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quinta-feira, 30 de junho de 2016 Filmes | 07:00

Clássico instantâneo, “O Diabo Veste Prada” comemora dez anos de seu lançamento no cinema

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Atriz tarimbada e premiada, Meryl Streep viveu sua primeira personagem francamente pop no filme (Fotos: Divulgação)

Atriz tarimbada e premiada, Meryl Streep viveu sua primeira personagem francamente pop no filme
(Fotos: Divulgação)

Nesta quinta-feira (30) completam dez anos do lançamento de “O Diabo Veste Prada” nos cinemas dos Estados Unidos. No Brasil, o filme dirigido por David Frankel seria lançado apenas em 22 de setembro.

Incensado imediatamente ao culto fashion, o filme deu a Meryl Streep uma das personagens mais marcantes de sua carreira, a cruel Miranda Priestly, decalcada da editora megera da Vogue Anna Wintour.

O filme, uma adaptação da obra homônima de Lauren Weisberger, arrecadou mais de US$ 320 milhões nas bilheterias garantindo-se como um dos hits do ano nos cinemas e é frequentemente escalado para a Sessão da Tarde da Globo.

Anne Hathaway, em seu primeiro protagonismo fora da série “O Diário da Princesa”, é Andy Sachs, egressa da faculdade de jornalismo com os sonhos que todo universitário – especialmente aqueles que fazem jornalismo – carregam na bagagem. Ela vai fazer um estágio com Miranda na revista de moda Runaway e aos poucos vai ganhando perspectiva na vida e na carreira.

“O Diabo Veste Prada” sobrevive ao hype e é um exercício interessante revisitá-lo neste seu aniversário de dez anos. Trata-se de um filme muito sensível sobre ritos de amadurecimento. Além de prover um minucioso retrato da oposição entre o ideário do jornalismo e à prática dele.

“O diabo Veste Prada” marcou o começo da democratização da moda (o fast fashion) na esteira das redes sociais e do reality show “Project Runaway” que começou dois anos antes. O timing também foi perfeito para as atrizes que o estrelaram. Anne Hathaway se firmou como uma estrela em ascensão a qual os estúdios poderiam apostar, Emily Blunt aconteceu e Meryl Streep voltou ao Oscar, a qual não concorria há inacreditáveis quatro anos, com sua personagem mais comercial. Aos 57 anos, Streep era um ícone pop.

Emily Blunt e Gisele Bündchen: ótimas tiradas , piadas internas e algum sarcarsmo

Emily Blunt e Gisele Bündchen: ótimas tiradas , piadas internas e algum sarcasmo

“Eu nunca imaginei que as minhas falas neste filme seriam citadas para mim todas as semanas da minha vida”, confessou Blunt em recente entrevista à Variety por ocasião dos dez anos do filme.

Para o papel de Anne Hathaway foram testadas as atrizes Rachel McAdams (“Spotlight – Segredos”) e Juliette Lewis (“Cabo do medo”). Ela acabou sendo escolhida por causa do instinto do diretor que “a via como uma boa Andy”. Hollywood tem seus caprichos e eles, as vezes, dão muito certo.

Para além dos figurinos exuberantes, da trilha sonora pop, com Lily Allen, U2, Madonna e Alanis Morissette, “O Diabo Veste Prada” pertence àquela estirpe de blockbusters com alma que Hollywood entrega de quando em quando.

Com excelentes coadjuvantes – Stanley Tucci é um deleite em cena -, boas participações especiais (como Gisele Bündchen) e sutilezas como a preocupação de Miranda com Andy e seu esforço para não se despir da carapuça de megera, o filme faz por merecer seu status na cultura pop. Vira e mexe se comenta sobre a possibilidade de uma sequência – um segundo livro foi publicado – mas a ideia nunca foi para frente. “Eu acho que esse já atingiu a nota certa”, disse Anne Hathaway em entrevista recente sobre a possibilidade de um “O Diabo Veste Prada 2”. “É melhor deixar como está”.

