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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016 Críticas, Filmes | 14:15

Grande mérito de “O Quarto de Jack” é extrair encantamento de situação trágica

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Foto: Divulgação

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Vencedor do Festival de Toronto, “O Quarto de Jack” (2015) é um feito cinematográfico e tanto. Superficialmente, é um drama sobre uma jovem sequestrada que teve seu filho em cativeiro e recorre à ilusão para tornar a rotina do menino menos opressiva. No âmago, porém, é um exercício cinematográfico requintado e uma ode ao espírito humano.

Dirigido com imaginação e propriedade por Lenny Abrahamson, a partir da adaptação de Emma Donoghue da própria obra, “O Quarto de Jack” tem o mérito de mudar toda a sua estrutura narrativa após 40 minutos de filme e manter-se dramaticamente pulsante e francamente inquietante.

O primeiro ato do filme, ambientado todo dentro de um pequeno quarto, é um tour de force tanto de Brie Larson quanto de Jacob Tremblay. Eles tangenciam a desprovida rotina de mãe e filho com emoção e propriedade. Aqui Abrahsamson trabalha muito bem alguns fundamentos narrativos e, ainda que alguns expectadores possam lembrar de “A Vida é Bela”, o contexto é completamente diferente. Algo que os atos subsequentes deixam mais claro.

No segundo ato, “O Quarto de Jack” se reconfigura completamente. O registro cru, formal e tenso dá vez a um drama robusto, mais insidioso das pequenas fissuras verificadas nos personagens em cena. Trata-se de uma mudança estrutural profunda, administrada por Abrahamson e pelo roteiro de Donoghue com muito equilíbrio e perspicácia.

Mais adiante, o filme avança ainda mais nessa nova dialética e mantém o espectador intensamente conectado com a trama graças aos trabalhos irrepreensíveis de Larson e Tremblay.

O menino de nove anos merece uma menção à parte. Personificar Jack não era uma tarefa fácil. O personagem atravessa muitas fases e se depara com conflitos potencialmente dramáticos em momentos-chave do filme. Não é uma criança sendo uma criança em cena. É um ator, da mais fina estirpe, exercendo sua arte com dedicação e método.  Tremblay dá a Jack toda a fragilidade e inocência características de uma criança e muda as cores dessas características conforme o personagem vai evoluindo dramaticamente. É importante observar que todo filme se constrói a partir do ponto de vista de Jack, aumentando a responsabilidade de Trembay como ator.

Trata-se de um trabalho realmente invejável. Tremblay alcança notas, nuanças de seu personagem e afere força a momentos decisivos de “O Quarto de Jack” com a firmeza de um veterano. Larson, por seu turno, acolhe a complexidade dos conflitos de sua personagem com tremenda presença de espírito.

Ao extrair graça e encantamento de uma situação trágica, “O Quarto de Jack” capitaliza em cima da emoção, uma das grandes matérias-primas do cinema, mas também reafirma o espírito humano. Tão combalido pelo peso de todo o sensacionalismo da vida.

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