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sexta-feira, 24 de abril de 2015 Análises, Filmes, Notícias | 18:06

Novo “Vingadores” dá largada à temporada mais lucrativa do cinema americano

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Quem acompanha o noticiário de cinema de perto já esperava pelo verão americano de 2015 há muito tempo e com muita ansiedade. O verão nos EUA, parte da primavera também, é quando os estúdios de cinema lançam seus principais blockbusters do ano. Essa faixa que vai de meados de abril até o fim de agosto reserva ainda mais atrações imperdíveis em 2015.

Retorno de franquias adormecidas (“Jurassic Park”), introdução de novos heróis (“Homem-formiga”) e produções originais (“Tomorrowland – um lugar onde nada é impossível” e “Terremoto – a falha de San Andreas”) disputam o interesse do espectador com comédias, sequências e um tal grupo de super-heróis que já toma os cinemas a partir deste fim de semana.

Na esteira de “Vingadores: a era de Ultron”, a Disney ainda tem o aguardadíssimo “Tomorrowland – um lugar onde nada é impossível” (maio), dirigido pelo mesmo Brad Bird de “Os incríveis” e “Missão impossível – protocolo fantasma”, “Homem-formiga” (julho) e “Divertida mente” (junho), nova produção da Pixar. As apostas são de que a Disney deve terminar a temporada como o estúdio número 1 em arrecadação. A Warner adotou uma estratégia arriscada para tentar neutralizar essa liderança. Ao invés de concentrar poucos e gigantes lançamentos, o estúdio pulverizou sua agenda na temporada. São nove filmes no total, a maioria de médio porte, puxados pelo aguardado remake de “Mad Max”, que ganhou o subtítulo de “A estrada da fúria”. Produções como “Terremoto – a falha de San Andreas” (maio), estrelado pelo fortão Dwayne “The Rock” Johnson, são testes para gêneros (no caso, o filme catástrofe) que andavam escassos na temporada pipoca. Já “Entourage” (junho) leva para o cinema a mise-en-scène da série sobre os bastidores de Hollywood. O público feminino e homossexual estão na mira da sequência de “Magic Mike”, que o estúdio programou para julho.  Para o fim do verão, em agosto, a Warner reservou o novo filme de Guy Ritchie, “O agente da U.N.C.L.E”.

"Tomorrowland" (Fotos: divulgação)

“Tomorrowland”
(Fotos: divulgação)

 

A Universal, que chega a mais concorrida temporada do cinema com dois megassucessos na bagagem (“50 tons de cinza” e “Velozes e furiosos 7”) tem tudo para manter o pique. O estúdio tem programados “Ted 2” (julho), “Trainwreck” (julho), nova comédia assinada por Judd Apatow com Amy Schumer, nova sensação da comédia americana, “Minions” (julho), derivado de “Meu malvado favorito”, “A escolha perfeita 2” (maio), além de “Jurassic World – o mundo dos dinossauros”.  A universal, que pode terminar o ano como a maior ameaça ao já declarado reinado da Disney nas bilheterias de 2015, parece ter a melhor fórmula nas mãos. Dos seis filmes de seu portfólio, um é uma comédia original cheia de potencial. Duas são sequências de comédias surpreendentemente bem sucedidas em anos anteriores, um spin-off da animação de maior sucesso do estúdio e a revitalização de uma das mais franquias mais famosas da casa.

A Paramount optou por estratégia oposta às adotadas por Warner e Universal e apostou em apenas dois filmes. Dois filmes bem grandes. O primeiro é “O exterminador do futuro: Gênesis” (julho), que celebra o retorno de Arnold Schwarzenegger à franquia. O segundo é “Missão impossível – nação secreta” (agosto), quinto filme do agente vivido por Tom Cruise.

"Jurassic World - o mundo dos dinossauros"

“Jurassic World – o mundo dos dinossauros”

A Fox, que teve um ótimo 2014 com filmes como “A culpa é das estrelas”, “X-men: dias de um futuro esquecido” e “Planeta dos macacos: o confronto” parece ter menos armas para 2015. “A espiã que sabia de menos” e “Cidades de papel” (ambos em julho) são as duas principais apostas do estúdio na temporada. Há, ainda, o remake de “Quarteto fantástico” que já gera mais desconfiança do que ansiedade. A Sony vive situação semelhante. As duas principais apostas do estúdio parecem pouco competitivas ante as produções de seus principais rivais. A primeira é “Sob o mesmo céu”, nova comédia de Cameron Crowe (“Quase famosos”), estrelada por Bradley Cooper e Emma Stone. A segunda é “Pixels”, comédia de ação estrelada por Adam Sandler, Peter Dinklage e Kevin James. O estúdio lança, ainda, o terceiro capítulo da franquia de terror “Sobrenatural”. O primeiro foi um surpreendente sucesso há cinco anos.

"Pixels"

“Pixels”

O melhor do resto

O remake do clássico oitentista “Férias frustradas”, o novo filme de Woody Allen (“O homem irracional”), Meryl Streep roqueira em “Ricki and the flash”, Jake Gyllenhaal parrudo em “Southpaw”, novas versões de “Hitman: agente 47” e “Carga explosiva”, Ian Mckellen como um Sherlock Holmes idoso, uma releitura de Madame Bovary, um olhar sobre o líder dos Beach boys (“Love & mercy”) e a refilmagem de “Poltergeist” são outras atrações deste que promete ser o mais movimento e lucrativo verão americano dos últimos anos.  A expectativa do setor é de que a temporada registre um aumento de 10 a 15% em relação a 2014 e que contribua efetivamente para o recorde de bilheteria projetado para 2015 na Cinemacon, feira da indústria do cinema realizada nesta semana em Las Vegas.

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quinta-feira, 16 de abril de 2015 Análises, Bastidores | 07:00

Troca de diretoras em “Mulher-Maravilha” é mais uma rusga na disputa entre Marvel e Warner

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Patty Jenkins no set de "Monster- desejo assassino"  (Foto: divulgação)

Patty Jenkins no set de “Monster- desejo assassino”
(Foto: divulgação)

A escolha de Patty Jenkins para substituir Michelle MacLaren no comando do longa-metragem “Mulher-Maravilha” tem mais nuanças do que alcançam os olhos ou a informação de que a diretora já esteve envolvida com uma produção da Marvel, no caso “Thor – o mundo sombrio” (2013).

MacLaren, como se sabe, se retirou da produção que será protagonizada pela atriz israelense Gal Gadot e que tem estreia prevista para o dia 23 de junho de 2017, por ter diferenças criativas com a Warner. Quais diferenças são essas, como habitual nesse tipo de imbróglio, não houve esclarecimento à imprensa.

