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Posts com a Tag Críticas

quarta-feira, 23 de julho de 2014 Críticas, Filmes | 22:26

“Planeta dos macacos: o confronto” é interessante jogo de espelhos

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Fotos: divulgação

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César é, para todos os efeitos, um personagem pós-moderno. Primeiro porque é o que melhor se beneficia da ferramenta hoje bastante comum da captura de performance. Tecnologia que permite combinar os gestos e expressões do ator à criação digital que será vista na tela grande. Daí surgiu o que chamamos no meio de “performance digital”. E Andy Serkis, o homem que já foi Gollum e King Kong, reina nesta arte. A segunda razão para César ser a expressão do personagem pós-moderno é porque congrega em si toda a complexidade de ser humano, mas é um macaco; um símio que trafega entre o que há de mais primitivo em nós e o que há de mais evoluído. Por ser esse espelho tão fascinante quanto aterrador, César cativa.

“Planeta dos macacos: o confronto” (2014) é um filme que dá conta desse enredamento ambicioso. Essa nova jornada dos macacos pelo cinema, iniciada com “Planeta dos macacos: a origem” (2011) busca conciliar entretenimento com reflexão e alcança com sucesso essa rara simetria no cinema americano.

No novo filme, dirigido por Matt Reeves (“Deixe-me entrar”), o vírus produzido em laboratório abordado no filme anterior dizimou grande parte da humanidade. Os que vivem precisam se reorganizar socialmente, mas esbarram no surgimento de uma sociedade paralela erigida pelos macacos liderados por César, que foi o primeiro a apresentar os sinais de evolução.

O que mais impressiona em “O confronto” não é o tempo que Reeves dedica à estrutura de comunicação dos símios, nem mesmo o vigor de seus ritos sociais, mas a maneira como símios e humanos se aproximam nas vicissitudes e nas virtudes.

É esse o grande mérito deste blockbuster que se apresenta como um dos melhores dessa safra de 2014. A capacidade de vincular com fundamento a veia corruptora do homem ao ideal de evolução, de organização social e fazê-lo destacando uma sociedade pós-raça humana que se julga imune às vis tentações que assolam o homo sapiens. Essa ideia muito bem fecundada no romance original escrito por Pierre Boulle, e lançado em 1963, ganha dimensão mais trágica e ruidosa nas mãos de Reeves.

Dos planos insidiosos sobre César, o líder sábio e pressionado, à agonia humana em face de descobertas sempre desestabilizadoras, Reeves filma com a densidade de uma tragédia grega cujo iminente desfecho nos rebaixa enquanto sociedade.

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terça-feira, 22 de julho de 2014 Críticas, Filmes | 20:19

“O Teorema zero” tenta iluminar busca atemporal pelo sentido da vida

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Qual o propósito da existência? É esse o mote nada banal e compreensivelmente ambicioso de Terry Gilliam em seu retorno ao universo da ficção científica. Entre “Os 12 macacos” (1995) e “O teorema zero” (2013) passaram-se quase 20 anos. Se o primeiro filme flertava com a ação sem abdicar de seu viés soturno, o novo trabalho de Gilliam abandona todo e qualquer subterfúgio para focar única e exclusivamente no objetivo da narrativa.

No filme, Qohen Leth (Christoph Waltz) é um excêntrico hacker com tendências antissociais que se fundem muitíssimo bem a um mundo em que a tecnologia preconiza a impessoalidade. Mas essa visão pessimista de nosso futuro não compõe o eixo central da fita, mas sim o que esse descontentamento fluído enseja. Qohen está à espera de uma ligação do criador para descobrir seu propósito nesta vida. Por isso, pressiona seu supervisor (David Thewlis) para poder trabalhar em casa. O gerente, figura que beira o mitológico na composição cênica de Gilliam e que é interpretado com afetação calculada por Matt Damon, acaba por lhe propor um desafio: ele poderá trabalhar em casa, desde que seja na solução do teorema zero. Um problema matemático que, se resolvido, revelará a razão da existência humana. Mas resolver o tal problema não só consome o tempo e a sanidade de Qohen, como se prova um exercício de fé. Está aí, no exercício da fé, o questionamento definitivo alinhado por Gilliam em seu filme.

o teorema

O ator Christoph Waltz em cena do filme

 

Fotos: divulgação

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Nesse futuro colorido, berrante e de constante observação, a religião assumiu-se como um player no mercado de capitais e a disputa pela alma de um indivíduo não é mais importante do que a possibilidade de torná-lo parte de um sistema. A estranheza de Qohen sempre se referir a si mesmo na primeira pessoa do plural passa por aí e culmina na devastadora cena final em que o gerente faz uma revelação a Qohen, que a despeito de intuída por um ou outro espectador, preserva sua força.

