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terça-feira, 1 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:46

Woody Allen permite que fantasias desestruturem razão dos personagens no sombrio “Homem irracional”

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Pode ser mera coincidência, mas a escolha de Joaquin Phoenix para viver o depressivo Abe Lucas, um professor de filosofia desgostoso com a vida, ilumina “Homem irracional” de uma subjetividade muito bem vinda (curioso notar, por exemplo, como Phoenix não evoca Allen um momento sequer em sua caracterização). O ator, para quem não lembra, transformou um aparente surto em um documentário sobre mesquinhez e excentricidades da vida em Hollywood e vive a despejar perolas pessimistas sobre o reduto da fama. Pode ser mera coincidência, mas dez anos depois de lançar “Match point – ponto final”, na avaliação do próprio Allen, seu melhor filme, o cineasta estabelece um diálogo intermitente com este no âmago de sua nova obra.

São (possíveis) subtextos que enriquecem a experiência de se assistir este novo exemplar, que presta um tributo a Alfred Hitchcock ao reimaginar a questão ‘dostoiveskiana’ já trabalhada por Allen em “Match point”, “Crimes e pecados” e “O sonho de Cassandra”.

Lucas chega a uma universidade de uma pequena cidade dos EUA com a promessa de “ser um Viagra no departamento de filosofia” da instituição, como brinca a professora vivida por Parker Posey que não demora em se insinuar para o novo docente. Outra que se engraça com o professor é Jill (Emma Stone), uma aluna que já tinha uma quedinha pelo pensador Abe Lucas de quem já lera muitos artigos.

Lucas e Jill: a colisão entre fantasia e moralidade coloca a relação dos personagens em xeque

Lucas e Jill: a colisão entre fantasia e moralidade coloca a relação dos personagens em xeque

Lucas, porém, vive uma fase depressiva. Ele está insatisfeito com os cânones da filosofia e, por consequência, com as amarras da existência. Pensador voraz, estipula que a ansiedade é a vertigem produzida pela liberdade.

O professor, sem forças para resistir, se entrega às investidas da personagem de Posey, mas reluta em ceder aos encantos de Jill, comprometida com o devotado Roy (Jamie Blackley). Aí Woody Allen estabelece as bases para a discussão da moralidade que calça “Homem irracional”. Mais além, há uma pulsante reflexão sobre casualidade, mas o interesse preponderante parecer ser confrontar as fantasias que nos dominam de quando em quando com a insalubre realidade.

É este tempero que faz do novo Woody Allen, mais sombrio do que o habitual e com um senso de humor mais perverso, tão saboroso.

Lucas tem uma epifania quando ouve o relato de uma mulher que julga estar sendo deliberadamente prejudicada por um juiz. Lucas decide então atuar como uma espécie de bom samaritano, matar o juiz e devolver à tal mulher a chance de um julgamento justo. Lucas entende que sua falta de relação com o juiz e aquele universo lhe afastam de qualquer suspeita. Somente a elaboração do que o próprio professor entende ser o crime perfeito devolve a ele o tesão; pela vida, suas minúcias e pelas mulheres que lhe procuram. Resistente às investidas de Jill, Lucas se entrega à paixão furtiva da aluna apaixonada.

A partir desse pacto sinistro de Lucas consigo mesmo, em que rompe com a razão, Allen tece um painel robusto sobre o impacto das fantasias em nosso posicionamento perante o mundo.  Um bom ponto de inflexão é alternância na narrativa entre as divagações de Jill e as de Lucas.

A personagem de Posey fantasia em ir com Lucas para a Espanha: a realidade  pode ser opressiva demais para o romantismo humano (Fotos: divulgação)

A personagem de Posey fantasia em ir com Lucas para a Espanha: a realidade pode ser opressiva demais para o romantismo humano
(Fotos: divulgação)

O desgostoso professor de filosofia ganha brilho e cor ao renunciar a paradigmas sociais e a assumir como “mantra” uma perspectiva alarmante (para a audiência, para a moral). As relações das duas mulheres interessadas em Lucas com ele a partir desta guinada do personagem aferem a “Homem irracional” esse verniz existencialista tão caro ao cineasta.

