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terça-feira, 22 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 19:26

“Os Fantasmas de Ismael” versa sobre a continuidade cruel do abandono

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Arnaud Desplechin e Mathieu Amalric vivem uma história de amor no cinema. O diretor tem em Amalric mais do que um parceiro, um catalisador para seus anseios e digressões sobre a vida e a arte. “Os Fantasmas de Ismael” dá sequência à colaboração que apresentou obras como “Reis e Rainhas” (2004), “Um Conto de Natal” (2008), “Terapia Intensiva” (2013) e “Três Lembranças da Minha Juventude” (2015).

Mathieu Amalric em cena de "Os Fantasmas de Ismael"

Mathieu Amalric em cena de “Os Fantasmas de Ismael”

Amalric aqui vive o diretor de cinema Ismael Vuillard que está fazendo um filme inspirado pela vida de seu irmão. Ele vive uma relação com Sylvia (Charlotte Gainsbourg) que parece serena e bem desenvolvida, mas ainda se ressente do sumiço da mulher Carlotta (Marion Cotillard), que desapareceu há 20 anos e foi dada como morta em algum momento.  Acossado na condição de viúvo, Ismael tem uma relação parental com o pai de Carlotta, que também sofre a ausência da filha.

Os ânimos, no entanto, se exaltam quando ela reaparece disposta a reconquistar Ismael, que se flagra em crise existencial profunda. A chegada de Carlotta detona, ainda, crises em seu filme e na relação com Sylvia.

“Os Fantasmas de Ismael” trata de abandonos. Da crueldade e da continuidade deles. O retorno de Carlotta pode ser interpretado literalmente, como a desestruturação emocional que enseja na vida de Ismael, ou simbolicamente, como o desarranjo psicológico insanável que a morte sem corpo deixou.

Marion Cotillard dança em uma das mais lindas cenas do filme

Marion Cotillard dança em uma das mais lindas cenas do filme

O filme de Desplechin, embora conte com momentos de pura eletricidade, é filmado com contrariedade e equívocos aqui e acolá. O “filme dentro do filme” surge dispersivo demais e não se justifica dentro do contexto narrativo espichado pelo cineasta.

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O trio de protagonistas, no entanto, é de um esmero notável e jamais abandona a essência da dramaturgia pretendida por Desplechin. Ainda que não alcance os dividendos possíveis, “Os Fantasmas de Ismael” tem uma cena formidável em sua singeleza. Quando Marion Cotillard dança ao som de Bob Dylan, o espectador rapidamente entende a razão de tamanha desorientação do protagonista.

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sábado, 5 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 15:55

Por que “Um Lugar Silencioso” é o melhor filme de terror da atualidade?

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Filme de John Krasinski é um dos maiores hits de 2018. Hype em cima do filme mais original produzido por um estúdio no ano é muitíssimo justificado

Cena de "Um Lugar Silencioso"

Cena de “Um Lugar Silencioso”

O terror mais bem conceituado precisa ser alegórico, desenvolver uma atmosfera de constante tensão e agonia e não fazer concessões a título de barganha com o público ou com o mainstream. Nesse sentido, é um bálsamo assistir a um filme como “Um Lugar Silencioso”, que desde sua exibição no festival SXSW vem adquirindo irrefreável hype.

Com cerca de US$ 250 milhões arrecadados nas bilheterias globalmente e com uma sequência já confirmada, “Um Lugar Silencioso” é um triunfo do cinema que se pretende tanto entretenimento como manifestação artística. Eis uma combinação cada vez mais rara em Hollywood.

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O filme que teve um orçamento de US$ 17 milhões é um bem-vindo sucesso para a Paramount que não conseguia respirar no Box Office fora dos limites das franquias “Transformers” e “Missão Impossível”. Dirigido por John Krasinski, figura mais identificada à comédia, o filme valoriza a imagem – como nos primórdios do cinema – como elemento de organização narrativa, mas também exalta o desenho de som como ferramenta imagética. Trata-se de um desenvolvimento dos mais inteligentes do cinema enquanto técnica e artifício.

