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Posts com a Tag Oscar 2015

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 18:49

Eddie Redmayne afere alma ao encomendado “A teoria de tudo”

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Foto: divulgação

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Stephen Hawking é, por muitas razões, um personagem que merece tratamento pelo cinema. “A teoria de tudo” (Inglaterra, 2014) é, sob muitos aspectos, a mais encorpada e reverente elaboração a respeito do genial físico e astrofísico britânico, hoje com 73 anos de idade. O que torna o filme dirigido por James Marsh, de “O equilibrista”, potencialmente mais interessante é o fato de que Hawking (Eddie Redmayne) não é a figura central aqui. O interesse por ele é equalizado com o interesse por Jane (Felicity Jones), sua primeira mulher e muitos diriam o grande amor de sua vida e pela história de amor que os uniu por tantos anos.

Se essa estratificação tira de “A teoria de tudo” certa autoridade em evocar para si o rótulo de biografia ou mesmo de filme a respeito da obra de Hawking, afere méritos mais louváveis como o de humanizar um personagem que parecia destinado a suprir apenas à curiosidade mórbida das pessoas. Oferece, também, um insight valoroso sobre a vida conjugal de um casal de interesses e convicções muito distintos e unidos pela poderosa semântica do amor.

Baseado no livro de Jane Hawking, “A teoria de tudo” cobre basicamente do momento em que a relação de Jane e Stephen começou até o momento em que ela se metamorfoseou em uma amizade distante, mas acolhedora.

Muito bem dirigido, com uma trilha sonora envolvente e uma história francamente interessante por se desvelar, “A teoria de tudo” se beneficia enormemente do talento de Eddie Redmayne. É sua energia inesgotável e esfuziante que dá cor e tonalidade ao filme. A potência dramática de Redmayne em cena acaba por destacar as limitações da obra. É um daqueles casos em que o ator é maior que o filme.

Formulaico e caprichado, o filme só tem a ganhar com a opulência de seu protagonista. Esquivando-se das polêmicas e sutil na abordagem da passagem mais melindrosa do livro de Jane, quando a relação amorosa com Stephen ganha um terceiro vértice, “A teoria de tudo” parece talhado para agradar à primazia seus homenageados.

Não se trata de um filme inesquecível como outros feitos sobre gênios geniosos, mas de uma produção sofisticada por um ator disposto a inflexionar seu personagem, mas refém de uma direção incapaz de se desvencilhar das responsabilidades umbilicais.

Entre prós e contras, salva-se um filme delicado, não exatamente genuíno, mas capaz de provocar emoção na mesma medida em que flerta com a indiferença. Um ônus do caminho escolhido pela realização em que só Redmayne se solidifica como unanimidade para a audiência.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 16:43

Eastwood flagra América combalida por meio de herói duvidoso em “Sniper americano”

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De vez em quando surge um filme cujo rótulo “incompreendido” precisa ser empregado. Há muito tempo, no entanto, não surgia um filme capaz de provocar debate tão acirrado e dominar a agenda cultural de um país, no caso os EUA, como “Sniper americano” (EUA, 2014).

O filme de Clint Eastwood foi majoritariamente percebido como uma peça de propaganda militar, um filme urdido sob  benção de uma América autoindulgente e conservadora. Há, também, quem enxergue um grave deslocamento de causa e efeito. Percebe raízes antibelicistas na narrativa desenvolvida por Eastwood, mas julga que essa narrativa coadunada com a trajetória de Chris Kyle, considerado o atirador de elite mais letal da história dos EUA, é contraproducente. Portanto, um erro de estratégia.

Chris Kyle em ação: polarização em torno do personagem serve aos propósitos de Eastwood (Foto: divulgação)

Chris Kyle em ação: polarização em torno do personagem serve aos propósitos de Eastwood
(Foto: divulgação)

Ambas as teorias falham miseravelmente. Clint Eastwood não faz uma defesa da guerra, tampouco se levanta contra ela, ele já foi mais enfático no quesito no díptico que dirigiu sobre a segunda guerra mundial (“A conquista da honra” e “Cartas de Iwo Jima”, ambos de 2006).  O cineasta também não objetiva repisar os efeitos da guerra em um homem, algo belamente registrado pelo cinema em filmes como “Amargo regresso” (1978) e “Guerra do terror” (2009), entre outros.

O que ele oferece é um estudo muito mais interior, robusto, complexo e sensível. Por isso mesmo foge à compreensão de muitos. Eastwood radiografa, por meio desse herói enviesado, uma nação em litígio consigo mesma. Imbuído de um patriotismo de cavidade, Chris Kyle (Bradley Cooper) parece se esforçar para manter consigo uma visão de que o mundo é preto no branco, refutando o cinza tão defendido na contemporaneidade –  e que outros personagens ao longo da narrativa parecem aceitar. Kyle virou Seal (membro da elite da marinha americana) por falta de propósito, mas a visão de mundo é fruto de uma educação embrutecida do pai, um típico caubói do Texas, articula Eastwood logo no começo da projeção.

Há algo por trás da obsessão de Chris Kyle pela guerra. O espectador pode especular se tratar da rivalidade silenciosa com o atirador de elite sírio que desafia seus números, o desejo de vingar o iraquiano disposto a colaborar com as tropas americanas que foi morto pelo açougueiro ou mesmo a vaidade de reforçar sua “lenda”, como é carinhosamente chamado pelos corredores da guerra.

Mas trata-se mais de uma visão de mundo rudimentar que se apresenta verborragicamente para a audiência em uma conversa entre Klye e sua esposa (Sienna Miller) logo após a leitura de uma carta deixada por um amigo morto em combate.

São nesses respiros dramáticos que Eastwood tece pequenos comentários sobre uma América remoída e fragmentada. Há uma outra cena em que Kyle encara uma televisão e ouvimos todo tipo de explosões e tiroteios para depois descobrirmos que a TV estava desligada.

