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quinta-feira, 11 de junho de 2015 Análises | 17:44

A crítica de cinema está morrendo

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Volta e meia a função da crítica é questionada. A internet redesenhou o papel da crítica de cinema assim como forçou o jornalismo como um todo a se reinventar. Nada novo até aí. No entanto, uma discussão derivada dessa problemática merece atenção.  As mídias sociais diminuíram a força da crítica de cinema? Um crítico é ainda relevante para determinar a opção por um filme em detrimento de outro? Segundo o crítico canadense Richard Crouse, que se deteve sobre o tema em artigo na The Canadian Press, a relevância de um crítico hoje é mínima, quase nula. “Antigamente, você tinha um grupo de críticos que podia confiar e construir uma relação. Mesmo que discordasse deles, você os lia e prestava atenção no que eles tinham a dizer. Agora é tudo bem diferente. Eu acho que as pessoas perpassam blogs e Twitter e se decidem por lá mesmo”. “Eu acho que o Twitter, o Facebook e toda essa era digital precipitam essa demanda por reação instantânea a qualquer coisa sem o tempo para um real aprofundamento”, observa à coluna um dos diretores de programação do Festival de Toronto, Jesse Wente.

Ouvido sobre a questão pela revista The interview, o cineasta David Cronenberg disse que sites como o Rotten Tomatoes, portal que reúne todas as críticas publicadas na web sobre os filmes em lançamento, dilui a efetividade das críticas. “Você tem os ‘top críticos’ e os ‘críticos’, uma distinção entre críticos que realmente se engajaram na profissão e outros que ali estão apenas por aventura”.

Uma boa crítica de cinema objetiva expandir a experiência cinematográfica. Não se trata de encerrar a discussão sobre uma obra, mas sim de iniciá-la, de reverberá-la. De oferecer ao leitor outros ângulos, de estabelecer um diálogo com a obra, de refinar possíveis interpretações e apontar minúcias e símbolos, entre outros.

vinga max

“Vingadores: a era de Ultron” não emplacou com a crítica, mas é sucesso de público. O novo “Mad Max”,
por seu turno, agradou a crítica, mas só melhorou de bilheteria depois do bafafá nas redes sociais
(Foto:montagem sobre reprodução)

Roger Ebert, talvez o maior e mais celebrado crítico de cinema do mundo, morto em 2013, pensava diferente. Em 2011, publicou um artigo no Wall Sreet Journal sobre o tema e via a internet no geral, e as redes sociais em particular, como uma bomba de oxigênio para a crítica de cinema.  Para ele, trata-se de uma era de ouro. “Mais frequentadores de cinema estão lendo boas críticas sobre filmes novos e velhos do que antes. Ainda que também estejam lendo mais críticas ruins”.  O jornalista americano Matt Singer, no blog Indie Wire vê nessa evolução da crítica de cinema seu ponto mais fatal e vai ao encontro do que pensa Cronenberg. “Ao permitir que todo mundo que tenha uma perspectiva sobre cinema escreva sobre isso e compartilhe com o mundo, essa evolução pode matar a carreira da próxima geração de críticos”.

Paralelamente a essa discussão cheia de subjetividades, uma pesquisa feita pela Nielsen nos EUA apurou que usuários do Twitter vão mais ao cinema do que frequentadores de cinema que não têm conta na rede social. Não obstante, usuários do Twitter têm 87% mais chances de ir ver um filme em seus dez primeiros dias de exibição e 340% mais chances de ter visto mais de 12 filmes nos últimos seis meses do que não usuários. Além do mais, os usuários do Twitter estão mais inteirados dos lançamentos do verão americano (época mais lucrativa para os estúdios de cinema). Obviamente, a pesquisa – encomendada pelo Twitter – ambiciona mostrar para Hollywood o potencial promocional da rede social. É senso comum que nenhum crítico de cinema hoje possui tamanha influência.

Muitos, inclusive, abrem mão de ler críticas antes de verem os filmes e só o fazem após a sessão. Na maioria das vezes, apenas em caso de aprovação do filme. Essa realidade, potencializada pela ojeriza a spoilers,  como se uma crítica por definição carregasse spoilers, enfraquece a formação cultural de frequentadores de cinema e relega ao marketing de estúdios e distribuidoras a missão cada vez mais árdua (em virtude dos preços pouco amistosos dos ingressos) de levar o público ao cinema.

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3 comentários | Comentar

  1. 53 Wagner Silva 12/06/2015 8:27

    A predominância dos filmes dublados em salas de cinema já e uma prova de que a formação cultural dos frequentadores de cinema não tem sido das maiores. Já desisti de assistir filmes porque só tinha versões dubladas.

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    • Nicolle 27/11/2015 19:43

      Nada a ver o teu comentário. Não dá para julgar a formação cultural da pessoa só porque ela prefere ver um filme dublado. Então, se for assim, nos outros países são todos um bando de sem cultura, de acordo com a tua análise. Só aqui no Brasil que tem essa aversão às dublagens. Existem outras questões… Eu, por exemplo, gosto sim de ver filmes legendados, mas se o filme for 3D, tem que ser dublado. Eu já não enxergo muito bem, aí ter que ler aquelas legendas em 3D é muito desconfortável para mim. Então, não fala besteira, Wagner!

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  2. 52 Leandro 12/06/2015 0:18

    Nunca escolhi meus filmes baseado nos críticos. Na adolescência, cheguei a ler, mas as opiniões nunca batiam com minhas preferências. Críticos de cinema mostraram-se totalmente supérfluos para minha escolha de qual filme ver. No máximo, servem como divulgadores do calendário de estreias, mas isso um site de busca resolve também. Só são interessantes mesmo quando informam peculiaridades dos bastidores, mas suas opiniões sobre se gostaram ou não para mim são irrelevantes.

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  3. 51 popcorn4 11/06/2015 23:46

    Muito interessante esse texto. A questão de “críticos” de redes sociais abrange todos aspectos: livros, filmes, artes em geral, até juízo de valores em reportagens. Hoje com a Internet, todo mundo se acha crítico. Pessoalmente, procuro sempre pela crítica especializada e não aquela especulativa que quer apenas demonstrar sua opinião, sem crédito e conhecimento algum. Há muito o que se aprender nos filmes, mensagens ocultas que muitas vezes não percebemos. E há muita gente querendo se aparecer e conseguir “curtidas”. Infelizmente é assim na era da informação.

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