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quinta-feira, 3 de setembro de 2015 Análises, Atores, Bastidores | 17:19

O novo James Bond e a resistência a Idris Elba para o papel

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Idris Elba, o favorito já muito contestado para substituir Daniel Craig (Foto: reprodução/independent)

Idris Elba, o favorito já muito contestado para substituir Daniel Craig (Foto: reprodução/independent)

À medida que se aproxima o lançamento de “007 contra Spectre”, novo filme do espião James Bond – o último com Daniel Craig como protagonista, mais se intensifica o bafafá em torno de quem irá substitui-lo na pele do agente secreto a serviço de sua majestade. Outro dia, Pierce Brosnan disse que já é tempo de termos um “James Bond gay ou negro”. Os pitacos quando não voluntariamente oferecidos são cobrados, como ocorreu em uma entrevista do Daily Mail com o autor do novo romance de 007 (“Trigger mortis”), o britânico Anthony Horowitz.

Questionado se Idris Elba (“Círculo de Fogo, “Mandela – a luta pela liberdade”) seria um bom James Bond, o escritor observou que falta “suavidade” ao ator. “Ele é um tanto áspero demais para o papel. Acho que ele é provavelmente muito da rua para interpretar Bond”. Depois da repercussão negativa nas redes sociais, o escritor retratou-se: “Sinto muito se ofendi as pessoas. Não foi minha intenção. Não sou um diretor de elenco. Então o que eu sei? Indelicadamente escolhi a expressão ‘da rua’ porque tinha em mente a interpretação dele do detetive John Luther (personagem vivido pelo ator em série inglesa), mas devo admitir que foi uma escolha pobre de palavras”.

Esta não foi a primeira vez que Elba se vê no centro de uma polêmica envolvendo James Bond.  Os boatos começaram em 2012 e, no ano passado, no calor do escândalo dos vazamentos de documentos da Sony Pictures, foi revelado que Elba era mesmo considerado como uma opção para assumir o personagem por ninguém menos do que a então presidente do estúdio, Amy Pascal.

No início do ano, Elba se pronunciou a respeito do rumor e disse que de tão efusivo, o boato se autodestruiu. “Se existia alguma chance de eu viver James Bond, ela se foi”. O ator, que completa 43 anos no próximo domingo, responsabilizou o atual James Bond pela onda de boatos. “Eu culpo Daniel”, observou o ator sobre uma entrevista de Craig na ocasião do lançamento de “Operação Skyfall” em que listou Elba como um potencial substituto.

É importante ter em mente que um James Bond negro é completamente distinto da concepção original de Ian

Foto: reprodução/GQ

Foto: reprodução/GQ

Fleming, mas um James Bond loiro, baixo e de beleza aberta à discussão também o era. Razão pela qual o leitor pode até não lembrar, mas o nome de Daniel Craig foi bastante contestado quando anunciado (Clive Owen era o favorito da produtora Barbara Broccoli, mas recusara).  Há tradições que precisam ser mantidas e outras que podem ser dispensadas e Idris Elba parece ser o ator mais indicado para romper velhas tradições e estabelecer novas. Bonitão, sofisticado, charmoso, viril e com aquele ar blasé que só os britânicos possuem (com as devidas desculpas aos fãs de George Lazenby), Elba é um dos poucos atores capazes de substituir Craig à altura. A essência do personagem deve preponderar à raça. Parece ser mais importante ele ser vivido por um britânico – já que atua no serviço de inteligência britânico – do que ser branco, preto ou pardo.

A discussão em torno da raça e até mesmo da orientação sexual de Bond – quem não se lembra da tensão sexual entre Bardem e Craig em “Operação skyfall” – é reflexo do avanço dos direitos civis e liberdades individuais. Bond, vale lembrar, foi concebido em uma época de forte segregação racial e total obstrução à homossexualidade.

Passa por aí a declaração de Daniel Craig, muito repercutida no início da semana, de que seu Bond é menos “sexista e misógino” do que os anteriores. Personagem longevo que é, Bond vai sofrendo ajustes com o passar do tempo.

Elba seria um ajuste bem-vindo. Além de materializar um avanço histórico necessário, sua escolha seria pedagógica e eficiente. Porque acenaria ao mundo pós-racial com um poderoso símbolo da cultura pop sem qualquer tipo de concessão em matéria de qualidade. Elba, afinal, é um baita ator. Não se trataria de uma cota a ser preenchida. Apenas de se superar uma resistência boba. James Bond já foi mais engraçado, mais mulherengo, mais violento e até mais inseguro. Já chegou a hora de ser mais preto.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2015 Análises, Bastidores, Curiosidades | 17:47

Imune a crises, cinema de ação cresce em todas as frentes enquanto outros gêneros oscilam

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Quando você ouvir que “Tubarão” (1975) é um dos três filmes mais importantes da história do cinema americano, preste atenção na pessoa que elabora este raciocínio. Ela provavelmente sabe das coisas. Pelo menos em matéria de cinema.  O filme de Steven Spielberg, que ajudou a criar o conceito de “blockbuster” é o principal signatário da ascensão do cinema de ação em Hollywood.

A supremacia dos filmes de super-heróis que testemunhamos nessa metade da segunda década do século XXI nada mais é do que a evolução de um movimento desabrochado pelo filme de Spielberg.

Antes de “Tubarão”, “007 contra o satânico Dr. No”, o primeiro filme de James Bond, foi o único exemplar estritamente do gênero ação a liderar as bilheterias em um ano. De lá para cá, foram 26 filmes de ação no topo das bilheterias em 39 anos. “Toy Story 3”, em 2010, foi o último filme não pertencente ao gênero a liderar em arrecadação em seu ano de lançamento. Os dados são do Box Office Mojo e remetem apenas às bilheterias americanas.

