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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017 Críticas, Filmes | 07:30

“Assim que Abro Meus Olhos” flagra gênese da primavera árabe

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Filme que foi escolhido o representante da Tunísia para disputar vaga no Oscar 2017 entre as produções estrangeiras, já está em cartaz nos cinemas de São Paulo

Cena do filme Assim que Abro meus Olhos, que já está em cartaz no Brasil

Cena do filme Assim que Abro meus Olhos, que já está em cartaz no Brasil

O cinema tunisiano não é tão acessível para o público brasileiro, justamente por isso quando um filme como “Assim que Abro Meus Olhos” estreia no Brasil, cortesia da distribuidora independente Supo Mungan, é preciso, com o perdão do trocadilho, abrir os olhos. Dirigido por Leyla Bouzid, a produção desperta a curiosidade pelo cinema daquele país com uma força dramática insuspeita.

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Farah, vivida pela incrível Baya Medhaffar, tem 18 anos e se beneficia do fato de ser filha de pais liberais. Esse liberalismo carece de contexto. Estamos na Túnis – capital tunisiana – de 2010, pré-primavera árabe, convém lembrar que a Tunísia precipitou todo o movimento revolucionário que hoje já parece adormecido. Farah gosta de vestir roupas descoladas e tem uma banda que entoa músicas de protesto. Além de estar amorosamente envolvida com o baixista Borhène (Montassar Ayari).  “Assim que Abro Meus Olhos”, portanto, flagra o momento em que a juventude tunisiana dava os primeiros tons da revolução que seria deflagrada logo adiante.

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Cena do filme Assim que Abro Meus Olhos

Cena do filme Assim que Abro Meus Olhos

A beleza do filme de Bouzid reside no fato de que é tanto um retrato desse momento de convulsão social, como um libelo feminista em uma sociedade que ainda tem o machismo fortemente enraizado. Farah é um espírito livre, que fascina os homens, mas é também uma moça ingênua. Essa dualidade é muito bem adensada pelo registro da cineasta que sabe que sua personagem não escaparia ao terror do estado das coisas, não importando sua coragem ou reminiscências familiares.

A relação de Farah com seus pais é outro ponto forte do filme. Não há maniqueísmo aqui. Apesar de progressistas, seus pais não agem com ela da maneira que ela gostaria que agisse. Um problema tão cotidiano na Tunísia, como na Alemanha ou no Brasil. Bouzid consegue convergir conflitos e dilemas essencialmente tunisianos, ou do Oriente Médio em um olhar mais genérico, e universais.

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A inquietude da juventude, condensada pela arte e pela tecnologia, ganha relevo no registro da cineasta que consegue capturar o zeitgeist com desprendimento e sem didatismo. Essa leveza narrativa, no entanto, não afasta a rigidez do universo que “Assim que Abro Meus Olhos” aborda. Essa destreza qualifica o filme como um dos destaques dos cinemas brasileiros neste começo de 2017.

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sábado, 31 de dezembro de 2016 Críticas, Filmes | 07:30

“Sing Street: Música e Sonho” propõe olhar doce sobre dificuldades do amadurecimento

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Filme que concorre ao Globo de Ouro de melhor comédia ou musical já está disponível na Netflix

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Há cineastas especializados em fazer pequenos grandes filmes. O irlandês John Carney, que se aventurou por Hollywood com “Mesmo se Nada Der Certo”, é um desses cineastas. “Sing Street: Música e Sonho”, que surpreendeu muita gente ao aparecer entre os cinco indicados à categoria de melhor filme em comédia ou musical no Globo de Ouro 2017, é mais uma prova indiscutível de sua capacidade para contar histórias profundamente simples, mas de ressonância humana superlativa.

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“Sing Street” atesta, ainda, o talento singular do irlandês para fundir música e cinema de maneira incrivelmente sedutora e narrativamente eficiente.

Estamos na Dublin dos anos 80, Conor (Ferdia Walsh-Peelo, radiante em sua estreia no cinema) precisa se ajustar a nova realidade econômica da família. A mudança para uma escola católica é apenas um de seus problemas. A iminente separação dos pais e o bullying que sofre na nova escola são outros. Ele se refugia no irmão mais velho, Bredan (Jack Reynor), para conselhos sobre música e garotas.

