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terça-feira, 20 de janeiro de 2015 Análises, Filmes | 15:42

O que o conflito entre apoiadores de “Sniper americano” e “Selma” diz sobre a Hollywood de hoje?

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Hollywood, de maneira geral, não reagiu bem ao que tem sido percebido como uma guinada conservadora nas hostes da Academia de Artes e Ciências de Hollywood, que outorga o Oscar. “O Oscar com menos diversidade em quase 20 anos” bradam as manchetes ao redor do mundo e o coro pela exclusão de “Selma” das principais categorias do Oscar ganha mais relevo à medida que “Sniper americano”, um inesperado e acachapante sucesso de bilheteria – arrecadou mais de U$ 90 milhões em seu 1º fim de semana com circuito expandido nos EUA, se vê no centro de um embate entre uma Hollywood liberal e uma Hollywood conservadora. Personalidades como Seth Rogen e Michael Moore condenaram o filme. Moore, que disse que atiradores de elite não podem ser considerados heróis, fez ressalvas à atuação de Bradley Cooper e a certos aspectos técnicos do filme. Sasha Stone, uma das principais analistas da indústria do cinema e expert em premiações, provocou seus seguidores no twitter: “Já imaginaram se ‘Sniper americano’ fosse feito por uma mulher?”, em alusão direta à esnobada a Kathryn Bigelow há dois anos pela direção de “A hora mais escura”. Clint Eastwood, no entanto, também não recebeu nomeação na categoria pelo filme. A provocação, no entanto, abrange o que muitos percebem como desprezo de uma Hollywood ainda muito machista ao trabalho de mulheres. O ressentimento aí não capitaliza apenas em “Selma”, mas também pelo quase total sumiço de “Garota exemplar”, maior bilheteria entre os filmes apontados como possíveis candidatos ao Oscar de melhor filme e o único protagonizado por uma mulher e escrito por uma mulher.

Bradley Cooper e Clint Eastwood no set de "Sniper americano": em um dia, o filme se tornou a maior bilheteria entres os concorrentes a melhor filme (Foto: divulgação)

Bradley Cooper e Clint Eastwood no set de “Sniper americano”: em um dia, o filme se tornou a maior bilheteria entres os concorrentes a melhor filme
(Foto: divulgação)

Um outdoor do filme nos EUA surge pichado com a palavra "assassino" (Foto/ reprodução twitter)

Um outdoor do filme nos EUA surge pichado com a palavra “assassino”
(Foto/ reprodução twitter)

A comoção é tanta e tão aprofundada que a presidente da academia se viu na necessidade de intervir e reafirmar a agenda progressista de sua gestão à frente da academia. “Nos últimos dois anos, avançamos muito em relação ao passado, nos tornando uma organização mais diversa e inclusiva por meio da admissão de novos membros”, salientou Cheryl Boone.

A presidente acenou aos desgostosos acrescentando que “amaria” ver mais diversidade entre os indicados.

Em entrevista ao Daily Beast, o ator Bradley Cooper, ele mesmo alvo de muitas críticas descontentes com sua terceira nomeação seguida ao Oscar, defendeu o filme. “Trata-se de um estudo de personagem. O interesse para mim e para Clint era ver os efeitos da guerra naquele homem. Mas eu não posso controlar como as pessoas verão este filme como ferramenta”, acrescentou o ator que disse que a obra fez o vice-presidente americano, Joe Biden, chorar. “Essa é a história de Chris (o atirador retratado no filme).  Seria ótimo se as pessoas não a interpretassem como um filme da guerra do Iraque, mas sim como um exame de como conflitos como este atingem um soldado e sua família”, opinou.

Muitos articulistas de jornais como New York Times e The Guardian externaram a preocupação do “exagerado” apreço a “Sniper americano” ser uma concessão à propaganda militar. Exageros à parte, a revista New Yorker enxergou no filme “a desconstrução do mito do guerreiro americano” ao compasso que vê em “Selma” a “reafirmação pouco imaginativa de um mito já muito celebrado”, no caso Martin Luther King.

Leia também: Academia de Hollywood vive guerra entre alas conservadora e modernizante 

Spike Lee, diretor de obras reverberantes como ‘Faça a coisa certa” (1989) e “ Malcom X” (1992), filmes tonificados pelos conflitos raciais, disparou logo depois da pouca atenção dispensada a “Selma” pela academia: “Eles que se fodam”!  “Se tinha alguém que pensava que este ano seria como o ano passado esse alguém é retardado”, disse o cineasta. “Tá cheio de gente por aqui com  ‘12 anos de escravidão’, Lupita, Pharrell… é um ciclo de dez anos”, argumentou. Para Lee, “o Oscar mais branco desde 1998 não é uma surpresa, mas é irritante”.

Essa polarização inadvertida que opõe dois filmes que guardam poucas semelhanças, além do fato de serem sobre especificidades americanas, mimetiza uma Hollywood que ainda se move sob tensões das mais diferentes procedências. Se uma das funções primais do cinema é o ensejo da reflexão e ao Oscar cabe dinamizar essa vocação, pode-se dizer que as indicações ao prêmio em 2015, contestáveis ou não, preenchem o mérito.

