Publicidade

Posts com a Tag Críticas

sábado, 18 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 15:46

Sem ambição, “Liga da Justiça” entrega diversão ligeira e bons personagens

Compartilhe: Twitter

Reunião dos heróis da DC no cinema não decepciona, mas não é o filme que muitos esperavam. Com Joss Whedon, de “Os Vingadores” na produção, Warner se aproxima da fórmula Marvel

Os heróis em "Liga da Justiça" Fotos: divulgação

Os heróis em “Liga da Justiça”
Fotos: divulgação

A expectativa era grande e talvez “Liga da Justiça” não fique à altura, mas é inegável que ao coração do fã que sempre sonhou em ver alguns de seus heróis preferidos reunidos no cinema, a produção ecoa de uma maneira diferente, mais especial. Até porque os heróis aqui reunidos sempre fizeram parte do time A da DC Comics, diferentemente dos vingadores, que foram ganhando hype no cinema, já que antes não integravam a coroa da Marvel.

Leia também: “Batman vs Superman” não supera o hype e deixa transparecer os improvisos

Embora apenas Zack Snyder esteja creditado como diretor, ele se afastou da direção do longa por força de uma tragédia pessoal (o suicídio da filha) e Joss Whedon assumiu o cargo, reescrevendo muita coisa do roteiro e fazendo refilmagens (algumas para sempre infames no universo das redes sociais como o bigode de Henry Cavill apagado digitalmente de maneira bem contestável). “Liga da Justiça”, para todos os efeitos, é um filme esquizofrênico. Tem a sisudez e reverência do cinema de Snyder, além da beleza visual potente, e o escapismo bem humorado da pena de Whedon, que sempre se notabilizou por ser melhor escriba do que cineasta.

Leia também: “Amores Canibais” se destaca pela estética, mas se perde em sopa de metáforas 

Não é preciso ter afinidade com o cinema dos dois para constatar isso. Basta a referência dos trabalhos anteriores de ambos no universo dos heróis (Snyder dirigiu “O Homem de Aço” e “Batman VS Superman”, enquanto Whedon os dois primeiros “Vingadores”). Essa mistura rende um filme de efeitos visuais majoritariamente vistosos, mas outros um tanto comprometedores (longe do ideal para uma produção que beijou os US$ 300 milhões). Um fio narrativo por demais simplista, um vilão ruim, mas um bom desenho de personagens, uma dinâmica muitíssimo bem lubrificada entre os heróis e garantia de uma diversão ligeira em um filme de tamanho ideal – cerca de 120 minutos.

Após a morte do Superman, vista em “Batman VS Superman: A Origem da Justiça”, não só a desesperança movimenta os dias, como alienígenas começam a invadir a terra e, numa dessas, o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) reaparece para tentar unificar as três caixas maternas (artefatos ancestrais que acumulam imenso poder) e subjugar a Terra e todos que nela habitam. O Batman é o primeiro a perceber o perigo à espreita e ele tenta estabelecer uma aliança com outros seres extraordinários que vinha monitorando.

Zack Snyder orienta Jason Momoa no set de "Liga da Justiça"

Zack Snyder orienta Jason Momoa no set de “Liga da Justiça”

Atenção aos personagens

Se a trama é banal e seu desenvolvimento obedece a mesma lógica, “Liga da Justiça” pelo menos oferece um bom desenho de personagens. Sim, Bruce Wayne está mais piadista, mas ele não virou um piadista. Isso é meramente fruto das circunstâncias. Ele continua um homem amargurado, cheio de inseguranças e dono de um instinto suicida. Ben Affleck em mais uma demonstração de que é um ator mais consciente do que muitos se dão conta, estica na base do talento o pouco que o roteiro oferece de angustia a seu personagem.

O grande mérito do filme, no entanto, é apresentar personagens cativantes. O Barry Allen de Ezra Miller, um nerd clássico que se sente como um fã no meio dos heróis, é um dos highlights do filme. Jason Momoa dá conotação de rock star a seu Aquaman e agrada. Ray Fisher vê seu Cyborg como uma criatura angustiada que ainda não sabe se definir e começa a fazê-lo a partir do momento em que se vê inserido naquele grupo de super-humanos. Gal Gadot repete o encantamento que tanto arrebatou em “Mulher-Maravilha”.