Desvirtuar-se pode ser a chave da felicidade, admite Woody Allen, mas para tudo há de se ter um limite, parece indicar o ruidoso desfecho que propõe outro olhar sobre a obra pregressa do cineasta de mesma matiz temática.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2015 Críticas, Filmes | 17:12

Serial Killer inseguro torna “Na próxima, acerto no coração” fascinante

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Há filmes que se ressignificam mediante um personagem forte ou muitíssimo bem construído. É o caso do filme francês “Na próxima, acerto no coração” (França, 2014). Na superfície, a fita dirigida por Cédric Anger, é um thriller policial sobre um serial killer pouco convicto de sua vocação. Nas camadas insuspeitas que o bom roteiro – de autoria do mesmo Anger – desalinha, porém, o filme revela sua real aspiração: discutir o desagravo psicológico e emocional de um homem transtornado.

Foto: divulgação

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Um homem vislumbra duas mulheres pedalando na madrugada. Elas se apartam e ele segue a segunda. Ele a atropela e só não lhe cobre de balas da janela de seu carro porque percebe a aproximação de viaturas. Corta. Acompanhamos este homem chegando em seu apartamento e indo dormir. Poucas horas depois o vemos acordar e colocar o uniforme policial e somente quando ele entra em uma viatura descobrimos seu rosto. Essa sucessão de eventos diz muito sobre o personagem central de “Na próxima, acerto no coração”, mas mais ainda sobre os objetivos do filme. É importante saber que aquele assassino cruel é um policial e é importante sabê-lo nessa ordem. Mas o ritual de descoberta de Franck (vivido com contenção e robustez por Guillaume Canet) prossegue e aos poucos vamos processando que este homem é repleto de transtornos obsessivos e carrega uma noção religiosa deturpada que pode ou não estar relacionada a uma aparente assexualidade.

Franck só mata mulheres e parece fazê-lo a reboque de emoções mal elaboradas que ele tenta elaborar em uma tentativa de estabelecer contato com os investigadores do caso. Franck não chega a se beneficiar de sua posição de policial para enuviar as investigações, mas tenta. Essa inabilidade só reforça sua insipiência como matador. O assassino de “Na próxima, acerto no coração” é um homem em busca de afirmação. De sexualidade. O filme inspira-se em um caso notório da crônica policial francesa (é sugerível um Google no nome Alain Lamare), mas trata com bastante liberdade e imaginação toda a dubiedade que cerca o caso. Anger, no entanto, acerta ao focar todo o estofo narrativo do filme na desconstrução do protagonista. Seu Franck não é exatamente um misógino, mas o fundo religioso (“não importa o quê, temos que pagar”, ele diz ao irmão mais jovem em dado momento) afasta qualquer certeza sobre o personagem.

Tentar desvendar o enigma Franck é, indubitavelmente, a grande atração da fita francesa. Quem esperar um thriller convencional pode se frustrar, mas se a opção for por um incomum suspense de verve freudiana, a satisfação é garantida.

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terça-feira, 11 de agosto de 2015 Críticas, Filmes | 20:38

“Quarteto fantástico” parece pior do que realmente é

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O noticiário de cinema tem sido implacável com o desnecessário reboot de “Quarteto fantástico” (EUA, 2015), assinado pelo diretor Josh Trank e abandonado pela Fox que não investiu na promoção do filme. Os relatos de conflitos nos bastidores inegavelmente são mais atraentes do que o filme, pensado única e exclusivamente para evitar que os direitos dos personagens regressassem à Marvel.

Leia também: Do céu ao inferno com Josh Trank 

A ideia de rejuvenescer o quarteto e abraçar a correção política na escalação do elenco acabam por tornar-se problemas menores em face de um filme com sérios problemas em desenvolver sua ideia central, com um vilão decepcionante, efeitos especiais broxantes, um clímax inexistente e um ponto de partida pouco verossímil.

Foto: divulgação

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O roteiro escrito a seis mãos, além de Trank, assinam o texto Simon Kinberg e Jeremy Slater, tenta avalizar a relação entre Reed Richards (Miles Teller) e Ben Grimm (Jamie Bell), no mesmo compasso que tenta dimensionar a relação dos irmãos John (Michael B. Jordan) e Sue (Kate Mara) Storm com o pai deles (Reg  E. Cathey) e principal fiador do estudo que acaba reunindo todos os principais personagens. Ocorre que esse desenvolvimento é apenas superficial e parece ajustado apenas ao propósito de se distinguir da primeira encarnação do quarteto no cinema pela seriedade, pela gravidade.

