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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014 Atores, Curiosidades, Listas | 05:26

Retrospectiva 2014 – As melhores atuações masculinas do ano

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Jonah Hill (“O lobo de Wall Street”)

Atores - Jonah

Os olhos esbugalhados, a ansiedade extrapolada como quem está à beira de um infarto e o humor perverso de Donnie Azoff, o braço direito do lobo de Wall Street, são alguns dos cacoetes geniais bancados por Jonah Hill, ator que quando quer mata a cobra e mostra o pau (literalmente, no caso aqui). Hill recebeu sua segunda indicação ao Oscar em três anos pelo papel. Coisa que muito ator mais valorizado não tem para botar no currículo. Não é pouca coisa.

Michael Fassbender (“12 anos de escravidão”)

Atores  - Michael

Esse alemão de ascendência irlandesa é um ponto fora da curva. Astro tardio, combina carisma e talento em escalas sempre surpreendentes. Como a encarnação do mal no filme de Steve McQueen, ele tergiversa a humanidade do senhor de escravos que interpreta ao sublinhar o desespero de um homem apaixonado por sua escrava e sem saber o que fazer com o sentimento que nutre por um “objeto”.

Leonardo DiCaprio (“O lobo de Wall Sreet”)

Atores - leo

Voraz, dínamo sexual, zombeteiro, esperto, chocante e, acima de tudo isso, nauseante. Este é Leonardo Dicaprio, à imagem e semelhança do biografado nesta obra-prima moderna de Martin Scorsese que é “O lobo de Wall Street” (alguma dúvida de que o filme figurará na lista de melhores do ano da coluna?). DiCaprio atinge as notas mais altas de uma carreira cheia de grandes arranjos ao compor um homem alucinado e banhado na cobiça exacerbada de um conceito de vida que tem seus ciclos. E ele quer estar no topo de todos eles.

Joaquin Phoenix (“Ela”/ “Era uma vez em Nova York”)

Joaquin 3

Phoenix é daqueles atores que nos faz levantar os braços para os céus e agradecer a Deus, orixás ou qualquer energia e presença que deva ser agradecida por tamanho talento. Praticamente todo filme que estrela entra na lista de melhores do ano e suas atuações, bem, suas atuações são sempre revigoradas, cheias de vida, detalhes e profundamente conectadas com a verdade buscada pelo roteiro. É assim em “Ela”, misto de romance e ficção científica imaginado por Spike Jonze, e em “Era uma vez em Nova York”, saga desromantizada do sonho americano alçada por James Gray – com quem Phoenix habitualmente colabora. Trabalhos em diferentes tons e compassos, mas dotados da mesma obstinação e fervura.

Jake Gyllenhaal (“O abutre”/”O homem duplicado”)

Jake 3

Jake Gyllenhaal rejeitou a alcunha de astro para viver o cinema. Essa experiência tem sido recompensadora para ele e para o público. Em 2014, o ator estrelou dois dos filmes mais instigantes, desafiadores e reflexivos da temporada. Gyllenhaal vai se revelando ator de muitos recursos e gana. Se perdeu peso e mergulhou na sociopatia de seu personagem em “O abutre”, em “O homem duplicado” foi fundo no jogo de espelhos proposto pela obra de Saramago. Um ator sem medo de tatear o desconhecido.

Jesuíta Barbosa (“Praia do futuro”)

Atores - Jesuíta

Jesuíta Barbosa é um poço de talento e um ímã tão poderoso que o gigante Wagner Moura parece um acessório de cena em “Praia do futuro”. Esse dom natural é temperado com uma expressividade corporal e sentimental que poucos atores, brasileiros ou estrangeiros, dispõem. Barbosa tem pouco tempo em cena no filme, mas a lembrança de sua passagem é das mais perenes.

Matthew McConaughey (“Clube de Compras Dallas”/ “O lobo de Wall Street”)

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

É até chato falar da reinvenção de Mathhew McConaughey e blá, blá, blá. Mas o signo de McConaughey paira sobre 2014. Na TV, o assombro que foi sua participação em “True Detective”. O Oscar, justíssimo, por “Clube de Compras Dallas” dispensa defesas sobre sua figuração nesta lista. Mas se você quer medir um grande ator o desafie a superar a participação de cinco minutos de Matthew McConaughey em “O lobo de Wall Street”. É de dar desarranjo em muito ator discípulo do método de Lee Strasberg.

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segunda-feira, 19 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 23:13

“Praia do futuro” é um filme de grande sensibilidade e muitas belezas

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O diretor Karim Aïnouz e os protagonistas de seu filme (Foto: divulgação)

O diretor Karim Aïnouz e os protagonistas de seu filme (Foto: divulgação)

Karim Aïnouz constrói das filmografias mais prodigiosas, complexas e enriquecidas temática, estética e narrativamente de nosso cinema. Seu mais recente filme, ambicioso na forma, no tema e na maneira como se apresenta ao público, ganhou holofotes por ter feito parte da competição oficial do festival de Berlim em fevereiro último. Mas “Praia do futuro” não é um filme de fácil apreciação. Aïnouz se recusa a estabelecer uma narrativa tradicional e enxuga o que considera excesso em seu filme. Esse cinema de silêncios e ritmo lento são características essenciais de sua obra, assim como a investigação de personagens às voltas com escolhas decisivas em suas vidas.

