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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015 Críticas, Filmes | 17:15

“Livre” desperdiça boa história com tentativa de provocar experiência sensorial

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“Livre”, novo filme de Jean-Marc Vallée, padece de um mal-estar comum a filmes que tentam ser mais do que estavam vocacionados a ser. “Livre”, baseado no livro “Livre – a jornada de uma mulher em busca do recomeço”, de Cheryl Strayed (vivida no filme por Reese Witherspoon), reúne artistas da mais fina estirpe com um objetivo nobre: expandir o alcance do elogiadíssimo livro de Strayed que percorreu uma trilha de mais de 1.100 milhas pela Costa do Oceano Pacífico para curar suas feridas emocionais e se reinventar como mulher.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Vallée vinha do sucesso crítico e comercial de “Clube de compras Dallas”, outra obra de ficção emprestada da realidade, Witherspoon dava continuidade a sanha de desenvolver projetos com perfil de prêmios e Nick Hornby, um dos mais referenciáveis novelistas que há, já havia assinado roteiros antes. Não obstante, “Livre” ainda conta com certa dose de boa vontade por ser um raro filme com protagonista feminina e sobre dilemas essencialmente femininos em uma época em que eles escasseiam no cinema.

O filme, porém, não capitaliza com todo esse hype. “Livre” oscila no ritmo e é irregular na forma. A sensorialidade pretendida pela narração jamais é alcançada e o público não se conecta com Cheryl. A montagem, problemática, não torna os fragmentos de lembranças suficientemente discerníveis das memórias e das sensações experimentadas por Cheryl em sua jornada de redenção emocional por meio do desafio físico e psicológico autoimposto.

Cheryl desabou após a morte da mãe (Laura Dern), vítima de um câncer fulminante. Traiu repetida e indiscriminadamente o marido, viciou-se em heroína e trouxe avante sua pior faceta. Foi quando se descobriu grávida que decidiu mudar radicalmente seu estilo de vida e enxergou na difícil trilha, a qual poucas mulheres se aventuram, a oportunidade de extirpar seus demônios.

Está no choque entre memórias, sensações, abstrações e realidade o núcleo dramático de “Livre”. Não fosse essa pretensão, o roteiro flertaria com a banalidade. Talvez fosse melhor. Afinal, não há nada de banal no desafio proposto para si por Cheryl e uma estrutura simplória, se bem articulada, não prejudicaria a força de sua história. Do jeito que ficou, buscando amparo em uma estética “malickiana”, “Livre” resulta em uma experiência frequentemente entediante Não ajuda o fato de Reese Witherspoon não conseguir tangenciar o conflito vivido pela personagem. A atriz falha em expressar a desorientação de Cheryl e, se convence como andarilha no deserto, é somente porque aí há pouca exigência dramatúrgica de sua performance. Laura Dern, por seu turno, nas poucas cenas em que aparece expõe vulnerabilidade e singeleza, dando conta de dimensionar a falta que sua personagem fará a de Witherspoon corrigindo uma lacuna no desempenho desta.

O maior prejuízo de “Livre”, no entanto, excede sua narrativa. A despeito das duas indicações ao Oscar que recebeu para suas atrizes, o filme compromete a difícil jornada das protagonistas femininas no cinema americano. Um filme tão contestável e relativamente frustrante acaba por ser mais um desserviço do que uma referência para o pathos do cinema do feminino em Hollywood.

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