Publicidade

Posts com a Tag Hollywood

segunda-feira, 16 de outubro de 2017 Análises, Bastidores | 15:45

Oscar e Hollywood ganham a chance de se reinventar na era pós- Harvey Weinstein

Compartilhe: Twitter

Produtor de Hollywood caiu em desgraça e denúncias que pipocam contra ele, mas também contra outros figurões do cinema podem precipitar uma mudança de paradigma na indústria

Harvey Weinstein produziu e distribuiu todos os filmes de Quentin Tarantino, seu amigo pessoal e que ainda não deu declarações convictas após a explosão das denúncias

Harvey Weinstein produziu e distribuiu todos os filmes de Quentin Tarantino, seu amigo pessoal e que ainda não deu declarações convictas após a explosão das denúncias

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood após assembleia extraordinária realizada no último fim de semana expulsou Harvey Weinstein. É a segunda vez que um membro da instituição que outorga o Oscar é expulso, o primeiro foi Carmine Caridi, um ator que violou a política de sigilo envolvendo os screeners (maneira pela qual os acadêmicos veem muitos dos filmes que tentam vaga na premiação).

É difícil achar alguém em Hollywood que não tenha trabalhado com ou sob as ordens de Harvey Weinstein. Justamente por isso o caos na meca do cinema é tamanho após a reportagem do New York Times e da New Yorker revelando os maus-feitos do produtor. A saraivada de denúncias, depoimentos e desabafos que se sucedeu – e ainda ocupa o noticiário – era esperada. Bem como a ampliação de seus efeitos. Ben Affleck, Oliver Stone, Lars Von Trier e George Clooney já foram a abainhados pela espiral de denúncias de assédio que tomou Hollywood de assalto.

Woody Allen, outro envolto em polêmicas de pedofilia e abuso, alertou para uma “caça as bruxas” e o mundo do cinema parece enfeitiçado por um assunto que não deve ir embora (e talvez não deva mesmo) tão cedo.

A queda de um mito

Harvey Weinstein e Kate Winslet, uma das atrizes que venceu o Oscar apoiada pela máquina de Harvey

Harvey Weinstein e Kate Winslet, uma das atrizes que venceu o Oscar apoiada pela máquina de Harvey

Para além do que representa Harvey Weinstein enquanto homem e magnata de Hollywood – e para todos os efeitos ele é um símbolo perene do poder e seus tentáculos no cinema e em qualquer outra indústria – Harvey foi (o tempo passado já é presente nas referências a ele) um revolucionário no cinema americano. Primeiro por ter sido o arauto da revitalização do cinema independente norte-americano na década de 90, segundo por ter feito da campanha de promoção com vistas ao Oscar, uma arte de domínio particular.

Harvey Weinstein tornou-se um guru do Oscar. Filmes e celebridades promovidos por ele eram figuras dadas como certas na premiação. Produções contestadas como “Shakespeare Apaixonado” (1998) e “O Artista” (2011), esse com o acréscimo de ser estrangeiro, mudo e em preto e branco, triunfaram no Oscar e todo o crédito é plenamente atribuído a Weinstein.

Sempre se soube de seu temperamento opressor e de seu estigma rancoroso em Hollywood. Na série da HBO “Entourage” (2004 – 2011) o próprio aparece como ele mesmo “rindo” dessa situação. À luz das denúncias, cenas e acontecimentos do passado são reinterpretados. Quanto à Academia, ela já é cobrada a tomar providências a respeito de Roman Polanski, condenado por estupro de vulnerável, Bill Cosby e Mel Gibson. A inclusão do último nessa galeria é um reflexo da ardência do momento. Gibson pode até ser antissemita, mas não paira sobre ele suspeitas tão nocivas.

E como fica o business?

Hollywood não vai mudar da noite para o dia e a condução do “caso Harvey Weinstein” pela opinião pública demanda cautela. Afinal, passa pelo comportamento e postura da mídia a efetividade e longevidade de mudança de qualquer natureza em uma indústria notória por reger suas relações de maneira sexista e corporativista.

O efeito imediato é a debandada da The Weinstein Company. Até mesmo Bob Weinstein desandou a falar mal do irmão. Artistas estão pedindo para  retirar seus projetos do estúdio e produções que tentariam o Oscar, como “Terra Selvagem” e “The Current War” devem ser prejudicadas.

