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Posts com a Tag Críticas

segunda-feira, 6 de outubro de 2014 Críticas, Filmes | 20:38

Woody Allen pondera sobre abraçar ou não o ceticismo em “Magia ao luar”

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Aos 78 anos, Woody Allen – ainda que vigoroso na abundância com que lança filmes (um por ano, média invejável em qualquer parâmetro que se adote), está plenamente ciente de que se aproxima da finitude de sua vida. É natural nessas circunstâncias entregar-se às divagações existenciais. Agnóstico assumido, o cineasta tem abraçado o tema de maneira recorrente em sua filmografia recente. Filmes como “Tudo pode dar certo” (2009), “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos” (2010) e “Meia-noite em Paris” (2011), abordam a crença no oculto, a nostalgia e o poder mobilizador da fé e da energia positiva em tons e gradações distintos.

“Magia ao luar”, o Woody Allen de 2014, mergulha mais a fundo nessa inquietação metafísica. Não é um grande filme, mas é a verificação de que o clichê ainda funciona. Um filme menor de Woody Allen ainda é mais instigante e recompensador do que a média das produções em cartaz nos cinemas.

No filme, Colin Firth vive Stanley, um prestigiado mágico que nas horas vagas se dedica a desmascarar farsantes que se passam por videntes, médiuns e similares. Ele é acionado por um amigo (Simon McBurney) para desmascarar uma jovem americana que encantou uma família de abastados do sul da França. Em especial o primogênito, que está perdidamente apaixonado pela jovem mediúnica.  Se Colin Firth dá vida às habituais neuroses dos personagens woodyallenianos com um indefectível ar próprio, já que Firth raramente renuncia ao charme de ser Firth, Emma Stone interpreta Sophie como a visão que ela é para os personagens em cena. Um acerto dessa atriz que sabe se fazer notar até mesmo quando sua personagem deveria apenas favorecer companheiros em cena.

Woody Allen e seus protagonistas no set: divagações sobre o pós-vida  (Foto: divulgação)

Woody Allen e seus protagonistas no set: divagações sobre o pós-vida
(Foto: divulgação)

Woody Allen, ele mesmo um cético incorrigível, discute com “Magia ao luar” as benesses da auto-ilusão, na sua concepção.  Ele imagina como reagiria se, nesta etapa sisuda da vida, descobrisse que esteve sempre errado. Que existe, afinal, um pós-vida e que o oculto é muito mais extraordinário do que a crença humana pode articular. No entanto, e “Magia ao luar” resolve isso da maneira mais cética possível, Woody Allen ainda não está preparado para desapegar de suas convicções filosóficas e metafísicas. Mas há um adendo narrativo que desequilibra os pesos e as medidas dos personagens, da audiência e das próprias convicções do artista a manejar todo esse espetáculo: o amor. Para Woody Allen, que não se furta ao prazer de se analisar por meio de um personagem discípulo de Freud que paradoxalmente abraça a crença no oculto, o amor transfigura a mais solene razão em inexplicável magia.

No final das contas, não tem como manter-se cético em relação a uma teoria como essa.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014 Críticas, Filmes | 21:00

Novo “Sin City” agrada fãs com hipersexualização e pretenso cinismo

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Foto: divulgação

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Em 2005, Robert Rodriguez e Frank Miller mesmerizaram o mundo do cinema com “Sin City: a cidade do pecado”, filme de estética tão pulsante quanto revolucionária na época e com uma linguagem que estreitava como ninguém havia tateado duas mídias tão distintas como cinema e quadrinhos.

Nove anos depois, o novo “Sin city” falha em reproduzir os efeitos do primeiro filme. “A dama fatal” é ótimo entretenimento para quem é fã, mas não é um filme tão bem adornado e impactante como foi o primeiro. Em parte porque o filme de 2005 se beneficiou do ineditismo, hoje os cenários totalmente digitais são comuns no cinema, e em parte porque os três arcos apresentados nesta sequência (A dama fatal, Uma longa e má noite e A última dança de Nancy) são bem inferiores aos do filme original e ao que se poderia esperar da capacidade de Miller e Rodriguez. Ainda mais com uma janela de nove anos. A janela, por exemplo, serviu para suavizar a sensação de repetição que a estrutura narrativa da fita carrega consigo.