Além de ratificar, mais uma vez, que diretores com um visão artística mais sensível têm dificuldades de se ajustar às demandas de estúdios ansiosos pela grife representada por esses cineastas, mas resistentes ao compartilhamento do controle sobre suas franquias, a saída de MacLaren levantou as suspeitas de que a Warner poderia confiar a direção do filme a um homem. O que seria lido como um retrocesso no contexto em que Hollywood discute a escassez de ofertas e reconhecimento para cineastas mulheres. E aí entra o pulo do gato dessa história toda. Patty Jenkins, que fora substituída por Alan Taylor na direção de “Thor: o mundo sombrio”, substitui MacLaren no comando de “Mulher-Maravilha”.  Com a escolha, a Warner ratifica sua posição progressista na construção de seu universo cinematográfico de heróis (vale lembrar da escolha do ator Ezra Miller, bissexual assumido, para ser o Flash do cinema), e cutuca a Marvel frontalmente ao escolher para substituir uma diretora com quem teve “diferenças criativas” outra que teve diferenças criativas com a Marvel.

Não obstante, Marvel e Warner assediaram Angelina Jolie para dirigir seus filmes protagonizados por mulheres, no caso da Marvel, “Capitã Marvel”. Mesmo sem Jolie, nesse delicado jogo de xadrez pelo apreço da opinião pública, a Warner agiu rápido e conseguiu drenar a má publicidade que a saída de MacLaren pudesse gerar.

 

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quarta-feira, 8 de abril de 2015 Análises | 16:39

O mal (ainda) invisível que a Marvel fez ao cinema

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Pode parecer um sacrilégio, mas o rastro de sucesso que a Marvel deixa no cinema já amplia a crise criativa vivida pelo mainstream hollywoodiano. Há 20 anos ninguém imaginava que adaptação de HQs daria dinheiro. O primeiro “Blade” (1998) e, fundamentalmente, “X-men – o filme” (2000) mudaram essa perspectiva. A Marvel, que teve de negociar os direitos de seus personagens para o cinema para evitar a falência ainda na década de 90, olhou para seu plantel de heróis e decidiu arriscar-se no cinema.  Apostou em Robert Downey Jr. quando ninguém o fez e no pouco experimentado Jon Favreau para o primeiro “Homem de ferro” (2008) e o resto é história.

Robert Downey Jr.  em "Homem de ferro"

Robert Downey Jr. em “Homem de ferro”

Ocorre que sete anos depois de “Homem de ferro” dar o pontapé inicial na bem sucedida trajetória da Marvel no cinema, hoje a empresa faz parte do conglomerado Disney, todos os estúdios tentam, muitos entre trancos e barrancos, pôr em prática a principal assinatura da grife Marvel. Um universo para chamar de seu. Parte do marketing certeiro do estúdio ao longo dos anos foi costurar de filme em filme o seu universo que estaria, finalmente, todo desenhado com o lançamento de “Os vingadores”. Encerrada a chamada fase 1, o estúdio/editora pôs-se a expandir esse universo. Sejam com as séries de TV, “O demolidor” será lançado nesta sexta-feira (10) mundialmente via Netflix, seja no cinema, com o arrasador “Guardiões da galáxia” (2014), a Marvel não dá ponto sem nó e deixa a concorrência babando.

Leia também: Marvel anuncia os filmes que compõem sua fase 3 no cinema

Leia também: Homem-Aranha na Marvel sela acordo inédito em Hollywood. Mas e agora? 

A terceira fase da Marvel já está toda alinhada e devidamente divulgada. Não restam dúvidas de que transpor seu universo para o cinema foi a decisão correta a ser tomada. Mas o que funciona para a Marvel funciona para todo mundo? A pergunta, aparentemente banal, esconde um raciocínio capcioso.  Todos os estúdios tentam replicar a experiência bem sucedida da Marvel com o objetivo de fidelizar audiência e, dessa forma, potencializar os lucros de franquias que isoladamente correm risco maior de desgaste.

A Warner, por exemplo, tenta unificar todo o universo DC no cinema e já divulgou um calendário de estreias até 2019 para demover a desconfiança comum às produções do estúdio. Afora a trilogia do homem-morcego assinada por Christopher Nolan, todas as produções de heróis da DC, tenham sido elas boas ou não, foram alvo de muito receio por parte de público e crítica. A Disney tenta replicar em Star Wars, franquia que também faz parte do patrimônio da casa do Mickey, a experiência Marvel e já sinalizou a expansão do universo da saga criada por George Lucas. Até os Transformers entraram na brincadeira. A Paramount anunciou há poucos dias que formou uma força-tarefa para pensar em estratégias para erigir um “universo Transformers” no cinema. A Sony, antes do acordo para o Homem-Aranha integrar o universo Marvel quebrava a cabeça dos principais produtores associados à franquia para criar um universo do Aranha no cinema.

Leia também: “Guardiões da galáxia” é o 7 x 1 da Marvel no cinemão americano

É compreensível a corrida dos estúdios para rentabilizar ainda mais aquele que vem sendo o carro-chefe de Hollywood já há algum tempo: as adaptações de HQs. É, também, um movimento para contornar um desgaste que já pode ser sentido. As bilheterias de todos os filmes baseados em quadrinhos fora do universo Marvel encolheram. Os últimos filmes de Superman, Homem-Aranha e Sin city atestam esta decadência.

Cena de "Os vingadores: a era de Ultron", candidato fortíssimo a maior bilheteria do ano (Fotos: divulgação)

Cena de “Os vingadores: a era de Ultron”, candidato fortíssimo a maior bilheteria do ano
(Fotos: divulgação)

O perigo de seguir o modelo da Marvel reside no fato de se engessar ainda mais as engrenagens hollywoodianas ao concentrar energia e dinheiro em um conceito rarefeito. Explica-se: a Marvel já detinha um universo coeso e interligado e confiou a pessoas totalmente vinculadas a ele a missão de transpô-lo para o cinema. E o plano sempre foi esse. Desde o início da jornada. Os demais estúdios estão apenas tentando tapar o sol com a peneira. A grande ironia disso tudo é que a Marvel, como último case de sucesso entre os grandes estúdios de cinema e com toda a sua comprovada originalidade, pode deflagrar a mais longa, duradoura e monótona crise criativa do cinema mainstream americano. Quem viver verá!