A religião é capaz de prover sentido à vida humana, terrestre, racional, profissional? Ou seria o amor capaz de legitimar angústias insuspeitas e insondáveis? Gilliam confronta essas percepções em um filme estranho, sensorial, delirante na mise-en-scène e que vai se revelando por meio de metáforas potentes. Sejam elas visuais ou saídas da boca de personagens.

Christoph Waltz surge em cena intangível e irreproduzível. Diferentemente de tudo que já fez no cinema, o ator se entrega ao ridículo e ao nonsense despudoradamente. Alterando o tom do registro a cada nova cena, Waltz aposta em uma composição rigorosamente fiel ao espírito transgressor do filme. Inadjetivável, no sentido mais livre possível, sua atuação não exatamente agrada, mas impressiona.

“O teorema zero” não é um filme de apreciação imediata. É daqueles que exige engajamento; reflexão. Gilliam confia ao público parte de sua angústia, mas não lhe reserva o direito de pincelar suas próprias respostas. Ao fim da projeção, elas estão todas lá; só nos resta montar o quebra-cabeça.

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sábado, 12 de julho de 2014 Críticas, Filmes | 19:59

Espaço Cult: “Cópia fiel” é cinema de questionamento

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Cópia

A primeira reação à “Cópia fiel” (FRA/Itália/Irã 2010) é de estranheza. Confusão até. A matéria prima deste filme do elogiado cineasta iraniano Abbas Kiarostami é a arte e uma das discussões mais longevas e interessantes que a gravita: Acerca do valor de uma cópia, da autenticidade do original e do quão significante é o olhar na aferição de uma obra de arte. Mas o diretor iraniano é audacioso e faz do filme que discute a arte, a própria discussão. O fórum metalinguístico de Kiarostami começa explanativo e toma contornos herméticos, ainda que a narrativa seja leve e fluída. Uma conquista notável.

Em “Cópia fiel”, o escritor inglês James Miller (William Shimell) está na região da Toscana, na Itália, para palestrar sobre seu mais recente livro (que dá nome ao filme), em que promove um debate sobre arte e cópia. Miller parece convicto de que uma cópia bem feita tem tanto valor quanto o original. Ao mesmo tempo em que relativiza o valor da arte, a cópia a afirma, defende o inglês. Ele é desafiado, em um passeio aparentemente sem rumo, pela francesa dona de uma loja de antiguidades vivida por Juliette Binoche. Elle, a personagem da atriz, é flagrada dividida entre a adoração e o repúdio às ideias de Miller.

Em um primeiro momento, Kiarostami desenvolve seu filme como uma palestra propriamente dita. Ele lança suas ideias e as defende por meio de exemplos que os personagens tricotam em uma conversa cerceada por tensão e sobressaltos. De repente, após uma conversa travada entre Elle e a dona de uma cantina italiana, “Cópia fiel” se transforma em outro filme. Uma comédia romântica madura que guarda muitas semelhanças com o duo de Richard Linkaleter Antes do amanhecer/Antes do pôr do sol. Se essa condição é proposital ou não, provoca o diretor iraniano, cabe ao olhar do espectador.

O trânsito de ideias em “Cópia fiel” é tão vasto e complexo que ao seu final não se pode afirmar se o jogo de cena dos personagens se sucedeu por curiosidade intelectual, flerte incidental ou se o jogo de cena que existia (sem nos darmos conta) deu vazão à crua realidade, ainda que temperada pelo lirismo europeu que Kiarostami filma como o turista que é.