O compasso do tempo, no entanto, depõe mais contra Miller e Rodriguez do que a favor. Se Eva Green domina com sensualidade e presença de espírito a cena no melhor dos arcos, justamente o que batiza o filme, o resto peca pela irregularidade. Josh Brolin substitui Clive Owen, que não voltou para a sequência, como Dwight e o faz de maneira pálida. A sombra de Owen, mesmo depois de todo esse tempo, pesa sobre o ator que não encontra o tom do personagem. Já Joseph Gordon-Levitt, com um papel e um arco criado especialmente para o filme, brilha. Seu carisma é responsável pelos melhores momentos do filme e seu arco é aquele que melhor mimetiza o indomável Frank Miller que revolucionou as HQs nos anos 80.

Se Eva Green está hipersexualizada, Mickey Rourke, de volta como Marv e fazendo figuração de luxo nos três arcos que compõem o filme, e Powers Boothe, como o intragável senador Roark, abusam da canastrice.

O que mais impressiona no novo “Sin City” é a falta de eloquência do cinismo que caracteriza o material original. A violência está lá, a atmosfera noir está lá, as mulheres lindas e perigosas estão lá, mas a pegada cínica e desesperançosa do texto de Miller parece submersa em pretensão. Em alguns momentos, no entanto, temos lampejos do filme que “Sin city: a dama fatal” poderia ter sido. O que é suficiente para que torçamos, a despeito dos prognósticos de momento, para que haja um terceiro filme.

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terça-feira, 30 de setembro de 2014 Críticas, Filmes | 19:55

Mark Ruffalo e Keira Knightley reverenciam poder transformador da música em “Mesmo se nada der certo”

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Fotos: divulgação

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John Carney não se contentou em fazer apenas um filme apaixonante. Depois de impressionar o mundo com “Apenas uma vez”, uma apaixonada declaração de amor à música, Carney pegou as ideias centrais desta pequena joia rodada em sua Irlanda natal e as jogou no cerne de “Mesmo se nada der certo” (2013), sua primeira incursão no cinema americano.

Em um dado momento do filme, Dan (Mark Ruffalo), um produtor musical fracassado, diz para Gretta (Keira Knightley), uma compositora ocasional com o coração partido que ele convence de que pode estourar na música devido a um talento nato e submerso, que a “música transforma banalidades em momentos cheios de significados”; e “Mesmo se nada der certo” é, em toda a sua doçura incontida, uma reverência a esta capacidade única que a música ostenta.

Carney não para na reverência, porém. Seu filme bebe da fonte da “segunda chance” tão cara ao establishment americano e evoca, inclusive nominalmente, um dos últimos filmes a tratar do tema de maneira brilhante no cinema americano, “Jerry Maguire – a grande virada” (1996).

Dan e Gretta estão sós em uma Nova York que lhes parece pouco amistosa enquanto vivem o que pode ser descrito como as piores fases de suas vidas, mas juntos – e por meio da música – eles descobrem uma maneira, não só de dar a volta por cima, mas de redimensionar essa Nova York.

“Mesmo se nada der certo” se chama no original “Begin again” (Começar de novo) e antes estava titulado como “Can a song save your life?” (Pode uma música salvar sua vida?). O título nacional não fica nada a dever a esses dois singelos e poéticos títulos que calçam muito bem o filme.

mesmo se nada der certo (1)

Adam Levine, o vocalista do Maroon 5, vive um decalque dele mesmo como Dave Kohl, o namorado de Gretta que a abandona tão logo vislumbra a vida de rock star. Não é uma posição fácil a que Levine se coloca, já que seu personagem é o que de mais próximo de vilão o filme tem a oferecer e as semelhanças com a carreira do astro são palpáveis, mas em seu debute no cinema, Levine demonstra jogo de cintura e senso crítico ao ajudar a delimitar as distintas percepções da música no metiê.

Keira Knightley, por seu turno, canta e se não convence – a maioria dos novos cantores hoje cantam e não convencem – encanta com sua singeleza e simplicidade. Sua personagem não é uma aspirante a cantora e essa distinção é importante e escapa à grande parte dos críticos ao desempenho da atriz. Ela é convencida, por uma convergência de fatores e circunstâncias, a embarcar nessa jornada de produzir um disco pelas ruas de Nova York com um produtor que tem uma visão.

