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domingo, 14 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 18:42

Espaço Cult – “Foxcatcher” é exemplar do cinema que valoriza o que não é dito e o que não é mostrado

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Construído sobre elipses, “Foxcatcher”, que no Brasil ganhou o desnecessário subtítulo “Uma história que chocou o mundo”, é um filme cujas camadas não se revelam de pronto. O que pode parecer algo contraprodutivo a principio, se assegura como uma das forças desse belo e sensível drama, ainda que não catártico, assinado por Bennett Miller, dos ótimos “Capote” (2005) e “O homem que mudou o jogo” (2011).

O filme acompanha a relação entre o multimilionário John Du Pont (Steve Carell), herdeiro de um império ligado à indústria química, e os atletas olímpicos Mark (Channing Tatum) e Dave (Mark Ruffalo) Schultz. Du Pont convida os irmãos, ambos medalhistas olímpicos em Los Angeles em 1984 na luta grego-romana, para treinarem em Foxcatcher, propriedade da família com histórico de prover suporte ao esporte. Dave, a princípio, rejeita a oferta, mas Mark, ansioso por sair da sombra do irmão, aceita a generosidade inusitada do milionário. À medida que o relacionamento entre Mark e John se estreita, a plateia intui que algo de muito tenebroso acontecerá. Isso independe do fato da história em si já ser conhecida. Uma busca rápida no Google oferece detalhes e curiosidades do caso, mas Miller faz mais. Oferece uma investigação psicológica profunda desses três homens irmanados por um mesmo objetivo, mas que de alguma maneira colidem brutalmente. É esse “de alguma maneira” que Miller brilhantemente oxigena.

Na superfície, “Foxcatcher” pode ser lido como uma dura e ácida crônica à percepção de que o esporte eleva o patriotismo. Uma leitura por si só corajosa e inusitada em um filme americano. A obsessão pelo triunfo a despeito do espírito competitivo está enraizada tanto em Mark quanto em John, mas em graus distintos. Em outro nível, o filme de Miller observa uma combinação explosiva tomar forma. Egos inflados, ânsia por reconhecimento, carência afetiva, dinheiro e uma não assumida homossexualidade são sombras trabalhadas por Miller e pelo roteiro de Dan Futterman com audácia e engenho. Não há a formulação de respostas para a tragédia ocorrida em Foxcatcher, mas há apontamentos sutis que em termos de dramaturgia preenchem requisitos e expectativas.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

O que não é mostrado em “Foxcatcher” é mais importante do que o que alcança os olhos do público. Mark, por exemplo, começa a fita em abundante solidão. Ele tem o hábito de se bater, se punir, mas nem sempre entendemos a razão.  No final do filme, é interessante se indagar como ele foi parar praticando MMA. Por que o gosto de espancar homens? Essa opção surgiu depois da interação desestabilizadora com John? Miller deixa sugestões pelo caminho. A cena final de “Foxcatcher”, embora aparentemente descolada do que se viu antes, não está ali gratuitamente. Está ali para dar novo sentido ao todo.

Trata-se de um trabalho de direção maiúsculo no que se depreende de controle e técnica, e sensível, no que se projeta de prolixidade e imaginação. Um adendo ao trabalho dos atores precisa ser feito. Steve Carell como John é um assombro. Sua presença é intimidadora. As pausas na fala em que encara seu interlocutor gelam a espinha. É uma construção de personagem minuciosa e que vai muito além da prótese no nariz que modifica completamente seu rosto. Como um homem cioso de escrever uma história de sucesso para si em seus próprios termos, mas com esqueletos no armário, Carell abraça o imponderável com força dramática invejável. Invejável também é a caracterização de Tatum. Na melhor performance de sua carreira, o ator adorna a ingenuidade e truculência de Mark, em um balé entre físico e emocional que só alguém com exato domínio de sua arte é capaz. Ruffalo, por seu turno, é o pendor da consciência, iminentemente tragado para o conflito velado entre John e seu irmão. O ator atua com a pulga atrás da orelha. É sua atuação o principal termômetro da plateia.

