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quarta-feira, 29 de março de 2017 Críticas, Filmes | 18:57

História de fantasma em “Personal Shopper” coloca protagonista para encontrar a si mesma

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Novo filme do cineasta Olivier Assayas parte do sobrenatural para permitir que personagem de Kristen Stewart reclame propriedade sobre a própria identidade

Kristen Stewart em cena de Personal Shopper

Kristen Stewart em cena de Personal Shopper

Olivier Assayas é aquele tipo de cineasta que gosta de fazer filmes diferentes. “Personal Shopper”, na superfície, é uma história de fantasma. No entanto, o segundo trabalho do francês com Kristen Stewart, o primeiro rodado inteiramente em língua inglesa, é uma drama algo imaginativo sobre o luto e a necessidade de se achar no mundo.

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Kristen Stewart é Maureen, uma jovem americana que mora em Paris e trabalha como personal shopper de uma badalada celebridade local. Quando tomamos contato com ela, Maureen se aloja por uma noite em uma mansão para tentar contato com uma presença, fantasma ou espírito, como preferir o leitor/espectador. Logo descobrimos que a tentativa de contato fora com seu irmão, que morreu na residência, que está para ser vendida.

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Maureen, a exemplo do irmão, se define como médium. Mas diferentemente dele, ela se mostra pouco à vontade com sua condição. A ideia de exercitar sua mediunidade é um sinal de que está carente dele, da representatividade do irmão em sua vida.

Olivier Assayas no set de Personal Shopper

Olivier Assayas no set de Personal Shopper

Assayas é hábil em utilizar esse mote para fazer elaborações sutis sobre o processo de luto e nada mais específico do que a tentativa de se conectar com um fantasma. Há, ainda, a reverberação a respeito do além vida e de como esse esforço para crer pode repercutir socialmente.

Não obstante, Assayas teoriza sobre o sentimento de inadequação que furta a paz de uma pessoa em certas circunstâncias. A ideia de passar o dia comprando coisas caras e luxuosas para uma estrela e viver em Paris certa vez soou como o melhor dos mundos para Maureen, mas conforme a acompanhamos essa condição passa a incomodá-la cada vez mais.

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Sem o irmão e sem algo que a afirme como pessoa, é como se Maureen tivesse se chocado com uma até então tolerável ausência de identidade. Um indicativo disso é a maneira como a relação dela com o namorado evolui ao longo do filme.

“Personal Shopper” não seria metade do filme que é sem a total devoção de sua protagonista. Kristen Stewart nunca esteve melhor. Ela deixa-se invadir pelo olhar de Assayas com misto de vulnerabilidade e coragem. Uma dicotomia que só grandes atrizes são capazes de elevar e este filme definitivamente existe para justificar que a atriz atinja outro nível de excelência como intérprete. Filme e atriz se fiam na irresolução para se comunicarem intimamente com a audiência.

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terça-feira, 3 de março de 2015 Atrizes, perfil | 07:30

A desconstrução de Kristen Stewart

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Kristen Stewart com o prêmio "César" conquistado no fim de fevereiro (Foto: Getty)

Kristen Stewart com o prêmio “César” conquistado no fim de fevereiro
(Foto: Getty)

Existem atores que abraçam a celebridade e existem atores que a rejeitam com todas as suas forças. No primeiro time podemos listar Jennifer Lawrence e George Clooney, dois expoentes bem sucedidos de celebridades midiáticas à vontade com a exposição e com o status que gozam no cinemão. De outro, temos figuras como Matthew McConaughey e Bradley Cooper, que se esforçam para se distanciar tanto dos papeis percebidos como frívolos tanto como da rotina dos tabloides.

Kristen Stewart já sinalizava se interessar por esse segundo grupo, mas seus movimentos recentes sugerem que ela já está jogando neste time.

Atriz precoce, aos dez anos já atuava em filmes como “Os Flinstones em Viva Rock Vegas” (2000) e “Encontros do destino”. Seu primeiro papel de destaque foi como a filha de Jodie Foster em “O quarto do pânico” (2002), suspense estiloso de David Fincher.

