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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 14:11

“Steve Jobs” não paga o risco da dobradinha Boyle e Sorkin no cinema

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Cena do filme "Steve Jobs":  Filme é bom, mas se vende como algo muito melhor

Cena do filme “Steve Jobs”: Filme é bom, mas se vende como algo muito melhor

A junção de Danny Boyle e Aaron Sorkin inspirava desconfiança para com “Steve Jobs”, a biografia de pedigree que a Sony queria produzir sobre o visionário co-fundador da Apple e que acabou sob o jugo da Universal.  O risco era que o hipertireoidismo visual do diretor de “Quem Quer Ser um Milionário?” (2008), combinado com o histrionismo textual de Sorkin prejudicasse a estrutura dramática do filme.

Do jeito que veio ao mundo, “Steve Jobs” é um bom filme. Impregnado pela científica disposição de problematizar Steve Jobs. De iluminar o homem que colhia inimizades e detratores no mesmo compasso em que influenciava o mundo e acumulava bilhões de dólares.

Nesse contexto, “Steve Jobs” se apresenta com certa obviedade para quem já está minimamente familiarizado com a figura de Jobs. Até o mediano filme “Jobs” (2013), de Joshua Michael Stern é mais didático e elucidativo de quem foi Jobs e dos ideais que o nortearam.

Com o documentário “Steve Jobs: the Man in The Machine” (2015), de Alex Gibney, o filme de Boyle guarda poucas semelhanças. No documentário a investigação de quem, de fato, é Jobs é muito mais perene, profunda e ressonante. Em “Steve Jobs” tudo parece uma questão de estilo. O filme parece demasiadamente preocupado com a maneira com que vai se vender para o público – emprestando uma característica de Jobs muito bem sublinhada ao longo do filme.

Michael Fassbender, por seu turno, empresta todo o seu carisma a um homem que parece refém de seu gênio. É esse o recorte que Fassbender dá a ele. É, sim, uma leitura condescendente do personagem. Afinal de contas, rótulos como “um homem a frente de seu tempo” e “gênio incompreendido” costumam ser atribuídos a Jobs. De qualquer modo, Fassbender o encarna com uma energia bruta e brutal. É impossível desviar de seu magnetismo.

O restante do elenco, com nomes como Jeff Daniels, Kate Winslet e Seth Rogen, também está muito bem alinhado. Coeso e uniforme. Mas é a parte técnica de “Steve Jobs” que salta aos olhos. Boyle aposta na forma e confia ao texto de Sorkin, que brinda o espectador com ótimos diálogos e um punhado nada desprezível de grandes cenas, a força dramática de seu filme.

Trata-se de uma escolha que limita o impacto de “Steve Jobs” enquanto cinema. Tem-se um produto muito bem embalado, com forte apelo pop, mas de pouca relevância narrativa ou dramática. Não é o pior dos mundos, mas passa longe de se configurar como um dos melhores.

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 18:46

“Boi Neon” flagra Nordeste moderno e aborda empoderamento feminino e limites de gênero

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Gabriel Mascaro é dos realizadores mais interessantes a emergir no cinema contemporâneo. Prova disso, é a aclamação que seu terceiro longa-metragem, “Boi Neon”, amealhou festivais mundo afora. Com destaque para os prêmios em Veneza, Toronto e Rio de Janeiro.

“Boi Neon” é um filme de inescapável força dramática, ainda que não se escore nos recursos mais tradicionais da dramaturgia para tanto. Mascaro problematiza o corpo e o gênero com a sutileza de um artesão.

Iremar (Juliano Cazarré) é um vaqueiro de curral que viaja pelo Nordeste junto com uma pequena trupe. Ele prepara os bois para as tradicionais vaquejadas (em que sobre cavalos, os vaqueiros precisam alinhar e conduzir os bois para os locais demarcados). Iremar, no entanto, gosta mesmo é de desenhar roupas. Ele sonha em ser estilista de moda. No Nordeste contemplado por Mascaro, Iremar pode até ser excêntrico, mas não é uma ave rara. Galega (Maeve Jinkings), que pertence à mesma trupe, é uma mulher “bronca” na definição de Iremar. Caminhoneira rude no tratamento com as pessoas, ela cede à arte do strip-tease à noite e a roupa que tira é desenhada por Iremar. Há, ainda, Júnior (Vinicius de Oliveira), um rapaz que substitui (Carlos Pessoa) no grupo. A vaidade de Júnior o coloca em frontal deslocamento com a aparência dos homens que vemos por ali.