Essa trinca afinada é outra demonstração do gênio de Miller que com sua curta filmografia oferta ao público um cinema pensante, difuso e altamente recompensador.

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segunda-feira, 8 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 20:01

Experiência fílmica interessante, “Pássaro branco na nevasca” perpassa gêneros com desenvoltura

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Há filmes que abraçam diversos temas e saem dos trilhos justamente por isso e há filmes que ganham relevo justamente por compilar uma variedade incomum de assuntos. “Pássaro branco na nevasca” (EUA, 2014) pertence à segunda estirpe. Dirigido por Gregg Araki que subscreve seu cinema ao interesse em repercutir as idiossincrasias da adolescência, o filme começa como uma elaborada contraposição entre os anseios de uma adolescente suburbana aos de sua mãe com vocação à depressão. Se metamorfoseia em um filme policial, flerta com o drama familiar e se resolve como uma crônica de costumes poderosa.  Por mais heterogênea que pareça a mistura, Araki usa de muita sensibilidade na condução e não permite que o ritmo do filme sofra intermitências.

Shailene Woodley, cada vez melhor e mais confiante como protagonista, é Kat, adolescente que nunca se deu lá muito bem com sua mãe, Eve, vivida por Eva Green. A mulher parece se ressentir do casamento e do rumo que sua vida tomou ao lado de Brock (Christopher Meloni). Um belo dia, ela desaparece. É quando o filme começa. Araki então passa a desbravar essa conturbada relação e elege a sexualidade, adormecida em Eve, e em ebulição em Kat, como principal delineador desse conflito tão silencioso quanto complexo entre mãe e filha.

Foto: divulgação

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Enquanto descobre quem é, Kat precisa lidar com esse repentino abandono de sua mãe e com os efeitos ainda mais inesperados deste em si e em sua agora desfalcada família. É desse desejo que Araki forja seu thriller policial. Kat acaba se envolvendo sexualmente com o detetive (Thomas Jane) responsável pela investigação do desaparecimento de sua mãe e é essa relação que detona o fluxo policial da fita.  O cineasta, entretanto, não perde a veia do filme. Isto é, não permite que aqueles temas que norteiam o seu cinema submirjam ante as novas camadas reveladas. “Pássaro branco na nevasca” não é mais um policial do que um filme sobre a rivalidade entre mãe e filha. Assim como não é mais um estudo delongado da adolescência do que é um olhar corrosivo sobre como as últimas décadas do século XX promoveram forte efervescência comportamental.

Flertando com o sobrenatural aqui e lá, sofisticado nas proposições, apesar de apostar em uma reviravolta final, “Pássaro branco na nevasca” não se incomoda de alienar parte de sua audiência com sua elaboração singular, sua estética rocambolesca e narrativa multifacetada. É, ainda assim, um filme interessantíssimo e que merece ser apreciado sem amarras e com o espírito de quem preza minuciosas descobertas.

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domingo, 7 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 17:22

“Terremoto – a falha de San Andreas” é bom entretenimento e vale o ingresso

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O cinema catástrofe, tão inconstante na agenda hollywoodiana, é o que mais ostensivamente recebe os clichês de gênero. Talvez por isso entre e saia do radar dos estúdios com certa assiduidade. Como se disso dependesse para se preservar minimamente interessante. Dirigido por Brad Peyton (“Viagem 2: a ilha misteriosa”) e orçado em U$ 110 milhões, “Terremoto – a falha de San Andreas” (San Andreas, EUA 2015) confirma essa impressão de clichês em profusão, mas ratifica, também, o potencial de entretenimento dos exemplares do gênero. Mesmo em uma era dominada por super-heróis, é difícil um filme ser tão divertido como esse. É um cálculo simples. Efeitos especiais hiperbólicos, mas convincentes, um astro carismático, uma tônica familiar difícil, mas passível de redenção, uma jovem estrela de beleza hipnótica e voilà: um filme catástrofe infalível sai do forno.

