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Posts com a Tag Jornalismo

sábado, 23 de abril de 2016 Análises, Bastidores, Filmes | 22:27

Cinema americano redescobre a guerra pelo viés do registro jornalístico

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Tina Fey em cena de "Uma Repórter em Apuros", que estreia no dia 5 de maio no Brasil

Tina Fey em cena de “Uma Repórter em Apuros”, que estreia no dia 5 de maio no Brasil

A presença militar americana no exterior inegavelmente diminuiu nos anos Obama. Até certo ponto surpreende o baixo número de filmes sobre conflitos militares na Hollywood atual. Desde o vencedor do Oscar em 2010, “Guerra ao Terror”, nenhum filme do gênero ganhou grande repercussão ou atenção. Sim, Michael Bay falou sério em “13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi”, mas aquele filme esbarrava nos limites que qualquer filme assinado por Michael Bay esbarra.

Coprodução entre Suécia e Noruega, “Mil Vezes Boa Noite” (2013) traz Juliette Binoche como uma fotógrafa de guerra que recebe um ultimato do marido: ou ela segue na arriscada profissão ou vive com ele e a filha do casal. O filme perpassa os horrores – e a importância – do fazer jornalístico em uma guerra, mas no fundo é um drama familiar.

Em breve, porém, filmes interessados em discutir a guerra sob a riquíssima perspectiva do jornalismo vão ganhar os cinemas.

Steven Spielberg vai dirigir a cinebiografia de Lynsey Addario, uma das mais reconhecidas e laureadas fotojornalistas do mundo, mantida refém na Líbia em 2011. O filme, adaptado da autobiografia de Addario e prometido para 2017, trará Jennifer Lawrence como protagonista.

Baseado no livro “The Operators”, do jornalista americano Michael Hasting, “War Machine” une Brad Pitt e Netflix em uma produção ambiciosa orçada em mais de US$ 30 milhões que será lançada em outubro na plataforma de streaming e em cinemas selecionados. Trata-se de uma sátira de guerra.

A história se centra no papel do general Stanley McChrystal à frente das tropas americanas no Afeganistão. McChrystal, atualmente afastado das Forças Armadas americanas, se movimentou pelos bastidores do conflito para conseguir objetivos tanto com os políticos de Washington, como com os meios de comunicação, assim como na primeira linha de fogo do conflito no Oriente Médio.

A direção compete a David Michôd, do excelente “Reino Animal”. O Cineclube já abordou este filme aqui.

Tina Fey e Margo Robbie em cena de "Uma Repórter em Apuros"

Tina Fey e Margo Robbie em cena de “Uma Repórter em Apuros”

Ainda no tom satírico, e com estreia prevista para o próximo dia 5 de maio no Brasil, temos “Uma Repórter em Apuros”, baseado na autobiografia da jornalista Kim Barker, “The Taliban Shuffle: Strange Days in Afghanistan and Pakistan”, com relatos de suas experiências cobrindo os dois países.

Dirigido por Glenn Ficarra e John Requa (“O Golpista do ano”), a trama acompanha uma repórter que vê a oportunidade de crescer profissionalmente ao ser enviada para cobrir uma zona de guerra. No meio do caos do Afeganistão e do Paquistão e, por meio da sátira, a produção expõe o choque cultural e os riscos que a região promove a Kim, vivida pela excelente Tina Fey.

São filmes com tons e abordagens diferentes, mas que chegam para precipitar uma nova onda no cinema americano de olhar para as guerras em que os EUA de alguma forma atuaram com mais cinismo e ceticismo.

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014 Críticas, Filmes | 06:00

“O abutre” fustiga e examina odores da sociopatia pós-moderna

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Existem filmes que nascem de outros filmes e filmes que nascem da necessidade de expandir a reflexão ensejada por outros filmes. “O abutre”, primeiro filme dirigido por Dan Gilroy, cujos créditos como roteirista compreendem “O legado Bourne” e “Gigantes de aço”, é um desses casos.