Este é o terceiro filme de Krasinski. Sem dúvida o mais ambicioso de sua filmografia. Não à toa, ele contracena com sua esposa, a atriz Emily Blunt. Eles também formam um casal no longa.

John Krasinski dirige sua mulher em Um Lugar Silencioso

John Krasinski dirige sua mulher em Um Lugar Silencioso

Trata-se de um futuro distópico e a realização não se preocupa em pavimentar todo um contexto para o cenário flagelado e angustiante que encontramos quando o filme começa. Há pistas aqui e ali que possibilitam que o espectador tenha uma dimensão da tragédia que se assentou sobre o planeta Terra.

Após uma invasão alienígena, a raça humana pereceu. Sensíveis a qualquer tipo de som, os poderosos aliens atacam a qualquer ruído mais forte. O silêncio é imperativo para a sobrevivência. É nesta árdua e conflitiva realidade que encontramos Lee (Krasinski) e Evelyn Abbott (Emily Blunt) e seus filhos.

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Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

“Um Lugar Silencioso” se resolve tanto como um filme de tensão absoluta e ininterrupta – afinal, qualquer vacilo pode ser fatal – como uma alegoria poderosíssima sobre a paternidade. Os anseios, inseguranças e frustrações inerentes à realidade de se ser pai e mãe, algo que se é com frequência em situações adversas.

Krasinski revela pulso firme para o desenvolvimento narrativo e habilidade na direção dos atores. O rigor estético de seu filme rima com a convicção dramática de sua resolução, impassível e resiliente.

Se Millicent Simmonds, atriz surda que já havia causado sensação em “Sem Fôlego”, sequestra cada cena em que aparece, “Um Lugar Silencioso” se reinventa como o grande filme que é a cada novo drama com o qual se deparam os personagens. De quebra, o longa brinda o público com a mais aflitiva, tensa e cinematográfica cena de parto da década.

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quarta-feira, 25 de abril de 2018 Críticas, Filmes | 15:22

Primeiras impressões de “Vingadores: Guerra Infinita”: É épico!

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Cena de Vingadores: Guerra Infinita

Cena de Vingadores: Guerra Infinita

Épico! Transcendental! Transformador! Esses são alguns dos adjetivos que vem à mente após se assistir “Vingadores: Guerra Infinita”. O 19º filme do Universo Cinematográfico da Marvel se propõe a redefinir tudo. Thanos (Josh Borlin) é uma presença devastadora e, ao fim do filme, o espectador terá plena e irrevogável consciência disso.

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“Guerra Infinita” é um filme que aposta na ação ininterrupta sim, mas também no estofo emocional de seus personagens que são submetidos frequentemente a escolhas de vida ou morte.

O longa começa pouco depois dos eventos vistos em “Thor: Ragnarok”. Thanos está à cata das joias do infinito que ainda não possui e se depara com a nave que transporta os sobreviventes de Asgard. Desnecessário dizer que a tragédia se assenta e antes mesmo dos créditos iniciais surgirem na tela, o terceiro “Vingadores” demonstra que o público está nessa por uma experiência única e que fora construída ao longo de dez anos.

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Humor

O humor típico dos filmes da Marvel está preservado, mas encontra-se bem mais equilibrado do que nas incursões anteriores. O senso de tragédia é iminente e perturbador. Ele pode ser vislumbrado na serenidade condoída de Tony Stark (Robert Downey Jr.) ou na sisudez plácida de Steve Rogers (Chris Evans), aqui sem o traje do Capitão América.

Thor em cena do novo Vingadores Fotos: divulgação

Thor em cena do novo Vingadores
Fotos: divulgação

Os Vingadores estão despedaçados e despreparados para a ascensão de Thanos e isso, “Guerra Infinita” deixa claro, será custoso para os heróis. O grande mérito do filme é ser o clímax de uma história construída há dez anos e superar, em catarse e espetáculo, tudo o que já veio antes. Não é um arranjo fácil de desenvolver, mas o engenho de Kevin Feige escudado por Joe e Anthony Russo que dirigiram “O Soldado Invernal”, “Guerra Civil”, “Guerra Infinita” e o quarto “Vingadores”- que estreia em 2019, prova que a Marvel está na vanguarda de um movimento que talvez não se replique no cinema.