Harvey Weinstein e os premiados por "Shakespeare Apaixonado": uma vitória surpreendente que pavimentou a ascensão de um mito Fotos (AMPAS, reprodução Twitter)

Harvey Weinstein e os premiados por “Shakespeare Apaixonado”: uma vitória surpreendente que pavimentou a ascensão de um mito
Fotos (AMPAS, reprodução Twitter)

Quanto ao Oscar em si, os métodos patenteados por Weinstein há muito não são praticados só por ele. A corrida eleitoral que é a disputa pela estatueta mais cobiçada do cinema, no entanto, deve sentir a ausência de seu mais radical, desleal e competitivo fomentador.

A desgraça de Harvey Weinstein, no entanto, representa no longo prazo a chance de purificação da Academia. De resgate do valor dos filmes por eles mesmos. Um processo, na verdade, já em curso graças aos esforços de Cheryl Boone Isaacs que presidiu a instituição até o início deste ano. Para o bem ou para o mal, para a Academia, mas também para seu anjo caído, Hollywood adora uma segunda chance.

Autor: Tags: , , , , ,

terça-feira, 20 de junho de 2017 Análises, Bastidores, Notícias | 19:05

Mau jornalismo afeta agenda feminista com informações equivocadas sobre remuneração de Gal Gadot em “Mulher-Maravilha”

Compartilhe: Twitter

Informações mal apuradas substanciaram revolta nas redes sociais a respeito da disparidade salarial entre a Mulher-Maravilha e o Superman, mas a história estava mal contada

Superman, Mulher-Maravilha e Batman em cena de "Batman vs Superman" (Fotos: divulgação)

Superman, Mulher-Maravilha e Batman em cena de “Batman vs Superman”
(Fotos: divulgação)

É bem público e ainda mais notório que existe uma abismal diferença nos salários pagos aos atores e atrizes em Hollywood. Desde o Oscar 2015, com aquele emblemático discurso de Patricia Arquette, uma discussão séria e constante capitaneada por atrizes como Jessica Chastain, Natalie Portman, Robin Wright e Jennifer Lawrence tem sido abastecida quase que diariamente a respeito e já há (tímidos) sinais de mudança.

Leia também: “Mulher-Maravilha” é acerto da Warner em Hollywood, no cinema e na vida 

Na noite desta segunda-feira (19), porém, Hollywood foi tomada de assalto com a notícia de que Gal Gadot recebera US$ 300 mil pela atuação em “Mulher-Maravilha”, um reiterado sucesso de crítica e de público. Já Henry Cavill teria recebido US$ 14 milhões por “O Homem de Aço” (2013). O artigo da edição americana da Elle, embasado em um dado divulgado pela Variety em 2014, detonou uma reação global de achaque a Warner por sexismo. Foi tudo um mal entendido, para dizer o mínimo.  Um reflexo desses tempos afoitos de redes sociais em que se tem como objetivo não noticiar, mas viralizar nas redes.

Leia também: Entretenimento de primeira, “Mulher- Maravilha” é o filme que o mundo esperava

Existe, sim, uma diferença alarmante na remuneração praticada por estúdios junto a atores e atrizes, mas aqui, no caso que gerou protestos e indignação de toda ordem, ela não existe. É praxe na negociação de contratos de filmes de super-heróis – o gênero mais abundante e lucrativo do cinema contemporâneo – vincular salários e bônus ao rendimento dos filmes, bem como já alinhar contratos duradouros para três ou mais filmes.

Gal Gadot é a Mulher-Maravilha

Gal Gadot é a Mulher-Maravilha

Os US$ 14 milhões atribuídos a Cavill, que é importante frisar não são passíveis de confirmação, contabilizam bônus por performance de bilheteria de três filmes em que ele surja como o Superman. Além do mais, o orçamento de “O Homem de Aço” foi de US$ 250 milhões, o que permitia certa extravagância na remuneração do elenco, que ainda contou com nomes como Kevin Costner, Russell Crowe, Amy Adams e Michael Shannon. Já “Mulher-Maravilha”, que ainda não superou “O Homem de Aço” nas bilheterias, mas já é percebido como um sucesso, foi orçado em US$ 125 milhões.

