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quarta-feira, 26 de agosto de 2015 Críticas, Filmes | 17:12

Serial Killer inseguro torna “Na próxima, acerto no coração” fascinante

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Há filmes que se ressignificam mediante um personagem forte ou muitíssimo bem construído. É o caso do filme francês “Na próxima, acerto no coração” (França, 2014). Na superfície, a fita dirigida por Cédric Anger, é um thriller policial sobre um serial killer pouco convicto de sua vocação. Nas camadas insuspeitas que o bom roteiro – de autoria do mesmo Anger – desalinha, porém, o filme revela sua real aspiração: discutir o desagravo psicológico e emocional de um homem transtornado.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Um homem vislumbra duas mulheres pedalando na madrugada. Elas se apartam e ele segue a segunda. Ele a atropela e só não lhe cobre de balas da janela de seu carro porque percebe a aproximação de viaturas. Corta. Acompanhamos este homem chegando em seu apartamento e indo dormir. Poucas horas depois o vemos acordar e colocar o uniforme policial e somente quando ele entra em uma viatura descobrimos seu rosto. Essa sucessão de eventos diz muito sobre o personagem central de “Na próxima, acerto no coração”, mas mais ainda sobre os objetivos do filme. É importante saber que aquele assassino cruel é um policial e é importante sabê-lo nessa ordem. Mas o ritual de descoberta de Franck (vivido com contenção e robustez por Guillaume Canet) prossegue e aos poucos vamos processando que este homem é repleto de transtornos obsessivos e carrega uma noção religiosa deturpada que pode ou não estar relacionada a uma aparente assexualidade.

Franck só mata mulheres e parece fazê-lo a reboque de emoções mal elaboradas que ele tenta elaborar em uma tentativa de estabelecer contato com os investigadores do caso. Franck não chega a se beneficiar de sua posição de policial para enuviar as investigações, mas tenta. Essa inabilidade só reforça sua insipiência como matador. O assassino de “Na próxima, acerto no coração” é um homem em busca de afirmação. De sexualidade. O filme inspira-se em um caso notório da crônica policial francesa (é sugerível um Google no nome Alain Lamare), mas trata com bastante liberdade e imaginação toda a dubiedade que cerca o caso. Anger, no entanto, acerta ao focar todo o estofo narrativo do filme na desconstrução do protagonista. Seu Franck não é exatamente um misógino, mas o fundo religioso (“não importa o quê, temos que pagar”, ele diz ao irmão mais jovem em dado momento) afasta qualquer certeza sobre o personagem.

Tentar desvendar o enigma Franck é, indubitavelmente, a grande atração da fita francesa. Quem esperar um thriller convencional pode se frustrar, mas se a opção for por um incomum suspense de verve freudiana, a satisfação é garantida.

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