Eastwood defende com momentos como esse que a guerra é algo que se retroalimenta. A cultura expressa por Kyle, que o filme sabiamente não defende, acusa ou redime, está viva na América e toda a reação ao filme é sintomática dessa condição.

Bradley Cooper, não menos que extraordinário, ajuda a dimensionar as angústias de seu personagem (Foto: divulgação)

Bradley Cooper, não menos que extraordinário, ajuda a dimensionar as angústias de seu personagem
(Foto: divulgação)

Temos outra cena em que Kyle ensina seu filho a caçar. Ele diz “É uma coisa e tanto interromper um coração”. O diálogo, como bem lembrou Luísa Pécora em sua excelente crítica sobre o filme, remete a uma fala de “Os imperdoáveis” em que o veterano vivido por Clint Eastwood diz que “é uma coisa e tanto tirar a vida de um homem”. A diferença é que Kyle não estava cansado dessa vida e desferiu a frase com o desejo e excitação de que seu filho logo soubesse o que é esse sentimento, enquanto que o desgostoso caubói vivido por Eastwood em “Os imperdoáveis” receava que seu aprendiz tivesse que cometer tal ato em breve.

A autorreferência, sutil como ela mesma, ajuda a entender a força de “Sniper americano” uma investigação doída, profunda e eloquente de um personagem que mimetiza uma visão de mundo, tida como decadente, mas ainda muito influente.

Passa por aí a pouca atenção dada à morte de Kyle, tão absurda e inglória que talvez merecesse um comentário mais febril. Eastwood não trata o fato como desimportante, mas evita aferir-lhe propriedade para que o norte de seu filme não seja deslocado. Não contava, é claro, que desentendessem seu filme de todo jeito.

Um último adendo deve ser feito à atuação de Bradley Cooper.  O ator reveste seu Kyle de camadas insuspeitas e sublinha com comedimento e astúcia dramática os recortes pretendidos por Eastwood. Seu Chris Kyle é um homem com uma visão unilateral do mundo. Aferrado a ela. Mas essa visão também tem seu preço. O ônus familiar e emocional, tão bem encampados no filme, o tornam mais familiar e permitem a confusão de muitos ao tomá-lo por um filme sobre “os efeitos da guerra em um homem”. Não que haja demérito aí e essa camada de “Sniper americano” é suficientemente satisfatória. Mas há muito além e Bradley Cooper é, para todos os efeitos, o fiador dessa desestabilizadora experiência que é “Sniper Americano”. Um Eastwood dos grandes, enfim!

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015 Bastidores | 02:55

Os quatro segundos de tragédia de Michael Keaton

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Eddie Redmayne ganhou o Oscar. Michael Keaton merecia mais. A disputa pelo prêmio de melhor ator era a mais imprevisível entre as principais categorias do Oscar 2015. Keaton demonstrava muita ansiedade durante a cerimônia. Mascou nervosamente um chiclete ao longo de toda a festa. Quando Eddie Redmayne venceu, pudemos ver que de todos os intérpretes vitoriosos ele era o mais eufórico, um reflexo talvez dessa disputa acirrada com o ator de “Birdman”. O que não pudemos ver na hora, mas que viralizou e provavelmente aumentou a frustração de Michael Keaton, foi a reação do ator ao triunfo de Redmayne. O vídeo, que pode ser visto abaixo, mostra Keaton guardando seu discurso de aceitação do Oscar no bolso interno de seu blazer. Ele acusou o golpe!

Um momento amargo potencializado pela ressonância da internet.

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Críticas, Filmes | 01:05

Direção potente reforça discurso politizado de “Selma”

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Existem filmes que são impulsionados por sua importância histórica, é o caso de “Selma” (EUA, 2014) que reverbera um dos mais importantes episódios da cruzada de Martin Luther King Jr. pela igualdade e liberdade civis na década de 60.

Dirigido por Ava DuVernay com mão de ferro, “Selma” é um filme que está sendo contestado por suas imprecisões históricas, elas existem e não são poucas, mas uma forma mais amistosa de se olhar para o filme é reconhecer nele um ponto de vista muito forte.  O drama recria a tentativa de King liderar uma marcha entre as cidades de Selma e Montgomery, no estado sulista do Alabama – um dos mais segregacionistas da América de então. O filme acompanha esses bastidores, a resistência do governador George Wallace (Tim Roth) e a leniência do presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson). É justamente esse retrato vilanizador de Johnson que tem sido bastante questionado. As costuras políticas eram naturalmente delicadas e Johnson precisava vencer muita resistência política para atender aos anseios dos negros. O anseio em relevo em “Selma” era o do direito ao voto, na prática sufocado por tabeliães larápios e racistas. King defendia uma legislação federal que derrubasse todas as restrições para que eleitores negros se registrassem. Johnson, na leitura do filme, hesitava em atender essa demanda que no entendimento de King bastaria uma canetada.

Um King humanizado, mas ainda extremamente cativante, surge em "Selma" (Foto: divulgação)

Um King humanizado, mas ainda extremamente cativante, surge em “Selma”
(Foto: divulgação)

Não se deve exigir de “Selma” pureza histórica, mas sim fidelidade aos fatos. Nesse aspecto, o filme é feliz. Não há distorções ou ilações, apenas a expressão contundente e vigorosa de um ponto de vista, discorde-se dele ou não. DuVernay fez um filme sobre um ícone americano, hoje louvado e incensado em todo o país, mas que nem sempre foi visto desta maneira. Seu filme começa com King aceitando o prêmio Nobel da Paz. A cineasta propõe com este recorte o seguinte raciocínio: Está aqui um homem que não deseja lutar contra o sistema, mas que tenta fazer com que este sistema seja mais justo, democrático e humano. É um raciocínio irresistível. Difícil de resistir também é o olhar que ela lança sobre King, interpretado soberba e emocionantemente por David Oyelowo. Um líder humano, falho, cheio de medos e abraçado a sua fé em Deus e no homem, o King que surge em “Selma” está longe do mito que muitos reverenciam, ainda que seja talhado para admiração. Nesse sentido, o filme desvia tanto King quanto Johnson do veredito histórico que receberam e essa constatação revela que as críticas ao filme por sua obtusidade histórica nada mais são do que  má vontade para com uma obra com um discurso tão forte e clamoroso por justiça social, algo que tanto nos Estados Unidos como no Brasil, ainda parece circunscrito ao sonho que King ousou sonhar.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015 Análises, Bastidores | 06:21