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domingo, 14 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 18:42

Espaço Cult – “Foxcatcher” é exemplar do cinema que valoriza o que não é dito e o que não é mostrado

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Construído sobre elipses, “Foxcatcher”, que no Brasil ganhou o desnecessário subtítulo “Uma história que chocou o mundo”, é um filme cujas camadas não se revelam de pronto. O que pode parecer algo contraprodutivo a principio, se assegura como uma das forças desse belo e sensível drama, ainda que não catártico, assinado por Bennett Miller, dos ótimos “Capote” (2005) e “O homem que mudou o jogo” (2011).

O filme acompanha a relação entre o multimilionário John Du Pont (Steve Carell), herdeiro de um império ligado à indústria química, e os atletas olímpicos Mark (Channing Tatum) e Dave (Mark Ruffalo) Schultz. Du Pont convida os irmãos, ambos medalhistas olímpicos em Los Angeles em 1984 na luta grego-romana, para treinarem em Foxcatcher, propriedade da família com histórico de prover suporte ao esporte. Dave, a princípio, rejeita a oferta, mas Mark, ansioso por sair da sombra do irmão, aceita a generosidade inusitada do milionário. À medida que o relacionamento entre Mark e John se estreita, a plateia intui que algo de muito tenebroso acontecerá. Isso independe do fato da história em si já ser conhecida. Uma busca rápida no Google oferece detalhes e curiosidades do caso, mas Miller faz mais. Oferece uma investigação psicológica profunda desses três homens irmanados por um mesmo objetivo, mas que de alguma maneira colidem brutalmente. É esse “de alguma maneira” que Miller brilhantemente oxigena.

Na superfície, “Foxcatcher” pode ser lido como uma dura e ácida crônica à percepção de que o esporte eleva o patriotismo. Uma leitura por si só corajosa e inusitada em um filme americano. A obsessão pelo triunfo a despeito do espírito competitivo está enraizada tanto em Mark quanto em John, mas em graus distintos. Em outro nível, o filme de Miller observa uma combinação explosiva tomar forma. Egos inflados, ânsia por reconhecimento, carência afetiva, dinheiro e uma não assumida homossexualidade são sombras trabalhadas por Miller e pelo roteiro de Dan Futterman com audácia e engenho. Não há a formulação de respostas para a tragédia ocorrida em Foxcatcher, mas há apontamentos sutis que em termos de dramaturgia preenchem requisitos e expectativas.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

O que não é mostrado em “Foxcatcher” é mais importante do que o que alcança os olhos do público. Mark, por exemplo, começa a fita em abundante solidão. Ele tem o hábito de se bater, se punir, mas nem sempre entendemos a razão.  No final do filme, é interessante se indagar como ele foi parar praticando MMA. Por que o gosto de espancar homens? Essa opção surgiu depois da interação desestabilizadora com John? Miller deixa sugestões pelo caminho. A cena final de “Foxcatcher”, embora aparentemente descolada do que se viu antes, não está ali gratuitamente. Está ali para dar novo sentido ao todo.

Trata-se de um trabalho de direção maiúsculo no que se depreende de controle e técnica, e sensível, no que se projeta de prolixidade e imaginação. Um adendo ao trabalho dos atores precisa ser feito. Steve Carell como John é um assombro. Sua presença é intimidadora. As pausas na fala em que encara seu interlocutor gelam a espinha. É uma construção de personagem minuciosa e que vai muito além da prótese no nariz que modifica completamente seu rosto. Como um homem cioso de escrever uma história de sucesso para si em seus próprios termos, mas com esqueletos no armário, Carell abraça o imponderável com força dramática invejável. Invejável também é a caracterização de Tatum. Na melhor performance de sua carreira, o ator adorna a ingenuidade e truculência de Mark, em um balé entre físico e emocional que só alguém com exato domínio de sua arte é capaz. Ruffalo, por seu turno, é o pendor da consciência, iminentemente tragado para o conflito velado entre John e seu irmão. O ator atua com a pulga atrás da orelha. É sua atuação o principal termômetro da plateia.

Essa trinca afinada é outra demonstração do gênio de Miller que com sua curta filmografia oferta ao público um cinema pensante, difuso e altamente recompensador.