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“Guerra Infinita” é um filme para o fã se contorcer na cadeira, torcer, sofrer e ansiar ainda mais pelos próximos capítulos. A Disney tem o controle da droga mais bem sucedida da atualidade.

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sexta-feira, 2 de março de 2018 Críticas, Filmes | 17:32

Documentário sobre maior ladrão de obras raras do Brasil se afeiçoa a seu protagonista

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Documentários que se fiam no rigor jornalístico costumam ser mais inteiros porque se cercam de valores e instrumentos perenes que preconizam transparência e informação e este é o caso de “Cartas para um Ladrão de Livros”, dos cineastas e jornalistas Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini. Não se trata de refutar um ponto de vista, mas de abordá-lo com lisura, capacidade argumentativa e boa fundamentação.

Cena de "Cartas para um Ladrão de Livros"

Cena de “Cartas para um Ladrão de Livros”

No caso de “Cartas para um Ladrão de Livros”, os realizadores tiveram algumas angústias para administrar. Laéssio Rodrigues de Oliveira, taxado como o maior ladrão de obras raras do País, foi preso algumas vezes durante o processo de filmagem, o que fez com que os cineastas tivessem o estalo de fazer desse tumultuado bastidor um objeto do documentário. Acertadamente, eles colocam no radar dos conflitos da obra a questão da glamourização do protagonista, que pauta boa parte da narrativa e adensam uma pluralidade de perspectivas que tem Laéssio como um embuste.

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A promoção desse feliz casamento entre senso jornalístico e estrutura narrativa nem sempre resulta primorosa. A realização se embevece demais de seu protagonista, que talvez seja problematizado de menos. Não que o filme busque o contraditório apenas para ser pró-forma, mas há desequilíbrio na acentuação da questão. A preocupação em humanizar Laéssio soa exagerada talvez porque, na feitura do documentário, seja mais da realização do que do próprio Laéssio – que na sua inteligência simples e arejada – que a realização eventualmente aponta como ingenuidade – expressa contentamento nas suas conquistas. Por isso a câmera se satisfaz quando flagra momentos íntimos em que Laéssio é menos personagem e mais de verdade.  Exemplos são quando ele rememora um amante e chora e quando admite encher malas de garrafinhas de urina e deixar para que sejam roubadas em rodoviárias.

Há outros grandes momentos no filme como quando observamos a relação de Laéssio com a própria vaidade e a relação de terceiros com a vaidade do protagonista.

“Cartas para um Ladrão de Livros” não se veste de acusador ou defensor de Laéssio e parece cumprir todas as medidas preventivas que o bom cinema e o bom jornalismo orientam, mas talvez se afeiçoe mais do que o desejável por seu protagonista. Uma condição compreensível em virtude de um processo tão longo e umbilical, mas que fragiliza o saldo final.

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terça-feira, 16 de janeiro de 2018 Críticas, Filmes | 16:18

Gary Oldman é trunfo do burocrático “O Destino de uma Nação”

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Já em cartaz nos cinemas brasileiros, produção deve valer ao ator Gary Oldman a segunda indicação ao Oscar de sua carreira

Gary Oldman está exemplar como Winston Churchill em O Destino de uma Nação

Gary Oldman está exemplar como Winston Churchill em O Destino de uma Nação

“O Destino de uma Nação” tem dois trunfos inegáveis. A pompa de ser um daqueles dramas britânicos que arrebanham tantos fãs – e prêmios – e Gary Oldman. O britânico de 59 anos surge irreconhecível na pele de Winston Churchill. O filme de Joe Wright (“Desejo e Reparação” e “Anna Karenina”) se ocupa das circunstâncias que poderiam ter decidido a 2ª Guerra Mundial em favor dos nazistas, mas que ajudaram a eternizar Churchill como um exemplo de estadista.