É inegável que “Cópia fiel” é um filme de ideias. Que se pretende erudito, ainda que desenvolvido na simplicidade dos diálogos. Contudo, o grande “porém” do filme, é que, em seu âmago, ele não convence. James Miller escreveu o livro para se convencer de suas próprias ideias, admite o próprio em determinado momento. Tudo leva a crer que Kiarostami rodou este filme, seu primeiro no exílio na Europa, com o mesmo intuito. Mas “Cópia fiel” não cativa como cinema o tanto que cativa como ensaio. É uma pena. Apesar da boa química entre os atores, e Shimell em sua estréia é um achado, a fita se torna depositária do olhar do espectador. Essa volubilidade, até certo ponto pretendida, atesta a ideia do filme, mas o segmenta em apreciações genéricas como a força dos intérpretes, a beleza da Toscana ou a inteligência do roteiro de Kiarostami.

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quinta-feira, 3 de julho de 2014 Críticas, Filmes | 20:57

“O Homem duplicado” leva inflexão vigorosa de Saramago ao cinema

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O cineasta canadense Denis Villeneuve, aos poucos, constrói uma filmografia que, além de rica e pensativa, é das mais instigantes do cinema moderno. Depois de apresentar uma das maiores sensações do cinema em 2013, o misto de thriller e drama “Os suspeitos”, o diretor chega aos cinemas com “O homem duplicado” (2013), uma adaptação essencial da obra homônima do escritor português José Saramago.

“O homem duplicado” versa sobre identidade. Sobre a singularidade do indivíduo à sombra da sociedade e, também, sobre como a vaidade é um forte elemento transformador. Isso tudo em um filme que se resolve primordialmente como um tubo de ensaio. Seja em sua lógica visual, seja no ritmo fragmentado e desabrido da narrativa. Lacunas e elipses se erguem com a benção de Saramago em um filme que não tem medo de provocar perplexidade na plateia.

Jake Gyllenhaal vive Adam, um introspectivo professor de história, que se encontra à beira da depressão quando descobre, ocasionalmente em um filme qualquer, um homem que é idêntico a ele. Adam resolve ceder a essa curiosidade e passa a perseguir, ainda que atabalhoadamente, seu sósia. Anthony St. Claire (também vivido por Jake Gyllenhaal) é o oposto de Adam. Confiante, boa vida e mora em um apartamento ensolarado – um contraponto ao escuro apartamento de Adam. A estranheza de conhecer um homem igualzinho a ele logo dá espaço a uma curiosidade mórbida por parte do ator que não consegue romper o terceiro escalão da fama. Adam, por sua vez, passa a se sentir incomodado por entender estar perdendo a referência de sua identidade.

Um encontro que coloca os personagens em caminhos opostos: "O homem duplicado" nunca opta pela via mais fácil ao instigar constantemente a audiência  ( Foto: divulgação)

Um encontro que coloca os personagens em caminhos opostos: “O homem duplicado” nunca opta pela via mais fácil ao instigar constantemente a audiência ( Foto: divulgação)

A Toronto que recebe a ação é estranhamente fria e atemporal, em uma solução visual digna de nota do fotógrafo Nicolas Bolduc para dimensionar a letargia emocional que aflige o protagonista. Conforme a trama avança, as dúvidas, ensejadas por pistas nada óbvias por parte da realização, se proliferam e a certeza se afasta. A jornada proposta por Saramago e replicada aqui por Villeneuve com espantosa fidelidade não busca o sentido formal, mas a gravidade da inflexão. Nesse aspecto, “O homem duplicado” triunfa com a sobriedade do grande pensador em que se acolhe.

Um adendo à extraordinária composição de Jake Gyllenhaal precisa ser feito. O ator distingue seus personagens quando necessário e borra essas tintas de distinção quando preciso.

Gyllenhaal é um elemento tão importante na narrativa quanto os símbolos projetados por Villeneuve. Um destes é uma tarântula. A tarântula representa o lado sinistro, o aspecto obscuro de um ser humano. Reside na combinação da performance de Gyllenhaal e da compreensão dessa metáfora exposta na tela em dois momentos distintos, a força de “O homem duplicado” enquanto cinema.