Ruffalo garante a habitual eficácia na pele do loser simpático, mas são as músicas as verdadeiras estrelas do filme. São elas que jogam com o interesse da plateia e ajudam a contar essa história de amor e desamor na cidade em que tudo acontece. Da reverência à música, passando pelo respeito aos personagens (a tensão sexual entre Gretta e Dan não avança para um envolvimento sexual e isso faz um sentido absurdo no contexto dos personagens) e culminando na experiência que proporciona, “Mesmo se nada der certo” é um filme para se guardar na memória. Não é exatamente memorável, mas é tenro e saboroso como poucos filmes o são, uma maneira resiliste de se tornar inesquecível.

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sábado, 20 de setembro de 2014 Críticas, Filmes | 17:58

“Lucy” é mistureba estilosa de filmes de HQ e sci-fi

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Luc Besson é um cineasta francês, mas seus filmes são americanos no corpo e na alma. “Lucy”, por exemplo, é o único filme plenamente original, ou seja, que não é uma sequência ou uma adaptação de outra mídia, a figurar entre as 20 maiores bilheterias do ano nos cinemas americanos. É uma estatística nada desprezível. Besson está por trás de sucessos como “Busca implacável” (2008) e “Carga explosiva” (2002), que produziu, e é o responsável por clássicos instantâneos dos anos 90 como “O profissional” (1994) e “O quinto elemento” (1997).

Em “Lucy”, Scarlett Johansson vive a personagem título. Uma mulher fútil, aparentemente desprovida de maiores predicados intelectuais e com mau gosto para homens. O filme começa e Lucy se vê em uma enrascada. Trapaceada por um ficante eventual, ela acaba à mercê de uma quadrilha de traficantes internacionais que não falam inglês. Coagida a servir de mula, ela acaba ingerindo grande volume da droga sintética que transportava. Essa droga amplia a capacidade de uso do cérebro humano e, aos poucos, Lucy vai se transformando em uma espécie de super-heroína high tech. Um misto do maior sonho de grandeza de Sheldon Cooper com a viúva negra que Johansson tão bem dá vida nos filmes da Marvel. À medida que o tempo passa, Lucy não só consegue controlar a matéria como calcular o tempo exato de sua morte.

Scarlett Johansson é Lucy: pense duas vezes antes de mexer com ela... (Foto: divulgação)

Scarlett Johansson é Lucy: pense duas vezes antes de mexer com ela…
(Foto: divulgação)

“Lucy” é, portanto, um amálgama de filme de origem de super-herói e de ficção científica. Em 2011, Bradley Cooper estrelou um filme com premissa muito parecida. Em “Sem limites”, ele dá vida a um escritor medíocre que depois de tomar uma droga experimental “liberta” seu cérebro e fica superinteligente. “Lucy” se difere deste filme por se apresentar como um pastiche com muito humor e referências aos filmes de Besson, especialmente os que ele produziu e já mencionados nesta crítica.

O que pesa contra a fita é justamente quando Besson percebe que tem algo muito bom nas mãos e decide deixá-lo melhor. Ele acaba cedendo à ficção científica hardcore, território inóspito para um diretor que se moldou no gênero da ação barroca, e com delírios kubrickianos quase entorna o caldo no ato final do filme.

Scarlett Johansson, no entanto, mantém-se firme como uma personagem imersa na imensidão de si mesma. A atriz convence sem muito esforço e ajuda a transformar Lucy em uma das personagens mais bacanas de 2014 nos cinemas.

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quarta-feira, 17 de setembro de 2014 Críticas, Filmes | 20:07

James Gray faz dolorosa crônica do sonho americano em “Era uma vez em Nova York”

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Com o lançamento de “Era uma vez em Nova York”, James Gray chega à marca de cinco filmes como cineasta. Detalhe: sua carreira já tem 20 anos. Dos cinco filmes, quatro foram rodados em colaboração com o ator Joaquin Phoenix. Esses dados dizem muito sobre o cinema de James Gray e seu novo filme não foge à regra. É uma obra oxigenada por Nova York, irrigada por personagens irresolutos e esmerada no talento sempre onipotente de Phoenix, ator que muda o tom do registro com facilidade sempre surpreendente.

Foto: divulgação

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No filme, em análise está a inflexão do sonho americano. Estamos na Nova York dos anos 20 e imigrantes chegam à cidade em profusão.  É a saga de uma delas, a polonesa Ewa, interpretada com garra e delicadeza pela francesa Marion Cotillard, que Gray acompanha com atenção às miudezas e opção pelo minimalismo.

