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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016 Diretores | 12:07

Os cinco melhores diretores de 2016

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Foi um ano de grandes filmes. Já havia um tempo que isso não acontecia. Não à toa, os cinco diretores do ano no crivo do Cineclube defendem trabalhos polarizantes e estão longe da unanimidade, ainda que um deles tenha vencido o Oscar neste ano. O terror, de certa maneira, é um elemento presente nos cinco filmes que são, ainda, experiências estéticas do mais alto relevo.

Robert Eggers (“A Bruxa”)

Robert Eggers

Vencedor do prêmio de direção em Sundance, Eggers faz de “A Bruxa” um filme de terror diferente. Angustiante e com uma atmosfera tão sombria quanto incômoda, a produção é visualmente exuberante, apesar do orçamento apertado. Eggers aborda o medo por uma perspectiva totalmente incomum na linguagem audiovisual atual e merece a menção entre os cinco melhores trabalhos de direção do ano.

 

Alejandro Gonzales Iñarritu (“O Regresso”)

O Regresso

O virtuosismo do mexicano em “O Regresso”, filme que tem plano-sequência, fotografia em luz natural e outras particularidades que mostram que antes de qualquer coisa um filme de Iñarritu é um filme de Iñarritu, valeram ao cineasta um segundo Oscar de direção de maneira consecutiva. Seu trabalho aqui é ostensivo, o que não quer dizer que não seja nada menos do que arrebatador.

 

Nicolas Winding Refn (“Demônio de Neon”)

Nicolas Winding-Refn

Não há cineasta mais esteta no cinema atual do que o dinamarquês e não houve filme mais provocador em 2016 do que “Demônio de Neon”, um conto entre o sinistro e o bizarro sobre o império da imagem na nossa sociedade. Entre analogias faladas e cenas surrealistas, “Demônio de Neon” é um filme pincelado a unha por um Refn senhor de todas as coisas.

 

Tom Ford (“Animais Noturnos”)

Tom Ford

Corajoso, Tom Ford decidiu fazer de seu segundo filme algo totalmente diferente do primeiro – ainda que aqui e ali se possa pescar algumas convergências. Com uma narrativa fragmentada e personagens que se apresentam como versões de si, Ford demonstra absoluto controle de cena, dos atores e da narrativa. Seu filme é um estouro de sensações e sua direção, calculadamente perfeccionista.

 

Paul Verhoeven (“Elle”)

Paul Verhoeven

O cinema subversivo do holandês faz falta. Prova disso é o estupor que é “Elle”, um filme tão sobrenatural quanto sua premissa – uma mulher vítima de violência sexual que se vê sexualmente atraída por seu agressor. Verhoeven demonstra controle absurdo das arestas da trama e sabe exatamente para onde quer levar o filme – e são muitas as ramificações alcançadas. É o trabalho menos exibicionista dos cinco escolhidos, mas seguramente o mais reverberante nas demais qualidades do filme.

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segunda-feira, 4 de julho de 2016 Diretores | 21:11

Morre Abbas Kiarostami, cineasta que radiografou o Irã, o homem e soube registrar o mundo como ninguém

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Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

O cinema perdeu uma de suas principais forças criativas com a morte do cineasta iraniano Abbas Kiarostami. A notícia foi confirmada nesta segunda-feira (4) pela agência de notícias iraniana Isna. Diagnosticado com um câncer gastrointestinal, Kiarostami se tratou em Paris e, inclusive, submeteu-se a uma cirurgia em junho.  O diagnóstico veio em março e o câncer, como atesta a morte no princípio de julho, foi feroz e impiedoso.

“Gosto dos filmes que fazem as pessoas dormirem”, disse certa vez o vencedor da Palma de Ouro em Cannes com “Gosto de Cereja” em 1997. A frase, ainda que contextualizada por seu caráter anedótico, diz muito sobre o artista Kiarostami. Dono de um cinema altivo e que busca a reflexão contínua e intermitente sobre a vida e suas idiossincrasias, o iraniano filmou seus últimos filmes fora de seu país, assim como alguns dos mais expressivos cineastas de lá como Jafar Panahi e Asghar Farhadi.

