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segunda-feira, 13 de agosto de 2018 Críticas, Filmes | 10:36

Musical fofo, “Ana e Vitória” se viabiliza como retrato de uma geração

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Cena de "Ana e Vitória" Fotos: divulgação

Cena de “Ana e Vitória”
Fotos: divulgação

Uma das duplas mais bem sucedidas da música brasileira na atualidade, Anavitória ainda tem pouca rodagem para ganhar um filme sobre sua história, mas “Ana e Vitória” não é exatamente uma cinebiografia. O quarto filme do cada vez melhor Matheus Souza é um musical que se comunica com a juventude contemporânea no mesmo compasso em que a retrata. Ana Caetano e Vitória Falcão calham de serem as protagonistas dessa história.

O filme, dividido em três janelas temporais muito específicas, mostra a aproximação de Ana e Vitória, o desejo latente de fazer arte – algo comum na juventude – e a consolidação da carreira como dupla de sucesso da música brasileira. No ínterim, amores e desamores inspiram música, amadurecimento e o fortalecimento de uma amizade que parecia ser nada mais nada menos do que um acidente de percurso.

O filme é, antes de qualquer coisa, uma bem sacada jogada de marketing para fortalecer o status quo da dupla. Um novo CD, com as músicas compostas para o filme, foi lançado junto com a obra audiovisual. A preocupação da realização – e a ideia original do filme é do mesmo Felipe Simas que organiza e gerencia a carreira da dupla – era reafirmar o apelo da dupla junto a um público adolescente que vê nelas um espelho de suas ambições, anseios e inseguranças. É um gol de placa.

“Ana e Vitória” é um filme teen como outro qualquer, mas é adornado por uma aura muito particular. Traço indesviável da personalidade de suas protagonistas, que no começo do filme estão desconfortáveis na condição de intérpretes de si mesmas, mas que com o desenrolar da trama vão vestindo a carapuça de atrizes com mais propriedade.

A se registrar a naturalidade com que a sexualidade das duas personagens é explorada. Trata-se de um avanço em matéria de dramaturgia no Brasil, avanço este que nossa televisão ainda se mostra resistente, e um reflexo da compreensão por parte da realização de seu público. “Ana e Vitória” é um filme fofo, mas é um filme fofo cheio de segundas intenções.

 

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domingo, 12 de agosto de 2018 Críticas, Filmes | 12:22

“O Animal Cordial” redimensiona regras do slasher com crítica social penetrante

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Murilo Benício está brilhante em "O Animal Cordial" Foto: divulgação

Murilo Benício está brilhante em “O Animal Cordial”
Foto: divulgação

Convencionou-se olhar para o slasher movie, subgênero do terror, como uma conservadora construção a respeito da moral e dos costumes, com minorias figurando entre as primeiras vítimas e virgens triunfando no final. Variações ao longo dos anos alteraram um pouco esse referencial, mas não o destituíram. Desnecessário dizer que o Brasil tem pouca tradição na escola slasher de fazer cinema. Mas esqueceram de avisar a Gabriela Amaral Almeida.

A estreia de Almeida na direção de longas-metragens não poderia ser mais incisiva, revisionista e libertadora dentro dos cânones do slasher. “O Animal Cordial” conjuga signos e subverte-os para dar nova dimensão ao gênero e aos prepostos da realização.

Inácio tem um restaurante de classe média em São Paulo. Negócio este suscetível aos caprichos das crises econômicas que se enfileiram no País. Circunstâncias que causam atritos entre Inácio e seus funcionários, como a banal a respeito do horário de ir embora quando um casal chega ao estabelecimento a quinze minutos da cozinha fechar.

Inácio dá pistas de que se sente pressionado e está ansioso com a visita de um crítico gastronômico, amigo de sua mulher, que fará uma visita ao restaurante nos próximos dias. A insegurança dele salta aos olhos do espectador quando o vemos ensaiando para a ocasião e tentando acomodar referências para receitas que ele não domina.

Antes daquela noite que já se anuncia longa acabar, um assalto. Dois homens entram no restaurante e anunciam o assalto. Além do casal, do cozinheiro Dejair (Irandhir Santos), da garçonete Sara (Luciana Paes), há o policial aposentado (Ernani Moraes) no restaurante.

A tensão que se constrói a partir daí é crescente e ininterrupta.