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domingo, 22 de junho de 2014 Críticas | 14:50

“Vizinhos” celebra o prazer pelo besteirol americano

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Zac Efron (à frente) e Dave Franco em cena do filme: referências e ironias se misturam em um filme insuspeitamente inteligente  (Foto : divulgação)

Zac Efron (à frente) e Dave Franco em cena do filme: referências e ironias se misturam em um filme
insuspeitamente inteligente (Foto : divulgação)

O besteirol americano é uma instituição. Assim como o são os filmes familiares. A união desses dois subgêneros tão caros à cinematografia americana não é algo essencialmente novo. A trilogia “Entrando numa fria” enveredou por esse caminho e o novo e surpreendente sucesso de bilheteria “Vizinhos” (2014) mantém a chama acesa.

Dirigido por Nicholas Stoller, cujos créditos prévios incluem “As loucuras de Dick e Jane” (2005), como roteirista, “Ressaca do amor” (2008) e “Cinco anos de noivado” (2012), como diretor, todos filmes que gravitam esse universo do besteirol evoluído, “Vizinhos” mostra um casal ainda às voltas com a nova rotina de serem pais. A cena inicial é uma gag fantástica. Mac (Seth Rogen) e Kelly (Rose Byrne) tentam fazer sexo, mas não conseguem atingir o necessário grau de intimidade com sua pequena filha por perto.

“Vizinhos”, afinal, trata-se de adaptação. Da necessidade de adaptar-se às inevitáveis mudanças da vida e para agravar o quadro, uma fraternidade, ou república estudantil para o público brasileiro, muda-se para a casa ao lado de Mac e Kelly. Eles preveem tempos difíceis e tentam administrar a situação de maneira amistosa, mas o plano não dá certo e acabam batendo de frente com Teddy (Zac Efron), presidente da fraternidade.

A partir deste momento, “Vizinhos” assume seu lado trash e abandona o prisma de comédia familiar ao apresentar cenas como a que um pênis vira arma secreta em uma inusitada rixa ou quando um homem se joga de uma considerável altura apenas para colocar um plano para lá de discutível em ação.

Essa transformação não implica em menos diversão. É claro, feita a ressalva de que esse humor regado a referências pop e com um pé na tosquice seja a sua praia. “Vizinhos” tem o mérito de rir não só de si mesmo, mas dos clichês que permeiam o besteirol. Nesse sentido é mais satírico do que as próprias produções que se vendem como sátiras e apenas um olhar treinado será capaz de perceber isso.

A batalha entre o casal suburbano que ocasionalmente fuma maconha e a fraternidade de pós-adolescentes levianos  é tão séria quanto idiota. Rende um filme mais sério do que poderia ser e mais bobo do que muitos tolerariam. Essa flexibilidade sugere o óbvio: assista se gostar de uma bobagenzinha de quando em quando. Não faz mal nenhum e pode até fazer algum bem.

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sábado, 7 de junho de 2014 Críticas, Filmes | 08:20

“X-men: Dias de um futuro esquecido” objetiva equacionar universo mutante no cinema

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Magneto, vivido por Michael Fassbender em sua versão jovem, mostra seu poder  (Fotos: divulgação)

Magneto, vivido por Michael Fassbender em sua versão jovem, mostra seu poder
(Fotos: divulgação)

Bryan Singer tinha uma missão. Realocar o universo mutante em face da nova mania de estúdios de cinema; ter um universo multifacetado e interligado entre si para chamar de seu. A culpa é da Marvel que provou com “Os vingadores”, e os filmes solo de cada um dos membros do supergrupo, que a ideia é rentabilíssima.

Se o primeiro “X-men”, lançado em 2000, carregava dúvidas sobre como seria a aceitação de fãs e público em geral aos uniformes de cinema, o sétimo filme com o gene X traz inquietações maiores. “Dias de um futuro esquecido” tinha a responsabilidade de superar a marca de U$ 500 milhões nas bilheterias internacionais, coisa que qualquer herói hoje em dia faz, e nenhum filme de mutantes havia feito. Este objetivo foi alcançado com louvor. Em pouco mais de dez dias, o filme já ultrapassou a marca de U$ 516 milhões e se consolidou como o filme mais lucrativo com o gene X. A outra grande responsabilidade do filme era aparar arestas. O universo mutante foi erguido sob improvisos no cinema e a Fox, ao que parece, começa a descobrir a galinha dos ovos de ouro que tem nas mãos. Mais do que a Sony, que detém os direitos de adaptação do Homem-Aranha, o estúdio pode conceber um universo tão, ou mais rico, do que o de Os vingadores. Personagens não faltam ao universo de X-men e “Dias de um futuro esquecido” é contumaz em ressaltar isso.