Leia também: “Cópia Fiel” é cinema de questionamento 

Sua filmografia congregava rigor narrativo, força etérea e estupor visual. Produções como “Close-up”, a primeira a lhe atribuir alguma visibilidade internacional, dialogam com obras mais reverenciadas e famosas como “Cópia Fiel” em níveis que apenas estudiosos do cinema parecem compreender. Abbas Kiarostami é propulsor de um cinema que se pretende acadêmico, mas não aliena o público que nele pretende imergir.

À Folha, a diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo Renata Almeida, amiga do diretor e que a ele proveu grande espaço no festival paulistano, disse que Kiarostami foi um “poeta visual”.

“De todos os diretores iranianos, ele foi um que conseguiu viajar, filmar em vários lugares. Era universal. Tinha muita poesia. Originalidade. Não era nem o maior cineasta iraniano, era um dos maiores cineastas do mundo. Ponto. Isso é surpreendente”, observou. Para ela, em qualquer lugar que se predispusesse filmar, Kiarostami tinha o talento e a sensibilidade para registrar algo novo, próprio. “Uma perda imensa para as artes”.

“Cópia Fiel”, que assim como a grande maioria dos filmes de Kiarostami a partir de meados da década de 90, integrou a competição oficial do festival de Cannes, talvez seja o seu filme definitivo.  Na produção rodada na Itália, um crítico de arte e um amor do passado discutem o valor da arte e de como a cópia pode reafirmar esse valor, com paralelos na vida e nas relações amorosas. É o filme que melhor traduz, hoje, o gênio de Kiarostami e merece ser elevado ao posto de seu testamento artístico.

O cineasta ao lado da atriz Juliette Binoche no set de "Cópia Fiel" (Foto: divulgação)

O cineasta ao lado da atriz Juliette Binoche no set de “Cópia Fiel”
(Foto: divulgação)

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sexta-feira, 24 de junho de 2016 Diretores, Filmes | 22:28

Roman Polanski é tema de maratona no Telecine Cult

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Cena de "A Pele de Vênus" (Foto: divulgação)

Cena de “A Pele de Vênus”
(Foto: divulgação)

O cineasta Roman Polanski será homenageado neste fim de semana, com uma maratona no Telecine Cult. No sábado (25), a partir das 20h, o canal exibe três produções assinadas pelo aclamado diretor franco-polonês: “A Pele de Vênus”, “O Escritor Fantasma” e “Repulsa ao Sexo”. E, no domingo, a sessão começa às 19h50, com “Armadilha do Destino”, “Chinatown” e “Lua de Fel”.

Às 20h, “A Pele de Vênus” abre a sequência imperdível de obras de Polanski. Em uma tarde chuvosa, Thomas (Mathieu Amalric), um diretor de teatro, está encerrando os testes de sua nova peça. Tudo muda quando a atriz Vanda (Emmanuelle Seigner) entra em cena e começa um jogo de sedução para convencê-lo de que ela é a pessoa perfeita para interpretar a protagonista. O mais recente filme do franco-polonês pode ser percebido como uma provocação sobre a percepção da arte, mas também como um olhar crítico de Polanski à própria história. De qualquer modo, é um exercício cênico poderoso e com dois atores desprovidos de vaidade e entregues à experiência.

Em seguida, às 22h, vai ao ar “O Escritor Fantasma”. Um ghost writer (Ewan McGregor) é chamado para escrever a biografia de Adam Lang (Pierce Brosnan), um controverso político britânico, depois que o escritor originalmente contratado para o trabalho morre. Mas, ao começar a estudar a vida do congressista, ele se vê em um mundo onde nada é o que parece e percebe que sua própria vida está em risco. É um dos filmes mais cínicos do cineasta, uma obra-prima moderna que merece ser descoberta.

Para fechar, à 0h25, tem “Repulsa ao Sexo”. Carol Ledoux (Catherine Deneuve) é uma mulher muito bela, mas reprimida sexualmente, que vive com a irmã, Hélène (Yvonne Furneaux), em um apartamento em Londres. Quando fica sozinha em casa, durante uma viagem de Hélène, Carol entra em uma profunda depressão e passa a ter assustadoras alucinações com atos de violência.