“Terremoto” segue essa receita à risca. Tal como em produções como “O dia depois do amanhã” (2004) e “Guerra dos mundos” (2005), um drama familiar move a ação em meio à destruição que se vê na tela. Dwayne “The Rock” Johnson é Ray, um ex-militar que atua como bombeiro na Califórnia. Ele está enfrentando um doloroso processo de divórcio e ainda não está plenamente recuperado da devastadora morte de sua filha mais nova. Quando o tal terremoto acontece, Ray se arrisca – e abandona seu trabalho – para resgatar a ex-mulher e sua filha em pontos distintos do Estado.

Terremoto - a falha de San Andreas (7)

The Rock e Carla Gugino em cena
(Foto: divulgação)

A cena inicial de “Terremoto”, um triunfo do CGI (imagens geradas por computador), já prega o espectador na cadeira com um dos momentos mais tensos da temporada de verão nos cinemas. Daí em diante, com pequenos respiros, o filme segue em um mesmo fôlego de ação (quase) ininterrupta.

“Terremoto – a falha de San Andreas” não é um filme que careça de maiores contextualizações ou análises, trata-se do que de melhor Hollywood tem a oferecer em matéria de parque de diversões na sala escura. Deixe-se levar por nossos medos mais primitivos, e impressionar-se pela devastadora força da natureza, mais uma vez no cinema. “Terremoto – a falha de San Andreas” vale muito o ingresso e mais ainda a pipoca. Aos iniciados, o filme ainda conta com Carla Gugino, ainda mais linda aos 43 anos de idade.

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sábado, 6 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 16:39

“Mad Max: Estrada da Fúria” se firma como maior obra-prima da ação em décadas

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Nos trailers de “Mad Max: Estrada da fúria” surgiam antes do nome do cineasta George Miller a alcunha “visionário”. Caso o leitor seja destes que ainda não tem familiaridade com a obra do diretor australiano, o porquê do uso do termo estará plenamente justificado quando os créditos do filme subirem. “Estrada da fúria” não só é o melhor filme da carreira do australiano, como é a grande obra-prima que o cinema de ação aguardava desde a década de 80, quando produções como “Mad Max: a caçada continua” (1981) e “Duro de matar” (1988) davam viço ao gênero. De lá para cá, com o advento dos efeitos especiais e heróis de HQs, o cinema de ação virou oura coisa. Mais pasteurizado, artificial e comportado. “Estrada da fúria”, com sua anarquia barulhenta, caótica e brilhantemente coreografada, devolve ao cinema de ação sua brutalidade, sua imprevisibilidade e, fundamentalmente, seu encanto.

Som, fúria e arrebatamento: o melhor filme de ação em anos (foto: divulgação)

Som, fúria e arrebatamento: o melhor filme de ação em anos
(foto: divulgação)

Som e fúria, em um balé apocalíptico no meio do deserto, norteiam uma história que poderia ser erroneamente sintetizada como uma grande e histriônica perseguição. Essa escandalosa e espetacular obra-prima é, no entanto, uma sinfonia do caos tão perfeita que é preciso louvar tanto a ousadia da Warner Brothers, de liberar U$ 200 milhões para a produção de um filme tão incomum e estranho, como o gênio de Miller que usa CGI o mínimo possível e faz ação de verdade com veículos assustadores e capotamentos espetaculosos.

A plasticidade de “Estrada da fúria” impressiona. Seja pelas paletas de cores amareladas ou pelos ângulos inusitados escolhidos por Miller. O gigantismo das alegorias, em muitos momentos o filme se assemelha a um desfile enlouquecido, arrebata. Somente em um filme tão brutal como “Mad Max” seria possível um sujeito tocando insanamente rock em uma guitarra do alto de uma alegoria enquanto percussionistas tribais “cantam” uma perseguição frenética pelo deserto.

Miller avança na mitologia do universo de “Mad Max” reaproveitando e expandindo ideias ensejadas na trilogia original, mas “Estrada da fúria” se sustenta sozinho. Depois de ser capturado, Max (Tom Hardy) vira uma bolsa de sangue para os war boys feridos da cidadela. A cidadela é controlada por Immortan Joe (Hugh Keays-Bryne, que já havia sido o vilão do primeiro filme). Ele promove uma caçada nervosa a Imperator Furiosa (Charlize Theron) que fugiu com suas parideiras. O war boy Nux (Nicholas Hoult) para participar da perseguição leva sua “bolsa de sangue” e daí em diante é prudente se preparar para os alucinantes desdobramentos da frenética narrativa.