Spielberg em icônico registro feito no set de "Tubarão": filme que revolucionou a indústria de cinema americano

Spielberg em icônico registro feito no set de “Tubarão”: filme que revolucionou a indústria de cinema americano

A 2ª revolução? "Avatar" levou cerca de dez anos para ser produzido e é fruto da tecnologia de seu tempo

A 2ª revolução? “Avatar” levou cerca de dez anos para ser produzido e é fruto da tecnologia de seu tempo

Como essa estatística demonstra, o cinema de ação é o gênero que mais cresce. Tanto em produção como em público. A chegada do videocassete incrementou o boom no gênero, mas o constante aparato tecnológico rompe fronteiras para o gênero mais do que para qualquer outro. Em 2009, por exemplo, vimos “Avatar”, um épico de ação, superar “Titanic” como o filme de maior arrecadação da história do cinema. O filme só se viabiliza pela contemporaneidade de sua tecnologia. James Cameron levou uma década para filmá-lo e promete mais inovações em 2017, quando chega a primeira sequência.

De acordo com números do site The numbers, entre 1995 e 2015, o gênero teve 29% de share no mercado e uma arrecadação de US$ 72.000.989.990,00. A amostragem compreende 1.367 filmes lançados no período. Para se ter uma ideia do impacto do cinema de ação na audiência moderna, a comédia ficou em segundo lugar com 17% de share e U$$ 40.705.738.488 amealhados. A amostragem de filmes lançados nesta janela, porém, é muito maior: 2.147 filmes.

Um gráfico do Priceonomics, formulado a partir de dados coletados no IMDB, demonstra a oscilação dos principais gêneros ao longo das décadas em termos de popularidade. Nele, é possível perceber que, enquanto gêneros como horror e comédia apresentam altos e baixos e o drama vive sua mais longeva curva descendente, a ação mantém-se em expressa e espessa alta.

gráfico dos gêenros

Tomando como base as postagens deste Cineclube, o percentual de audiência – e de comentários – é muito maior quando o gênero ou suas principais estrelas e grifes (Marvel, Star Wars, 007, Sylvester Stallone, Bruce Willis, etc) são abordados.

Mas o que isso tudo quer dizer, afinal? Acossado pela repercussão da novela “Império”, o autor Aguinaldo Silva – que já escreveu para cinema – disse há alguns meses que é preciso dar o que o público quer. É esta linha de pensamento, preconizada pelos preceitos básicos do marketing, que norteia a produção Hollywoodiana atual. “As pessoas não sabem o que querem, até mostrarmos a elas”, divagou Steve Jobs. Mas poderia ter sido Steven Spielberg.

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terça-feira, 25 de agosto de 2015 Análises, Bastidores | 17:54

Universal, “Mad Max” e Tom Cruise estão entre os vencedores do verão americano de 2015

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Ainda faltam alguns fins de semana, mas indústria e analistas já fazem as contas do que deu certo e do que deu (muito) errado na principal janela de lançamentos hollywoodianos, o verão no hemisfério norte.

Ao estabelecer o recorde de faturamento em um ano faltando mais de cinco meses para o fim de 2015, a Universal – que atingiu o feito na esteira do espetacular sucesso de “Jurassic World” – se impôs como o mais cristalino sucesso do verão americano de 2015. Temporada que cinéfilos e críticos ansiavam por prometer ser lucrativa e inesquecível com diversos títulos promissores. Se foram poucas as surpresas e ocasionais as decepções, não houve nenhum arrebatamento na temporada além de “Mad Max: estrada da fúria”. Para todos os efeitos, o filme de George Miller é uma lição de como fazer uma superprodução, anabolizada na ação, com alto potencial de entretenimento e subtextos poderosos. De quebra, o filme forneceu a única personagem a emergir dessa safra de filmes para os anais da cultura pop – como mostrou a San Diego Comic-Com repleta de cosplays da Furiosa de Charlize Theron em julho.

Leia mais: Com “Jurassic World” e “50 tons de cinza”, Universal estabelece recorde de faturamento nas bilheterias

Leia mais: “Mad max: estrada da fúria” se firma como maior obra-prima da ação em décadas

O australiano George Miller leva um lero com Charlize Theron, sua Furiosa, no set de "Estrada da fúria"

O australiano George Miller leva um lero com Charlize Theron, sua Furiosa, no set de “Estrada da fúria”

Apesar do recorde de faturamento nas bilheterias, o verão de 2015 não apresentou grandes filmes. Excetuando-se “A estrada da fúria”, apenas “Divertida mente”, da Pixar, estaria apto a receber tal alcunha.  Não à toa, o filme registrou a maior bilheteria de estreia de um filme totalmente original; ou seja, sem ser sequência, remake ou adaptação de outra mídia. Por outro lado, o fracasso de “Tomorrowland – um lugar onda nada é impossível” reforça o discurso daqueles em Hollywood que defendem menos investimento em ideias originais e mais apoio ao que já foi testado e aprovado. Essa percepção está diretamente relacionada ao sucesso de franquias consagradas como “Os vingadores”, além das já citadas “Jurassic World” e “Mad Max”.  Mesmo assim, o quinto “O Exterminador do futuro” naufragou nas bilheterias americanas. O filme só não vai resultar em fracasso para a Paramount porque o filme está indo muito bem nas bilheterias chinesas. A China, inclusive, se firmou como um player ainda mais importante para os megalançamentos hollywoodianos do que já era até então. Vale lembrar que “Jurassic World” só se firmou como a maior bilheteria internacional de estreia – com mais de US$ 500 milhões arrecadados em um único fim de semana – porque a Universal o lançou simultaneamente com os EUA em mercados estratégicos como China, Rússia e Brasil.

Não obstante, ao apostar em um mix composto por comédias (“A escolha perfeita 2” e “Descompensada”), produtos bem consolidados junto ao público ( “Minions” e “Jurassic park”) e mesmo em produções descartadas sumariamente por outros estúdios (“Straight outta Compton”), a Universal não só espelha um caminho para os estúdios, como indica que não é preciso ter super-heróis no portfólio para fazer bonito nas bilheterias atuais.

