partir daí encontraria o seu verdadeiro grupo.

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A leveza com que trata temas duros e olhar otimista e esperançoso que dispensa para uma das fases mais conturbadas da vida dá a “O Novato” não só relevância, mas eficácia dramática. Filme e personagens vão de encontro a mais hypada “13 Reasons Why” e se firmam como um valioso contraponto para um debate inesperado, mas necessário.

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terça-feira, 18 de abril de 2017 Filmes | 19:26

“Velozes e Furiosos 8” dá protagonismo absoluto da série a Vin Diesel

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Franquia dá partida em nova trilogia que deve ter Vin Diesel como protagonista absoluto e aposta maior no humor. Filme já estraçalhou recordes em seu primeiro fim de semana em cartaz

Vin Diesel e Charlize Theron em cena de "Velozes e Furiosos 8": filme bateu recorde de "O Despertar da Força" e é a maior bilheteria de abertura da história

Vin Diesel e Charlize Theron em cena de “Velozes e Furiosos 8”: filme bateu recorde de “O Despertar da Força” e é a maior bilheteria de abertura da história

É louvável o esforço criativo que produtores e roteiristas de “Velozes e Furiosos 8” fizeram para que o filme funcione dramaticamente e dentro da franquia. Não é fácil dar torque a uma série tão longeva e que já passou por tantas reinvenções. Chris Morgan, responsável pelo roteiro desde quando Vin Diesel voltou à franquia, em “Velozes e Furiosos 4”, revirou o passado de Dominic Toretto (Diesel) para armar o conflito central do novo filme.

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Em “Velozes e Furiosos 8” Dom se volta contra sua “família” e a razão de fazê-lo, chantageado pela ciberterrorista Chyper (Charlize Theron), é um desses arranjos que Morgan propõe. Há outros e todos eles funcionam com a condescendência do espectador, que já a utiliza para tolerar os exageros e excessos envolvendo as cenas de ação, cada vez mais espetaculares e amalucadas.

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É dramaticamente eficiente ver Toretto, um personagem que foi apresentado ao público como vilão, instigado a voltar à criminalidade. Por outro lado, trata-se de um subterfúgio narrativo, já que o público sabe logo que ele está sendo chantageado e o elemento que qualifica a chantagem. De todo modo, a premissa serve a outro propósito, a de viabilizar Diesel como protagonista absoluto da franquia. Com a morte de Paul Walker, seu personagem é referenciado algumas vezes no novo filme, esse era um dos caminhos a se seguir – uma vez que já temos dez filmes da franquia confirmados. Outra possibilidade era abrir o show para os coadjuvantes. Morgan é esperto e trabalha bem com essa possibilidade. Além do Luke Hobbs de Dwayne “The Rock” Johnson, os personagens de Jason Statham e Kurt Russell ganham em importância e apelo no oitavo filme.

A trupe de coadjuvantes reunida: elenco maior e melhor

A trupe de coadjuvantes reunida: elenco maior e melhor

A flexibilidade entre mocinhos e vilões sempre foi um dos elementos vitais da série e a atual fase da franquia capitaliza isso muito bem. A personagem de Charlize Theron, por exemplo, que apesar de surgir só agora já dava as cartas pelo menos desde o sexto filme – pelas atualizações propostas por Morgan – tem potencial para ser a vilã principal dessa nova trilogia.

Theron, aliás, é um dos acertos do filme. Se Statham capricha no timing cômico e Helen Mirren é um mimo e tanto, a atriz dá a sua vilã toda pujança e canastrice esperadas de um vilão de “Velozes e Furiosos”. É possivelmente a melhor vilã da franquia.

Kurt Russell, como o Sr. Ninguém, um papa da CIA que trabalha com a equipe de Dom, se diverte em cena e pode muito ser percebido como uma metáfora do público nesse verdadeiro parque de diversões que é a franquia.

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O diretor F. Gary Gray, que já havia dirigido Theron e Statham em “Uma Saída de Mestre” – que também envolvia fugas em carros – , não oferta grandes cenas de ação, mas investe (bem) no humor. Além do mais, sob sua direção, as cenas com carros voltam a ocupar um bom espaço no filme.

“Velozes e Furiosos 8” se resolve como um dos filmes mais divertidos da franquia. Não é nem de longe o melhor, mas ganha pontos por reinventar – mais uma vez – uma série acidental e ostensivamente lucrativa. É um filme para consumir a pipoca com gosto!

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quarta-feira, 29 de março de 2017 Críticas, Filmes | 18:57

História de fantasma em “Personal Shopper” coloca protagonista para encontrar a si mesma

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Novo filme do cineasta Olivier Assayas parte do sobrenatural para permitir que personagem de Kristen Stewart reclame propriedade sobre a própria identidade

Kristen Stewart em cena de Personal Shopper

Kristen Stewart em cena de Personal Shopper

Olivier Assayas é aquele tipo de cineasta que gosta de fazer filmes diferentes. “Personal Shopper”, na superfície, é uma história de fantasma. No entanto, o segundo trabalho do francês com Kristen Stewart, o primeiro rodado inteiramente em língua inglesa, é uma drama algo imaginativo sobre o luto e a necessidade de se achar no mundo.