A Liga em formação responde ao Bat Sinal: Elenco cheio de estrelas

A Liga em formação responde ao Bat Sinal: Elenco cheio de estrelas

Quando surge, o Superman está revigorado. A mitologia do Superman é muito melhor dimensionada aqui do que nos últimos filmes solo do personagem. A exemplo do que já havia acontecido em “Batman Vs Superman”.

“Liga da Justiça” certamente é um filme menos ambicioso narrativa e esteticamente do que se poderia supor, principalmente considerando o legado da DC no cinema. É, e a participação de Joss Whedon explica isso, o filme que mais se aproxima da bem sucedida fórmula Marvel. É tão pouco memorável como a maioria dos filmes da rival, mas diverte tanto quanto. Warner e DC perseguiam isso há algum tempo. É ver o que o sacramento das bilheterias indicará para o futuro. As duas ótimas cenas pós-crédito orientam certo otimismo.

Autor: Tags: , , , , , , , ,

sexta-feira, 17 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 16:02

“Amores Canibais” se destaca pela estética, mas se perde em sopa de metáforas

Compartilhe: Twitter

Filme, lançado diretamente na Netflix aqui no Brasil, é uma das produções esteticamente mais ambiciosas do ano

Amores canibais 1

A cineasta Ana Lily Amirpour causou sensação em 2014 com um pequeno, pulsante e extremamente original filme de vampiro falado em persa e rodado em preto e branco, o acachapante “Garota Sombria Caminha pela Noite”. Com mais ambição, um pouco mais de dinheiro e o mesmo senso estético, “Amores Canibais” (The Bad Batch, no original) pode não reproduzir o mesmo deslumbramento do primeiro, mas certamente ratifica a percepção de que estamos diante de uma autora (e esteta) que evita convenções da indústria.

Leia também: Desesperança e impulsos violentos adornam a ótima “O Justiceiro”

“Amores Canibais” é brilhante do ponto de vista técnico. A fotografia de Lyle Vincent, que também assinou o primeiro de Amirpour, é cheia de cores saturadas e dotada de tonalidades fortes. Ajuda e muito na construção anticlimática pretendida pela inglesa. Este é um filme que não esconde o desejo de ser cult e tem na sua elaboração visual um de seus grandes predicados.

Leia também: Em “O Rei Do Show”, Hugh Jackman exibe a magia do circo vencendo preconceitos

Em um futuro distópico, a região do Texas foi abandonada pelos EUA e uma profunda área desértica é onde os lotes estragados, os tais dos bad batch do título original, são exilados e entregues a própria sorte. Uns se rearranjam como predadores e canibais e Arlen (Suki Waterhouse) é logo capturada por um desses. Logo no início do filme, a protagonista é mutilada. Tiram-lhe uma perna e um braço. Ela consegue fugir e é ajudada na vastidão do deserto por um andarilho, papel de um irreconhecível, mas dono de forte presença cênica Jim Carrey.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Arly chega a Conforto, um projeto de cidade que é comanda pelo ditador The Dream, papel de um histriônico Keanu Reeves. Ele mantém uma série de mulheres grávidas. É um personagem interessante, ainda que ocupe pouco do filme de duas horas de metragem.

Jason Momoa surge como Miami Man, um imigrante cubano que é canibal, mas que parece se ressentir disso. Os caminhos de Miami Man e Arly se cruzam após uma breve vingança de Arly e o fato da filha dele ir parar sob os cuidados de The Dream em Conforto, lugar em que os canibais viram a caça.

Altamente estilizado, “Amores Canibais” salpica metáforas para todos os cantos com a América, a “terra prometida pós-moderna” como ponto focal. A maneira como Amirpour unta tudo isso é singular. Construído com muitos silêncios e elipses, o longa busca tanto uma sensorialidade como certa condescendência no público. É um cinema de ideias não necessariamente fluidas narrativamente, mas definitivamente do tipo que vale a pena racionalizar a respeito.

Autor: Tags: , , , ,

terça-feira, 14 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 11:17

Drama argentino “Invisível” aborda desalento de jovem em busca de aborto

Compartilhe: Twitter

Com narrativa seca, mas texto previsível, “Invisível” é um filme contraditório. Peca pelo ponto de vista engessado, mas tem boa carga dramática

Cena do filme Invisível

Cena do filme Invisível

Há filmes que tem uma premissa tão boa e objetivos tão nobres que parecem nos obrigar a gostar deles e, no caso da crítica, a contar com certa condescendência. É o caso do argentino “Invisível”. O novo filme de Pablo Giorgelli (“Las Acacias”) trata sobre a necessidade de se discutir o aborto pelo viés da saúde pública. Observa, ainda, com certa crueza a desesperança e desalento das classes menos favorecidas economicamente.