Cena de "A escolha perfeita 2": o filme conseguiu uma das bilheterias mais surpreendentes da temporada e deixou para trás projetos muito mais comentados

Cena de “A escolha perfeita 2”: o filme conseguiu uma das bilheterias mais surpreendentes da temporada (quase US$ 300 milhões) e deixou para trás projetos muito mais comentados

Abaixo, o Cineclube lista os maiores vencedores e perdedores da temporada:

Vencedores

George Miller

Desconfiança, terrorismo e problemas de produção contribuíram para que se passassem 30 anos entre “Além da cúpula do trovão” e “Estrada da fúria”, mas ao entregar seu novo e alucinante “Mad Max”, Miller caiu de novo nas graças da Warner. Além de ter um quinto filme confirmado, ele está cotado para dirigir “O homem de aço 2”, um dos projetos mais delicados e importantes do estúdio.

 Tom Cruise

Em uma temporada marcada por heróis e marcas (John Green, Pixar, Marvel), Tom Cruise foi o único astro a levar público ao cinema cacifando-se em si mesmo. Não é pouca coisa. O quinto Missão impossível já caminha para ser o de maior bilheteria da série. Indicativo de que Cruise ainda tem muito fôlego no cinema. Especialmente no de ação.

Pixar

Depois de um hiato sem grandes filmes, “Toy story 3” (2010) foi o último digno de nota – e já era uma sequência – a Pixar faz as pazes com a crítica com ‘Divertida mente”. Um dos melhores do estúdio em todos os tempos.

Warner

Se não dominou a temporada como a Universal e não concentrou arrecadação como a Disney, a Warner merece o destaque por ter diversificado e quantificado. Foi o estúdio que mais lançou filmes na temporada (nove) e permitiu ousadias (o que é “Estrada da fúria”, afinal?), e acertou em produções de baixo e médio orçamento como “Terremoto  -a falha de San Andreas” e “O agente da U.N.C.L.E”.

Amy Schumer

Amy Schumer em um hilário ensaio temático de "Star Wars" para a GQ americana: a personalidade da temporada

Amy Schumer em um hilário ensaio temático de “Star Wars” para a GQ americana: a personalidade da temporada

Ela já era uma realidade na cena de comédia americana, mas com o filme “Descompensada”, a comediante – que também concorre ao Emmy deste ano com seu programa de humor – começou a internacionalização de seu nome.

Elizabeth Banks

Nenhum filme dirigido por mulher fez tanto dinheiro em uma temporada de verão como “A escolha perfeita 2”. Ponto para Banks que, logo em sua estreia na direção de longas-metragens, estabelece uma marca como essa.

Espionagem

Matthew Vaughn disse que queria correr com o lançamento de “Kingsman – serviço secreto” porque vinha uma enxurrada de sátiras de espionagem por aí e ele queria ser o primeiro. Acertou. A temporada teve produções como “O agente da U.N.C.L.E”, “Barely lethal”, “A espiã que sabia de menos”, “American ultra”, “Hitman: agente 47”. Isso para não falar do “oficial” “Missão impossível: nação secreta”. E James Bond ainda chega antes do fim de 2015.

Perdedores

Josh Trank

Ninguém sai tão mal desta temporada quanto o diretor John Trank. Seu “Quarteto fantástico” foi o filme mais execrado do ano. Além de engolir o fracasso de público, Trank ficou com fama de “errático” e se viu demitido de um derivado de Star Wars em meio a boatos de desentendimentos no set.

Sony

O estúdio conseguiu a proeza de ver todos os seus lançamentos para a temporada fracassarem nas bilheterias. Eram apenas três filmes, mas os três minguaram. “Pixels”, “Sob o mesmo céu” e ‘Ricki and the flash”.

Adam Sandler

Com “Pixels”, o ator conseguiu rebaixar ainda mais seu status junto à crítica e viu seu prestígio com o público americano implodir em desinteresse.

Arnold Schwarzenegger

Não deu: Schwarzenegger tentou, mas não conseguiu emplacar o novo "Exterminador" entre os sucessos da temporada (Fotos: divulgação/GQ)

Não deu: Schwarzenegger tentou, mas não conseguiu emplacar o novo “Exterminador” entre os sucessos da temporada
(Fotos: divulgação/GQ)

Ele voltou e investiu bastante na divulgação do quinto “O exterminador do futuro”, mas não conseguiu fazer com que o filme fosse um sucesso de bilheteria. Desde que deixou o gabinete de governador, Schwarzenegger ainda não conseguiu um sucesso de bilheteria para chamar se seu. A aposta da vez é “Conan”.

Fox

O estúdio parece funcionar em biênios. Se foi o que mais arrecadou no verão de 2014 e projeta um 2016 encorpado, em 2015 a pobreza dominou. Além do colossal erro com “Quarteto fantástico”, que gerou bastante buzz negativo para o estúdio, o “John Green” do ano, “Cidades de papel”, ficou bem abaixo das expectativas.

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sábado, 8 de agosto de 2015 Análises, Bastidores | 00:05

Do céu ao inferno com Josh Trank

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O diretor John Trank no set de "Quarteto fantástico" (Fotos: divulgação)

O diretor John Trank no set de “Quarteto fantástico”
(Fotos: divulgação)

Dirigir um sucesso de crítica aos 28 anos de idade pode ser inebriante. Josh Trank, logo em seu filme de estreia, “Poder ser limites” (2012), gozou de inesperado clamor crítico e viu seu filme independente ser alçado ao status de “mais criativo e arrojado olhar sobre a era de super-heróis no cinema”. “Poder sem limites” se ancorava na moda do ‘found footage’, dos quais fazem parte filmes como “A bruxa de Blair” e “Atividade paranormal”, para mostrar três amigos que após ingerirem uma substância misteriosa começam a experimentar poderes estranhos. Aos poucos, o sentimento de invulnerabilidade vai transformando-os. Enquanto um fica mais irascível, outro sente ter alguma responsabilidade para com as circunstâncias e Trank forja o contexto para um filme surpreendentemente prolífico.