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SING STREETInstantaneamente apaixonado por uma garota mais velha que ocasionalmente fuma no portão de sua escola, Conor a convida para estrelar o clipe de sua banda. Detalhe: não existe banda nenhuma. Ele então se arranja com um grupo de losers para formar a Sing Street. Aos poucos a banda vai ganhando forma e coração e Conor se envolvendo mais com Raphina (Lucy Boynton), que também tem seus sonhos para cultivar.

Personagens iluminados vêm muito fácil à pena de Carney, mas aqui o diretor-roteirista conta com os préstimos de Lucy Boynton que dá a sua Raphina a qualidade de musa inspiradora imaginada por Carney e que nós enquanto público podemos perceber tão vividamente quanto Conor. Brendan, que ostenta perolas como “mulher nenhuma é capaz de amar de verdade um homem que ouve Phill Collins”, é um achado como um jovem que renunciou seus sonhos e experimenta certa amargura, mas se recompõe sempre que o irmão caçula precisa de orientação.

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Como em todo filme do irlandês, a música ocupa um espaço todo especial. É especialmente agradável ver o processo criativo de Conor e seus amigos e as influências salpicadas de A-Ha a The Cure conforme o estado de espírito do protagonista se metamorfoseia.

As letras das músicas criadas especialmente para o filme, como The Riddle of the Model, Drive it Like You Stole It, Girls e Go Now tornam o sentido, mas também o sentimento de “Sing Street” muito mais amplo e ressonante. Um filme fofo, sim, mas também sintomático de nossa necessidade de sonhar.

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016 Críticas, Filmes | 12:32

Com clímax poderoso, “A Chegada” é elogio das imperfeições da existência

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Há filmes que não são exatamente o que parecem ser. Há casos em que isso é ruim e há casos em que isso é muito bom. “A Chegada” (Arrival, EUA 2016) se ajusta a esta última classificação. O novo filme de Denis Villeneuve (“Os suspeitos”, “Sicario: Terra de Ninguém”) é formalmente uma ficção científica, mas se resolve como um filme sobre o poder do diálogo e a importância da comunicação para a resolução de todo e qualquer conflito.

Cena do filme "A Chegada", uma das melhores produções de 2016

Cena do filme “A Chegada”, uma das melhores produções de 2016

Em ordem de construir dramaticamente esse argumento, Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer imaginam uma situação relativamente corriqueira no cenário da ficção científica. Alienígenas chegam ao planeta Terra. Naves gigantes posam em oito pontos distantes do mundo, sendo Estados Unidos, China, Rússia e Paquistão quatro deles. Não é mero acaso que o filme se dedique a acompanhar o desenrolar das ações dos governos destes quatro países. Toda a geopolítica mundial parece se concentrar nos interesses dessas quatro nações.

O exército americano, na figura do coronel Weber (Forest Whitaker) convoca a linguista Louise Banks (Amy Adams) para facilitar a comunicação com os alienígenas e tentar entender a razão da chegada deles à Terra. Jeremy Renner vive Ian Donnelly, um físico que integra essa força-tarefa montada pelo governo americano que, obviamente, conta com a CIA e outras agências de inteligência.

Louise e Ian estabelecem progressos na tentativa de se comunicar com os alienígenas, mas o tempo não é amigo, já que os líderes mundiais pressionados pelas rivalidades, se movimentam para reagir ao que consideram uma invasão à soberania da humanidade.

Amy Adams brilha em A Chegada Fotos: divulgação

Amy Adams brilha em A Chegada
Fotos: divulgação

A escalada da tensão é bem abordada por Villeneuve, mas “A Chagada” não se pretende um suspense. O filme se apoia na excelente atuação de Amy Adams para se descobrir um drama. Intuitiva e generosa, mas estranhamente desgostosa da vida, Louise é uma personagem fascinante. Seu grande conflito, que o filme só revela por completo em seu ato final – embora espalhe pistas nos dois primeiros – ressignifica o sentido do filme, mas sem prejuízo ao seu valor como boa ficção científica.