Apesar do frenesi, “Estrada da fúria” traz mais em seu âmago. É, primordialmente, um filme de forte apelo feminista. Além da premissa de livrar mulheres da objetificação de um homem tirano, a personagem Furiosa reclama para si o protagonismo do filme. Determinada, inteligente, articulada e forte, Furiosa conquista o respeito de Max de um jeito que somente os homens estão permitidos a conquistar em westerns. “Estrada da fúria” subverte essa lógica ao afastar o romance da equação. Não obstante, trata-se, ainda, de um olhar algo raivoso sobre o impacto da religião e de como o suicídio pode ser usado a serviço do terror.

Western de vanguarda: Há muito mais do que alcançam os olhos em "Estrada da fúria" (Foto: divulgação)

Western de vanguarda: Há muito mais do que alcançam os olhos em “Estrada da fúria”
(Foto: divulgação)

Se há um porém em “Estada da fúria” é o saldo da inevitável comparação entre Tom Hardy e Mel Gibson. Talvez Hardy já saia perdendo porque seu Max compartilha importância na narrativa com Furiosa, mas fato é que em matéria de carisma Gibson sobra. Hardy convence na brutalidade de Max, especialmente no começo do filme, mas come poeira quando precisa aferir humanidade ao personagem.

É uma ressalva que não compromete em nada a grandiosidade da fita. Tampouco demove “Estrada da fúria” do topo da cadeia alimentar do cinema de ação contemporâneo. Visionário, George Miller faz o que parecia impossível e relega produções como “Vingadores” e “Velozes e furiosos”, grandes sensações da temporada, ao posto de meros recalques.

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sexta-feira, 5 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 16:58

Cinema fascinante, ucraniano “A gangue” é soco no estômago

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Foto: divulgação

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De tempos em tempos nos deparamos com um filme que nos priva o fôlego. O ucraniano “A gangue”, de Myroslav Slaboshpitsky é um destes filmes. Rodado inteiramente na linguagem de sinais, com elenco quase todo em sua totalidade de surdos-mudos, “A gangue” é cinema de verve que obriga a audiência a tatear por significados; a confiar nas imagens. Ao renunciar à oralidade, o cineasta propõe mais do que a total imersão no universo que retrata em seu filme, ele conclama a audiência a um cinema de aproximação. Onde intuição e observação rimam na produção de uma narrativa poderosa.

O filme acompanha a chegada de um rapaz a um internato para surdos-mudos. Como em toda escola, ele é alvo de bullying de adolescentes receosos por marcar território. Aos poucos, ele vai sendo aceito e meio que por osmose entra para a gangue do título. Que entre tantos outros malfeitos, explora sexualmente duas meninas da escola, estupra, rouba e espanca alunos menores.

Esse universo paralelo de violência e desamparo revela uma Ucrânia em vil decadência após a separação da Rússia. O protagonista do filme, que vai interiorizando a violência à medida que se projeta na nova organização criminosa, precisa sobreviver. O ambiente é hostil e ele não parece ter outra alternativa a não ser figurar entre os opressores. É isso ou ser parte dos oprimidos. Mas o amor, como se sabe, surge para desestabilizar qualquer circunstância. E o rapaz se vê apaixonado por uma das meninas que é forçada a se prostituir.

A expressividade do filme se sobressalta em sua simplicidade. Poucas produções atuais usam de tamanha economia narrativa. Slaboshpitsky filma em tela panorâmica e os personagens sempre se movimentam com muita rapidez. O gestual é frenético muitas vezes. Há muitos planos-sequência também. A urgência, o nervosismo daquele mundo, é hipnotizante; nosso afã por antecipar o que se anuncia nos mantêm petrificados na cadeira. Do sexo à violência, tudo é real, sem anestesia. O cineasta não está interessado no conto moral, mas sim na verdade obscura. É um objetivo que se comunica da estética ousada ao desenlace da trama.

