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quinta-feira, 25 de setembro de 2014 Análises | 18:57

O cinema descortina o mundo “pós-gay”?

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O Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro anunciou que está extinguindo em sua 16ª edição, já em vigor, a mostra “Mundo gay”, dedicada a repercutir e iluminar filmes com temática homossexual. Concomitantemente a esta decisão, a organização do festival criou o prêmio Felix, que será outorgado ao melhor filme gay da programação. A justificativa para a combinação das novidades apresentada pelo festival é de que os filmes da mostra ficaram diversificados demais para serem reunidos sob um único recorte, o de filme gay.

Em abril, época do lançamento do filme “Praia do futuro”, Wagner Moura disse que o fato de ser gay não era uma questão central para as ações de seu personagem. O diretor Karim Aïnouz pensava diferente. Disse que somente o fato de ser gay legitimava a atitude do personagem de largar tudo para trás e ir se reinventar em Berlim, uma cidade mais evoluída e, por consequência, mais receptiva à homossexualidade.

Cena de "Praia do futuro": a homossexualidade ainda é um conflito no cinema, mas no mesmo compasso da orfandade,  , maternidade, divórcio, entre outros

Cena de “Praia do futuro”: a homossexualidade ainda é um conflito no cinema, mas no mesmo compasso da orfandade, maternidade, divórcio, entre outros

Em contrapartida, o Brasil escolheu “Hoje eu quero voltar sozinho” para representar o País na disputa por uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. O filme de Daniel Ribeiro pode ser tomado como o símbolo desse cinema “pós-gay” em que a orientação sexual é abordada de maneira dessegmentada. Algo parecido acontece com um dos fenômenos nos cinemas americanos atualmente. “O amor é estranho”, que tem roteiro do brasileiro Mauricio Zacharias, mostra um casal formado por John Lithgow e Alfred Molina lidando com o ônus do preconceito e como ele pode interferir em uma relação conjugal bem estabelecida.  O filme, lançado de maneira independente, apresenta carreira triunfal nos cinemas americanos onde está em cartaz há mais de um mês com uma das melhores médias de público por sala do país.

Não custa lembrar que em 2006, o favorito ao Oscar “O segredo de Brokeback Mountain”, que tratava de um amor homossexual, foi preterido por “Crash- no limite”, filme sobre as tensões raciais em Los Angeles.

Em 2008, Barack Obama colocou-se como um candidato pós-racial.  Se a ideia ajudou a elegê-lo presidente, tornando-o primeiro negro a comandar a nação mais poderosa do mundo e uma das que ostenta mais grave histórico de polarização racial, o conceito parece não ter sobrevivido à gestão obamista na Casa Branca; como demonstram o recente caso do assassinato do jovem negro no Missouri e as manifestações que se seguiram.

"Hoje eu quero voltar sozinho": símbolo do cinema "pós-gay"

“Hoje eu quero voltar sozinho”: símbolo do cinema “pós-gay”

"O amor é estranho": um reposicionamento na abordagem do preconceito em filmes com personagens gays

“O amor é estranho”: um reposicionamento na abordagem do preconceito em filmes com personagens gays

Obviamente as tensões raciais, homofóbicas ou de qualquer outra natureza preconceituosa não cessarão pela elevação de um Messias negro na Casa Branca ou com um punhado de filmes bem azeitados e articulados. Esta é uma questão de arremedo geracional e a arte, como habitual, exerce importante papel nessa fruição social e comportamental.

Dessa maneira, esta tendência que o cinema enseja como uma espécie de emancipação do cinema gay é uma boa notícia. Não é exatamente uma renúncia às bandeiras ou ao substrato temático, mas um aceno a uma era em que o cinema não precisará ser um instrumento de afirmação e educação na matéria.

Fotos: divulgação

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sábado, 5 de julho de 2014 Análises, Diretores | 07:00

Os novos rumos do cinema de Alejandro González Iñárritu

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O diretor Alejandro González Iñárritu

O diretor Alejandro González Iñárritu (Fotos: divulgação)

Ele surgiu arrebatador com “Amores brutos”, filme mexicano indicado ao Oscar de produção estrangeira em 2001 e que, entre outros predicados, tinha a então revelação Gael Garcia Bernal como protagonista.

A produção marcava a inauguração da parceria com o roteirista Guillermo Arriaga, colaboração esta que renderia, ainda, o ótimo “21 gramas” (2003) e o irregular “Babel” (2006) antes de se desintegrar em meio a vaidades e intolerâncias de ambas as partes. Arriaga reclamava para si os méritos dos filmes enquanto Iñarritu fazia o mesmo. Seguiram por caminhos opostos.

Iñarritu aliou-se ao internacional Javier Bardem e fez “Biutiful”, poderoso drama sobre um homem marcado para morrer por um câncer feroz e que ainda sofre com uma mediunidade indesejada. O filme foi à Cannes e ao Oscar e mostrou que se Arriaga era parte fundamental do processo criativo de Iñarritu não era todo o processo criativo. O roteiro de “Biutiful”, ainda que mais tradicional, apresenta uma estrutura rica dramática e narrativamente; e é de autoria do próprio cineasta.

Quatro anos depois do lançamento de “Biutiful”, Iñarritu se prepara para lançar ‘Birdman”, um filme aparentemente inusitado em sua obra. Trata-se da história de um ator que viveu um super-herói no cinema e depois nunca mais conseguiu outro sucesso na carreira. Ele agora tentar uma reinvenção na Broadway. Metalinguagens à parte, esse ator é vivido por Mikael Keaton; que, para quem não sabe, viveu o Batman nos dois primeiros filmes dirigidos por Tim Burton. Mais estranheza? O filme é uma comédia que flerta sem medo com o drama e o nonsense. Há não muito tempo atrás, o cineasta Darren Aronofsky também ensaiou uma reinvenção com um ator amaldiçoado. O ator era Mickey Rourke e o filme, “O lutador”, que ganhou o leão de Ouro no festival de Veneza em 2008 e mostrava a dura jornada cotidiana de um ex-campeão de luta livre para pagar as contas enquanto revive, em tom farsesco, as glórias do passado.

 

“Birdman”, programado para estrear em outubro nos EUA, é apontado como uma das potenciais surpresas da temporada de premiações do cinema americano. De qualquer maneira, o burburinho positivo em torno do filme já desperta mais interesses sobre o trabalho seguinte de Iñarritu. “The Revenant” será seu primeiro filme de estúdio nos EUA. “Babel” foi bancado por um braço independente da Paramount, já desativado.

O filme terá Leonardo DiCaprio como protagonista. DiCaprio ultimamente tem se notabilizado por só trabalhar com diretores prestigiados e com uma identidade artística singular. Entre os últimos cineastas com quem estabeleceu parceria figuram Christopher NolanClint EastwoodQuentin Tarantino e Baz Luhrmann. Além, é claro, de Martin Scorsese (com quem já rodou cinco filmes, entre eles o recente “O lobo de Wall Street”). No novo filme, que deve começar a ser rodado no último trimestre no Canadá,  DiCaprio fará um guarda de fronteira abandonado por seus amigos depois de ser atacado por um urso. Ele sobrevive e parte em busca de vingança. A ação se passa no século XIX. É outro projeto radicalmente distinto da filmografia que tornou Iñarritu famoso no círculo da cinefilia.

É difícil apontar para onde o cinema de Inãrritu vai depois de “Birdman” e “The Revenant”, mas é seguro dizer que é um caminho corajoso o que ele segue e muito mais calculado do que um primeiro olhar pode fazer crer.

Confira o trailer de “O lutador”

 Confira o primeiro trailer de “Birdman”

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