Nessa segunda função, o filme é parcialmente bem sucedido. A trama, que bebe da fonte original e vai buscar em uma das mais festejadas sagas mutantes nos quadrinhos sua base de sustentação, coloca Xavier (Patrick Stweart) e Magneto (Ian McKellen) unidos para combater um mal maior: as sentinelas. Máquinas desenvolvidas para dizimar mutantes; tarefa que cumprem com sucesso nos idos de 2022. A solução aventada é mandar Wolverine de volta ao passado, mais precisamente sua consciência ao seu corpo de 1973, para impedir que eventos que aceleram o desenvolvimento do programa Sentinela aconteçam. É a desculpa perfeita não só para reunir em um mesmo filme os mutantes da trilogia original com os novatos na trupe, que surgiram no vintage “X-men: primeira classe” (2011), como para zerar o universo mutante e reiniciá-lo nos cinemas. Seria, a grosso modo, um reboot (termo usado para designar o reinício de uma série no cinema) que não desconsideraria de todo os eventos da trilogia original.

Bryan Singer entende como poucos os x-men. É inegável sua contribuição para a série e para a onda de adaptações de HQs no cinema como um todo, mas depois do que Matthew Vaughn fez em “Primeira classe”, quando aliou pegada pop e tonalidade vintage à complexidade política incomum em um filme de entretenimento, a tarefa de Singer ficou mais arriscada. Ele optou por redimensionar os conflitos que permeiam a série, preservando alguns dos acertos de Vaughn – ainda que sem reproduzir a mesma finesse – redefinindo o filme como uma ficção científica de vocação, com seu mote enclausurado na viagem temporal.

Singer explica a Ellen Page e Hugh Jackman como se comportar em uma viagem do tempo...

Singer explica a Ellen Page e Hugh Jackman como se comportar em uma cena de viagem do tempo…

Sob esse prisma, Singer fez um belo filme de entretenimento, valendo-se de atores que além da qualidade notória (Hugh Jackman, James McAvoy, Jennifer Lawrence e Ian Mckellen, para citar alguns) ficam muito confortáveis na condição de “entertainers” (essa palavra que carece urgentemente de uma tradução eficaz, mas que poderia ser traduzida como “alguém que diverte”). Mas seu filme não é tão coeso como o de Vaughn. Aliás, seu retorno a série mostra como Vaughn capturou mais eloquentemente a essência do universo mutante. Mas Singer faz o que pode. A discussão entre livre-arbítrio e destino, intolerância e até holocausto surgem sob novas cores em “Dias de um futuro esquecido”, mas o que mais agrada no filme são as jornadas diametralmente opostas de Xavier e Magneto. Algo que já havia encantado em “Primeira classe” e volta a resplandecer aqui. Enquanto Xavier se debate para descobrir como ter esperança novamente e se reencontrar com suas convicções morais e filosóficas, testemunhamos Magneto repetir suas escolhas, mesmo ciente de quão errado é o caminho que elas vão conduzi-lo.

Esse caráter reflexivo, quase iluminado na abordagem que faz da humanidade desses personagens, é o que torna “Dias de um futuro esquecido” um filme convidativo. Um fato que não seria possível sem a incursão pela ficção científica ou a disposição de dizer adeus a tudo aquilo que no universo mutante, em uma desnecessária cena final, fica no passado dos personagens.