Tom político dos discursos e prêmios da edição de 2015 são brisa da mudança no Oscar

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Há não muito tempo a coluna abordou um tema que parece interno demais à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Parece e é; mas produz resultados diretos na forma como o cinema americano se posiciona e como o Oscar, enquanto instituição, se pronuncia. Não só em comunicados oficiais, mas também por meio de seus prêmios.  O post, que pode ser lido aqui, tratava da guerra fria travada entre as alas modernizante e conservadora da academia. Esse embate já ocorre há algum tempo e a cada ano se torna mais revelador e insidioso. Em 2015, enquanto muitos chiaram pela ausência de diversidade no Oscar, outro recorte permitia observar a liderança de duas comédias incomuns e incrivelmente originais na disputa pelo prêmio. Falamos, é claro, de “O Grande hotel Budapeste” e “Birdman”, que acabaram sendo também os campeões de Oscars com quatro troféus cada. O independente “Whiplash – em busca da perfeição” surpreendeu a muitos ficando logo atrás com três estatuetas.  Ora, é preciso parar um pouco e festejar o fato de que três filmes originais e independentes na alma e na embalagem foram os grandes destaques da 87ª edição dos prêmios da academia. O fato ganha ainda mais relevo se lembrarmos que haviam produções com “cara de Oscar” na disputa. Caso dos britânicos “A teoria de tudo” e “O jogo da imitação”. Há quatro anos, “O discurso do rei”, um filme bem menos azeitado do que “O jogo da imitação”, por exemplo, derrubou filmes muito mais criativos, inteligentes e cativantes como “Cisne negro” e “A rede social”.  Tanto o filme estrelado por Benedict Cumberbatch como o estrelado por Colin Firth eram distribuídos por Harvey Weinstein, considerado o grande gênio do marketing com vistas ao Oscar. Sinais dos tempos?

O reinado do Oscar de Lego: em uma cerimônia cheia de meas culpas, o  Oscar de Lego que surgiu logo depois da esnobada ao filme "Uma aventura Lego" foi um dos destaques (Foto: reprodução/Instagram)

O reinado do Oscar de Lego: em uma cerimônia cheia de meas culpas, o Oscar de Lego, que surgiu logo depois da esnobada ao filme “Uma aventura Lego”, foi um dos destaques
(Foto: reprodução/Instagram)

O mexicano Alejandro González Iñarritu levou três troféus na noite, como roteirista, diretor e produtor. Na terceira vez que subiu ao palco fez um discurso sobre os EUA serem um país construído por imigrantes e reverenciou os compatriotas mexicanos. Trata-se da segunda vitória de um cineasta mexicano consecutivamente na categoria de direção. Um americano não vence na categoria desde o triunfo de Kathryn Bigelow em 2010 por “Guerra ao terror”. O discurso foi ensejado por uma piada de Sean Penn, amigo do diretor e com que já trabalhara em “21 gramas”, envolvendo o green card do mexicano.

A internacionalização da academia pôde ser ratificada em outros prêmios. Reese Witherspoon, indicada ao Oscar como melhor atriz por “Livre”, lembrou ainda no tapete vermelho que eram 44 mulheres indicadas ao Oscar naquela noite. Se descontarmos as dez concorrendo em categorias de atuação, ainda eram 34. Um número bastante significante. Muitas delas venceram, como Laura Poitras, pelo documentário “Citizenfour”.

Leia também: Em cerimônia de desabafos e estranhezas, Oscar consagra metalinguístico “Birdman”

Há um movimento, ainda imperceptível para os olhos do espectador ocasional, nas entranhas da academia. Um movimento progressista, frise-se. E aí entram os discursos inflamados.

O triunfo de Dana Perry e Ellen Goosenberg Kent na categoria de documentário em curta-metragem (Foto: AP)

O triunfo de Dana Perry e Ellen Goosenberg Kent na categoria de documentário em curta-metragem
(Foto: AP)

Não se dissipou a sensação de que entre os principais indicados havia pouca diversidade. E Neil Patrick Harris acertou sua única piada logo em sua primeira fala mirando no elefante na sala. Patricia Arquette veio de caso pensado. Sabia que ia ganhar e como fizera em todas as premiações, sacou o papelzinho e vaticinou: “É nosso tempo de ter igualdade salarial e direitos iguais para as mulheres nos EUA”. Foi uma reação a percepção dominante de que a academia ainda é um clube do bolinha. Essa ala modernizante tem como característica esse desprendimento em insinuar-se. Arquette, como todo vencedor do Oscar, deve se juntar ao grupo. John Legend, Graham Moore, Iñarritu e toda a flana politizada da noite podem ser percebidos neste contexto. Assim como a própria vitória de “Birdman”, indo além no diagnóstico dessa ruptura nas hostes da academia. A julgar pelo número musical inicial, em que um histérico Jack Black esbravejou tudo que estaria errado com a Hollywood de hoje (os inúmeros filmes de super-heróis, inclusive), a homenagem aos 50 anos de “A noviça rebelde” e a própria celebração de “Birdman”, quando a academia dispunha de outros caminhos tão elogiosos e satisfatórios quanto à distinção ao filme de Iñarritu, pode-se dizer que há uma estafa mal resolvida, uma crise mal elaborada com os filmes de heróis. É como se a academia dissesse, precisamos pensar no que estamos fazendo. Por que não fazemos mais filmes como no passado?  “Birdman”, afinal, captura com esplendor essa crise de identidade. Hollywood precisa ser mainstream, mas há muito tempo que os estúdios não fazem filmes adultos inteligíveis que deem bilheteria. É bem verdade que neste ano tivemos dois. “O juiz” e “Garota exemplar”, ambos com presença reduzida no Oscar. A academia parece ressentir-se dessa ânsia toda por franquias milionárias e clama por novos “Scarface”, “Amadeus”, “Melhor é impossível”, etc.