A coragem de Slaboshpitsky não se esgota em colocar na tela um filme de mais de duas horas sem diálogos, mas sim de apresentar uma história violenta e chocante, sem concessões, onde muitos só enxergariam correção política. “A gangue” é apenas o primeiro longa-metragem do ucraniano, mas já dá para dizer que a sétima arte tem muito a se beneficiar com o cineasta. Há muito tempo que um filme não atingia o estômago com tanta força.

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quinta-feira, 4 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 17:39

Tipos desajustados embelezam narrativa da comédia dramática “Cala a boca, Philip”

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Alta cultura e intelectualidade não são mais importantes do que o desejo ou o ego em “Cala a boca, Philip (Listen up, Philip, EUA/2014) pequena joia do cinema independente americano assinada por Alex Ross Perry, mas emolduram esse belo filme que discorre sobre os maus hábitos de um escritor com grandes ambições.

Philip, vivido pelo expert em tipos esquisitos Jason Schwartzman, vive em Nova York com sua namorada, a fotógrafa Ashley (Elizabeth Moss) e está em plena crise de ansiedade com o lançamento de seu segundo livro. Ele está convencido de que é inferior ao primeiro e teme menos pelo desempenho comercial da obra e mais por seu futuro como escritor.

Foto: divulgação

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Depois de receber de seu editor a notícia de que seu ídolo, Ike Zimmerman (Jonathan Pryce), gostou do novo livro e gostaria de conhecê-lo, Philip se anima e embarca nessa amizade improvável. Se reconhecendo em Philip, Ike o toma como pupilo em uma relação que afasta Philip de Ashley, propiciando a ela a percepção de que como ele a sugava, e devolvendo certo gosto pela vida a Ike. Philip, por seu turno, é instado pelo amigo a desenvolver impulsos –  quase nenhum elogiável – que todo escritor promissor deve ter.

Narrado em forma de prosa, “Cala a boca Philip”, dá a impressão de ser um filme coral em alguns momentos. Trata-se de um bem-vindo recurso articulado por Perry que dá ao seu filme o acabamento de um romance ambientado em Nova York sobre como a cena artística da cidade pode produzir tipos estranhos e absortos. Não há personagens adoráveis em “Cala a boca, Philip”, a começar pelo protagonista que acha grosseria beijar na boca em público, confessa preferir ser lembrado como um grande talento da literatura do que como um ser humano e objetifica ao máximo as mulheres que cruzam sua vida. É uma aposta arejada de Perry, portanto, aferir leveza a uma narrativa recheada de personagens essencialmente desagradáveis.  Aposta esta que rende um filme inteligente e cativante de uma maneira tão inusitada como esse punhado de personagens desajustados que pipocam na tela.

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terça-feira, 2 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 17:14

“Miss Julie” reflete mal-estar da relação entre macho e fêmea e acomoda paradoxos sociais

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Liv Ulmann, atriz prolífera no cinema de Ingmar Bergman, herdou do frequente colaborador o gosto pelo cinema de questionamento existencial. 14 anos depois de dirigir um texto de Bergman para o cinema (“Infiel”), Ulmann retorna com uma adaptação do sueco August Strindberg, referência ocasional para Bergman, cuja peça “Miss Julie”, escrita em 1888, é das mais complexas e assertivas sobre o conflito de classes sociais.

Largamente adaptada para o cinema, a peça ganha pelas mãos de Ulmann sua versão mais teatral. Na radicalidade da encenação, Ulmann se deixa seduzir por sua protagonista maior que a vida na esperança de que o público também se deixe enfeitiçar.

Jessica Chastain é um colosso da atuação e na pele de miss Julie, já vivida por atrizes como Helen Mirren, Fanny Ardant, Bibi Anderson e Janet McTeer, atinge o mais alto grau de fascinação.