Atenção aos signos

Luciana Paes em cena de "O Animal Cordial"

Luciana Paes em cena de “O Animal Cordial”

Almeida filma os corpos e os estratos da violência como cortes de carne. A primitividade dos instintos ganha força no registro da cineasta – repare na densidade carnal da cena de sexo regada a sangue.  A cineasta encontra uma veia estética que agrega valor e fundamentação filosófica em sua obra.

O filme parece muito consciente das regras do gênero e justamente por isso não se avexa de subvertê-las em favor de certo comentário político em detrimento da força dramática. O final, com uma elipse que nega ao público certa catarse sádica, devolve ao único personagem que não ostenta um defeito sequer ao longo da trama vida e liberdade. Almeida flagra um País em psicose e se vale dos arquétipos presentes naquele restaurante para redimensionar um gênero por meio de uma crítica social pungente e penetrante.

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quinta-feira, 9 de agosto de 2018 Críticas, Filmes | 12:13

Thriller conjugal, “Acrimônia” opõe vitimismo feminino a masculinidade tóxica

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Acrimônia

Sabe aquele filme que é ruim, mas é bom? Essa uma maneira de perceber “Acrimônia”. O novo filme de Tyler Perry (“O Clube das Mães Solteiras” e “O Diário de uma Louca”). Tendencioso e sem qualquer sutileza em seus arranjos narrativos, esse thriller conjugal é incrivelmente sedutor na maneira como propõe seus conflitos.

Quando o filme começa vemos uma raivosa e desiludida Melinda (Taraji P. Henson) sendo repreendida pelo juiz. Fica claro que ela está ressentida com seu ex-marido e sua nova mulher, mas as razões ainda estão difusas. Ela é obrigada pelo tribunal a fazer terapia para controle da raiva e é nesse ambiente que somos apresentados a história dela com Robert (vivido na fase jovem por Antonio Madison e por Lyriq Bent na fase adulta).

A versão que nos é apresentada é a de Melinda e, mais para frente, o filme abandona a versão dela para adotar um tom mais imparcial na narrativa. É uma solução questionável do ponto de vista estrutural, mas que funciona no contexto de “Acrimônia”.

O filme de Perry tem uma noção incômoda de feminismo. Ele trata de masculinidade tóxica, mas aborda também o vitimismo feminino em um contexto tão amplo que é difícil pormenorizar. Há, ainda, um comentário sobre relações afetivas mal elaboradas e é justamente aí que o filme apresenta um senso de humor mais perverso e chocante.

“Acrimônia” não pode, ou deve, ser visto como um tratado sobre nenhum desses temas, mas ele navega com desenvoltura por eles e extrai desse bem-vindo choque um drama bem costurado e intrigante.

Melinda se ressente da maneira parasitária que sua relação com Robert se construiu. Enquanto ela sustentava a casa, ele se dedicava quase que exclusivamente a um projeto de energia renovável que poderia ou não vingar. Adicione a isso pitadas de infidelidade, orgulho e instabilidade familiar e você tem um filme que flerta com a identificação do público a cada fotograma.

Não obstante, “Acrimônia” resgata um subgênero muito popular no cinema americano do final dos anos 80 e início dos anos 90 que tinha em figuras como Adrian Lyne, Phillip Noyce e Paul Verhoeven seus grandes expoentes.

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quarta-feira, 8 de agosto de 2018 Críticas, Filmes | 16:25

Joaquin Phoenix é um homem destituído de si em “Você Nunca Esteve Realmente Aqui”

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Foto: divulgação

Foto: divulgação

Pense em um episódio de uma das séries produzidas por Dick Wolf com tons de “Taxi Driver”, o clássico de Martin Scorsese, e você terá uma ideia do que é “Você Nunca Esteve Realmente Aqui”, novo filme de Lynne Ramsey (“Precisamos falar sobre o Kevin”). Baseado no livro homônimo de Jonathan Ames, o filme acompanha a jornada de Joe, vivido com destreza e energia por Joaquin Phoenix, um ex-militar que sofreu abusos na infância, tem fantasias com suicido, cuida da mãe idosa e faz serviços para quem está disposto a pagar por vingança.

Leia também: O que esperar do filme do Coringa com Joaquin Phoenix?