Foto: divulgação

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Esses recortes expõe a verdade que Mascaro quer relativizar com seu filme. Os limites de gênero, impostos lá atrás, estão se dilatando não apenas nas grandes metrópoles. Mas o filme, que mostra este Nordeste redentor, de gente que aspira mais, mas está muito bem com sua rotina, tem mais a revelar com seu minimalismo narrativo e seu desprendimento visual.

O corpo é uma das matérias-primas de “Boi Neon”. Tanto os corpos humanos como os dos animais. Iremar, por exemplo, abriga uma feminilidade no gestual e na relação com Cacá (Alyne Santana), filha de Galega, que não expulsa de seu corpo a masculinidade característica de um homem com seu ofício. Essa contradição do corpo é uma das maiores belezas, na provocação perene que estabelece, de “Boi Neon”.

A imagem é soberana em “Boi Neon”, mas muito das inflexões do filme não estão nelas, mas partem do que elas propõem. Um exemplo disso é o empoderamento feminino. O sexo em “Boi Neon”, tratado com a parcimônia dos amantes experimentados, parece adornado para dimensionar como os clichês do comportamento social já soam deslocados em um Nordeste muito mais moderno do que o pregado a torto e a direito.

Há uma cena de sexo, envolvendo uma mulher grávida, em que o clamor do desejo é correspondido com ternura e delicadeza, mas também muito tesão. É uma cena de sexo quase explícita, em termos gráficos, mas extremamente reveladora de um mundo em transformação. Não à toa, é uma das cenas mais longas do filme.

“Boi Neon” é um cinema de propostas sólidas, de uma reflexão manente e de narrativa delicada. É um filme que precipita seu contexto com inventividade e inquietação. Para quem gosta de cinema, não dá para pedir mais do que isso.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016 Análises, Críticas | 14:20

Globo de Ouro renuncia condição de prévia do Oscar e tenta formalizar influência em 2016

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Iñárritu e DiCaprio: noite de consagração inesperada de "O Regresso"

Iñárritu e DiCaprio: noite de consagração inesperada de “O Regresso”

Pode ser apenas uma impressão, mas a sensação é de que a Hollywood Foreign Press Association (HFPA), que outorga os prêmios Globo de Ouro, desencanou de vez da alcunha de ser a mais eloquente prévia do Oscar. Tudo bem que a temporada está impregnada de um bem-vindo mistério em termos de favoritos, mas as escolhas do Globo de Ouro se não são anticlimáticas, pouco contribuem para a consolidação de um ou outro frontrunner na disputa.

Dessas maquinações do destino, “O Regresso”, filme que Alejandro González Iñárritu disse que deveria ser assistido em um templo, viu sua candidatura ao Oscar ganhar um boom. O filme teve desempenho tão surpreendente no Globo de Ouro quanto no box office americano em que em seu primeiro fim de semana com circuito expandido mediu forças com “Star Wars” e faturou impressionantes U$ 38 milhões. Nada mal para um filme praticamente silencioso e um pouquinho hermético. Com três prêmios (filme em drama, ator dramático e direção), “O Regresso” será a maior prova de influência do Globo de Ouro na temporada do Oscar em anos.

Em um ano sem grandes comédias, a HFPA resolveu premiar uma ficção científica que faz bom uso do humor para incrementar sua narrativa. “A Grande Aposta” é muito mais filme, mas a escolha de “Perdido em Marte” não deixa de ser correta –  ainda que seja bem estranha sua inclusão nesta categoria.