Ewa é forçada a abandonar sua irmã na triagem à chegada à Nova York por ela estar tuberculosa. Ewa é acolhida por Bruno (Joaquin Phoenix), cafetão que logo impõe à polonesa a realidade da prostituição. Não contava, porém, que fosse se apaixonar por Ewa. Contava menos ainda que seu primo Emil (Jeremy Renner), ao qual tem certas restrições, retornasse a Nova York e despertasse o interesse de Ewa.

O triangulo amoroso, mais do que favorecer uma trama romântica, tem o objetivo de destrinchar as relações escusas entre um país opressor e aqueles que nele adentram com a expectativa da prosperidade. Emil, mágico e ilusionista, representa a faceta gloriosa da América, enquanto Bruno, o lobo convencido de que é um cordeiro, a face opulenta e cínica do país. Emil, no entanto, não deixa de revelar certa mesquinhez enquanto Bruno se encontra mutilado por uma paixão que no que tem de arrebatadora tem de ruinosa; uma vez que a história de amor entre ele e Ewa se pressupõe impossível considerando a natureza da relação entre eles.

James Gray tece, nos limites desse microcosmo, um poderoso painel da América do início do século XX. Não obstante, oferece um filme tecnicamente belíssimo. Da direção de arte portentosa à fotografia com paleta amarelada que ajuda a ambientar uma Nova York sufocante, envelhecida e pouco amistosa.

Um parágrafo precisa ser dedicado ao trabalho de Joaquin Phoenix. Ator de tremendo talento, Phoenix acolhe com resiliência um papel ingrato e o humaniza à medida que o filme avança. Na mesura de atuações com Cotillard, o ator é simultaneamente generoso e controlador. Se permite que Cotillard brilhe, e como ela brilha, não permite que a atuação da francesa ganhe vida além dele. Ele dita a cadência e o tom. No final, rouba o filme para si com uma cena maiúscula em que exprime toda a complexidade da qual “Era uma vez em Nova York” trata.

A robustez da atuação de Phoenix, por fim, dá viço a um filme que se não se configura como obra-prima, fica muito próximo desse patamar.

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014 Críticas, Filmes | 19:00

Espaço Cult: “Direito de amar” aborda superficialidade asfixiante da vida

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Fotos: divulgação

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A estreia na direção do estilista Tom Ford é das coisas mais surpreendentes dos últimos anos no cinema. “Direito de amar ( EUA 2009) é, nas palavras de seu próprio diretor, fruto de uma angústia sua. É senso comum na produção cultural que os grandes artistas criam a partir de aflições e inquietações dessa ordem.

Ford, que também escreveu o roteiro do filme, mostra sensibilidade autoral e técnica impensada para um estreante. Belos planos, a confiança na habilidade dos atores de contar a história, a boa administração da composição técnica (música, fotografia, figurinos e direção de arte) e, mais do que isso, profundo esmero narrativo. Ford soube como contar sua história de maneira minimalista e ritmada.

George Falconer (Colin Firth) é um professor universitário que não consegue se recuperar da morte do parceiro. Acompanhamos Falconer no dia em que decide tirar sua própria vida.  Através de suas lembranças, que pontuam esse dia, percebemos como ele chegou àquela profunda tristeza e o por que se sente desmotivado em divorciar-se dela.

Em “Direito de amar”, Ford não faz nenhum tipo de militância. Embora seja homossexual assumido e aborde um universo homossexual, o diretor não o faz com complexo de minoria. A história de amor, e a relação de George com Jim (Mathew Goodie), são vívidas e inspiradoras. Em uma explanação sobre um livro que George dá a uma audiência de estudantes, Ford permite-se sublinhar a incompreensão que gravita o tema e mesmo assim o faz com elegância. “Direito de amar”, por tudo que representa e evoca, é um filme sobre a superficialidade. Sobre os excessos. Do desejo à falta dele. Muitos criticaram o apuro do filme. A perfeição dos cenários, o corte impecável do terno de George, os cabelos maravilhosamente penteados, o voyeurismo de Ford em algumas cenas, entre outras coisas. A bem da verdade, Ford se excede em um ou outro momento, mas isso não pode ser tomado como algo involuntário ou inerente ao ofício de estilista. Sabe-se vestir bem, mas de que isso adianta? Pergunta Ford. Tanto Charlotte (Julianne Moore, em participação marcante), grande amiga de George, tanto quanto o próprio George e os demais personagens que dão as caras em “Direito de amar” parecem modelos, dada a perfeição da postura e o alinhamento das roupas. Mas são todos desajustados. De uma forma ou de outra.