Lynne Ramsey não está exatamente interessada na atividade de Joe, ou no fato dele estar tentando resgatar a filha de um político que foi sequestrada por traficantes sexuais. “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” é um filme sobre a dor de Joe ser quem ele é. Da insustentável aflição que o faz se esgueirar entre a generosidade e a brutalidade.

Há momentos em que o longa lembra “Drive” (2011), obra-prima do esteta Nicolas Winding-Refn, mas são momentos difusos. A música, uma das melhores composições para cinema de Johnny Greenwood, é uma força perene no filme e que ajuda a dimensiona-lo como uma experiência demorada, incômoda e abstrata.

O ritmo lento do desenvolvimento da trama se justifica pela necessidade de Ramsey em sublinhar a angústia de seu protagonista, para todos os efeitos um espectro, não um homem, mas a estranheza que enseja talvez afaste o espectador mais do que o necessário.

A maneira como a cineasta registra a violência é outro destaque e mais uma diferença fundamental em relação a “Drive”. Aqui não só há desglamourização da violência, como sua desidratação absoluta. Nesse sentido, o pesar e sofrimento expressos, mas também interiorizados, na performance de Phoenix adunam aquilo que o filme tem de mais pungente e soberano. Não à toa, ator e roteiro saíram premiados do Festival de Cannes em 2017.

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terça-feira, 19 de junho de 2018 Críticas, Filmes | 18:43

Surpreendente, “As Boas Maneiras” é reflexo do amadurecimento do cinema de gênero brasileiro

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Cena do filme "As Boas Maneiras"

Cena do filme “As Boas Maneiras”

O cinema de gênero no Brasil ainda está muito vinculado à máxima de tentativa e erro. Não existe uma cultura de produção ou apreciação formada, mas Marco Dutra e Juliana Rojas estão contribuindo para a insurgência de uma bem-vinda nova realidade. “As Boas Maneiras”, destaque em festivais mundo afora, é um reflexo dessa força criativa que pensa o cinema brasileiro de um jeito global, mais técnico, uníssono e bem resolvido.

Eis aqui um filme de criatura, mas sem medo de assumir suas peculiaridades. “As Boas Maneiras” é um thriller que flui para um drama, se descobre um musical sem deixar de ser também uma comédia que se vale dos signos do terror. Não é uma equação fácil e os realizadores ainda acham espaço para discutir sexualidade, preconceito e afirmação em um filme cheio de pequenos grandes momentos.

Esteticamente ousado – há mudança de protagonista, de tom e registro, o filme de Rojas e Dutra é tão brasileiro quanto universal e registrar isso não é alienar suas muitas outras virtudes, mas para o contexto de um embrionário (bom) cinema de gênero no País é um destaque providencial. A estranheza e esquisitice desse filme de lobisomem folclórico e poético ficam com o espectador. Não é todo filme de gênero que consegue propulsar tantas e difusas emoções.

Marjorie Estiano e Isabél Zuaa em cena de "AS Boas Maneiras"

Marjorie Estiano e Isabél Zuaa em cena de “AS Boas Maneiras”

Marjorie Estiano, uma atriz tão inteira e intuitiva, jamais esteve melhor. Aqui ela é Ana, uma moça do interior vivendo na cidade grande que está grávida e decide contratar uma babá. É com Clara (a excepcional Isabél Zuaa) que o filme começa. Ela está retraída e insegura da entrevista. Mas há uma sinergia entre ela e Ana, dois seres acuados de alguma maneira pela vida e pelas circunstâncias. A cumplicidade que se constrói dali em diante encanta tanto quanto o mistério sobre os efeitos da lua cheia sobre Ana, seu desejo incessante por carne vermelha e a ausência desse noivo que ela tanto fala.

O filme tem um segundo ato radicalmente diferente do que se poderia imaginar – e que explora mais a fundo a questão da licantropia.

Juliana Rojas, que já havia feito um musical com toques de horror com “Sinfonia da Necrópole” (2014) e Dutra, um drama com pitadas de sobrenatural com “O Silêncio do Céu” (2016), aqui conjugam essas experiências em uma explosão gráfica e de atmosfera como raramente o cinema brasileiro ofertou.

A catarse que brota de “As Boas Maneiras” não é filtrada e há muitas maneiras de se olhar para o filme – as óticas da maternidade e da sexualidade são apenas as mais efusivas -, mas é inegável que criatividade, coragem e originalidade são seus predicados mais valorosos. Mesmo que se resista ao saldo final, a impassibilidade não é uma possibilidade dada ao espectador.