Os US$ 300 mil de Gal Gadot, contrato estabelecido nos mesmos moldes do de Chris Evans , o Capitão América, e Chris Hemsworth, o Thor, da rival Marvel, não considera os bônus por performance nas bilheterias. Até porque esses bônus não estão fechados. O contrato também prevê US$ 300 mil de remuneração básica por filme e cobre três filmes. O terceiro sendo “Liga da Justiça”, que estreia em novembro deste ano. Para  o segundo “Mulher-Maravilha”, portanto, um novo contrato será redigido. O valor da remuneração, não estranhem, deve continuar baixo. Para o intérprete, seja ele ator ou atriz, mais vale beliscar o lucro do filme na bilheteria e Gal Gadot já se capitalizou para pleitear cerca de 10% da bilheteria do filme.

Leia também: “Eles fizeram algo especial”, diz diretora sobre atores de “Mulher-Maravilha”

A julgar pela bilheteria de “Mulher -Maravilha”, a atriz receberia por performance algo em torno de US$ 6 milhões, fora os US$ 300 mil da remuneração básica.

Hollywood gosta de ferver seus boatos e um jornalismo cada vez mais impreciso, cada vez mais refém dos humores das redes sociais, vira palha nessa fogueira de vaidades. Pior: a verdadeira demanda por paridade salarial acaba eclipsada à luz de uma patetada como essa.

 

Autor: Tags: , , , ,

sábado, 18 de junho de 2016 Análises, Bastidores, Filmes | 20:17

Fracasso de continuações acende sinal de alerta em Hollywood

Compartilhe: Twitter

É público e notório que Hollywood está cada vez mais dependente das sequências e franquias. Muito já se falou da falta de criatividade que assombra a Meca do cinema e do receio exacerbado de executivos e estúdios em apostar no incerto e correr riscos com filmes originais. O que esse primeiro semestre de 2016 revela, no entanto, é ainda mais preocupante. Na ânsia para surfar em sucessos não necessariamente retumbantes, Hollywood tem ofertado continuações que ninguém quer ver. É uma crise insuspeita e inesperada essa que se estabelece no coração do cinema americano.

Megan Fox em cena de "As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras", em estreia no Brasil: bilheterias decepcionantes (Foto: divulgação)

Megan Fox em cena de “As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras”, em estreia no Brasil: bilheterias decepcionantes
(Foto: divulgação)

“Vizinhos 2”, “Alice Através do Espelho”, “O Caçador e a Rainha do Gelo”, “As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras” e “Policial em Apuros 2” são sequências diretas de filmes lançados entre 2012 e 2014 que, se não fracassaram retumbantemente nas bilheterias, ficaram bem aquém das expectativas dos estúdios. Em uma temporada que sequências e franquias são os principais atrativos do cinema americano, como em qualquer outro ano, esse dado preocupa bastante.

A lista de sequências de desempenho pífio ainda conta com “Zoolander 2”.

Mesmo um filme como “A Saga Divergente: Convergente”, com um público já fidelizado, decepcionou nas bilheterias. A frustração foi tão grande que a Lionsgate, estúdio por trás da franquia, reduziu o orçamento da última parte da adaptação cinematográfica da obra de Veronica Roth.

O ano ainda terá um quinto “A Era do Gelo”, um segundo e temporão “Independence Day”, uma refilmagem de “Os Caça-Fantasmas” só com mulheres, um quinto Bourne, uma improvável sequência de “Procurando Nemo” e um novo “Star Trek”. O vigente verão americano apresenta uma queda de 65% de bilheteria em relação ao ano passado. Os números, claro, ainda não estão fechados e até o fim de agosto muita coisa pode e vai mudar. Mas existe uma tendência clara e, muito provavelmente, irrefreável nas entrelinhas.

Cena de "Zoolander 2": Muitas estrelas em cena e pouco dinheiro em caixa (Foto: divulgação)

Cena de “Zoolander 2”: Muitas estrelas em cena e pouco dinheiro em caixa
(Foto: divulgação)

O público não vai mais aceitar goela abaixo sequências enlatadas e produzidas a toque de caixa. Um exemplo disso é a bilheteria decepcionante de “X-men: Apocalipse”. O filme recebeu resenhas ruins e em cartaz há praticamente um mês, ainda não cruzou os U$ 500 milhões de faturamento no mundo e não deve nem mesmo alcançar os U$ 200 milhões nos EUA.