É aí que entra a esquizofrenia narrativa do filme de Trank que, como se sabe, teve diversas cenas refilmadas e foi tesourado pelo estúdio.  O humor – inseguro por si só – parece descolado da gravidade pretendida pelo enfoque na relação de culpa e ressentimento que norteia Ben e Reed após o acidente que redefine a existência de ambos.

A falta de carisma do elenco – e há atores bem carismáticos em cena – contribui para a impaciência com que a plateia recebe o ato rebelde de um grupo de jovens gênios que culmina no nascimento do quarteto fantástico e do Dr. Destino (Toby Kebbell).

Reside na narrativa, como se percebe, os grandes problemas de “Quarteto fantástico”. Mas cenas de ação pouco convincentes e a opção por fazer do filme um prelúdio do que estar por vir, um equívoco que vai além do fato de oferecer um novo filme de origem dez anos após um filme de origem relativamente satisfatório, impregnam este novo “Quarteto fantástico” de gás carbônico. Ou seja, o filme pode até ser ruim, mas é percebido como algo bem pior do que de fato é.

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sexta-feira, 24 de julho de 2015 Críticas, Filmes | 19:47

“Homem-Formiga” representa volta da Marvel ao básico e é sucesso criativo

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Foto: divulgação

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Sob muitos aspectos, “Homem-formiga” foi o filme mais complicado da Marvel a ganhar vida. As desavenças entre o estúdio e o diretor Edgar Wright (“Todo mundo quase morto”) ganharam publicidade e ele acabou substituído por Peyton Reed (do ótimo “Abaixo o amor”). O que torna “Homem-formiga” um dos acertos irrepreensíveis da Marvel é o até certo ponto surpreendente DNA de Wright na produção. Além da base do roteiro ser de sua autoria, ele também assina a produção executiva. O humor e a construção dos personagens norteiam os dois primeiros atos de “Homem-formiga” que em poucos momentos se parece com um filme de super-herói convencional.

A Marvel sabia que para promover um herói pouco conhecido do público e com um nome tão pouco atraente era preciso sair do lugar-comum e “Homem – formiga” comprova, como “Guardiões da galáxia” fizera no ano passado, que quando pensa fora da caixa a Marvel rende muito mais.

A escolha de Paul Rudd, um estranho no ninho no subgênero dos super-heróis, se revela calibrada para expandir o escopo da audiência dos filmes Marvel. Ao flertar com a paródia, há todo um clima de filme de assalto no primeiro ato do filme, a Marvel prova que tem estofo para chacoalhar as convenções do gênero.

As referências ao universo Marvel, que dizem as más línguas provocaram a saída de Wright da direção, são um deleite à parte para o seguidor do universo cinematográfico da Marvel. O fato de elas surgirem de maneira leve e divertida mostra que a alternância de tom entre as produções Marvel não afeta seu universo.

No filme, o golpista em busca de reabilitação Scott Lang (Rudd) é recrutado por Hank Pym (Michael Douglas) que vê nele a chance de roubar um segredo industrial da empresa que ele mesmo fundou, mas hoje é controlada por Darren Cross (Corey Stoll) que está próximo de finalizar uma tecnologia capaz de revolucionar a inteligência militar.

Há muitos paralelos que se pode fazer entre este filme e “Homem de ferro” (2008). Além da aposta em um nome incomum para o protagonismo, tanto lá como cá, o humor é um elemento fundamental em uma trama sobre espionagem industrial. Tanto lá como cá, um cientista brilhante dá as cartas e tem alguém muito próximo a si como o vilão megalomaníaco do filme.

“Homem-formiga” encerra a festejada fase 2 da Marvel com muita dignidade e apaga a má impressão deixada pelo badalado, grandioso e cansativo “Vingadores: era de Ultron”. No fim das contas, sem qualquer malícia e apreço a trocadilhos, menos é mais.

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terça-feira, 14 de julho de 2015 Críticas, Filmes | 18:46

Fragilidades do roteiro enfraquecem mercadológico “O exterminador do futuro: Gênesis”

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Falar sobre “O exterminador do futuro: Gênesis” (EUA 2015) é admitir certa dualidade na análise que se faz do filme. Mais do que um filme bom ou ruim, a produção assinada por Alan Taylor (“Game of Thrones” e “Thor – o mundo sombrio”) e que marca o retorno de Arnold Schwarzenegger à franquia é um projeto que agrega boas ideias a uma indefectível necessidade de mercado: introduzir a série para uma nova geração. Passa por essa ideia de introdução a atualização da franquia. Nesse sentido, “Gênesis” é um híbrido de refilmagem com reboot, já que aproveita passagens dos filmes originais para criar algo totalmente novo e mexer de forma mais significativa na estrutura da franquia no cinema.