No domingo, às 19h50, “Armadilha do Destino” dá sequência ao especial. Richard (Lionel Stander) e Albert (Jack MacGowran), uma dupla de criminosos em rota de fuga, buscam abrigo em um antigo castelo na praia. Os donos da propriedade, um excêntrico casal dono de muitas galinhas, ficam relutantes com os novos hóspedes, mas logo uma estranha relação cresce entre eles.

Cena de "Repulsa ao Sexo"

Cena de “Repulsa ao Sexo”

Na sequência, às 22h, é a vez de “Chinatown”, o mais premiado filme do diretor, ser exibido. J.J. Gittes (Jack Nicholson) é um detetive particular contratado por uma mulher que desconfia que o marido tem uma amante, mas ele descobre que ela não é quem dizia ser. Quando Gittes encontra a verdadeira sra. Mulwray (Faye Dunaway), ele logo se vê envolvido com ela em uma corrupta rede de poder, perigos e segredos. A produção foi indicada ao Oscar em 11 categorias e faturou a estatueta de Roteiro Original.

Às 0h25, “Lua de Fel” encerra o especial. Em um cruzeiro, o casal de ingleses Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas) conhece Mimi (Emmanuelle Seigner), uma sedutora francesa acompanhada do marido, Oscar (Peter Coyote), que vive preso a uma cadeira de rodas. Quando o homem percebe o interesse de Nigel por sua mulher, Oscar revela a história da ardente e doentia paixão que vivem.

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segunda-feira, 31 de agosto de 2015 Análises, Diretores | 17:48

Artesão do horror, Wes Craven pavimentou o gênero como o conhecemos hoje

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O cineasta entremeado pelas máscaras do assassino de "Pânico"

O cineasta entremeado pelas máscaras do assassino de “Pânico”

“Era uma combinação de um esperto comentário social, sustos e diversão. Tudo embalado em um ritmo novelesco com um mistério no ar”, afirmou o cineasta Wes Craven ao lançar “Pânico 4”, em abril de 2011, quando indagado sobre o por que de “Pânico” (1996) ter sido o hit que foi. Mais tarde, ele diria que a franquia  era o “Star Wars do terror”.

“Pânico 4” foi o último filme de Wes Craven, que morreu no último domingo (30) aos 76 anos, em decorrência de um câncer no cérebro.  O cineasta foi responsável por alguns dos principais alicerces do terror americano. Sem “Aniversário macabro” (1972), não existiria “Sexta-feira 13”, “O massacre da Serra elétrica” ou “Halloween”, para citar o conjunto mais emblemático dos slasher movies, gênero que pavimentou praticamente sozinho.  No início da década de 80 daria vida a um dos maiores ícones do horror moderno, o Freddy Krueger, de “A hora do pesadelo” (1984). “Quadrilha de sádicos” e “Convite para o inferno” também estão entre seus principais cartões postais.

Craven foi muito copiado tanto na década de 80, como nos anos 90 quando refundou o gênero na esteira do sucesso de “Pânico”, para todos os efeitos, sua grande obra-prima. Uma sátira poderosa do gênero e uma inteligente homenagem ao cinema como um todo, o filme se comunicou com toda uma geração de uma maneira que nenhuma outra produção na década foi capaz.

Filmes de qualidades distintas como “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, “Lenda urbana”, entre outros tentaram capitalizar a onda iniciada pelo filme, roteirizado por Kevin Williamson. A própria equipe criativa sucumbira aos encantos do que haviam criado e entornaram o caldo em “Pânico 3” (2000).

Mestre e visionário, Craven não era infalível.  “A sétima alma”, seu último filme fora da franquia “Pânico”, é uma equivocada mistura de filme de serial killer com filme de fantasma. Ainda que tenha uma ou outra boa ideia diluída em um rio de mesmice.  “Amaldiçoados” (2005), que o uniu a Williamson fora do esquadro das histórias de Sidney Prescott (Neve Campbell) e “A maldição dos mortos-vivos” foram tentativas de se exercitar no gênero abraçando seres sobrenaturais como zumbis e lobisomens. Mas era na psicopatia que Craven prosperava e um de seus melhores e mais subestimados filmes não é exatamente um terror, mas um suspense de primeira linha com Cillian Murphy e Rachel McAdams. “Voo noturno” é daqueles filmes extremamente satisfatórios e envolventes. Murphy ficaria para sempre com a aura de psicopata em sua volta, um mérito de Craven que soube explorar o ator como poucos souberam.