Iñarritu, o grande nome do Oscar 2015 é do México: tendência de internacionalização e maior diversidade é irreversível  (Foto: AP)

Iñarritu, o grande nome do Oscar 2015 é do México: tendência de internacionalização e maior diversidade
é irreversível
(Foto: AP)

Como curiosidade, nove dos 20 atores indicados já marcaram presença ou estão vinculados a filmes de super-heróis. Vamos a eles: Edward Norton, Mark Ruffalo, Michael Keaton, Bradley Cooper, Emma Stone, J.K. Simmons, Benedict Cumberbatch, Felicity Jones e Marion Cotillard.

Este ano o Oscar voltou a perder audiência nos EUA. Os números caíram cerca de 15% em relação ao ano passado e a cerimônia foi a menos assistida desde 2009. A vitória de “Birdman”, sobre um ator que tenta desesperadamente conquistar relevância e obter reconhecimento, é uma sinalização para dentro e para fora. Representa, também, o ponto de convergência entre conservadores e modernizantes de que é preciso ir para algum lugar.

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015 Análises, Críticas | 03:25

Em cerimônia de desabafos e estranhezas, Oscar consagra metalinguístico “Birdman”

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Em uma cerimônia com sérios problemas de ritmo, um host inseguro e pouco engraçado, mas com discursos emocionantes e um inesperado e acintoso tom político, a 87ª edição do Oscar reiterou algumas convicções que se enunciaram ao longo da temporada e consagrou “Birdman ou a inesperada virtude da ignorância” como a melhor produção de 2014. O filme de Alejandro González Iñárritu, que já era o favorito consumado, venceu os Oscars de filme, direção, roteiro original e fotografia. “Boyhood – da infância à juventude” acabou triunfando apenas na categoria de atriz coadjuvante com Patricia Arquette.

“O Grande Hotel Budapeste” prevaleceu nas categorias técnicas conquistando os Oscars de direção de arte, trilha sonora, maquiagem e figurino. “Whiplash” ficou com três Oscars (Montagem, mixagem de som e ator coadjuvante). Por um breve período, essas duas pequenas joias tão avessas a iconografia do Oscar dividiam a liderança em prêmios.

Foi uma noite estranha. A orquestra bem que tentou, mas não conseguiu intimidar o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, o polonês Pawel Pawlikowski por “Ida”, a interromper seu emocionado discurso de agradecimento. A famosa “musiquinha do Oscar” perdeu o respeito. Lady Gaga, por seu turno, mostrou uma voz poderosa em uma homenagem aos 50 anos de “A noviça rebelde”. Meryl Streep foi mais bem sucedida no teleprompter do In memoriam do que em “Caminhos da floresta”; a performance da canção “Glory” verteu lágrimas insuspeitas; Benedict Cumberbtach não fez nenhuma photobomb e Neil Patrick Harris foi um host bem menos feliz do que se poderia imaginar. Além, é claro dos discursos pró-minoria. Eles vieram de todos os lados. Patricia Arquette içou a bandeira do feminismo em seu discurso de agradecimento e deu a Meryl Streep a oportunidade de ter um meme para si. Graham Moore, vencedor do Oscar de roteiro adaptado por “O jogo da imitação” lembrou-se de quando quis se suicidar aos 15 anos por ser diferente e frisou que seu sucesso, seu momento, deve servir como exemplo e cunhou a hashtag “stay weird”. John Legend falou dos negros, Iñarritu dos mexicanos e essa é apenas a ponta do iceberg dos discursos de fundo político. E nem falamos ainda do vencedor de melhor documentário, “Citizenfour”.

Meryl vira meme...  (Foto: divulgação)

Meryl vira meme…
(Foto: reprodução/twitter)

Com tanta consternação, o cinema – principal elemento da noite e do bom número de abertura da cerimônia – parecia coadjuvar mais do que nunca na cerimônia. Apesar desta impressão, trata-se de uma das edições mais justas do Oscar nos últimos anos. Não houve nenhuma clamorosa injustiça e “Birdman”, que fez a academia agregar os prêmios de direção, filme e roteiro pela primeira vez desde 2011, era, de fato, o melhor entre os concorrentes a melhor filme. A última vez que o melhor foi eleito o melhor foi em 2008, quando os Coen triunfaram com “Onde os fracos não têm vez”.

A vitória de “Birdman”, como a coluna já aventava, reflete o status quo não só da indústria, mas da própria academia. Hollywood se sustenta com as franquias milionárias, mas se embevece com filmes relevantes como os que tenta reunir nesta noite de gala. A busca por relevância é, também, do Oscar coadunado cada vez mais com o cinema independente. “Birdman” é cinema de colhões, corajoso, como bem definiu Michael Keaton e sua vitória também deve ser celebrada neste contexto, não só pelo que ela diz sobre a academia e o momento de Hollywood.

Se a noite foi de Iñarritu, que ganhou pessoalmente três Oscars, o mesmo não se pode dizer de Richard Linklater e Wes Anderson que pessoalmente não ganharam nenhum dos troféus a que concorriam.

Vitória de "Birdman": filme de colhões  (Foto:AP)

Vitória de “Birdman”: filme de colhões
(Foto:AP)

A opção por Eddie Redmayne em detrimento de Michael Keaton reitera, não somente a força do sindicato dos atores, como a percepção de que enquanto colegiado, a academia ainda não está preparada para se desligar de certos cacoetes como o da “performance de Oscar”, padrão que também valeu o triunfo de Julianne Moore (“Para sempre Alice”) entre as atrizes.