O Xavier do passado encara o Xavier do futuro em um dos loops temporais de "Dias de um futuro esquecido": jornada para dentro de si mesmo

O Xavier do passado encara o Xavier do futuro em um dos loops temporais de “Dias de um futuro esquecido”:
jornada para dentro de si mesmo

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sexta-feira, 30 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:56

Espaço Cult – “Ela” ressalta valor de se viver emoções

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HerTheodore (Joaquin Phoenix) escreve cartas de amor. Elas não precisam ser necessariamente de amor, mas clientes que precisam de cartas de amor compõem a clientela básica do Beautifulletters.com. Sabemos que estamos em uma ficção científica porque em um futuro próximo, bizarramente e melancolicamente parecido com o nosso presente, as pessoas escrevem cartas, mesmo que paguem alguém para escrevê-las. Theodore leva jeito com as palavras; sabe transmitir sentimentos que não sãos seus com ternura e docilidade. No entanto, Theodore não consegue organizar satisfatoriamente seus sentimentos. Do tipo solitário, sua situação é agravada pela dificuldade que ele apresenta de superar o término de um relacionamento longo e significativo. Na verdade, Theodore não sabe exatamente se sente falta de Catherine (Rooney Mara) ou de quem ele era com ela.

Theodore é daqueles que confiam à tecnologia vigente as miudezas da vida. É seu sistema operacional quem escolhe as músicas que ouve, lhe apresenta as notícias do dia, a previsão do tempo, entre outras coisas. Quando um novo sistema operacional, com a promessa de ser mais intuitivo e ajustável à personalidade do dono é lançado, Theodore, como um geek em todo o seu esplendor, logo compra a novidade. Depois de algumas perguntas, as quais Theodore pouco contribui com respostas, Samantha emerge com a voz rouca, sensual e abrasadora de Scarlett Johansson.

A partir daí se estabelece uma dinâmica que aos poucos vai evoluindo para uma relação amorosa. A maneira como Jonze tece essa história de amor nada convencional é tão imaginativa como sensível. À medida que Samantha vai dominando não só os pensamentos como o cotidiano de Theodore, ele, a princípio, se sente renovado. Com o tempo, no entanto, ele começa a divagar sobre a natureza de seu sentimento por Samantha e se há, de fato, um futuro para eles.

No mundo criado por Jonze, os relacionamentos entre humanos e sistemas operacionais estão ficando populares e há até quem se ofereça como uma espécie de cupido moderno para dar corpo a uma relação incorpórea. Quando isso acontece com Samantha e Theodore, “Ela” (2013) atinge um nível de sensibilidade em sua proposta maior que a vida.

A principal razão de ser desse belo, dolorosamente romântico e profundamente poético filme de Spike Jonze é conjecturar sobre a incrível necessidade humana de se conectar. Ela é tão forte que se pluga até mesmo ao que não for real. Não se trata de uma crítica a esse tempo de hiper-conectividade (um tipo de conexão totalmente diferente, afinal), ainda que essa crítica possa ser apreciada em um dos muitos subtextos do filme.

Amar é não racionalizar, racionaliza Jonze com uma amargura que paradoxalmente faz “Ela” soar ainda mais doce. É particularmente saboroso constatar que “Ela” é uma resposta mais complexa, mais doída e mais bem urdida a “Encontros e desencontros” (2003), de Sofia Coppola. Sofia e Jonze foram casados e as coisas não deram muito certo. Essa DR cinematografia, com Scarlett Johansson como uma espécie de hiperlink torna os dois filmes especialmente significativos para toda uma geração de cinéfilos.

Theodore conhece Samantha: o rosa, os bigodes e as calças caquis dão o tom do futuro

Theodore conhece Samantha: o rosa, os bigodes e as calças caquis dão o tom do futuro

 

Scarlett Johansson com Bill Murray em Encontros e desencontros: DR cinematográfica   (Fotos: divulgação)

Scarlett Johansson com Bill Murray em Encontros e desencontros: DR cinematográfica (Fotos: divulgação)

Por falar em trunfos, Joaquin Phoenix segue desafiando convenções. O ue esse monstro da atuação não é capaz de fazer? Totalmente entregue a um personagem difícil, hermético e em um tom totalmente diferente de tudo que já fizera como ator, Phoenix é o coração de “Ela”. Sem ele, o filme talvez não se conectasse (conceito tão importante na narrativa de Jonze) com a audiência.

Morfologias à parte, “Ela” é relevante por abordar o status quo de toda uma geração de maneira tão bela e suave. Fluindo entre o humor e o drama, Jonze faz um filme solar que sabe se alimentar da tristeza. Um filme especialmente eloquente para quem quer que já tenha amado.