O diretor com Neve Campbell e Skeet Ulrich no set de "Pânico" Fotos: montagem/divulgação

O diretor com Neve Campbell e Skeet Ulrich no set de “Pânico”
Fotos: montagem/divulgação

Craven também impressionou fora de sua zona de conforto. Escreveu e dirigiu “Música do coração”, que rendeu indicação ao Oscar a Meryl Streep. O filme mostrava uma professora de música que batalhava para ensinar violino para as crianças quando isto não era uma prioridade para ninguém. Nem para a escola, para os pais ou para as próprias crianças. A afetuosidade do registro rendeu novos admiradores ao cinema de Craven, que àquela altura tentava se desvencilhar do estigma de diretor de um gênero só.

Ele fez do então astro Eddie Murphy, um vampiro no Brooklyn no filme homônimo que não fez lá grande sucesso quando foi exibido nos cinemas, mas virou cult quando chegou ao home vídeo. Foi esse filme, aliás, lançado em 1995, que tarimbou o cineasta para realizar “Pânico”, que se notabilizaria pela eficácia com que agrega humor aos ingredientes do terror.

Produtor contumaz, estava envolvido com a adaptação de “Pânico” para a TV. Uma série baseada no filme está sendo exibida pela MTV americana.

Cinéfilo, costumava palpitar sobre cinema em sua conta no twitter. Há dois anos, elogiou efusivamente o filme “Invocação do mal”, de James Wan. E fez um diagnóstico. “Wan tem tudo para ser um dos grandes mestres do cinema de horror”. Após dirigir “Velozes e furiosos 7”, o malaio comandará “Aquaman” e parece propenso a dar um tempo para o cinema de ação. Mas na noite de domingo prestou sua homenagem ao mestre no Twitter. “Não acredito na notícia. Meu coração se comove com a partida de Wes Craven. Verdadeiramente uma de minhas maiores inspirações”.

O homem se vai, mas deixa uma obra de grande impacto e influência no cinema e naqueles que dele se alimentam. Deixa, além das saudades, a convicção de que transformou o gênero. Um epílogo que nem todos os cineastas podem ostentar.

“Se eu tiver que fazer o resto dos meus filmes no gênero (horror), não há problemas.  Se eu serei um pássaro engaiolado, cantarei a melhor canção que eu puder”.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 18:45

“Caminhos da floresta” é cozidão pop que imagina contos de fadas pelo avesso

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Rob Marshall será sempre assombrado por seu primeiro filme, o primoroso e vencedor do Oscar “Chicago” (2002). Seu debute no cinema não poderia ser um paradigma mais resiliente. “Chicago” surfou na onda de “Moulin Rouge”, lançado um ano antes, e consolidou a revitalização do musical no cinema. Gênero e Marshall ainda tentam superar o impacto do filme estrelado por Richard Gere e Catherine Zeta-Jones.

A filmografia irregular de Marshall ostenta outros dois musicais, o subestimado “Nine” e esse “Caminhos da floresta” (EUA, 2014), uma adaptação do musical de Stephen Sondheim que reúne diversos personagens de variados contos de fadas. O filme se comunica com o momento da Disney de explorar personagens de fábulas em contextos diferentes e representa, também, certa ousadia.

Personagens clássicos como Cinderela, Chapeuzinho vermelho, Rapunzel, a bruxa má e João e o pé de feijão interagem em um vilarejo fantástico. Mas suas representações passam longe do tradicionalismo presente nos contos de fadas tradicionais.