Se a cerimônia dá bastante margem para discussão – certamente foi uma das mais decepcionantes em muitos anos, o resultado em si não pode ser muito contestado. Com poucas surpresas, a 87ª edição do Oscar cumpriu o que prometia e consagrou pelo terceiro ano em quatro, uma produção que fala sobre o show business (“O artista” em 2012 e “Argo” em 2013 foram as outras). Viva a terapia assistida!

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domingo, 22 de fevereiro de 2015 Análises, Críticas | 09:19

Polarização entre “Boyhood” e “Birdman” cristaliza oportunidade da academia ousar

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Ganhe“Boyhood” ou “Birdman”, o Oscar de melhor filme estará em boas mãos. Em um ano de qualidade cinematográfica anêmica, especialmente nos EUA, é salutar que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood disponha de dois filmes tão originais e inovadores polarizando a disputa principal.

Montagem sobre reprodução

Montagem sobre reprodução

Pode ser coincidência, mas a pobreza de 2014 favoreceu dois injustiçados históricos. Richard Linklater e Wes Anderson, dois dos mais autorais cineastas americanos em atividade, chegam ao Oscar com propriedade e com filmes lançados no começo do ano. Tanto “Boyhood” como “O grande hotel Budapeste” debutaram no festival de Berlim, em fevereiro, e foram lançados em agosto e março respectivamente no mercado dos EUA. Os dois devem ser premiados. Anderson deve ficar com a estatueta de roteiro original e Linklater deve ser eleito o melhor diretor do ano.

Leia também: O Oscar 2015 nas entrelinhas

Crítica:  Do que falamos quando falamos de “Birdman”? 

Crítica: Tempo é parâmetro absoluto para epifanias de “Boyhood”

 

Essas ilações nos levam a uma tendência recente que deve se repetir em 2015. A pulverização dos prêmios. “O Grande hotel Budapeste” deve ser o maior vencedor da noite, com quatro ou cinco prêmios, mas o Oscar de melhor filme deve ficar entre “Birdman” e “Boyhood”.  Pela originalidade, arrojo estético e dificuldade na realização de ambos os filmes, a expectativa é de que a academia divida os prêmios de filme e direção entre as produções. A coluna aposta que “Birdman” fique com o Oscar de melhor filme e “Boyhood” renda a Linklater o troféu de direção. Desde a consagração de “O artista” em 2012, que uma mesma produção não vence os Oscars de filme e direção.

Vibrante, histérico, cativante, irônico e reflexivo do status de Hollywood, “Birdman” é um candidato irresistível para o metiê e vale lembrar que o Oscar é um prêmio de indústria e de uma que gosta de se levar a sério. Mais afinidade entre filme e premiação não poderia haver.

A popularidade e a efervescência do debate em torno de “Sniper americano” podem favorecer o filme no caso de um eventual racha entre os “Bs” que gozam de favoritismo. Mas há muita resistência ao filme de Clint Eastwood. Seria um cenário improvável, ainda que mais viável do que as vitórias de “Whiplash – em busca da perfeição” e “A teoria de tudo”.

Richard Linklater, à direita: o esforço e a retidão de conduzir um filme por doze anos devem ser recompensados com o Oscar de direção (Foto: divulgação)

Richard Linklater, à direita: o esforço e a retidão de conduzir um filme por doze anos devem ser recompensados com o Oscar de direção
(Foto: divulgação)

Consagração de carreiras

J. K Simmons é um monstro em “Whiplash” e ninguém tira o Oscar dele. Edward Norton por “Birdman” é o único a fazer uma distante sombra entre os atores coadjuvantes. Patricia Arquette, por “Boyhood” tem esbarrado na unanimidade na categoria de atriz coadjuvante. O Oscar a ela seria uma forma de homenagear a devoção do elenco a um projeto como “Boyhood”.

Julianne Moore não vê concorrência entre as atrizes. Sua performance em “Para sempre Alice” é, de fato, a melhor entre as indicadas. Mas a disputa ganhou contornos desleais quando enveredou pelo caminho “ela já merece há algum tempo”. Rosamund Pike, por ‘Garota exemplar” e Marion Cotillard, por “Dois dias, uma noite” apresentam desempenhos premiáveis, mas são zebras colossais.

Em comum, esses favoritos têm o fato de que esses Oscars competitivos ganham o peso de chancela a carreiras de extrema regularidade e bom gosto. Trata-se de um vício reiterado da academia em fazer homenagens e estabelecer políticas de compensação com Oscars competitivos. Por coincidência, o ano forjou candidaturas suficientemente sólidas para que esse mau hábito não seja circunstancialmente questionado.

Na categoria de melhor ator esse aspecto ganha contornos mais dramáticos. Michael Keaton (“Birdman”), outrora favorito explícito, preenche os requisitos listados acima. Mas se encontra em uma disputa acirradíssima em que os outros quatro concorrentes vivem personagens reais.

Keaton, no entanto, a exemplo de Simmons e Moore, tem a melhor performance entre os pleiteantes, com a escusa da subjetividade inerente à análise.  Só ele e Bradley Cooper, em “Sniper americano”, investigam seus personagens de dentro para fora. Os conflitos e dilemas tangenciados pelas respectivas atuações são totalmente emocionais e não há amparo da fisicalidade, como nos casos de Eddie Redmayne (“A teoria de tudo”) e Steve Carell (“Foxcatcher”), também ótimos.

Keaton demonstra inteligência incomum, e segurança extraordinária, ao brincar com a própria persona em um jogo de metalinguagens arriscado para qualquer intérprete.