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quinta-feira, 2 de abril de 2015 Análises, Bastidores, Filmes | 07:00

Franquia improvável, “Velozes e furiosos” chega ao sétimo filme esbanjando vitalidade

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Cena de "Velozes e furiosos 7" (Foto: divulgação)

Cena de “Velozes e furiosos 7”
(Fotos: divulgação)

Não é qualquer franquia que chega a seu sétimo filme. Mas não é só isso que torna “Velozes e furiosos”, cujo sétimo exemplar chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (2), especial.  Acidental, a série que já rendeu mais de U$ 2 bilhões nas bilheterias do mundo todo se reinventou, mais de uma vez, no meio do caminho para se tornar a principal franquia do estúdio Universal. A empresa deve confirmar neste fim de semana uma nova sequência para o filme. Nos bastidores, Vin Diesel já teria um pré-contrato para mais três sequências – o que ratificaria “Velozes e furiosos” como uma das franquias mais longevas da história do cinema.

Tudo começou com um despretensioso filme de ação em 2001. Vin Diesel e Paul Walker eram completos desconhecidos. Tinham estrelados filmes como “O resgate do soldado Ryan” (1998), no caso de Diesel, e “A vida em preto e branco” (1998), no caso de Walker, mas ainda perseguiam um lugar ao sol em Hollywood.  Dirigido por Rob Cohen, do recente fiasco “O garoto da casa ao lado”, “Velozes e furiosos” é uma celebração dos chamado “buddy movies”. Uma releitura de “Caçadores de emoção”, que opunha Keanu Reeves e Patrick Swayze, um dos highlights da década de 90. Como bônus, a fita preenchia uma lacuna no cinema americano de então: era um bom filme sobre paixão e corridas de carros.

Quando éramos jovens: Diesel e Walker em cena do 1º filme

Quando éramos jovens: Diesel e Walker em cena do 1º filme

O sucesso inesperado, U$ 207 milhões nas bilheterias mundiais, atiçou o interesse do estúdio em uma sequência. Vin Diesel logo pulou fora por entender que não estava na possível franquia sua chance de vingar como astro de ação e foi fazer “Triplo X” (2002) com o mesmo Rob Cohen. Paul Walker topou e Tyrese Gibson foi escolhido para segurar a peteca deixada por Vin Diesel em “+ velozes +furiosos” (2003). A sequência fez mais dinheiro mundialmente, mas arrecadou menos nos EUA e fez a Universal repensar o modelo da franquia. A ação foi transposta para o Japão e um novo elenco, encabeçado por Lucas Black, assumiu. A ideia era fazer da franquia um conceito de filme de ação com a grife “Velozes e furiosos” a validá-lo. “Velozes e furiosos: desafio em Tóquio” (2006) foi o mais perto do fracasso que a franquia chegou passando longe dos U$ 200 milhões em arrecadação nas bilheterias internacionais. Uma cena pós-créditos imaginada como uma homenagem com a aparição de Vin Diesel, no entanto, daria novo oxigênio à série.

Abordado pela Universal e já sem grandes chances de ascender ao patamar que imaginava para si fora da franquia, Diesel topou voltar à série assumindo também o posto de produtor. Com ele, o retorno de Walker foi garantido. “Velozes e furiosos 4” foi lançado em abril de 2009 com o slogan “novo modelo, peças originais”. Não deu outra: o filme registrou o melhor faturamento da franquia até então com U$ 363 milhões em caixa.

O quarto filme resgatava a premissa do primeiro filme e tinha o charme de reunir Walker e Diesel novamente. Era preciso ir além no quinto filme e Diesel teve a ideia de reunir os principais nomes dos filmes anteriores e levar a ação para o excêntrico (na perspectiva americana) Rio de Janeiro. “Velozes e furiosos 5: operação Rio” (2011) apresentava a mais ousada e sagaz mudança de rota da série. O filme não era mais (só) sobre carros tunados e foras da lei, mas sim um “heist movie” (filmes de assalto), subgênero que tem “Onze homens e um segredo” entre seus expoentes. A estratégia deu certo e “Velozes e furiosos” ampliou seu público. A fita amealhou U$ 630 milhões nas bilheterias mundiais.

A rinha entre Vin Diesel e The Rock foi um dos chamarizes do quinto filme. Jason Statham, como o vilão, é atração do novo filme

A rinha entre Vin Diesel e The Rock foi um dos chamarizes do quinto filme. Jason Statham, como o vilão, é atração do novo filme

O quinto filme marcou a estreia de Dwayne “The Rock” Johnson na série. Um reforço pontual que ajudou a inflar o interesse pelo filme. Os produtores então perceberam que adições pontuais renovavam o charme da série e assim Luke Evans e Gina Carano, no sexto filme, e Jason Statham e Ronda Rousey, no sétimo, adentraram o universo da série.

“Velozes e furiosos 6” (2013), que levou a ação para Londres, faturou U$ 787 milhões internacionalmente confirmando o acerto das novas estratégias adotadas pelos produtores e, mais do que isso, a vitalidade da série.

O sétimo filme, que seria lançado no meio de 2014 e fora remanejado em virtude do falecimento de Walker, chega sob muitas expectativas e embalado pelo marketing de ser um tributo ao finado ator. Tudo indica que “Velozes e furiosos 7” vai superar a bilheteria do filme anterior e sedimentar a franquia, a despeito de seus muitos reveses, como um dos maiores cases de sucesso da Hollywood moderna.

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quarta-feira, 25 de março de 2015 Análises, Filmes | 19:36

Devassando Hollywood: um paralelo entre “Birdman” e “Mapas para as estrelas”

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Dois filmes recentes de cineastas com profunda veia autoral tratam de cinema. Em suas generalidades e minúcias, “Birdman” e “Mapas para as estrelas” compartilham de muitas ideias e antagonizam em tantas outras.

O grande vencedor do Oscar 2015, ainda que tonificado pelo humor negro, é menos ácido que o filme de David Cronenberg. Alejandro González Iñárritu faz uma crítica dura ao establishment hollywoodiano, mas construtiva, digamos assim. É possível, seja o espectador um ator ou não, se identificar com o conflito vivido por Riggan Thomson (Michael Keaton). Um astro de uma franquia de ação em busca de relevância artística na Broadway. “Birdman” não caçoa da fragilidade de Thomson, tampouco o poupa. Iñárritu sublinha a frivolidade do personagem, seu ego irrefreável em cenas como quando ele conta sobre o quase desastre de avião que sofreu ou nas conversas com a ex-mulher em que vislumbramos o terror da convivência com um ser humano incapaz de enxergar limites para suas vontades.

Crítica: Do que falamos quando falamos de “Birdman”?