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terça-feira, 3 de março de 2015 Críticas, Filmes | 20:06

Espaço Cult – “O Grande Hotel Budapeste” é um legítimo L´Air de Panache

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O cinema de Wes Anderson é uma grife e para quem ainda duvida disso, a informação de que o perfume usado pelo protagonista, um escroque de butique vivido com incrível ritmo por Ralph Fiennes, foi desenvolvido especialmente para o filme pelo perfumista Mark Buxton, seja de alguma valia.

O perfume usado pelo concierge Gustave H. (Fiennes) é das fragrâncias mais refinadas e persistentes que há, informa Zero (Tony Revolori/F. Murray Abraham), o mensageiro e fiel escudeiro de Gustave no Grande Hotel Budapeste. Pois bem, o mais recente filme de Wes Anderson é um legítimo L´Air de Panache. Anderson preserva suas idiossincrasias, mas entrega seu filme mais acessível. Uma demonstração de amadurecimento enquanto cineasta.

“O Grande hotel Budapeste” é uma deliciosa fábula sobre as agruras da guerra, mas em momento algum essa comédia solar torna-se pesada, grave ou ruidosa. Pelo contrário, Anderson oferece energia, esperança e beleza ao falar de como a guerra foi um evento catalisador de mudanças profundas no jogo social. Não obstante, formula um personagem dos mais icônicos de sua filmografia, o concierge Gustave H., defendido com afetação calculada e humor brioso por Ralph Fiennes. Responsável pelo imponente Grande Hotel Budapeste, Gustave H. é um homem de gosto refinado e interesses venais. Ele costuma se relacionar com grã-finas endinheiradas que têm por hábito paparicá-lo. De quebra, garante a boa frequência do hotel que comanda.

Ralph Fiennes: não menos que espetacular em cena (Foto: reprodução)

Ralph Fiennes: não menos que espetacular em cena
(Foto: reprodução)

Depois que uma dessas senhoras morre e lhe deixa um bem, Gustave H. é acusado de ser o responsável pela morte dela e precisa provar sua inocência. A guerra é um pano de fundo desestabilizador.

A estética apurada, marca registrada do cinema de Anderson, permanece como um dos grandes atrativos do filme. Os enquadramentos e a direção de arte denunciam logo no primeiro olhar, se tratar de um filme do diretor. O que mais impressiona, principalmente considerando esse ser o trabalho posterior a “Moonrise Kingdom” (2012), é a maneira cada vez mais sofisticada que o cineasta concilia seus impulsos autorais com o tema escolhido em particular. A sinergia é cada vez mais esplendorosa e irresistível.

“Começa muito parecida com uma colônia tradicional”, explicou Buxton na ocasião do lançamento do perfume, “depois de cinco ou dez minutos, fica muito amadeirado e animálico; bastante moderno”.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015 Críticas, Filmes | 17:35

Espaço cult: Costa-Gravas devassa lógica capitalista no intenso e cerebral “O capital”

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Costa-Gravas no set de "O Capital"

Costa-Gravas no set de “O Capital”

Historicamente alinhado ao pensamento de esquerda, o cineasta grego Costa-Gravas entrega com “O capital” (2012), seu mais recente filme, sua mais bem elaborada e contundente análise do capitalismo como sistema econômico e modelo de vida.

No filme, testemunhamos a saga de Marc Torneuil (Gad Elmaleh). Um literato da economia alçado à presidência de um prestigiado e poderoso banco europeu quando o presidente da instituição, que habitualmente o ouvia, adoece e precisa se afastar do comando. A partir do momento do apontamento de Torneuil para o cargo, “O capital” já denota sua intenção de demolir fachadas e investir contra os clichês de um sistema com a coragem que, por exemplo, falta às produções americanas.

A ideia do diretor grego, também responsável pelo roteiro (prática comum em seus filmes), não é tecer uma grita contra o capitalismo e o neoliberalismo, mas examinar com precisão cirúrgica, e blindado por um humor em seu estado de maior perversão, os entraves de um sistema que deu certo, mas segue produzindo ruídos alarmantes pelo mundo. Muito porque estimula um jogo desleal e que gera ressentimento em todos aqueles que não dispõem do tabuleiro.