Há muitas razões contribuindo para este cenário. A preponderante, obviamente, é a qualidade baixa dos filmes em questão. Em um segundo momento, Hollywood não tem deixado o público sentir falta, nostalgia de certos filmes. O que ajuda a entender o fenômeno de bilheteria de produções como “Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros” e “Star Wars: O Despertar da Força” no ano passado é o longo hiato entre os filmes dessas franquias.

Uma boa sequência será abraçada pelo público, como mostra o sucesso de “Invocação do Mal 2”. A continuação de um filme recente, o primeiro é de 2013, que se mostrou o ponto fora da curva e já se pagou no primeiro fim de semana nos EUA.

Leia também: O mal (ainda invisível) que a Marvel fez ao cinema

De qualquer modo, Hollywood se flagra em uma sinuca. Enquanto estúdios tentam emplacar multiversos em suas franquias mais valiosas, mirando-se no exemplo da Marvel, veem o desgaste de sequências mal planejadas e liberadas a canetadas. Como equilibrar a equação? A receita é conhecida, mas filmes novos (que não são continuações ou refilmagens) como “Dois Caras Legais” e “Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos” também fracassaram nas bilheterias. A aversão ao risco em Hollywood pode ter gerado uma bolha que, quando explodir, vai causar estragos.

"Invocação do Mal 2": a exceção de uma nova regra? (Foto: divulgação)

“Invocação do Mal 2”: a exceção de uma nova regra?
(Foto: divulgação)

Autor: Tags: , ,

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016 Análises | 14:10

O efeito Deadpool já se faz sentir em Hollywood e filmes de heróis devem mudar

Compartilhe: Twitter

O sucesso de “Deadpool” desnorteou os executivos de Hollywood. Isso pode ser muito positivo no curto prazo; mas como Hollywood é um lugar complexo pode se tornar algo bem ruim no médio prazo.

Antes de avançar no raciocínio é preciso voltar um pouco no tempo e entender o sucesso de “Deadpool”.

O filme, que custou cerca de US$ 80 milhões e já arrecadou o dobro disso globalmente em apenas um fim de semana, foi alvo de uma campanha de marketing agressiva na internet. Ryan Reynolds, que lutou com unhas e dentes para tirar o projeto da gaveta, se engajou de uma maneira incomum para astros hollywoodianos nessa corrente promocional ainda tão pouco (bem) explorada pelos estúdios.

Crítica: “Deadpool” presenteia público com humor sem concessões 

Isso, aliado ao fato do filme ser exatamente aquilo que seus realizadores idealizaram (uma comédia de ação virulenta, cheia de referências pop e recheada de humor negro), ajuda a entender o porquê do sucesso acachapante do longa. A data da estreia, estrategicamente alocada em uma janela sem grandes lançamentos, reforçou o poder de alcance do filme.

Foto (Divulgação)

Foto (Divulgação)

Hollywood ainda tenta assimiliar o que é causa e o que é efeito no sucesso de “Deadpool”, mas já há vozes pondo lenha na fogueira. O diretor James Gunn, que com o seu “Guardiões da Galáxia” alcançou êxito muito semelhante ao de “Deadpool”, expressou descrença de que algo genuinamente positivo possa emergir dessas circunstâncias.

“Você vai ver Hollywood entendendo tudo errado a partir desta lição”, escreveu o cineasta em seu Facebook. “Eu vi isso acontecer com ‘Guardiões.’ Eles não vão entender um filme original e sem medo de correr riscos. Eles vão liberar filmes de heróis cômicos que quebrem a quarta parede. Eles vão te tratar como idiota, algo que ‘Deadpool’ não fez”.

Se essa previsão pessimista vai vingar ou não (e é provável que vingue), ainda é cedo para saber, mas a Fox já repensa seus próximos lançamentos. O terceiro filme solo de Wolverine, previsto para 2017, pode receber o “tratamento Deadpool” e ser proibido para menores de 17 anos desacompanhados dos pais nos EUA, e para menores de 16 anos no Brasil.

Leia também: Pansexual, Deadpool chega aos cinemas para revolucionar filmes de heróis

A grande ironia é que Darren Aronofsky deixou a direção de “Wolverine: Imortal” (2013) porque havia pensando em um filme mais violento, cru e entrado em desacordo com o estúdio. Wolverine, que certamente não recepciona o mesmo tipo de humor de Deadpool, é um personagem que já pedia há algum tempo um tratamento mais sombrio no cinema.

