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quarta-feira, 7 de maio de 2014 Críticas, Filmes | 22:33

Crítica – “Divergente”

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Em um mundo em que a literatura juvenil é explorada quase que a toque de caixa pelo cinema e que duas ficções científicas com futuros distópicos ganham os cinemas contemporaneamente, é um prazer ver que “Divergente” (2014), baseado na obra homônima de Veronica Roth apresenta reflexões que fogem ao esquematismo do gênero. Não é o caso de comparar com “Jogos vorazes”, comparação automatizada pelas similaridades entre as sagas, mas de distinguir o discurso muito mais bem fundamentado e eloquente apresentado no filme dirigido por Neil Burger.

No futuro de “Divergente”, a sociedade cedeu ao totalitarismo e se organiza em cinco facções. Erudição, audácia, abnegação, franqueza e amizade. Na adolescência, todo cidadão é submetido a um teste que deve orientá-lo a escolher em qual facção irá viver. Existe até um slogan: “facção antes do sangue”. Essa objetividade aumenta a pressão, uma vez que submetido a uma fação, não há caminho de volta. Aqueles que não se encaixam em nenhum desses recortes são chamados de divergentes.

É uma premissa interessante muito bem explorada pela dramaturgia de Roth e potencializada pelas escolhas de Burger. Nossa sociedade adorar rotular. É algo inescapável a ao convívio. O gordo, a vagabunda, o gay, o chato e por aí vai. O que “Divergente” propõe enquanto reflexão é a força que insurge do íntimo de cada ser humano contra esse rótulo externo.

Nesse sentido, se comunica com a audiência com muito mais propriedade por não se restringir à alegoria política, como o faz seu “rival” “Jogos vorazes”.

Com uma heroína cativante e um plot bem amarrado, filme agrada e convence    (Foto: divulgação)

Com uma heroína cativante e um plot bem amarrado, filme agrada e convence (Foto: divulgação)

A luta da protagonista (Beatrice Prior), vivida com indesviável carisma e dedicação pela competente Shailene Woodley, é tanto contra o sistema, como contra o rótulo que lhe foi imposto pela sociedade. É, também, contra seus próprios limites.

Existe, é claro, a necessária subtrama do romance. Mas ela é administrada com a sutileza necessária para não se impor às prioridades narrativas. Outro acerto da condução de Burger. Além do mais, Theo James, que vive o indecifrável Four, é um talento nato. Transbordando carisma e com muito domínio de seu personagem, o ator gera boa química com Shailene Woodley e garante fôlego impensável para seu papel.

Já foi anunciado que a franquia terá quatro filmes, o terceiro livro será dividido em duas produções. Se não tem uma bilheteria irrepreensível, “Divergente” tem uma história pulsante, muito bem transposta para a tela grande e, principalmente, promissora, a seu favor.

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terça-feira, 29 de abril de 2014 Análises, Bastidores, Diretores | 21:52

Diretores que foram do indie ao cinemão

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Marc Webb, diretor de “O espetacular Homem-aranha 2: a ameaça de Electro”, também responsável pelo primeiro filme, anunciou há pouco tempo que não dirigirá o quarto filme. Isso mesmo. O quarto filme. O segundo nem sequer foi lançado e já se fala do quarto filme. É assim mesmo em Hollywood. Mas a razão para Marc Webb pôr a carroça na frente dos bois é de que ele é um dos egressos do cinema independente a serviço do cinema mainstream, aquele bancado pelos grandes estúdios. Webb tem a esperança de que agora, com mais cacife, possa bancar projetos mais autorais, como aquele que o pôs no mapa, “500 dias com ela” (2009). Comédia romântica indie para lá de alternativa e geek que marcou época no fim da década passada. A Sony queria justamente essa pegada nerd, mas cheia de ternura para o reboot do Homem-Aranha e desde então, Marc Webb joga no “time dos vendidos” do cinema americano. Esse time é constituído por cineastas surgidos no cinema independente que logo romperam a fronteira e foram trabalhar sob as asas dos estúdios.

Marc Webb em entrevista promocional do novo "Homem-Aranha"  (Foto: reprodução/Internet)

Marc Webb em entrevista promocional do novo “Homem-Aranha” (Foto: reprodução/Internet)

O filme mais visto no último fim de semana nos Estados Unidos foi “Mulheres ao ataque” (no Brasil, previsto para 08/05), comédia estrelada por Cameron Diaz que é uma das apostas da Fox para essa temporada pipoca. Na cadeira de diretor, Nick Cassavetes. O caso de Cassavetes é ainda mais emblemático dessa mudança de paradigma. Ele é filho do ator e cineasta John Cassavetes, um dos maiores expoentes do cinema independente americano. Entre trabalhos como ator e diretor, Nick sempre flertou com o cinemão; é dele, por exemplo, o meloso “Diário de uma paixão” (2002). Mas seus melhores trabalhos foram feitos às margens dos estúdios (“Loucos de amor” e “Um ator de coragem”, para citar dois exemplos).

Outra atração em cartaz nos cinemas de todo mundo atualmente é “Divergente”, adaptação da obra de Veronica Roth. Seu diretor, Neil Burger,também se fez no cinema independente com os bem azeitados “O ilusionista” (2006) e “Gente de sorte” (2008). “Divergente” é seu segundo filme de estúdio. O primeiro foi o thriller jeitosinho “Sem limites” com Bradley Cooper e Robert De Niro.