Leia também: À luz do Brexit, “Victoria e Abdul” examina o passado de intolerância britânica

Ely (Mora Arenillas) tem 17 anos e mora no bairro da Boca em Buenos Aires. Ela cursa o último ano do ensino médio e trabalha num pet shop para completar a renda familiar. Ao descobrir que está grávida do Raúl (Diego Cremonesi), dono do Pet Shop, seu mundo interno colapsa. Enquanto tenta manter sua rotina diária como se nada tivesse acontecido ela é tomada pelo medo e angústia.

A maneira silenciosa e aflitiva que Giorgelli desenvolve sua trama merece elogios. O diretor sabe que tem um drama poderoso em mãos e o aborda da maneira mais concentrada e incisiva possível, mas o roteiro (do próprio Giorgelli) não ajuda. Os desdobramentos são previsíveis e obedecem a certa lógica fetichista na abordagem do tema.

A obviedade das resoluções de “Invisível” se ajustam mais ao contexto de uma peça publicitária de viés ideológico do que a um cinema que se pretende encorpado, pensativo. Os conflitos parecem prévios, pré-estabelecidos e isso vai minando o poder de empatia do público. Exceção feita, é claro, àquela parcela que não se sente confortável em apontar malfeitos em um filme com premissa tão nobre.

“Invisível” padece de um ponto de vista engessado e de uma lógica unidimensional que busca única e exclusivamente a comoção e não se importa muito com aquilo que deveria promover com desprendimento: a promoção de um debate sério sobre aborto.

Autor: Tags: , ,

quinta-feira, 12 de outubro de 2017 Críticas, Filmes | 18:26

“O Advogado” captura tensão entre as Coreias no despertar da consciência de seu protagonista

Compartilhe: Twitter

Produção sul-coreana de 2013 chega finalmente ao País com a deferência de ser um dos maiores sucessos de bilheteria da história da Coreia do Sul

Divulgação

Divulgação

Estreia deste fim de semana em São Paulo, “O Advogado” chega referendado pelo fato de ser uma das maiores bilheterias do cinema sul-coreano e por ser inspirado na história de Roh Moo-hyun, advogado tributarista que se tornou o nono presidente do País.

Leia também: “Detroit” vai ao passado para ecoar racismo institucionalizado nos EUA

O filme se escora no “Burim Case”, de 1981, durante o regime militar do autoritário Chun Doo-hwan, quando 22 estudantes, professores e trabalhadores foram presos sob a alegação de serem simpatizantes de norte-coreanos. “O Advogado”, portanto, se incumbe de avalizar as tensões entre as coreias e, também, de ser um filme sobre o despertar político de um “self made man”.

Leia também: Dez anos depois da estreia, “Tropa de Elite” continua atual

O esnobado advogado Song (Kang-ho Song) não tem clientes, nem conexões, mas é particularmente engenhoso. Tanto que virou advogado mesmo não tendo todas as graduações jurídicas necessárias para isso. É importante ter em mente que o sistema legal da Coréia do Sul difere fundamentalmente do brasileiro, mesmo do americano que costuma ser uma referência no cinema.

Song é até mesmo um pouco arrogante e não tem consciência de sua alienação. A coisa começa a mudar de figura quando ele se depara com um caso indesejado de um jovem acusado de um crime e torturado na prisão. Ninguém parece disposto a defendê-lo e Song só aceita o caso, a princípio, como um favor para uma pessoa importante em sua vida.

Leia também: Adaptações de livros e HQs no cinema podem ser fieis aos originais?

“O Advogado” não é um filme exatamente especial, é até um pouco mais longo do que o desejável, mas o diretor Woo-Seok Yang trabalha os códigos de gênero muito bem. O filme começa como uma comédia algo cínica, envereda pelo thriller de tribunal e se consagra como um drama com fundo humanista.

“O Advogado” é, portanto, uma opção para quem quer fugir da programação mais comercial e fazer um esquenta para a Mostra internacional de São Paulo que se avizinha.