Schwarzenegger surge como alívio cômico e torna-se um coadjuvante da Sarah Connor de Emilia Clarke – que mesmo esforçada e talentosa perde em qualquer ângulo de comparação com Linda Hamilton – e o Kyle Resse de Jai Courtney. A ideia de uma Sarah Connor mais jovem e de uma relação paternal do T-800 com ela é bem-vinda e o filme se beneficia dessa dinâmica. É uma inversão bem pensada da figura que Sarah ocupa no imaginário cinéfilo. Ainda que já se percebam traços da mulher determinada e boa de briga na jovem Sarah.

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Outro acerto, e o trailer já provê esse spoiler, é desconstruir o personagem John Connor (aqui vivido por Jason Clarke, que apesar do sobrenome não tem parentesco com Emilia).

A ideia de um John Connor a serviço da Skynet dá pujança ao argumento das linhas temporais alternativas, introjetado no filme e que deve ser expandido nas próximas sequências, uma vez que Schwarzenegger já antecipou que esse “Gênesis” faz parte de uma nova trilogia.

Contudo, há discrepâncias no filme que precisam ser observadas. O uso do humor é desequilibrado. Há boas sacadas com outras muito pueris. Um revés se considerarmos a importância dispensada pelo roteiro ao humor. Outro incômodo presente em “Gênesis” é a percepção de que tudo precisa ser muitíssimo bem explicado. Há um certo momento em que todo o segundo ato do filme parece esculpido apenas para produzir algum sentido no escopo da franquia. É risível o momento em que o T-800 dá aula de física quântica e teoria da relatividade. São incongruências de um roteiro muito assoberbado, cujos respiros (o humor) nem sempre funcionam bem.

Se o primeiro ato do filme pode ser lido como uma grande homenagem aos filmes de James Cameron, o último prepara o terreno para o futuro da saga zerando tudo, dando um rosto a Skynet e investindo nas linhas temporais alternativas como alicerce da franquia daqui para frente.

Independentemente do julgamento que se faça de “Gênesis”, as possibilidades para “O exterminador do futuro” a partir dele estão muito bem azeitadas e são em maior número do que antes.

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quarta-feira, 1 de julho de 2015 Críticas, Filmes | 17:51

Premiado filme sueco expõe banalidade da vida por meio de experiência tediosa

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Antes de ser um cineasta, Roy Anderson é um pensador arguto. Um questionador da condição humana. Seu cinema, portanto, se resolve em uma constante investigação filosófica da humanidade. “Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência” (Suécia, 2014) é o desfecho de uma trilogia informal composta ainda por “Canções do segundo andar” (2000) e “Vocês, os vivos” (2007) que tem como objetivo refletir sobre o que é ser um humano.

Foto: divulgação

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Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, “Um pombo…” começa ofertando três encontros com a morte, ressaltando a banalidade de todos eles. Depois, Anderson enfileira uma série de esquetes  sem qualquer relação entre si, que por vezes forçam o riso proveniente do incômodo. Há apenas uma dupla de “vendedores do entretenimento” que experimentam repetidamente o fracasso.  A função deles na narrativa, aparentemente desconectada, é justamente enfatizar essa ideia de repetição. Da rotina que nos conduz a nenhuma satisfação efetiva. Assertiva.

Anderson alterna cenas de absoluto surrealismo, como quando um rei do século XIX, Gustavo IV Adolfo,  adentra um bar dos dias atuais, com outras rifadas de cenas cotidianas, como a de uma mãe mimando seu recém-nascido.

Um casal enamorado na praia, um homem com dificuldades de encontrar quem procura, um cigarro pós-sexo compartilhado por um casal à janela, uma professora de flamenco rejeitada pelo aluno e por aí vai. Anderson emoldura a banalidade da existência, dos arranjos sociais, dos sistemas econômicos com cenas a esmo. Todas filmadas em um único enquadramento, com câmera estática à média distância. Os personagens parecem ‘zumbificados’. Seja pela postura, pela maquiagem de um ou outro, mas fundamentalmente pelos figurinos e cenários com preponderância de cores mortas.