Nas categorias de atuação, os aplausos de pé a Leonardo DiCaprio mostraram que sua jornada em busca de um Oscar angaria mais simpatizantes e, nesse sentido, a HFPA – que já lhe deu três prêmios – merece os sinceros agradecimentos de Leo. Brie Larson (“O Quarto de Jack”) é o nome que sai mais forte do Globo de Ouro porque já dividia as atenções com Saiorse Ronan (“Brooklyn”) e seu triunfo é o único que parece dizer algo na temporada.

Que Stallone estará na lista do Oscar que será divulgada na próxima quinta-feira já parece certo, sua vitória, no entanto é outra história. A categoria de ator coadjuvante é a mais embaralhada e historicamente a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem resistência em premiar atores sem pedigree dramático. O hype em cima de Stallone, no entanto, tende a aumentar exponencialmente.

Kate Winslet (“Steve Jobs”) deve ficar por aqui mesmo. A categoria de atriz coadjuvante, com os acréscimos de Rooney Mara (“Carol”) e Alicia Vikander (“A Garota Dinamarquesa”) deve ganhar outra forma no Oscar.

O apreço da HFPA por “seus bispos de sempre” também se manifestou nas vitórias de Aaron Sorkin em roteiro – nem remotamente próximo do nível dos textos de “Spotlight” e “A Grande Aposta” – e Jennifer Lawrence em “Joy”.

Após o Globo de Ouro 2016, a única certeza que se tem é de que a corrida pelo Oscar está mais aberta do que nunca.

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 14:38

“O Despertar da Força” incorpora padrão Disney a “Star Wars”

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Foto: divulgação

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Sob muitos aspectos “Star Wars: O Despertar da Força” (EUA 2015) é o filme que os fãs da saga criada por George Lucas merecem. É um entretenimento vistoso em sua capacidade de abraçar a nostalgia com beats de outros filmes da série, em especial de “Star Wars: Uma Nova Esperança” (1977), e de reorganizar os arranjos para a expansão da franquia, agora sob o jugo da Disney.

J.J Abrams é um diretor hábil em repaginar sucessos. Não à toa, revitalizou outra franquia sci-fi (“Star Trek”) e era bastante óbvio para quem quer que acompanhe sua carreira que seria exitoso em sua incursão pelo universo de “Star Wars”.

O grande mérito de “O Despertar da Força”, no entanto, está nos novos personagens. Tudo bem que Rey (Daisy Ridley) nada mais é do que a reengenharia de Luke Skywalker (Mark Hamill), mas a personagem tem fôlego e o fato de uma mulher ser a protagonista da nova trilogia estabelece um novo e bem-vindo paradigma para a série e para a ficção científica como um todo.  Passa por aí, também, as figuras de Finn (John Boyega) e Poe Dameron (Oscar Isaac), este último uma reimaginação de Han Solo (Harrison Ford), personagem da trilogia original com mais espaço no novo filme.

Finn é o mais oxigenado dos novos personagens, ainda que seja o vilão Kylo Ren – defendido com a habitual competência por Adam Driver – o mais cativante. O conflito do personagem entre a luz e a escuridão e seu confesso desejo pelo segundo invertem a expectativa natural em relação ao tema. Além do mais, ele precisa lidar com a sombra de Darth  Vader. Intra e extra-diegeticamente.

As relações entre os personagens obedecem toda a estruturação clássica da série, algo que pode ser creditado ao fato de Lawrence Kasdan, que assinou “O Império Contra-ataca” (1980) e “O Retorno de Jedi” (1983), ser o responsável pelo roteiro. Todo o DNA de “Star Wars” está lá. O filme funciona muitíssimo bem para quem é fã e funciona ainda melhor para quem toma contato com este universo pela primeira vez.

Neste primeiro momento, é factível dizer que “Star Wars” se beneficia desse padrão Disney, mas essa leitura tende a se diversificar com a chegada dos novos filmes e, também, com o olhar histórico sobre este filme.