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quinta-feira, 14 de junho de 2018 Críticas, Filmes | 16:46

“Dovlatov” captura efervescência cultural na União Soviética

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Filme russo estreia nos cinemas brasileiros no dia da abertura da Copa do Mundo 2018 na Rússia

Dovlatov

A sombra projetada por Tchekhov, Dostoiévski, Tolstói, Pushkin, Nabokov e tantos outros escritores russos não é pequena e Sergei Dovlatov sentiu isso na pele por muitos anos enquanto seus manuscritos eram rejeitados pela mídia oficial soviética por não serem compatíveis com o espírito que a União Soviética queria fomentar.

É esse período histórico que o filme “Dovlatov” se ocupa. O longa de Alexey German Jr. mostra como a intelectualidade russa se afasta dos ideais encampados pela União Soviética no alvorecer da década de 70. “A década de 70 entrou como uma geada”, reconhece o protagonista em sua narração em off em um dado momento. Em outro vaticina: “Ficção e realidade são inseparáveis na União Soviética”.

Com rimo lento, muitos planos-sequência e enquadramentos quadrados, o filme tateia um sentimento de despertencimento e incômodo. A cultura da União Soviética está morrendo. Este é o diagnóstico de Dovlatov e outros escritores cerceados por um regime que busca “capacidade moderada de escrita e não muito talento”.

Milan Maric vive esse escritor consciente de sua condição de fracassado com charme e carisma. Seu personagem representa a integridade artística e é por sua relação idealística, mas também prática com a União Soviética que “Dovlatov” filtra seu discurso. Um filme que reverencia o legado russo com a perspectiva de que a revolução comunista subtraiu mais do que acrescentou a esse legado.

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domingo, 27 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 15:33

“Todo o Dinheiro do Mundo” é um sutil filme sobre misoginia

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Christopher Plummer em cena de Todo o Dinheiro do Mundo

Christopher Plummer em cena de Todo o Dinheiro do Mundo

A história do sequestro do neto do magnata bilionário Jean Paul Getty, “o homem mais rico da história do mundo” é daquelas que mimetizam toda a complexidade, histeria e absurdo da humanidade. É um imã natural para um cineasta com pulso para boas histórias. “Todo o Dinheiro do Mundo”, no entanto, não é um thriller sobre esse sequestro hipermidiático ou uma drama cáustico sobre seus bastidores, mas um drama algo seco e distante sobre misoginia e a mentalidade de quem só vislumbra abutres do topo.

Leia também: Polêmica salarial em “Todo Dinheiro do Mundo” está deslocada da realidade

“Você precisa entender o que é ser um Getty”, diz Gail Harris (Michelle Williams) ao negociador e consultor paramilitar Fletcher Chase (Mark Wahlberg), contratado por seu ex-sogro JP Getty (Christopher Plummer) para liderar os esforços para resgatar John Paul Getty III (Charlie Plummer), sequestrado em Roma em 1973. Os sequestradores exigiram US$ 17 milhões. Getty negou-se a pagar.

Ridley Scott fez um sutil filme sobre misoginia e pouca gente percebeu isso

Ridley Scott fez um sutil filme sobre misoginia e pouca gente percebeu isso

A situação esdrúxula por si só já é um foco de interesse. Mas o roteiro de David Scarpa, baseado no livro de John Pearson, se interessa mais pelo cabo de força entre Gail e Getty. É um duelo nas sombras, nos atritos silenciosos. Justamente por isso o flashback que mostra o divórcio de Gail do filho de JP Getty é tão importante para a correta compreensão do que é e do que pretende o filme de Ridley Scott.

Getty não admite que uma mulher o encurrale ao ponto dele não saber como controlar uma situação e ficar à mercê dos fatos. A psicologia desse confronto ruidoso é abalada pelo sequestro do neto, a quem Getty tem em grande estima, só não o suficiente para excluir do campo de batalha contra Gail. Essa é, pelo menos, a leitura dos fatos da realização e é uma leitura entusiasmante do ponto de vista da arte e da elaboração histórica.

