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domingo, 14 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 18:42

Espaço Cult – “Foxcatcher” é exemplar do cinema que valoriza o que não é dito e o que não é mostrado

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Construído sobre elipses, “Foxcatcher”, que no Brasil ganhou o desnecessário subtítulo “Uma história que chocou o mundo”, é um filme cujas camadas não se revelam de pronto. O que pode parecer algo contraprodutivo a principio, se assegura como uma das forças desse belo e sensível drama, ainda que não catártico, assinado por Bennett Miller, dos ótimos “Capote” (2005) e “O homem que mudou o jogo” (2011).

O filme acompanha a relação entre o multimilionário John Du Pont (Steve Carell), herdeiro de um império ligado à indústria química, e os atletas olímpicos Mark (Channing Tatum) e Dave (Mark Ruffalo) Schultz. Du Pont convida os irmãos, ambos medalhistas olímpicos em Los Angeles em 1984 na luta grego-romana, para treinarem em Foxcatcher, propriedade da família com histórico de prover suporte ao esporte. Dave, a princípio, rejeita a oferta, mas Mark, ansioso por sair da sombra do irmão, aceita a generosidade inusitada do milionário. À medida que o relacionamento entre Mark e John se estreita, a plateia intui que algo de muito tenebroso acontecerá. Isso independe do fato da história em si já ser conhecida. Uma busca rápida no Google oferece detalhes e curiosidades do caso, mas Miller faz mais. Oferece uma investigação psicológica profunda desses três homens irmanados por um mesmo objetivo, mas que de alguma maneira colidem brutalmente. É esse “de alguma maneira” que Miller brilhantemente oxigena.

Na superfície, “Foxcatcher” pode ser lido como uma dura e ácida crônica à percepção de que o esporte eleva o patriotismo. Uma leitura por si só corajosa e inusitada em um filme americano. A obsessão pelo triunfo a despeito do espírito competitivo está enraizada tanto em Mark quanto em John, mas em graus distintos. Em outro nível, o filme de Miller observa uma combinação explosiva tomar forma. Egos inflados, ânsia por reconhecimento, carência afetiva, dinheiro e uma não assumida homossexualidade são sombras trabalhadas por Miller e pelo roteiro de Dan Futterman com audácia e engenho. Não há a formulação de respostas para a tragédia ocorrida em Foxcatcher, mas há apontamentos sutis que em termos de dramaturgia preenchem requisitos e expectativas.

Foto: divulgação

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O que não é mostrado em “Foxcatcher” é mais importante do que o que alcança os olhos do público. Mark, por exemplo, começa a fita em abundante solidão. Ele tem o hábito de se bater, se punir, mas nem sempre entendemos a razão.  No final do filme, é interessante se indagar como ele foi parar praticando MMA. Por que o gosto de espancar homens? Essa opção surgiu depois da interação desestabilizadora com John? Miller deixa sugestões pelo caminho. A cena final de “Foxcatcher”, embora aparentemente descolada do que se viu antes, não está ali gratuitamente. Está ali para dar novo sentido ao todo.

Trata-se de um trabalho de direção maiúsculo no que se depreende de controle e técnica, e sensível, no que se projeta de prolixidade e imaginação. Um adendo ao trabalho dos atores precisa ser feito. Steve Carell como John é um assombro. Sua presença é intimidadora. As pausas na fala em que encara seu interlocutor gelam a espinha. É uma construção de personagem minuciosa e que vai muito além da prótese no nariz que modifica completamente seu rosto. Como um homem cioso de escrever uma história de sucesso para si em seus próprios termos, mas com esqueletos no armário, Carell abraça o imponderável com força dramática invejável. Invejável também é a caracterização de Tatum. Na melhor performance de sua carreira, o ator adorna a ingenuidade e truculência de Mark, em um balé entre físico e emocional que só alguém com exato domínio de sua arte é capaz. Ruffalo, por seu turno, é o pendor da consciência, iminentemente tragado para o conflito velado entre John e seu irmão. O ator atua com a pulga atrás da orelha. É sua atuação o principal termômetro da plateia.

Essa trinca afinada é outra demonstração do gênio de Miller que com sua curta filmografia oferta ao público um cinema pensante, difuso e altamente recompensador.

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quinta-feira, 26 de março de 2015 Críticas, Filmes | 18:45

Vício em sexo é tratado com misto de leveza e seriedade em “Terapia do sexo”

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Stuart Blumberg só tinha escrito três roteiros em Hollywood. Dos filmes “Tenha fé” (2000), “Show de vizinha” (2004) e “Minhas mães e meu pai” (2010). Em comum, os três têm o fato de serem comédias e de versarem – em algum nível – sobre sexualidade. Parecia natural que o debute na direção de Blumberg seguisse a mesma linha. “Terapia do sexo” (Thanks for sharing, EUA 2012) é, grosso modo, uma síntese desse interesse de Blumberg de discutir o sexo por um viés mais leve, sem deixar de falar sério.