Grife a serviço do cinemão

Quentin Tarantino continua fazendo filmes tarantinescos.  Filmes que só ele pode fazer. Mas o homem que revitalizou o cinema independente americano em 1994 com “Pulp Fiction – tempos de violência” migrou para o cinemão. Seus últimos dois longas-metragens foram financiados por poderosos estúdios. “Bastardos inglórios” (2009) foi parcialmente bancado pela Universal, enquanto que “Django livre” (2012) foi inteiramente produzido pela Sony.

Outros dois cineastas com tiques narrativos bastante reconhecíveis seguiram o mesmo caminho de Tarantino. Paul Greengrass, diretor do premiadíssimo “Domingo sangrento” (2002), era uma aposta arriscada para sequência de “A identidade Bourne” (2002), mas depois do que ele fez com “A supremacia Bourne” (2004), redefinindo a maneira de se filmar a ação no gênero que mais movimenta as bilheterias no cinema, Greengrass jamais voltou a trabalhar fora do circuito de estúdios, ainda que faça filmes sérios e adultos como “Voo United 93” (2006) e “Capitão Phillips” (2013).

Guy Ritchie quase pôs fim a sua carreira durante o casamento com a pop star Madonna. Uma carreira que causou sensações com apenas dois filmes, “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes” (1998) e “Snatch – porcos e diamantes” (2000), mas reinventou-se como o homem por trás do Sherlock Holmes vivido por Robert Downey Jr. em dois filmes divertidos, mas bem aquém de seu talento.

Quentin Tarantino no set de "Django Livre": o mesmo, mas amplificado (Foto: divulgação)

Quentin Tarantino no set de “Django Livre”: o mesmo, mas amplificado (Foto: divulgação)

 

Neil Burger dirige Shailene Woodley em "Divergente": pelo prazer de fazer um filme pop (Foto: Divulgação)

Neil Burger dirige Shailene Woodley em “Divergente”: pelo prazer de fazer um filme pop (Foto: Divulgação)

 

Guy Ritchie entre Jude Law e Robert Downey Jr.: maneirismos do cinema independente a serviço de blockbusters (Foto: Divulgação)

Guy Ritchie entre Jude Law e Robert Downey Jr.: maneirismos do cinema independente a serviço de blockbusters (Foto: Divulgação)

Ser ou não ser mainstream?

“Os suspeitos” (1995) e “O aprendiz” (1998) são dois dos filmes mais inventivos da década de 90 e ambos são dirigidos por Bryan Singer, de todos dessa lista, o que “se vendeu” mais cedo. Sem Singer, esse novo “Homem-Aranha” de Webb não estaria por ser lançado. O homem fez “X-men: o filme” em 2000 e salvaguardou o posto de mídia a ser explorada pelo cinema para as HQs da Marvel, até então vítimas de uma espécie de maldição.

Em 2014, Singer lança um novo filme da franquia mutante e parece não ter saudades dos tempos de cinema independente.

Com Darren Aronofsky, que tem seu “Noé” fazendo algum barulho nos cinemas de todo mundo, o dilema parece mais profundo.

O diretor exibiu extremo talento nos filmes “Pi” (1998) e “Réquiem para um sonho” (2000). Eram filmes pesados, narrativamente densos, mas visualmente incríveis. Não demorou para um estúdio apostar nele. A Warner até tinha considerado seu nome para dirigir “Batman begins”, mas problemas pessoais o impediram de assumir o projeto. Aí surgiu um certo Christopher Nolan, outro que se fez no cinema independente…

Mas a Warner não estava disposta a desistir de Aronofsky e liberou algo em torno de U$ 50 milhões para ele fazer “A fonte da vida”, uma ficção existencialista. O filme, fracasso retumbante, não rendeu nem U$ 10 milhões e Aronofsky, por baixo, voltou ao cinema independente. Fez com recursos escassos o tocante “O lutador” (2008) e ganhou o leão de Ouro em Veneza. Pelo trabalho seguinte, “Cisne negro” (2010), foi indicado ao Oscar de diretor.  O filme protagonizado por Natalie Portman rendeu inesperados U$ 106 milhões nos EUA e Aronofsky voltou a ser sondado por estúdios. A Fox o contratou para dirigir “Wolverine: imortal” (2013), mas ele brigou com o estúdio porque queria ter a palavra final sobre o corte (montagem que vai para os cinemas) e acabou fora do projeto, que seria dirigido por James Mangold. A Paramount, no entanto, abarcou sua ideia para “Noé” e bancou a produção que consumiu cerca de U$ 130 milhões. Não foram poucas as desavenças entre estúdio e diretor durante as filmagens. Aronofsky parece disposto a atuar no cinemão, mas sem abrir mão da alma indie. Esse pode ser o pior dos mundos.

Darren Aronofsky bate um papo com Russell Crowe no set de "Noé": entre a cruz e a espada no tocante à liberdade criativa (Foto: Divulgação)

Darren Aronofsky bate um papo com Russell Crowe no set de “Noé”: entre a cruz e a espada no tocante à liberdade criativa (Foto: Divulgação)

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