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Kristen Stewart é Maureen, uma jovem americana que mora em Paris e trabalha como personal shopper de uma badalada celebridade local. Quando tomamos contato com ela, Maureen se aloja por uma noite em uma mansão para tentar contato com uma presença, fantasma ou espírito, como preferir o leitor/espectador. Logo descobrimos que a tentativa de contato fora com seu irmão, que morreu na residência, que está para ser vendida.

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Maureen, a exemplo do irmão, se define como médium. Mas diferentemente dele, ela se mostra pouco à vontade com sua condição. A ideia de exercitar sua mediunidade é um sinal de que está carente dele, da representatividade do irmão em sua vida.

Olivier Assayas no set de Personal Shopper

Olivier Assayas no set de Personal Shopper

Assayas é hábil em utilizar esse mote para fazer elaborações sutis sobre o processo de luto e nada mais específico do que a tentativa de se conectar com um fantasma. Há, ainda, a reverberação a respeito do além vida e de como esse esforço para crer pode repercutir socialmente.

Não obstante, Assayas teoriza sobre o sentimento de inadequação que furta a paz de uma pessoa em certas circunstâncias. A ideia de passar o dia comprando coisas caras e luxuosas para uma estrela e viver em Paris certa vez soou como o melhor dos mundos para Maureen, mas conforme a acompanhamos essa condição passa a incomodá-la cada vez mais.

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Sem o irmão e sem algo que a afirme como pessoa, é como se Maureen tivesse se chocado com uma até então tolerável ausência de identidade. Um indicativo disso é a maneira como a relação dela com o namorado evolui ao longo do filme.

“Personal Shopper” não seria metade do filme que é sem a total devoção de sua protagonista. Kristen Stewart nunca esteve melhor. Ela deixa-se invadir pelo olhar de Assayas com misto de vulnerabilidade e coragem. Uma dicotomia que só grandes atrizes são capazes de elevar e este filme definitivamente existe para justificar que a atriz atinja outro nível de excelência como intérprete. Filme e atriz se fiam na irresolução para se comunicarem intimamente com a audiência.

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quinta-feira, 23 de março de 2017 Críticas, Filmes | 17:34

Perturbador e cheio de clima, “Fragmentado” é novo acerto do cineasta de “O Sexto Sentido”

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Novo filme de M. Night Shyamalan agrada em cheio aos fãs do diretor e deve repercutir muito bem com fãs do bom cinema de suspense

James McAvoy em cena de "Fragmentado", já em cartaz nos cinemas brasileiros

James McAvoy em cena de “Fragmentado”, já em cartaz nos cinemas brasileiros

Depois do elogiado “A Visita”, que selou o retorno à boa fama junto à crítica de M. Night Shyamalan, o cineasta apresenta “Fragmentado”, filme que mantém a estrutura de baixo orçamento adotada pelo indiano em “A Visita”, mas representa uma ousadia formal em termos de narrativa. Há um trânsito desimpedido por gêneros como horror, thriller psicológico, entre outros.

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James McAvoy faz Kevin, um sujeito com 23 personalidades confinadas dentro dele. No filme não temos contato com todas elas, uma opção correta de Shyamalan que foca em cinco delas e perpassa as outras por meio de diálogos plenamente justificados ao longo de “Fragmentado”.

Outra preocupação digna de nota do indiano é fundamentar bem o distúrbio de Kevin para o público. Parte da graça do filme é ir descobrindo essas reminiscências.

Cena do filme Fragmentado

Cena do filme Fragmentado

A espetacular Anya Taylor-Joy (“A Bruxa”) vive uma menina retraída que é sequestrada com duas colegas de classe por Denis, uma das personalidades de Kevin. Diferentemente das colegas, ela parece reagir às circunstâncias de maneira mais fria e aí está armado o cenário para Shyamalan potencializar uma das maiores virtudes de seu cinema: o poder de metaforização.

Estamos aqui falando de monstros da vida real e de suas circunstâncias e tudo na construção cênica do filme lembra arquétipos de vilões que costumam aparecer em filmes de heróis, tudo muito mais soturno e fincado na realidade, é claro. A exemplo do verificado em “A Visita”, os traumas sofridos pelos personagens detém profundo valor dramático. Importante nessa concepção nada acidental é a atuação de James McAvoy. O escocês apresenta aqui um verdadeiro tour de force. Da atenção aos detalhes da caracterização – cada personalidade tem suas peculiaridades – à proeminência das emoções que palpitam conforme a relação entre as personalidades de Kevin, mas também delas com sua terapeuta (Betty Buckley) e reféns, evolui, o ator dá um show à parte.

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Tenso, intrigante e frequentemente surpreendente, “Fragmentado” é, em vários sentidos, um atestado da intransigência de Shyamalan como artista. No melhor dos sentidos. Impecável do ponto de vista narrativo, ou mesmo técnico – e o filme emula uma proposital atmosfera claustrofóbica – o cineasta evoca o passado para alinhar seu futuro de uma forma que vai mexer com a nostalgia dos fãs conquistados em “O Sexto Sentido” (1999) e “Corpo Fechado” (2000).

 

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