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segunda-feira, 26 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 23:25

“Godzilla” explora signos de potência e vulnerabilidade

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Não é apenas a disposição de se apropriar de eventos trágicos reais, como a bomba atômica sobre Hiroshima, ou o mais recente tsunami, para legitimar seu desenvolvimento narrativo que distingue a mais recente versão de “Godzilla” tanto de seus antecessores, como da média do blockbusters da temporada. O que difere fundamentalmente a fita de Gareth Edwards, inspirado e seguro à frente de sua primeira produção de grande orçamento, é sua habilidade de problematizar a vulnerabilidade humana no mesmo compasso em que destaca a potência e força maiores que a vida de Godzilla, finalmente retratado como a indomável força da natureza, ainda que em sua concepção fantástica, que é.

O prólogo de “Godzilla” é bem climático. Por um lado, mostra um pesquisador (Ken Watanabe) no encalço da mística criatura. Por outro, mostra o engenheiro Joe Brody (Bryan Cranston) perdendo a esposa (Juliette Binoche) em uma usina nuclear em Tóquio em uma catástrofe sísmica que por 15 anos ele questionaria.

No presente, somos apresentados a Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson), o filho crescido de Joe e verdadeiro protagonista do filme. Ele se ressente do pai ausente, dedicado a provar uma teoria conspiratória que ocultaria as reais razões do terremoto que matou sua esposa. A partir desse mote, “Godzilla” vai construindo uma trama que independe dos anseios de vermos o rei dos monstros em ação. Há um drama familiar genuíno, mais bem estruturado do que de hábito em produções desse tamanho, e que oxigena a trama além do óbvio.

Godzilla: uma força devastadora e sempre impressionante (Foto: divulgação)

Godzilla: uma força devastadora e sempre impressionante (Foto: divulgação)

Há quem se queixe da demora de Godzilla em aparecer. Essa demora, se é que podemos qualificar o tempo que Edwards leva para mostrar sua principal atração de “demora”, é muito bem administrada narrativamente. “Godzilla” é um filme de clima, em que a ansiedade da plateia é muito bem alimentada pelo cineasta. Spielberg é uma referência muito forte neste sentido. Tanto “Tubarão” (1975) como “E.T” (1982) surgem como inspirações nada ocultas de Edwards. Passa por aí opção de frisar “Godzilla” como um herói incompreendido e também por observar o monstro a partir dos personagens em cena, excluindo-se o delirante e acachapante clímax da fita.

Essa atenção às miudezas, aliada a expressão inequívoca do gigantismo do Godzilla e das ameaças que ele enfrenta no planeta, confere à produção esse teor reflexivo que é vocalizado pelo personagem de Ken Watanabe de quando em quando.

Ken Watanabe dá relevância dramática a seu personagem, embora ele esteja ali só para explicar ( Foto: divulgação)

Ken Watanabe dá relevância dramática a seu personagem, embora ele esteja ali só para explicar ( Foto: divulgação)

Isso posto, “Godzilla” é, também, muito divertido. É diversão daquele tipo que buscamos no cinema. Deslumbramento e tensão entremeados por momentos de humor. Algo que o cinema americano faz tão bem, mas vem rareando no traquejo da fórmula. “Godzilla” é, em todos os sentidos, uma bem-vinda sessão de nostalgia.

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quarta-feira, 21 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:38

“Amante a domicílio” é manifestação do ego de John Turturro

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Foto: divulgação

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Sabe quando você se sente mal e meio que por impulso e meio que por hábito resolve fazer compras no shopping ou ceder às investidas daquele grude do trabalho só para massagear o ego? John Turturro, ator e pretenso diretor, fez um filme movido por esse mesmo impulso.

Em “Amante a domicílio” (2013), Turturro vive Fioravante, um ítalo-americano que trabalha dois dias por semana em uma floricultura. Um amigo de longa data, um judeu vivido por Woody Allen, tenta convencê-lo a atender sua médica (Sharon Stone) que anda desejosa de pular a cerca, mas pagando por isso.   Fioravante, naturalmente, a princípio recusa a ideia de se prostituir. “Sou um homem feio” se resigna. Ao que o personagem de Allen devolve, “mas você tem o mesmo sexy appeal de Mick Jagger”, notório feio de sucesso junto ao mulherio.