Em “Mapas para as estrelas”, qualquer identificação com Havana Segrand (Julianne Moore) é mais difícil. A atriz deseja expurgar o fantasma da mãe, com quem tinha uma difícil relação, ao assumir o papel que a consagrou em um remake de um filme premiado. Havana é intratável, arrogante e cheia de inseguranças. É como Thomson talvez fosse enquanto estrelava a franquia Birdman. Mas Havana está em decadência e sabe disso. Daí Cronenberg submetê-la a um escrutínio que não existem em “Birdman”. A chance de redenção é vista no horizonte, mas trata-se de uma miragem. Hollywood te come vivo, sugere o cineasta com seu final surrealista.

Crítica: Cronenberg ridiculariza Hollywood com sátira delirante em “Mapas para as estrelas” 

 

Diálogos existencialistas em "Birdman" revelam o lado sombrio de Thomson (Foto: divulgação)

Diálogos existencialistas em “Birdman” revelam o lado sombrio de Thomson
(Foto: divulgação)

A rejeição é um fantasma que assombra Havana, a materialização de um estilo de vida em Hollywood (Foto: divulgação)

A rejeição é um fantasma que assombra Havana, a materialização de um estilo de vida em Hollywood
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“Você é uma celebridade”

Em um dado momento de “Birdman”, a crítica teatral megera se vira para Thomson e diz que ele não é um ator, mas uma celebridade. A cena pretende discutir mais o ofício da crítica e a tumultuada e simbiótica relação desta com a indústria cultural do que as diferenças entre um ator e uma celebridade. Já David Cronenberg mergulha mais livremente nessa melindragem conceitual. O astro teen Benjie (Evan Bird), assim como a filha de Thomsom, é egresso de uma clínica de reabilitação e nos remete a Macaulay Culkin. É uma celebridade antes de ser um ator e compreende todos os tiques e obsessões dessa figura alçada ao Olimpo antes mesmo de ter maturidade para entender o que, de fato, é este Olimpo..

“Mapas para as estrelas” é histérico onde “Birdman” se permite ser lírico. O filme de Iñarritu, embora experimental, crítico e incrivelmente original na forma, é muito mais palatável do que o petardo cheio de ironia e malícia de Cronenberg. Por isso, um foi ao Oscar e outro ficou soterrado sob incompreensão e esquecimento.

Se “Birdman” alinhava um comentário sobre o real significado de arte e sua umbilical relação com a fama, com o status, “Mapas para as estrelas” escancara a perversidade incontida nesse status. É uma leitura mais sombria, anárquica e desesperançada do cinema, da arte e da humanidade. Em contrapartida, “Birdman” é duro, mas não pessimista. O Oscar a “Birdman” é o sinal verde para uma discussão de relação. Um hipotético cenário de Oscar para “Mapas para as estrelas” iria além da autocrítica.  Seria dar um tiro na própria consciência!

Fora do arranjo: Cronenberg grafa os absurdos de Hollywood em  um filme que aos poucos se transforma em puro terror

Fora do arranjo: Cronenberg grafa os absurdos de Hollywood em um filme que aos poucos se transforma em puro terror
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sábado, 28 de fevereiro de 2015 Análises, Notícias | 07:00

Sequências de “Alien” e “Blade Runner” geram boas perspectivas

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bladeHá quem acredite que não se deveria mais mexer na mitologia de “Alien”. Ridley Scott expandiu o universo que já rendera quatro filmes com “Prometheus” (2012), um filme que nunca atinge sua potencialidade, mas tampouco faz feio. Antes mesmo de “Prometheus”, que já tem sequência confirmada, já havia um zum zum zum em torno de um novo “Alien”. Ridley Scott estava cotado para dirigir caso a Fox aprovasse um novo filme. As coisas aconteceram meio por acaso. O cineasta sul-africano Neill Blomkamp (“Distrito 9” e “Elysium”) publicou em suas redes sociais artes conceituais que ele mesmo fizera para o caso de dirigir um filme da franquia. Poucas semanas depois, mais precisamente em 19 de fevereiro, a Fox anunciou que haveria uma nova sequência de “Alien” com Blomkamp na direção e Scott ocupando a produção executiva.

Corta para a noite da última quinta-feira (26). A Alcon Entertainment, que adquirira os direitos de “Blade Runner – o caçador de androides” (1982), em 2011, anunciou que faria uma sequência e que Harrison Ford reprisaria seu papel como Rick Deckard. A direção ficará a cargo do canadense Dennis Villeneuve, de “O homem duplicado”. Filme que certamente funcionou como a melhor das credenciais para Villeneuve.

Desde que comprou os direitos sobre “Blade Runner”, muito especulou-se que a Alcon estaria interessada em rodar uma prequela da trama do filme de 1982. Ridley Scott também atuará na produção executiva servindo como um consultor de luxo.

“Alien” e “Blade Runner” têm mais do que Ridley Scott em comum. São filmes revolucionários, na linguagem e na forma, e seminais na arquitetura de uma ficção científica mais independente e altiva.

Arte conceitual de Blomkamp para o novo filme da franquia "Alien"

Arte conceitual de Blomkamp para o novo filme da franquia “Alien”

Mais uma imagem da visão de Blomkamp para "Alien"

Mais uma imagem da visão de Blomkamp para “Alien”

Harrison Ford voltará a viver Rick Deckard, mas pode se desligar em definitivo de outro icônico personagem. Há uma onda de boatos ganhando cada vez mais força em Hollywood de que Steven Spielberg trabalha para dirigir uma nova versão de “Indiana Jones” com Chris Pratt (“Guardiões da galáxia”) como Indy.

Hollywood, como diriam as más línguas, não sabe largar o osso. Mas especificamente sobre os novos “Alien” e “Blade Runner”, as perspectivas são as melhores possíveis. Blomkamp é fã confesso dos dois primeiros filmes – o segundo foi dirigido por James Cameron – e já anunciou que seu filme deve desconsiderar os eventos das terceira e quarta produções. Blomkamp é um dos últimos nomes realmente promissores a emergir na cena da ficção científica e sua devoção à essência de “Alien” e especialmente o trabalho apresentado em “Distrito 9” são razões que fundamentam o otimismo.

Villeneuve é um dos diretores mais inventivos e inteligentes a ter pisado em Hollywood. Depois de ir ao Oscar com o drama canadense “Incêndios”, ele debutou no mainstream americano com o tenso e intenso “Os suspeitos” (2013), estrelado por Hugh Jackman como um pai à procura de sua filha sequestrada. Seu filme seguinte, “O homem duplicado”, uma adaptação de Saramago, versava sobre identidade – tema caro ao universo de “Blade Runner”.