A primeira vez que pousamos os olhos sobre Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) ele está por roubar uma grande quantidade de fio de cobre. Entre essa cena e a cena seguinte, em que ele tenta vender o material coletado, acontece algo que sugere que o personagem está disposto a cruzar limites moralmente estabelecidos na busca pela sobrevivência. Sem emprego e com tempo ocioso, Bloom acaba se interessando pela atividade de nightcrawler, que na falta de uma definição correspondente no Brasil, seria um cinegrafista freelancer que fica ouvindo a frequência da polícia à cata de ocorrências que possam interessar aos primeiros jornais da manhã. Bloom se diz alguém que aprende rápido e ao vê-lo em ação, o espectador não discorda. É um personagem com ecos do Travis Bickle de Robert De Niro em “Taxi Driver” e “O abutre” é um filme que ecoa outras grandes produções que se predispunham a discutir os limites do jornalismo como “O quarto poder” e “Rede de intrigas”. A fusão dessas suas forças cinematográficas resulta em um filme assustador no que radiografa de nossa sociedade.

Os fins justificam os meios ou os meios levam a um diferente fim? Louis Bloom é a dor de dente da sociedade em "O abutre"

Os fins justificam os meios ou os meios adotados levam a um diferente fim? Louis Bloom é a dor de dente da sociedade em “O abutre”

Bloom vai se destacando no ofício e conseguindo material cada vez mais “sangrento” como define a produtora de um jornal matutino (Rene Russo) com quem Bloom desenvolve uma estranha e complexa conexão. Os jornais locais, expõe Bloom após pesquisar a respeito, constroem sua audiência em cima do noticiário urbano, majoritariamente dedicado às ocorrências policiais. Se você pensou em “Cidade alerta” e congêneres acertou o nervo que Bloom fica obsessivo em pressionar.

Com o tempo, a moral passa a ser uma nuvem carregada sobre a cabeça de Bloom que parece não hesitar em interferir em cenas de acidentes ou manipular situações para conseguir ângulos melhores para vender. “Se você está me vendo, é porque está tendo o pior dia da sua vida”, diz em certo momento em um misto de autopromoção profissional e escárnio.

Girloy, que assina o surpreendente roteiro, não faz de Bloom um vilão. Mas um produto do seu meio. No entanto, o cineasta provoca uma inflexão. A obstinação de Bloom, seu faro para a amoralidade, para o grotesco, não indicam o contrário? O sucesso galopante do novato não indica ser ele capaz de fazer do meio um produto seu? Em dado momento, acuado por seu funcionário Rick (Riz Ahmed) Bloom faz uma admissão tenebrosa: “ e se não for o caso de eu não entender as relações humanas, mas simplesmente não gostar das pessoas?”.

Empatia, asco e necessidade de sobrevivência são os três pilares que sustentam a relação dos personagens de Russo e Gyllenhaal  (Fotos: divulgação)

Empatia, asco e necessidade de sobrevivência são os três pilares que sustentam a relação dos personagens de Russo e Gyllenhaal
(Fotos: divulgação)

Pincelado nas sombras e na marginalidade da sociedade, Bloom é a personificação da sociopatia pós-moderna. O patrocinador dessa anestesia emocional mitigada por uma sociedade que sensacionaliza e se deixa sensacionalizar. Gyllenhaal, por sua vez, é o fiador desse retrato perturbador. O ator perdeu onze quilos para o papel e deixou os ossos da face bem sobressaltados. Os olhos verdes frequentemente arregalados contribuem para a aparência incômoda do personagem, que realmente nas pequenas atitudes do dia a dia lembra um abutre, na acepção carniceira do termo. Além da fisicalidade da atuação, Gyllenhaal aposta em nuanças que tornam Bloom um enigma desestabilizador para a plateia. Uma performance que conjuga coragem e expertise em uma escala que aumenta a potência de “O abutre” enquanto cinema.

“O abutre” está menos interessado em discutir os padrões e limites da mídia, embora a discussão esteja ali, implícita na relação entre a produtora e o editor-chefe do jornal que parece não ter voz ativa, e mais na perversão do sonho americano (e o final do filme traz uma fala que agrega sentido estupendo a essa percepção) e na relação doentia que travamos com o próximo.

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014 Atores, Filmes, Notícias | 20:53

Jake Gyllenhaal vive jornalista obsessivo em thriller sobre limites da mídia

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Jake Gyllenhaal, com 15 quilos a menos, vive jornalista obsessivo em novo filme (Foto: divulgação)

Jake Gyllenhaal, com 15 quilos a menos, vive jornalista obsessivo em novo filme
(Foto: divulgação)

Os limites do sonho americano? A transformação de um individuo bom em alguém de moral duvidosa? A espiral de obsessão que move o jornalismo policial na busca pela audiência? Que tal de tudo isso, um pouco? É o que promete o trailer de “Nightcrawler”, thriller exibido no festival internacional de cinema de Toronto e que amealha elogios calorosos da crítica. O filme marca a estreia na direção de Dan Gilroy, roteirista de filmes como “O legado Bourne” (2012) e “Gigantes de aço” (2011). Dan Gilroy é o irmão mais novo de Tony Gilroy, roteirista prestigiado que debutou na direção com “Conduta de risco” (2007), filme que investigava a ação por baixo dos panos de grandes corporações. A família Gilroy parece particularmente interessada no lado negro de nossa sociedade.