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O filme se desdobra sobre toda a articulação política da qual Churchill tanto era agente, como catalisador para tentar evitar o avanço alemão no xadrez bélico que a Europa se tornou sob a égide de Hitler. Mas se pode contar com um Gary Oldman inspirado, “O Destino de uma Nação” tem pouco a ostentar além disso. Apesar de ser um filme de câmera em que Wright tente a todo momento flagrar a espiral claustrofóbica de seu protagonista, pressionado pela derrota iminente e por correligionários partidários da rendição, os enquadramentos são burocráticos e as opções narrativas, desabonadoras.

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Para tornar tudo mais exasperante, o decisivo episódio de Dunquerque, cujos bastidores atestaram o engenho e perseverança de Churchill no propósito de esgotar toda e qualquer alternativa antes de sentar à mesa com os alemães, fora tratado pelo cinema em 2017 com muito mais criatividade e energia em “Dunkirk”, de Christopher Nolan.

A fala é o principal elemento de ação do filme

A fala é o principal elemento de ação do filme

Ainda que mire em “Lincoln”, com sua estratégia narrativa de focar na fala como elemento de ação, Wright se aproxima mais de “O Discurso do Rei” – e tem em seu rei George, vivido pelo sempre ótimo Ben Mendelsohn, um coadjuvante e tanto.

A fotografia que se vale de paletas escuras e a direção de arte detalhada acabam por ressaltar a impressão de um filme inglês convencional. Um desalento para uma produção tão ambiciosa. Wright finge desconstruir um mito e o público finge que acredita. Exemplo máximo dessa condição é uma cena, mais piegas do que projetada para ser, ambientada no metrô londrino em que Churchill ouve a opinião de cidadãos a respeito de como deveria proceder contra os alemães. O célebre 1º ministro é mesmo uma figura magnética e o mérito de Oldman, não necessariamente do filme, é dimensionar isso com uma rara combinação de delicadeza e firmeza. O ator vence a pesada maquiagem da caracterização e apresenta um personagem condoído, estafado e que cresce à medida que a conturbada sucessão de fatos exige. Um estadista que o futuro parece nos sonegar e que Wright e público compactuam em se enamorar na tela do cinema.

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017 Análises, Críticas, Filmes | 11:13

George Clooney vai ao passado para explicar América da Era Trump em “Suburbicon”

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Novo filme de George Clooney como diretor tem roteiro afiado dos irmãos Coen e é uma sátira nervosa de costumes sociais que perduram e justificam ascensão conservadora

Matt Damon em cena de "Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso"

Matt Damon em cena de “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”

Alguns dos melhores momentos de George Clooney como ator foi sob a batuta dos irmãos Coen. O humor cheio sarcasmo e finas ironias dos irmãos era a principal bússola de “E aí, Meu Irmão Cadê Você?” (2000), “O Amor Custa Caro” (2003) e “Queime Depois de Ler” (2008) e é a força motriz de “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”. Os Coen tinham esse roteiro engavetado desde os anos 70 e cederam a Clooney que estava ávido por dirigir um material dessas referências do cinema americano. A parceria deu muito certo.

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“Suburbicon” é essencialmente um filme dos Coen, o que é muito bom. Mas traz também a preocupação político social inerente ao cinema mais robusto de Clooney como cineasta (“Tudo pelo Poder”, “Boa Noite e Boa Sorte”). O timing joga a favor do filme. Com a era Trump em pleno vapor, voltar aos EUA dos anos 50 para observar os motores da intolerância em paralelo à manufatura da hipocrisia à americana é um desses felizes achados cinematográficos.

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O filme se passa em um bairro planejado, um daqueles subúrbios acima de qualquer suspeita. A vizinhança se inquieta com a chegada de uma família negra. O alvoroço denota o racismo institucionalizado e serve como paisagem para os conflitos que movem a trama. Estamos aqui em um terreno tipicamente Coeniano:  personagens menos inteligentes do que acham que são, da ganância desenfreada e da imponderabilidade do acaso.