Plummer x Spacey

Christopher Plummer era a primeira opção de Scott para viver Getty. Seu Getty parece pouco lapidado e isso serve ao registro. Indicado ao Oscar pelo papel, o ator dá gravidade e obtusidade a essa figura poderosa e controversa. Mas talvez Spacey, especialmente no momento histórico de sua carreira, fosse uma personificação melhor e mais eficiente de Getty. De todo modo, o filme ficará famoso para todo o sempre pela troca dos atores às vésperas do lançamento.

Filme se resinifica na comparação com "Chamas da Vingança"

Filme se resinifica na comparação com “Chamas da Vingança”

O que é um tanto injusto, já que o filme dispõe de bons predicados. Dos atores – Michelle Williams e o francês Roman Duris merecem menção especial – à comparação com o “filme de sequestro” do irmão de Ridley, Tony Scott. “Chamas da Vingança” (2004), que tem Denzel Washington como um segurança capaz de tudo para resgatar uma criança, faz um par notável com “Todo o Dinheiro do Mundo”.  Os filmes dialogam em muitos níveis, especialmente por serem operas estilísticas de seus diretores.

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quarta-feira, 23 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 10:10

Eli Roth não foge do convencional no novo “Desejo de Matar”

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Bruce Willis em cena de "Desejo de Matar"

Bruce Willis em cena de “Desejo de Matar”

Cria de Quentin Tarantino, Eli Roth rapidamente construiu uma fama bastante particular com filmes como “O Albergue” (2005), “Canibais” (2013) e “Bata Antes de Entrar” (2015). Violência e humor raramente rimam tão bem no cinema como em rimam em seus filmes. Nesse sentido, sua escolha para dirigir a refilmagem de “Desejo de Matar” parecia não só acertada, como providencial. Não que o filme seja decepcionante, mas é um Roth contido e jogando o jogo da indústria que surge na fita protagonizada por Bruce Willis.

O filme ainda tem Joe Carnahan, o homem por trás do violento “Narc” (2002), creditado como roteirista. Não obstante, a estreia programada para novembro de 2017 foi adiada para este ano após um atirador matar 58 e deixar dezenas de feridos em Las Vegas em outubro do ano passado. O “Desejo de Matar” que chega aos cinemas, porém, não poderia ser mais convencional. Há até uma tentativa de problematizar o vigilantismo, mas ela não chega a ganhar corpo e profundidade e serve apenas como pano de fundo para a escalada de violência ao qual o personagem de Willis se joga.

Bruce Willis faz o médico Paul Kersey que depois que sua mulher é assassinada por ladrões desastrados e violentos, e sua filha fica em coma no hospital, decide fazer justiça com as próprias mãos, já que a fé no trabalho policial fica abalada com a demora em surgirem resultados. Willis se diverte, como geralmente faz nesses filmes de ação em que a premissa é um mero detalhe. Fãs do ator e do original vão curtir a brincadeira.

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terça-feira, 22 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 19:26

“Os Fantasmas de Ismael” versa sobre a continuidade cruel do abandono

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Arnaud Desplechin e Mathieu Amalric vivem uma história de amor no cinema. O diretor tem em Amalric mais do que um parceiro, um catalisador para seus anseios e digressões sobre a vida e a arte. “Os Fantasmas de Ismael” dá sequência à colaboração que apresentou obras como “Reis e Rainhas” (2004), “Um Conto de Natal” (2008), “Terapia Intensiva” (2013) e “Três Lembranças da Minha Juventude” (2015).

Mathieu Amalric em cena de "Os Fantasmas de Ismael"

Mathieu Amalric em cena de “Os Fantasmas de Ismael”

Amalric aqui vive o diretor de cinema Ismael Vuillard que está fazendo um filme inspirado pela vida de seu irmão. Ele vive uma relação com Sylvia (Charlotte Gainsbourg) que parece serena e bem desenvolvida, mas ainda se ressente do sumiço da mulher Carlotta (Marion Cotillard), que desapareceu há 20 anos e foi dada como morta em algum momento.  Acossado na condição de viúvo, Ismael tem uma relação parental com o pai de Carlotta, que também sofre a ausência da filha.

Os ânimos, no entanto, se exaltam quando ela reaparece disposta a reconquistar Ismael, que se flagra em crise existencial profunda. A chegada de Carlotta detona, ainda, crises em seu filme e na relação com Sylvia.