“A Chegada” representa a primeira incursão do cineasta canadense no gênero e tem sua segunda protagonista feminina consecutiva. Desnecessário dizer que Villeneuve já é dos diretores mais interessantes da atualidade, mas o refinamento narrativo de “A Chegada”, aliado a sua exuberância visual, clamam por redundância.

Além de atentar para o valor da comunicação e de como a negligenciamos, tanto no âmbito das nações como no nível pessoal, o filme de Villeneuve elabora um singelo libelo à vida. À beleza oculta da ignorância que ostentamos em nossa relação com o tempo.  Seja em sua conceituação física ou em seu preposto emocional.

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 16:06

“Rogue One” reequilibra a força de “Star Wars” no cinema com imaginação e ousadia

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Filme que expande o universo “Star Wars” no cinema é um deleite para os fãs e uma realização corajosa que engrandece a safra de blockbusters de 2016

Cena do filme Rogue One, que estreia nesta quinta-feira (15) nos cinemas brasileiros Foto: divulgação

Cena do filme Rogue One, que estreia nesta quinta-feira (15) nos cinemas brasileiros
Foto: divulgação

“Rogue One – Uma História Star Wars” é bom. Muito bom. A questão que se coloca agora é como vamos lidar com isso? Público e crítica estavam desconfiados. Até tinham razão para isso. A Disney, que comprara Pixar e Marvel e lhes concedera liberdade criativa, prometera fazer o mesmo com “Star Wars”, quando adquirira a LucasFilm. Mas aqui o buraco era mais embaixo. A franquia estava encerrada e, não somente seria retomada, como o plano consistia em expandir o universo criado por George Lucas.

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O episódio VII chegou no ano passado arrasando quarteirões. O filme de J.J Abrams, no entanto, navegava em águas calmas. Havia grande ansiedade, e consequentemente considerável cota de condescendência à espera de “O Despertar da Força”. O filme é bom, mas não carrega um traço sequer da ousadia que sobeja em “Rogue One”. Espelhando o clássico “Uma Nova Esperança”, o filme falava ao coração dos fãs saudosos no mesmo compasso que pregava para todos aqueles desejosos de conversão.

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Rogue posterCom o “Rogue One” a coisa é diferente. Pela primeira vez na série estamos mesmo em uma guerra. Gareth Edwards, que fez um filme do Godzilla todo ele a partir do ponto de vista das pessoas afetadas pela besta gigante, grava cenas de guerrilha urbana na lua de Jedha, flagra espiões em ação, conspirações em trâmite e observa as maquinações inerentes aos diferentes lados de um conflito armado. A guerra que toma conta da galáxia pode ser apalpada em um filme que busca a atmosfera de “Uma Nova Esperança”, até pela ligação umbilical que tem com o episódio IV, mas que não se faz refém dela.

Visualmente exuberante, como todo “Star Wars” deve ser, essa primeira antologia se beneficia enormemente do roteiro esperto e enxuto de Tony Gilroy (“O Advogado do Diabo”) e Chris Weitz (“American Pie”) , que cria em cima de uma história conhecida e dá espaço para personagens carismáticos – como o robô K-2SO, o excelente alívio cômico da fita – brilharem. A coragem e a imaginação, no entanto, não resumem a eficácia narrativa dessa primeira antologia do universo Star Wars. O filme de Edwards faz muitas deferências aos fãs e revisita, a sua maneira, temas frequentes como a relação entre pais e filhos. É interessante observar como Jyn (Felicity Jones) vive uma orfandade mesmo tendo dois pais. Mais interessante é perceber como isso impacta na sua visão de “não ter o luxo de ter opiniões políticas”. É “Star Wars” sendo sutil no desenho dos personagens.

Peter Crushing, ninguém menos que Grand Moff Tarkin, responsável pela Estrela da Morte no filme de 1977, morto em 1994, “ressuscita” diante de nossos olhos em um trabalho de CGI que desafia os limites da lógica e imaginação. É “Star Wars” derrubando o nosso queixo.

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Darth Vader, talvez o mais icônico entre todos os vilões da cultura pop, também surge para enriquecer o filme. Ele está aqui apenas para deixar a experiência mais potente, intensa, transcendental… É “Star Wars” olhando para o futuro sem esquecer-se de seu passado.