Leia também: Michael Keaton exorciza Michael Keaton com “Birdman”

O Oscar fica entre ele e Redmayne, espetacular como Stephen Hawking em “A teoria de tudo” e beneficiário de defender uma interpretação ajustada aos perfis mais destacados pelo Oscar historicamente. Personagem real, gênio e/ou com deficiência física. Isolados ou combinados, esses fatores costumam render prêmio. A categoria de atriz também admite o mesmo raciocínio em 2015.

Michael Keaton: uma das últimas dúvidas do Oscar, pode ter o seu prêmio da carreira "furtado" por uma atuação com "cara de Oscar" (Foto: divulgação)

Michael Keaton: uma das últimas dúvidas do Oscar. Ele pode ter o seu prêmio da carreira “furtado” por uma atuação com “cara de Oscar”
(Foto: divulgação)

Escolhas ousadas?

A disputa pelo Oscar de filme estrangeiro parece concentrada entre o polonês “Ida” e o russo “Leviatã”. Além da questão geopolítica que une os dois candidatos, há a oposição de um tema caro à academia, o holocausto, com um tema quente, os desmandos políticos na Rússia. Mas esta categoria é uma das mais surpreendentes na história recente do Oscar. Portanto, as chances de vitória do argentino “Relatos selvagens” ou do estoniano “Tangerines” não podem ser desprezadas.

Parece improvável que o prêmio de fotografia não fique com o mexicano Emmanuel Lubezki por “Birdman”. Ele já venceu no ano passado por “Gravidade”. Seria o triunfo da ousadia de apresentar um plano-sequência falso na obra de Iñarritu.

“O Grande Hotel Budapeste” deve prevalecer nas categorias de figurino e direção de arte, podendo pincelar os prêmios de trilha sonora e mesmo fotografia.

O prêmio de montagem, se o mundo for justo, fica com “Boyhood”. Mas o mundo não é justo e a ousadia do Oscar costuma ficar restrita às indicações. Um reflexo da divisão cada vez mais flagrante entre as alas conservadora e moderna da academia. Fica a torcida para 2015 ser o ano que marque o início da virada.

Mais: Academia de Hollywood vive  guerra fria entre alas conservadora e modernizante 

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015 Análises | 18:17

O Oscar 2015 nas entrelinhas

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Que o cinema independente é cota majoritária na edição deste ano do Oscar é plenamente sabido. Mais arrazoado ainda, é o fato de que isto não é exatamente uma novidade, mas sim uma tendência. Essa inclinação do Oscar à introspecção rendeu detalhes curiosos na atual edição do maior prêmio da indústria cinematográfica.

iG On: “Birdman” e “O grande hotel Budapeste” lideram indicações ao Oscar 2015

Leia também: Briga pelo Oscar toma forma e restam poucas dúvidas

Há a predominância de histórias reais entre os concorrentes. Dos indicados a melhor filme, quatro não são baseados em fatos reais. Três destes, “Whiplash – em busca da perfeição”, “Birdman” e “Boyhood”, se bifurcam com a realidade em pontos interessantes. O primeiro é baseado nas experiências do diretor e roteirista Damien Chazelle com seu professor de música na adolescência. O segundo é um exercício de metalinguagem dos mais sofisticados sobre a carreira do ator Michael Keaton e do status quo hollywoodiano, enquanto que o terceiro é cinema de vanguarda em que as opções estéticas do cineasta Richard Linklater oferecem a evolução física dos atores como tempero de uma história sobre a passagem do tempo.

O ano de 2014 não foi um grande ano para o cinema americano. Mas as duas produções que chegam com mais chances de faturar o Oscar de melhor filme são inovadoras e essencialmente originais. Tanto “Birdman” como “Boyhood” não apresentam tramas efetivamente novas, mas impressionam pelas opções estéticas e pelo desprendimento com que desvelam suas narrativas. Prova disso é que praticamente ninguém aventa a possibilidade de triunfo de um dos dois candidatos ingleses na corrida (“A teoria de tudo” e “O jogo da imitação”), que fazem o tipo “padronizado para o Oscar”. Uma particularidade digna de celebração da edição de 2015.

Birdman

Cena de “Birdman”: o triunfo da originalidade
(Foto: divulgação)

O destaque a Alejandro González Iñarritu, Bennett Miller, Richard Linklater e Wes Anderson, quatro dos cinco indicados ao prêmio de direção, representa um reconhecimento a uma geração autoral. Se Miller e Iñarritu, com poucos filmes no currículo, sempre rondaram o Oscar, Anderson e Linklater são esnobados históricos que chegaram com força na safra de 2015. Algo semelhante ocorre em outras categorias do Oscar. Julianne Moore, notavelmente, é um dos maiores expoentes não só de sua geração, como do cinema contemporâneo e ainda não tem um Oscar. É a maior baba da noite. Dificilmente o Oscar não será dela em 22 de fevereiro pelo papel de uma vítima de Alzheimer em “Para sempre Alice”. Trata-se de uma daquelas situações que a academia adora. Premiar alguém pelo conjunto da obra com um Oscar competitivo. Uma distorção que, embora compreensível, acarreta muitas críticas. Michael Keaton, outrora favorito na categoria de melhor ator, pode ser enquadrado na mesma categoria. Mas seu caso é um tanto diferente. Afinal, Keaton não detém o prestígio de Moore e o favoritismo hoje é do rival Eddie Redmayne por “A teoria de tudo”.

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Mas a grande incógnita neste momento é o tamanho com que “Sniper americano” sairá da noite do Oscar. Com uma bilheteria vultosa, de mais de U$ 300 milhões nos EUA, o filme provocou uma polarização que há muito não se via em torno de uma produção concorrente ao Oscar. A fita que aborda a vida do marine Chris Kyle, considerado o atirador de elite mais letal do exército americano, se viu no epicentro de um furioso debate sobre suas pretensões e responsabilidades ao levar às telas a vida de um homem como Kyle.