Esses filmes não precisariam de novos desdobramentos ou capítulos, mas já que esse é um caminho inevitável no negócio do cinema, essas relíquias cinematográficas não poderiam ter sido entregues a melhores mãos.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015 Análises, Bastidores | 06:21

Tom político dos discursos e prêmios da edição de 2015 são brisa da mudança no Oscar

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Há não muito tempo a coluna abordou um tema que parece interno demais à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Parece e é; mas produz resultados diretos na forma como o cinema americano se posiciona e como o Oscar, enquanto instituição, se pronuncia. Não só em comunicados oficiais, mas também por meio de seus prêmios.  O post, que pode ser lido aqui, tratava da guerra fria travada entre as alas modernizante e conservadora da academia. Esse embate já ocorre há algum tempo e a cada ano se torna mais revelador e insidioso. Em 2015, enquanto muitos chiaram pela ausência de diversidade no Oscar, outro recorte permitia observar a liderança de duas comédias incomuns e incrivelmente originais na disputa pelo prêmio. Falamos, é claro, de “O Grande hotel Budapeste” e “Birdman”, que acabaram sendo também os campeões de Oscars com quatro troféus cada. O independente “Whiplash – em busca da perfeição” surpreendeu a muitos ficando logo atrás com três estatuetas.  Ora, é preciso parar um pouco e festejar o fato de que três filmes originais e independentes na alma e na embalagem foram os grandes destaques da 87ª edição dos prêmios da academia. O fato ganha ainda mais relevo se lembrarmos que haviam produções com “cara de Oscar” na disputa. Caso dos britânicos “A teoria de tudo” e “O jogo da imitação”. Há quatro anos, “O discurso do rei”, um filme bem menos azeitado do que “O jogo da imitação”, por exemplo, derrubou filmes muito mais criativos, inteligentes e cativantes como “Cisne negro” e “A rede social”.  Tanto o filme estrelado por Benedict Cumberbatch como o estrelado por Colin Firth eram distribuídos por Harvey Weinstein, considerado o grande gênio do marketing com vistas ao Oscar. Sinais dos tempos?

O reinado do Oscar de Lego: em uma cerimônia cheia de meas culpas, o  Oscar de Lego que surgiu logo depois da esnobada ao filme "Uma aventura Lego" foi um dos destaques (Foto: reprodução/Instagram)

O reinado do Oscar de Lego: em uma cerimônia cheia de meas culpas, o Oscar de Lego, que surgiu logo depois da esnobada ao filme “Uma aventura Lego”, foi um dos destaques
(Foto: reprodução/Instagram)

O mexicano Alejandro González Iñarritu levou três troféus na noite, como roteirista, diretor e produtor. Na terceira vez que subiu ao palco fez um discurso sobre os EUA serem um país construído por imigrantes e reverenciou os compatriotas mexicanos. Trata-se da segunda vitória de um cineasta mexicano consecutivamente na categoria de direção. Um americano não vence na categoria desde o triunfo de Kathryn Bigelow em 2010 por “Guerra ao terror”. O discurso foi ensejado por uma piada de Sean Penn, amigo do diretor e com que já trabalhara em “21 gramas”, envolvendo o green card do mexicano.

A internacionalização da academia pôde ser ratificada em outros prêmios. Reese Witherspoon, indicada ao Oscar como melhor atriz por “Livre”, lembrou ainda no tapete vermelho que eram 44 mulheres indicadas ao Oscar naquela noite. Se descontarmos as dez concorrendo em categorias de atuação, ainda eram 34. Um número bastante significante. Muitas delas venceram, como Laura Poitras, pelo documentário “Citizenfour”.

Leia também: Em cerimônia de desabafos e estranhezas, Oscar consagra metalinguístico “Birdman”

Há um movimento, ainda imperceptível para os olhos do espectador ocasional, nas entranhas da academia. Um movimento progressista, frise-se. E aí entram os discursos inflamados.

O triunfo de Dana Perry e Ellen Goosenberg Kent na categoria de documentário em curta-metragem (Foto: AP)

O triunfo de Dana Perry e Ellen Goosenberg Kent na categoria de documentário em curta-metragem
(Foto: AP)

Não se dissipou a sensação de que entre os principais indicados havia pouca diversidade. E Neil Patrick Harris acertou sua única piada logo em sua primeira fala mirando no elefante na sala. Patricia Arquette veio de caso pensado. Sabia que ia ganhar e como fizera em todas as premiações, sacou o papelzinho e vaticinou: “É nosso tempo de ter igualdade salarial e direitos iguais para as mulheres nos EUA”. Foi uma reação a percepção dominante de que a academia ainda é um clube do bolinha. Essa ala modernizante tem como característica esse desprendimento em insinuar-se. Arquette, como todo vencedor do Oscar, deve se juntar ao grupo. John Legend, Graham Moore, Iñarritu e toda a flana politizada da noite podem ser percebidos neste contexto. Assim como a própria vitória de “Birdman”, indo além no diagnóstico dessa ruptura nas hostes da academia. A julgar pelo número musical inicial, em que um histérico Jack Black esbravejou tudo que estaria errado com a Hollywood de hoje (os inúmeros filmes de super-heróis, inclusive), a homenagem aos 50 anos de “A noviça rebelde” e a própria celebração de “Birdman”, quando a academia dispunha de outros caminhos tão elogiosos e satisfatórios quanto à distinção ao filme de Iñarritu, pode-se dizer que há uma estafa mal resolvida, uma crise mal elaborada com os filmes de heróis. É como se a academia dissesse, precisamos pensar no que estamos fazendo. Por que não fazemos mais filmes como no passado?  “Birdman”, afinal, captura com esplendor essa crise de identidade. Hollywood precisa ser mainstream, mas há muito tempo que os estúdios não fazem filmes adultos inteligíveis que deem bilheteria. É bem verdade que neste ano tivemos dois. “O juiz” e “Garota exemplar”, ambos com presença reduzida no Oscar. A academia parece ressentir-se dessa ânsia toda por franquias milionárias e clama por novos “Scarface”, “Amadeus”, “Melhor é impossível”, etc.

Iñarritu, o grande nome do Oscar 2015 é do México: tendência de internacionalização e maior diversidade é irreversível  (Foto: AP)

Iñarritu, o grande nome do Oscar 2015 é do México: tendência de internacionalização e maior diversidade
é irreversível
(Foto: AP)

Como curiosidade, nove dos 20 atores indicados já marcaram presença ou estão vinculados a filmes de super-heróis. Vamos a eles: Edward Norton, Mark Ruffalo, Michael Keaton, Bradley Cooper, Emma Stone, J.K. Simmons, Benedict Cumberbatch, Felicity Jones e Marion Cotillard.