“Os Fantasmas de Ismael” trata de abandonos. Da crueldade e da continuidade deles. O retorno de Carlotta pode ser interpretado literalmente, como a desestruturação emocional que enseja na vida de Ismael, ou simbolicamente, como o desarranjo psicológico insanável que a morte sem corpo deixou.

Marion Cotillard dança em uma das mais lindas cenas do filme

Marion Cotillard dança em uma das mais lindas cenas do filme

O filme de Desplechin, embora conte com momentos de pura eletricidade, é filmado com contrariedade e equívocos aqui e acolá. O “filme dentro do filme” surge dispersivo demais e não se justifica dentro do contexto narrativo espichado pelo cineasta.

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O trio de protagonistas, no entanto, é de um esmero notável e jamais abandona a essência da dramaturgia pretendida por Desplechin. Ainda que não alcance os dividendos possíveis, “Os Fantasmas de Ismael” tem uma cena formidável em sua singeleza. Quando Marion Cotillard dança ao som de Bob Dylan, o espectador rapidamente entende a razão de tamanha desorientação do protagonista.

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sábado, 5 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 15:55

Por que “Um Lugar Silencioso” é o melhor filme de terror da atualidade?

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Filme de John Krasinski é um dos maiores hits de 2018. Hype em cima do filme mais original produzido por um estúdio no ano é muitíssimo justificado

Cena de "Um Lugar Silencioso"

Cena de “Um Lugar Silencioso”

O terror mais bem conceituado precisa ser alegórico, desenvolver uma atmosfera de constante tensão e agonia e não fazer concessões a título de barganha com o público ou com o mainstream. Nesse sentido, é um bálsamo assistir a um filme como “Um Lugar Silencioso”, que desde sua exibição no festival SXSW vem adquirindo irrefreável hype.

Com cerca de US$ 250 milhões arrecadados nas bilheterias globalmente e com uma sequência já confirmada, “Um Lugar Silencioso” é um triunfo do cinema que se pretende tanto entretenimento como manifestação artística. Eis uma combinação cada vez mais rara em Hollywood.

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O filme que teve um orçamento de US$ 17 milhões é um bem-vindo sucesso para a Paramount que não conseguia respirar no Box Office fora dos limites das franquias “Transformers” e “Missão Impossível”. Dirigido por John Krasinski, figura mais identificada à comédia, o filme valoriza a imagem – como nos primórdios do cinema – como elemento de organização narrativa, mas também exalta o desenho de som como ferramenta imagética. Trata-se de um desenvolvimento dos mais inteligentes do cinema enquanto técnica e artifício.

Este é o terceiro filme de Krasinski. Sem dúvida o mais ambicioso de sua filmografia. Não à toa, ele contracena com sua esposa, a atriz Emily Blunt. Eles também formam um casal no longa.

John Krasinski dirige sua mulher em Um Lugar Silencioso

John Krasinski dirige sua mulher em Um Lugar Silencioso

Trata-se de um futuro distópico e a realização não se preocupa em pavimentar todo um contexto para o cenário flagelado e angustiante que encontramos quando o filme começa. Há pistas aqui e ali que possibilitam que o espectador tenha uma dimensão da tragédia que se assentou sobre o planeta Terra.

Após uma invasão alienígena, a raça humana pereceu. Sensíveis a qualquer tipo de som, os poderosos aliens atacam a qualquer ruído mais forte. O silêncio é imperativo para a sobrevivência. É nesta árdua e conflitiva realidade que encontramos Lee (Krasinski) e Evelyn Abbott (Emily Blunt) e seus filhos.

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Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

“Um Lugar Silencioso” se resolve tanto como um filme de tensão absoluta e ininterrupta – afinal, qualquer vacilo pode ser fatal – como uma alegoria poderosíssima sobre a paternidade. Os anseios, inseguranças e frustrações inerentes à realidade de se ser pai e mãe, algo que se é com frequência em situações adversas.

Krasinski revela pulso firme para o desenvolvimento narrativo e habilidade na direção dos atores. O rigor estético de seu filme rima com a convicção dramática de sua resolução, impassível e resiliente.

Se Millicent Simmonds, atriz surda que já havia causado sensação em “Sem Fôlego”, sequestra cada cena em que aparece, “Um Lugar Silencioso” se reinventa como o grande filme que é a cada novo drama com o qual se deparam os personagens. De quebra, o longa brinda o público com a mais aflitiva, tensa e cinematográfica cena de parto da década.

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