A técnica de Anderson pode ser bem intencionada, mas seu filme cansa. Ele não apresenta nenhuma tese realmente nova e confia ao espectador a missão de prospectar o sentido oculto nas cenas que põe na tela. Feito isso, o espectador pode até apreciar a reflexão ensejada, mas tudo seria muito mais produtivo se a reflexão fosse projetada por um filme que agradasse. E esse é o melhor cenário. O mais provável é que pouco depois de 30 minutos de filme, “Um pombo…” se torne desinteressante para o espectador. Trata-se de um filme inteligente, bem intencionado e cheio de rigor filosófico. Mas essencialmente trata-se de um filme ruim. Cansativo. Tedioso. O conflito é externo a ele; e, a bem da verdade, Andeson não excede o senso comum de quem se interessa por reflexões sobre a vida e o meio.  No final das contas, o inferno está cheio de boas intenções.

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sexta-feira, 26 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 18:27

“Lugares escuros” ameniza conteúdo sombrio do livro e se resolve como suspense bacanão

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Quando os créditos sobem após a exibição de “Lugares escuros” (FRA, EUA 2015) uma certeza invade o espectador com força devastadora. David Fincher é mesmo um cineasta para lá de diferenciado. Não, este não é um filme de David Fincher, mas do francês Gilles Paquet-Brenner. O elo perdido aqui é Gillian Flynn, escritora cujas obras originaram este “Lugares escuros” e “Garota exemplar”, último filme de Fincher roteirizado pela própria Flynn.

Leia também: No cinema, “Garota exemplar” ganha mais relevo com a assinatura de David Fincher 

Ambos os livros mergulham fundo na sociedade do espetáculo, mas enquanto Fincher  subverte linearidades e expectativas para fazer um filme muito mais robusto e complexo do que uma mera adaptação literária preconiza, Brenner – que também assina a adaptação – se contenta em dar forma a um suspense bacanão e climático, mas sem muitas camadas. Não há demérito nenhum nessa escolha. A comparação é apenas laudatória. “Lugares escuros” é um suspense bem azeitado e se beneficia tanto dos personagens interessantes – uma imposição umbilical de Flynn como da atmosfera europeia que Brenner naturalmente impregna em seu registro.  É indesviável, porém, a constatação de que “Lugares escuros” poderia ser outro filme. Mais taxativo das circunstâncias dramáticas que aventa e menos pudico com personagens tão sombrios.

foto: divulgação

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Libby Day (Charlize Theron) é uma mulher traumatizada pelo assassinato de toda a sua família quando ela ainda era criança. Libby passou 28 anos de sua vida acreditando que seu irmão mais velho era o responsável pelo crime. Procurada por um grupo aficionado por crimes midiáticos e sem dinheiro, Libby aceita revirar seu passado. Mesmo convencida da culpa do irmão, ela se imbui na busca por novos fatos e suspeitos para o caso. Em um primeiro momento, “Lugares escuros” se ocupa dessa jornada da protagonista.  Em outra constante, Brenner esmiúça o passado de Ben – irmão de Libby – o que permite ao espectador confrontar o que é sabido de antemão, o que se vê no tempo presente com o que vai se descobrindo sobre o passado por meio desses ostensivos flashbacks. Tem-se aí uma construção interessante, que foge à unidimensionalidade com que Brenner move a trama.

Com um elenco de apoio em ótima forma, destaque para os jovens Tye Sheridan e Chloë Grace Moretz, “Lugares escuros” prende a atenção e agrada ao fã de um bom suspense. Mas o pior dos mundos para o filme de Brenner foi ter chegado depois de “Garota exemplar” no cinema. David Fincher soube capitalizar os temas trabalhados por Flynn de uma maneira que poucos parecem capaz de fazê-lo. E isso fica bem claro ao assistir “Lugares escuros”.

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terça-feira, 23 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 18:39

Cheio de simbolismos, “Divertida mente” é o mais novo gol de placa da Pixar

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É consenso que a Pixar não entregava um filme digno do proeminente, embora enxuto, legado da companhia desde “Toy Story 3” (2010). “Divertida mente” (EUA 2015) chega para dirimir a empresa comandada por John Lasseter que vinha tendo sua originalidade questionada.