Direito de amar (2)

A fotografia do filme, nesse sentido, é de uma sutileza extraordinária. Ford e seu fotógrafo, Eduard Grau, acinzentam a imagem sempre que George aparece em um momento de introspecção doída. As cores voltam com brilho quando ele, de alguma forma, sente-se amado. A vida não deixa de ser assim. Maquiamo-nos e enfeitamo-nos todos para disfarçar ou ocultar nossos medos. Medos que geram angústias. E como sair delas? Tom Ford fez esse belo filme sobre como tentar.

Vale destacar também a excepcional trilha sonora de Abel Korzeniowski. Que ajuda a imprimir o tom do relato. Sem essa trilha, Ford não conseguiria alcançar o coração do espectador. Mas o grande trunfo de “Direito de amar”, que assegura o sucesso do filme, é Colin Firth. O ator entrega a performance de sua vida. Uma atuação sem vaidades (em um belo exercício de paradoxo, já que seu personagem é vaidoso) e que reveste o filme de Ford de sentimento. No mundo esterilizado em que não há sentido se você não for capaz de se conectar com outro ser humano, é Firth quem se conecta com a plateia.

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terça-feira, 9 de setembro de 2014 Críticas, Filmes | 20:11

“Amores inversos” achaca com doçura nossa letargia social

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Existem pessoas que irritam pela passividade e existem pessoas que escondem incrível força mobilizadora por trás de uma aparente passividade. É, em parte, dessa diferença que trata “Amores inversos” (2013), doce e eficiente adaptação de um conto de Alice Munro, canadense vencedora do Prêmio Nobel.

No filme de Liza Johsson, Kristen Wiig é Johanna Parry. Nosso primeiro contato com a personagem é um tanto insólito. No último dia de seu emprego como cuidadora de uma velhinha. A flagramos no momento da morte da senhora; é no metodismo com que prepara o corpo da idosa falecida e arruma a casa para sua partida, que a personagem deixa revelar um aspecto curioso de sua personalidade. A princípio parece uma noção distorcida de subserviência, mas mais a frente essa percepção se transmutará por completo.

Orientada por um pastor, Johanna segue para outra cidade e outro ofício. Será a babá de Sabitha (Hailee Steinfield), jovem que perdeu a mãe em um acidente provocado por seu pai, que passou um tempo na prisão e agora regressa a sua vida. Sabitha mora com o avô, papel do sempre eficiente Nick Nolte. Ele se ressente da presença do pai da menina, Ken (Guy Pierce), e é nesse ambiente turvo e estremecido que Johanna precisará se esgueirar. E ela o faz de forma monossilábica, mas sempre generosa. Johanna, aos poucos, vai se tornando familiar, ainda que não da família.

Johanna se prepara para viver uma improvável história de Cinderela.... (Foto: divlugação)

Johanna se prepara para viver uma improvável história de Cinderela….
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Sabitha e sua amiga Edith (Sami Gayle) resolvem pregar uma peça em Johanna e simulam, primeiro por meio de cartas e depois de e-mails, um interesse de Ken pela moça. Essa promessa de história de amor faz com que Johanna decida largar tudo e se entregar por completo a Ken, somente para descobrir que tudo não passava de uma farsa forjada por adolescentes entediadas.

O que acontece a partir daí, algo que precisa ser experimentado pelo expectador, reforça não só o termostato de uma personagem peculiar e apaixonante, como atesta “Amores inversos”, título nacional pouco feliz em sintetizar o minimalismo presente no título original “Hateship, loveship” (algo como “ódio, amor”), como um filme estudioso das relações humanas naquilo que elas têm de mais complexo, contraditório e imprevisível.

Em paralelo a essa incursão por alguns meses da vida de Johanna Parry, o filme oferta em cenas aparentemente desconexas da trama central, um olhar fervoroso sobre a maneira como travamos nossas relações sociais. As tensões, os preconceitos, as mágoas, os interesses e o amor estão lá; sim, o amor ao próximo ainda faz maravilhas, sugere o filme que começa com uma personagem que nos incomoda por parecer excessivamente passiva e que quando a deixamos nos incomodamos por parecermos nós mesmos passivos demais.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014 Críticas, Filmes | 20:17

A liberdade criativa na cozinha, no sexo e no cinema é reverenciada em “Chef”

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Em um dado momento de “Chef” (EUA, 2014), uma versão jazzística da canção “Sexual healing” começa a tocar e logo os personagens em cena se deixam contagiar por ela enquanto pegam a estrada com destino a Nova Orleans, cidade que é uma das raízes deste gênero musical nos EUA.