Este ano o Oscar voltou a perder audiência nos EUA. Os números caíram cerca de 15% em relação ao ano passado e a cerimônia foi a menos assistida desde 2009. A vitória de “Birdman”, sobre um ator que tenta desesperadamente conquistar relevância e obter reconhecimento, é uma sinalização para dentro e para fora. Representa, também, o ponto de convergência entre conservadores e modernizantes de que é preciso ir para algum lugar.

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domingo, 22 de fevereiro de 2015 Análises, Críticas | 09:19

Polarização entre “Boyhood” e “Birdman” cristaliza oportunidade da academia ousar

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Ganhe“Boyhood” ou “Birdman”, o Oscar de melhor filme estará em boas mãos. Em um ano de qualidade cinematográfica anêmica, especialmente nos EUA, é salutar que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood disponha de dois filmes tão originais e inovadores polarizando a disputa principal.

Montagem sobre reprodução

Montagem sobre reprodução

Pode ser coincidência, mas a pobreza de 2014 favoreceu dois injustiçados históricos. Richard Linklater e Wes Anderson, dois dos mais autorais cineastas americanos em atividade, chegam ao Oscar com propriedade e com filmes lançados no começo do ano. Tanto “Boyhood” como “O grande hotel Budapeste” debutaram no festival de Berlim, em fevereiro, e foram lançados em agosto e março respectivamente no mercado dos EUA. Os dois devem ser premiados. Anderson deve ficar com a estatueta de roteiro original e Linklater deve ser eleito o melhor diretor do ano.

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Crítica:  Do que falamos quando falamos de “Birdman”? 

Crítica: Tempo é parâmetro absoluto para epifanias de “Boyhood”

 

Essas ilações nos levam a uma tendência recente que deve se repetir em 2015. A pulverização dos prêmios. “O Grande hotel Budapeste” deve ser o maior vencedor da noite, com quatro ou cinco prêmios, mas o Oscar de melhor filme deve ficar entre “Birdman” e “Boyhood”.  Pela originalidade, arrojo estético e dificuldade na realização de ambos os filmes, a expectativa é de que a academia divida os prêmios de filme e direção entre as produções. A coluna aposta que “Birdman” fique com o Oscar de melhor filme e “Boyhood” renda a Linklater o troféu de direção. Desde a consagração de “O artista” em 2012, que uma mesma produção não vence os Oscars de filme e direção.

Vibrante, histérico, cativante, irônico e reflexivo do status de Hollywood, “Birdman” é um candidato irresistível para o metiê e vale lembrar que o Oscar é um prêmio de indústria e de uma que gosta de se levar a sério. Mais afinidade entre filme e premiação não poderia haver.

A popularidade e a efervescência do debate em torno de “Sniper americano” podem favorecer o filme no caso de um eventual racha entre os “Bs” que gozam de favoritismo. Mas há muita resistência ao filme de Clint Eastwood. Seria um cenário improvável, ainda que mais viável do que as vitórias de “Whiplash – em busca da perfeição” e “A teoria de tudo”.

Richard Linklater, à direita: o esforço e a retidão de conduzir um filme por doze anos devem ser recompensados com o Oscar de direção (Foto: divulgação)

Richard Linklater, à direita: o esforço e a retidão de conduzir um filme por doze anos devem ser recompensados com o Oscar de direção
(Foto: divulgação)

Consagração de carreiras

J. K Simmons é um monstro em “Whiplash” e ninguém tira o Oscar dele. Edward Norton por “Birdman” é o único a fazer uma distante sombra entre os atores coadjuvantes. Patricia Arquette, por “Boyhood” tem esbarrado na unanimidade na categoria de atriz coadjuvante. O Oscar a ela seria uma forma de homenagear a devoção do elenco a um projeto como “Boyhood”.

Julianne Moore não vê concorrência entre as atrizes. Sua performance em “Para sempre Alice” é, de fato, a melhor entre as indicadas. Mas a disputa ganhou contornos desleais quando enveredou pelo caminho “ela já merece há algum tempo”. Rosamund Pike, por ‘Garota exemplar” e Marion Cotillard, por “Dois dias, uma noite” apresentam desempenhos premiáveis, mas são zebras colossais.

Em comum, esses favoritos têm o fato de que esses Oscars competitivos ganham o peso de chancela a carreiras de extrema regularidade e bom gosto. Trata-se de um vício reiterado da academia em fazer homenagens e estabelecer políticas de compensação com Oscars competitivos. Por coincidência, o ano forjou candidaturas suficientemente sólidas para que esse mau hábito não seja circunstancialmente questionado.

Na categoria de melhor ator esse aspecto ganha contornos mais dramáticos. Michael Keaton (“Birdman”), outrora favorito explícito, preenche os requisitos listados acima. Mas se encontra em uma disputa acirradíssima em que os outros quatro concorrentes vivem personagens reais.

Keaton, no entanto, a exemplo de Simmons e Moore, tem a melhor performance entre os pleiteantes, com a escusa da subjetividade inerente à análise.  Só ele e Bradley Cooper, em “Sniper americano”, investigam seus personagens de dentro para fora. Os conflitos e dilemas tangenciados pelas respectivas atuações são totalmente emocionais e não há amparo da fisicalidade, como nos casos de Eddie Redmayne (“A teoria de tudo”) e Steve Carell (“Foxcatcher”), também ótimos.

Keaton demonstra inteligência incomum, e segurança extraordinária, ao brincar com a própria persona em um jogo de metalinguagens arriscado para qualquer intérprete.

Leia também: Michael Keaton exorciza Michael Keaton com “Birdman”

O Oscar fica entre ele e Redmayne, espetacular como Stephen Hawking em “A teoria de tudo” e beneficiário de defender uma interpretação ajustada aos perfis mais destacados pelo Oscar historicamente. Personagem real, gênio e/ou com deficiência física. Isolados ou combinados, esses fatores costumam render prêmio. A categoria de atriz também admite o mesmo raciocínio em 2015.

Michael Keaton: uma das últimas dúvidas do Oscar, pode ter o seu prêmio da carreira "furtado" por uma atuação com "cara de Oscar" (Foto: divulgação)

Michael Keaton: uma das últimas dúvidas do Oscar. Ele pode ter o seu prêmio da carreira “furtado” por uma atuação com “cara de Oscar”
(Foto: divulgação)

Escolhas ousadas?