Torneuil sabe que sua indicação para a presidência do banco é um embuste somente tolerado enquanto grupos de olho no poder, e no apoio da força acionária majoritária, se movimentam nos bastidores. É preciso agir rápido e com proeminência. Ele rapidamente se liga a um grupo de investidores americanos que secretamente age para tomar o controle do banco, nem que para isso seja necessário precipitar medidas que derrubem seu valor de mercado. Torneuil vai se revelando um hábil estrategista e guiando-se pela filosofia maoista repele sindicatos, doma seus diretores executivos, enrola os americanos e se fortalece como um player significativo na economia europeia.

Em paralelo, Costa-Gravas lança um olhar para a derrocada moral deste homem que sempre se viu seduzido pelo poder, mas nunca o havia exercido de fato. Os bônus pornográficos, o flagelo do casamento e o jogo de interesses estipulado por todos que dele se aproximam, são sombras desse novo Torneuil, concebido pelas engrenagens do capitalismo.

O Capital

Executivos e acionistas discutem os bônus que serão pagos no ano: o gosto pelo jogo financeiro
(Fotos: divulgação)

É um pouco do meio e um pouco do homem, advoga Costa-Gravas com seu filme. Não é uma conclusão inédita, tampouco explosiva, mas fruto de uma construção dramática vistosa. Na cena final, Torneuil vira-se para a câmera, sob aplausos de executivos radiantes após um breve discurso em que promete “roubar dos pobres para dar aos ricos”, e diz que “são todos crianças se divertindo e que vão se divertir até que tudo exploda”. O brilhantismo do sistema, antecipou Costa-Gravas em uma cena exibida alguns minutos antes, está em reinventar-se para continuar o mesmo.

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014 Críticas, Filmes | 19:00

Espaço Cult: “Direito de amar” aborda superficialidade asfixiante da vida

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Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

A estreia na direção do estilista Tom Ford é das coisas mais surpreendentes dos últimos anos no cinema. “Direito de amar ( EUA 2009) é, nas palavras de seu próprio diretor, fruto de uma angústia sua. É senso comum na produção cultural que os grandes artistas criam a partir de aflições e inquietações dessa ordem.

Ford, que também escreveu o roteiro do filme, mostra sensibilidade autoral e técnica impensada para um estreante. Belos planos, a confiança na habilidade dos atores de contar a história, a boa administração da composição técnica (música, fotografia, figurinos e direção de arte) e, mais do que isso, profundo esmero narrativo. Ford soube como contar sua história de maneira minimalista e ritmada.

George Falconer (Colin Firth) é um professor universitário que não consegue se recuperar da morte do parceiro. Acompanhamos Falconer no dia em que decide tirar sua própria vida.  Através de suas lembranças, que pontuam esse dia, percebemos como ele chegou àquela profunda tristeza e o por que se sente desmotivado em divorciar-se dela.

Em “Direito de amar”, Ford não faz nenhum tipo de militância. Embora seja homossexual assumido e aborde um universo homossexual, o diretor não o faz com complexo de minoria. A história de amor, e a relação de George com Jim (Mathew Goodie), são vívidas e inspiradoras. Em uma explanação sobre um livro que George dá a uma audiência de estudantes, Ford permite-se sublinhar a incompreensão que gravita o tema e mesmo assim o faz com elegância. “Direito de amar”, por tudo que representa e evoca, é um filme sobre a superficialidade. Sobre os excessos. Do desejo à falta dele. Muitos criticaram o apuro do filme. A perfeição dos cenários, o corte impecável do terno de George, os cabelos maravilhosamente penteados, o voyeurismo de Ford em algumas cenas, entre outras coisas. A bem da verdade, Ford se excede em um ou outro momento, mas isso não pode ser tomado como algo involuntário ou inerente ao ofício de estilista. Sabe-se vestir bem, mas de que isso adianta? Pergunta Ford. Tanto Charlotte (Julianne Moore, em participação marcante), grande amiga de George, tanto quanto o próprio George e os demais personagens que dão as caras em “Direito de amar” parecem modelos, dada a perfeição da postura e o alinhamento das roupas. Mas são todos desajustados. De uma forma ou de outra.