O hype é imenso e com um bom filme nos cinemas é difícil opor-se de alguma forma a “O Despertar da Força”. Mas não estamos diante de um grande filme. Para além da boa vontade generalizada, há escolhas discutíveis – nas frentes narrativa e estética – e pequenas falhas concentradas no roteiro principalmente que não escapam a olhos mais atentos.

De qualquer forma, é um recomeço e tanto para uma franquia que ajudou a definir o conceito de cinema enquanto indústria. Em pleno vapor, a reengenharia de “Star Wars” foca no seguro e mesmo aquelas que parecem escolhas ousadas – e o filme tem sua porção delas – são movimentos bem calculados em uma margem para lá de segura. A Disney sabe o que está fazendo. Antes de ser um filme, “O Despertar da Força” é um grande produto.

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:32

“Beasts of No Nation” flagra horror em sua forma mais pura

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A opção por não batizar o país africano em que se passa “Beasts of No Nation” (EUA 2015) pode parecer fruto de uma hesitação por parte da realização, mas é, na verdade, um dos muitos acertos desse filme de alto impacto, potência e beleza.

Cary Fukunaga, que além da direção brilhante, assina o roteiro deste que é o primeiro filme distribuído pelo Netflix, observa com olhar desapaixonado a virulência com que se prolifera a violência nos recônditos africanos em constante guerra civil.

A trajetória do menino Agu (o soberbo Abraham Attah), vítima de mais uma entre as incontáveis tragédias familiares que acontecem diariamente em países imersos em conflitos militares e aliciado por um grupo paramilitar, é narrada de maneira crua, concreta e apavorante. Fukunaga, porém, recorre à abstração de Agu para pintar com mais propriedade esse aterrador quadro em que “a única maneira de parar de lutar é morrer”, como teoriza o jovem de alma velha que tanto nos impressiona em “Beasts of No Nation”.

A figura do comandante, que se fia como pai e predador dos muitos órfãos que alicia pelos vastos campos africanos em que combate, é tangenciada por Idris Elba com o horror, afetação e carisma que o registro de Fukunaga demanda.

É, portanto, nas entrelinhas desse conto tão macabro quanto honesto, que o verdadeiro horror se revela. Ninguém se importa com o que acontece nesses países inominados da África. Nessas republiquetas de aluguel que municiam rebeldes e fabricam pequenos demônios. O joguete político é apenas uma manifestação da exploração constante de uma inocência perdida para sempre.

“Beasts of No Nation” se politiza, portanto, ao não politizar. Ao não esfregar na cara a complacência do Ocidente e de seus fóruns estabelecidos (ONU, para citar o exemplo mais óbvio) para com o quadro pérfido que se testemunha em uma África mais selvagem do que aquela mostrada em documentários do Animal Planet, o filme escancara o abandono que a região e seus habitantes enfrentam. O comandante, também ele, é fruto de suas circunstâncias.

Trata-se de um grande filme. “Beasts of No Nation” não é, de maneira alguma, algo remotamente identificável como entretenimento. É um grito surdo na arte que se propõe problematizante de nossa contemporaneidade. E filmado com todo o rigor que um artista seguro de suas convicções pode oferecer. Do ponto de vista intelectual ao plástico, “Beasts of No Nation” é lindo de se ver. Ao realçar o horror com essa beleza oca, plasmada, ruidosa, Fukunaga faz mais do que um filme importante. Faz um testamento de que a arte alcança até mesmo onde recusamos posar nossos olhos.

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Críticas, Filmes | 14:14

Virtuosismo e amor à primeira vista garantem frenesi de protagonista de “Victoria”

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O cineasta alemão Sebastian Schipper, que já pôde ser visto como ator em bons filmes germânicos como “Triangulo amoroso” (2010) e “Corra Lola Corra” (1998), tentou três vezes e conseguiu fazer “Victoria”, premiado no último festival de Berlim, em um único plano sequência de 134 minutos.

Do criativo e frenético “Corra Lola Corra”, Schipper empresta o senso de urgência do registro. Mas para por aí. Se a originalidade irradiava do filme de Tom Tykwer, “Victoria” se sustenta basicamente em seu virtuosismo. E em Laia Costa, dona de uma presença poderosa.