A bruxa má vivida por Meryl Streep, o padeiro (James Corden) e sua mulher (Emily Blunt): eles puxam a trama (Foto: divulgação)

A bruxa má vivida por Meryl Streep, o padeiro (James Corden) e sua mulher (Emily Blunt): eles puxam a trama
(Foto: divulgação)

Contudo, “Caminhos da floresta” não empolga nem como musical nem como ousadia. Fica tudo no quase. Em parte porque a trama é simplória demais e o fato de ser um musical com bons momentos não disfarça isso e, fundamentalmente, porque torna-se refém de seu mote. Os personagens não são cativantes, as músicas são boas, mas não irrompem o interesse circunstancial – algumas chegam a cansar – e Marshall deixou passar algumas arestas mal desenvolvidas.

Isso posto, “Caminhos da floresta” tem o mérito, que já vem da peça original, de mitigar os efeitos dos contos de fadas. O cinismo do registro é bem-vindo e se surge majestoso e expansivo no número musical em que os dois príncipes competem para ver quem é mais vaidoso, é bastante sutil, por exemplo, no momento em que o personagem vivido por Chris Pine avança sobre a mulher do padeiro, defendida por Emily Blunt. A atriz britânica, aliás, responde pela vitalidade da fita. Quando sai de cena, o filme murcha um pouco. É ela quem injeta energia e verdade em um filme que perde muito de seu impacto no ato final, menos musicado.

“Caminhos da floresta” acaba por se revelar um filme menos interessante do que o fã de musicais supõe. Cozidão pop, empobrece a filmografia de Marshall no mesmo compasso em que acentua o brilhantismo de “Chicago”, para todos os efeitos o último grande musical a ganhar os cinemas. É este o paradoxo do qual Marshall ainda não conseguiu se desvencilhar.

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015 Críticas, Diretores | 16:39

Livro enfoca caráter transgressivo e sexual da obra de Pedro Almodóvar

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Livro - AlmodóvarPedro Almodóvar pertence àquele seleto grupo de cineastas que viraram adjetivos. Um filme ‘almodovariano’ é um filme banhado em paixão, transgressivo, colorido e que funde peculiaridade e potência em uma narrativa reconhecível e referendada. Para quem gosta do diretor, e não se furta a refletir sobre seu cinema, e para quem busca uma boa maneira de estabelecer um contato mais formal e analítico sobre sua filmografia, uma boa opção é o livro recém-lançado “Sexualidade e transgressão no cinema de Pedro Almodóvar”, de Antonio Carlos Egypto, publicado pela SG-Amarante.

O livro foi originalmente concebido como monografia de conclusão do curso de pós-graduação em Crítica Cinematográfica. Nele, Egypto discorre sobre toda a obra almodovariana e a examina sob a perspectiva de elaboração contra a intolerância sexual. O autor identifica o cinema de Almodóvar, especialmente em seu momento de emergência, como um reflexo exacerbado e contundente aos anos do franquismo na Espanha. Este período ditatorial perdurou entre os anos 1939 e 1976 e foi caracterizado pelo total cerceamento das liberdades de expressão, sexual, religiosa, política, entre outras.

Egypto observa a coerência e integridade da obra de Almodóvar ao longo dos 19 filmes que compõem sua filmografia. O diretor, vale lembrar, já anunciou que “Silêncio” será seu 20º longa-metragem. Os códigos do cinema do cineasta espanhol que, na avaliação de Egypto, foi o mais feliz e agudo diretor do país a revirar o passado franquista no cinema, são pormenorizados em um livro que faz da reflexão um convite irrecusável.

Além de tratar individualmente de cada filme, o autor divide a filmografia do espanhol por décadas, de modo a tornar mais fácil e digerível a evolução estética de seu cinema e deixar mais clara as referências que Almodóvar busca em sua própria obra. Egypto não se furta a sobrepor filmes em que Almodóvar revisita temas articulando-os de maneira distinta; casos de “Fale com ela” (2002) e “Matador” (1986). Em que sexo e morte estão sob o mesmo jugo do desejo, mas toda a formulação que se dá sobre essas circunstâncias é radicalmente diferente.

Transexualidade, travestismo, incesto, doenças sexualmente transmissíveis, estupro, sexo casual, homossexualidade… está tudo lá. O cinema transgressivo de Almodóvar, como resposta aos anos castradores de Franco, é examinado com a retidão de quem pôs-se a conhecer e a admirar um cineasta original, criativo e indulgente.