Apesar da ideia robusta, o desenvolvimento da narrativa é capenga. Mesmo assim, “Poder sem limites” fez um bom público e colocou Trank na lista de jovens cineastas a se observar. A Fox, em busca de reinventar seu quarteto fantástico no cinema, elegeu o diretor para a missão. A ideia de começar do zero e com mais seriedade a franquia foi recebida com um misto de hesitação e boa vontade. Apesar da chiadeira de alguns fãs com a escolha do elenco, em especial de Michael B. Jordan, para viver o tocha humana – o personagem branco passa a ser negro nesta nova versão – a expectativa em torno da visão de Trank para o material icônico da Marvel era positiva.

iG ON: Com Miles Teller, “Quarteto fantástico” repete de ano mais uma vez nos cinemas 

Os bastidores, no entanto, indicavam problemas frequentes. Relatos indicam que Trank não era comunicativo e se mostrava inseguro no set. As primeiras sessões testes foram um fiasco e o estúdio impôs que o filme tivesse cenas refilmadas. Surgiu um rumor de que o cineasta Matthew Vaughn (“X-men – primeira classe”) teria sido chamado às pressas pela Fox para dirigir as cenas que precisariam de refilmagem e montar a versão final do filme. Trank, em maio deste ano, negou esse boato em seu Twitter. “Para o bem ou para o mal, ‘Quarteto fantástico’ tem um só diretor. Eu!”

Foi nessa mesma época que Trank foi demitido de outra produção arrasa-quarteirão ao qual ele estava vinculado. A saída dele do segundo spin-off de “Star Wars” jamais teve uma justificativa oficial, mas fontes internas ouvidas pelo The Hollywood Reporter e pela Variety atestam que a Disney o demitiu em virtude de seu “comportamento errático” nos sets de “Quarteto fantástico”.

Não obstante, na esteira das péssimas críticas que “Quarteto fantástico” tem recebido, Trank foi novamente ao Twitter culpar a Fox pelo filme que chega neste fim de semana aos cinemas.

“Um ano atrás, eu tinha uma versão fantástica. E ela teria recebido ótimas críticas. Vocês provavelmente nunca verão esta versão. Esta é a realidade!” O diretor apagou o tuíte-desabafo em seguida, mas a internet nunca perdoa.

Cena de "Quarteto fantástico", saudado como o pior filme de heróis já feito

Cena de “Quarteto fantástico”, saudado como o pior filme de heróis já feito

Não é a primeira vez que estúdios e diretores entram em embate por controle criativo de filmes. O último caso envolvendo super-heróis foi Edgar Wright se retirando da direção de “Homem-formiga” por desavenças criativas. Antes dele, há cerca de quatro anos, Darren Aronofsky abandonou a direção de “Wolverine: imortal”, da mesma Fox, por não aceitar que o estúdio tivesse o corte final – como é chamada a versão do filme que vemos nos cinemas.

O caso de Josh Trank, no entanto, se parece mais com aquele jogador de futebol de várzea que, de uma hora para a outra, fecha contrato com o Real Madrid. Sobra deslumbramento, falta maturidade.  “Poder sem limites” não era um grande filme, mas certamente ventilava um talento que a indústria necessitava e Trank, talvez mal assessorado, talvez ególatra demais, pensou que poderia ser tão maleável quanto o Sr. Fantástico. Resultado? Seu filme está sendo violentamente massacrado pela crítica – talvez até com certo sadomasoquismo – e deve ser negligenciado pelo público. Mas não para por aí. Como atesta sua sumária demissão do filme derivado de Star Wars, as notícias voaram pelos corredores de Hollywood; e Trank se vê queimado no sistema de estúdios. Nada que juventude e disposição a voltar à cena independente não possam contornar. Mas para quem tem uma filmografia tão curta, dois filmes, Trank fez a mais louca e delirante das viagens hollywoodianas.

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quinta-feira, 23 de julho de 2015 Análises, Atores | 16:27

Em meio à crise na carreira, Adam Sandler busca abrigo na internet

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O ator em cena do filme "Esposa de mentirinha" (Fotos: divulgação)

O ator em cena do filme “Esposa de mentirinha”
(Fotos: divulgação)

Adam Sandler sempre foi um campeão de bilheteria. Desde que iniciou seu reinado em meados da década de 90 com filmes como “Um maluco no golfe” (1996), “Afinado no amor” (1998) e “O paizão” (1999), o ator deu de ombros para a crítica que sempre lhe torceu o nariz.

Nos anos 2000, em plena fase em que astros de cinema se desvalorizavam em detrimento de adaptações de outras mídias e franquias de apelo juvenil, Sandler manteve sólida sua base de fãs e dava lucro com seus filmes relativamente baratos.

Sandler, diferentemente de figuras como Johnny Depp e Robert Downey Jr. que se reinventaram para acontecer no mainstream, levava público ao cinema sendo sempre ele mesmo. As galhofas e as piadas grosseiras vez ou outras rivalizavam com alguma aparição mais séria como no drama pós-11 de setembro “Reine sobre mim” (2007).

Sandler conseguia que até mesmo filmes como “Golpe baixo” (2005), sobre futebol americano, ganhasse distribuição nos cinemas brasileiros. Um feito raro para filmes sobre esportes impopulares no país. A primeira década do milênio foi delirantemente positiva para o ator.

Estrelou filmes muitíssimo bem sucedidos como “A herança de Mr. Deeds” (2002), “Tratamento de choque” (2003), em que contracenou com a fera Jack Nicholson, “Como se fosse a primeira vez” (2004) e “Click” (2006).

Não obstante, colaborou com verdadeiras legendas da sétima arte como Paul Thomas Anderson (“Embriagado do amor”) e James L. Brooks (“Espanglês”), além de se experimentar em um tipo diferente de humor, mais amargo, em fitas como “Tá rindo do quê?”, de Judd Apatow, maior nome da comédia americana atual.

Sandler em "Pixels": crítica reprovou o filme. Como o público reagirá neste fim de semana?