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Em “Divertida mente”, acompanhamos Riley e sua família se adaptarem a nova vida em São Francisco após uma repentina mudança de Minnesota, onde a menina nasceu. Riley, uma criança de 11 anos, precisa se ajustar a essa nova realidade. O que inclui novas amizades, novos hábitos, entre outros. No entanto, o filme, escrito e dirigido por Peter Docter (“Up – altas aventuras”) não foca em Riley ou em sua família, mas sim nas emoções de Riley. Alegria, tristeza, raiva, nojinho e medo ocupam a sala de controle do cérebro da menina, onde se passa praticamente toda a ação de “Divertida mente”. O filme mostra como é o convívio dessas emoções e como este é decisivo para as interações de Riley com o mundo a seu redor.

Pedagógico sem ser didático, “Divertida mente” fala com carinho das emoções mais básicas do ser humano. Ora com humor, ora com singeleza, crianças e adultos são tocados por uma trama essencialmente simples, mas fecundada por muita criatividade e imaginação.

Devido a uma confusão na sala de controle, Alegria e tristeza são arremessadas para fora do local. Se aí está uma oportunidade para desbravarmos o restante do cérebro de Riley, estabelece-se, também, o conflito central do filme. Alegria e tristeza precisam achar um jeito de retornar à sala de controle para evitar uma completa descaracterização da personalidade de Riley. É a senha para que Docter trabalhe a importância de se respeitar as emoções, de dar espaço para que sejam cultivadas em seu tempo e ritmo. Mesmo aquelas que, à princípio, desejamos evitar, como é o caso da tristeza.

Seja pela fineza do humor, há espaço até para citações cinéfilas, pela agudeza do simbolismo para os adultos ou mesmo pela efetividade com que explicita a engenharia das emoções para os pequenos, “Divertida mente” é um gol de placa da Pixar. É um filme para se apaixonar. O encantamento pode variar de grau de espectador para espectador, mas é uma contingência deste que é um dos melhores filmes de 2015.

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domingo, 14 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 18:42

Espaço Cult – “Foxcatcher” é exemplar do cinema que valoriza o que não é dito e o que não é mostrado

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Construído sobre elipses, “Foxcatcher”, que no Brasil ganhou o desnecessário subtítulo “Uma história que chocou o mundo”, é um filme cujas camadas não se revelam de pronto. O que pode parecer algo contraprodutivo a principio, se assegura como uma das forças desse belo e sensível drama, ainda que não catártico, assinado por Bennett Miller, dos ótimos “Capote” (2005) e “O homem que mudou o jogo” (2011).

O filme acompanha a relação entre o multimilionário John Du Pont (Steve Carell), herdeiro de um império ligado à indústria química, e os atletas olímpicos Mark (Channing Tatum) e Dave (Mark Ruffalo) Schultz. Du Pont convida os irmãos, ambos medalhistas olímpicos em Los Angeles em 1984 na luta grego-romana, para treinarem em Foxcatcher, propriedade da família com histórico de prover suporte ao esporte. Dave, a princípio, rejeita a oferta, mas Mark, ansioso por sair da sombra do irmão, aceita a generosidade inusitada do milionário. À medida que o relacionamento entre Mark e John se estreita, a plateia intui que algo de muito tenebroso acontecerá. Isso independe do fato da história em si já ser conhecida. Uma busca rápida no Google oferece detalhes e curiosidades do caso, mas Miller faz mais. Oferece uma investigação psicológica profunda desses três homens irmanados por um mesmo objetivo, mas que de alguma maneira colidem brutalmente. É esse “de alguma maneira” que Miller brilhantemente oxigena.

Na superfície, “Foxcatcher” pode ser lido como uma dura e ácida crônica à percepção de que o esporte eleva o patriotismo. Uma leitura por si só corajosa e inusitada em um filme americano. A obsessão pelo triunfo a despeito do espírito competitivo está enraizada tanto em Mark quanto em John, mas em graus distintos. Em outro nível, o filme de Miller observa uma combinação explosiva tomar forma. Egos inflados, ânsia por reconhecimento, carência afetiva, dinheiro e uma não assumida homossexualidade são sombras trabalhadas por Miller e pelo roteiro de Dan Futterman com audácia e engenho. Não há a formulação de respostas para a tragédia ocorrida em Foxcatcher, mas há apontamentos sutis que em termos de dramaturgia preenchem requisitos e expectativas.