Darth Vader é uma das boas surpresas de Rogue One Foto: divulgação

Darth Vader é uma das boas surpresas de Rogue One
Foto: divulgação

O que torna “Rogue One” um blockbuster especial tanto no contexto de “Star Wars”, mas também na temporada de 2016, é sua maturidade narrativa, seu compromisso com a verossimilhança, mesmo que estejamos falando de uma guerra espacial. Apesar do desfecho compreensível e justificadamente trágico, o filme reequilibra a força, da série, e dos blockbusters. É “Star Wars” mostrando como se faz!

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domingo, 27 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 18:48

“O Nascimento de uma Nação” esconde sua irregularidade na importância do tema

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Para além da óbvia referência ao clássico de 1915 de D.W Griffith, ao qual desautoriza e problematiza com suor, lágrimas e sangue, “O Nascimento de uma Nação” (2016) é um filme de muita propriedade. Tanto de ordem intelectual como emocional. Se essa combinação o eleva enquanto obra artística, o fragiliza enquanto cinema.

Cena do filme "O Nascimento de uma Nação"

Cena do filme “O Nascimento de uma Nação”

Nate Parker, aqui em sua estreia como diretor, realiza um filme forte, pungente, ocasionalmente atordoante, mas enseja em falhas que, ainda que compreensíveis para um marinheiro de primeira viagem, diminuem o impacto de seu filme. Se os dois primeiros atos da produção são crus, ruidosos e incômodos, o derradeiro é excessivamente melodramático. Um entroncamento de ritmo deverás comprometedor.

Erguido como contraparte do filme de D.W Griffith, “O Nascimento de uma Nação” é um filme de um só ponto de vista. O que é plenamente defensável. Parker evita, na maior parte do tempo, o maniqueísmo com os brancos e o paternalismo com os negros. Um acerto que nem sempre cineastas negros que se debruçam sobre o tortuoso passado da América incorrem. O Sam de Armie Hammer, senhor do escravo Nat Turner (Parker), é desenhado como um homem fraco, incapaz de se posicionar e que se contenta sendo um senhor “bondoso” para seus escravos. Com a fazenda a perigo e tendo em Turner um escravo pastor, pois foi ensinado muitas passagens da bíblia, ele passa a viajar com Turner pela região para que ele acalente a espiral revoltosa que cresce em escravos na Virgínia.

Aí surge a grande sutileza do filme. Turner, obviamente se flagra desconfortável de pregar abnegação para escravos que sofrem mais do que ele. O que ocorre é que nas pregações pela Virgínia, ele vai sendo tomado por um impulso, que crê divino, de redimir seus irmãos. Ele não aceita mais ser um falso profeta e passa a olhar com outros olhos para a tal revolta dos escravos. Essa reengenharia interna a qual o personagem se submete, mas também é submetido é o grande acerto de “O Nascimento de uma Nação”, mas jamais emerge como foco narrativo do filme de Parker, que prefere as cores borradas de uma revolução que não deu certo, mas que logrou certo legado – que o cineasta se esforça para dar mais relevo do que de fato existe.

Para todos os efeitos, “O Nascimento de uma Nação” é uma produção encapsulada pelo tema respeitável, desenvolvida com uma gramática cinematográfica até certo ponto conservadora, mas que se fia na importância temática e na tabelinha proposta com o filme de Griffith para transcender.  O cálculo geraria grandes dividendos não fosse a vida do cineasta – e uma acusação de estupro – a minar a carreira do filme.

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sábado, 26 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 17:15

“Animais Fantásticos e Onde Habitam” expande universo de Harry Potter com graciosidade

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Para quem é fã de Harry Potter e do magnífico universo criado por J.K Rowling é impossível não se embasbacar com “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, regresso a este universo cinco anos após o fim da franquia nos cinemas. O livro, lançado em 2001, era um mimo de Rowling para os fãs, já que a obra é citada em “A Pedra Filosofal” e Newt Scamander é ensinado em Hogwarts.