A Victoria (Costa) do título é uma espanhola residente em Berlim a tempo suficiente para já ter um emprego, mas ainda se sentir descobrindo a cidade. Ao sair de uma balada em um belo dia, cruza com um grupo de jovens brincalhões e o interesse de um deles, Sonne (Frederik Lau) por ela parece recíproco. Talvez por isso seja possível acreditar na indulgência com que Victoria vai tratando aquele fim de madrugada. Mais do que a ingenuidade da moça ao perceber que aqueles sujeitos podem não ser tão bonzinhos assim, a faísca da paixão – que floresce em madrugadas nas grandes metrópoles – justifica a permanência de Victoria na companhia do grupo de rapazes depois deles terem tentado roubar um carro e furtado uma loja de conveniência.

A primeira hora de “Victoria” é isso. Um legítimo ‘boy meets girl’ do cinema que se pretende mais naturalista. Depois o filme mostra sua faceta mais ambiciosa. Sonne e seus comparsas vão assaltar um banco naquela manhã – um serviço para um criminoso imponente que providenciou para que a passagem de um dos rapazes pela prisão não tivesse maiores repercussões. De um jeito pouco convincente, mas novamente viável dentro da estrutura de interesse sexual e emocional entre duas pessoas, Victoria se vê arrastada para dentro desse assalto.

Schipper se fia todo em sua estética. É um sobe e desce de escadas, entra e sai de carros e mudança de ambientes constantes. “Victoria” é a excelência da câmera por definição. Não à toa, o nome do operador de câmera (Sturla Brandth) é o primeiro a surgir quando sobem os créditos. Virtuosismo à parte, há muito pouco a atrair em “Victoria” e isso é um problema. O roteiro foi apenas um ponto de partida para a situação dramática que Schipper queria construir cinematograficamente – a tensão pré- assalto, o assalto propriamente dito, a euforia e a tragédia que se seguem, etc. Os atores tiveram liberdade para improvisar nos diálogos em uma experiência narrativa muito produtiva para quem participa do processo. Para quem assiste, nem tanto. “Victoria” é demasiadamente longo para o que tem a apresentar além de seu elaborado, bem urdido e impactante plano sequência.

Infelizmente a sensação é de que a ideia de fazer estatística cinematografia norteou o projeto. Mesmo com sua estética pulsante e ambiciosa, “Victoria” deixa a desejar no mais fundamental elemento de um filme: a capacidade de seduzir a memória de quem o assiste.

 

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 10:29

“Macbeth: Ambição e Guerra” é adaptação protocolar de Shakespeare

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Adaptar Shakespeare, por mais trivial que pareça, em face das inúmeras adaptações que pipocam por aí, não é para todo mundo. O australiano Justin Kurzel, com apenas um longa-metragem no currículo, se julgou apto para o desafio. Não que “Macbeth: Ambição e Guerra” seja um filme ruim. Não é. É apenas protocolar no tratamento que dá a uma das mais complexas, apaixonantes e pulsantes peças do bardo inglês.

Levar Shakespeare ao cinema apenas pela transitoriedade do gesto, pelo hype em si, é uma bobagem. Sua versão de “Macbeth” tem bons predicados. O visual exuberante talvez seja o maior deles. Michael Fassbender como o general tentado por sua ganância que cai em desgraça é outra. Há, ainda, Marion Cotillard desfilando todo o seu talento como Lady MacBeth, mas a atriz é subaproveitada pelo roteiro que adensa o primeiro ato da peça e corre com o terceiro – justamente o mais impactante de todos.

A trajetória de Macbeth está toda lá, mas quem quer que já conheça a peça pode se encontrar flertando com o desinteresse. Kurzel não tinha um desafio qualquer. Afinal, “Macbeth” já havia sido abordado no cinema por figuras como Roman Polanski e Orson Welles. Ao optar por uma visceralidade consternada, reforçando a gravidade do texto, Kurzel finge estar levando Shakespeare a outro patamar. Mas é só fingimento. Afinal, a qualidade, o peso, o pessimismo, o fatalismo vem todo do original. Há algumas soluções visuais que ameaçam resgatar o filme dessa previsibilidade tão maçante quanto presunçosa, mas elas se circunscrevem como um interesse periférico. Jamais reclamam o domínio sob o filme.