Foto: divulgação

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Miss Julie é um papel riquíssimo dos pontos de vista narrativo e interpretativo. O jogo de gato e rato histérico e sexual travado entre a filha do barão e o lacaio Jean, aqui grafado como John e vivido pelo irlandês Colin Farrell, em uma noite de solstício do verão irlandês dimensiona não somente o conflito intrínseco às castas sociais, como tangencia o mal-estar entre macho e fêmea em uma sociedade tão arraigada aos ditames de classe.

A psicologia dos personagens interessa mais a Ulmann do que a história em si. Talvez esteja aí a justificativa para a longa duração, 129 minutos, e para a exacerbação da teatralidade. São apenas três atores em cena. Além de Farrell e Chastain, há Samantha Morton, como a cozinheira e noiva de John. Ulmann, no entanto, só consegue transpor certa superficialidade por meio da curva dramática percorrida por Chastain. Ao longo da narrativa, Julie vai da provocação sexual ao amor, da fragilidade ao destempero e Chastain captura toda essa efervescência com absoluto magnetismo. É ela quem estipula as bases para Colin Farrell, cuja interpretação se adensa conforme Chastain toma conta da cena. Um paradoxo que se retroalimenta do conflito entre seus personagens. Ora John emerge da submissão para admoestar Julie, ora recolhe-se a sua referida insignificância com o mero objetivo da autopreservação.

“Miss Julie” certamente não é para qualquer paladar. A despeito de Ulmann não se preocupar tanto com a clareza da narrativa, a lentidão desta por vezes incomoda, ou com a profundidade da lente sobre os personagens, Bergman não pode ser replicado, seu filme é uma proposição interessantíssima de arte pensativa.

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quinta-feira, 7 de maio de 2015 Críticas, Filmes | 19:41

“Vingadores: a era de Ultron” expõe perigosamente fórmula da Marvel

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A fórmula da Marvel parece infalível e “Vingadores: a era de Ultron”, para o bem e para o mal, ratifica essa condição. Novamente dirigido por Joss Whedon, “A era de Ultron” repisa os acertos do primeiro filme, como a boa dinâmica entre os personagens e o uso do humor como principal artifício narrativo. Contudo, se Whedon se prova um diretor mais cuidadoso (e megalomaníaco) na condução de cenas de ação, ele repete muitos dos problemas do filme de 2012. O mais grave deles talvez seja o exagero. “A era de Ultron” parece um “Transformers metabolizado”. Tudo no filme parece um pretexto para cenas hiperbólicas de ação e o humor, um subterfúgio para que essa manobra passe despercebida. Esse já era o maior problema de “Vingadores” que se diferenciava de produções como “Homem de ferro” e “Thor” justamente por eleger a ação como norte.

É interessante comparar o recente “Guardiões da galáxia” com “A era de Ultron”. O tratamento dado ao roteiro em um e em outro ajuda a entender as funções do humor e da ação. Se no primeiro há equilíbrio e simbiose, no segundo há dependência. As piadinhas, algumas extremamente funcionais outras voltadas para os fanboys, oxigenam um filme mergulhado em adrenalina.

Muito riso, pouco siso: "A era de Ultron" depende do humor fácil para disfarçar seus defeitos

Muito riso, pouco siso: “A era de Ultron” depende do humor fácil para disfarçar seus defeitos

Como não há necessidade de maiores apresentações, “A era de Ultron” já começa com os vingadores em ação para recuperar o cetro de Loki (Tom Hiddleston) em poder da Hydra. Lá eles têm o primeiro contato com Mercúrio e Feiticeira Escarlate. Complexa, a personagem interpretada por Elizabeth Olsen deflagra em Tony Stark (Robert Downey Jr.) o sentimento que o move a construir Ultron, uma forma de inteligência artificial extremamente evoluída e que deveria resguardar o mundo de invasores alienígenas. Naturalmente, Ultron tem uma interpretação muito particular de como a paz mundial deve ser acalentada e entende que a destruição dos vingadores, em um primeiro momento, e da humanidade, no geral, são vitais para o processo.