Cena do filme Suburbicon

Cena do filme Suburbicon

Gardner (Matt Damon) vive um casamento cheio de ruídos e ressentimentos com Rose (Julianne Moore), presa a uma cadeira de rodas após um acidente de carro dirigido pelo marido. Ele vive um caso com a irmã de Rose, Margaret, também vivida por Moore, e é possível que esteja por trás da arquitetura de um plano para matar a mulher.

O filme começa cheio de sutilezas e sugestões e vai ganhando gravidade e agudeza aos poucos até se configurar em uma ópera de erros e desgraças. A direção de Clooney segue no mesmo compasso. Começa embevecida dos olhos tristes de Nicky (Noah Jupe), o filho dos Gardners, e vai ficando histérica – ao ponto que a própria música se torna onipresente e delirante.

“Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso” é uma sátira potente, no todo, mas fundamentalmente nos detalhes. A relação do menino branco com o vizinho negro, a perversidade de Gardner que vai escalando conforme ele vai se sentindo sufocado e mesmo as cenas que exibem o racismo descampado de uma sociedade febril e destemperada são pequenos comentários cheios de lucidez e espanto de um realizador senhor de suas convicções e dos efeitos que quer alcançar.

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sábado, 23 de dezembro de 2017 Críticas, Filmes | 14:52

“De Canção em Canção” é epílogo conceitual das relações amorosas contemporâneas

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Novo filme de Terrence Malick mostra as idas e vindas de personagens às voltas com suas escolhas e seus relacionamentos amorosos. É o equivalente dessa década ao que foi “Closer – Perto Demais” em 2004

O triangulo amoroso que move a história

O triangulo amoroso que move a história

O cinema de Terrence Malick é o mais polarizador da atualidade e há uma razão muito clara para isso. O cineasta escreve um filme, roda outro e monta um terceiro, frequentemente descolado das propostas que orientaram os dois primeiros. Não à toa, seu processo criativo é incontornável e, quiçá, irreproduzível. A pessoalidade do cinema de Malick é, ao mesmo tempo, sua maior força e sua inegável fragilidade.

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Especialmente depois de “A Arvore da Vida”, vencedor da Palma de Ouro e indicado aos Oscars de filme e direção em 2012, o americano se lançou em uma jornada de profunda introspecção e reverberação e levou seu cinema junto. Não à toa, esta é sua década mais prolífera e em que seus filmes mais se assemelham em termos de estrutura narrativa e temática.

“De Canção em Canção” é erguido sobre fragmentos, como o eram fundamentalmente seus antecessores (“Amor Pleno” e “Cavaleiro de Copas”). São memórias, devaneios, angústias e desejos materializadas em imagens que se organizam como poesia visual, mas também verbetes emocionais com os quais o cineasta pretende construir o sentido dos personagens, não necessariamente do filme. Para esse outro objetivo, o público terá que ser partícipe; coautor. Para que “De Canção em Canção” produza efeitos efetivamente no espectador, ele terá que se engajar. Abraçar aqueles personagens e seus conflitos – que não são apresentados cronologicamente – com o mesmo carinho e curiosidade com que Malick os propulsa.

Ryan Gosling e Rooney Mara em "De Canção em Canção"

Ryan Gosling e Rooney Mara em “De Canção em Canção”

O ponto de vista central aqui é de Faye (Rooney Mara), um dos vértices de um triangulo amoroso entre um aspirante a cantor (Ryan Gosling) e um produtor arrogante (Michael Fassbender). Há, claro, reminiscências de ambos ao longo das pouco mais de duas horas de metragem da fita, mas são as angústias de Faye que pautam o longa. “Tinha uma fase em minha vida que eu precisava que o sexo fosse violento”, ela diz logo de início. Estamos diante, portanto, de uma pessoa remoendo suas dores. Lá pelo final ela desenvolve: “Compaixão sempre foi uma palavra que eu não imaginava que fosse precisar”. O que Malick oferta por meio desses fragmentos é uma reflexão sobre como os relacionamentos amorosos nos transformam, nos moldam e é Faye a principal condutora dessa jornada. Não obstante, a maneira como o cineasta filma Mara é desconcertante. Sempre buscando ângulos inusitados, momentos banais e uma intimidade desarmada.