Autor: Tags: , ,

segunda-feira, 25 de setembro de 2017 Análises, Críticas, Filmes | 14:13

Orgia testamental de Aronofsky, “mãe!” é cinema que busca sentido em quem o assiste

Compartilhe: Twitter

Novo filme de Darren Aronofsky é uma das produções mais polarizantes de 2017 e um petardo difícil de ser digerido pelo público. Entre o ruído e a excelência, “mãe!” é um filme marcante

Jennifer Lawrence em cena de "Mãe!"

Jennifer Lawrence em cena de “Mãe!”

Se o cinema é a conjugação de enquadramentos e extracampo, Darren Aronofsky parece decidido a levar essa máxima ao limite.  “mãe!” é um filme que parece existir apenas por meio das alegorias que viabiliza. Essa construção tão hermética quanto rocambolesca é, em si, uma restrição à grandeza cinemática objetivada pelo cineasta. É como se seu filme, ao abrir-se quase que por inteiro à interpretação daqueles que se deixem tocar por ele, prescindisse de sua inteireza narrativa e se contentasse com o fato de ser uma colcha de retalhos. De seu criador e daqueles em contato com ele.

Leia também: Por quê o novo filme de Jennifer Lawrence, “Mãe!”, incomoda tanto?

Feita essa restrição, “mãe!” é um filme de profunda e constante reverberação. Não é um filme fácil, tampouco para ser digerido como nos acostumamos a digerir o cardápio usual oferecido pelo cinema contemporâneo.  Esteta de mão cheia, Aronofsky propõe uma experiência incômoda, provocadora e capaz de subsistir em referências e devaneios filosóficos de toda ordem.

Leia também: Novo filme de Guillermo del Toro ganha o Leão de Ouro no Festival de Veneza

mãe posterÉ premente identificar a bíblia como principal fonte para as referências e metáforas salpicadas ao longo das duas horas de filme. Mas as alegorias vão além. É possível perceber um comentário potente a respeito do casamento, do machismo inerente ao viés religioso, de nossa relação com o planeta, à vaidade intelectual, entre outras coisas. O mais acachapante em “mãe!”, no entanto, é a radiografia de um Deus narcisista e autocomplacente.

O filme é, sob muitos aspectos, uma intermitente sessão de terapia. Aronofsky se tem em grande estima e isso fica muito claro nos paralelos que estipula com a figura do criador, mas essa prepotência não é despropositada. O criador não é uma figura tão simpática e benevolente como muitos podem crer. É um filme de muitas camadas e capaz de produzir sentidos conflitantes em diferentes revisões.

 

Entre a parábola e as metáforas

Jennifer Lawrence é a mãe do título. Ela mora com Ele (Javier Bardem) em uma casa afastada no campo. Ele é um escritor e passa por uma profunda crise criativa. Ela é devotada a ele. A relação dos dois parece resfriada e começa a sofrer espasmos quando um estranho (Ed Harris) bate à porta e é acolhido por Ele. Pouco tempo depois é a mulher do estranho (Michelle Pfeiffer) quem chega para desestabilizar de vez mãe, cada vez mais incomodada com a atenção dispensada por Ele aos estranhos.

Leia também: Cinco filmes de Jennifer Lawrence além de “Jogos Vorazes” e “X-Men”

Aronofsky não é um diretor conhecido pela sutileza e a metáfora para Adão e Eva está posta. Logo vem Cain e Abel e quando nos damos conta estamos diante do novo testamento. E o que Aronofsky propõe é uma reinterpretação furiosa desse ciclo bíblico.

A ideia de humanizar a natureza, Jennifer Lawrence nada mais é do que a Mãe Natureza, parece tão desalojada quando genial. Assumir o ponto de vista da Natureza em sua relação com Deus e com o homem pode parecer pueril, mas demanda uma energia criativa potente. Algo que o cinema de poucas concessões de Aronofsky é capaz de prover e aí é preciso alinhar a performance corajosa de Jennifer Lawrence. A atriz assume um papel difícil, todo ele sustentado por expressões de agonia, desentendimento e dor, e se entrega a um diretor disposto a usá-la como artífice e arquétipo em um filme de rara megalomania. Metade da força bruta de “mãe” reside na atuação de Lawrence, que alterna fúria e delicadeza com a mesma intensidade que a natureza oferta um arco-íris após a tempestade.

Darren Aronofsky orienta Jennifer Lawrence no set de mãe!

Darren Aronofsky orienta Jennifer Lawrence no set de mãe!