Cena de "Selma": filme sobre conflitos raciais catalisa conflitos adormecidos em Hollywood

Cena de “Selma”: filme sobre conflitos raciais catalisa conflitos adormecidos em Hollywood

É a primeira vez nos últimos dez anos que se vê um debate tão passional acerca de dois filmes que, no limiar, pouca gente viu e apenas especula a partir de suas estampas, dos símbolos que trazem na sinopse e no material promocional.

Essa intensidade, no entanto, pode intervir diretamente nos rumos da corrida pelo Oscar e, nesse sentido, “Sniper americano” tem muito mais a perder.

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domingo, 21 de setembro de 2014 Filmes, Listas | 17:44

Cinco filmes sobre campanhas eleitorais

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Estamos a duas semanas do primeiro turno das eleições e enquanto os brasileiros decidem os rumos do país, o cinema tem algo a dizer sobre as campanhas eleitorais. O senso comum nos ensina a duvidar. Mas entre a fé cega de muitos eleitores e o ceticismo de tantos outros, está uma máquina adornada de toda a potência publicitária que se pode imaginar e movida a interesses empresariais diversos. É sobre os bastidores de campanhas político-eleitorais que tratam os filmes desta lista, elaborada com a única ideia de prover ao espectador/leitor material para refletir e se divertir. Essencialmente nessa ordem.

 

“O candidato” (1972)

O candidato

Vencedor do Oscar de melhor roteiro original em 1973, este filme protagonizado por Robert Redford explicita o grau de influência do marketing em uma campanha eleitoral. O detalhe é que o filme foi realizado há quatro décadas e permanece atual.

O advogado esquerdista vivido por Redford é escolhido por um macaco velho de campanhas políticas, termo hoje atribuído aos marqueteiros, para concorrer ao Senado pelo Estado da Califórnia contra o republicano que já ocupa o posto há 18 anos. O filme mostra as engrenagens para transformar um protótipo de candidato ideal em um político real. Fascinante, o filme escancara o cinismo que pauta a política. Seja ela praticada nos EUA ou no Brasil.

 

“Tudo pelo poder” (2011)

Tudo pelo poder

Dirigido por George Clooney, esse poderoso drama acompanha as primárias do partido democrata – processo do sistema eleitoral americano que antecede a eleição presidencial e em que um conjunto de candidatos disputam a indicação do partido para a vaga de candidato à presidência. No filme, acompanhamos tudo a partir do ponto de vista do assessor interpretado por Ryan Gosling que realmente acredita que o candidato vivido por Clooney encarna a esperança e os ventos de mudança. Tudo muda quando um caso com uma estagiária da campanha vem à tona. O filme mostra o intenso jogo (geralmente sórdido) de bastidores entre as diferentes campanhas e o papel nada lisonjeiro da mídia nessa história toda.

“Segredos do poder” (1998)

TRAVOLTA THOMPSON

Se ao ver a foto acima você imediatamente pensou em Bill Clinton e Hillary Clinton , saiba que isso não foi acidental. Neste fantástico filme de Mike Nichols, a ideia é justamente aproximar realidade da ficção. John Travolta faz um popular governador de um estado sulista dos Estados Unidos, tal como Clinton, que tenta se eleger presidente. Durante a campanha, sua equipe precisa abafar alguns casos de assédio sexual e relações extraconjugais que surgem pelo caminho.

 

“Os candidatos” (2012)

Os candidatos

A comédia assinada por Jay Roach se assevera como uma crítica ao sistema de financiamento de campanhas eleitorais. Sem a força narrativa ou a convicção discursiva dos dois filmes anteriores, esta obra funciona como uma paródia esperta do “vale tudo eleitoral”. Dois industriais que sempre financiaram a campanha do candidato vivido por Will Ferrell ao congresso resolvem mudar seu apoio após um escândalo sexual. Entra em cena o tipo paspalho vivido por Zach Galifianakis (o Alan da trilogia “Se beber, não case”). O filme então acompanha as desventuras desses dois candidatos, passando pelas poses com os pobres e as trocas de farpas entre eles, na busca de votos.

 

“Virada no jogo” (2012)

Virada no jogo

Fotos: divulgação

Também dirigido por Jay Roach, esse filme feito para a HBO se concentra na campanha republicana de John McCain em 2008 à Casa Branca. McCain e seu staff se viram obrigados a responder à profunda coqueluche de carisma e mídia que era Barack Obama e acabaram colocando como vice-presidente na chapa a polêmica Sarah Palin – aqui vivida esplendorosamente por Julianne Moore. O que parecia uma ótima ideia, já que ela tinha potencial de capitalizar o voto feminino em fuga e garantir o apoio dos conservadores, se revelou um movimento catastrófico conforme mais se descobria a respeito de Palin.

Vigoroso, este filme que apresenta atuações de ótimo nível e um roteiro verdadeiramente primoroso, detalha os bastidores de uma campanha pressionada e esmiúça as alternativas que circunstâncias como essa favorecem.

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