Eddie Redmayne em cena de "Animais Fantásticos e Onde Habitam"

Eddie Redmayne em cena de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”

Orçado em U$ 200 milhões e com praticamente toda a equipe dos últimos exemplares de Harry Potter no cinema, inclusive o diretor David Yates, “Animais Fantásticos” é um deslumbre visual do início ao fim. É, também, um exercício interessante para quem gosta desse universo, já que não se trata de uma adaptação convencional. Estreia de Rowling como roteirista, esse primeiro de um total de cinco filmes, se incumbe de apresentar a comunidade mágica dos EUA. É na Nova York de 1926 que Newt (vivido com o misto de coração e caretas esperado de Eddie Redmayne) desembarca. Ele acaba de dar uma volta ao mundo para catalogar e recolher criaturas fantásticas que o mundo mágico ainda não compreende por completo. Quem dirá os trouxas, ou não-mágicos como preferem os americanos.

Esse choque entre as tradições dos mundos bruxo americano e inglês, representado pelo introspectivo Newt, preenche o primeiro ato do filme. Rowling aproveita o ensejo para fazer sutis referências ao passado segregacionista da América. Uma bem-vinda metáfora. Aliás, à medida que a produção avança, elas se acumulam. Assim como as referências à franquia original, da qual ainda que seja um derivado, “Animais Fantásticos” precede em termos cronológicos.

Há, contudo, imperfeições. A necessidade de conceber um vilão para aferir dinamismo ao filme, e sustância à pretensa nova franquia gera certo desequilíbrio nesse primeiro “Animais Fantásticos”. Todo o arco dos Segundos Salemianos, cuja sombria personagem de Samantha Morton é a principal face, é muito mal desenvolvido. Colin Farrell não consegue, ou não faz questão de esconder a vilania de seu personagem, Graves, que só deveria se revelar no terceiro ato. As cenas do Congresso Mágico são demasiadamente tímidas e o clímax da fita mais lembra “Os Vingadores” do que qualquer “Harry Potter”. Os acertos, porém, são mais significativos. As criaturas mágicas são realmente de encher os olhos e atiçar a imaginação. A química do quarteto principal funciona às mil maravilhas, com destaque para a embrionária história de amor entre o trouxa Jacob Kowaski (Dan Fogler, a melhor coisa do filme) e Queenie (Alison Sudol) e Eddie Redmayne acerta o compasso na caracterização de Newt. Não soa nada forçoso os paralelos entre ele e Harry Potter.

“Animais Fantásticos e Onde Habitam” não traz o frescor do primeiro Harry Potter e nem seria possível. Tampouco é uma produção à prova de críticas, mas traz consigo uma magia que une magos e trouxas: a nostalgia. E o cinema já provou reiteradamente que esta costuma ser infalível.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 15:59

Verhoeven revela desejos ocultos com sofisticação e assombro no sensacional “Elle”

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Com atuação inspirada da francesa Isabelle Huppert, cineasta holandês desconstrói fachadas sociais para mostrar os labirintos mais sórdidos da mente humana em um dos melhores filmes do ano

Cena do filme "Elle", que representa a França na briga pelo Oscar de filme estrangeiro em 2017

Cena do filme “Elle”, que representa a França na briga pelo Oscar de filme estrangeiro em 2017

E lá se de vão dez anos desde o lançamento de “A Espiã” (2006), último Verhoeven a ganhar os cinemas. O cineasta holandês volta lascivo, imponente, aterrador, cínico e absoluto em “Elle”, que integrou a mostra competitiva da 69ª edição do Festival de Cannes e é o representante francês na briga por uma vaga entre os finalistas ao Oscar de produção estrangeira. Trata-se de um filme provocador, imprevisível e incandescente.

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Aos 63 anos, Isabelle Huppert comprova mais uma vez porque é uma das maiores intérpretes que o cinema já conheceu ao galvanizar uma mulher torneada por um grande trauma e que a partir de um caso de violência sexual, que bem poderia ser definido como outro trauma, parte em uma obscura e nauseante jornada de autodescoberta. Em “Elle”, Huppert é Michèle, a definição de uma mulher fria. O pragmatismo que apresenta nas reuniões com seus comandados – em que sempre pede mais violência, sexo e violência com sexo nos games que produz – se estende ao convívio com o filho (Jonas Bloquet), que tenta manter um casamento implodido com uma mulher que o trai escandalosamente; o ex-marido (Charles Berling), ainda dependente emocional dela; e a mãe (Judith Magre), que sustenta michês.