Ultron, inadvertidamente criado a imagem e semelhança de Tony Stark (um paralelo que nunca é bem aprofundado pelo roteiro), é um vilão cheio de potencial, mas absolutamente decepcionante. A despeito dos esforços de James Spader, que faz a voz de Ultron, o vilão jamais excede a caricatura. Um defeito crônico dos filmes da Marvel, mais incômodo aqui em virtude da envergadura do vilão.

Há um esforço de “vender” essa sequência como mais febril, sombria e definitiva. Em meio a mortes e segredos revelados, há mudanças que se pretendem paradigmais dentro do universo Marvel. Nesse sentido, o filme alcança resultados mais positivos. Na sugestão de um possível filme-solo do Hulk, “A era de Ultron” é felicíssimo. Na exposição da ambivalência entre Tony Stark e Steve Rogers (Motor de “Capitão América: guerra civil”), “A era de Ultron” traz pistas e sutilezas para animar quem já sabe o que vem por aí. Estão aqui, também, os eventos iniciais da saga do Pantera Negra. Como parte desse universo em constante evolução que é o “Marvelverse”, “A era de Ultron” é o que se espera de um filme da Marvel. Até mais sofisticado nas interposições narrativas, já que não se tratam de pistas óbvias ou cenas soltas. Como um filme fechado, no entanto, a nova aventura dos vingadores fica no meio termo. É um entretenimento eficiente, mas cuja fórmula Marvel ganha mais evidência do que o desejável. Todo mundo sabe que não se deve entregar a receita do bolo de mão beijada.

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terça-feira, 28 de abril de 2015 Críticas, Filmes | 17:55

“Casa Grande” pensa o Brasil a partir do derretimento da classe média

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Um menino ajeita o cabelo em frente ao espelho. Ele quer parecer bonito. Apaga a luz do banheiro e cerra as portas por onde passa. Sai de sua casa e bate na porta de uma casinha ainda no terreno. É recepcionado por Rita (Clarissa Pinheiro) que se põe a contar para ele uma experiência sexual. De quando teve sua bunda loucamente beijada por um motoqueiro.

Com essa cena aparentemente banal e sem qualquer propósito mais elaborado, “Casa grande”, brilhante filme de Fellipe Barbosa, se insinua com força para a audiência. Estamos diante de um filme que intenciona pensar o Brasil ao apontar a lupa para as dinâmicas estabelecidas em uma família de classe média alta carioca às voltas com sua decadência socioeconômica.

Foto: divulgação

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O filme foca em Jean (o ótimo Thales Cavalcanti), um adolescente de 17 anos indeciso sobre o vestibular e decidido a conquistar uma mulher. Jean é filho de Hugo (Marcello Novaes, surpreendente), um banqueiro à espera de recolocação no mercado de trabalho que vê sua liquidez ruir, e Sônia (Susana Pires), habituada à tranquilidade de uma vida privilegiada que precisa repensar hábitos e desejos. A família é composta, ainda, por Natalie (Alice Melo), a filha caçula.

Embora o ponto de vista adotado seja o de Jean, Barbosa não limita o escopo de seu filme à desestruturação econômica desta família. Ao evocar o debate sobre cotas raciais nas universidades com seus personagens, Barbosa vai além da metaforização ao expor a profunda divisão entre classes sociais vigentes no Brasil. Este, porém, não é o único recurso utilizado pelo diretor/roteirista na obra. Ao flagrar as tensões sexuais entre patrões e empregados, o preconceito velado transferido silenciosamente de pai para filho e outros clichês típicos da classe média brasileira, Barbosa radiografa os vícios de um Brasil parado no tempo e banhado em conservadorismo. Mas Barbosa não emite julgamentos. Pelo contrário, provoca o público a fazê-los. Maliciosamente. Como na cena em que Jean, pela primeira vez usando transporte público sozinho para ir à escola, vê um rapaz negro e com aparência pobre sentar ao seu lado no banco. Sem emitir qualquer som, Barbosa convoca a plateia a posicionar-se a respeito do que vê na tela.

Em outra cena, Hugo surge falando para amigos de seu filho como “aprendeu a gostar de negras”. Mais adiante, a câmara de Barbosa flagra Hugo esgueirando-se para ouvir sua esposa tentar arrancar uma confissão que nunca vem de uma empregada em vias de ser demitida. Novamente, Barbosa não emite julgamentos, mas conta com o juízo da plateia para produzir valor à narrativa.