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Além de ser o maior sucesso entre os indicados do ano, e o maior sucesso de bilheteria desde 2011, quando concorreram ao Oscar de melhor filme os blockbusters “Toy story 3” e “A origem”, “Sniper americano” pode significar para o Oscar a efervescência cultural que muitos alegam estar perdida.  É tentador. Além do mais, a vitória de um filme popular, no sentido de ser sucesso de público, não faria mal à popularidade da academia.

Cena de "Sniper americano": A América em debate (Foto: divulgação)

Cena de “Sniper americano”: A América em debate
(Foto: divulgação)

“Birdman”, no qual a indústria tem a oportunidade de se reconhecer, é um filme mais atraente. “Boyhood”, mais encantador. De todo jeito, a consagração de “Sniper americano”, improvável, seria um contrassenso a esse movimento de abraçar o cinema independente. Ainda que o filme de Clint Eastwood siga a linha da introspecção tão valorizada nos candidatos do ano. “Boyhood” é o independente hardcore, feito com pouco dinheiro e muita garra ao longo de  12 anos. “Birdman” é o filme que melhor captura esse momento que vive a academia. O resultado de domingo, por mais arbitrário e circunstancial que possa parecer, pode ser o mais influente em anos.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 15:14

Do que falamos quando falamos de “Birdman”?

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Esta crítica poderia começar da maneira como se convencionou introduzir textos analíticos sobre “Birdman ou a inesperada virtude da ignorância”, esse petardo cinematográfico disparado pelo mexicano Alejandro González Iñarritu, mas as convenções parecem pequenas ante a magnitude do filme. Sobre o que, afinal, estamos falando quando falamos de “Birdman”? Sobre cinema? Sobre o conflito entre o id e o ego? Sobre a complexa relação entre arte e indústria? Sobre a tentativa desesperada de um ator em retornar aos dias de glória de outrora?

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Ao abrilhantar seu filme com um jogo de metáforas original, mesmerizante e insidioso, Iñarritu reúne todos esses temas em uma narrativa nervosa, pulsante, irônica e profundamente reveladora dos personagens, do estado de espírito de seu realizador e fundamentalmente do cinema em seu contexto macroestrutural, mas também em sua veia mais íntima.

Riggan Thomson (Michael Keaton) produz, dirige e estrela uma adaptação de Raymond Carver para a Broadway. A peça é a última tentativa do ator, que recusou estrelar a terceira sequência do filme de super-herói Birdman, de recuperar o prestígio de outrora e de obter um reconhecimento que só vem fora das franquias milionárias que dominam Hollywood e que, por conjectura, paira sobre o teatro.

O híper realismo da narrativa de "Birdman" se refugia em um espirituoso arremedo de metalinguagens

O hiperrealismo da narrativa de “Birdman” se refugia em um espirituoso arremedo de metalinguagens

O filme se desdobra pela semana que antecede a noite de abertura da peça. Riggan precisa administrar a vaidade de um ator querido da crítica que pode representar a salvação da peça (Edward Norton), dar atenção à filha recém-egressa da rehab (Emma Stone), da namorada ciosa de mais afeto (Andrea Riseborough), da atriz insegura (Naomi Watts), e de seu produtor à beira de um ataque de nervos com os gastos do espetáculo (Zach Galifianakis).

Iñarritu alterna momentos de mais sutileza com outros de gravidade absoluta na interposição de conflitos pessoais do protagonista com comentários sobre Hollywood, cinema, arte e o jogo das celebridades. Essa verve dá a “Birdman” uma eloquência estupenda e rara de se ver em qualquer manifestação artística.

A estética também impressiona no filme. Da trilha sonora pontuada por agudos de bateria à edição que reforça a percepção de que assistimos a um enorme plano sequência. Iñarritu escondeu os cortes em um trabalho cuja adjetivação se prova insuficiente para frisar o quão engenhosa a iniciativa é e o quão produtiva para os efeitos ambicionados pelo roteiro ela se mostra.

Mas a fotografia de Emmanuel Lubezki, a música de Antonio Sanchez e o trabalho de montagem de Douglas Crise e Stephen Mirrione não teriam repercussão se um elenco poderoso não ressaltasse a alma dessa obra corajosa e desafiadora do cineasta de “21 gramas” e “Biutiful”.

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Michael Keaton exorciza os próprios demônios como o ator que precisa ser amado, querido e admirado na mesma medida em que precisa de oxigênio. Ainda na espetacular metalinguagem proposta por Iñarritu, “Birdman” devolve a Keaton sua celebridade, acrescida de um prestígio (que a indicação ao Oscar de melhor ator ratifica) que nunca obteve.

Edward Norton volta à grande forma com um decalque de … Edward Norton.  Como o ator sucesso de crítica, mas cínico e genioso, ele tem a oportunidade não só de brilhar, mas de se defender em celuloide.  A oportunidade é, também, de auto-crítica. Coisa que Iñarritu faz a todo tempo. É “Birdman” arte ou apenas uma manifestação egóica da busca de seu realizador por relevância?

A agudeza do registro se relaciona com a intensidade dos personagens

A agudeza do registro se relaciona com a intensidade dos personagens

Galifianakis, Watts, Stone e Amy Ryan, como a ex-mulher de Riggan, ajudam a tecer esse impressionista painel de Iñarritu sobre fama, arte, cinema e a intangível noção de felicidade que os une.

“Birdman” é um testamento vigoroso da imperfeição e de como ela municia robustamente a arte como um todo.