O cineasta Pedro Almodóvar (Foto: Getty)

O cineasta Pedro Almodóvar
(Foto: Getty)

Egypto expõe com clareza as transformações pelas quais o cinema de Almodóvar passou. Os arquétipos dos primeiros filmes, vocacionados mais à transgressão do que a produzir efeitos dramáticos mais autocentrados, deram vez a personagens mais bem construídos em filmes pensados além do choque, mas que nem por isso abdicavam da natureza transgressiva dos primeiros anos. Essa coerência, para Egypto, é reafirmada quando Almodóvar se experimenta, como no misto de ficção científica e terror, “A pele que habito” (2011), maior testamento de maturidade do cineasta.

O autor atenta, ainda, para o fato da cinefilia de Almodóvar estar plenamente inserida em seu cinema e dele revelar para seu público muitas de suas intenções com o filme em questão apenas pelas referências ao cinema nele contidas. Trata-se, afinal, de uma sofisticação diegética notável que distingue Almodóvar da média dos cineastas atuais.

O livro se torna ainda mais interessante por prover um contexto tão rico e fluído de Almodóvar que até um filme ruim, como o é “Os amantes passageiros”, o único ruim do diretor, se torna indispensável a uma filmografia extremamente passional e inventiva como a do espanhol.

A contemporaneidade de Almodóvar, a postura militante contra a intolerância de toda sorte, especialmente a de procedência sexual, o sobejo na técnica, o apreço pela metalinguagem e a coragem com que filma e com que se reinventa – isso sem abdicar das matizes originais de seu cinema – tornam o cineasta um objeto a se analisar com entusiasmo e empenho. Algo que Egypto alcança com a mesma desenvoltura com que Almodóvar faz de uma cena de estupro, uma declaração de amor.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015 Bastidores, Notícias | 05:00

Filme abandonado por David O. Russell será lançado a sua revelia

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Depois de toda a comoção vivida pelo vazamento de documentos e e-mails da Sony e do vai e vem envolvendo o filme “A entrevista”, Hollywood já tem um novo escândalo para chamar de seu. De menor intensidade, é verdade, mas adornado pela mesma estranheza que pautou toda a atenção a “A entrevista”.

Um filme abandonado pelo cineasta David O. Russell (de “O labo bom da vida” e “Trapaça”) chegará aos cinemas e às plataformas de vídeo on demand nos EUA no início de fevereiro. Detalhe: Russell não quer que o filme seja lançado. Abandonado em 2008 por razões que ainda não são de conhecimento público, “Nailed” esteve perto de ser lançado no cinema algumas vezes, mas Russell sempre conseguiu barrar o lançamento. Parece que agora, com a entrada da pequena produtora Millennium Entertainment (mais conhecida pela franquia “Os mercenários”), o diretor não conseguirá impedir que o filme ganhe o mundo. Rebatizado de “Accidental love”, a dramédia (misto de drama e comédia) política mostra uma mulher (Jessica Biel) que recebe um prego na cabeça quando está prestes a receber a proposta de casamento de seu namorado (James Marsden). Sem plano de saúde e com uma variação de humor atroz, ela ruma para Washington na esperança de que um jovem congressista (Jake Gyllenhaal) possa ajuda-la.

É interessante notar como Jake Gyllenhaal, em alta após ótimos trabalhos em “Os suspeitos” e “O abutre”, está bem mais novo. Na avidez por retomar o investimento dispensado na produção, os produtores colocaram nos créditos de direção um tal de Stephen Greene, que é apontado como um pseudônimo para evitar processos por parte de Russell. O uso de pseudônimos no cinema, diferentemente da literatura, é incomum; para não dizer inédito.  Greene, diretor de cinema de ofício, não existe. Pelo menos ninguém conhece e não há nenhuma informação sobre essa pessoa no IMDB (site referencial para fichas e créditos no cinema).

Enquanto aguardamos as cenas dos próximos capítulos, o trailer e o primeiro cartaz de “Accidental love”.