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Verhoeven orienta Huppert no set de "Elle"

Verhoeven orienta Huppert no set de “Elle”

O filme começa com esse estupro. Michèle reage a ele com indiferença. Aos poucos, porém, vai sendo tomada por uma grande curiosidade a respeito da identidade de seu agressor.  Não vemos um drama aqui, mas um suspense de alta voltagem erótica com pitadas de humor negro. Sem qualquer compromisso com a correção política, Verhoeven e o roteirista David Birke observam as normas sociais de um ponto de vista incomum que, se tivéssemos que rotular, o denominaríamos de “psicopata”. Mas a realização resiste a resolver a personagem e nos priva dessa imposição conscienciosa enquanto público de qualificar suas atitudes.

É natural cruzar com acusações de que “Elle” é um produto misógino e fetichista, mas essas classificações apressadas e superficiais só atestam a ignorância de quem as professa. “Elle” é cinema robusto, de camadas, construído com muita coragem e sutileza. Verhoeven não se refugia em Freud propriamente dito, mas reveste seu cinema de profunda ressonância psicoanalítica na elaboração que faz de Michèle – que se agarra à história de violência de seu passado como se dela tirasse força para sobreviver. Nos seus termos.

Esse processo de autoconhecimento, no entanto, vai ganhando ares sinistros conforme vai se tornando visível para o público. Mas Michèle não é a única personagem com desejos e fetiches que eventualmente escapam a nossa compreensão. Todos os personagens em cena alimentam algum desejo que podemos tomar como sórdido. A amiga e sócia de Michèle, Anne, e seu marido, Robert, e a maneira como gravitam em torno da personagem de Huppert substanciam uma análise à parte. Mas que não deve ser desenvolvida aqui para que não seja comprometida a experiência fílmica.

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“Elle” é cinema de autor na sua mais musculosa espessura. Verhoeven, um diretor tão crítico dos arranjos sociais e da hipocrisia inerentes a eles, se alia a uma atriz sem quaisquer amarras e dona de uma coragem artística revigorante para fazer um dos filmes mais pulsantes e instigantes dos últimos tempos.  Com o queixo no chão, só resta ao público aplaudir um cinema tão senhor de seu significado.

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domingo, 20 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 10:39

“Indignação” é adaptação fiel da corajosa e intransigente obra de Philip Roth

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Um dos mais aclamados, controvertidos e complexos autores americanos, Philip Roth não é fácil de ser adaptado. Ainda assim, é tão concorrido que em 2016 são lançados dois filmes baseados em romances de sua autoria. “Pastoral Americana” marca a estreia do ator Ewan McGregor como diretor e este “Indignação” é o ponto de partida como cineasta do produtor e roteirista James Schamus. Colaborador habitual de Ang Lee, Schamus se serviu de uma das últimas obras de Roth antes da aposentadoria. “Indignação” é um complexo estudo do ferrolho que era a sociedade americana dos anos 50 que vetava toda e qualquer oxigenação aos costumes sociais. Claro, isso temperado com a habitual acidez do registro de Roth com a inflexão à religião – com especial atenção à situação dos judeus no pós- guerra – e à masculinidade.

Cena do filme "indignação"

Cena do filme “indignação”

“Indignação”, o filme, é mais sensível do que o livro de Roth, mas não menos demolidor. Essa sofisticação, se é que podemos qualificar de tal modo, se deve ao refinamento de Schamus, responsável pelos textos de filmes tão incomuns como “Banquete de Casamento” (1993), “Tempestade de Gelo” (1997) e “Desejo e Perigo” (2007); mas também à entrega do ator Logan Lerman, aprofundando-se no registro da verve experimentada em “As Vantagens de ser Invisível”, mas exercitando outras tonalidades.

