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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015 Críticas, Filmes | 17:35

Espaço cult: Costa-Gravas devassa lógica capitalista no intenso e cerebral “O capital”

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Costa-Gravas no set de "O Capital"

Costa-Gravas no set de “O Capital”

Historicamente alinhado ao pensamento de esquerda, o cineasta grego Costa-Gravas entrega com “O capital” (2012), seu mais recente filme, sua mais bem elaborada e contundente análise do capitalismo como sistema econômico e modelo de vida.

No filme, testemunhamos a saga de Marc Torneuil (Gad Elmaleh). Um literato da economia alçado à presidência de um prestigiado e poderoso banco europeu quando o presidente da instituição, que habitualmente o ouvia, adoece e precisa se afastar do comando. A partir do momento do apontamento de Torneuil para o cargo, “O capital” já denota sua intenção de demolir fachadas e investir contra os clichês de um sistema com a coragem que, por exemplo, falta às produções americanas.

A ideia do diretor grego, também responsável pelo roteiro (prática comum em seus filmes), não é tecer uma grita contra o capitalismo e o neoliberalismo, mas examinar com precisão cirúrgica, e blindado por um humor em seu estado de maior perversão, os entraves de um sistema que deu certo, mas segue produzindo ruídos alarmantes pelo mundo. Muito porque estimula um jogo desleal e que gera ressentimento em todos aqueles que não dispõem do tabuleiro.

Torneuil sabe que sua indicação para a presidência do banco é um embuste somente tolerado enquanto grupos de olho no poder, e no apoio da força acionária majoritária, se movimentam nos bastidores. É preciso agir rápido e com proeminência. Ele rapidamente se liga a um grupo de investidores americanos que secretamente age para tomar o controle do banco, nem que para isso seja necessário precipitar medidas que derrubem seu valor de mercado. Torneuil vai se revelando um hábil estrategista e guiando-se pela filosofia maoista repele sindicatos, doma seus diretores executivos, enrola os americanos e se fortalece como um player significativo na economia europeia.

Em paralelo, Costa-Gravas lança um olhar para a derrocada moral deste homem que sempre se viu seduzido pelo poder, mas nunca o havia exercido de fato. Os bônus pornográficos, o flagelo do casamento e o jogo de interesses estipulado por todos que dele se aproximam, são sombras desse novo Torneuil, concebido pelas engrenagens do capitalismo.

O Capital

Executivos e acionistas discutem os bônus que serão pagos no ano: o gosto pelo jogo financeiro
(Fotos: divulgação)

É um pouco do meio e um pouco do homem, advoga Costa-Gravas com seu filme. Não é uma conclusão inédita, tampouco explosiva, mas fruto de uma construção dramática vistosa. Na cena final, Torneuil vira-se para a câmera, sob aplausos de executivos radiantes após um breve discurso em que promete “roubar dos pobres para dar aos ricos”, e diz que “são todos crianças se divertindo e que vão se divertir até que tudo exploda”. O brilhantismo do sistema, antecipou Costa-Gravas em uma cena exibida alguns minutos antes, está em reinventar-se para continuar o mesmo.

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