A maneira como Malick trabalha seus atores e com seus atores também atinge um novo patamar em “De Canção em Canção”. A fisicalidade das atuações é utilizada para explicar convulsões emocionais em uma construção audiovisual incomum para narrativas cinematográficas e que pode se perder para aqueles pouco treinados ou inspirados pelo cinema de vocação sensorial.

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Natalie Portman, mais linda e triste do que nunca, e Cate Blanchett, sempre uma presença atordoante, surgem como mulheres nas vidas dos protagonistas masculinos. Elas são apêndices para homens complicados. É o personagem de Fassbender quem mais fascina. Uma espécie de predador sexual que mergulha desimpedidamente em seus demônios. “Eles tem uma beleza em sua vida que me faz feio”, reflete sobre a relação entre Faye e BV (Gosling), a qual se introjeta com nenhuma outra finalidade que não desestabiliza-la.

Patti Smith e Rooney Mara em cena do filme

Patti Smith e Rooney Mara em cena do filme

Este é um filme sobre os percalços das relações amorosas, como elas nos definem e como nos deixamos nos definir por elas e o fato de usar a cena musical de Austin, no Texas, como contexto torna tudo ainda mais universal, tântrico, artístico. Há diversas boas pontas, ou cameos, no filme. Do Red Hot Chili Peppers a Iggy Pop, passando por Val Kilmer e tantos mais. Mas é Patti Smith quem responde por um dos momentos mais brilhantes e quando o filme se deixa flagrar em sua verdade mais condoída. Em uma conversa com Faye, em que a exorta a brigar por seu amor, ela diz que ainda mantém a aliança do marido que morreu. Sob uma outra “que eles dão para aqueles corredores que não vencem a maratona, mas terminam a prova”.

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sexta-feira, 24 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 17:13

Documentário sobre Fernando Gabeira mostra falência do sistema político-partidário do Brasil

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“Mais do que um político, ele é um homem do presente. Está sempre atuando, interferindo e reagindo”, observa o poeta Ferreira Gullar (1930 – 2016) sobre Fernando Gabeira, matéria-prima de “Gabeira”, documentário de Moacyr Goés a respeito de uma das figuras mais complexas, ricas e polarizantes da história recente do Brasil.

Gabeira 1

Como cinema, “Gabeira” é pouco propositivo. O próprio Fernando pauta a narrativa. É mais um gesto de reverência, um desagravo às memórias de um inconformista do que um longa investigativo ou problematizante. Ainda assim, o filme é interessantíssimo. Até porque o personagem sempre agiu como ombudsman de si e do meio – para evocar a formação e vocação jornalística do mineiro de alma carioca.

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Além de Gabeira, que ocupa a tela a maior parte do tempo, e Gullar, figuras célebres como Nelson Motta, Armínio Fraga, Cora Ronai, Caetano Veloso, além de familiares, surgem pincelando esse painel sobre uma figura tão contraditória que antecipou a crise de representatividade político-partidária que o Brasil vive hoje. Plural e fluído, Gabeira não se acomodou em nenhuma legenda brasileira. Arredio ao sistema político-partidário do País, esse homem de esquerda viu nossa esquerda ruir. No fim do filme, tece comentários sobre a Lava Jato, a crise surda da esquerda brasileira, a condenação de Lula e faz uma análise potente e reverberante da ascensão eleitoral de Jair Bolsonaro.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

O ativismo político de Gabeira começou lá na adolescência quando ele foi expulso de todos os colégios que participou, advoga o amigo e poeta Afonso Romano Sant`Anna em dado momento.

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O grande mérito do documentário é tentar abarcar a evolução do pensamento de Gabeira, um homem sem freios e sem receios em lançar-se a suas verdades, de defendê-las. Ver Gabeira falando é sempre um ato de inteligência, de reflexão e quando ele fala da importância de viver o “ridículo” da campanha de 1989, aquilo ecoa forte na audiência. “Eu gosto de ver as reportagens dele na GloboNews e de lê-lo no Globo”, pontua Caetano Veloso, “mas hoje me vejo mais à esquerda do que ele”.