A falta de química com Javier Bardem é um dos brilhantismos da direção de Aronosfky – há outros. Trata-se de um mecanismo narrativo providencial para adensar as alegorias pretendidas e ensejadas pelo longa-metragem.

“mãe!” é delirante em seus superlativos. Talvez Aronofsky desacredite do cinema de entretenimento. Talvez tenha levado ao extremo o clichê de se pôr no lugar do outro. Talvez seja um filme que só o tempo será capaz de açoitar preconceitos e expectativas. Certo é que “mãe!” é de uma rigidez intelectual ímpar no cinema contemporâneo. Não há como desgostar de uma obra que se proponha a tanto.

Autor: Tags: , , , ,

domingo, 10 de setembro de 2017 Críticas, Filmes | 12:37

Boas cenas de ação e Charlize letal não garantem qualidade de “Atômica”

Compartilhe: Twitter

Charlize Theron apanha e bate muito, mas não consegue fazer com que “Atômica” seja tão divertido quanto o filme pensa ser

Charlize Theron em cena de "Atômica" Fotos: divulgação

Charlize Theron em cena de “Atômica”
Fotos: divulgação

Charlize Theron já havia demonstrado mandar bem na ação em produções como “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015), “Velozes e Furiosos 8” (2017), “Hancock”  (2008), “Aeon Flux” (2003), entre outros. “Atômica” (2017), no entanto, é seu atestado de excelência no gênero. É quando reclama o posto de versão feminina de Liam Neeson na contemporaneidade do cinema americano.

Leia também: “Atômica”, com Charlize Theron, já concorre a melhor trailer de 2017 

Dirigido por David Leitch, um ex-dublê que estreou na direção codirigindo “De Volta ao Jogo”, “Atômica” é visualmente exuberante. Seja pela gélida e plácida recriação da Berlim do fim dos anos 80, seja pelas coreografias espertas das cenas de luta. Falta ao filme, no entanto, autoconsciência. A produção, que versa sobre a espiral de traições envolvendo espiões na esteira da tensão política pré-queda do muro, se leva (muito) mais a sério do que o desejável.

Leia também: Com “Atômica”, Charlize Theron entra de vez para a lista de estrelas de ação

Não que o público não entenda as maquinações e não seja possível intuir as motivações dos personagens, todos de maneira geral pouco simpáticos, mas porque elas se mostram mais tediosas do que um filme do gênero poderia suportar e porque francamente boa parte delas não faz o menor sentido e exige da audiência mais condescendência do que o combinado.

Entre os pontos fortes do filme estão Charlize Theron, fria, linda e letal como se espera de uma personagem como Lorraine Broughton, a trilha sonora caprichada que ajuda a emular o clima punk rock da fita e James McAvoy como o operativo do MI6 em Berlim, David Percival. McAvoy é, em mais de um momento, a fagulha que traz de volta o público para a onda do filme.

Charlize e Sophia se pegam em uma das melhores cenas do longa

Charlize e Sophia se pegam em uma das melhores cenas do longa

Lorraine é despachada para Berlim para tentar recuperar um arquivo que contém o nome de todos os espiões atuando na cidade que vive grande efervescência político-social. De quebra, ela precisa descobrir a identidade de um traidor nas hostes do MI6. É tudo relativamente óbvio e a maneira como as revelações se organizam expõe mais uma fragilidade narrativa.

Leia também: Mulheres reclamam protagonismo no cinema de ação e podem mudar paradigma

“Atômica” é o exemplar perfeito para o argumento de que boas cenas de ação sozinhas não fazem um bom filme de ação. Leitch tem talento, mas precisa controlar sua ambição. A carreira pode descarrilar antes mesmo de se consolidar.

Autor: Tags: , ,

quinta-feira, 31 de agosto de 2017 Críticas, Filmes | 11:43

Introspectivo e sombrio, “Bingo – O Rei das Manhãs” traz protagonista em carne viva

Compartilhe: Twitter

Produção celebra os anos 80, quando não havia espaço para a correção política na cultura pop, e entrega um dos filmes mais potentes do cinema nacional em anos

Bingo (2)

Duas constatações se impõem rapidamente ao espectador de “Bingo – O Rei das Manhãs”, estreia potente de Daniel Rezende, montador de “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, na direção. A destreza técnica do filme que o aproxima do cinema americano – a articulação da narrativa também evoca o paralelo – e o desenho dos anos 80, onde a trama de Augusto Mendes (Vladimir Brichta) se desenrola. Não há espaço para a correção política. Nem nos anos 80 em que se desenrola a trama, nem no filme de Daniel Rezende.