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sábado, 31 de janeiro de 2015 Análises, Filmes | 20:00

Briga pelo Oscar toma forma e restam poucas dúvidas

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À medida que a corrida pelo Oscar vai afunilando, as dúvidas vão se dirimindo nas principais categorias. Se nas disputas de atuação elas já eram poucas, no momento se restringem à indagação de quem leva o Oscar de melhor ator: Michael Keaton, por “Birdman”, ou Eddie Redmayne, por “A teoria de tudo”? O primeiro, coleciona mais prêmios na temporada, e conta com o forte hype de ser “o retorno do ano”, algo que sempre pesa junto à Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Keaton vive um ator em busca de redenção e isso pode apelar ao voto sentimental de muitos acadêmicos. Por outro lado, Redmayne faz bem algo que é de grande estima dos votantes: interpreta um personagem real, polêmico e brilhante, com problemas físicos e de saúde. A receita do Oscar, brada o lugar comum. Pelo desempenho como Stephen Hawking, Redmayne ganhou, além do Globo de Ouro de melhor ator dramático, o SAG, maior termômetro para as categorias de atuação no Oscar. Keaton, que venceu o Globo de Ouro de ator cômico, também ganhou o Critic´s Choice de melhor ator. Ambos concorrem ao Bafta, em que Redmayne tem ligeira vantagem por ser britânico e interpretar um britânico. Os ingleses tendem a ser mais “bairristas” do que os americanos no que tange prêmios de cinema.

Michael Keaton em cena de "Birdman": momento mágico e de redenção que costuma vingar no Oscar

Michael Keaton em cena de “Birdman”: momento mágico e de redenção que costuma vingar no Oscar

Eddie Redmayne, a despeito da qualidade de sua atuação, defende uma performance que que costuma resultar em prêmios

Eddie Redmayne, a despeito da qualidade de sua atuação, defende uma performance que costuma resultar em prêmios

A balança pode, porém, se desequilibrar em favor de Keaton pela escalada rumo ao favoritismo absoluto usufruído por “Birdman” na categoria principal nas últimas semanas. O filme amealhou vitórias importantes no sindicato dos produtores e no sindicato dos atores. Somadas, as vitórias embalam uma candidatura que pode se beneficiar de falar da própria indústria do cinema em detrimento do “muito geek” “O grande hotel Budapeste”, do “vanguardista, mas banal” “Boyhood – da infância à juventude” e do “acadêmico” “O jogo da imitação”. Esses rótulos carregados de má vontade falham em alcançar “Birdman”, tragicomédia filmada com considerável inteligência , imaginação e senso de estética.

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Levantamento feito pelo site Rotten Tomatoes mostra que “Boyhood” ainda ocupa a dianteira na temporada de prêmios. Foram 43 contra 39 outorgados a “Birdman”. O filme de Alejandro González Iñarritu se distingue, no entanto, por ter triunfado em premiações mais significativas e ressonantes.

Há, porém, um elemento que pesa contra toda essa força de “Birdman”. O filme inexplicavelmente se viu fora da disputa pelo Oscar de melhor montagem. No últimos anos, a categoria tem tido mais importância na construção de um vencedor do Oscar de melhor filme do que, por exemplo, a categoria de direção. Em 2013, “Argo” levou os troféus de roteiro adaptado e montagem, além do prêmio principal de melhor filme. Ben Affleck não foi sequer indicado como diretor. Mais: o último filme a vencer o Oscar de melhor filme sem ter indicação para montagem foi  “Gente como a gente”, de Robert Redford, em 1981. Desde que a categoria foi estabelecida, em 1934, apenas nove filmes venceram o Oscar principal sem terem sido nomeados à melhor edição.

"Birdman" é o favorito, mas   retrospecto histórico alerta que a disputa ainda não está definida

“Birdman” é o favorito, mas retrospecto histórico alerta que a disputa ainda não está definida

Mesmo com esse curioso contraponto histórico, “Birdman” tem pompa e pose de candidato campeão. A esta altura do campeonato é o candidato a ser batido. O marketing de “O jogo da imitação” que havia hesitado em levantar a bandeira gay já começa a sublinhar o fato, na expectativa de conseguir fazer o que “O segredo de Brokeback Mountain” não conseguiu.  Mas o biografia de Alan Turing não é um filme sobre um romance homossexual, como o era o filme dirigido por Ang Lee, e, nesse sentido, se aproxima mais de “Capote”, outro recorte biográfico sobre uma personalidade homossexual.  A mudança na campanha do filme é um atestado de que o padrão britânico, suficiente para fixar favoritos em outros anos, não valeu ao filme rivalidade com “Birdman”.

Sutilezas superam academicismo em “O jogo da imitação”

Entre os diretores, a briga parece se concentrar entre Richard Linklater e Alejandro González Inãrritu. Com vantagem para o primeiro. A tendência é que um ganhe em roteiro original e outro em direção. Julianne Moore (“Para sempre Alice”) é certeza mais que absoluta entre as atrizes, assim como apenas um desastre tira o Oscar de J.K Simmons pelo papel do professor tirano de “Whiplash”. Patricia Arquette pode ser o prêmio afetuoso a “Boyhood”, um filme que a temporada sugere ser mais querido pela crítica do que pela indústria.

Nos últimos anos, a academia tem optado pela pulverização de seus prêmios. O último filme a faturar uma penca de Oscars foi “Quem quer ser um milionário?” em 2009. Foram oito troféus. De lá para cá, o número de Oscars do filme vencedor foi diminuindo. “Guerra ao terror” ganhou seis em 2010; “O discurso do rei” faturou quatro em 2011; “O artista” ganhou cinco em 2012; “Argo” ganhou três em 2013; e “12 anos de escravidão” ficou com três em 2014, apesar de “Gravidade” ter ficado com sete Oscars na edição, o grande vencedor é costumeiramente o filme que leva o prêmio principal.

"Boyhood": A importância do filme de Linklater é inegável, mas a Academia não costuma perceber movimentos vanguardistas quando se depara com eles (Fotos: divulgação)

“Boyhood”: A importância do filme de Linklater é inegável, mas a Academia não costuma perceber movimentos vanguardistas quando se depara com eles
(Fotos: divulgação)

Como não houve um filme que apresente o avanço e esmero técnico observado em “Gravidade”, a tendência é de que haja a pulverização dos prêmios. Portanto, mesmo derrotados na disputa principal têm chances de sair esbanjando Oscars por aí.

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