Talvez o desafio fosse grande demais para um segundo filme. Talvez a sombra dos trabalhos de Polanski e Welles tenham levado Kurzel a adotar uma literalidade desnecessária. Shakespeare funciona melhor no cinema quando problematizado. Transcrição por transcrição, há expedientes melhores do que o cinema para tanto.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 14:02

Romance de estranhamento, “Garota Sombria Caminha pela Noite” é filme de vampiro que faltava

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Um conto moral ou uma abordagem iraniana do vampirismo no cinema? “Garota Sombria Caminha pela Noite”, coprodução entre EUA e Irã, falado em persa e rodado em um preto e branco hipnotizante, agrega um pouco das duas definições, mas vai muito além delas.

Estamos em Bad City, uma cidade de cafetões, traficantes, prostitutas e crianças que flertam com a delinquência. Além dos drogados e desesperançosos. É neste cenário inóspito que uma vampira solitária escolhe suas vítimas na noite escura que convida os tipos mais depravados.

Dirigido por Ana Lily Amirpour, inglesa de ascendência iraniana, o filme passou por festivais como Londres, São Francisco e Sundance e integrou algumas listas de melhores produções de 2014 de críticos e publicações de prestígio. O entusiasmo não é injustificado.

Cena do filme "Garota Sombria Caminha pela Noite"

Cena do filme “Garota Sombria Caminha pela Noite”

“Garota Sombria Caminha pela Noite” vale-se da estranheza e de um profundo sentimento de deslocamento –realçado pela estética apuradíssima que compreende desde a fotografia altamente estilizada até a trilha sonora mesmerizante – para falar de solidão e de como o amor pode surgir mesmo nas circunstâncias menos propícias.

Trata-se de um filme cujo sentido precisa ser construído em conjunto com sua audiência, mas Amirpour fornece todas as ferramentas possíveis para isso. Há, por exemplo, uma cena lindíssima em que nossos heróis se conectam ao som de uma canção chamada “Death”, da banda White Lies. A cena, de uma organicidade que foge a toda à franquia “Crepúsculo” para ficar em um exemplo pop, arregimenta todo o sentimento de deslocamento, inadequação e carência que une aqueles dois jovens.

O vampirismo no filme de Amirpour é menos uma condição parasitária e mais um movimento de resistência a ele. É, portanto, uma leitura poética de um mito tão largamente explorado e deturpado pelo cinema.  Pode-se dizer, sim, que se trata de uma abordagem iraniana do vampirismo, porque dificilmente se verá um recorte tão lúdico e inebriante do vampirismo no cinema contemporâneo. No entanto, não se trata de um filme efetivamente iraniano. Esse mistério se concatena com a aura do filme. Senhor de uma atmosfera tão encantadora quanto distante, “Garota Sombria Caminha pela Noite” é um dos filmes mais criativos, pulsantes e sensíveis a aportar em nossos cinemas em 2015.

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terça-feira, 15 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 13:15

“A Floresta que se Move” revigora peça mais complexa de Shakespeare

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Fazer uma adaptação brasileira de MacBeth, uma das peças shakespearianas mais adaptadas pelo cinema – grandes mestres como Orson Welles e Roman Polanski o fizeram – é, sob muitos aspectos, uma proposta para lá de ousada. Ambientá-la na atualidade é flertar perigosamente com o descarrilamento da ideia, mas o diretor Vinícius Coimbra (“A Hora e a Vez de Augusto Matraga”), com o préstimo da roteirista Manuela Dias, contorna essas problemáticas com um drama voraz e cheio de personalidades.