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O que não é mostrado em “Foxcatcher” é mais importante do que o que alcança os olhos do público. Mark, por exemplo, começa a fita em abundante solidão. Ele tem o hábito de se bater, se punir, mas nem sempre entendemos a razão.  No final do filme, é interessante se indagar como ele foi parar praticando MMA. Por que o gosto de espancar homens? Essa opção surgiu depois da interação desestabilizadora com John? Miller deixa sugestões pelo caminho. A cena final de “Foxcatcher”, embora aparentemente descolada do que se viu antes, não está ali gratuitamente. Está ali para dar novo sentido ao todo.

Trata-se de um trabalho de direção maiúsculo no que se depreende de controle e técnica, e sensível, no que se projeta de prolixidade e imaginação. Um adendo ao trabalho dos atores precisa ser feito. Steve Carell como John é um assombro. Sua presença é intimidadora. As pausas na fala em que encara seu interlocutor gelam a espinha. É uma construção de personagem minuciosa e que vai muito além da prótese no nariz que modifica completamente seu rosto. Como um homem cioso de escrever uma história de sucesso para si em seus próprios termos, mas com esqueletos no armário, Carell abraça o imponderável com força dramática invejável. Invejável também é a caracterização de Tatum. Na melhor performance de sua carreira, o ator adorna a ingenuidade e truculência de Mark, em um balé entre físico e emocional que só alguém com exato domínio de sua arte é capaz. Ruffalo, por seu turno, é o pendor da consciência, iminentemente tragado para o conflito velado entre John e seu irmão. O ator atua com a pulga atrás da orelha. É sua atuação o principal termômetro da plateia.

Essa trinca afinada é outra demonstração do gênio de Miller que com sua curta filmografia oferta ao público um cinema pensante, difuso e altamente recompensador.

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segunda-feira, 8 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 20:01

Experiência fílmica interessante, “Pássaro branco na nevasca” perpassa gêneros com desenvoltura

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Há filmes que abraçam diversos temas e saem dos trilhos justamente por isso e há filmes que ganham relevo justamente por compilar uma variedade incomum de assuntos. “Pássaro branco na nevasca” (EUA, 2014) pertence à segunda estirpe. Dirigido por Gregg Araki que subscreve seu cinema ao interesse em repercutir as idiossincrasias da adolescência, o filme começa como uma elaborada contraposição entre os anseios de uma adolescente suburbana aos de sua mãe com vocação à depressão. Se metamorfoseia em um filme policial, flerta com o drama familiar e se resolve como uma crônica de costumes poderosa.  Por mais heterogênea que pareça a mistura, Araki usa de muita sensibilidade na condução e não permite que o ritmo do filme sofra intermitências.

Shailene Woodley, cada vez melhor e mais confiante como protagonista, é Kat, adolescente que nunca se deu lá muito bem com sua mãe, Eve, vivida por Eva Green. A mulher parece se ressentir do casamento e do rumo que sua vida tomou ao lado de Brock (Christopher Meloni). Um belo dia, ela desaparece. É quando o filme começa. Araki então passa a desbravar essa conturbada relação e elege a sexualidade, adormecida em Eve, e em ebulição em Kat, como principal delineador desse conflito tão silencioso quanto complexo entre mãe e filha.

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Enquanto descobre quem é, Kat precisa lidar com esse repentino abandono de sua mãe e com os efeitos ainda mais inesperados deste em si e em sua agora desfalcada família. É desse desejo que Araki forja seu thriller policial. Kat acaba se envolvendo sexualmente com o detetive (Thomas Jane) responsável pela investigação do desaparecimento de sua mãe e é essa relação que detona o fluxo policial da fita.  O cineasta, entretanto, não perde a veia do filme. Isto é, não permite que aqueles temas que norteiam o seu cinema submirjam ante as novas camadas reveladas. “Pássaro branco na nevasca” não é mais um policial do que um filme sobre a rivalidade entre mãe e filha. Assim como não é mais um estudo delongado da adolescência do que é um olhar corrosivo sobre como as últimas décadas do século XX promoveram forte efervescência comportamental.

Flertando com o sobrenatural aqui e lá, sofisticado nas proposições, apesar de apostar em uma reviravolta final, “Pássaro branco na nevasca” não se incomoda de alienar parte de sua audiência com sua elaboração singular, sua estética rocambolesca e narrativa multifacetada. É, ainda assim, um filme interessantíssimo e que merece ser apreciado sem amarras e com o espírito de quem preza minuciosas descobertas.

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