“Gabeira” pode ser percebido como um manifesto. Um homem velho (76 anos) refletindo sobre os erros, acertos e convicções do passado. Do ponto de vista cultural, um programa imperdível.

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sábado, 18 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 15:46

Sem ambição, “Liga da Justiça” entrega diversão ligeira e bons personagens

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Reunião dos heróis da DC no cinema não decepciona, mas não é o filme que muitos esperavam. Com Joss Whedon, de “Os Vingadores” na produção, Warner se aproxima da fórmula Marvel

Os heróis em "Liga da Justiça" Fotos: divulgação

Os heróis em “Liga da Justiça”
Fotos: divulgação

A expectativa era grande e talvez “Liga da Justiça” não fique à altura, mas é inegável que ao coração do fã que sempre sonhou em ver alguns de seus heróis preferidos reunidos no cinema, a produção ecoa de uma maneira diferente, mais especial. Até porque os heróis aqui reunidos sempre fizeram parte do time A da DC Comics, diferentemente dos vingadores, que foram ganhando hype no cinema, já que antes não integravam a coroa da Marvel.

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Embora apenas Zack Snyder esteja creditado como diretor, ele se afastou da direção do longa por força de uma tragédia pessoal (o suicídio da filha) e Joss Whedon assumiu o cargo, reescrevendo muita coisa do roteiro e fazendo refilmagens (algumas para sempre infames no universo das redes sociais como o bigode de Henry Cavill apagado digitalmente de maneira bem contestável). “Liga da Justiça”, para todos os efeitos, é um filme esquizofrênico. Tem a sisudez e reverência do cinema de Snyder, além da beleza visual potente, e o escapismo bem humorado da pena de Whedon, que sempre se notabilizou por ser melhor escriba do que cineasta.

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Não é preciso ter afinidade com o cinema dos dois para constatar isso. Basta a referência dos trabalhos anteriores de ambos no universo dos heróis (Snyder dirigiu “O Homem de Aço” e “Batman VS Superman”, enquanto Whedon os dois primeiros “Vingadores”). Essa mistura rende um filme de efeitos visuais majoritariamente vistosos, mas outros um tanto comprometedores (longe do ideal para uma produção que beijou os US$ 300 milhões). Um fio narrativo por demais simplista, um vilão ruim, mas um bom desenho de personagens, uma dinâmica muitíssimo bem lubrificada entre os heróis e garantia de uma diversão ligeira em um filme de tamanho ideal – cerca de 120 minutos.

Após a morte do Superman, vista em “Batman VS Superman: A Origem da Justiça”, não só a desesperança movimenta os dias, como alienígenas começam a invadir a terra e, numa dessas, o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) reaparece para tentar unificar as três caixas maternas (artefatos ancestrais que acumulam imenso poder) e subjugar a Terra e todos que nela habitam. O Batman é o primeiro a perceber o perigo à espreita e ele tenta estabelecer uma aliança com outros seres extraordinários que vinha monitorando.

Zack Snyder orienta Jason Momoa no set de "Liga da Justiça"

Zack Snyder orienta Jason Momoa no set de “Liga da Justiça”

Atenção aos personagens

Se a trama é banal e seu desenvolvimento obedece a mesma lógica, “Liga da Justiça” pelo menos oferece um bom desenho de personagens. Sim, Bruce Wayne está mais piadista, mas ele não virou um piadista. Isso é meramente fruto das circunstâncias. Ele continua um homem amargurado, cheio de inseguranças e dono de um instinto suicida. Ben Affleck em mais uma demonstração de que é um ator mais consciente do que muitos se dão conta, estica na base do talento o pouco que o roteiro oferece de angustia a seu personagem.

