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domingo, 27 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 18:48

“O Nascimento de uma Nação” esconde sua irregularidade na importância do tema

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Para além da óbvia referência ao clássico de 1915 de D.W Griffith, ao qual desautoriza e problematiza com suor, lágrimas e sangue, “O Nascimento de uma Nação” (2016) é um filme de muita propriedade. Tanto de ordem intelectual como emocional. Se essa combinação o eleva enquanto obra artística, o fragiliza enquanto cinema.

Cena do filme "O Nascimento de uma Nação"

Cena do filme “O Nascimento de uma Nação”

Nate Parker, aqui em sua estreia como diretor, realiza um filme forte, pungente, ocasionalmente atordoante, mas enseja em falhas que, ainda que compreensíveis para um marinheiro de primeira viagem, diminuem o impacto de seu filme. Se os dois primeiros atos da produção são crus, ruidosos e incômodos, o derradeiro é excessivamente melodramático. Um entroncamento de ritmo deverás comprometedor.

Erguido como contraparte do filme de D.W Griffith, “O Nascimento de uma Nação” é um filme de um só ponto de vista. O que é plenamente defensável. Parker evita, na maior parte do tempo, o maniqueísmo com os brancos e o paternalismo com os negros. Um acerto que nem sempre cineastas negros que se debruçam sobre o tortuoso passado da América incorrem. O Sam de Armie Hammer, senhor do escravo Nat Turner (Parker), é desenhado como um homem fraco, incapaz de se posicionar e que se contenta sendo um senhor “bondoso” para seus escravos. Com a fazenda a perigo e tendo em Turner um escravo pastor, pois foi ensinado muitas passagens da bíblia, ele passa a viajar com Turner pela região para que ele acalente a espiral revoltosa que cresce em escravos na Virgínia.

Aí surge a grande sutileza do filme. Turner, obviamente se flagra desconfortável de pregar abnegação para escravos que sofrem mais do que ele. O que ocorre é que nas pregações pela Virgínia, ele vai sendo tomado por um impulso, que crê divino, de redimir seus irmãos. Ele não aceita mais ser um falso profeta e passa a olhar com outros olhos para a tal revolta dos escravos. Essa reengenharia interna a qual o personagem se submete, mas também é submetido é o grande acerto de “O Nascimento de uma Nação”, mas jamais emerge como foco narrativo do filme de Parker, que prefere as cores borradas de uma revolução que não deu certo, mas que logrou certo legado – que o cineasta se esforça para dar mais relevo do que de fato existe.

Para todos os efeitos, “O Nascimento de uma Nação” é uma produção encapsulada pelo tema respeitável, desenvolvida com uma gramática cinematográfica até certo ponto conservadora, mas que se fia na importância temática e na tabelinha proposta com o filme de Griffith para transcender.  O cálculo geraria grandes dividendos não fosse a vida do cineasta – e uma acusação de estupro – a minar a carreira do filme.

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