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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016 Análises | 14:10

O efeito Deadpool já se faz sentir em Hollywood e filmes de heróis devem mudar

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O sucesso de “Deadpool” desnorteou os executivos de Hollywood. Isso pode ser muito positivo no curto prazo; mas como Hollywood é um lugar complexo pode se tornar algo bem ruim no médio prazo.

Antes de avançar no raciocínio é preciso voltar um pouco no tempo e entender o sucesso de “Deadpool”.

O filme, que custou cerca de US$ 80 milhões e já arrecadou o dobro disso globalmente em apenas um fim de semana, foi alvo de uma campanha de marketing agressiva na internet. Ryan Reynolds, que lutou com unhas e dentes para tirar o projeto da gaveta, se engajou de uma maneira incomum para astros hollywoodianos nessa corrente promocional ainda tão pouco (bem) explorada pelos estúdios.

Crítica: “Deadpool” presenteia público com humor sem concessões 

Isso, aliado ao fato do filme ser exatamente aquilo que seus realizadores idealizaram (uma comédia de ação virulenta, cheia de referências pop e recheada de humor negro), ajuda a entender o porquê do sucesso acachapante do longa. A data da estreia, estrategicamente alocada em uma janela sem grandes lançamentos, reforçou o poder de alcance do filme.

Foto (Divulgação)

Foto (Divulgação)

Hollywood ainda tenta assimiliar o que é causa e o que é efeito no sucesso de “Deadpool”, mas já há vozes pondo lenha na fogueira. O diretor James Gunn, que com o seu “Guardiões da Galáxia” alcançou êxito muito semelhante ao de “Deadpool”, expressou descrença de que algo genuinamente positivo possa emergir dessas circunstâncias.

“Você vai ver Hollywood entendendo tudo errado a partir desta lição”, escreveu o cineasta em seu Facebook. “Eu vi isso acontecer com ‘Guardiões.’ Eles não vão entender um filme original e sem medo de correr riscos. Eles vão liberar filmes de heróis cômicos que quebrem a quarta parede. Eles vão te tratar como idiota, algo que ‘Deadpool’ não fez”.

Se essa previsão pessimista vai vingar ou não (e é provável que vingue), ainda é cedo para saber, mas a Fox já repensa seus próximos lançamentos. O terceiro filme solo de Wolverine, previsto para 2017, pode receber o “tratamento Deadpool” e ser proibido para menores de 17 anos desacompanhados dos pais nos EUA, e para menores de 16 anos no Brasil.

Leia também: Pansexual, Deadpool chega aos cinemas para revolucionar filmes de heróis

A grande ironia é que Darren Aronofsky deixou a direção de “Wolverine: Imortal” (2013) porque havia pensando em um filme mais violento, cru e entrado em desacordo com o estúdio. Wolverine, que certamente não recepciona o mesmo tipo de humor de Deadpool, é um personagem que já pedia há algum tempo um tratamento mais sombrio no cinema.

É, porém, necessário ter a percepção de que o sucesso de um filme em suas peculiares circunstâncias não será plenamente replicado por outro, mas “Deadpool” chegou mesmo para embaralhar o tumultuado e, até certo ponto, exaurido cenário dos filmes de super-heróis. A ideia de deixar os filmes mais com cara de ‘filme adulto’ pode ser uma alternativa. As séries da parceria Marvel/Netflix já sinalizavam isso. Hollywood, de vez em quando, fica perseguindo a cauda. As vezes encontra.

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sábado, 23 de janeiro de 2016 Análises | 20:42

Polêmica em torno de racismo no Oscar pode segmentar ainda mais indústria do cinema

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O cineasta Spike Lee é um dos capitães do movimento que pede boicote ao Oscar

O cineasta Spike Lee é um dos capitães do movimento que pede boicote ao Oscar

A semana esquentou um debate para lá de controverso que vira e mexe volta à tona em tempos de Oscar. O fato de em 2016 todos os atores e atrizes nomeados serem brancos, bem como roteiristas, diretores e demais contemplados em categorias nobres pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood gerou algum mal-estar entre a comunidade negra. De imediato surgiram protestos nas redes sociais e estes deram vez a declarações pesadas de artistas negros como Spike Lee, Ice Cube e Will Smith.

Há, sim, pouca diversidade na academia. Esse é um problema crônico e derivado da indústria do cinema como um todo, mas não implica no fato da academia ser racista. Não é.  O que a ausência de artistas negros em 2016 reflete é o gargalo de uma indústria que ainda engatinha na promoção de diversidade. Há poucas mulheres no comando de estúdios, dirigindo filmes, escrevendo-os, fotografando-os e há poucos negros como protagonistas de superproduções de estúdio. Não há, porém, em termos proporcionais, pouco reconhecimento do Oscar a esses artistas. Há, apenas, um indesejado reflexo que ganha lente de aumento com todo o barulho provocado pelo Oscar.

Apesar da virulência cada vez mais flagrante nas declarações de atores como Michael Caine, Jeffrey Wright e Jada Pinkett-Smith, o debate é bom, mas precisa ser ajustado ao contexto para produzir efeitos positivos e perenes.

A presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs anunciou que a Academia considera promover uma série de mudanças para aumentar o espaço das minorias entre seu quadro de votantes. Se em espírito é uma atitude bem-vinda, à reboque do mal-estar experimentado no âmago da opinião pública, é uma decisão desastrada. Isaacs, que disse que a Academia não ficará à espera da indústria na questão, quer alterar a regulamentação que dá direito aos votos, mas sem mexer nos demais benefícios de um membro da Academia, o que deve aferir mais transitoriedade e (espera-se) diversidade no corpo votante.

"12 Anos de Escravidão" foi consagrado o melhor filme no Oscar 2014, último que não teve polêmicas sobre exclusão de negros

“12 Anos de Escravidão” foi consagrado o melhor filme no Oscar 2014, último que não teve polêmicas sobre exclusão de negros

Pode dar muito certo e pode dar muito errado – principalmente pelo fato de gerar desequilíbrio e ruídos na qualidade dos indicados. Há de se observar, ainda, que ela não garante que negros estejam entre os indicados em 2017. É, contudo, uma resposta ao clamor generalizado. Nesse sentido, como medida paliativa, muito bem-vinda.

É preciso ter atenção, no entanto, à forma de manter o debate vivo sem o Oscar como alvo. Afinal, o Oscar está sendo crucificado por um pecado que, na verdade, não é seu. Que ele apenas ilumina. De todo modo, a Academia pode sim exercer um papel pedagógico na questão. Esse caminho já estava sendo trilhado, mas de forma muito morosa. O que Isaacs sinaliza é a aceleração de um desenvolvimento que já era natural. Os efeitos disso, não na Academia, mas na indústria como um todo, podem ser ironicamente perniciosos. Hollywood já se viu dividida antes – o Macarthismo está aí para provar isso – e a maneira descontextualizada que o debate está sendo gerido na opinião pública inflige receios aos mais conscientizados.

Os indicados a melhor ator e atriz: brancura e culpa

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