Em 2007, depois de fazer parte de outras produções típicas de Hollywood com papeis cada vez mais destacados como no terror “Os mensageiros” (2007) e no infantil “Zathura – uma aventura espacial” (2005), Stewart foi a filha de outra estrela de Hollywood: Meg Ryan, no filme “Eu e as mulheres”. Na produção ela se interessava pelo mesmo rapaz que sua mãe.

“Na natureza selvagem”, de Sean Penn, revelava uma Kristen Stewart senhora de seu talento. Em um papel pequeno, a atriz,  então com 17 anos, cativava e impressionava pela gravidade do registro. Mas aí veio “Crepúsculo” (2008) e toda uma febre que propulsou insegurança e celebridade no mesmo compasso. Além, é claro, de uma relação amorosa com seu colega de cena, Robert Pattinson, devassada em todos os níveis possíveis e imagináveis por um estrato da mídia cioso de escândalos e deslizes de toda sorte.

A franquia “Crepúsculo” ainda estava na ativa e a atriz já ensaiava uma mudança de rumo com filmes como “Férias frustradas de verão”, um romance indie, “Corações perdidos”, um drama pungente estrelado pelo saudoso James Gandolfini, “The runaways – as garotas do rock” e “Na estrada”, filme de Walter Salles sobre a icônica obra de Jack Kerouac. Ocorre que essas incursões de Stewart pelo cinema independente foram problemáticas. A atriz cativante e segura de si de “Na natureza selvagem” havia desaparecido. Estava ali uma celebridade querendo provar-se digna de tanto rebuliço. Stewart se não estava ruim em todos esses filmes, dava margem para a discussão. Ela precisava se desconstruir ainda mais. Precisava submergir em papeis não necessariamente desafiadores, mas que desconstruíssem sua celebridade. Essa oportunidade apareceu na forma do filme “Acima das nuvens”, pelo qual a atriz se tornou a primeira americana a vencer o César, prêmio máximo do cinema francês. Na obra de Olivier Assayas, ela vive a assistente de uma atriz em decadência (Juliette Binoche), que não somente vive uma relação ambígua com a atriz, como vive a disparar perolas sobre fama e celebridade, mundo ao qual acompanha com frenesi. Trata-se de um exorcismo metalinguístico patrocinado por um dos cineastas franceses mais interessantes da atualidade. Em 2014, a atriz contracenou ainda com outra atriz que goza de unanimidade, Julianne Moore, no premiado “Para sempre Alice”.  Importante para essa recodificação não é só escolher os papéis certos, mas os colaboradores corretos. Nesse aspecto, Kristen Stewart, agora aos 24 anos, tem acertado com louvor.

Kristen, aos 12 anos, ao lado de Jodie Foster em "O quarto do pânico"  (Foto: divulgação)

Kristen, aos 12 anos, ao lado de Jodie Foster em “O quarto do pânico”
(Foto: divulgação)

A atriz contracena com James Gandolfini em "Corações perdidos", mas não consegue esconder sua celebridade (Foto: divulgação)

A atriz contracena com James Gandolfini em “Corações perdidos”, mas não consegue esconder sua celebridade
(Foto: divulgação)

Entre seus próximos trabalhos se destacam “Equals” e “Anesthesia”, ambos com lançamento para 2015. O primeiro versa sobre um mundo futurista em que as emoções foram banidas. Trata-se de uma ficção distópica com ecos de Philip K. Dick. O segundo, um filme coral de Tim Blake Nelson, trata das consequências de um ataque brutal a um professor em um campus universitário.

Não obstante, a atriz foi confirmada no elenco do novo filme da cineasta Kelly Reichardt, ainda sem nome definido. A fita consistirá em uma série de vinhetas que giram em torno da vida dos moradores de uma pequena cidade de Montana. A atriz viverá uma advogada que assume um posto de professora disposta a vencer seu bloqueio para ensinar.

São escolhas de uma atriz e não de uma celebridade. Kristen Stewart talvez nunca se desligue por completo do status conquistado com “Crepúsculo”, mas certamente pode subvertê-lo a exemplo do que fez o hoje ganhador do Oscar Matthew McConaughey e alcançar a promessa ensejada pela aquela atuação tão cândida e tocante em “Na natureza selvagem”.

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