É, porém, necessário ter a percepção de que o sucesso de um filme em suas peculiares circunstâncias não será plenamente replicado por outro, mas “Deadpool” chegou mesmo para embaralhar o tumultuado e, até certo ponto, exaurido cenário dos filmes de super-heróis. A ideia de deixar os filmes mais com cara de ‘filme adulto’ pode ser uma alternativa. As séries da parceria Marvel/Netflix já sinalizavam isso. Hollywood, de vez em quando, fica perseguindo a cauda. As vezes encontra.

Autor: Tags: , , ,

sábado, 20 de dezembro de 2014 Análises, Bastidores, Curiosidades | 05:27

Coreia do Norte e Hollywood: um caso de desamor

Compartilhe: Twitter
O King Jong-Un, vivvido pelo ator Randall Park, de "A entrevista": filme que enseja o clímax de uma relação de desdém que já se intensificava

O King Jong-Un, vivido pelo ator Randall Park, de “A entrevista”: filme que enseja o clímax de uma relação de desdém que já se intensificava

Reza a lenda que King Jong-Un, o líder supremo e excêntrico da Coreia do Norte tão em voga atualmente, herdou de seu pai, King Jong-il, o gosto pelo cinema. Além da amizade com o ex-astro do basquete Dennis Rodman, ele seria fã de Keanu Reeves e um tremendo Bondmaníaco. Seu pai ainda ocupava o poder quando o 007 de Pierce Brosnan enfrentou um lunático norte-coreano que desejava dominar o mundo em “007 – Um novo dia para morrer” (2002), aquele em que Madonna canta a música tema e dá aulas de esgrima.

O filho pode não ter o senso de humor do pai ou mesmo a tolerância à sátira, mas já era o supremo mandatário do País quando Hollywood acertou outro petardo contra o status quo norte-coreano. O diretor Antoine Fuqua (“Dia de treinamento” e “O protetor”) lançou em abril de 2013, em plena tensão na península coreana que movimentou a geopolítica da região e pôs o mundo em alerta com as ameaças de King Jong-Un em lançar mísseis contra Japão, Coreia do Sul e EUA, o filme “Invasão a Casa Branca”, que ficou inexplicavelmente sem a crase. Na trama, Gerard Butler faz um agente do serviço secreto que move mundos e fundos para resgatar o presidente dos EUA (Aaron Eckhart) feito refém de terroristas norte-coreanos que invadiram em questão de minutos, de maneira cinematográfica, o maior símbolo do poder ocidental.

Como curiosidade, um dos terroristas do filme é vivido pelo mesmo Rick Yune que faz um dos vilões de “Um novo dia para morrer”. Talvez King Jong-Um não tenha se incomodado tanto com “Invasão a Casa Branca”, porque embora os coreanos sejam derrotados, em nenhum outro filme hollywoodiano terroristas tinham ido tão longe na destruição do símbolo máximo do poder ianque. “Independence Day” (1996), por razões óbvias, não conta.

Especulações à parte, a Coreia do Norte vinha superando a Rússia – desde a eclosão da Guerra Fria a tradicional nação vilã nos filmes hollywoodianos – no antagonismo geopolítico do cinemão.

Leia mais: “É loucura deixar a Coreia do Norte ditar o conteúdo”, diz Clooney

O primeiro indício dessa tendência estava em “Salt”, (2010), fita de ação estrelada por Angelina Jolie, em que ela faz uma agente da CIA acusada de ser uma espiã russa. O detalhe? O filme começa com Jolie sendo torturada em uma prisão norte-coreana.