Leia também: Cult instantâneo, “Em Ritmo de Fuga” inaugura o musical de ação enquanto gênero 

O filme dá conta da história de Arlindo Barreto que deu vida ao icônico palhaço Bozo e protagonizou uma verdadeira guerra pela audiência das manhãs da TV brasileira com a rainha dos baixinhos. “Bingo – O Rei das Manhãs” se assevera, portanto, como uma elaborada radiografia da cultura pop brasileira da época, um incômodo estudo de personagem e um drama ruidoso sobre os labirintos da fama.

Leia também: Com Vladimir Brichta no auge, “Bingo” celebra a cultura pop brasileira

Nesse sentido, o trabalho de Brichta é elemento fundamental, pois emana energia para todo o filme. O ator comporta toda a contradição de um homem de virtudes e defeitos que são potencializados conforme ele vai desaparecendo na figura de Bingo. Brichta se entrega de corpo e alma e assume o seu melhor momento como intérprete com um personagem profundo, complexo, arredio e repleto de antagonismos. Apenas um ator sensível e em comunhão com seu diretor poderia dar conta de um material tão denso e cheio de camadas.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Trabalhar com cineastas como José Padilha e Fernando Meirelles sem dúvida alguma preparou Rezende para sua estreia como cineasta. Dono de um ritmo acima de qualquer suspeita, o filme tem tudo no lugar certo. A jornada ao inferno do protagonista é pontuada com momentos de extrema introspecção, sacadas pop e arroubos soturnos. Tudo com a covalência de uma câmera que sabe onde estar e sempre provê o enquadramento necessário.

Leia também: Vladimir Brichta explica preparação para “Bingo – O Rei das Manhãs”

“Bingo – O Rei das Manhãs” é um daqueles filmes de enorme força criativa que o cinema brasileiro oferta de quando em quando e que equaliza com rara felicidade elementos autorais e comerciais. Junta-se portanto a uma galeria nobilíssima formada por “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e “O Palhaço”.

Autor: Tags: , , ,

segunda-feira, 31 de julho de 2017 Análises, Filmes | 13:30

Cult instantâneo, “Em Ritmo de Fuga” inaugura o musical de ação enquanto gênero

Compartilhe: Twitter

Novo filme de Edgar Wright, “Em Ritmo de Fuga”, é bom, original e divertido e o amor de que é alvo mostra que o público está ávido por filmes com essas qualidades

Cena de Em Ritmo de Fuga (Fotos: divulgação)

Cena de Em Ritmo de Fuga (Fotos: divulgação)

O ano de 2017 está se provando pródigo para o cinema e entre muitos bons filmes, “Em Ritmo de Fuga” destaca-se por sua originalidade fulgurante, seu charme inescapável e criatividade assertiva. É um cult instantâneo desses que habitará a memória afetiva de cinefilia no mesmo compasso de produções tão diversas como “Blade Runner – O Caçador de Androides” (1982), “O Grande Lebowski” (1998) e “Pulp Fiction – Tempos de Violência” (1994).

Leia também: De filmes juvenis ao hit do verão, Ansel Elgort se consolida em Hollywood

Edgar Wright, responsável pela trilogia do Cornetto, composta por “Todo Mundo Quase Morto” (2004), “Chumbo Grosso” (2007) e “Heróis de Ressaca” (2013), defende um cinema pop, bem-humorado e com boas referências cinéfilas. “Em Ritmo de Fuga” traz essa assinatura em cada fotograma. É um musical de ação, como muita gente anda definindo.

Leia também: Criativo e original, Christopher Nolan é o cineasta mais poderoso de Hollywood

A premissa é simples, Baby (Ansel Elgort) é um jovem e prodigioso motorista que por ter uma “dívida” com Doc (Kevin Spacey), um gangster que opera nas sombras e escalas diferentes equipes para assaltos audaciosos, dirige os veículos de fuga de Doc nesses serviços. A peculiaridade de Baby é que ele ouve música o tempo inteiro, um recurso objetiva amenizar um zumbido que é sequela de um acidente na infância, mas também se justifica pelo apreço do rapaz a dar uma trilha sonora para todas as fases e momentos da vida.

