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terça-feira, 31 de março de 2015 Críticas, Filmes | 17:32

“Vício inerente” promove alucinada viagem pelos loucos e paranoicos anos 70

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Paul Thomas Anderson é um cineasta de rara sensibilidade. De maneira sutil, ele vem desfragmentando o sonho americano em sua recente obra. Foi assim ao frisar a megalomania capitalista em “Sangue negro” (2007), a perspicácia na disputa pelo controle e poder em “O mestre” (2012) e a paranoia que emoldurou os anos 70 no vertiginoso “Vício inerente” (Inherent vice, EUA 2014).

Na fita em que se permite trabalhar o humor, o cineasta o faz sem renunciar à complexidade presente na obra de Thomas Pynchon, a qual adapta. Esse respeito ao DNA do vaticínio do autor sobre uma época gera dificuldades narrativas para Anderson; todas filtradas com a habitual competência pelo diretor que impregna seu filme do espírito desnorteado de seu protagonista, o detetive particular maconheiro Larry “Doc” Sportello (vivido com a contumaz habilidade por Joaquin Phoenix), sem fazer com que seu filme sucumbe à falta de sentido.

Apesar da vertigem e do aparente descompromisso com a lógica, “Vício inerente” faz todo o sentido. Anderson vai juntando colagens aparentemente desconexas no ritmo que elas vão se descortinando para “Doc”, mas amarra tudo para sua audiência em um final surpreendentemente esperançoso tanto sob a perspectiva da cruzada de “Doc” como no ambiente da própria filmografia do cineasta.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

A ação se passa na fictícia cidade de Gordita Beach na Califórnia dos anos 70 e Anderson estiliza seu noir na faceta ensolarada da cidade. As mulheres fatais estão lá, bem como o sexo e as drogas (muitas drogas) que se bifurcam em uma narrativa pirada (misto da imaginação de “Doc” e de suas descobertas) que concilia panteras negras, nazistas, Charles Manson, depravação e toda uma indústria do tráfico de entorpecentes.

“Doc” recebe a visita de sua ex-namorada, Shasta Fay (Katherine Waterston), que pede para que ele investigue o possível sequestro de um magnata dos imóveis (Eric Roberts). “Doc” vai fazendo sua investigação meio que a reboque dos acontecimentos e o caso vai se bifurcando com outros que surgem ao longo do caminho, como a morte de Coy (Owen Wilson), que sua esposa (Jena Malone) desconfia ser uma farsa. As intervenções do policial aspirante a ator Pezão (Josh Brolin) e do advogado de “Doc” (Benicio Del Toro) na investigação agravam a sensação niilista pretendida por “Vício inerente”.

Em última análise, Paul Thomas Anderson objetiva retratar uma era em que os excessos iniciados na década anterior culminaram em uma crescente de paranoia temperada por muita droga e sexo. São os vícios inerentes, indesviáveis, de toda uma evolução geracional. Do impulso capitalista e da culpa proveniente dele (articulados na figura do corretor com crise de consciência) ao instinto sexual mais cru (capturado com maestria na cena de sexo entre “Doc” e Shasta), Anderson pincela um retrato delirante, pulsante e nostálgico dos anos 70.

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