Esse momento sintetiza um filme colorido, extremamente sensual e que consegue ser tão divertido como crítico ao establishement hollywoodiano.

Jon Favreau, diretor dos dois primeiros “Homem de ferro” (2008 e 2010) e de “Cowboys vs Aliens” (2011), se reencontra com sua vocação indie abandonada lá nos anos 90. Na trama, ele faz Carl Casper, um prestigiado chef de cozinha que surta após receber uma crítica negativa de um influente crítico gastronômico. O surto revela que Casper não priorizava as coisas que o faziam felizes e que havia se tornado refém de seu orgulho. Ele então, em parte incitado pela ex-namorada e mãe de seu filho, que tateia uma reaproximação, e em parte estimulado por um saboroso sanduíche cubano, decide abrir um food truck e homenagear diferentes culinárias com sua criatividade e paixão pela cozinha.

Por de trás desse mote, reside um filme que discute na mesma intensidade a importância de não desistir de seus sonhos, ou de comer (e transar) sem culpa. Essa liberdade, advoga Favreau, com seu filme, só pode ser experimentada quando se renuncia ao orgulho e a ganância que dele emana.

O prazer está nas pequenas coisas, sugere o agradável "Chef"  (Foto: divulgação)

O prazer está nas pequenas coisas, sugere o agradável “Chef”
(Foto: divulgação)

Além de ser o tipo de filme que não se recomenda assistir de estômago vazio, “Chef” revela outra delícia irresistível. A forma sutil, sofisticada e multifacetada com que Favreau se dirige ao seu metiê. Seja pelo dono do restaurante podador (o estúdio de cinema), pelo crítico arbitrário (o crítico de cinema, qual mais?) ou pela felicidade que Casper encontra fazendo o básico (filmes independentes como “Chef”), Favreau defende uma tese muito charmosa no contexto do cinema, da vida ou da gastronomia.

Além desses predicados, “Chef” tem a oferecer um elenco entrosado, relaxado e disposto a garantir o divertimento. Das participações especiais de Dustin Hoffman, Oliver Platt, Robert Downey Jr. e Scarlett Johansson aos coadjuvantes John Leguizamo, Emjay Anthony e Sofia Vergara.

No final, Favreau dá uma piscadela para o público e para crítica. Ele, rechonchudo e sem culpa, belisca Scarlett e Sofia e, no final, faz um carinho na crítica, patrona da arte, na cozinha ou no cinema.

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quarta-feira, 20 de agosto de 2014 Críticas, Filmes | 06:00

Novo “Os mercenários” é pensado para acomodar elenco numeroso

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Sabe quando você resolve dar aquela festa e sai convidando gente a torto e a direito e depois percebe que talvez não tenha estrutura para receber tanta gente? “Os mercenários 3” (EUA 2014) é mais ou menos assim. A franquia de ação mais improvável, e por que não divertida, do cinema atual se estabeleceu em cima do conceito da reunião de astros de ação do cinema de ontem e de hoje.

Será que cabe todo mundo no pôster?

Será que cabe todo mundo no pôster?

No terceiro filme, o inchaço do elenco não só é notável como é algo celebrado pelo marketing do filme. Mas a fita dirigida pelo semidesconhecido Patrick Hughes se esforça para esconder a verdade que o marketing deseja propalar. O filme só existe em virtude dos astros que reúnem. O argumento que dá base à trama de “Os mercenários 3 “, a exemplo do que ocorre com os outros dois filmes, é de Sylvester Stallone. No entanto, diferentemente dos outros filmes, dirigidos por Stallone e Simon West respectivamente, Hughes não consegue fazer do hype uma produção com o mínimo senso de ritmo. Desta maneira, o terceiro filme se resolve, ou pelo menos tenta, como um esforço, muitas vezes truncado, para acomodar o elenco numeroso.