Rick Yune, o maior terrorista norte-coreano de Hollywood, encara Aaron Eckhart em "Invasão a Casa Branca"

Rick Yune, o maior terrorista norte-coreano de Hollywood, encara Aaron Eckhart em “Invasão a Casa Branca”

Halle Berry se une ao James Bond de Pierce Brosnan para impedir seguir o rastro de Rick Yune no filme de 2002

Halle Berry se une ao James Bond de Pierce Brosnan para seguir o rastro de Rick Yune no filme de 2002

A mira na Coreia à espera da recíproca

Um filme obscuro de 1984 com Charlie Sheen e Patrick Swayze sobre um grupo de estudantes que é a última resistência à invasão soviética em solo americano ganhou uma refilmagem em 2011. A ideia era trocar os russos pelos chineses. Com o filme pronto, o estúdio MGM percebeu que a Coreia do Norte, pelo exotismo e pelo mistério, daria um antagonista melhor e deu mais U$ 1 milhão para o diretor Dan Bradley redublar os vilões, mudar uns símbolos aqui e ali e fazer com que chineses virassem norte-coreanos. O filme estreou em 2013, um ano após “Os vingadores” e se beneficiou de Chris Hemsworth, que quando rodou o filme era um ilustre desconhecido, ser um astro famoso por viver o herói Thor.

Outro blockbuster hollywoodiano elegeu a Coreia do Norte como alvo. Em “G.I Joe: Retaliação”, um farsante que se passa pelo presidente dos EUA diz que bombardeará a Coreia do Norte “15 vezes seguidas só para ter certeza”. Trata-se de uma piada, de gosto duvidoso, mas uma piada. Piada esta que o filme “A entrevista” eleva à décima potência. O filme, cujo roteiro foi escrito a partir de uma ideia de Seth Rogen e Evan Goldberg (eles escreveram perolas da cultura pop como “Superbad – é hoje” e “Segurando as pontas”), mostra dois jornalistas despirocados que recebem da CIA a missão de assassinar King Jong-Un.

A Coreia do Norte já havia condenado o filme, mas negado com veemência qualquer participação nos cyber ataques contra o estúdio Sony. O FBI confirmou nesta sexta-feira (19) que o governo da Coreia do Norte teve papel central nas ofensivas contra a Sony.

Leia mais: Obama diz que Sony “cometeu um erro” ao cancelar estreia de “A entrevista”

Veja também: FBI diz que Coreia do Norte está por trás de ataque de hackers contra a Sony

Ainda é incerto o desfecho deste imbróglio que rapidamente se transformou em um vexatório episódio de cerceamento à liberdade de expressão e caminha para se assumir como o incidente diplomático que desde os primeiros ataques hackers estava destinado a ser. A Sony, naturalmente, estuda estratégias de capitalizar com toda a repercussão que “A entrevista” vem recebendo. O lançamento em plataforma digital, como foi aventado aqui neste Cineclube minutos depois da confirmação de que “A entrevista” não seria lançado nos cinemas americanos, ganha força como alternativa para o estúdio e para a restituição de algumas bases da liberdade de expressão. Após a fala de Obama, do posicionamento do FBI e de toda a agitação diplomática que deve se suceder, mesmo um lançamento em cinema não pode ser descartado.

Seth Rogen, que também dirige o filme, orienta James Franco e sua versão de King Jong-Um

Seth Rogen, que também dirige o filme, orienta James Franco e sua versão de King Jong-Un

O pai de King Jong-Um era o grande vilão da sátira "Team America": ele não achou ruim... (Fotos: divulgação)

O pai de King Jong-Un era o grande vilão da sátira “Team America”: ele não achou ruim…
(Fotos: divulgação)

A reação de Hollywood como um todo tem sido de espanto, incredulidade e receio pelo que a decisão da Sony pode representar nas esferas artística, comercial e democrática. O Sonygate, como já vem sendo carinhosamente chamado todo esse imbróglio, certamente já é mais interessante do que qualquer filme hollywoodiano da temporada.

De qualquer forma, vale o registro de que em 2004 os criadores de “South Park”, Trey Parker e Matt Stone, lançaram “Team America: detonando o mundo”, filme em que uma equipe tática formada por policiais americanos tenta salvar o mundo de uma violenta conspiração terrorista liderada por King Jong-il. George Clooney, Matt Damon e Ethan Hawke foram algumas das estrelas entre o time de dubladores das marionetes.

Eram outros tempos. Talvez King Jong-Un seja mais ambicioso que seu pai. Rejeitou qualquer traço de humor, superou os russos do lado de cá das telas e resolveu medir forças de verdade com Hollywood. Por enquanto, para infortúnio de quem se atém a valores democráticos e gosta de cinema, ele está ganhando.