Essa simbiose entre Baby e a música também se verifica entre as cenas, principalmente as de ação, e a música. Wright é hábil ao construir sua narrativa a partir dessa proposta. Podem ser cenas como o paquera de Baby e Debora (Lilly James) em que os nomes deles emulam canções e reflexões do tipo que costumamos lançar mão em paqueras em bares e restaurantes ou no trato com traficantes de armas, ao som de Tequila, do The Button Down Brass. Nada, porém, supera a genialidade e delicadeza de uma cena no clímax do filme, ao som de Never, never Gonna Give Ya Up de Barry White. O musical de ação de Wright mais do que espirituoso, é convidativo; o púbico flui junto com Baby.

Leia também: As 10 melhores trilhas sonoras do cinema

Edgar Wright orienta Ansel Elgort no set de Em Ritmo de Fuga

Edgar Wright orienta Ansel Elgort no set de Em Ritmo de Fuga

Se imaginação é o forte desse filme, que mescla romance, violência, música e cinismo, muito se deve ao talento de Wright como roteirista. À direção, no entanto, falta um pouco desse viço criativo. As cenas de ação, apesar da bem-vinda abordagem musical, são relativamente frustrantes. O clímax é atropelado – muita coisa acontece e muita coisa francamente inverossímil dentro do pacto estabelecido entre o público e o filme – e Wright investe em um final atípico para o público ao qual o filme majoritariamente se dirige. É um bom final, trágico de uma maneira esperançosa, socialmente responsável até, mas pode reforçar o status de que o filme não sobrevive ao hype.

Ansel Elgort tem uma performance física pertinente à proposta, mas exige algum esforço vê-lo como herói de ação – falta essa convicção ao próprio ator. O resto do elenco, no entanto, compensa essa relativa deficiência. Jamie Foxx ratifica o jeito que leva para construir alucinados em comédias, aqui surge ainda mais insano do que em “Quero Matar Meu Chefe”. Mas o grande trunfo da fita é mesmo Jon Hamm. “Em Ritmo de Fuga” oferta ao Don Draper de “Mad Men”, seu primeiro grande papel no cinema. Talvez seja a “killer track” que ele precisava.

Autor: Tags: , , ,

domingo, 23 de julho de 2017 Críticas, Filmes | 16:34

Com a fórmula Marvel, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” é o filme que o personagem precisava

Compartilhe: Twitter

“Homem-Aranha: De Volta ao Lar” comprova a acertada decisão da Sony de recorrer à Marvel para recolocar o personagem que é seu maior trunfo nas bilheterias nos trilhos

Spider

A relação entre a pré-adolescência e a maturidade é um elemento poderoso em “A Viatura”,  primeiro e único filme de John Watts como diretor antes de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” e essa característica não só é importante para a compreensão do sexto filme estrelado pelo herói aracnídeo, o primeiro com curadoria da Marvel Studios, como ajuda a entender a razão da bem sucedida escolha de Watts para a empreitada.

Leia também: Temos um Homem-Aranha; e agora? 

“Homem- Aranha: De Volta ao Lar” é, para todos os efeitos, um reboot, mas não é mais um. Aqui temos o Aranha raiz, para usar uma expressão da moda. Peter Parker, maravilhosamente abordado por um confiante e cativante Tom Holland, é um menino franzino e nerd do ensino médio com dificuldades para chegar na garota que gosta e que calha de ter sido picado por uma aranha radioativa, ou geneticamente modificada, a gosto do freguês, e desenvolvido superpoderes.

Leia também: “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” é o melhor filme do herói até agora

Mas não se engane, apesar de ser uma coprodução entre Sony e Marvel, este é um filme com o DNA da Marvel. Toda a mecânica e dinâmica do filme obedecem aos cânones das produções de Kevin Feige (o homem forte do Marvel Studios) e Tony Stark não só está presente no filme, como é a grande figura catalisadora da trama. Não obstante, piadinhas com os vingadores e um easter egg com o Capitão América ratificam a percepção de que este é um filme Marvel.

spider 2Não há problema nenhum nisso. “De Volta ao Lar” é esperto, fluente, tem ótimas cenas de ação e consegue ser tanto um filme de origem ( e você nem se dá conta disso), como um filme teen estrelado por um super-herói improvável.  Essa combinação resulta em sucesso em qualquer dicionário e aqui não é diferente. Como bônus, o Abutre de Michael Keaton, esse grande ator que vira e mexe, de um jeito ou de outro, está às voltas com o universo dos super-heróis no cinema, é o melhor vilão já rascunhado pela Marvel no cinema. Além do mais, sem fazer muito esforço, ele entrega uma atuação diferenciada no contexto dos filmes do gênero mais recentes.