Isso posto, os fãs da franquia não devem se incomodar. “Os mercenários 3” oferece justamente o que promete. Tiros, testosterona e piadas internas para aqueles que conhecem mais da carreira dos envolvidos na franquia. Piadas como o tempo e  a razão da prisão de Wesley Snipes, a saída de Bruce Willis da série ou a latinidade afetuosa de Antonio Banderas dão o tom satírico da produção. Mel Gibson se diverte fazendo o melhor e mais verídico vilão da série. Seu personagem, Stonebanks, tem um passado com Barney Ross, o personagem de Stallone. Ambos fundaram o grupo conhecido como mercenários. Enquanto Ross acabou fazendo contratos com a CIA, Stonebanks foi traficar armas no mercado negro. O reencontro promete ser explosivo e cheio de ressentimento.

Se o fã não deve se decepcionar, o mesmo não se pode dizer do espectador ocasional. “Os mercenários 3”, apesar de contar com mais atrações e apostar na sátira, é o filme mais fraco da série e o menos empolgante visto isoladamente. São indícios comprometedores para os planos de Stallone que são, obviamente, de esticar a vida útil dos mercenários no cinema.

Com o novo filme, Stallone se impõe um dilema. Ou assume a vocação da série para a galhofa ou repensa o foco da franquia. Este terceiro filme mostrou que do jeito que está a série vai beijar a lona bem antes de Rocky Balboa, por mais divertido que seja ver todos esses ases da ação dividindo a tela do cinema.

Stallone e seu grupo encaram um pequeno exército no clímax do filme: qual será o próximo desafio? (Fotos: divulgação)

Stallone e seu grupo encaram um pequeno exército no clímax do filme: qual será o próximo desafio?
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sexta-feira, 15 de agosto de 2014 Críticas, Filmes | 18:53

“The Rover” é a crônica da desesperança anunciada

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O cinema australiano não tem tradição, mas oferta ao mundo um cineasta que se arrisca a instituí-la com ousadia, criatividade e robustez. Depois de impressionar com sua estreia, no intenso, violento e surpreendente “Reino animal”, David Michôd realiza um filme ainda mais complexo, desorientador e criativo. “The rover”, que no Brasil ganhou o péssimo subtítulo “A caçada” é um filme de ritmo espinhoso, mas intelectualmente compensador.

É também um estrato do cinema pensante. Vale-se do universo da ficção científica, da cenografia e cânones do western e do ritmo de filme de arte para ensejar um drama que busca um tipo muito particular de reflexão. A estrutura narrativa é apenas uma das ousadias de Michôd. A desconcertante cena final, que aventa “o sentido absurdo da vida” quando a condução da narrativa encorajava o espectador a abandonar a busca por qualquer sentido mais encorpado na trama, é a cereja do bolo de um filme que merece ser descoberto e apreciado.

foto: divulgação

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Estamos em um futuro pós-apocalíptico, mas ele nada se distingue do presente. O colapso econômico tenta a civilização a ruir e é no deserto australiano que Michôd encena sua crônica da desesperança. “Há dez anos segui minha mulher e vi um homem enfiando os dedos nela. Matei os dois e nada aconteceu comigo”, brada o protagonista vivido com a retidão dramática necessária por Guy Pearce. “Ninguém veio atrás de mim. Esse é o tipo de coisa que não pode passar impune”, explica ele, em dado momento do filme, a um homem que é apenas uma sombra do que outrora foi um oficial da lei.

Quando esse forte diálogo se estabelece, “The Rover” já elabora seu clímax, que não é em termos rítmicos nada distinto do que se viu até ali. A câmera pouco intrusiva de Michôd e sua narrativa contemplativa acompanham um homem (Pearce) que tem seu carro roubado por três homens. Ele parte no encalço deles, eventualmente cruza com o irmão abandonado de um deles, papel de Robert Pattinson, e acaba criando uma inesperada parceria.

Sutilmente Michôd vai dando cor a esse futuro borrado e é na divergência entre os personagens de Pearce e Pattinson, que a grandeza da obra se articula. Enquanto um parece resignado, mas persegue seu objetivo (recuperar o carro) com gana incompatível com suas circunstâncias, o outro anseia por vínculo emocional em uma época em que a humanidade parece ter renunciado a ele de maneira definitiva.

“The Rover” causa impacto. Potencializado por sua engenharia narrativa, o filme nos cerceia as convicções com astúcia e dissabor. Uma abordagem que dá esperança ao cinema australiano que Michôd com toda a certeza irá influenciar.

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