Foto: divulgação

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Adam (Mark Ruffalo) é um viciado em sexo em recuperação. Frequentador de grupos de apoio, desenvolveu uma relação como a de pai e filho com seu padrinho Mike (Tim Robbins), que além de enfrentar o vício em sexo, também se recupera da dependência do álcool. Por insistência de Mike, ao atingir cinco anos de sobriedade, Adam resolve se abrir para a possibilidade de namorar. Ele engata uma relação com Phoebe (Gwyneth Paltrow) e, a partir de então, ele e ela precisam se adaptar a uma dinâmica toda especial devido às circunstâncias vividas por Adam.

Apesar de Adam e seu conflito nortearem “Terapia do sexo”, o filme tem mais camadas. Mike precisa se acertar com seu filho (Patrick Fugit), que herdou do pai o gosto pelo vício. Neil (Josh Gad), apadrinhado por Adam, também precisa lidar com a maneira como sua ansiedade reflete em uma compulsão sexual altamente nociva. A cantora Pink debuta como atriz como Dede, uma mulher que só consegue se relacionar com homens por meio de sexo. Entre os clichês e sacadas realmente sutis, “Terapia do sexo” se esforça para abraçar o mundo. Se a intenção de subscrever-se como um painel sobre como o sexo pode desencadear distúrbios sérios e reais é louvável, a execução peca por escalonar dramas e recortes a toque de caixa.

No fundo, Blumberg quer falar sobre controle. Ele expõe personagens que tateiam o controle de suas vidas da maneira que podem. O filho que busca a aceitação do pai, a mulher que se recuperou do câncer e estipulou para si uma rotina extrema e do homem que tenta ser o homem que sente ser quando não está entregue ao seu vício. Visto neste contexto, Blumberg acerta ao usar o sexo como denominador comum. De quebra, ilumina um problema pouco abordado pelo cinema e muito desconhecido do grande público. Com ar despretensioso e pegada de comédia romântica, “Terapia do sexo” se oferta como uma opção light à gravidade de “Shame” (ING 2011), mas nem por isso menos recomendável.

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terça-feira, 30 de setembro de 2014 Críticas, Filmes | 19:55

Mark Ruffalo e Keira Knightley reverenciam poder transformador da música em “Mesmo se nada der certo”

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Fotos: divulgação

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John Carney não se contentou em fazer apenas um filme apaixonante. Depois de impressionar o mundo com “Apenas uma vez”, uma apaixonada declaração de amor à música, Carney pegou as ideias centrais desta pequena joia rodada em sua Irlanda natal e as jogou no cerne de “Mesmo se nada der certo” (2013), sua primeira incursão no cinema americano.

Em um dado momento do filme, Dan (Mark Ruffalo), um produtor musical fracassado, diz para Gretta (Keira Knightley), uma compositora ocasional com o coração partido que ele convence de que pode estourar na música devido a um talento nato e submerso, que a “música transforma banalidades em momentos cheios de significados”; e “Mesmo se nada der certo” é, em toda a sua doçura incontida, uma reverência a esta capacidade única que a música ostenta.

Carney não para na reverência, porém. Seu filme bebe da fonte da “segunda chance” tão cara ao establishment americano e evoca, inclusive nominalmente, um dos últimos filmes a tratar do tema de maneira brilhante no cinema americano, “Jerry Maguire – a grande virada” (1996).

Dan e Gretta estão sós em uma Nova York que lhes parece pouco amistosa enquanto vivem o que pode ser descrito como as piores fases de suas vidas, mas juntos – e por meio da música – eles descobrem uma maneira, não só de dar a volta por cima, mas de redimensionar essa Nova York.

“Mesmo se nada der certo” se chama no original “Begin again” (Começar de novo) e antes estava titulado como “Can a song save your life?” (Pode uma música salvar sua vida?). O título nacional não fica nada a dever a esses dois singelos e poéticos títulos que calçam muito bem o filme.

mesmo se nada der certo (1)

Adam Levine, o vocalista do Maroon 5, vive um decalque dele mesmo como Dave Kohl, o namorado de Gretta que a abandona tão logo vislumbra a vida de rock star. Não é uma posição fácil a que Levine se coloca, já que seu personagem é o que de mais próximo de vilão o filme tem a oferecer e as semelhanças com a carreira do astro são palpáveis, mas em seu debute no cinema, Levine demonstra jogo de cintura e senso crítico ao ajudar a delimitar as distintas percepções da música no metiê.

Keira Knightley, por seu turno, canta e se não convence – a maioria dos novos cantores hoje cantam e não convencem – encanta com sua singeleza e simplicidade. Sua personagem não é uma aspirante a cantora e essa distinção é importante e escapa à grande parte dos críticos ao desempenho da atriz. Ela é convencida, por uma convergência de fatores e circunstâncias, a embarcar nessa jornada de produzir um disco pelas ruas de Nova York com um produtor que tem uma visão.

Ruffalo garante a habitual eficácia na pele do loser simpático, mas são as músicas as verdadeiras estrelas do filme. São elas que jogam com o interesse da plateia e ajudam a contar essa história de amor e desamor na cidade em que tudo acontece. Da reverência à música, passando pelo respeito aos personagens (a tensão sexual entre Gretta e Dan não avança para um envolvimento sexual e isso faz um sentido absurdo no contexto dos personagens) e culminando na experiência que proporciona, “Mesmo se nada der certo” é um filme para se guardar na memória. Não é exatamente memorável, mas é tenro e saboroso como poucos filmes o são, uma maneira resiliste de se tornar inesquecível.

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