Estabelece-se dessa maneira o elemento que desencadeia a ação do filme. Fioravante topa se prostituir e rapidamente se torna uma figura concorrida no séquito de clientes do cafetão informal bancado por Allen.

Fioravante se define como um homem simples, sem grandes predicados, mas fala italiano, francês e espanhol em variados momentos do filme, demonstra conhecimentos literários e históricos, e ainda tem jeito com a mulherada. É Turturro falhando na missão de afastar seu filme da mera masturbação egóica.

Conforme avança a trama, surgem pequena nuanças como um painel, mal configurado, da cultura judaica e um comentário sobre como a solidão amarga a existência, mas são apenas ruídos em um filme que parece moldado para atender demandas, sejam elas quais forem, de seu realizador.

É lógico que todo esse raciocínio se arrefece com a curiosidade de ver Allen atuando em um filme que não é seu, algo raríssimo, e ainda por cima fazendo um cafetão. Outro hype certeiro é juntar Sharon Stone e Sofia Vergara, mulheres maduras reconhecidas pela sensualidade, como ricas entediadas a procura de aventuras sexuais.

“Amante a domicílio” não chega a ser decepcionante, desde que dele não se espere um filme de Woody Allen, uma armadilha previsível, mas sim um entretenimento rasteiro com ar de sofisticado.

Sharon Stone e Sofia Vergara em cena do filme: a serviço de um hype que nunca se sustenta

Sharon Stone e Sofia Vergara em cena do filme: a serviço de um hype que nunca se sustenta

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quarta-feira, 7 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:33

Crítica – “Divergente”

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Em um mundo em que a literatura juvenil é explorada quase que a toque de caixa pelo cinema e que duas ficções científicas com futuros distópicos ganham os cinemas contemporaneamente, é um prazer ver que “Divergente” (2014), baseado na obra homônima de Veronica Roth apresenta reflexões que fogem ao esquematismo do gênero. Não é o caso de comparar com “Jogos vorazes”, comparação automatizada pelas similaridades entre as sagas, mas de distinguir o discurso muito mais bem fundamentado e eloquente apresentado no filme dirigido por Neil Burger.

No futuro de “Divergente”, a sociedade cedeu ao totalitarismo e se organiza em cinco facções. Erudição, audácia, abnegação, franqueza e amizade. Na adolescência, todo cidadão é submetido a um teste que deve orientá-lo a escolher em qual facção irá viver. Existe até um slogan: “facção antes do sangue”. Essa objetividade aumenta a pressão, uma vez que submetido a uma fação, não há caminho de volta. Aqueles que não se encaixam em nenhum desses recortes são chamados de divergentes.

É uma premissa interessante muito bem explorada pela dramaturgia de Roth e potencializada pelas escolhas de Burger. Nossa sociedade adorar rotular. É algo inescapável a ao convívio. O gordo, a vagabunda, o gay, o chato e por aí vai. O que “Divergente” propõe enquanto reflexão é a força que insurge do íntimo de cada ser humano contra esse rótulo externo.

Nesse sentido, se comunica com a audiência com muito mais propriedade por não se restringir à alegoria política, como o faz seu “rival” “Jogos vorazes”.

Com uma heroína cativante e um plot bem amarrado, filme agrada e convence    (Foto: divulgação)

Com uma heroína cativante e um plot bem amarrado, filme agrada e convence (Foto: divulgação)

A luta da protagonista (Beatrice Prior), vivida com indesviável carisma e dedicação pela competente Shailene Woodley, é tanto contra o sistema, como contra o rótulo que lhe foi imposto pela sociedade. É, também, contra seus próprios limites.

Existe, é claro, a necessária subtrama do romance. Mas ela é administrada com a sutileza necessária para não se impor às prioridades narrativas. Outro acerto da condução de Burger. Além do mais, Theo James, que vive o indecifrável Four, é um talento nato. Transbordando carisma e com muito domínio de seu personagem, o ator gera boa química com Shailene Woodley e garante fôlego impensável para seu papel.

Já foi anunciado que a franquia terá quatro filmes, o terceiro livro será dividido em duas produções. Se não tem uma bilheteria irrepreensível, “Divergente” tem uma história pulsante, muito bem transposta para a tela grande e, principalmente, promissora, a seu favor.

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