A disputa pelo Oscar de filme estrangeiro parece concentrada entre o polonês “Ida” e o russo “Leviatã”. Além da questão geopolítica que une os dois candidatos, há a oposição de um tema caro à academia, o holocausto, com um tema quente, os desmandos políticos na Rússia. Mas esta categoria é uma das mais surpreendentes na história recente do Oscar. Portanto, as chances de vitória do argentino “Relatos selvagens” ou do estoniano “Tangerines” não podem ser desprezadas.

Parece improvável que o prêmio de fotografia não fique com o mexicano Emmanuel Lubezki por “Birdman”. Ele já venceu no ano passado por “Gravidade”. Seria o triunfo da ousadia de apresentar um plano-sequência falso na obra de Iñarritu.

“O Grande Hotel Budapeste” deve prevalecer nas categorias de figurino e direção de arte, podendo pincelar os prêmios de trilha sonora e mesmo fotografia.

O prêmio de montagem, se o mundo for justo, fica com “Boyhood”. Mas o mundo não é justo e a ousadia do Oscar costuma ficar restrita às indicações. Um reflexo da divisão cada vez mais flagrante entre as alas conservadora e moderna da academia. Fica a torcida para 2015 ser o ano que marque o início da virada.

Mais: Academia de Hollywood vive  guerra fria entre alas conservadora e modernizante 

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015 Análises | 18:17

O Oscar 2015 nas entrelinhas

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Que o cinema independente é cota majoritária na edição deste ano do Oscar é plenamente sabido. Mais arrazoado ainda, é o fato de que isto não é exatamente uma novidade, mas sim uma tendência. Essa inclinação do Oscar à introspecção rendeu detalhes curiosos na atual edição do maior prêmio da indústria cinematográfica.

iG On: “Birdman” e “O grande hotel Budapeste” lideram indicações ao Oscar 2015

Leia também: Briga pelo Oscar toma forma e restam poucas dúvidas

Há a predominância de histórias reais entre os concorrentes. Dos indicados a melhor filme, quatro não são baseados em fatos reais. Três destes, “Whiplash – em busca da perfeição”, “Birdman” e “Boyhood”, se bifurcam com a realidade em pontos interessantes. O primeiro é baseado nas experiências do diretor e roteirista Damien Chazelle com seu professor de música na adolescência. O segundo é um exercício de metalinguagem dos mais sofisticados sobre a carreira do ator Michael Keaton e do status quo hollywoodiano, enquanto que o terceiro é cinema de vanguarda em que as opções estéticas do cineasta Richard Linklater oferecem a evolução física dos atores como tempero de uma história sobre a passagem do tempo.

O ano de 2014 não foi um grande ano para o cinema americano. Mas as duas produções que chegam com mais chances de faturar o Oscar de melhor filme são inovadoras e essencialmente originais. Tanto “Birdman” como “Boyhood” não apresentam tramas efetivamente novas, mas impressionam pelas opções estéticas e pelo desprendimento com que desvelam suas narrativas. Prova disso é que praticamente ninguém aventa a possibilidade de triunfo de um dos dois candidatos ingleses na corrida (“A teoria de tudo” e “O jogo da imitação”), que fazem o tipo “padronizado para o Oscar”. Uma particularidade digna de celebração da edição de 2015.

Birdman

Cena de “Birdman”: o triunfo da originalidade
(Foto: divulgação)

O destaque a Alejandro González Iñarritu, Bennett Miller, Richard Linklater e Wes Anderson, quatro dos cinco indicados ao prêmio de direção, representa um reconhecimento a uma geração autoral. Se Miller e Iñarritu, com poucos filmes no currículo, sempre rondaram o Oscar, Anderson e Linklater são esnobados históricos que chegaram com força na safra de 2015. Algo semelhante ocorre em outras categorias do Oscar. Julianne Moore, notavelmente, é um dos maiores expoentes não só de sua geração, como do cinema contemporâneo e ainda não tem um Oscar. É a maior baba da noite. Dificilmente o Oscar não será dela em 22 de fevereiro pelo papel de uma vítima de Alzheimer em “Para sempre Alice”. Trata-se de uma daquelas situações que a academia adora. Premiar alguém pelo conjunto da obra com um Oscar competitivo. Uma distorção que, embora compreensível, acarreta muitas críticas. Michael Keaton, outrora favorito na categoria de melhor ator, pode ser enquadrado na mesma categoria. Mas seu caso é um tanto diferente. Afinal, Keaton não detém o prestígio de Moore e o favoritismo hoje é do rival Eddie Redmayne por “A teoria de tudo”.

Leia também: Em lista amalucada, academia colhe esnobados históricos e surpreende 

Mas a grande incógnita neste momento é o tamanho com que “Sniper americano” sairá da noite do Oscar. Com uma bilheteria vultosa, de mais de U$ 300 milhões nos EUA, o filme provocou uma polarização que há muito não se via em torno de uma produção concorrente ao Oscar. A fita que aborda a vida do marine Chris Kyle, considerado o atirador de elite mais letal do exército americano, se viu no epicentro de um furioso debate sobre suas pretensões e responsabilidades ao levar às telas a vida de um homem como Kyle.

Leia também: O que o conflito entre apoiadores de “Selma” e “Sniper americano” diz sobre a Hollywood de hoje? 

Além de ser o maior sucesso entre os indicados do ano, e o maior sucesso de bilheteria desde 2011, quando concorreram ao Oscar de melhor filme os blockbusters “Toy story 3” e “A origem”, “Sniper americano” pode significar para o Oscar a efervescência cultural que muitos alegam estar perdida.  É tentador. Além do mais, a vitória de um filme popular, no sentido de ser sucesso de público, não faria mal à popularidade da academia.

Cena de "Sniper americano": A América em debate (Foto: divulgação)

Cena de “Sniper americano”: A América em debate
(Foto: divulgação)

“Birdman”, no qual a indústria tem a oportunidade de se reconhecer, é um filme mais atraente. “Boyhood”, mais encantador. De todo jeito, a consagração de “Sniper americano”, improvável, seria um contrassenso a esse movimento de abraçar o cinema independente. Ainda que o filme de Clint Eastwood siga a linha da introspecção tão valorizada nos candidatos do ano. “Boyhood” é o independente hardcore, feito com pouco dinheiro e muita garra ao longo de  12 anos. “Birdman” é o filme que melhor captura esse momento que vive a academia. O resultado de domingo, por mais arbitrário e circunstancial que possa parecer, pode ser o mais influente em anos.