Estamos em 1951. Marcus (Lerman), devido às boas notas, consegue uma bolsa para cursar uma faculdade em Ohio. A novidade vem em boa hora. A guerra na Coreia ceifa vidas de jovens, muitos de seu círculo social, e a oportunidade evita seu alistamento. O ciclo de mudanças interfere no convívio familiar e afeta a relação do introspectivo Marcus com seu pai. Na faculdade, Marcus resiste às típicas interações – como ingressar em uma fraternidade -, mas o que mais lhe irrita é a obrigação de comparecer semanalmente à capela da instituição. Judeu de nascença, Marcus se declara ateu e francamente contrariado com as imposições da agenda religiosa na instituição. A cena em que debate a respeito com o reitor interpretado por Tracy Letts já é um dos grandes momentos do cinema em 2016.

Em meio a tudo isso, ele se deixa fascinar por Olivia Hutton, vivida pela fascinante Sarah Gadon. A menina parece ter um passado difícil e seu jeito de ser desafia convenções que Marcus ainda não parece compreender inteiramente.

“Indignação” não é um filme de elevadas notas dramáticas, mas a simplicidade aparente dos conflitos propostos revela uma América de contradições enrolada em muitos e enraizados preconceitos. Schamus se escora em Roth para radiografar com certo pessimismo o estado das coisas. Não à toa, em um determinado momento uma personagem cita a famosa frase de Benjamin Franklin: “Democracia são dois lobos e uma ovelha decidindo o que  comer no almoço”.

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sábado, 12 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 16:50

“Snowden” assume ponto de vista do protagonista e vende a terrível verdade de nosso tempo

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Cena do filme "Snowden: Herói ou Traidor"

Cena do filme “Snowden: Herói ou Traidor”

É um tanto desorientador que “Snowden: Herói ou Traidor” chegue aos cinemas brasileiros na esteira da vitória surpreendente de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Afinal, o agora presidente eleito ostenta uma retórica que vai de encontro a tudo aquilo que o filme de Oliver Stone defende enquanto obra artística. Essa inesperada oposição dá uma nova perspectiva à audiência e transforma a experiência de se assistir “Snowden” em algo muito mais exasperador.

O filme, originalmente previsto para 2015, se ocupa da trajetória de Edward Snowden nos serviços de inteligência dos Estados Unidos. Mas não só. Stone, com o préstimo do coroteirista Kieran Fitzgerald, elabora um perfil quase jornalístico do ex-agente da CIA e da NSA. Uma característica herdada muito provavelmente dos livros de não ficção que amparam o roteiro.

Trata-se de um filme sóbrio, o que em matéria de Oliver Stone já é um trunfo. O que não quer dizer que haja um esforço em prol de isenção. E nem deveria. Aqui assume-se o ponto de vista de Edward Snowden, mas há vícios de linguagem e narrativa que poderiam ser evitados. A opção por dar voz ao próprio Snowden no desfecho do filme, além de desnecessária, compromete a própria construção dramática da produção. Mais: Há um momento em particular que a justificativa de Snowden é pobre. Depois de ter deixado a CIA, ele alega ter retornado a trabalhar em uma agência de inteligência americana, no caso a NSA (Agência de Segurança Nacional), porque imaginava que as coisas melhorariam e tinha fé em Obama. Trata-se de uma visão ingênua para quem já testemunhara o que testemunhara. Daí, apesar da breguice, o subtítulo nacional que brinca com as noções de heroísmo e traição.  É algo que, talvez, Oliver Stone não tenha se dado conta e ao colocar Snowden em seu filme acaba por sublinhar.

De todo modo, há aspectos muito interessantes em “Snowden”. O primeiro deles, sem dúvida nenhuma, é vislumbrar a crescente do dilema moral em que o personagem se flagra. Algo que a performance minimalista de Joseph Gordon-Levitt aborda muito bem. O ator abraça o desconforto irascível de quem se vê forçado a mudar sua visão de mundo e do País que ama e hesitar sobre o que fazer a respeito. Snowden é um patriota e por sê-lo, tanto sua atitude como as acusações que pairam sobre ele ganham mais relevo e isso é algo que Oliver Stone tem plena consciência e explora bastante ao longo das 2h15min de projeção.