Mesmo analisada isoladamente, a trama central – o derretimento financeiro de uma família com os pais tentando privar os filhos dessa consciência – encanta com suas sutilezas sortidas, seus diálogos certeiros e sua arquitetura singela. Mas “Casa grande” funde tão categoricamente esse conflito de uma classe média pós-lulismo ao Brasil histórico que é impossível não ficar boquiaberto diante de toda a sua potência narrativa. Essa força dramatúrgica que envolve do breve erotismo à comédia juvenil, qualifica essa estreia de Fellipe Barbosa em longas-metragens como um dos melhores filmes do ano e uma das melhores produções brasileiras da década.

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quinta-feira, 23 de abril de 2015 Críticas, Filmes | 17:46

Ficção científica diferente, “Chappie” mira problemas educacionais do terceiro mundo

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Quando lançou “Distrito 9” (2009), promovido por Peter Jackson, Neill Blomkamp foi incensado como o último biscoito do pacote dos cineastas jovens ascendentes. Depois de “Elysium” (2013) essa percepção foi questionada por crítica e indústria que receberam com ceticismo a produção que revisitava temas já trabalhados em “Distrito 9” com menos profundidade e mais pirotecnia.

Blomkamp agora lança “Chappie” (EUA, 2015), um retorno à África do Sul e ao baixo orçamento, mas uma diferente angulação de um tema que persegue com fervor: a desigualdade social.

Criador e criatura: educação problemática  (foto: divulgação)

Criador e criatura: educação problemática
(foto: divulgação)

“Chappie” pode ser lido como uma ficção científica pouco original fortemente influenciada pelos clássicos oitentistas “Robocop” (1987) e “Um robô em curto-circuito” (1986) ou pode ser percebido como uma analogia tão inventiva quanto poderosa sobre as circunstâncias da educação e a premência destas na formação de uma personalidade potencialmente criminosa.

Em uma África do Sul dominada pela criminalidade, a cidade de Joanesburgo entra na vanguarda ao confiar a robôs o patrulhamento e demais atividades policiais de risco.  Dev Patel faz o gênio por trás dos bem sucedidos robôs policiais, enquanto Hugh Jackman faz um ex-militar que tem seu projeto posto para escanteio depois do sucesso alcançado pelas criações do personagem de Patel. Que por sua vez resolve testar aquilo que pode representar a nova fronteira em matéria de inteligência artificial. Um robô capaz de desenvolver consciência.

O personagem não contava que fosse ser sequestrado e que sua mais importante criação seria objeto de interesse de pretensos gângsteres em busca de fortuna.  É aí que “Chappie” capitaliza a metáfora sobre como a educação deficitária em países de terceiro mundo se revela perniciosa. “Chappie”, que leva minutos para balbuciar as primeiras palavras – processo que consome ao menos três meses de uma criança, é alvo de uma educação descriteriosa e hostil e por meio dela, Blomkamp assume uma postura esquerdista ao frisar que os lapsos na educação são determinantes para o ciclo de violência. Se focasse nessa inusitada camada de sua ficção científica, o cineasta sul-africano talvez tivesse colhido mais frutos. Contudo, “Chappie” sofre do mesmo mal do filme antecessor de Blomkamp. São muitos temas para serem lapidados. O cineasta enfileira uma série de tópicos e acaba por enfraquecer o todo. O final é bastante problemático. “Chappie” praticamente vira outro filme sobre os limites da inteligência artificial. Essa transição, mal trabalhada, afasta a plateia do sentido que o filme vinha construindo até então e dá margem àqueles que criticam Blomkamp por reciclar outros filmes sobre robôs.

De todo modo, “Chappie” é um filme mais redondo do que “Elysium” e reafirma ser Blomkamp um dos poucos cineastas a pensar a ficção científica na atualidade. Uma qualidade que, a despeito dos resultados díspares alcançados em seus três filmes, não pode ser desprezada.

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