Esse interesse decorre do fato de que esse viés complexo, sejam empresas grandes às voltas com corrupção, ou um jornalista freelancer em busca do clique mais sórdido de um assassinato ou acidente automobilístico, são essencialmente cinemáticas. Humanas. Midiáticas.

“Nightcrawler”, ainda sem título em português, traz um Jake Gyllenhaal 15 quilos mais magros em um papel que parece propenso a colocá-lo na corrida pelo Oscar de melhor ator. Talvez ainda seja cedo para essa especulação, mas que o trailer promete uma história impactante e um Gyllenhaal assombroso de bom é inegável.

O filme está previsto para chegar aos cinemas brasileiros no dia 25 de dezembro.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014 Atores, Diretores, Filmes, Notícias | 23:11

George Clooney vai dirigir filme sobre escândalo do grampos ilegais do “News of the World”

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Em 2011 o mundo assistiu assombrado o desenvolvimento de um escândalo midiático que envolveu um tradicional tabloide britânico e seu dono, o poderoso magnata das comunicações Rupert Murdoch. Os grampos ilegais que o jornal News of the World patrocinou e que violaram a privacidade de membros da família real, de celebridades internacionais como Hugh Grant e Jude Law e de políticos gerou o fim da publicação centenária e estremeceu o império do empresário australiano.

Entenda o escândalo de grampos do tabloide News of the World

George Clooney, maior astro da Hollywood atual e também um dos artistas mais interessantes de que ela dispõe, decidiu que seu próximo filme como diretor será uma adaptação do livro “Hack attack: the inside story of how the truth caught up with Rupert Murdoch”, de Nick Davies, que investiga os pormenores do escândalo e suas reverberações nos bastidores do jornalismo, da política e da economia. “Essa obra tem todos os elementos – mentiras, corrupção, chantagem – nos maiores níveis do governo por um dos maiores jornais de Londres”, disse Clooney em um comunicado enviado à imprensa. “E o fato de ser tudo verdade é a melhor parte. Nick é um jornalista corajoso e perseverante e será uma honra adaptar seu livro para o cinema”.

George Clooney  vai voltar à cadeira de diretor  (Foto: divulgação)

George Clooney vai voltar à cadeira de diretor (Foto: divulgação)

Clooney nunca escondeu sua predileção por filmes com alto teor reflexivo. Ele dirigiu “Boa noite e boa sorte” (2005), sobre a importância do jornalismo independente em uma época em que os EUA mergulhou nas sombras do macartismo, e “Tudo pelo poder” (2012), sobre as escusas negociatas nos bastidores da política. Explorar a sanha por corrupção humana e todas as nossas contradições parece um hobby de Clooney. Mas é, na verdade, uma contribuição de um artista interessado em fazer bom cinema e provocar reflexão no mesmo compasso.

As filmagens devem começar no início de 2015. Ainda não há informações sobre elenco. Clooney e seu habitual colaborador, Grant Heslov, vão escrever e produzir o filme. É esperado que Clooney também apareça como ator, como o fez em todas as suas incursões na direção. Além dos já citados, são dele “Confissões de uma mente perigosa” (2002), “O amor não tem regras” (2008)  e “Caçadores de obras-primas” (2014).

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sexta-feira, 25 de julho de 2014 Análises, Curiosidades, Filmes | 06:00

Quando o cinema pensa o jornalismo

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Está programado para estrear nos cinemas no próximo dia 7 de agosto o documentário “O mercado de notícias”, de Jorge Furtado. O filme combina a encenação da peça homônima de 1625 do dramaturgo inglês Ben Jonson com depoimentos colhidos pelo diretor de 13 jornalistas de diferentes mídias da cena noticiosa nacional.