Nesse sentido, “Praia do futuro” se aproxima do trabalho anterior do cineasta, “O abismo prateado”.  Primeiro porque trata de abandono; segundo porque é originalmente inspirado em uma música. Se no filme estrelado por Alessandra Negrini, inspirada pela canção “Olhos nos olhos” de Chico Buarque, o ponto de vista era do abandonado, na nova produção, inspirada pela canção “Heroes”, de David Bowie, a perspectiva é a de quem abandona.

Estabelece-se, assim, uma relação interessante entre os filmes. Relação esta adensada por algumas opções narrativas de Aïnouz, como o “descarrego” espiritual em uma boate, a importância do mar no desenlace do conflito principal, entre outras.

Em “Praia do futuro”, Wagner Moura vive Donato. Um salva-vidas que trabalha na praia cearense que dá nome ao filme e que se envolve com uma das vítimas que resgata. Ele pula na água para salvar dois turistas alemães que se afogavam. Consegue salvar um, mas perde o outro. É seu primeiro fracasso e ele o sente bastante. Se ele perdeu, Conrad (o excelente Clemens Schick) perdeu também. No caso deste, o amigo e companheiro de viagem. Donato e Conrad se envolvem. O sexo é um amparo oportuno. Mas é, também, um chamado que Donato custa a interpretar, mas que Aïnouz traduz em imagens fortíssimas como quando ele se “desconecta” dos outros bombeiros em um dia de treinamento.

Essa confiança no poder da imagem, mas também na capacidade do espectador em decifrá-la, permeia “Praia do futuro”.

Findado o primeiro ato do filme, poeticamente denominado “O abraço do afogado”, flagramos Donato em Berlim. Passou-se algum tempo quando o segundo ato, ou capítulo, chamado “Um herói partido no meio” se desenrola. Donato está feliz, mais efeminado, mais à vontade com seus sentimentos. E aí entra a importância da sexualidade do personagem. Não há um motivo claro para a partida de Donato, mas sua homossexualidade e a possibilidade de vivê-la plenamente em Berlim ganham força na organização narrativa proposta por Aïnouz.

Donato sente falta da praia. Sente falta da família. Donato se questiona se deve assumir aquela vida idílica, de amor, paixão e tesão.  Quando anuncia um retorno jamais concretizado ao Brasil, ouve de Conrad o termo “covarde”. A covardia se refere à negação de seu verdadeiro eu, não ao fato de deixar Berlim para voltar ao Brasil.

Wagner Moura encarna personagem vivo, trêmulo, cheio de hesitações e desejos (Foto: divulgação)

Wagner Moura encarna personagem vivo, trêmulo, cheio de hesitações e desejos (Foto: divulgação)

O capítulo demonstra o apuro de Aïnouz. A fotografia de Ali Olay Gözkaya revela Berlim como uma cidade fria, em contraste com o calor de Fortaleza. Aïnouz abre o capítulo com Conrad e Donato dançando e a dança, alegre, desajeitada, logo evolui para um sexo cheio de tesão e entrega.

Aïnouz confia nas imagens e na expressividade de seus atores, por isso a exigência do elenco, e não se trata apenas de falar idioma estrangeiro ou fazer cenas homossexuais, é tamanha. Olhares, posturas e gestos precisam se comunicar de uma maneira que o cinema nacional não costuma demandar.

O terceiro capítulo, “O fantasma que fala alemão”, é um espetáculo do minimalismo. Entra em cena Ayrton (Jesuíta Barbosa), o irmão abandonado por Donato. Ele viajou a Berlim para saber se o irmão estava vivo. Teve o cuidado de aprender alemão para o caso do irmão “ter esquecido o português”.

Mais uma vez, Aïnouz aposta nas imagens. O reencontro dos irmãos é dessas coisas que transbordam emoção genuína. Algo que o cinema menos e menos é capaz de prover.

Sem julgamentos, sem bandeiras, “Praia do futuro” versa sobre humanidades. Dor, coragem, medo e desejo se bifurcam em uma saga errante em busca de reinvenção, de propriedade.

A grande sacada do filme é exteriorizar todo um conflito interno a Donato nas disparidades entre as cidades, na sua busca pelo mar na Alemanha e na sua hesitação em acolher o irmão que lhe traz o passado.

Um filme de tanta sensibilidade precisa de um ator capaz de atuar em diferentes tons. Wagner Moura, em mais um desempenho digno de nota, confere a Donato a mais bela das contradições. A de quem enxerga a felicidade, mas não sabe exatamente como agarrá-la.

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