Direito de amar (2)

A fotografia do filme, nesse sentido, é de uma sutileza extraordinária. Ford e seu fotógrafo, Eduard Grau, acinzentam a imagem sempre que George aparece em um momento de introspecção doída. As cores voltam com brilho quando ele, de alguma forma, sente-se amado. A vida não deixa de ser assim. Maquiamo-nos e enfeitamo-nos todos para disfarçar ou ocultar nossos medos. Medos que geram angústias. E como sair delas? Tom Ford fez esse belo filme sobre como tentar.

Vale destacar também a excepcional trilha sonora de Abel Korzeniowski. Que ajuda a imprimir o tom do relato. Sem essa trilha, Ford não conseguiria alcançar o coração do espectador. Mas o grande trunfo de “Direito de amar”, que assegura o sucesso do filme, é Colin Firth. O ator entrega a performance de sua vida. Uma atuação sem vaidades (em um belo exercício de paradoxo, já que seu personagem é vaidoso) e que reveste o filme de Ford de sentimento. No mundo esterilizado em que não há sentido se você não for capaz de se conectar com outro ser humano, é Firth quem se conecta com a plateia.

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sábado, 12 de julho de 2014 Críticas, Filmes | 19:59

Espaço Cult: “Cópia fiel” é cinema de questionamento

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Cópia

A primeira reação à “Cópia fiel” (FRA/Itália/Irã 2010) é de estranheza. Confusão até. A matéria prima deste filme do elogiado cineasta iraniano Abbas Kiarostami é a arte e uma das discussões mais longevas e interessantes que a gravita: Acerca do valor de uma cópia, da autenticidade do original e do quão significante é o olhar na aferição de uma obra de arte. Mas o diretor iraniano é audacioso e faz do filme que discute a arte, a própria discussão. O fórum metalinguístico de Kiarostami começa explanativo e toma contornos herméticos, ainda que a narrativa seja leve e fluída. Uma conquista notável.

Em “Cópia fiel”, o escritor inglês James Miller (William Shimell) está na região da Toscana, na Itália, para palestrar sobre seu mais recente livro (que dá nome ao filme), em que promove um debate sobre arte e cópia. Miller parece convicto de que uma cópia bem feita tem tanto valor quanto o original. Ao mesmo tempo em que relativiza o valor da arte, a cópia a afirma, defende o inglês. Ele é desafiado, em um passeio aparentemente sem rumo, pela francesa dona de uma loja de antiguidades vivida por Juliette Binoche. Elle, a personagem da atriz, é flagrada dividida entre a adoração e o repúdio às ideias de Miller.

Em um primeiro momento, Kiarostami desenvolve seu filme como uma palestra propriamente dita. Ele lança suas ideias e as defende por meio de exemplos que os personagens tricotam em uma conversa cerceada por tensão e sobressaltos. De repente, após uma conversa travada entre Elle e a dona de uma cantina italiana, “Cópia fiel” se transforma em outro filme. Uma comédia romântica madura que guarda muitas semelhanças com o duo de Richard Linkaleter Antes do amanhecer/Antes do pôr do sol. Se essa condição é proposital ou não, provoca o diretor iraniano, cabe ao olhar do espectador.

O trânsito de ideias em “Cópia fiel” é tão vasto e complexo que ao seu final não se pode afirmar se o jogo de cena dos personagens se sucedeu por curiosidade intelectual, flerte incidental ou se o jogo de cena que existia (sem nos darmos conta) deu vazão à crua realidade, ainda que temperada pelo lirismo europeu que Kiarostami filma como o turista que é.

É inegável que “Cópia fiel” é um filme de ideias. Que se pretende erudito, ainda que desenvolvido na simplicidade dos diálogos. Contudo, o grande “porém” do filme, é que, em seu âmago, ele não convence. James Miller escreveu o livro para se convencer de suas próprias ideias, admite o próprio em determinado momento. Tudo leva a crer que Kiarostami rodou este filme, seu primeiro no exílio na Europa, com o mesmo intuito. Mas “Cópia fiel” não cativa como cinema o tanto que cativa como ensaio. É uma pena. Apesar da boa química entre os atores, e Shimell em sua estréia é um achado, a fita se torna depositária do olhar do espectador. Essa volubilidade, até certo ponto pretendida, atesta a ideia do filme, mas o segmenta em apreciações genéricas como a força dos intérpretes, a beleza da Toscana ou a inteligência do roteiro de Kiarostami.