A intenção do cineasta é discutir a reverberação do jornalismo no cotidiano, o sentido e a prática da profissão, bem como seu futuro. O filme reflete casos recentes da política brasileira e pormenoriza a atuação da imprensa. A estrutura, ainda que convencional, busca a metaforização nesse diálogo que propõe com uma peça forjada no século XVII. As circunstâncias do jornalismo, no entanto, são passíveis de mudança? A essência se metamorfoseia com o tempo ou permanece imutável? São questionamentos que norteiam o interesse de Furtado com seu filme.

Os jornalistas depoentes não são menos notórios que o diretor de “O homem que copiava” (2003) e “Saneamento básico – o filme” (2007). Bob Fernandes, Cristiana Lôbo, Fernando Rodrigues, Geneton Moraes Neto, Janio de Freitas, José Roberto de Toledo, Leandro Fortes, Luis Nassif (colunista do iG), Mauricio Dias, Mino Carta, Paulo Moreira Leite, Raimundo Pereira e Renata Lo Prete formam esse painel plural e multifacetado tateado por Furtado.

Para o diretor, seu documentário “debate critérios jornalísticos e, também, configura uma defesa da atividade jornalística, do bom jornalismo, sem o qual não há democracia”.

O jornalista Fernando Rodrigues em cena de "O mercado de notícias"

O jornalista Fernando Rodrigues em cena de “O mercado de notícias”

Em "Rede de intrigas", o âncora de um telejornal promete se suicidar no ar quando de sua demissão e vira um sucesso de audiência

Em “Rede de intrigas”, o âncora de um telejornal promete se suicidar no ar quando de sua demissão e vira um sucesso de audiência à medida que perde as papas da língua

Em "O informante", Al Pacino vive um jornalista que tenta convencer uma potencial fonte, mas se vê imerso em um jogo escuso de interesses econômicos

Em “O informante”, Al Pacino vive um jornalista que tenta convencer uma potencial fonte a entregar podres da indústria tabagista, mas se vê imerso em um jogo escuso de interesses econômicos

A ideia central do filme, no entanto, não é nova. Há, por exemplo, um documentário americano recente que aborda com propriedade o mesmo tema. Trata-se de “Page one: inside The New York Times” (2011), disponível no catálogo da Netflix.  O filme de Andrew Rossi propõe um mergulho sem precedentes na redação e na história do jornal mais importante e mais influente do mundo. Jornalistas do veículo e também de concorrentes falam sobre o jornal, as mudanças estruturais impostas pelo tempo e, na esteira desta avaliação, pelas transformações inerentes ao próprio jornalismo.

A primazia dessa reflexão do jornalismo, contudo, não é do documentário. O cinema ficcional discute o jornalismo há um bom tempo. “A montanha dos sete abutres”, de Billy Wilder (1951) é item obrigatório nas faculdades de jornalismo por oferecer uma visão arguta de como o jornalismo pode pender para o sensacionalismo em um piscar de olhos. Desse quadro indesejável para a manipulação, basta outro piscar de olhos.

Ainda nessa linha de pensar o jornalismo em toda a sua complexidade, podem ser destacados filmes como “O informante” (1999), “Quase famosos” (2000), “Nos bastidores da notícia” (1987), “Todos os homens do presidente” (1976), “A primeira página” (1974), “Boa noite e boa sorte” (2005), “Frost/Nixon” (2008), “Rede de intrigas” (1976), “O jornal” (1994), “O preço de uma verdade” (2003), “O quarto poder” (1997), “Intrigas de Estado” (2009), entre tantas outras preciosas inflexões sobre o fazer jornalístico.

Em "O quarto poder", Dustin Hoffman vive experiente jornalista que manipula um homem desesperado para conseguir o furo de sua carreira

Em “O quarto poder”, Dustin Hoffman vive experiente jornalista que manipula um homem desesperado para conseguir o furo de sua carreira

"Quase famosos" mostra a experiência de um jovem jornalista acompanhando uma banda em turnê

“Quase famosos” mostra a experiência de um jovem jornalista acompanhando uma banda de rock em turnê

Um ex-presidente em busca de redenção midiática e um apresentador de tv contestado em um embate intelectual primoroso são a matéria prima de "Frost/Nixon"

Um ex-presidente em busca de redenção midiática e um apresentador de tv contestado em um embate intelectual primoroso são a matéria prima de “Frost/Nixon”

Com diferentes inclinações, tons e conclusões, esses filmes convidam a uma reflexão fundamentalmente importante em um momento em que o País se prepara mais uma vez para ir às urnas. Reflexão esta que deve ser encampada por quem produz e, principalmente, por quem consome notícia.

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