Sandler em “Pixels”: crítica reprovou o filme. Como o público reagirá neste fim de semana?

A virada da década, no entanto, representou um doloroso revés para o ator. Sandler continuou operando na mesma fórmula. Comédias histriônicas (“Gente grande”, “Cada um tem a gêmea que merece” e “Esse é o meu garoto”), com incursões dramáticas pontuais (“Homens, mulheres e filhos”).

“Pixels”, principal aposta da Sony na temporada e que chega hoje aos cinemas do Brasil e nesta sexta-feira nos EUA, já é um filme em que Sandler divide o protagonismo com outros atores. Além de seu habitual parceiro Kevin James, figuras ascendentes como Josh Gad e Peter Dinklage estrelam a fita que coloca personagens de videogames contra a humanidade.

Recolocação

Os últimos filmes do ator foram fiascos de bilheteria. “Juntos e misturados” (2014), terceira colaboração com a atriz Drew Barrymore (as outras foram “Afinado no amor” e “Como se fosse a primeira vez”) já não foi lançado nos cinemas de muitos países.

A crítica continua pouco amistosa com Sandler, mas estaria o público cansado dele? A revista Forbes colocou o ator no topo da lista dos atores menos rentáveis nos últimos dois anos. A equação é simples. A taxa de retorno de Sandler anda baixíssima. Com um salário ainda inflado, o ator rendeu US$ 3,20 para cada dólar recebido. Na contramão da expectativa ensejada pela Forbes, a Netflix fechou um acordo com Sandler para produzir e distribuir seus próximos quatro filmes. O desenvolvimento será conduzido em parceria com a Happy Madison Productions, produtora do ator.

Em Cannes, Ted Sarandos, diretor de programação da Netflix,  disse que a opção por fechar um contrato com Sandler se deu baseado em levantamento feito pela empresa de que os filmes estrelados pelo ator são dos mais procurados pela base de assinantes nos mercados em que a Netflix opera.

Sandler e Barrymore em "Juntos e misturados": velhas receitas não estavam dando certo

Sandler e Barrymore em “Juntos e misturados”: velhas receitas não estavam dando certo

Ao buscar abrigo na internet, Sandler não só aponta um caminho para astros em decadência – e há uma fila cada vez maior deles – como relativiza o impacto negativo das bilheterias de seus últimos filmes. O interesse por ele teria apenas migrado de plataforma. Pode não ser o sonho de aposentadoria do outrora rei da comédia besteirol americana, mas é uma saída para lá de digna.

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quarta-feira, 8 de julho de 2015 Análises, Bastidores, Filmes | 21:04

A TV assume o protagonismo do cinema, mas é possível reverter a tendência

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Que a TV está roubando o espaço do cinema, se o leitor não sabe, certamente já ouviu dizer.

Mas o premiado dramaturgo e roteirista inglês David Hare, responsável pelas adaptações de “As horas” e “O leitor”, ambas dirigidas pelo também britânico Stephen Daldry, pôs pimenta na discussão ao alterar a perspectiva do debate.

O dramaturgo e roteirista David Hare (Foto: divulgação)

O dramaturgo e roteirista David Hare
(Foto: divulgação)

Hare, um dos destaques da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada no último final de semana no Rio de Janeiro, disse em entrevista coletiva que Hollywood “ainda resiste a dar protagonismo para os roteiristas” e que, em sua avaliação, o sucesso cada vez mais inebriante da televisão reside no fato de que a TV “deu espaço para os escritores”. Hare observou, também, que os autores “estão tomando o poder” nas telas, mas afirmou que o teatro jamais conseguirá a “velocidade narrativa” de produções como “Mad Men” e “House of Cards”, que conquistam milhões de espectadores.

O dramaturgo, que ostenta o título de “sir”, elegeu a TV atual como uma expressão de arte muito mais estimulante até mesmo do que a literatura e louvou a iniciativa da Flip de abrir espaço para o debate de outras artes, como teatro, cinema e, agora, TV.

Hare propõe uma subversão no olhar dispensado ao cinema e à TV atuais. E se o sucesso da TV estivesse diretamente relacionado à crise criativa dos estúdios? E se todo o modelo vigente, calcado na teoria do autor ¹ fosse responsável por essa letargia a assolar Hollywood?

“Os diretores de Hollywood não aceitam que os escritores estejam no comando”, observou.  No início de 2008, a indústria do audiovisual americana paralisou por completo quando uma greve de roteiristas sem precedentes tomou forma. As negociações se apressaram para garantir a realização da cerimônia do Oscar daquele ano. A greve, de alguma maneira, culminou com a novíssima e elogiada safra de séries da TV americana. A figura do showrunner, um roteirista que detém o controle criativo sobre uma série de TV ganhou propulsão e nomes como Vince Gilligan (“Breaking bad”) e Beau Willimon (“House of cards”) gozam de prestígio outrora somente dispensados a artesãos da sétima arte como Martin Scorsese e Stanley Kubrick.

Essa recém-estabelecida equivalência entre TV e cinema tem levado muita gente do cinema a buscar uma reinvenção na TV. De nomes como Ryan Phillippe (“Secrets and lies”) e M. Night Shyamalan (“Waynard pines”) a Dustin Hoffman, que não conseguiu emplacar o drama “Luck”, que misturava esporte e máfia, na HBO. Hoffman, aliás, declarou recentemente em entrevista ao jornal britânico The independent que “a TV vive sua melhor fase enquanto que o cinema é o pior em 50 anos. Hoje em dia tudo se resume ao fato de seu filme fazer dinheiro ou não”.