Autor: Tags: , , , ,

sexta-feira, 3 de outubro de 2014 Bastidores, Curiosidades | 21:22

Oferta pública de ações de astros de cinema é o buzz do momento em Hollywood

Compartilhe: Twitter

Reportagem do semanário The Hollywood Reporter caiu como uma bomba no mundo do cinema. Uma empresa denominada Fantex, com sede em São Francisco, cidade relativamente próxima à Los Angeles que abriga Hollywood, lançou um programa em que investidores podem comprar e vender ações de pessoas. Até o momento, a Fantex tem se dedicado a atletas, uma maneira de ajudá-los a capitalizar na decolagem da carreira, mas os planos da empresa são grandes. Astronômicos para ser exato.

A Fantex planeja levar essa novidade para o mundo do entretenimento. A empresa aposta na aceitação do projeto em larga escala. Imagine se você pudesse comprar ações de Robert Downey Jr. e trocar por alguns papéis de Ben Affleck? ´”É empolgante”, provoca Buck French, CEO da Fantex em entrevista à publicação americana.

Ben Affleck, diretor de prestígio e novo Batman, teria papéis valorizados para investimento no momento

Ben Affleck, diretor de prestígio e novo Batman, teria papéis valorizados para investimento no momento

O conceito é o seguinte: o ator ou atriz abre mão de uma fatia de seus futuros ganhos com filmes, contratos publicitários e de outras naturezas em troca de um polpudo cheque. Dinheiro no ato em troca de um futuro financeiro compartilhado. A partir dessa fatia, que pode ser de 10%, 30% ou até 80%, a Fantex iria recolher esses proventos, vender ações para os investidores e pagar os juros provenientes dos investimentos.

O ator ou atriz manteria total autonomia nas escolhas de seus projetos. Dessa forma, um investidor não poderia influenciar, por exemplo, na escolha de Tom Cruise fazer ou não um sexto filme da franquia “Missão impossível”. Ou forçar Robert Downey Jr. a renovar seu contrato com a Marvel. Essa é uma das principais diferenças em relação a um dos alicerces do livre mercado, quando o conjunto de acionistas avalia as grandes decisões do cotidiano de uma empresa com capital aberto.

A ideia, que ainda está sendo prospectada em Hollywood, já divide opiniões. Há quem acredite que se a moda pegar, o interesse pela vida íntima das celebridades irá convulsionar. Outros creem que pessoas com acesso às informações de bastidores se beneficiariam.

Os otimistas acreditam na possibilidade de se ampliar a base de fãs de certas celebridades e, também, expandir as possibilidades de novos negócios para elas.

Do ponto de vista do financiamento, há outros potenciais problemas. E se um ator resolve se aposentar? Tirar um ano sabático? Entrar na rehab? O CEO da Fantex, no entanto, diz que os riscos desses investimentos seriam da mesma proporção de comprar títulos do tesouro americano.

Jennefer a Lawrence, a it girl do cinema pop atual. Para alguém como ela, fazer um IPO seria um bom negócio?

Jennifer a Lawrence, a it girl do cinema pop atual. Para alguém como ela,
fazer um IPO seria um bom negócio?

John Travolta, se debate entre sucessos e fracassos  ao longo das décadas. Tipo de investimento de risco

John Travolta: ator se debate entre sucessos e fracassos ao longo das décadas. Tipo de investimento de risco (Fotos: divulgação e People)

Ou seja, atores que oscilam entre sucessos de bilheteria e fracassos retumbantes, como John Travolta ou Bruce Willis, devem ser evitados por investidores conservadores. Já uma atriz como Meryl Streep é uma aposta tão segura como os títulos da dívida pública dos Estados Unidos.

De qualquer maneira, Hollywood ainda vê tudo isso como uma discussão embrionária.

Buck French, porém, profetiza: “Vai acontecer! Pode não ser este ano, mas não se surpreenda quando o culto às celebridades se misturar com o mercado de capitais”.

Autor: Tags: , ,

segunda-feira, 28 de julho de 2014 Curiosidades, Filmes, Listas | 22:35

A história de Hollywood em dez filmes

Compartilhe: Twitter

O jornal inglês The Telegraph lançou um desafio inusitado. É possível contar a história de Hollywood em dez filmes? A ideia é agregar as produções que, não só influenciaram o modo de se fazer cinema dali em diante, mas que mimetizem o espírito da Meca do cinema em cada época.