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sexta-feira, 30 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:56

Espaço Cult – “Ela” ressalta valor de se viver emoções

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HerTheodore (Joaquin Phoenix) escreve cartas de amor. Elas não precisam ser necessariamente de amor, mas clientes que precisam de cartas de amor compõem a clientela básica do Beautifulletters.com. Sabemos que estamos em uma ficção científica porque em um futuro próximo, bizarramente e melancolicamente parecido com o nosso presente, as pessoas escrevem cartas, mesmo que paguem alguém para escrevê-las. Theodore leva jeito com as palavras; sabe transmitir sentimentos que não sãos seus com ternura e docilidade. No entanto, Theodore não consegue organizar satisfatoriamente seus sentimentos. Do tipo solitário, sua situação é agravada pela dificuldade que ele apresenta de superar o término de um relacionamento longo e significativo. Na verdade, Theodore não sabe exatamente se sente falta de Catherine (Rooney Mara) ou de quem ele era com ela.

Theodore é daqueles que confiam à tecnologia vigente as miudezas da vida. É seu sistema operacional quem escolhe as músicas que ouve, lhe apresenta as notícias do dia, a previsão do tempo, entre outras coisas. Quando um novo sistema operacional, com a promessa de ser mais intuitivo e ajustável à personalidade do dono é lançado, Theodore, como um geek em todo o seu esplendor, logo compra a novidade. Depois de algumas perguntas, as quais Theodore pouco contribui com respostas, Samantha emerge com a voz rouca, sensual e abrasadora de Scarlett Johansson.

A partir daí se estabelece uma dinâmica que aos poucos vai evoluindo para uma relação amorosa. A maneira como Jonze tece essa história de amor nada convencional é tão imaginativa como sensível. À medida que Samantha vai dominando não só os pensamentos como o cotidiano de Theodore, ele, a princípio, se sente renovado. Com o tempo, no entanto, ele começa a divagar sobre a natureza de seu sentimento por Samantha e se há, de fato, um futuro para eles.

No mundo criado por Jonze, os relacionamentos entre humanos e sistemas operacionais estão ficando populares e há até quem se ofereça como uma espécie de cupido moderno para dar corpo a uma relação incorpórea. Quando isso acontece com Samantha e Theodore, “Ela” (2013) atinge um nível de sensibilidade em sua proposta maior que a vida.

A principal razão de ser desse belo, dolorosamente romântico e profundamente poético filme de Spike Jonze é conjecturar sobre a incrível necessidade humana de se conectar. Ela é tão forte que se pluga até mesmo ao que não for real. Não se trata de uma crítica a esse tempo de hiper-conectividade (um tipo de conexão totalmente diferente, afinal), ainda que essa crítica possa ser apreciada em um dos muitos subtextos do filme.

Amar é não racionalizar, racionaliza Jonze com uma amargura que paradoxalmente faz “Ela” soar ainda mais doce. É particularmente saboroso constatar que “Ela” é uma resposta mais complexa, mais doída e mais bem urdida a “Encontros e desencontros” (2003), de Sofia Coppola. Sofia e Jonze foram casados e as coisas não deram muito certo. Essa DR cinematografia, com Scarlett Johansson como uma espécie de hiperlink torna os dois filmes especialmente significativos para toda uma geração de cinéfilos.