O romance com Lindsay (Shailene Woodley) vive às margens da vida de agente de Snowden

O romance com Lindsay (Shailene Woodley) vive às margens da vida de agente de Snowden

Outro aspecto interessante é observar o hibridismo entre posicionamento político e paranoia nos tempos atuais. Nesse sentido, “Snowden” se aproxima de um filme de terror ao emaranhar as percepções do público e fazer com que temamos uma câmera de celular tanto quanto dormir de luz apagada depois de um filme de terror.

Ao fazer mais um filme contra o sistema, outros foram o duo “Wall Sreet”, “Nixon”, “JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar”, “Nascido em 4 de Julho” e “Platoon”, Oliver Stone demonstra mais compostura discursiva e permanece ostensivo na gramática cinematográfica. “Snowden” é cinemão, com seus prós e contras, no melhor sentido do termo.

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quinta-feira, 10 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 21:00

Marvel arrisca pouco, mas acerta em cheio mais uma vez com “Dr.Estranho”

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Benedict Cumberbatch em cena de "Dr. Estranho" (Foto: divulgação)

Benedict Cumberbatch em cena de “Dr. Estranho”
(Foto: divulgação)

Quando a Marvel anunciou que lançaria um filme do Dr. Estranho, um personagem da quara ou quinta escala da editora de HQs e que Scott Derrickson (“O Exorcismo de Emily Rose”) seria o responsável pela direção, duas certezas sobressaltaram. A primeira era de que o agora estúdio integrante do conglomerado gigante da Disney havia alcançado um patamar de segurança que permitia a introdução de personagens bem menores (quando tudo começou no cinema o próprio Homem de Ferro era de segunda linha). A segunda certeza é de que a Marvel, em plena terceira fase do seu universo cinematográfico, estava preparada para fazer diferente.

Com “Dr. Estranho” nos cinemas e registrando bilheteria estrondosa, outras duas certezas emergem.  A Marvel não está preparada para fazer cinema de autor e não está nem um pouco preocupada com essa demanda que gravita a cinefilia. Estrelado por Benedict Cumberbatch, o homem que além de ser Sherlock Holmes, já figura na cena geek como integrante dos universos de Star Trek, Tolkien e agora debuta na Marvel, “Dr. Estranho” é o filme mais diferente já produzido pelo estúdio, mas ainda assim plenamente reconhecível e permeado da indefectível – e até o momento infalível – fórmula Marvel.

Quem prestar atenção vai perceber duas estruturas narrativas se bifurcando em “Dr. Estranho”. Uma, mas dramática e densa, que abraça questões profundas e conflituosas como a morte e a metafísica. Outra, mais boêmia e simplista que por vezes faz com que Stephen Strange (Cumberbatch) soe como Tony Stark (Robert Downey Jr.).

Cena do filme "Dr. Estranho"

Cena do filme “Dr. Estranho”

A insistência da Marvel em prover um filme de estúdio não chega a prejudicar seu mais recente filme, mas as piadinhas em meio a momentos esculpidos pela tensão, como no primeiro confronto entre Strange e Kaecilius (Mads Mikkelsen, desperdiçado), despressurizam um filme que poderia ser muito mais eloquente e até mesmo memorável. A Marvel, no entanto, contenta-se com um entretenimento sagaz e satisfatório. Uma escolha legítima, mas tanto personagem como público mereciam mais.

Isso posto, “Dr. Estranho” é um deleite visual do início ao fim. Potencializado pelo 3D – e Scott Derrickson certamente fará James Cameron feliz pelo modo como afere valor narrativo à ferramenta – , o aspecto visual do filme encanta e torna todo o papo filosófico e a psicodelia inerente ao universo do personagem muito mais palatáveis ao espectador pouco familiarizado com tudo aquilo.

Escolha criticada, já que o personagem era oriental, Tilda Swinton convence (e ela sempre convence não é mesmo?) como a Anciã. É, no entanto, Benedict Cumberbatch o dono do show. O ator rapidamente nos convence de que nasceu para viver Stephen Strange. Um dom que o astro britânico ostenta como poucos atores de sua geração. Novamente pinçando a comparação com Downey Jr., desde que vimos Tony Stark na tela grande um ator não vestia tão bem um personagem no cinema.

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