Dustin Hoffman: "É o pior cinema em 50 anos" (Foto: divulgação)

Dustin Hoffman: “É o pior cinema em 50 anos”
(Foto: divulgação)

Cena de "Homem-Formiga", que estreia na próxima semana e fecha a chamada fase 2 da Marvel no cinema: A concepção narrativa das HQs levada para a tela grande

Cena de “Homem-Formiga”, que estreia na próxima semana e fecha a chamada fase 2 da Marvel no cinema: A concepção narrativa das HQs levada para a tela grande

 

Não há nada de errado ou superado na teoria do autor.  O dito cinema de arte muito se beneficia dela, mas ao olhar o sucesso da Marvel com o seu universo coeso e interligado é fácil identificar no produtor Kevin Feige uma espécie de showrunner e aceitar com maior naturalidade a proposição de Hare. Resta saber se Hollywood está disposta a ouvir.

¹ teoria cunhada em plena ascensão da Nouvelle Vague que preconiza um cinema de estilo, estética  e tema reconhecíveis em um diretor, mesmo este subordinado ao esquema de estúdio.  Para esta teoria, encampada também pela crítica de cinema, um filme carrega a assinatura do diretor, ainda que seja um trabalho coletivo.

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terça-feira, 23 de junho de 2015 Análises, Atores, Filmes | 22:15

Temos um Homem-Aranha; e agora?

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Foto: Joblo/reprodução

Foto: Joblo/reprodução

O inglês Tom Holland, de 19 anos, foi anunciado como o novo intérprete de Peter Parker/Homem-Aranha no novo reboot que o personagem irá receber, agora sob curadoria da Marvel. Jon Watts, do ainda inédito “Cop car”, foi confirmado como o diretor do filme, previsto para ser lançado em 28 de julho de 2017.

A dinâmica da escolha lembra muito a que se deu em 2011, quando o anglo-americano Andrew Garfield foi selecionado para ser o novo Peter Parker e o cineasta Marc Webb, então festejado no circuito indie com o sucesso de “500 dias com ela”. Tanto Webb como Watts, no momento de assumirem a direção de “Homem-Aranha”, vinham da aclamação no festival de Sundance. Um celeiro incomum para um filme super-herói.

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Estamos falando aqui do sexto filme do personagem em 15 anos e do segundo reboot em cinco. Não é um repertório desejável e a Marvel já anunciou que o próximo filme vai mostrar um Peter Parker adolescente e enfrentando a opressiva rotina colegial. Sem, pelo menos no discurso de momento, recontar a origem do herói.

Rumores ventilados na imprensa americana dão conta de que o nome de Holland era uma preferência da Sony. A Marvel tinha em Asa Butterfield, de “A invenção de Hugo Cabret”, o seu favorito. Não que Holland não tenha impressionado Kevin Feige, o todo-poderoso produtor da Marvel Studios e que supervisionou pessoalmente o processo de casting do herói aracnídeo.  Segundo fontes ouvidas pelo The Hollywood Reporter, Feige gostou da interação entre Holland, Robert Downey Jr. e Chris Evans nos testes. Vale lembrar que a primeira aparição desse novíssimo Homem-Aranha no universo Marvel será em “Capitão América: Guerra civil”, a ser lançado no próximo ano.

Watts teria sido uma escolha toda de Feige, que costuma apostar em diretores novatos e pouco experimentados – uma forma de assegurar maior controle criativo sobre os filmes. Foram apostas bem sucedidas dele Jon Favreau, no primeiro “Homem de ferro”, e James Gunn, em “Guardiões da Galáxia”. O nome de Watts teve de ser aprovado pelo novo presidente da divisão de cinema Sony, Tom Rothman. Esse típico toma lá dá cá é comum em pré-produções de blockbusters dessa magnitude, mas a Sony sabe que precisa dar mais autonomia à Marvel para evitar que o novo filme seja tão decepcionante como os dois mais recentes.

O fato de estar inserido no universo Marvel deve ajudar na aceitação do novo aracnídeo, mas um filme solo bacana e bem azeitado é crucial para que o investimento – e a parceria entre Marvel e Sony – vinguem.

A produção do filme, no entanto, deve ser cercada de especulações, atritos e coro por concessões. Circunstâncias comuns a qualquer relação, mas potencialmente desestabilizadora em uma envolvida em interesses milionários e objetivos mais inflacionados ainda.

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quinta-feira, 11 de junho de 2015 Análises | 17:44

A crítica de cinema está morrendo

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Volta e meia a função da crítica é questionada. A internet redesenhou o papel da crítica de cinema assim como forçou o jornalismo como um todo a se reinventar. Nada novo até aí. No entanto, uma discussão derivada dessa problemática merece atenção.  As mídias sociais diminuíram a força da crítica de cinema? Um crítico é ainda relevante para determinar a opção por um filme em detrimento de outro? Segundo o crítico canadense Richard Crouse, que se deteve sobre o tema em artigo na The Canadian Press, a relevância de um crítico hoje é mínima, quase nula. “Antigamente, você tinha um grupo de críticos que podia confiar e construir uma relação. Mesmo que discordasse deles, você os lia e prestava atenção no que eles tinham a dizer. Agora é tudo bem diferente. Eu acho que as pessoas perpassam blogs e Twitter e se decidem por lá mesmo”. “Eu acho que o Twitter, o Facebook e toda essa era digital precipitam essa demanda por reação instantânea a qualquer coisa sem o tempo para um real aprofundamento”, observa à coluna um dos diretores de programação do Festival de Toronto, Jesse Wente.

Ouvido sobre a questão pela revista The interview, o cineasta David Cronenberg disse que sites como o Rotten Tomatoes, portal que reúne todas as críticas publicadas na web sobre os filmes em lançamento, dilui a efetividade das críticas. “Você tem os ‘top críticos’ e os ‘críticos’, uma distinção entre críticos que realmente se engajaram na profissão e outros que ali estão apenas por aventura”.