Cena de "A Floresta que se Move" (Foto: divulgação)

Cena de “A Floresta que se Move”
(Foto: divulgação)

“A Floresta que se move” (Brasil, 2015) é um filme que não esconde sua ascendência teatral e com essa opção reforça as tintas shakespearianas em uma elaboração dramática com cores contemporâneas. Gabriel Braga Nunes é Elias Amaro, que recebe de uma bordadeira tão logo desembarca da Alemanha, que hoje seria promovido à vice-presidente do banco e que logo seria presidente. A profecia, também ouvida pelo amigo César (Ângelo Antônio) detona a ambição de Elias, sentimento cultivado com afinco por sua esposa Clara (Ana Paula Arósio) e ele se vê desejoso de avançar contra a vida de seu chefe, quem é todo atenção para com ele, vivido por Nelson Xavier.

Confiando nos atores – e seu par de protagonistas não decepciona – Coimbra recorre ao realismo fantástico para expor a fissura emocional que acomete a casa e os personagens.

A narrativa evolui relacionando bem os paradigmas estabelecidos por Shakespeare e a realidade contemporânea, em que uma instituição financeira é o maior símbolo do poder capitalista.

Não se trata de um filme que tenta atualizar Shakespeare, um erro em que muitas obras cinematográficas incorrem, mas de uma tentativa de dialogar com a obra do bardo inglês por meio de um recorte inusitado e inventivo. É este o mérito fundamental do filme que apresenta muitos outros como a adequação ao texto clássico, a boa direção de arte e cenários e, especialmente, as atuações.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:01

Documentário “Osvaldão” ilumina figura mítica da guerrilha do Araguaia

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Foto: divulgação

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Falar de personagens amplamente conhecidos pela história pode não ser exatamente fácil, mas certamente é mais realizável. “Osvaldão”, documentário que visa iluminar vida e trajetória de Osvaldo Orlando da Costa, o comandante negro da guerrilha do Araguaia e mais um das muitas vítimas da ditadura brasileira, é, portanto, um filme que precisa ser saudado por sua coragem e desprendimento.

O filme, rodado de maneira independente recorreu ao financiamento coletivo na internet para que o lançamento fosse viabilizado em sete cidades brasileiras neste final de semana. Incluindo São Paulo e Rio de Janeiro.

Não há nada no filme assinado pelos diretores Ana Petta (“Repare Bem”), André Michiles (“Através”), Fabio Bardella (“Através”) e Vandré Fernandes (“Camponeses do Araguaia”), que integram o coletivo cinematográfico Gameleira, além do interesse de entender essa figura tão incomum. Osvaldão é, de fato, um personagem mais rico do que um preconceito sugere. Ao deflagrar o passado de Osvaldo, os diretores apresentam um contundente vaticínio contra as mazelas da ditadura, muitas delas ainda enterradas pela má vontade do Estado em assumir o inglório passado.

Não se trata de um filme com um discurso em evolução, no entanto. Há um ponto de vista muito claro ali, mas os realizadores são sábios em não deixar que essa perspectiva se imponha sobre o personagem investigado. Essa generosidade resguarda o filme de críticas oriundas de um posicionamento diverso daquele verificado nas entrelinhas da produção.

Pugilista talentoso, devoto familiar e benquisto pelos amigos, o Osvaldo que surge em “Osvaldão” é muito simpático. Talvez esteja aí o grande problema do filme. O personagem não é problematizado em momento algum. Não deixa de se residir aí, também, um preconceito por parte da realização. Difícil crer que com a variedade de documentos e depoimentos que o filme dispôs, nada tenha se encontrado para instaurar um conflito sequer na pessoa de Osvaldo.

De toda forma, o filme equilibra a reconstituição do cenário político que levou à guerrilha no Araguaia, com a memória de um homem afetuoso, querido e muitíssimo bem lapidado para a atividade política, com uma experiência internacional nada desprezível.

Goste-se ou não de “Osvaldão”, e há mais razões para gostar do que desgostar, é o tipo de cinema que dá gosto de ver no Brasil. Do tipo que milita tanto pela compreensão de um contexto, como por um cinema oxigenado e fora das convenções de mercado.

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