Como em toda lista, há margem para discordâncias e interpretações diversas, mas a lista formulada pelo jornalista Robbie Colin paira acima das suspeitas mais superficiais. Eis ela:

 

Cena do filme "A conversação"

Cena do filme “A conversação”

“Uma semana”, de Buster Keaton (1920)

“Aconteceu naquela noite”, de Frank Capra (1934)

“No tempo das diligências”, de John Ford (1939)

“Fuga ao passado”, de Jacques Tourneur (1947)

“Sinfonia de Paris”, de Vicente Minneli (1951)

“À queima roupa”, de John Boorman (1967)

“A conversação”, de Francis Ford Coppola (1974)

“De volta para o futuro”, de Robert Zemeckis (1985)

“Pulp Fiction – tempo de violência”, de Quentin Tarantino (1994)

“Batman – o cavaleiro das trevas”, de Chistopher Nolan (2008)

 

O Cineclube, instigado por este exercício de cinefilia e história, elaborou a própria lista com o mesmo objetivo. Eis ela:

 

Cena de "A rede social"

Cena de “A rede social”

“O nascimento de uma nação”, de D.W. Griffith (1915)

“Tempos modernos”, de Charles Chaplin (1936)

“E o vento levou…”, de Victor Fleming (1939)

“Como era verde o meu vale”, de John Ford (1941)

“Sindicato de ladrões”, de Elia Kazan (1954)

“Amor sublime amor”, de Robert Wise e Jerome Robbins (1961)

“Tubarão”, de Steven Spielberg (1975)

“Taxi driver”, de Martin Scorsese (1976)

“Fargo”, de Joel e Ethan Coen (1996)

“A Rede social”, de David Fincher (2010)

 

Cena de "Sindicato de ladrões"

Cena de “Sindicato de ladrões”

Cena de "Taxi driver"

Cena de “Taxi driver” (Fotos: divulgação)

A lista se justifica nas inteirezas e nas sutilezas. “O nascimento de uma nação” aborda os eventos mais importantes da fomentação da América tudo pela ótica de duas famílias. É um dos filmes que moldaram a narrativa cinematográfica como a conhecemos. “Tempos modernos”, com sua ousada crônica da revolução industrial é um exemplo de como Hollywood sabe aproveitar talentos estrangeiros, no caso, Chaplin.

Já “E o vento levou” foi o primeiro épico hollywoodiano e, com valores atualizados pela inflação, um dos três filmes de maior bilheteria de todos os tempos.

Já “Como era verde o meu vale” é a opção mais fidedigna de narrativa hollywoodiana. O filme de John Ford prevaleceu no Oscar sobre “Cidadão Kane”, de Orson Welles, por muitos considerados um dos melhores filmes da história. A vitória deste épico familiar traduz muito da concepção de cinema em voga ainda hoje em Hollywood. “Sindicato de ladrões”, por seu turno, mostra o viés político do cinema hollywoodiano e sua veia liberal então efervescente.

“Amor sublime amor” é o triunfo do musical, esse gênero tão teatral que de quando em quando brilha no cinema. O filme é um dos maiores vencedores do Oscar e um grande sucesso de bilheteria. Além, é claro, de provar a versatilidade da shakespeariana história de Romeu e Julieta.

Steven Spielberg entra na lista com “Tubarão”, filme que inaugurou o que hoje chamamos de temporada de blockbusters (ou verão americano) e, literalmente, salvou Hollywood da bancarrota.  Os anos 70 tem dois filmes porque, depois dos anos 30, foram os mais importantes do cinema americano. Quando ele se revitalizou impulsionado por novos diretores criativos e inovadores. Martin Scorsese era um deles e “Taxi driver” um dos expoentes desse movimento.

Na lista do The Telegraph aparece “Pulp Fiction”. A opção por “Fargo” é uma provocação. O grande mérito oculto de Quentin Tarantino talvez tenha sido chamar atenção para o cinema dos Coen, hoje uma unanimidade, mas que antes de “Pulp Fiction” raramente eram notados por Hollywood. “Fargo” mudou este panorama.

“A rede social” não é apenas um filme sobre as circunstâncias da criação da maior rede social de nossos tempos. É um filme que se apresenta como síntese da linguagem de nossa era e, também, a melhor representação da chamada geração y que já começa a mandar e desmandar nos padrões de Hollywood também.

Autor: Tags: ,