Uma boa crítica de cinema objetiva expandir a experiência cinematográfica. Não se trata de encerrar a discussão sobre uma obra, mas sim de iniciá-la, de reverberá-la. De oferecer ao leitor outros ângulos, de estabelecer um diálogo com a obra, de refinar possíveis interpretações e apontar minúcias e símbolos, entre outros.

vinga max

“Vingadores: a era de Ultron” não emplacou com a crítica, mas é sucesso de público. O novo “Mad Max”,
por seu turno, agradou a crítica, mas só melhorou de bilheteria depois do bafafá nas redes sociais
(Foto:montagem sobre reprodução)

Roger Ebert, talvez o maior e mais celebrado crítico de cinema do mundo, morto em 2013, pensava diferente. Em 2011, publicou um artigo no Wall Sreet Journal sobre o tema e via a internet no geral, e as redes sociais em particular, como uma bomba de oxigênio para a crítica de cinema.  Para ele, trata-se de uma era de ouro. “Mais frequentadores de cinema estão lendo boas críticas sobre filmes novos e velhos do que antes. Ainda que também estejam lendo mais críticas ruins”.  O jornalista americano Matt Singer, no blog Indie Wire vê nessa evolução da crítica de cinema seu ponto mais fatal e vai ao encontro do que pensa Cronenberg. “Ao permitir que todo mundo que tenha uma perspectiva sobre cinema escreva sobre isso e compartilhe com o mundo, essa evolução pode matar a carreira da próxima geração de críticos”.

Paralelamente a essa discussão cheia de subjetividades, uma pesquisa feita pela Nielsen nos EUA apurou que usuários do Twitter vão mais ao cinema do que frequentadores de cinema que não têm conta na rede social. Não obstante, usuários do Twitter têm 87% mais chances de ir ver um filme em seus dez primeiros dias de exibição e 340% mais chances de ter visto mais de 12 filmes nos últimos seis meses do que não usuários. Além do mais, os usuários do Twitter estão mais inteirados dos lançamentos do verão americano (época mais lucrativa para os estúdios de cinema). Obviamente, a pesquisa – encomendada pelo Twitter – ambiciona mostrar para Hollywood o potencial promocional da rede social. É senso comum que nenhum crítico de cinema hoje possui tamanha influência.

Muitos, inclusive, abrem mão de ler críticas antes de verem os filmes e só o fazem após a sessão. Na maioria das vezes, apenas em caso de aprovação do filme. Essa realidade, potencializada pela ojeriza a spoilers,  como se uma crítica por definição carregasse spoilers, enfraquece a formação cultural de frequentadores de cinema e relega ao marketing de estúdios e distribuidoras a missão cada vez mais árdua (em virtude dos preços pouco amistosos dos ingressos) de levar o público ao cinema.

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sexta-feira, 8 de maio de 2015 Análises | 17:12

A Viúva negra é mesmo vadia ou estamos diante de um caso de sexismo industrial?

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Os atores Chris Evans e Jeremy Renner se viram no epicentro de uma polêmica furtiva. Em uma entrevista chamaram a personagem Viúva Negra de vadia por ela flertar com diversos personagens do grupo de super-heróis vingadores. A rejeição à piada causou algum espanto neles. Os atores se desculparam, mas Jeremy Renner voltou à carga em um talk show americano ao afirmar que “se você dormisse com quatro vingadores, também seria uma vadia”. Ao reforçar sua crença no estigma, e na piada, Renner fez mais do que passar recibo de machista – misógino para os mais sensíveis. Ele escancarou a falta de tato dos estúdios, em geral, e da Marvel, em particular, na condução de personagens femininas em “filmes de menino”.

iG On: Atores de “Vingadores” são criticados por chamar Viúva Negra de “vadia”

Há, notavelmente, resistência por parte dos grandes estúdios hollywoodianos em investir em heroínas, e-mails vazados da Sony no ano passado cutucaram este elefante na sala, mas há números que desafiam essa letargia. A franquia teen mais bem sucedida da atualidade, “Jogos vorazes” é encabeçada por uma heroína, a Katniss Everdeen vivida por Jennifer Lawrence. A segunda franquia teen mais bem sucedida da atualidade, “Divergente”, também é estrelada por uma atriz, Shailene Woodley. Entre as vinte maiores bilheterias de 2014, o único filme totalmente original, isto é, que não era refilmagem, sequência ou adaptação de outra mídia, foi “Lucy”, filme de ação, vejam vocês, estrelado pela mesma Scarlett Johansson que dá vida à Viúva Negra.

O sexismo além da piada: Cerco à Viúva Negra não é dos atores, mas da Marvel que ainda não tem um projeto para a personagem  (foto: divulgação)

O sexismo além da piada: Cerco à Viúva Negra não é dos atores, mas da Marvel que ainda não tem um
projeto para a personagem
(foto: divulgação)

Percepções de mercado à parte, a Viúva Negra é um exemplo de como as personagens femininas da Marvel funcionam no cinema, pelo menos até o momento, como tampão. A primeira aparição da personagem foi em “Homem de ferro 2”, quando surgiu para dar viço a um jogo de flertes com Tony Stark. Era uma provocação da Marvel que, àquela altura, já alinhava seu projeto Vingadores. Depois a Viúva surgiu mais próxima do Gavião Arqueiro no primeiro “Vingadores”, já que desfrutava da mortalidade deste em um grupo de seres superpoderosos. No segundo “Capitão América”, ela flerta descompromissadamente com Steve Rogers. Finalmente, em “A era de Ultron” surge interessada em Bruce Banner (Mark Ruffalo). Onde Renner viu, para desespero das feministas, margem para vadiagem, é possível enxergar a total falta de ambição da Marvel para com a personagem. A Viúva Negra está ali apenas para complementar a história dos outros. Além de dar alguns pontapés.

Não há a menor preocupação em construir a personagem. Não nos termos que os produtores da Marvel externam com Thor, Tony Stark, etc. Passa por aí o fato de um filme solo da personagem não figurar no rol de prioridades da Marvel. A Viúva Negra é hoje a única personagem feminina de destaque no Universo Marvel. Panorama que deve mudar com o filme da Capitã Marvel e as novas séries da parceria com a Netflix. De qualquer forma, esse novo cenário, ainda distante, não alterará o fato de que o machismo de Renner e Evans foi deflagrado pelo sexismo industrializado encampado pela Marvel. Um mal muito mais nefasto em seu aspecto crônico e silencioso que passou ao largo da ampla visibilidade que o caso ganhou na mídia.