Accidental love

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segunda-feira, 17 de novembro de 2014 Diretores | 19:37

Os 72 anos da lenda viva Martin Scorsese

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Martin Scorsese orienta Leonardo DiCaprio e Margot Robbie no set de "O lobo de Wall Street) Fotos: divulgação

Martin Scorsese orienta Leonardo DiCaprio e Margot Robbie no set de “O lobo de Wall Street)
Fotos: divulgação

Ele queria ser padre e seria se o cinema não tivesse roubado sua vocação. Estamos falando de Martin Charles Scorsese, mirrado nova-iorquino de fala acelerada, amor profundo pelo cinema e talento que beira o incomensurável. Essa data louvável no calendário da cinefilia –  dia do aniversário do cineasta – não poderia passar despercebida, ou mesmo oculta, aqui no Cineclube. Ele é responsável por alguns dos clássicos instantâneos do cinema atual como “O lobo de Wall Street” (2013),  “A invenção de Hugo Cabret” (2011) e ainda mais lembrado pelos extraordinários trabalhos do início da carreira que ajudaram a semear o cinema adulto americano e a consolidar a teoria do autor como principal vértice do cinema produzido no país nas décadas de 70 e 80. Entre as principais referências ‘scorsesianas’ figuram “Caminhos perigosos” (1973), “Taxi driver” (1976), “Touro indomável” (1980), “A cor do dinheiro” (1986) e “Os bons companheiros” (1990).

Reconhecido como autor de um cinema que explora a violência, Scorsese trafegou por gêneros distintos ao longo das décadas. Da fábula infantil com gosto de declaração de amor ao cinema (“A invenção de Hugo Cabret”) ao musical “New York, New York”), passando pelo épico (“Gangues de Nova York”) e pelo drama intimista (“Alice não mora mais aqui”).

O Oscar tardou em reconhecê-lo. Só foi ser laureado com a estatueta de melhor diretor em 2007, pelo filme “Os infiltrados”, também sagrado melhor filme do ano. Scorsese, no entanto, acumula 12 indicações ao prêmio. Como diretor são oito, cinco das quais conquistadas nos últimos 11 anos.  Ele foi indicado ao Oscar por cinco dos seus últimos seis filmes. Uma demonstração eloquente de que a Academia hoje é capaz de reconhecer a enormidade de talento de Scorsese e a sua capacidade de tirar os filmes que dirige do lugar-comum. Seja um filme de terror com alma B como “Ilha do medo” (2010) ou um filme questionador sobre a fé como “A última tentação de Cristo” (1988).

Com o amigo e parceiro Leonardo DiCaprio no set de "O aviador"

Com o amigo e parceiro Leonardo DiCaprio no set de “O aviador”

Na foto dos anos 70 surge ao lado do amigo Robert De Niro, com quem ensaia uma colaboração em um novo filme de máfia

Na foto dos anos 70 surge ao lado do amigo Robert De Niro, com quem ensaia uma colaboração em um novo
filme de máfia

O cineasta é reconhecido por selar grandes parcerias. As mais famosas, indubitavelmente, são com os atores Robert De Niro (oito filmes) e Leonardo DiCaprio (cinco filmes). Mas figuras dos bastidores como a montadora Thelma Schoonmaker, o diretor de fotografia Robert Richardson e o produtor Grahan King são exemplos de que Scorsese entende que cinema é um trabalho de equipe e que é adepto da teoria de que em time que se ganha, pouco se mexe.

O cinema deve muito a Scorsese. Não só por sua contribuição inestimável para o extrato do filme de gangster; ou por ter mais de dez filmes creditáveis para qualquer lista de melhores da história que se preze. Mas fundamentalmente por expressar amor inesgotável pelo cinema a cada novo filme. Por revigorar o ofício com o fôlego dos jovens. Por ser tão criativo na escolha de ângulos de câmera como desimpedido nas escolhas narrativas que faz para seus filmes. Scorsese inspira e influencia. Scorsese é um mito que batina nenhuma seria capaz de fazer justiça.

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quinta-feira, 13 de novembro de 2014 Análises, Diretores | 19:11

Para onde vai o cinema de Christopher Nolan depois de “Interestelar”?