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sábado, 31 de janeiro de 2015 Análises, Filmes | 20:00

Briga pelo Oscar toma forma e restam poucas dúvidas

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À medida que a corrida pelo Oscar vai afunilando, as dúvidas vão se dirimindo nas principais categorias. Se nas disputas de atuação elas já eram poucas, no momento se restringem à indagação de quem leva o Oscar de melhor ator: Michael Keaton, por “Birdman”, ou Eddie Redmayne, por “A teoria de tudo”? O primeiro, coleciona mais prêmios na temporada, e conta com o forte hype de ser “o retorno do ano”, algo que sempre pesa junto à Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Keaton vive um ator em busca de redenção e isso pode apelar ao voto sentimental de muitos acadêmicos. Por outro lado, Redmayne faz bem algo que é de grande estima dos votantes: interpreta um personagem real, polêmico e brilhante, com problemas físicos e de saúde. A receita do Oscar, brada o lugar comum. Pelo desempenho como Stephen Hawking, Redmayne ganhou, além do Globo de Ouro de melhor ator dramático, o SAG, maior termômetro para as categorias de atuação no Oscar. Keaton, que venceu o Globo de Ouro de ator cômico, também ganhou o Critic´s Choice de melhor ator. Ambos concorrem ao Bafta, em que Redmayne tem ligeira vantagem por ser britânico e interpretar um britânico. Os ingleses tendem a ser mais “bairristas” do que os americanos no que tange prêmios de cinema.

Michael Keaton em cena de "Birdman": momento mágico e de redenção que costuma vingar no Oscar

Michael Keaton em cena de “Birdman”: momento mágico e de redenção que costuma vingar no Oscar

Eddie Redmayne, a despeito da qualidade de sua atuação, defende uma performance que que costuma resultar em prêmios

Eddie Redmayne, a despeito da qualidade de sua atuação, defende uma performance que costuma resultar em prêmios

A balança pode, porém, se desequilibrar em favor de Keaton pela escalada rumo ao favoritismo absoluto usufruído por “Birdman” na categoria principal nas últimas semanas. O filme amealhou vitórias importantes no sindicato dos produtores e no sindicato dos atores. Somadas, as vitórias embalam uma candidatura que pode se beneficiar de falar da própria indústria do cinema em detrimento do “muito geek” “O grande hotel Budapeste”, do “vanguardista, mas banal” “Boyhood – da infância à juventude” e do “acadêmico” “O jogo da imitação”. Esses rótulos carregados de má vontade falham em alcançar “Birdman”, tragicomédia filmada com considerável inteligência , imaginação e senso de estética.

Leia também: Michael Keaton exorciza Michael Keaton com “Birdman”

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Levantamento feito pelo site Rotten Tomatoes mostra que “Boyhood” ainda ocupa a dianteira na temporada de prêmios. Foram 43 contra 39 outorgados a “Birdman”. O filme de Alejandro González Iñarritu se distingue, no entanto, por ter triunfado em premiações mais significativas e ressonantes.

Há, porém, um elemento que pesa contra toda essa força de “Birdman”. O filme inexplicavelmente se viu fora da disputa pelo Oscar de melhor montagem. No últimos anos, a categoria tem tido mais importância na construção de um vencedor do Oscar de melhor filme do que, por exemplo, a categoria de direção. Em 2013, “Argo” levou os troféus de roteiro adaptado e montagem, além do prêmio principal de melhor filme. Ben Affleck não foi sequer indicado como diretor. Mais: o último filme a vencer o Oscar de melhor filme sem ter indicação para montagem foi  “Gente como a gente”, de Robert Redford, em 1981. Desde que a categoria foi estabelecida, em 1934, apenas nove filmes venceram o Oscar principal sem terem sido nomeados à melhor edição.

"Birdman" é o favorito, mas   retrospecto histórico alerta que a disputa ainda não está definida

“Birdman” é o favorito, mas retrospecto histórico alerta que a disputa ainda não está definida

Mesmo com esse curioso contraponto histórico, “Birdman” tem pompa e pose de candidato campeão. A esta altura do campeonato é o candidato a ser batido. O marketing de “O jogo da imitação” que havia hesitado em levantar a bandeira gay já começa a sublinhar o fato, na expectativa de conseguir fazer o que “O segredo de Brokeback Mountain” não conseguiu.  Mas o biografia de Alan Turing não é um filme sobre um romance homossexual, como o era o filme dirigido por Ang Lee, e, nesse sentido, se aproxima mais de “Capote”, outro recorte biográfico sobre uma personalidade homossexual.  A mudança na campanha do filme é um atestado de que o padrão britânico, suficiente para fixar favoritos em outros anos, não valeu ao filme rivalidade com “Birdman”.

Sutilezas superam academicismo em “O jogo da imitação”

Entre os diretores, a briga parece se concentrar entre Richard Linklater e Alejandro González Inãrritu. Com vantagem para o primeiro. A tendência é que um ganhe em roteiro original e outro em direção. Julianne Moore (“Para sempre Alice”) é certeza mais que absoluta entre as atrizes, assim como apenas um desastre tira o Oscar de J.K Simmons pelo papel do professor tirano de “Whiplash”. Patricia Arquette pode ser o prêmio afetuoso a “Boyhood”, um filme que a temporada sugere ser mais querido pela crítica do que pela indústria.

Nos últimos anos, a academia tem optado pela pulverização de seus prêmios. O último filme a faturar uma penca de Oscars foi “Quem quer ser um milionário?” em 2009. Foram oito troféus. De lá para cá, o número de Oscars do filme vencedor foi diminuindo. “Guerra ao terror” ganhou seis em 2010; “O discurso do rei” faturou quatro em 2011; “O artista” ganhou cinco em 2012; “Argo” ganhou três em 2013; e “12 anos de escravidão” ficou com três em 2014, apesar de “Gravidade” ter ficado com sete Oscars na edição, o grande vencedor é costumeiramente o filme que leva o prêmio principal.

"Boyhood": A importância do filme de Linklater é inegável, mas a Academia não costuma perceber movimentos vanguardistas quando se depara com eles (Fotos: divulgação)

“Boyhood”: A importância do filme de Linklater é inegável, mas a Academia não costuma perceber movimentos vanguardistas quando se depara com eles
(Fotos: divulgação)

Como não houve um filme que apresente o avanço e esmero técnico observado em “Gravidade”, a tendência é de que haja a pulverização dos prêmios. Portanto, mesmo derrotados na disputa principal têm chances de sair esbanjando Oscars por aí.

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