* A coluna entra em férias e volta reenergizada no começo de junho

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sexta-feira, 1 de maio de 2015 Análises, Curiosidades | 19:34

Quando comediantes fazem chorar

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Jennifer Aniston em cena de "Cake" (Fotos: divulgação)

Jennifer Aniston em cena de “Cake”
(Fotos: divulgação)

Duas das estreias deste fim de semana nos cinemas brasileiros têm como principais atrativos atores mais identificados à comédia exercitando suas veias dramáticas. “Entre abelhas”, estreia de Ian SBF em longas-metragens de ficção, traz o ator e comediante Fábio Porchat em um registro mais cândido, agridoce como um homem que depois de enfrentar uma separação amorosa passa a não enxergar mais as pessoas. O filme tem um humor mais sutil do que o que Porchat está acostumado a praticar com a trupe do “Porta dos Fundos” e abraça o drama sem medo de ser feliz. Já em “Cake – uma razão para viver”, Jennifer Aniston renuncia ao posto de queridinha da América alcançado com comédias românticas e a série “Friends” para viver uma mulher mergulhada em uma depressão profunda. O filme lhe valeu indicações para diversos prêmios, inclusive o Globo de Ouro e o SAG. Aniston, porém, não foi ao Oscar pelo papel. Muitos creditaram a esnobada a seu background na comédia, frequentemente apontado como desabonador nas hostes da academia. Mas outro ator egresso da comédia, Steve Carell, foi indicado ao Oscar em 2015 justamente por um papel dramático. Em “Foxcatcher – uma história que chocou o mundo”, Carell que até já havia atuado em dramas, mostra uma faceta que grande parte do público que o conhece de produções como “Agente 86” e “The Office” desconhecia.

De cima para baixo: Steve Carell e Channing Tatum, Fábio Porchat e Adam Sandler

De cima para baixo: Steve Carell e Channing Tatum, Fábio Porchat e Adam Sandler

Jim Carrey tentou o reconhecimento obtido por Carrel em 2015, mas tudo o que conseguiu foi emendar daquelas piadas longevas sobre ser vítima de preconceito da academia. Carrey chegou a ganhar consecutivamente dois globos de ouro por “O show de Truman” e “O mundo de Andy”, mas não foi sequer indicado ao Oscar. Depois das incursões pelo drama no final da década de 90, o ator voltou à carga em 2004 com “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” e embora tenha visto sua colega de cena, Kate Winslet, ser indicada ao Oscar ficou a ver navios.

Outro expoente da década de 90, muito contestado por críticos, Adam Sandler é outro que manifesta o desejo de se provar ator sério migrando para o drama de quando em quando. Mais recentemente esteve às ordens do cineasta Jason Reitman em “Homens, mulheres e filhos”. “Espanglês”, “Tá rindo do quê?”, e “Reine sobre mim” foram tentativas anteriores de obter esse respeito que a comédia teima em não angariar.

Há a percepção de que o drama é mais solene, difícil e dignificante. Não é o caso. Jack Nicholson, um dos poucos atores a ser largamente premiado tanto por dramas como por comédias, disse certa vez que a comédia é muito mais difícil. É preciso timing, segurança e talento. Não tem como fingir ou ser dirigido para conquistar os efeitos pretendidos. No drama, um bom diretor e um ator mediano poderiam fazer maravilhas.

Percepções à parte, atores tarimbados no drama externam o desejo de fazer comédias, mas se mostram mais receosos de se aventurarem pela arte do riso. Enquanto promovia o filme de ação “O protetor”, Denzel Washington, cuja carreira foi erguida em dramas de toda sorte, disse que gostaria de fazer comédias. O ator até já se arriscou em produções que flertam com o gênero como “Muito barulho por nada” (1994) e “Dose dupla” (2013), mas jamais estrelou uma comédia assumida e na condição de protagonista. Esse receio talvez seja mais forte porque o reconhecimento de atores com bagagem dramática é algo muito forte e que pode ser mostrar um tiro pela culatra se a incursão pela comédia não for bem sucedida.

Por isso é mais comum vermos atores ligados à comédia fazendo (bem) dramas do que atores de fundo dramático excursionando pelos domínios da comédia. Channing Tatum também colheu muitos elogios por sua atuação em “Foxcather”. Jonah Hill, para muitos o gordinho de “Superbad”, tem duas indicações ao Oscar por papeis dramáticos (“Moneyball – o homem que mudou o jogo” e “O lobo de Wall Street”). Quando de sua segunda indicação ao Oscar, as redes sociais transbordaram em escárnio. Um tuíte dizia: “Jonah Hill tem duas indicações ao Oscar enquanto Gary Oldman apenas uma. Lide com isso”. Uma demonstração de que o preconceito com a comédia não está apenas na indústria ou na crítica, mas primordialmente no público. Um exemplo é Matthew McConaughey. O ator sempre esteve associado a comédias românticas em que surgia descamisado. O perfeito Marcos Pasquim texano. McConaughey se engajou em mudar os rumos de sua carreira. De mudar a percepção que público, crítica e indústria tinham dele. A guinada começou em 2011 com o drama de tribunal “O poder e a lei”, mas foram precisos nove filmes e uma aclamada série de TV para que ele finalmente tivesse seu imenso talento dramático reconhecido com indicações a prêmios.

Ben Stiller, outro ator mais afeito à comédia e à comédia de uma nota só, rodou um filme para que pudesse mostrar que há talento dramático onde o público só enxerga comédia física. O filme em questão é “A vida secreta de Walter Mitty”.

Não se pode medir talento pela assiduidade de um ator ou atriz em um mesmo gênero ou pela extensão de nobreza que aferimos a este. Mas não se pode negar que quando um comediante nos provoca apreensão ou lágrimas na sala de cinema, a sensação de arrebatamento é muito mais atordoante.

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