O grande mérito do filme, no entanto, é apresentar personagens cativantes. O Barry Allen de Ezra Miller, um nerd clássico que se sente como um fã no meio dos heróis, é um dos highlights do filme. Jason Momoa dá conotação de rock star a seu Aquaman e agrada. Ray Fisher vê seu Cyborg como uma criatura angustiada que ainda não sabe se definir e começa a fazê-lo a partir do momento em que se vê inserido naquele grupo de super-humanos. Gal Gadot repete o encantamento que tanto arrebatou em “Mulher-Maravilha”.

A Liga em formação responde ao Bat Sinal: Elenco cheio de estrelas

A Liga em formação responde ao Bat Sinal: Elenco cheio de estrelas

Quando surge, o Superman está revigorado. A mitologia do Superman é muito melhor dimensionada aqui do que nos últimos filmes solo do personagem. A exemplo do que já havia acontecido em “Batman Vs Superman”.

“Liga da Justiça” certamente é um filme menos ambicioso narrativa e esteticamente do que se poderia supor, principalmente considerando o legado da DC no cinema. É, e a participação de Joss Whedon explica isso, o filme que mais se aproxima da bem sucedida fórmula Marvel. É tão pouco memorável como a maioria dos filmes da rival, mas diverte tanto quanto. Warner e DC perseguiam isso há algum tempo. É ver o que o sacramento das bilheterias indicará para o futuro. As duas ótimas cenas pós-crédito orientam certo otimismo.

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sexta-feira, 17 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 16:02

“Amores Canibais” se destaca pela estética, mas se perde em sopa de metáforas

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Filme, lançado diretamente na Netflix aqui no Brasil, é uma das produções esteticamente mais ambiciosas do ano

Amores canibais 1

A cineasta Ana Lily Amirpour causou sensação em 2014 com um pequeno, pulsante e extremamente original filme de vampiro falado em persa e rodado em preto e branco, o acachapante “Garota Sombria Caminha pela Noite”. Com mais ambição, um pouco mais de dinheiro e o mesmo senso estético, “Amores Canibais” (The Bad Batch, no original) pode não reproduzir o mesmo deslumbramento do primeiro, mas certamente ratifica a percepção de que estamos diante de uma autora (e esteta) que evita convenções da indústria.

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“Amores Canibais” é brilhante do ponto de vista técnico. A fotografia de Lyle Vincent, que também assinou o primeiro de Amirpour, é cheia de cores saturadas e dotada de tonalidades fortes. Ajuda e muito na construção anticlimática pretendida pela inglesa. Este é um filme que não esconde o desejo de ser cult e tem na sua elaboração visual um de seus grandes predicados.

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Em um futuro distópico, a região do Texas foi abandonada pelos EUA e uma profunda área desértica é onde os lotes estragados, os tais dos bad batch do título original, são exilados e entregues a própria sorte. Uns se rearranjam como predadores e canibais e Arlen (Suki Waterhouse) é logo capturada por um desses. Logo no início do filme, a protagonista é mutilada. Tiram-lhe uma perna e um braço. Ela consegue fugir e é ajudada na vastidão do deserto por um andarilho, papel de um irreconhecível, mas dono de forte presença cênica Jim Carrey.

Fotos: divulgação

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Arly chega a Conforto, um projeto de cidade que é comanda pelo ditador The Dream, papel de um histriônico Keanu Reeves. Ele mantém uma série de mulheres grávidas. É um personagem interessante, ainda que ocupe pouco do filme de duas horas de metragem.

Jason Momoa surge como Miami Man, um imigrante cubano que é canibal, mas que parece se ressentir disso. Os caminhos de Miami Man e Arly se cruzam após uma breve vingança de Arly e o fato da filha dele ir parar sob os cuidados de The Dream em Conforto, lugar em que os canibais viram a caça.

Altamente estilizado, “Amores Canibais” salpica metáforas para todos os cantos com a América, a “terra prometida pós-moderna” como ponto focal. A maneira como Amirpour unta tudo isso é singular. Construído com muitos silêncios e elipses, o longa busca tanto uma sensorialidade como certa condescendência no público. É um cinema de ideias não necessariamente fluidas narrativamente, mas definitivamente do tipo que vale a pena racionalizar a respeito.

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