Theodore conhece Samantha: o rosa, os bigodes e as calças caquis dão o tom do futuro

Theodore conhece Samantha: o rosa, os bigodes e as calças caquis dão o tom do futuro

 

Scarlett Johansson com Bill Murray em Encontros e desencontros: DR cinematográfica   (Fotos: divulgação)

Scarlett Johansson com Bill Murray em Encontros e desencontros: DR cinematográfica (Fotos: divulgação)

Por falar em trunfos, Joaquin Phoenix segue desafiando convenções. O ue esse monstro da atuação não é capaz de fazer? Totalmente entregue a um personagem difícil, hermético e em um tom totalmente diferente de tudo que já fizera como ator, Phoenix é o coração de “Ela”. Sem ele, o filme talvez não se conectasse (conceito tão importante na narrativa de Jonze) com a audiência.

Morfologias à parte, “Ela” é relevante por abordar o status quo de toda uma geração de maneira tão bela e suave. Fluindo entre o humor e o drama, Jonze faz um filme solar que sabe se alimentar da tristeza. Um filme especialmente eloquente para quem quer que já tenha amado.

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quarta-feira, 14 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:36

Espaço Cult: “Só Deus perdoa”

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Ryan Gosling em cena do filme "Só Deus perdoa" (Foto: divulgação)

Ryan Gosling em cena do filme “Só Deus perdoa” (Foto: divulgação)

Nicolas Winding Refn não era exatamente um novato, mas um desconhecido quando impressionou o mundo com o estilizado e impactante “Drive” em 2011, mas o prêmio de melhor diretor conquistado em Cannes naquele ano e a forte acolhida da crítica lhe motivaram a ser ainda mais autoral no seu trabalho seguinte. Diferentemente de “Drive”, no entanto, “Só Deus perdoa” (2013) tinha a forte libido das expectativas a lhe preceder. E o resultado da combinação entre expectativas exacerbadas e veia autoral irrestrita não poderia ser mais desestabilizador.

Não é o caso de dizer que o filme é ruim. Ou bom, que o valha. “Só Deus perdoa” é um filme de clima, filme com uma proposta muito clara, ainda que complexa: subverter uma narrativa clássica do gênero da ação com arrojo estético tão prolixo que beira o delírio.

No filme, Ryan Gosling volta a viver um tipo silencioso. Ele é Julian, dono de uma academia de boxe na Tailândia que é, também, traficante de drogas. Depois que seu irmão é assassinado, Julian é incitado pela controladora mãe (papel de Kristin Scott Thomas) a vingá-lo. Acontece que seu irmão foi morto pelo pai da menina de 16 anos que ele havia estuprado e matado. E a sina vingativa da mãe de Julian esbarra em um policial pouco ortodoxo que costuma tomar a justiça em suas próprias mãos, papel de Vithaya Pansringarm.

A sinopse sugere um filme muito mais acelerado do que o que se tem. “Só Deus perdoa” conjuga violência, luzes frias e silêncios como se somente esses recursos viabilizassem a narrativa cinematográfica. A ideia de Refn não é fazer um filme de ação, mas pensar o gênero. Ele se apropria do mote mais manjado (policial faz justiça com as próprias mãos e enfrenta cartel de traficantes) e tira toda a velocidade da narrativa, preservando os personagens comuns, a cena de luta bem coreografada e a sede de vingança que movimenta a trama.

A montagem não busca revelar, mas esconder. A relação de Julian com sua mãe é erguida sobre elipses e o fantasma da sexualidade é uma presença marcante. Em filmes de ação, os personagens costumam alimentar uma tensão sexual improvável para tais circunstâncias, mas Refn recorre a Freud e estabelece uma lógica edipiana por trás das hesitações de Julian em assumir o papel que sua mãe dele espera.

Mas o melhor do filme de Refn, que para todos os efeitos é menos entusiasmante do que “Drive”, é mesmo Kristin Scott Thomas. Aos 54 anos, a atriz ainda consegue projetar-se como um vulcão de sexualidade e sempre que surge em cena eleva o interesse da audiência. Thomas captura a essência da dramaturgia de Refn em “Só Deus perdoa” e quanto mais se revela, mais esconde de sua personagem. Uma atuação que sobrevive à provável decepção que muitos terão com o filme.

Kristin Scott Thomas como a loira platinada mais selvagem que você poderia imaginar ( Foto: divulgação)

Kristin Scott Thomas como a loira platinada mais selvagem que você poderia imaginar ( Foto: divulgação)

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