Leia também: Delicioso repeat, “Guardiões da Galáxia VOL. 2” promove Baby Groot a astro pop

É impossível não reagir positivamente a “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, um filme muitíssimo bem engendrado pela fórmula Marvel com a expertise de Watts para elaborar conflitos geracionais – e repare como o filme se comunica e no mesmo compasso traduz a juventude de hoje. Mas não é memorável no sentido que o primeiro “Homem-Aranha” (2002) de Sam Raimi foi. Talvez não fosse mesmo o caso. “De Volta ao Lar” é o filme que todos precisavam. Inclusive o “Homem-Aranha”.

Autor: Tags: , ,

domingo, 18 de junho de 2017 Sem categoria | 14:45

Desgovernado, “A Múmia” erra em tudo que pode e inicia mal o Dark Universe

Compartilhe: Twitter

Filme que dá o pontapé inicial no universo compartilhado de monstros da Universal coloca Tom Cruise como o escolhido de uma múmia milenar para receber o Deus da Morte e, apesar do plot, é ruim

the

Depois de tentar reerguer sua marca de monstros com “O Lobisomen” (2010), de Joe Johnston, e “Drácula: A História Nunca Contada” (2014), de Gary Shore, a Universal dá o pontapé inicial no que chama de Dark Universe, um universo compartilhado entre seus monstros – inspirado pelo bem sucedido modelo da Marvel – com “A Múmia” (2017). O filme de Alex Kurtzman (roteirista da nova trilogia “Star Trek” e de alguns filmes da série “Transformers”) e estrelado por Tom Cruise é uma salada muito mal azeitada.

Leia também: “A Múmia” dá pontapé no Dark Universe, universo compartilhado de monstros

A aposta da Universal de contar com astros na confecção deste universo, à primeira vista, parece acertada. Mas no alcance de “A Múmia”, acaba se provando inadequada já que a produção se assevera como mais uma aventura de Tom Cruise – e uma anêmica e pouco convincente.

Leia também: Vaca em crise existencial é triunfo do hermético “Animal Político”

O primeiro equívoco talvez seja o foco em Nick Morton (Cruise), um mercenário contratado do exército americano que tenta saquear tesouros no Iraque entre uma missão e outra, e não na múmia que ascende o interesse do público no bom prólogo que explica seu passado como uma princesa egípcia deliberadamente excluída da História. O segundo equívoco, e este muito mais grave, é o conflituoso desenvolvimento narrativo. Kurtzman não é nenhum Guillermo Del Toro ou M. Night Shyamalan e, portanto, não tem propriedade o suficiente para tecer uma trama que alie humor, terror e senso de aventura.

Tom Cruise em cena de "A Múmia": Não missão impossível, mas é como se fosse...

Tom Cruise em cena de “A Múmia”: Não missão impossível, mas é como se fosse…

“A Múmia” afasta qualquer resquício de horror, ainda que não admita isso, em favor de uma aventura que mira em “Indiana Jones” e acerta em “Pluto Nash”. É caótico na apresentação dos fatos – tudo em nome de easter eggs para o futuro do já trôpego universo de monstros -, tem cenas de ação pouco empolgantes, a despeito dos bons efeitos especiais e piadas que beiram o constrangimento – como a que Tom Cruise faz no fraco clímax do filme.

Leia também: “Mulher-Maravilha” é acerto da Warner em Hollywood, no cinema e na vida

Esse talvez seja o pior filme estrelado pelo astro, que parece cada vez mais fissurado em emplacar franquias, nos últimos 30 anos. É um dado nada desprezível. Ainda que não seja uma refilmagem oficial do filme de 1999 estrelado por Brendan Fraser, este “A Múmia”, que guarda, sim, similaridades com o filme de Stephen Sommers, se apequena na comparação. Em meio a bagunça criativa que o viabilizou, “A Múmia” se fia como um mau presságio para o Dark Universe.

Autor: Tags: , , ,

  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. 3
  5. 4
  6. 5
  7. 10
  8. Última