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Foto: Total Film

Foto: Total Film

A bilheteria de “Interestelar” em seu primeiro final de semana nos cinemas foi vultosa. Mas não tão impactante como os estúdios que bancaram o filme (Warner e Paramount) esperavam. A crítica se dividiu quanto ao filme. Estes são fatores adversos que são, também, estranhos a Nolan. O cineasta britânico desde que caiu nas graças da Warner, estúdio para o qual rodou todos os seus filmes desde “Insônia” (2002), não sabe o que é amealhar reação adversa a seus trabalhos. Mesmo “Batman- o cavaleiro das trevas ressurge”, bastante criticado por segmentos da crítica e da cinefilia, se beneficiava do saldo positivo da trilogia do Batman.  Mas “Interestelar” é outro papo.

Estamos falando de um diretor ímpar na indústria. Um cara que, em plena ditadura do 3D, consegue demover o estúdio de lançar seus filmes no formato. A liberdade de Nolan é tamanha que ele conta com orçamentos acima de U$ 150 milhões para rodar filmes totalmente originais, difíceis de vender nos termos publicitários vigentes em Hollywood, e ainda atrai os melhores e mais disputados astros do momento.

Christopher Nolan é o triunfo da Hollywood criativa, inventiva e sem amarras. Uma Hollywood que está desaparecendo em meio à segurança das franquias multimidiáticas e dos conglomerados de comunicação. Mas Christopher Nolan não é infalível.

Depois do excelente, atemporal e surpreendentemente existencialista “O cavaleiro das trevas” (2008), Nolan chocou o mundo do cinema com “A origem”, um misto de ficção com filme de ação inventivo, incrivelmente original e inteligente, além de apresentar um refinamento estético e visual entusiasmante.

“O cavaleiro das trevas ressurge” era um filme recheado de fragilidades. Um vilão ruim logo depois do filme com o melhor vilão adensava a maior das fraquezas da fita. O fato de Nolan repisa conflitos já esgotados em “O cavaleiro das trevas”. A solução do filme era outro golpe fatal. Nolan resgatava algumas ideias trabalhadas no final de “A origem” e destinava um desfecho risível para a personagem de Marion Cotillard.

“Interestelar” era a oportunidade de não só prestar homenagem a um de seus ídolos definidores, Stanley Kubrick,

O diretor orienta a badalada, e desperdiçada em 'Interestelar", Jessica Chastain  (Foto: divulgação)

O diretor orienta a badalada, e desperdiçada em ‘Interestelar”, Jessica Chastain
(Foto: divulgação)

mas de adentrar mais a fundo a um gênero muito receptivo a cineastas criativos e talentosos como Nolan. Mas esse namoro com a ficção científica desandou. Se “Interestelar” traz todos os vícios do cinema de Nolan (diálogos expositivos em excesso, personagens emocionalmente aleijados, falta de humor, solenidade desproporcional, entre outros), não traz os méritos (fé no poder da imagem, alijamento dos clichês, sofisticação narrativa, esmiuçamento dos conflitos que movem os personagens, entre outros).

“Interestelar” não deve ser um fracasso retumbante, mas contribuirá para um agigantamento da polarização já manifesta em torno de Nolan. Trata-se, afinal, de um visionário ou de um embuste? A paixão desvia o foco do problema que a recepção taciturna ao filme enseja. Nolan pode estar em face de ver alguns de seus privilégios contraídos. O que é má notícia para quem preza a liberdade criativa no cinema.

O cineasta ainda não anunciou seu próximo projeto, mas tem se dedicado nos últimos dias à estranha rotina de defender seu filme dos muitos detratores que rapidamente a produção tem acumulado. A dica é Nolan maneirar na ambição e voltar ao básico. Talvez um filme mais barato. Mas o caminho mais provável é que ele insista na grandiloquência. Um retorno ao universo dos super-heróis (vale lembrar que um novo filme do Batman ainda não foi confirmado em meio a tantos anúncios feitos pela Warner/DC) pode estar no horizonte. A Warner compreensivelmente irá cobrar mais caro pela manutenção da liberdade usufruída por Nolan até aqui.

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